quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

FILMED+: Os Excêntricos Tenenbaums

Tenenbaums: o curioso olhar de Wes Anderson numa fábula urbana familiar.
Wes Anderson já havia mostrado inspiração na literatura infantil quando criou seus Tenenbaums, filme do ano 2001 que concorreu ao Oscar de roteiro original (escrito por Wes e o amigo ator Owen Wilson) - mas o filme merecia estar em pelo menos mais umas cinco categorias da premiação. Anderson já possuía outros dois filmes no currículo quando construiu o que muitos consideram sua obra-prima (antes fez seu Rushmore, que devo comentar mais tarde). O filme conta a história de uma família de gênios, tendo como matriarca Etheline Tenenbaum (Anjelica Houston, a musa de Wes) e o trambiqueiro Royal (Gene Hackman, em uma atuação saborosamente inspirada). Os dois possuem filhos, um empresário precoce chamado Chas (vivido por Ben Stiller na idade adulta, acho que Stiller tentou repetir o tom tragicômico em Greenberg e não conseguiu), um tenista promissor chamado Ritchie (vivido por Luke Wilson quando adulto) e a jovem dramaturga Margot (que quando adulta se torna Gwyneth Paltrow em atuação muito bem construída), filha adotiva do clã. Mas nada é convencional nessa trama, já que o roteiro se concentra no momento pós-genialidade, o ponto seguinte ao momento em que tudo sai dos trilhos para essa família e o que era promissor parece frustrante. Com o divórcio de Royal e Etheline somos apresentados, sem dramalhão, aos membros dessa família em seus amores e problemas com muito senso de humor e estilo. Outros personagens animam a sessão como o psicólogo casado com Margot (Bill Murray, o muso do diretor), o namorado de Etheline (vivido por Danny Glover), Eli Cash - o amigo de infância do trio de irmãos (Owen Wilson) - e o fiel escudeiro de Royal, Dusty (Seymour Cassel). Sem pressa e de forma episódica (afinal, as partes são apresentadas como parte de um livro infantil com desenhos e tudo o mais) descobrimos a paixão de Ritchie por Margot, o caso que esta mantêm com Eli (que sempre quis ser genial como seus amigos, ou pelo menos ser parte da família), o plano bobinho de Royal para voltar para a família (ao ponto de usar doces como remédio), a síndrome do pânico de Chas (que assim como seus filhos sempre veste um conjunto vermelho da Adidas) entre outros momentos levados curiosamente por Wes (já viram uma cena de suicídio ser tratada de forma cômica sem ser ofensiva? ou um acidente de avião em que só sobrevive o cachorro?). Wes cuida de toda a moldura em torno de seus personagens com o maior cuidado. Cada peça do cenário, cada roupa, cada música de sua exuberante trilha sonora só serve para reforçar os sentimentos de seus personagens. O melhor de toda a sessão é sentir o carinho com que Wes trata seus personagens transbordar da tela, muitos consideram seu estilo meio frio e travadão,  mas talvez por isso eu o considere tão interessante. Nos silêncios de seus personagens eu consigo depositar minhas sensações e fazer com que um filme que já é bom ser ainda melhor!
Os Excêntricos Tenenbaums (The Royal Tenenbaum's/EUA-2001) de Wes Anderson, com Gene Hackman, Anjelica Houston, Gwyneth Paltrow, Ben Stiller, Owen Wilson, Luke Wilson e Danny Glover. ☻☻☻☻☻

DVD: O Fantástico Sr. Raposo

Sr Raposo e sua turma: belo filme do fabuloso Sr. Wes Anderson.

