segunda-feira, 26 de agosto de 2019

PL►Y: Todas as Pequenas Coisas

Os Sheffild: dramas na mesa de jantar. 

Simples e sincero Todas as Pequenas Coisas é aquele tipo de filme que é irresistível para mim. O filme mistura drama e humor para contar sua história dentro de um recorte bastante específico na vida de seus protagonista adolescente. Howie (Brendan Meyer) tem uma vida comum, até que percebe existe um verdadeiro abismo crescendo no casamento de seus pais. Carla (a musa ruiva dos anos 1980, Molly Ringwald) e Tom (Brian D'Arcy James) parecem apenas morar dentro da mesma casa, o afeto nem consegue aparecer mais diante da rotina e das formalidades da vida a dois. Outra testemunha de que algo está acontecendo é o filho mais novo, Simon (Sam McCarthy) que tenta manter um distanciamento ainda maior do que está acontecendo (ou pelo menos, parece). Se a situação em casa anda estranha, Howie tem lá suas aventuras, passa o tempo pensando bobagem com os amigos da mesma idade e inventa desculpas para faltar às aulas de Educação Física  - e acaba despertando o interesse de uma colega (Harley Quinn Smith) que não sabe muito bem como chamar a atenção do rapazinho. No entanto, o que mais anima o dia de Howie é quando encontra uma mulher mais velha (Jemima Kirke da série Girls) no ônibus e passa a nutrir uma verdadeira paixão platônica por ela. A direção da estreante Melissa B. Miller Costanzo consegue ser bastante emocional e contida na costura dos fatos que sucedem sem pressa, um grande acerto já que a história gira em torno da afetividade um tanto desencontrada dos personagens. Melissa trata os personagens com bastante respeito, especialmente naqueles momentos em que um nó na garganta se instaura. A cena em que Carla e Tom se indagam quando o encontro de um com o outro no fim do dia perdeu a graça é de partir o coração, assim como o momento em que Howie se dá conta da barreira que existe entre ele e sua amada. Todos os atores estão bem em cena. Howie consegue ser bastante terno sem perder o aquele ar inseguro da adolescência e Molly Ringwald me fez pensar que ela deveria ter mais convites para atuar no cinema. A musa de John Hughes amadureceu o talento para equilibrar drama e comédia através do tempo e está bastante convincente como a matriarca da família. Fosse mais sarcástico, o filme seria uma versão de A Lula e A Baleia (2005) de Noah Baumbach, como não o é, resulta numa pérola agridoce que merece atenção por sua simplicidade e ternura no olhar com os personagens. 

Todas as Pequenas Coisas (All These Small Things/EUA-2018) de Melissa B. Miller Costanzo com Brendan Meyer, Molly Ringwald, Jemima Kirke, Brian D'Arcy James, Sam McCarthy e Harley Quinn Smith.  ☻☻☻☻

domingo, 25 de agosto de 2019

4EVER: Fernanda Young

1º de maio de 1970 ✰  25 de agosto de 2019

Fernanda de Maria Young de Carvalho Machado nasceu na cidade de Niterói (RJ). Ela chegou a cursar a faculdade de Letras, jornalismo e cursos de Rádio e Televisão, mas era inquieta demais para se formar em qualquer um deles. Se aventurou como atriz ao final dos anos 1980, mas seu gosto mesmo era pela escrita. Se tornou roteiristas em 1995 com a aclamada A Comédia da Vida Privada e lançou seu primeiro romance no ano seguinte (Vergonha dos Pés). Fora dos padrões, preferiu construir um estilo próprio e causou grande estranhamento na crítica especializada.  Fernanda ainda fez sucesso como apresentadora, seja nas polêmicas do programa Saia Justa (2002/2003), no divertido Irritando Fernanda Young (2006-2010) ou Confissões do Apocalipse (2012). Com 14 livros lançados, Fernanda era mais reconhecida por seu trabalho como roteirista em séries de sucesso como Os Normais (2001-2003) e o recente Shippados (2019). Para o cinema ela realizou quatro roteiros, o elogiado Bossa Nova (2000), dois filmes para Os Normais (2003 e 2009) e a comédia Muito Gelo e dois Dedos d'Água (2006). A atriz faleceu em decorrência de insuficiência respiratória por crise de asma. 

Na Tela: Era Uma Vez em Hollywood

Pitt e Leo: boas ideias e roteiro nem tanto.

