segunda-feira, 10 de outubro de 2011

KLÁSSIQO: Barry Lyndon


Barry Lyndon: ascenção e queda de um anti-herói irlandês.

Quando comecei a me interessar pela obra de Stanley Kubrick fiquei inquieto quando descobri que o diretor de Laranja Mecânica (1971) tinha um filme de época no currículo. Imaginei o estrago que um diretor inquieto como Kubrick seria capaz de fazer neste gênero, mas quando vi Barry Lyndon recentemente me dei conta que não é um estrago tão grande assim, ou melhor, não existe estrago nenhum. Lyndon é o filme mais comum do diretor, o que não quer dizer que seja ruim ou não tenha méritos. Soube que o filme não foi bem recebido quando foi lançado, mas se carregasse nos créditos o nome de qualquer outro diretor ele teria recebido elogios rasgados, aparecido nas cabeças do Oscar (que lhe deu até quatro Oscars técnicos) esse tipo de coisa. O nome Kubrick pesa, pesa tanto quanto as narrativas de seus filmes e Lyndon só parece ser diferente, a essência do gênio permanece ali. Como é que eu posso falar mal de um filme com o gigantesco cuidado visual que possui? Está certo que o filme é um mamute (as três horas de duração poderiam ser encurtadas em meia hora), mas está longe de ser sonolento (mas talvez eu ache isso porque curti muito mais a segunda parte do que a primeira). Ao levar para as telas a obra de William Makepeace Thackeray, sobre o fictício Barry Lyndon no século XVIII, Kubrick exercita mais uma vez suas ironias. É óbvio que a primeira parte, quando Barry (vivido por Ryan O'Neal) - ainda Redmund Barry - é puro pretexto para debochar do tom épico da narrativa - e o romântico Barry morre de amores por sua prima que é uma bela biscateira. Sendo ingênuo e imaturo é fácil para o  personagem conquistar a nossa afinidade. Existe algo de juvenil no fato de fugir de casa, ficar sem rumo no mundo até se alistar no exército e se arrepender pouco depois. Pelas andanças de Barry ele tem sua visão de mundo transformada - e seu caráter também. Se na primeira parte o humor aparece nos momentos mais absurdos (como a trilha sonora jocosa ou piadas quase inacreditáveis, incluindo dois soldados homossexuais discutindo a relação enquanto tomam banho num rio) a segunda parte faz todo inverso. Da metade em diante, Barry realiza um golpe do baú com a bela Lady Lyndon (Marisa Berenson) e adota seu sobrenome. Belo, ainda jovem e rico não precisa nem dizer que o cara gasta sua fortuna em bebedeiras e orgias - para o desespero da mulher que fica cada vez mais melancólica. Todo romantismo e heroísmo de Barry vira do avesso quando vemos um personagem mulherengo, de caráter frio e agressivo (ele e o enteado nunca se entenderão). Embora pareça um filme de época como tantos outros, Kubrick é essencialmente um provocador, por isso seu filme não tem pudores em imprimir a mudança de seu personagem nos tons de sua narrativa. O que poderia ser um herói se torna um vilão aproveitador por decorrência dos fatos e nisso existe muito do filósofo Rousseau no filme - e sua afirmação de que o "homem nasce bom e a sociedade que o corrompe". O que Barry Lyndon nos pergunta é até que ponto o homem é um joguete dos apelos de uma vida de excessos? Mesmo com toda a pompa visual, a história do filme é essencialmente sobre um sujeito que se torna cada vez mais mal-caráter (embora eu ache que a atuação de O'Neal pudesse ter mais energia), ou seja, um querido mocinho que se torna num odioso vilão enquanto luta pelo seu posto na nobreza.  

Barry Lyndon (Reino Unido - 1975) de Stanley Kubrick com Ryan O'Neal, Marisa Berenson, Patrick Magee e Gay Hamilton. ☻☻☻☻

DVD: Sem Limites

Cooper: Mais inteligente do que pensava.

