quinta-feira, 22 de setembro de 2011

DVD: A Garota da Capa Vermelha


Seyfried: a nova aventura crepuscular de Hardwicke.

Virou moda reciclar clássicos da literatura infantil. O estopim de tudo isso pode ser o sucesso de Shrek (2001) que já rendeu filmes como Deu a Louca na Chapeuzinho (2005),  mas agora a moda é transformar os clássicos em obras para os mais crescidos como ocorreu no o decepcionante Alice no País das Maravilhas (2010), e o menos badalado Fera (2011). Agora é a vez de A Garota da Capa Vermelha (2011) chegar nas locadoras. O fato é que sua diretora, Catherine Hardwicke, ainda me deve um filme bom. Pode parecer implicância, mas ainda não consegui ver nada de interessante no cinema desta diretora, todos me soam primários demais (mesmo o badalado Aos 13, lançado em 2003). Podem dizer que ela tem sintonia com os anseios do público adolescente, mas nem isso me convence (afinal, se ela entende tanto assim de adolescentes, porque o seu sucesso de bilheteria é o tosco Crepúsculo/2008 , que é no mínimo um xarope que deu sorte de ter Robert Pattinson entre os iungredientes). Catherine resolveu pegar a história da Chapeuzinho e dar uma conotação mais adulta e o resultado consegue ser mais infantil que o original (precisa dizer as simbologias originais da escolha da cor vermelha ou o que significa a ameaça do Lobo Mau?). Hardwicke até decorou o discurso literato de que os clássicos infantis lidavam com questões morais e retratavam um período obscuro na forma como as crianças eram tratadas, mas daí fazer um triângulo amoroso onde uma das vértices é um lobisomen... a coisa complica! Considero impressionante a cara de pau com que o roteiro utiliza recursos manjados para contar sua história: Valerie (Amanda Seyfried, que é até talentosa, mas precisa mudar de agente se pretende ser levada a sério) está prometida para um rapaz (Max Irons, o filho de Jeremy Irons), mas é apaixonada por um amigo de infância (Shiloh Fernandez) com o qual vive se amassando por aí. Nem vou levar em consideração que a trama parece ser ambientada na Idade Média, mas todos se comportam como se vivessem no século XXI (inclusive o discurso modernoso de Shiloh e seu cabelo arrepiado). Para incrementar a trama meteram um lobisomen no lugar do lobo mal. A ideia podia ser até interessante se Hardwicke não parecesse querer fazer um novo Twilight, chegando ao ponto de escalar o ator Billy Burke (o pai da insossa Bella de Kirsten Stewart) para ser o pai de sua chapeuzinho. Embora as qualidades técnicas e do elenco sejam infinitamente superiores a Crepúsculo, o filme não empolga por não acertar no tom da narrativa. Não parece um romance, um filme de terror ou uma aventura, são apenas ideias mal alinhavadas nas mãos de uma diretora que ainda precisa comer muito feijão com arroz. Se existe algo que chama atenção em suas obras recentes é não ter medo de parecer ridículo (a cena em que Valerie conversa com o Lobisomen a primeira vez é de rolar de rir), mas é preciso ter muito pulso para saber converter isso em algo positivo. Arrecadando menos nas bilheterias americanas (37 milhões) do que custou (45 milhões) o filme joga fora uma boa direção de arte e uma fotografia bem cuidada - e esses aspectos podem até fazer o longa parecer melhor do que é. Resta agora esperar a nova versão de Branca de Neve na pele de Kirsten Stewart (medo!) tendo que sobreviver à sua madrasta (Charlize Theron).

A Garota da Capa Vermelha (Red Hidding Hood/EUA-2010) de Catherine Hardwicke, com Amanda Seyfried, Max Irons, Gary Oldman, Shiloh Fernandez, Virginia Madsen e Max Irons.  ☻  

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

DVD: O Ritual

Hopkins e O'Donoghue: mais do mesmo.