Engraçado é que antes de cometer Greenberg o nome de Noah Baumbach apareceu nos créditos de um filme deliciosamente espirituoso recomendado para todas as idades. O Fantástico Senhor Raposo, adaptação do saboroso livro de Roald Dahl recebeu até uma indicação ao Oscar de animação no ano passado. Embora Noah não assine a direção do filme seu nome consta na feitura do roteiro ao lado do diretor Wes Anderson. O Fantástico Senhor Raposo foi um dos melhores lançamentos do ano passado e mostrou que a habilidade de Anderson para tocar uma história permanecia intacta, apesar de seus longas anteriores soarem meio mornos. Anderson e Baumbach assinam um roteiro onde suas obsessões estilísticas estão presentes: a família de tipos problemáticos aparece aqui com uma doçura muito mais agradável e verdadeira, talvez por todo o elenco ser formado por bonecos peludos. Sr. Raposo (voz de George Clooney) é um autêntico ladrão de galinhas que tenta ganhar a vida escrevendo crônicas para um jornal. Assim, tenta deixar Dona Raposa (voz de Meryl Streep) satisfeita em pensar que ele aprendeu a controlar seus impulsos mais selvagens, principalmente porque enquanto pai de família (no caso do raposinho com voz de Jason Schwartzman) ele precisa dar o exemplo. As coisas complicam quando se instaura o ciúme com a presença de um sobrinho cheio de habilidades (voz de Owen Wilson) que é convidado a participar das contravenções do tio raposo. O pior é quando as coisas saem do controle e todos os animais da floresta são perseguidos pelos três fazendeiros da região. Claro que a dupla de roteiristas mudou muita coisa (deram contornos mais humanos para os bichinhos do longa e até incrementaram o final), mas conseguiram deixar sua marca durante toda a narrativa – especialmente Anderson que conduz seu elenco como se fosse fortmado por atores de carne e osso (enquanto Baumbach parece acreditar que só os animais tem bondade no coração). A direção de arte é espetacular (como em todos os filmes de Wes Anderson), a trilha sonora é ótima (como em todos os filmes de Wes Anderson) e tem aquele humor ingênuo que nos faz muito bem ver de vez em quando. Curioso notar que Wes e Noah parecem tratar das duas faces de uma mesma moeda: a família. Enquanto o primeiro é espirituoso e carinhoso com as problemáticas desse grupo social, Noah prefere se concentrar no lado mais obscuro de frustrações e ressentimentos desse grupo - sorte que nessa animação essas duas forças se equilibram com perfeição.


O Fantástico Sr. Raposo (Fantastic Mr. Fox/EUA-2009) de Wes Anderson com vozes de George Clooney, Meryl Streep, Jason  Schwartzman, Owen Wilson e Bill Murray. ☻☻☻☻

DVD: Greenberg - O Solteirão

Stiller: a superação insuportável de Baumbach.

Atualmente está em cartaz  nos cinemas O Solteirão com Michael Douglas, mas chegou às locadoras um solteiro que deu menos sorte do que o de Douglas, trata-se do personagem do novo filme de Noah Baumbach que foi um fiasco nas bilheterias americanas e saiu por aqui direto em DVD. O título em português deveria ser outro, algo como  O Insuportável que seria muito mais esclarecedor para o público desavisado.  Eu aprecio as dramédias de Baumbach com seus personagens difíceis, mas desta vez o cara exagerou. Se eu conseguia rir das situações de A Lula e a Baleia (que lhe rendeu até indicação ao Oscar) e até de Margot e o Casamento, em Greenberg nada funciona como comédia. Nada contra se o filme fosse apenas dramático, mas existe um tom desajeitado que pede uma risada, mas ela nunca chega. Baumbach é intelectual demais para fazer uma comédia romântica e para encobrir essa sua ambição prefere enfileirar chavões de analista (coisa que ameaçava fazer em Margot, só que com mais ironia) como se dessem profundidade psicológica aos seus caracteres. Greenberg (Ben Stiller) é um coroa solteiro, solitário, problemático, amargo e deprimido que vive ressentido de suas escolhas, ou seja, um chato de galochas que não cresceu e não percebe que a vacuidade de sua vida vem de sua dificuldade de se  importar com os outros. O filme conta o momento em que ele vai para a casa do irmão com a desculpa de fazer uma casa de cachorro e conhece sua assistente domiciliar  (Greta Gerwig), os dois não vão desenvolver propriamente um romance, mas um rolo digno de quem não faz a mínima idéia da fria que está se metendo. Sobra boas intenções à moça , mas ela terá que aprender a ser mais madura se quiser lidar com um sujeitinho tão zerado quanto Greenberg. Dizem que o filme seria protagonizado por Mark Rufallo e Amy Adams, mas os dois pularam fora quando viram que o roteiro de autoria de Jennifer Jason Leigh (esposa do diretor e que faz uma pontinha sem efeito como ex-namorada de Greenberg) estava preso às pretensões de forma que sobra pouco para desenvolver. Talvez pelos ajustes feitos para abrigar o novo ator, Greenberg parece ser um homem sem qualidades, grosseiro e mal humorado tornando o filme numa tarefa árdua, já que apesar de Stiller ser um comediante não faz a mínima idéia de onde está o humor do roteiro. A tarefa de tornar o filme assistível fica por conta do melhor amigo vivido por Rhys Ifans e pela escada amorosa feita por uma competente Greta Gerwig. Entre um cachorro doente, cartas reclamando de coisas variadas, cenas de sexo desajeitadas, consumo de drogas e enganosa trilha de James Murphy (do LCD Soundsystem) o filme caminha para o final que anuncia uma mudança no protagonista. O difícil é resistir até lá e se contentar com o tímido arremate da trama. Greta e Ben foram indicados ao prêmio dos filmes independentes americanos, mas para levarem alguma coisa precisam de muita boa vontade do júri - ou pelo menos da compreensão dos que tiveram uma tarefa árdua ao destrinchar personagens tão monocromáticos.