Lembro de Bradley Cooper fazendo o papel de um ator canastrão e mulherengo na série Nip/Tuck, mas ele só chegou ao estrelato quando fez o sucesso Se Beber, Não Case (2009), mas desde então a vida não estava sendo fácil para o cara. Fez a baboseira As Idas e Vindas do Amor (2010), o remake de Esquadrão Classe A (2010) que não fez o sucesso esperado e a continuação de Se Beber... (2011) que passou longe do sucesso do anterior. Sorte que apareceu no seu caminho o roteiro de Sem Limites e lhe deu um sucesso surpresa num ano de vacas magras. O melhor de Sem Limites é que não tem grandes pretensões, trata-se de um filme de verão americano com ação, algum suspense uma pitada de romance e um roteiro que traz até alguma novidade. Bem feitinho e bem resolvido o filme encontrou abrigo na ausência de concorrentes de peso quando entrou em cartaz. Além das qualidades do filme em si, Bradley Cooper pode comemorar por dar conta de um personagem mais dramático do que havia realizado até então e, talvez pelo seu tom sério, pela primeira vez me dei conta de como ele parece com Ralph Fiennes! No filme, Cooper interpreta Eddie Morra, um escritor que não consegue escrever e nem convencer a namorada (Abbie Cornish) de que se casar com ele é uma boa ideia. Ainda revivendo as lamúrias do divórcio, barbudo, mal vestido e cabeludo as coisas não vão muito boas até que ele encontra o irmão de sua ex-esposa. O cunhado é um desses traficantes de drogas moderninhas que sempre aparecem em filme americano e lhe oferece uma novidade no mercado: uma pílula transparente que quando ingerida faz com que a pessoa utilize toda sua capacidade cerebral. Chega a ter certo charme o fato do filme ter seu enredo brotado de um mito antigo (de que a humanidade utiliza somente 20% de sua capacidade intelectual) e a ideia da pílula estimulante misteriosa (chamada NZT) resolve a descrença sem maiores dificuldades. Embora seja um pouco longa a parte em que Eddie descobre seus poderes - e consegue utilizar todas as informações de suas memórias de forma articulada de forma a de escreve um livro em uma noite - o filme é bem interessante. A história começa mesmo quando Eddie procura seu cunhado por mais uma dose e acaba se envolvendo em crimes (que para seu azar ficam cada vez mais constantes quando procura utilizar suas habilidades no mercado financeiro). Embora tenha uma crítica aqui e outra ali sobre o uso de drogas o roteiro é esperto o suficiente para perceber que sua trama é mais fantasiosa do que realista, não perdendo muito tempo com esse tipo de coisa. O diretor Neil Burger (de O Ilusionista/2006) consegue imprimir bom ritmo na narrativa e saídas gráficas interessantes para contar sua trama (aquelas cenas da câmera em alta velocidade num efeito vertiginoso funciona muito bem e a edição picotada na hora certa para reproduzir a percepção alterada de seu personagem também é algo positivo) e o roteiro de Jo Willems nos poupa daquelas piadinhas infames que costumam aparecer nesse tipo de filme. Sem Limites é filme pipoca bem feito e ainda conta com a participação especial de Robert DeNiro numa ponta de luxo (que serviu para conseguir alguma atenção da mídia para um filme que não era sequência, remake, adaptação de quadrinhos, games ou best seller) sem ameaçar Bradley Cooper de ter o seu melhor momento na tela desde que Hollywood o descobriu.

Sem Limites (Limitless/EUA-2011) de Neil Burger com Bradley Cooper, Robert DeNiro e Abbie Cornish. ☻☻☻

domingo, 9 de outubro de 2011

CATÁLOGO: Ratos e Homens


Malkovich e Fenn: ingenuidade e brutalidade brotando no mesmo lugar.

Encontrei este filme dia desses e não fazia a mínima ideia de que Gary Sinise é quem dirigiu o longa (agora aquela piadinha no final de Quero Ser John Malkovich/1999 faz todo o sentido). A relação de Sinise e Malkovich é bem antiga, já que eles faziam parte da mesma companhia de Teatro (a Chicago Steppenwolf, da qual também fazia parte a sumida Joan Allen) e o entrosamento entre os dois atores é um dos pontos positivos deste filme que apesar de ser baseado no famoso segundo livro de John Steinbeck chega a incomodar com sua despretensão. Sinise conta a história sem estardalhaço, sempre conseguindo equilibrar o que há de bem-humorado e trágico na trajetória dos amigos Lennie (Sinise) e George (Malkovich). O início sombrio do filme, seguido de uma cena da dupla fugindo já deixa claro que se meteram em encrenca - e as roupas gastas já deixa claro que o filme se passa durante a grande depressão econômica dos EUA na década de 1930 (a mesma que deu contornos para a trama de Dogville/2002). Os dois chegam à uma fazenda nos cafundós da Califórnia e não demora muito para percebermos que os patrões não são as criaturas mais gentis do pedaço e que George... digamos... não é cem por cento. Apesar de ser grandalhão, George é de uma ingenuidade infantil (e acho que nunca o sorriso e olhar de Malkovich foi tão útil a um personagem), mas ao mesmo tempo percebemos que sua presença representa alguma ameaça à paz de Lennie. Não há dúvida de que ambos são amigos e Lennie cuida de Goerge como se fosse um irmão mais velho, sendo que antes de contar a trsite história de seu amigo, nossa torcida já é para que tudo dê certo para os dois. Mas, se você conhece esse tipo de filme sabe que as coisas não serão muito fáceis, especialmente quando aparece uma garota com a cara de Sherilyn Fenn toda se querendo e cheia de insinuações para Lennie - desde o primeiro momento se sabe que a garota é pura encrenca e piora mais ainda quando se descobre que ela é filha do marrento filho do dono da fazenda. Pois é, a vida não é fácil e pode piorar mais ainda quando Lennie e George planejam reconstruir a vida numa fazenda só deles para criar coelhos! Sinise realiza um bom trabalho de direção e consegue conduzir a trama sem grandes surpresas, mas sempre cumpre seus objetivos - das cenas mais dramáticas (como a cena em que um senhor muito idoso aceita sacrificar seu cachorro velho) e assustadoras (quando George esmaga a mão de um valentão) até o final melancólico. Ratos e Homens é um bom filme, bem realizado e que poderia ter se tornado uma obra maior se Sinise houvesse ousado só mais um pouquinho. Honrando o livro em que se inspira, o filme é infinitamente melhor do que a versão de 1939 (que recebeu no Brasil o nome de Carícia Fatal!!!).