O Ritual é um filme de terror que já começa por um tema batido: o exorcismo. Depois a coisa piora com o pôster mostrando Anthony Hopkins fazendo mais uma vez aquele olhar de Hannibal, mas dessa vez o ator inglês não interpreta um canibal elitizado, mas um padre que vive desafiando o coisa ruim. Apesar disso, o filme tem até um ponto de partida original ao mostrar um curso de formação de exorcistas, mas a coisa não é desenvolvida como deveria. O tema em si sempre chama a atenção dos fãs - árduos por um filme de terror que saiba dar sustos e alguma densidade psicológica - o mais engraçado é como o filme começa cheio de ideias até originais que vão sendo abandonadas gradualmente até que tudo se resuma ao mais trivial feijão com arroz - e, ironicamente, o filme cospe no prato em que come: o clássico O Exorcista (1973), para depois ficar cada vez mais parecido com ele. Claro que para tudo que acontece existe a proteção de um enorme clichê (ser inspirado em fatos reais). É interessante quando tenta acompanhar os dilemas do jovem Michael (o estreante Colin O'Donoghue) que desde sempre soube que sua família lhe oferece duas opções de carreira: ser padre ou agente funerário. Ele não se empolga com nenhuma das duas opções, mas (nunca fica muito explicado) escolhe ir para o seminário (e todas as suas famosas restrições), mas pretende desistir de tudo após concluir seus estudos para padre. Depois de alguns acontecimentos que tentam fazê-lo reencontrar a fé ele é escolhido para aprender o ofício de exorcista em Roma. Lá conhece o esquisito padrexorcista Lucas Trevant (Hopkins) e a repórter Angeline (a brasileira Alice Braga, novamente correta e subaproveitada), não precisa ser muito esperto para saber que um simboliza o caminho do celibato e o outro as tentações que encontra pelo caminho. Se o filme se restringisse às indagações de Michael entre o seu ceticismo e a fé o resultado poderia ser mais satisfatório do que os caminhos que o roteiro segue de forma cada vez mais brusca. A ideia bacana de colocar o chifrudo ameaçando uma doce jovem grávida (Marta Gastini, numa atuação impressionante), logo se dilui para caminhos cada vez mais óbvios. Não há surpresas ou sustos quando vemos que o capeta encontra abrigo em quem antes o ameaçava e aí o filme joga tudo que prometia ladeira abaixo. Apesar disso, O Ritual não é um filme ruim, apenas fraquinho por abandonar suas melhores ideias pelo que já foi visto dezenas de vezes, inclusive no filme que faz chacota. Em determinada cena Hopkins diz após um trabalho de exorcismo: "O que esperava? Cabeças girando? Sopa de Ervilha?" parece uma provocação e de fato é, pena que não coloque nada memorável no lugar (pessoas cuspindo pregos?!) como fez o mais corajoso O Exorcismo de Emily Rose (2005). No fim das contas os maiores elogios ficam por conta da coragem de Colin que mesmo não sendo um ator impressionante,  aceitou enfrentar Hopkins  e o fato de Mikael Hafstöm convencer gente o porte de Rutger Hauer e Maria Grazia Cucinotta para serem figurantes de luxo. 

O Ritual (Rite/EUA-2011) de Mikael Hafström com Colin O'Donoghue, Anthony Hopkins, Alice Braga, Ciarán Hinds, Toby Jones e Marta Gastini. ☻☻  

terça-feira, 20 de setembro de 2011

APOSTAS PARA O OSCAR 2012 - CAPÍTULO I

Com a chegada do outono nos EUA, o término do Festival de Veneza e a realização do emergente Festival de Telluride (realizado numa pequena vila em meio às montanhas rochosas do estado americano do Colorado) que tem demonstrado cada vez mais influência nos esboços das disputas de fim de ano, começamos a ter ideia de quem deve fazer bonito entre os melhores de 2011. Estão abertas as apostas e cinco filmes que vem ganhando força são os seguintes:

The Help
Ainda é cedo para apontar favoritos, mas The Help era visto somente como um filme simpático até entrar em cartaz e começar a fazer grande sucesso com uma poderosa campanha boca a boca. O roteiro que explora o efeito de entrevistas com mulheres negras em meio à luta pelos direitos civis num subúrbio do Tio Sam chamou a atenção pela mistura de drama e humor. No elenco, Emma Stone, Jessica Chastan, Sissy Spacek e (a especialmente aclamada) Viola Davis devem disputar seu lugar ao sol perante a Academia. O diretor novato Tate Taylor promete frescor entre as produções sisudas de fim de ano.  

Carnage
É sempre bom ficar de olho nos trabalhos de Roman Polanski, especialmente se ele tem nas mãos um material tão explosivo como o premiado texto da peça O Deus da Carnificina e um elenco do porte dos ganhadores de Oscar Kate Winslet, Jodie Foster, Christoph Waltz e o já indicado John C. Reilly. O filme acompanha o encontro de dois casais que tentam discutir as pendengas do filho de um que agrediu o filho do outro. Tudo poderia ser resolvido se a agressividade da conversa não crescesse gradualmente. Precisa dizer que é um dos filmes mais aguardados deste fim de ano?