O Solteirão (Greenberg/EUA-2010) de Noah Baumbach com Ben Stiller, Greta Gerwig, Rhys Ifans e Jennifer Jason Leigh. ☻

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

DVD: À Deriva

Neiva e Cassel: Rito de passagem em um filme diferente.


Filmes sobre perda da inocência não costumam empolgar, mas lembro quando À Deriva foi exibido em Cannes e a crítica se rasgou em elogios para seu diretor Heitor Dhalia. Claro que grande parte desse apelo veio da presença do astro francês Vincent Cassel no terceiro filme do cineasta. Quando o filme estreou no Brasil a crítica ficou dividida, mas talvez o efeito tenha sido do marketing do filme que parecia se preocupar mais em alardear que sua protagonista Laura Neiva fora encontrada no orkut do que ressaltar as qualidades do filme - que se difere dos anteriores de Dhalia por ser extremamente intimista e com conotações autobiográficas. Depois de esbanjar estilo e esquisitices em Nina (2004) e O Cheiro do Ralo (2006), Dhalia centra seu foco na passagem de uma adolescente para a vida adulta, ou pelo menos, tenta traçar uma espécie de rito de passagem no momento em que ela descobre sua sexualidade ao mesmo tempo em que se depara com a dissolução de sua família. Phillipa (Laura Neiva, numa correta estréia como atriz) é uma adolescente de 14 anos que passa uns dias na casa de praia com seus pais - no caso o escritor Mathias (Vincent Cassel, que aprendeu a falar português em suas visitas à casa que possui em Saquarema) e a professora Clarice (Debora Bloch) - e seu casal de irmãos. Ao mesmo tempo que começa a atrair o olhar dos homens da região ela descobre que seu pai está tendo um caso com uma americana que reside na região (a filha de brasileiros Camila Belle), assim ela vive dois dilemas: um explícito (conta para sua mãe e corre o risco de causar a separação dos dois) e um implícito (manter uma relação com alguém para que? Para se magoar? Para ser traída?). Enquanto Phillipa tenta construir sua referência de relacionamento amoroso entre o nível alcóolico de sua mãe e as decepção com o pai, Heitor Dhalia nos brinda com uma belíssima fotografia embalada por uma trilha sonora arrasadora, até que o nó na garganta é inevitável e tudo que parecia tão óbvio se tranforma numa despedida inevitável. Essa despedida pode ser aos nossos pais idealizados na infância, nossos sonhos de encontrar a alma gêmea ou à nossa idade adulta, que pode chegar de uma hora para outra diante dos olhos de quem nos ama. O filme tem um roteiro muito sutil, repleto de frases não ditas, olhares reveladores e sensações que ocupam o lugar dos diálogos nas atuações. Dá até para identificar as referências que localizam a trama no tempo (anos 1980) e espaço (Búzios), mas ela pode acontecer em qualquer lugar e em qualquer época.  Não por acaso muitos estranharam essa guinada na carreira do diretor e ainda se surpreenderam com um filme nacional que vai contra todos os clichês marginalescos que invadiram o nosso cinema nos últimos anos.
À Deriva (Brasil/2009) com Laura Neiva, Vincent Cassel, Deborah Bloch e Camila Belle. ☻☻☻☻   

sábado, 27 de novembro de 2010

DVD: O Golpista do Ano


Carrey x McGregor: as caretas de sempre contra uma atuação de verdade.