Era Uma Vez Em Hollywood é o nono filme de Quentin Tarantino e, pela alardeada promessa do diretor, seu penúltimo trabalho. Aguardado com grande expectativa (tanto que obteve sua melhor arrecadação de estreia nos EUA e no Brasil), fui assistir ao filme e foi uma experiência bem mais contraditória do que eu imaginava. Modéstia a parte, me considero com conhecimento suficiente para identificar as referências que aparecem o tempo inteiro, compreendo a admiração por Sharon Tate e sua alegoria de que a morte dela representa o fim da inocência da Era de Ouro de Hollywood. No entanto, com duas horas e quarenta minutos de direção, Tarantino deixa tudo meio frouxo e não conseguiu me empolgar, pelo contrário, eu fiquei bastante cansado com as longas cenas de Brad Pitt dirigindo por Los Angeles. Sei que este é um recurso para encher os olhos com a reconstituição de época, mas lá pela terceira vez eu já estava olhando o relógio para ver se faltava muito para o filme acabar. Pitt vive o dublê, motorista, amigo e faz tudo de um astro que está em decadência, Rick Dalton (Leonardo DiCaprio) que já teve seus grandes momentos, mas agora tenta recuperar a relevância no cinema após pequenos trabalhos na televisão. Boa parte do filme é sobre seu empenho em voltar a ter prestígio vivendo um vilão num filme que exigiu que ficasse irreconhecível. Dos seus conflitos com esta tarefa emergem alguns dos momentos mais engraçados do filme, menos por DiCaprio e mais por sua coadjuvante, uma menina (a ótima Julia Butters) que fala como se fosse a nova Katharine Hepburn. A química entre Leo e sua comparsa funciona muito bem e confere graça a um filme de alma indefinida. Pitt tem mais sorte ao dar conta do dublê que tem um passado sombrio e que o sinistro parece persegui-lo, afinal, é ele que cruza com os estranhos seguidores do insano Charles Manson num rancho abandonado nos arredores da capital do cinema. A cena em que ele se depara com aqueles personagens esquisitos é um dos pontos altos do filme que mantem a tensão até aquele momento em que as pessoas que conhecem a história de Sharon Tate (vivida por Margot Robbie) ficam com a respiração suspensa. A própria concepção tarantinesca da esposa grávida de Roman Polanski não deixa e ser uma ousadia, já que coloca Margot Robbie como uma espécie de deusa entre os mortais, mas bem que ela poderia ter uma construção mais consistente ao invés de deixar a cargo do talento e carisma de Margot tirar leite de pedra com o que tem. Era Uma Vez em Hollywood pode até funcionar como um retrato de um tempo que não existe mais, porém, deixa a impressão de que Tarantino tinha boas ideias mas não soube costurá-las com a maestria vista em seus melhores trabalhos. Com boa reconstituição de época, trilha sonora caprichada e bons atores, só faltou um bom texto. É verdade que o diretor está mais contido e maduro no trato com as imagens, mas faltou escrever como só ele é capaz. 

Era uma Vez em Hollywood (Once Upon a Time in Hollywood / EUA-2019) de Quentin Tarantino com Brad Pitt, Leonardo DiCaprio, Margot Robbie, Al Pacino, Julia Butters, Dakota Fanning, Bruce Dern, Emile Hirsch, Lena Dunhan, Damian Lewis e Luke Perry. ☻☻☻

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

CICLO NETFLIX: Mindhunter - 2ª Temporada

Gregg, Bill, Ford e Carr: finalmente a segunda temporada!