We Need to Talk about Kevin
A temática é parecida com a de Carnage, mas o roteiro vem de outra inspiração: o livro (arrepiante) de Lionel Shriver. Kevin é um garoto que resolve entrar na escolar e matar alguns colegas. O filme explora os sentimentos contraditórios de sua mãe e o peso da responsabilidade sobre os atos dele. O elenco também conta com John C. Reilly - mas quem deve chamar a atenção dos votantes é Tilda Swinton no papel da mãe e o novato Ezra Miller como o rapazinho do título. A direção de Lynne Ramsay pode não ser perfeita, mas deve garantir que a produção figure em algumas categorias.

The Iron Lady
Mais uma vez a disputa de Melhor Atriz deve ser acirrada, para azeitar ainda mais a corrida pelo ouro a recordista de indicações ao Oscar (Meryl Streep) está de volta com a intenção de levar para a casa sua terceira estatueta. Esta cinebio da primeira dama da Grã Bretanha Margareth Thatcher traz mais uma atuação impressionante da atriz - o que levanta suspeitas é a direção de Phyllida Lloyd (do questionável Mamma Mia!), mas nada que prejudique as intenções e repercussão da atuação de sua estrela.  

Albert Nobbs
Para aumentar a tensão da disputa, nada melhor do que o retorno de uma veterana com cinco indicações e nenhuma vitória: Glenn Close. Close passou os últimos anos ganhando prêmios nos palcos e produções para a TV, só os deuses do cinema sabe o efeito que isso terá nas votações, mas o fato é que sua atuação sob a batuta de Rodrigo Garcia em Albert Nobbs lhe dá a chance de finalmente ser premiada pelo papel da mulher que se passa por homem na Irlanda do século XIX. O que pesa contra é o fato do papel já ter premiado Close no teatro. Ainda no elenco Mia Wasikowska e Johnatan Rhys Meyers. 

domingo, 11 de setembro de 2011

FESTIVAL DE VENEZA 2011

Fassbender: cavando sua vaga no Oscar.

Apesar de contar com esperados novos filmes de diretores célebres em Hollywood como David Cronenberg (A Dangerous Method), George Clooney  (The Ides of March), Roman Polanski (Carnage), William Fredkin (Killer Joe) e Todd Solondz (Dark Horse), o júri presidido por Darren Aronofsky (que exibiu Cisne Negro no Festival do ano passado) deu preferência aos filmes que estão bem distantes dos filmes americanos. A exceção foi Michael Fassbender (famoso por seu Magneto em X-Men First Class) que foi aclamado por sua atuação como ninfomaníaco no polêmico Shame (o cara tem quatro filmes que não devem passar em branco neste ano e este promete uma vaga nas premiações de 2011). A seguir todos os premiados da edição deste ano:

LEÃO DE OURO DE MELHOR FILME: "Faust" (de Aleksander Sokurov)
PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRI: "Terraferma" (de Emanuele Crialese).
LEÃO DE PRATA DE DIREÇÃO: Shangjun Cai (por "People Mountain People Sea").
COPPA VOLPI - MELHOR ATOR: Michael Fassbender (por "Shame" de Alexander McQueen)
COPPA VOLPI - MELHOR ATRIZ: Deannie Yip (por "Tao Jie" de Ann Hui)
MELHOR ATOR JOVEM: Shota Sometani (por "Himizu" de Shion Sono)
MELHOR ATRIZ JOVEM: Fumi Nikaidou (por "Himizu")
CONTRIBUIÇÃO TÉCNICA: Robbie Ryan (o cinefotógrafo de "O Morro dos Ventos Uivantes")
MELHOR ROTEIRO: Giorgos Lanthinos (por "Alpeis")
LEÃO DO FUTURO: "La Bàs" (de Guido Lombardi)

sábado, 10 de setembro de 2011

KLÁSSIQO: Ensina-me a Viver

Curt e Ruth: química inusitada em 40 de um clássico.