Filmes sobre vigaristas que realmente existiram parece estar se tornando um gênero em Hollywood, nos últimos tempos tivemos Prenda Me se For Capaz (2002) com Leonardo DiCaprio, O Vigarista do Ano com Richard Gere (2008), O Desinformante com Matt Damon (2009) e recentemente O Golpista do Ano, este foi o que mais teve problemas para chegar ao cinema. Minha curiosidade em torno desse novo filme de Jim Carrey se deu por conta da polêmica em torno de ser a biografia de Steven Russel (vivido por Carrey) , um ex-policial que teria uma vida de pai exemplar não fosse suas aventuras homossexuais às escondidas. Depois de um acidente de carro ele resolve assumir o lado mais gay de sua personalidade e descobre que manter uma vida fashion e de férias eternas ao lado de seu namorado é algo muito caro. Tanto que começa a aplicar golpes nas seguradoras para manter sua vida ao lado do namorado, Jimmy (Rodrigo Santoro) e encher sua ex-esposa (Leslie Mann) e a filha de dólares no natal. Mas como nada fundado sobre a contravenção é simples, ele é logo preso e conhece o grande amor de sua vida: o ingênuo Phillip Morris (Ewan McGregor) - pelo qual fingirá que é advogado para libertá-lo e depois de livre fingirá que é capaz de trabalhar numa grande empresa para criar desfalques capazes de elevar seus luxos à enésima potência. Claro, que tudo isso antes de ser preso novamente... e novamente... e novamente... Precisa lembrar que o filme demorou mais de um ano para estrear nos EUA? Precisa dizer que foi uma grande polêmica as cenas de beijo e ousadias num filme que não recebe o rótulo de voltado para o público GLBT? Os maiores elogios foram direcionados à coragem dos atores de toparem algumas cenas que seriam rejeitadas pelo seu público usual – como de fato foi. Mas o problema maior é o tratamento desengonçado que o diretor Glenn Ficarra e John Requa (de Papai Noel às Avessas) dão à trama. É evidente que queriam algo subversivo, mas esqueceram de lapidar o roteiro. Tudo soa muito tolo e superficial, isso pode se notar claramente na atuação de Jim Carrey, que não alcança a complexidade que o personagem merecia, parecendo apenas um homem esquisito (muito magro, com um cabelo ridículo e de olhar fixo a maior parte do tempo) e desprovido de qualquer emoção. Por isso o maior trunfo do filme seja Ewan McGregor como o ingênuo Phillip Morris, pena que seu personagem é mal escrito até o osso - seu personagem não tem história é apenas o objeto de devoção de Russel. No fim da sessão se tem a impressão que tudo não passou de uma grande brincadeira,  caindo no vazio de não explorar com profundidade seu personagem principal - coisa que os outros filmes sobre vigaristas tiveram o maior cuidado de fazer para, pelo menos, ganhar alguma simpatia do público. Acho que se houvessem escolhido um ator que não pensa que atuar é repetir cocoetes físicos ou vocais o fime poderia até ter dado certo.

O Golpísta do Ano (I Love You Phillip Morris/ EUA-2010) de Glenn Ficarra e John Requa com Jim Carrey, Ewan McGregor, Leslie Mann e Rodrigo Santoro. ☻

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Nada a Declarar - Entre 4 Irmãos

Eu não iria estranhar se fizessem um exame de DNA em alguns atores e descobrissem que eles são irmãos, sempre os achei parecidos...

O primogênito: Tobey Maguire
Nascido em Santa Monica na California no ano de 1975, seus pais tinhas 18 e 20 anos quando nasceu, mas quando o pequeno Tobias Vincent Maguire tinha dois aninhos o casal resolveu se divorciar. Tobey acabou crescendo ao lado da mãe e de inúmeros parentes. Foi graças à sua mãe que decidiu largar a culinária e cursar teatro enquanto estudava na sexta série. Até onde sabe é filho único!