Se alguém me perguntar qual é a minha série favorita da Netflix hoje eu digo que é Mindhunter. Produzida por David Fincher e Charlize Theron, quando terminei a primeira temporada (2017) eu recebi a notícia de que os novos episódios estreariam somente em 2019... foi um balde de água fria. Eu imaginei que a culpa seria de Fincher (que dirige os primeiros episódios desta nova temporada) que é famoso por estender as filmagens além do cronograma pelo seu perfeccionismo. A angústia foi tanta que ao terminar o último episódio fui à uma livraria comprar o livro de   John E. Douglas e Mark Olshaker que serve de base para o programa. Lançada a segunda temporada, eu a terminei mais rápido do que deveria e agora me resta desejar que minhas preces sejam atendidas e a terceira chegue no ano que vem! Sei que muita gente reclamou que a temporada anterior era lenta e repleta de momentos de anticlímax que poderiam comprometer a experiência de quem está acostumado com programas policiais que exploram a psiquê de assassinos, porém, nenhum faz o horror brotar dos diálogos como Mindhunter faz. Aqui o estudo das mentes dos assassinos mais perigosos dos Estados Unidos continua sendo o foco, mas o prestígio conquistado pelos agentes Holden Ford (Jonathan Groff), Bill Tench (Holt McCallany) e a psicóloga Wendy Carr (Anna Torv) faz com que não precisem mais ficar repetindo a importância do trabalho que realizam. As portas do FBI parecem abertas para o trio e quem lhes acompanhar nesta empreitada - o claudicante Gregg Smith (Joe Tuttle) e o recém chegado Jim Barney (Albert Jones), no entanto a vida pessoal do trio protagonista começa a enfrentar problemas. Quem lembra da primeira temporada sabe da crise de pânico que Ford sofreu ao ser abraçado por Edmund Kemper (o ótimo Cameron Britton que aqui faz uma pequena participação especial). Dali em diante, o moço está à beira do abismo, cada vez mais mergulhado no conhecimento sobre os serial killers que estuda, assim, Ford é um bom moço que se torna cada vez mais distante - e aqui não existe nem sinal de sua namorada. Porém, Ford deixa o centro da narrativa e cede espaço para que a série explore mais os fantasmas de Bill, assombrado por um acontecimento inusitado envolvendo seu filho de sete anos. Esta parte da temporada faz o espectador sentir arrepios - mais até do que o encontro com Charles Manson ou Filho de Sam (cujos intérpretes repetem as assustadoras semelhanças físicas com os verdadeiros criminosos - algo que já se tornou marca da série) e faz a plateia imaginar se é capaz de identificar a origem do mal e se ela ainda pode ser extinta na mente de uma pessoa. Talvez este movimento que cause mais estranhamento da série, o horror é sempre psicológico, interno, um assombro que cria a atmosfera densa a cada episódio. A abordagem do assassino dos meninos negros de Atlanta também ajuda a perceber como Mindhunter é um programa incomum. A história aparece como pano de fundo em alguns episódios até receber destaque mais à frente, sempre enveredando pelo clima noir e as dúvidas que os agentes enfrentam em seu trabalho. Ao final não existe redenção ou catarse deixa, mas aquele sabor incerto de que encontrar um culpado não é o suficiente. Feito para gente grande, Mindhunter bem que merecia maior reconhecimento das premiações que a esnobaram quase completamente quando foi lançada. Usando o suspense para produzir dramas devastadores, a série consegue ser bastante original e envolvente. 

Mindhunter - 2ª Temporada (EUA - 2019) de Joe Penhall com Jonathan Groof, Holt McCallany, Anna Torv, Joe Tuttle, Albert Jones, Stacey Roca, Zachary Scott Ross e Cameron Britton. ☻☻☻☻

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

CICLO NETFLIX: GLOW - 3ª Temporada

GLOW: aventuras dentro e fora do cassino. 