Clássico que se preze não envelhece! Melhor ainda, quando assistimos ficamos imaginando o escândalo que foi assistir aquele filme em décadas longínquas! Ensina-me a Viver está completanto 40 anos e o mais engraçado é que não envelheceu! Não estou me referindo às roupas ou penteados (que ficariam bem até em uma produção de época de hoje em dia), mas à sua essência trasngressora que deve causar calafrios até hoje nos mais conservadores. O diretor Hal Ashby deixa tudo em seu devido lugar (até mesmo as canções de Cat Stevens que dialogam com os personagens) nesta comédia de humor negro  que vez por outra ganha uma nova versão no teatro. O filme conta a história de Harold (Bud Cort, com pinta de moleque aos 23 anos), um rapaz problemático de 20 anos que se diverte fingindo suicídios diante da mãe ricaça  (enforcamento, afogamento, tiros, mutilação...) e visitando enterros de desconhecidos. Essa identificação com a morte vem do fato que sua vida é quase um sepultamento, exemplo disso é a cena em que a mãe pretende arranjar-lhe uma esposa e ao preencher uma ficha de cadastro para uma agência casamenteira ela decide as respostas dele. A vida de Harold poderia se arrastar até o dia de seu funeral, mas ele conhece Maude (Ruth Gordon, também famosa como a vizinha satanista de O Bebê de Rosemary/1969)  uma senhora de 79 anos e muita energia (às vezes até demais). Entre as travessuras de Maude se enquadra pegar carros de outras pessoas (isso sem carteira de motorista), o sequestro de uma árvore entre outras aventuras. Maude ensina Harold que a vida não precisa ser levada tão a sério e que ficar remoendo suas mazelas não ajuda. Mas, aos poucos percebemos que Maude também teve seus momentos tristes (uma inscrição em sua pele demonstra que esteve em campos de concentração). Curioso como Ashby consegue imprimir na história um tom realista que vez por outra flerta com o surreal e o imaginário - por vezes tudo parece uma grande fantasia, mas o filme tudo está de fato acontecendo -  mesmo quando descobrimos que Harold considera a amiga idosa muito mais interessante que as pretendentes que assombra nos encontros organizados por sua mãe (com direito até a arakiri no tapete do escritório). com o tempo é inevitável que Harold e Maude tenham uma noite de amor. O filme não faz escândalo com a cena, sendo simples e eficaz (e a ideia de Harold menos menino e mais homem funciona muito bem). Não é novidade que Harold & Maude não fez muito sucesso em seu lançamento, mas ao longo do tempo foi colecionando admiradores fiéis. O melhor de tudo é que aos 40 anos, o filme permanece mais moderno e inovador do que algumas comédias recentes.

Ensina-me a Viver (Harold & Maude/EUA-1971) de Hal Ashby com Ruth Gordon, Bud Cort e Vivian Pickles. ☻☻☻☻

Combo: Travestidos

05 A Gaiola das Loucas (1996) Fiquei em dúvida se colocava Nathan Lane em quinto ou Robin Williams (por Uma Babá Quase Perfeita/1993) nesta lista. Como Williams não está nem entre meus duzentos atores favoritos e sempre que penso em Lane eu lembro dele bancando a matriarca nesta comédia de Mike Nichols, bem... você já sabe quem está na lista! Lane já tinha o seu fã clube no teatro quando topou entrar nessa refilmagem da famosa comédia italiana e seu trabalho é magistral. Não me refiro aos seus trejeitos efeminados ou histerias, mas no exato momento em que se veste de mulher temos certeza de que àquela forma o personagem se completa. Lembro quando minha mãe viu o filme e se questionou porque o estranhamento perante o personagem desaparece quando dele se veste de mulher. Apesar de ser uma comédia que apela para a caricatura, Lane nos faz lembrar que todos somos pessoas, a questão de ser masculino ou feminino é algo que transcende a genitália. Acho que é essa a lição que o visitante (político conservador vivido por Gene Hackman) precisa aprender.  

04 Café da Manhã em Plutão (2005) Cillian Murphy geralmente aparece em papéis pequenos sendo coadjuvante de Christian Bale (Batman Begins/2005) ou Leonardo DiCaprio (A Origem/2010), o fato é que Murphy consegue carregar um filme nas costas facilmente e basta ver este filme de Neil Jordan para ver que o cara é competente! Por sua atuação foi até indicado ao Globo de Ouro de melhor ator de comédia/musical. Apesar do nome esquisito, Café da Manhã em Plutão é um filme que lembra muito Forrest Gump (1994), só que com cores mais... digamos... vibrantes! Murphy é Patrick, um menino que cresce sabendo ter sido abandonado pela família nos conturbados anos 1970 na Irlanda! Seus pais adotivos estão prestes a fazer o mesmo quando percebem que o rapaz vai sair do armário! Não, mais que isso: Patrick assume-se mulher! Misturando fatos históricos à trajetória de Patrick o filme conta com ótima trilha sonora, coadjuvantes de prestígio, montagem ágil e uma atuação histórica de Murphy. Deu tão certo que Murphy resolveu fazer uma versão hardcore de Patrick no recente Peacock (2010).