O segundo: Jake Gyllenhaal
Nascido em 1980, Jacob Benjamin Gyllenhal nasceu na mesma Califórnia de Maguire (coincidência 1) só que em Los Angeles. Até onde sabemos é filho de um poeta e de uma roteirista. Começou cedo na carreira, aos dez anos - o que pelas minhas contas é a mesma idade que Maguire começou também (coincidência 2). Tem uma irmã reconhecida em cartório (Margareth Ruth, ou melhor, Maggie Gyllenhall, que nasceu exatamente no ano de 1977 em que os pais de Maguire se separaram - coincidência 3). Assim como ela, Jake tem uma indicação ao Oscar de coadjuvante.

O hobbit: Elijah Wood
Nascido um ano depois de Jake (coincidência 1), veio ao mundo em Cedar Rapids no estado de Iowa, que é um bocado longe da Califórnia - ou seja ideal para quem quer construir outra família (coincidência 2) ele começou a carreira aos oito anos de idade (Rá, ou seja, praticamente no mesmo ano em que Maguire e Gyllenhal!! Coincidência 3)! Assim como Maguire começou na carreira artística com o incentivo de sua mãe (coincidência 4) que o matriculou numa associação de talentos em 1988! Os pais de Wood também são divorciados (coincidência 5) e até onde sabe tem dois irmãos legítimos registrados. Wood tem ascendência inglesa...

O caçula: Daniel Radcliffe
 Nascido na Inglaterra (ascendência = coincidência 1, com Wood) em 1989 e começou a atuar com dez anos (ou seja, com a mesma idade de Maguire e Gyllenhall - coincidência 2), como todo caçula tende a ter algumas particularidades que chamam a atenção dos parentes - como sua "Síndrome do desastrado" acarretado por um probleminha neurológico que afeta sua coordenação motora e o fato de ser ateu (rs). Os pais (um agente literário e uma diretora de elenco) começaram a incentivá-lo na carreira em 1999 (três anos após o divórcio dos pais de Elijah - muita coincidência... coincidência 3) quando todos os outros três desse post mexeriqueiro já eram  famosos (ou seja, deve ter sido para ele não se sentir inferiorizado entre os manos - coincidência 4)!

DVD: Entre Irmãos

Jake e Tobey: transfusão de personalidade entre dois irmãos.

Sem o traje de Homen Aranha, Tobey Maguire tem se voltado novamente para as produções intimistas que lhe deram algum reconhecimento na década de 1990. Ele chegou a ser indicado ao Globo de Ouro de ator dramático por sua atuação nesse drama dirigido por Jim Sheridan, mas como o filme foi mal nas bilheterias faltou boa vontade para impulsioná-lo nas demais premiações. Para piorar, ainda se trata da refilmagem de um filme dinamarquês de mesmo nome de 2004, elogiado pela eficiência com que a diretora Suzanne Bier não deixa a coisa descambar para o melodrama. Sheridan muda alguns detalhes da trama, mas ela é basicamente  a mesma: o militar Sam Cahill (Maguire) é o filho exemplar de uma família, casado com a namorada de adolescência (Natalie Portman, sempre correta), pai de duas meninas e que é o total oposto de seu irmão rebelde (Jake Gyllenhaal). Quando o irmão rebelde volta para a família o desconforto do pai (Sam Shepard) é evidente, mesmo diante dos esforços da madrasta (Mare Winningham) o clima pesa. Acaba que o exemplar Sam vai para a guerra e é dado como morto. A esposa acaba se aproximando do cunhado e quando as coisas vão voltando ao lugar, Sam retorna tendo que lidar com seus fantasmas de guerra e o ciúme da relação que se estabeleceu entre a esposa e o irmão rebelde - que se mostra mais redimido que as piores expectativas. O que compromete o filme é justamente seu último ato, quando todas as soluções soam apressadas e explora pouco a relação estabelecida entre os membros dessa família com dolorosas feridas mal cicatrizadas. Maguire impressiona com a culpa injetada em seu personagem, pena que Sheridan amarele exatamente nesse ponto quando deveria explorar a inusitada transferência de personalidade entre os irmãos - algo surpreendente para quem já dirigiu filmes como Meu pé esquerdo (1989) e Em nome do Pai (1993). Os demais personagens sofrem com o pouco espaço que lhes coube até o fim da sessão. Se Sheridan não quisesse poupar o expectador da angústia de seu protagonista o filme poderia ter sido mais bem sucedido. Ainda que inferior ao original (afinal, como sabe o Dogma 95, dinamarquês não tem frescuras) merece uma visita para ver Maguire sepultando Peter Parker em uma aparência cadavérica de alguém que perdeu a vida após retirar a de outra pessoa. 