The Gorgeous Ladies of Wrestling chegaram à sua terceira temporada na Netflix e muita coisa mudou desde que o programa estreou. Se no início o tom de zoeira tomava conta, na segunda temporada o programa indicava começar a levar suas lutadoras cada vez mais a sério fora do ringue. Esta nova temporada explora pouco as batalhas surreais de suas estrelas e mergulha mais em suas vidas pessoais. Depois de todas as dificuldades que enfrentaram nas temporadas anteriores, agora as garotas estão com um show fixo em um Cassino de Las Vegas, o que ajudou muito a não terem mais a incerteza do pagamento no final do mês. No entanto, o peso do sucesso começa a ter efeitos colaterais em suas vidas: Tammé (Kia Stevens) começa a sentir o peso da idade nas lutas que enfrenta toda noite, Rhonda (Kate Nash) começa a perceber que seu casamento com o produtor Bash Howard (Chris Lowell) tem um pequeno imprevisto por conta dos gostos do rapaz, Jenny (Ellen Wong) começa a se sentir desconfortável com os estereótipos que o programa explora... dramas pessoais é o que não falta nesta temporada. Alguns são tratados com graça, outros com ousadia e até melancolia, mas sempre com respeito pelas personagens que já conquistaram o público desde a primeira temporada. No entanto,  o centro da narrativa parece não ser mais Ruth (Alisson Brie) que sofre agora para manter um relacionamento à distância enquanto se descobre cada vez mais interessada pelo diretor Sam Sylvia (Marc Maron) - que está às voltas com o primeiro roteiro escrito por sua filha. O destaque maior está com Debbie Eagan (Betty Gilpin) que de estrela se tornou produtora e agora parece disposta a mudar com as oportunidades que a vida coloca em seu caminho (mas com um pouco de receio pela distância que está do filho pequeno). A cada episódio Glow demonstra que está amadurecendo em meio ao humor multicolorido e cede cada vez mais para abordagem de temas GLSBTQ (a sexualidade de alguns personagens, o fantasma da AIDS nos anos 1980, drag queens e Liza Minelli...). Caminhando para um caminho mais sério em seus dramas, senti falta daquele frescor que a série trazia com os enredos alucinados das lutas - aqui o ringue de mentirinha só recebe devido destaque em dois momentos, numa noite em que as atrizes mudam de personagens e num especial de natal. Amadurecer drenou um pouco da graça do programa e, embora não alcance toda a profundidade que deseja, aponta caminhos que podem ser interessantes no futuro. Sobre as novas aquisições do elenco, os destaques são Geena Davis como a gerente esperta do Cassino em que as moças se apresentam e Kevin Cahoon como uma drag queen ladra de cenas. Aos fãs fica um certo aperto no coração com o desfecho da temporada e a impressão de que a irmandade Glow está prestes a ruir no auge. Aguardem os próximos capítulos.  

Glow - 3ª Temporada (EUA-2019) de Liz Flahive, Carly Mensch com Alison Brie, Betty Gilpin, Marc Maron, Sydelle Noel, Kate Nash, Britney Young, Gayle Rankin, Kia Stevens, Chris Lowell e Jackie Tohn. ☻☻☻

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

CICLO NETFLIX: Orange is the New Black - Temporada Final

Pipper e suas amigas: sentirei saudades. 

Acho interessante como as produções atuais com personagens femininas se sentem na obrigação de falar sobre empoderamento, representatividade, diversidade e encher a trama com frases de efeito feministas. O efeito quase sempre é o de um discurso superficial e pouco criativo. Sorte que Orange is The New Black é de outro tempo. Lançada em 2012, a série nunca precisou se adequar a este tipo de discurso, afinal já estava em sua essência desde o início. A cada temporada termos que ganharam o peso de palavras de ordem, surgiam na trama com uma naturalidade e leveza que a maioria das produções ainda terão que treinar muito para alcançar. A série entrou para o seleto grupo de produções mais premiadas da Netflix e rompeu tantos paradigmas que pode se dizer que chega ao fim marcando época. Pra começar a criadora Jenji Kohan teve a sabedoria de notar o interessantíssimo grupo de personagens que tinha em mãos, sem hesitar de deixar muitas vezes a sua protagonista em segundo plano. Se na primeira temporada Piper Chapman (Taylor Schilling) era o destaque, aos poucos, ela dividiu o protagonismo com a infinidade de mulheres que cruzaram seu caminho enquanto cumpria pena por tráfico de drogas. Com possibilidades infinitas, não foram poucas  as personagens magníficas que apareceram durante a série e se desenvolveram de forma contundente ao longo das temporadas. Elas nos fizeram rir, chorar, sentir raiva, roer as unhas e deixarão saudade. Esta sétima e última temporada é feita como uma homenagem para estas personagens, resgata algumas que ficaram pelo meio do caminho, aponta perdas e esperanças, mas não perde o tom de alfinetada. Não por acaso, dedica a demonstrar como é complicado para algumas personagens se ajustarem à vida fora da prisão, com a solidão, o isolamento e o preconceito sempre por perto. A temporada também dedica bastante tempo ao tratamento aos imigrantes ilegais na terra do Tio Sam, aos laços de solidariedade que se formam e os horrores de viver numa prisão. Como esquecer de Red (Kate Mulgrew), Taystee (Danielle Brooks), Lorna (Yael Stone), Crazy Eyes (Uzo Aduba), Nicky (Natasha Lyonne), Gloria (Selenis Leyva) e tantas outras com seus tropeços e acertos? Sentirei muita falta destas mulheres na Netflix com seu humor ácido, suas doses de melancolia, seus amores e desejos para driblar a vida dentro da prisão. Orange is The New Black já parece que nasceu clássico e ditando referências - e um programa desses não aparece todo dia. Achei sensacional que na última temporada as personagens não estão mais separadas em grupos de latinas, negras, viciadas, são todas mulheres juntas e misturadas com suas histórias e particularidades, fortalecidas por um roteiro que sempre as buscou em suas complexidades.  Orange is the New Black chega ao fim, mas seu discurso permanece. 