03 O Ano em Que Vivemos em Perigo (1982) Entre o pessoal que já vestiu as vestes do sexo oposto, o caso de Linda Hunt é um dos mais notáveis. Pra começar ela conseguiu roubar a cena de Mel Gibson e Sigourney Waver num filme de Peter Weir. O filme se passa no ano de 1965 em meio à uma revolução na Indonésia onde um repórter (Gibson) passa por perigos enquanto se apaixona por uma funcionária da embaixada britânica (Weaver) e conta com somente com a ajuda de um repórter anão. Onde Linda Hunt entra nessa história? Bem, Linda é o anão em pessoa! A atriz realiza um trabalho tão notável que colecionou vários prêmios pela atuação, incluindo o Oscar de atriz coadjuvante - um feito inédito onde um artista ganhou o prêmio por interpretar um personagem do sexo oposto.

02 Traídos Pelo Desejo (1992) Há quem diga que o filme de Neil Jordan perde muito de sua graça quando descobrimos o segredo de sua mocinha. Quase vinte anos depois de seu lançamento ainda é um SPOILER dizer que sua mocinha não é bem uma mocinha? Não é todo dia que se vê um filme que mistura travestis e terrorismo (se bem que Jordan misturou esses temas novamente em Café da Manhã em Plutão/2005). Um guerrilheiro irlnadês (Stephen Rea) promete a um soldado inglês sequestrado que, se ele morrer, cuidará da namorada dele. Terrorista de palavra, acaba conhecendo a tal: uma cantora da noite que guarda um segredo que surpreendeu muita gente - até por conta da androginia de Jaye Davidson (que desapareceu do universo depois de ter feito poucos filmes). Apesar de seu porte e traços delicados ajudar um bocado, o trabalho de composição do ator é surpreendente (o que lhe valeu uma merecida indicação ao Oscar de coadjuvante). Para curtir ao som da versão de The Crying Games de Boy George...

01 Tootsie (1982) Devo ter visto algumas dezenas de vezes esta que é sem dúvida uma das melhores comédias americanas de todos os tempos. Existem vários motivos para isso, além do roteiro saboroso (com críticas que vão do mundo artístico à forma como as mulheres são mostradas na televisão) tem uma atuação matadora de Dustin Hoffman. Hoffman é um dos melhores atores vivos do cinema americano, mas faz tempo que inventaram que ele só pode dar conta de papéis menores que seu talento. Neste, ele interpreta um ator que não consegue emprego faz tempo (alguns o acham velho demais, outros consideram que seja baixo demais,  os que sobram pensam que ele é encrenqueiro mesmo) e no desespero de ter que pagar suas contas acaba conseguindo um papel numa novela televisiva, só que fingindo ser uma mulher. Colecionando fãs e admiradores, este é o ponto de partida de um filme que brinca com as relações entre o gênero masculino e feminino com maestria. Para completar a confusão ainda contamos com atuações inspiradas de Jessica Lange, Teri Garr e Bill Murray em piadas sobre gêneros.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

DVD: Fúria


Jude: "Te cuida Gisele Bündchen"!