Entre Irmãos (Brothers/EUA - 2009) de Jim Sheridan com Natalie Portman, Tobey Maguire, Jake Gyllenhaal, Bailee Madison, Mare Winningham, Taylor Geare, Patrick Flueger e Carey Mulligan. ☻☻☻

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Combo: Filmes Favoritos de Heróis



5 Homem Aranha (2002) Acho que Sam Raimi nem imaginava como ele se daria bem ao dirigir a franquia de Spider Man. Considero impressionante a forma como conseguiu reunir tantos elementos harmônicos no filme, para começar a escolha de Tobey Maguire para ser Peter Parker beira o brilhantismo, o cara de bom rapaz caiu como uma luva para o personagem. Pode se dizer o mesmo da Tia Mae de Rosemary Harris, o editor vivido por J. K Simmons, a Mary Jane de Kirsten Dunst, a fotografia, os efeitos especiais... enfim, Raimi realmente soube como formatar a franquia para o cinema nesse episódio! E ainda que todo mundo fale mal do Duende Verde eu considero Willem Dafoe muito bem como um vilão que nasce de uma grande fusão empresarial! A coisa ficou tão legal que até temo pela repaginada que o filme irá sofrer nas mãos de Marc Weber! Grandes poderes exigem grandes responsabilidades!

4 Os Incríveis (2003) As animações estavam entre a fofura dos bichinhos e o deboche aos contos de fada quando surgiu esta animação da Pixar dirigida por Brad Bird. Mais do que um filme sobre heróis o filme é sobre a família e as diferenças entre seus membros - que acaba fortalecendo-os enquanto grupo. Filosofices à parte Os Incríveis é muito melhor do que  a maioria dos filmes de ação de carne e osso que aparecem por aí - e ainda é cheio de referências à Watchmen de Alan Moore. Cheio de heróis insatisfeitos com a aposentadoria, personagens multifacetados (como a estilista de heróis Edna Moda - dublada pelo próprio Bird - deve ter aprendido em Watchmen que capa não é nada funcional...) e fãs vingativos esta aventura do Sr. Incrível e sua família bem que merecia uma continuação! Talvez por ser um desenho tenha sido o único filme de herói a ganhar o Oscar de Melhor Filme - mesmo que seja de animação...

3 X-Men 2 (2003) Bryan Singer me deixou preocupado quando disse que iria dirigir a adaptação dos heróis mutantes da Marvel para o cinema. Ainda bem que X-Men se tornou uma referência para os filmes de heróis ao usar uma atmosfera séria e realista. Depois das inúmeras reclamações da curta direção do primeiro longa Singer fez a sequência anabolizada explorando o passado de Wolverine (Hugh Jackman) e uma verdadeira caça aos mutantes liderada por Stryker (Bryan Cox). Nessa empreitada os heróis de Xavier (Patrick Stewart) e os vilões de Magneto (Ian McKellen) irão se unir por uma causa maior... pelo menos até o quase fim da sessão. O filme continua resistindo ao tom maniqueísta que costuma assolar os filmes de heróis e deixou água na boca para a terceira parte que acabou mudando o diretor e perdendo o tom elegante da narrativa mutuna Singeriana.

2 Watchmen (2009) Fracasso nos Estados Unidos, sucesso na Europa, rejeitado por Alan Moore, divisor da opinião do público e crítica, a histórica saga dos heróis atormentados por seus fantasmas chegou às telas no ano passado após inúmeros adiamentos desde a década de 1980. Vou logo dizendo que sou um dos admiradores do empenho de Zach Snyder em ser fiel à cultuada HQ, mantendo o seu verniz político pessimista e a complexidade de seus mascarados. O elenco competente (especialmente O Comediante de Jefrey Dean Morgan e Rorschach de Jackie Earle Haley) consegue ficar de igual para igual com a exuberância visual do longa. A trama tem como ponto de partida a morte de um dos Vigilantes e que evidencia uma conspiração que pode gerar o fim do mundo.  Trilha inspirada, diálogos perfeitos e clima noir fazem de Watchmen um marco pouco reconhecido nos filmes de heróis, talves por mostrar sem pudores que o pior inimigo pode estar em nossas fraquezas.