Orange is the New Black - Temporada 7 / Final (EUA-2019) de Jenji Kohan com Taylor Schilling, Uzo Aduba, Selenis Leyva, Danielle Brooks, Yael Stone, Taryn Manning, Yael Stone, Natasha Lyonne, Nick Sandow, Jackie Cruz, Jessica Pimentel e Laura Gómez. ☻☻☻☻☻

terça-feira, 20 de agosto de 2019

CICLO NETFLIX: La Casa de Papel - 3ª Parte

Os alunos e o Professor: em busca do ouro. 

Eu não gostaria de estar na pele dos roteiristas de La Casa de Papel. A série espanhola ganhou repercussão mundial no ano passado e a fama no Brasil foi gigantesca com sua chegada na Netflix. É verdade que o serviço de streaming deu uma repaginada no material original, alterando a edição, burlando a duração a dividindo em duas partes (o que só aumentou o suspense). A saga do professor (Álvaro Morte) e seus discípulos poderia ser criticada por ser inverossímil, mas  enquanto exercício narrativo para prender a atenção com viradas mirabolantes a série era um primor. Prova disso é o fato de se tornar uma série não americana que se tornou um grande sucesso por aqui. Terminando redondinha ficava a pergunta de o que seria feito para uma alardeada temporada seguinte - ainda mais com o desfecho reservado a um dos seus personagens mais icônicos. O resultado é uma Parte 3 que briga o tempo inteiro para não repetir o que vimos anteriormente, mas sem perder o apelo que os anti-heróis possuem perante o público. Em termos de fio condutor da história, não existe muita diferença entre trocar milhões de notas por barras de ouro - e também existe um plano mirabolante por trás da empreitada que não vale revelar aqui. O bom é que a série dá um passo adiante no desenvolvimento dos personagens. O esquentadinho Denver (Enrique Arce) agora tem um filho com sua comparsa, Estocolmo (Esther Acebo) - e a escolha do nome não é por acaso, o relacionamento de Professor com Raquel (Itiziar Utoño) começa a enfrentar problemas, mas é o laço entre Nairóbi (Alba Flores) e Helsinque (Darko Peric) que merece o título de mais comovente. Falando nisso, Nairóbi é de longe a personagem feminina mais interessante da história - e ela irá partir seu coração nesta temporada. Rio (Miguel Errán) come o pão que o diabo amassou por conta de Tóquio (Úrsula Corbero) que será a personagem mais odiada  de toda série... ou seria se não houvesse uma nova negociadora grávida que é um dos aspectos mais curiosos da temporada - (por pouco o posto quase ficou com  o argentino Rodrigo de La Serna, ator que vive Palermo, amigo íntimo de Berlim (Rodrigo Alonso) que tem perde o destaque no decorrer dos episódios. De modo geral a trama segue o mesmo esquema da anterior (inclusive a quebra narrativa quando a ação chega ao auge e deixa o fôlego suspenso para a quarta parte), porém se beneficia ao embaralhar os relacionamentos dos personagens (mas desperdiça a maioria dos novos personagens). É verdade que a edição continua envolvente, a trilha sonora se tornou mais lapidada e ainda tem ideias muito bem sacadas (aproveitar o culto em torno dos personagens por exemplo) e colocar Arturo (Enrique Arce) como palestrante motivacional (brilhante, (sobretudo em sua utilização no primeiro episódio). No fim das contas, a terceira parte de La Casa de Papel não se distancia muito do que vimos antes, mas continua sabendo o que fazer de maneira envolvente. 

La Casa de Papel - 3ª Parte (Espanha/2019) de Alex Pina com Úrsula Corbero, Itiziar Utoño, Álvaro Morte, Pedro Alonso, Alba Flores, Miguel Errán, Jaime Lorente, Rodrigo de La Serna, Najwa Nimri, Enrique Arce, Darko Peric e Esther Acebo. ☻☻☻☻

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

CICLO NETFLIX: Stranger Things - 3ª Temporada

Eleven (ao centro) com a galera no shopping: montrengo Cronnenberg. 