Dia desses me deparei com um filme que havia causado certo alvoroço no Festival de Berlim em 2009, mas que permanecia inédito nos cinemas brasileiros e em DVD. Mesmo nos EUA acho que nunca entrou em cartaz. Alguns blogs de cinema falavam do longa de Sally Potter especialmente pelos atores de seus créditos: Jude Law, Judi Dench, Adriana Barraza, Steve Buscemi, Dianne Wiest, John Leguizamo... mas vendo o filme, percebemos logo a dificuldade encontrada para sua exibição. Trata-se de um filme que tenta seguir a estrutura de um documentário, mas não é só isso. Percebemos que existe um cineasta, Michelangelo, que colocou sua câmera em meio a um desfile para registrar depoimentos dos envolvidos. Entre modelos (destaque para Law e a exótica Lily Cole) e outros funcionários que constituem a fauna dos bastidores fashion, o diretor faz indagações sobre beleza e a moda, gerando depoimentos interessantes (especialmente na fala de Judi Dench, mais elegante e do que nunca) de farpas e alfinetadas à atmosfera de glamour dos fashionistas. Mas subitamente começam a acontecer coisas estranhas no desfile, uma modelo sofre um acidente, depois outra é vítima de um atentado e assim por diante. Como o filme não tem cenário (os atores falam para a câmera diante de um fundo que muda de cor), as impressões do espectador ficam por conta da sonoplastia (tiros, gritos e helicópteros) e das atuações. Uma ideia interessante (e que concorreu ao prêmio máximo do Festival de Berlim), mas que lá pela metade começa a cansar por bater sempre na mesma tecla de ressentimentos e egos inflados (algo nada original quando se trata do mundo da moda no cinema). Apesar de ter boas atuações e ousadias (Jude Law merece atenção ao interpretar Minx, uma supermodelo andrógina que ganha destaque conforme as outras são vitimadas. Me arrisco a dizer que é uma das melhores atuações de Law, acreditem, ele está absurdamente confortável) a diretora Sally Potter merecia ter aparado algumas arestas  e ter desenvolvido melhor alguns sujeitos de seu filme (Buscemi como o fotógrafo amargurado está excepcional, mas outros com possibilidades, como Riz Ahmed, ganham menos espaço do que deveriam). Ainda que por  cansativo, o filme mostra que Potter (diretora de Orlando/1992 com Tilda Swinton e Por que choram os homens/2000 com Johny Depp) é uma diretora competente na condução de seus atores e na capacidade de gerar tensão, mesmo diante de recursos tão minimalistas - o que não é pouco, já que a diretora inglesa está longe de ser uma darling cinematográfica. Nada mal para uma pessoa que aos 16 anos decidiu ser cineasta e largou a escola.

Fúria (Rage -  Reino Unido/EUA - 2009) de Sally Potter com Simon Abkarian, Bob Balaban, Judi Dench, Patrick J. Abrams, Jude Law, Adriana Barraza, Lily Cole, Eddie Izard e Jakob Cedergren. ☻☻

DVD: Bruna Surfistinha


Deborah: boa atuação em adaptação de sucesso editorial.

Uma amiga minha disse que Bruna Surfistinha é a "garota de programa que deu certo! Com trocadilho e tudo!". Dito isso, acho que Marcelo Baldini assumiu uma série de desafios quando resolveu adaptar o livro de Bruna  para o cinema. Um deles era lidar com uma história que não era novidade para ninguém: a garota de classe média que começa a se prostituir, cria um blog que causa sensação na internet ao contar detalhes de seus dias (e noites) de labuta com clientes e, mais tarde, o lançamento de suas memórias no best seller O Doce Veneno do Escorpião. Mas, ao contrário do que muita gente pensa, fazer um filme de forte carga sexual é uma das coisas mais complicadas que existem. Se escancarar fica pesado demais, perde distribuidores, público, salas exibidoras... se maneirar na pimenta fica sem graça e artificial... e qualquer uma dessas escolhas corre o risco de resultar num filme moralista ou vulgar. Vendo o filme percebe-se que Baldini não queria ser uma coisa nem outra, apesar de toda a curiosidade e especulações, o diretor quis fazer um filme sério. Claro que tem cenas de sexo, mas o diretor nunca perde de vista sua personagem e a forma como esta lida com seus sentimentos e angústias perante a profissão mais antiga do mundo. Essa busca de um equilíbrio entre o comercialmente viável e as expectativas de um filme sobre prostituição rendeu ao filme mais de um milhão de espectadores e, muito se deve, à sua atriz Déborah Secco. Não apenas por Déborah ter um vasto fã clube de marmanjos, mas porque a garota mostra que longe dos tipos cabeça-oca que insistem em lhe dar na TV, ela pode se tornar uma atriz de notas mais dramáticas. É corajosa a forma como enfrenta a transição de Bruna de garota meio tímida para um furacão sexual que torna-se a preferida de seu local de trabalho. Baldini não poupa recursos para desglamourizar qualquer ilusão de um mundo marcado por humilhações, drogas e conflitos internos que precisam se esconder por trás de uma personagem.  O roteiro faz tudo direitinho (até demais), mostra Bruna, ainda Raquel, em sua família onde os quesitonamentos eram deixados de lado com um sonoro "vamos mudar de assunto", os problemas na escola (bullying again!), a chegada ao prostíbulo, o ciúme das colegas, os primeiros clientes, as ambições, a ascenção, a queda, a retomada onde Bruna tem que lembrar quem ela é ou quer ser. Baldini não tenta fazer da trajetória de Bruna agradável para o espectador, mesmo que algumas cenas flertem com o humor (os clientes mais excêntricos, a cotação dada a eles no blog, a cena no salão de cabelereiros) o tom está longe de ser leve. Baldini além de ter escolhido bem sua protagonista, também foi muito feliz na escolha de seu elenco de apoio, com destaque para Drica Moraes, Fabiula Nascimento, Cristina Lago e Cássio Gabus Mendes (que tem encontrado nas telas alguns de seus melhores momentos). Bem produzido e filmado, Bruna Surfistinha chega a surpreender pela honestidade que é feito.