1 Batman - O Cavaleiro das Trevas (2008) A unanimidade que Watchmen não alcançou foi destinada para a segunda aventura do Homem Morcego de Christian Bale sob a batuta de Christopher Nolan. Houve quem ficasse revoltado com a ausência do filme nas categorias mais nobres do Oscar, mas o prêmio póstumo de coadjuvante para o antológico Coringa de Heath Ledger serviu de consolação. Mais crível do que a oportuna visão política sobre a trama - ter alguém para acreditar (encarnado por Harvey Dent/Aaron Eckhart) mesmo entre o caos do Coringa e o limite do morcego justiceiro - é a impressionante relação entre os três personagens. Afinal, o Coringa parece Batman do avesso e Dent se torna a mistura dessas duas figuras de forma mais explícita ao final de suas tragédias pessoais. O filme rompeu a barreira do bilhão, deu carta branca à Nolan em Hollywood e sua sequência (anunciada para 2012) é umas das mais aguardadas de todos os tempos. Santa expectativa Batman! 

terça-feira, 23 de novembro de 2010

DVD: Homem de Ferro 2


Downey, mais Tony Stark do que nunca: "Ninguém é de ferro, meu chapa!"

Depois de ler e ouvir tantas críticas divididas enfrentei Iron Man 2. Talvez por ter esperado a poeira baixar o filme não me decepcionou. Está certo que o filme tem umas horas de narrativa em ponto morto, tem uma visão ingênua das politicagens e blábláblá... mas é notável como a produção joga todo o peso nas costas de Robert Downey Jr e ele aguenta sem sinais de cansaço. A primeira aventura do herói da Marvel nos cinemas fez um inesperado sucesso nas mãos de Jon Favreau (que acho que deveria ter seus méritos de ator reconhecidos também) e a adesão do público ocorreu especialmente pelo respeito da produção com a história do personagem e o despudor em explorar o lado menos agradável de seu alter-ego, o industrial bélico Tony Stark (Downey). No primeiro Iron Man entendemos porque Favreau bateu o pé para escalar Downey Jr, nesta segunda produção o que vemos é um apetite ainda mais voraz do ator com seu personagem, tanto que o filme acaba explorando mais sua figura do que propriamente do herói. O filme me surpreendeu pela audácia de ter poucas cenas de ação - são só três: a da corrida, a da festa e a sequência final - isso num longa de duas horas e quatro minutos. O roteiro escrito por Favreau e Justin Theroux  investe na comédia (ambos começaram a carreira amparados por elogiados roteiros cômicos) e intensifica isso na insolência egocêntrica de Stark e as neuroses de Pepper Potts (Gwyneth Paltrow, mais a vontade que no primeiro filme).  Apesar de tudo estar centrado demais em Robert a produção se deu ao trabalho de escalar bons atores para participações pequenas, mas pontuais. Don Cheadle assume o posto do amigo oficial Rhodes que foi deixado por Terrence Howard (que desapareceu do mapa), Samuel L. Jackson surge como um Nick Fury revisitado, a tal falada participação de Scarlett Johanson deve durar menos de dez minutos como a agente Romanoff (Viúva Negra) e Mickey Rourke investe na bizarrice do vilão russo Ivan Vanko/Chicote Negro. Se alguém consegue um pouco mais de espaço é Sam Rockwel como um concorrente inescrupuloso de Stark que acaba contando com a ajuda de Ivan Vanko para construir uma armadura ainda mais poderosa do que a de Homem  de Ferro. Ao fim da sessão temos a promessa da aventura no cinema dos vingadores e depois dos créditos a premissa de Thor (que deve ser o próximo lançamento heróico nos cinemas). Se continuar mantendo o estilo deve funcionar com a garotada de férias. Principalmente se o talento de Robert Downey Jr. continuar sendo tão confiável quanto  a armadura do herói (não duvido que ele figure nas indicações ao Globo de Ouro de ator de comédia por sua atuação neste filme).

Homem de Ferro 2 (Iron Man 2/EUA-2010) de Jon Favreau com Robert Downey Jr, Mickey Rourke, Gwyneth Paltrow, Sam Rockwell, Don Cheadle, Scarlett Johansson, Jon Favreau, Samuel L. Jackson e Clark Gregg. ☻☻☻