Não sei se estou ficando velho ou se realmente as produções cinematográficas deste ano estão pouco empolgantes. Confesso que não tive vontade de rever nenhuma versão live action recente da Disney e me atrapalhei tanto em compromissos que acabei perdendo Toy Story 4 nos cinemas. Recentemente me dei conta que passei muitas horas vendo séries da Netflix. Também não sei se é por acaso, mas a gigante do streaming (que começa a ver uma crise no horizonte com as concorrentes que se anunciam) lançou alguns de seus títulos mais importantes recentemente. Nesta semana irei comentar cinco produções que estavam entre as minhas mais aguardadas. Começarei pela terceira temporada de Stranger Things que quase recebeu uma postagem no mês passado, mas fiquei bastante hesitante em dar meu parecer sobre as aventuras de Eleven e seus amigos. É verdade que a série é cultuada ao redor do mundo (e eu até comprei uma camisa da série para desfilar por aí), mas a primeira temporada continua sendo a minha favorita. A terceira demorou bastante para entrar em cartaz e desta vez decidiu explorar o crescimento dos personagens. O clima de anos 1980 continua conferindo charme inconfundível à série dos irmãos Duffer, as cores vibrantes, a trilha sonora, está tudo onde deveria estar (menos a canção de História Sem Fim/1984 que... deixa pra lá). O elenco também continua bastante correto - e até Winona Ryder ajustou o tom exagerado da temporada anterior, mas ganhou a tarefa ingrata de lidar com a ênfase no tom de comédia romântica dela com o xerife Hopper (David Harbour). É verdade que os dois atores tem carisma e química para dar conta do recado, mas não sei se a fagulha da primeira temporada resistiu à passagem do tempo. Por outro lado, resolveram que todo o elenco juvenil (antes infantil) recebesse a obrigatoriedade de arranjar um relacionamento amoroso, o que deixa um sabor repetitivo em algumas subtramas. Millie Bobby Brown continua dando conta de sua Eleven, aqui recebendo cores de aluna desgarrada dos X-Men ao lidar com um inimigo que é resquício de tudo que a ex-pacata cidade enfrentou nas temporadas anteriores. A originalidade aqui está por conta da concepção de um monstrengo composto de carne em decomposição que lembra um bocado as criações de David Cronenberg nos primórdios da carreira. O resultado é tão assustador quanto nojento e ainda flerta com clássicos como Invasores de Corpos (os russos não são coincidência, assim como a ideia do shopping como point para as futuras gerações). Embora tenha um bom suspense conduzindo os episódios, considero que a trama demora para engrenar, deixando o melhor para os últimos episódios. A grande surpresa da temporada é a participação de Maya Hawke, atriz que prova ter herdado o talento dos pais (Uma Thurman e Ethan Hawke), mas, de resto, Stranger Things começa a demonstrar sinais de que o ponto final precisa estar mais próximo para não virar uma paródia de si mesma. 

Stranger Things - 3ª Temporada (EUA/2019) de The Duffer Brothers com Winona Ryder, David Harbour, Finn Wolfhard, Millie Bobby Brown, Caleb McLaughlin, Natalia Dyer, Gaten Matarazzo, Charlie Heaton, Cara Buono, Joe Keery e Maya Hawke. ☻☻☻

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

4EVER: Peter Fonda

23 de fevereiro de 1940 ✰ 16 de agosto de 2019

Por algum tempo Peter Fonda foi considerado o membro menos prestigiado de um dos clãs mais famosos de Hollywood. Filho de Henry Fonda, irmão de Jane e pai de Bridget, Peter sempre foi visto como a ponta mais problemática da família - o que deixou muitas vezes seu talento ofuscado e a carreira em segundo plano quando lembrado pela mídia. Ainda que tenha realizado mais de cem produções ao longo da carreira, iniciada nos anos 1960, poucos filmes tiveram reconhecimento. O maior sucesso de toda sua carreira foi Easy Rider (1969), clássico da contracultura assinado por Dennis Hopper que fez o ator ser lembrado por décadas. O filme lhe valeu a primeira indicação ao Oscar pelo roteiro (dividido com Hopper e Terry Southern). O Oscar só reconheceu o talento do moço como ator por seu trabalho em O Ouro de Ulysses (1997), papel que lhe rendeu um Globo de Ouro pelo papel de um pai com problemas familiares. O ator faleceu em decorrência de um câncer de pulmão.