Bruna Surfistinha (Brasil/2011) de Marcelo Baldini com Déborah Secco, Cássio Gabus Mendes, Drica Moraes, Fabíula Nascimento, Cristina Lago, Juliano Cazarré e Clarisse Abujamra. ☻☻☻

CATÁLOGO: Vamos Nessa


Katie e Sarah: traficantes, aspirinas e carros raivosos.

Falando em filmes independentea (e Katie Holmes), chega a ser vergonhoso eu admitir que vi Vamos Nessa, o segundo filme de Doug Liman, pela primeira vez hoje de manhã! O filme esteve em várias listas de melhores do ano em que foi lançado (e convenhamos que não era um ano qualquer, era 1999! Ano de Quero ser John Malkovich, Beleza Americana, O Talentoso Ripley, Magnólia, Clube da Luta...) e serviu para consolidar Liman como um diretor arrojado. Antes ele havia realizado Curtindo a Noite (1996) com roteiro de Jon Favreau (diretor de Homem de Ferro), mas neste aqui ele demonstrou as qualidades que o colocaria no piloto da trilogia Bourne (2002) e em produções como Sr. e Srª Smith (2005). Basta ver as cenas de ação que realiza para ver porque o cara foi parar em filmes de ação. O mais incrível é que Vamos Nessa é uma comédia. Ok, uma comédia de ação (assim como o filme do casal Smith) só que não gira em torno de policiais ou matadores profissionais, mas de um grupo de adolescentes. Narrado em três núcleos que se interagem, Vamos Nessa tem como personagem principal a loura Ronna (Sarah Polley), que está com problemas financeiros, mesmo ficando quatorze horas trabalhando no caixa de um supermercado suburbano. Ela precisa de 300 dólares para pagar o seu aluguel e acaba conhecendo dois atores (Scott Wolf e Jay Mohr) que precisam comprar ecstasy para animar um grupo de amigos numa rave. Ronna e seus fiéis escudeiros (Holmes e Nathan Bexton) não fazem ideia que vão se meter em uma grande confusão envolvendo uma investigação sobre narcotráfico e um traficante com cara de doidão (Timothy Olyphant). Liman mostra grande competência em misturar as trajetórias dos personagens que tem nas mãos, de forma que a narrativa nunca parece forçada ou quebrada, a trama flui tranquilamente quando deixa Ronna entre a vida e a morte e volta ao início de tudo para mostrar o dia de seu amigo junkie (Desmond Askew) para depois seguir os dois atores - que se encontram às voltas com um casal estranho (Willian Fichtner e Jane Krakowski) e o risco de terem seus segredos revelados.  Neste liquidificador de tramas, sons e cortes vibrantes, Liman comprovou que sabe fazer cinema de apelo pop irresistível com orçamentos restritos e sem perder as rédeas das atuações. Não fosse por alguns exageros na trama do meio (que envolve até sexo tântrico) esta poderia ser a obra-prima de Liman - algo que ele ainda persegue, percebemos isso quando vemos sua tentativa de ser sério no recente Jogo de Poder com Naomi Watts e Sean Penn (que já chegou em DVD e que devo escrever uma resenha em breve, mas que posso adiantar que está longe de ter a energia deste aqui).

Vamos Nessa (Go!/EUA-1999) de Doug Liman com Sarah Polley, Katie Holmes, Scott Wolf, Jay Mohr e Timothy Olyphant. ☻☻☻☻