Ratos e Homens (Of Mice and Men/EUA-1992) de Gary Sinise com Gary Sinise, John Malkovich, Sherilyn Fenn e Casey Siemaszko. ☻☻☻

DVD: A Saga de Uma Família


Gandolfini, Lane e Robbins: o vovô de The Osbournes.

Falando de Reality Shows pouca gente deve lembrar que a coisa não começou com o famigerado Big Brother. A história do embrião de tudo que há de interessante e obscuro nesse tipo de programa é o foco de Cinema Verité, filme produzido com o padrão de qualidade HBO e com elenco do porte de Diane Lane, Tim Robbins e James Gandolfini. Exibido no Brasil com o título pouco inspirado de A Saga de Uma Família o filme explora algo que eu já havia percebido há tempos e que meus amigos mais intelectualóides quase me mataram quando contei: os reality shows são filhos dos documentários. Não sei por qual motivo (talvez pelos realitys serem exibidos na TV e os documentários serem considerados uma forma mais elevada e séria de cinema) mas esse parentesco é rejeitado quando todo mundo resolve esculhambar o Big Brother e outros programas de gênero. Esse borrão nas fronteiras do documentário é de onde nasce  o programa An American Family, lançado em 1973, onde uma família, os Loud de Santa Bárbara, aceitarm o convite para ter seus dias filmados, editados e exibidos num programa de televisão sem ganhar um tostão por isso. A ideia, nascida da mente do cineasta Craig Gilbert (Gandolfini, um dos atores mais interessantes dos EUA, mas que não tem recebido o devido espaço nos cinemas desde que acabou o seriado Família Soprano) brotou do documentário realizado pela renomada antropóloga Margareth Mead como estudo de antropologia cultural. No entanto, ao invés de utilizar a observação de famílias em Samoa e Nova Guiné (nas décadas de 1920 e 1930), a ideia de Gilbert era filmar o cotidiano de uma família comum estadounidense. Vale destacar que apesar dos Loud formarem uma família como tantas outras, Gilbert notava que havia uma tensão ali que era comum na época (afinal era a década de 1970 com suas rupturas comportamentais, sexuais, sociais, experimentais...) que quando devidamente estimulada poderia explodir: uma mãe (Diane Lane, excelente) que fica entre a transformação e a manutenção da ordem exigida na casa pelo esposo conservador (Tim Robbins), uma filha pré-adolescente, uma que inicia sua vida amorosa, dois irmãos roqueiros e um que está prestes a sair do armário (Thomas Dekker que vive Lance Loud). Inspirado pelo movimento de Cinema Verdade (daí o nome original) a ideia foi vendida para a recém criada TV educativa e quando foi ao ar se tornou um sucesso - enquanto a família era massacrada pela mídia e os próprios espectadores. Com as feridas íntimas expostas em rede nacional o resultado foi uma catástrofe tamanho família para os Loud, alvo de julgamentos de todos ao redor, os Loud não seguraram a pressão em sua vida pessoal de forma que restou-lhes revidar em programas de entrevistas e revistas. A família argumentou ter sido manipulada por Gilbert, os câmeras responsáveis pelas filmagens (Patrick Fugit é o que tem mais destaque como Alan Raymond) também brigaram com o produtor e a fidelidade aos fatos foi atacada como não sendo tão fiel assim. Os diretores Shari Springer Berman e Robert Pulcini conseguem fazer seu filme mais instigante desde O Anti-Herói Americano (2003) e lança questões para o público que fez o gênero Reality um sucesso da TV atual. O que há de tão interessante na vida alheia? Por que é tão comum massacrar essas pessoas que expoem suas vidas em troca de um pouco de fama? E a melhor de todas: existe mesmo alguma realidade nesse tipo de programa? Se pensarmos que a realidade não pode ser percebida num momento descolado do todo (essa é a crítica que sempre remete ao que se perdeu na ilha de edição) sobra pouco mais do que show nesse tipo de coisa. Berman e Pulcini realizam um bom trabalho, com ótima reconstituição de época, boa fotografia e tensão crescente,  mas não me incomodaria se dedicassem mais tempo aos rumos que a família seguiu depois que as visceras desse ambiente familiar foram exibidas. A opção por resumir a jornada de cada um depois do programa em breves parágrafos ao fim da sessão me deixou a sensação que o melhor dessa experiência de Cinema Verité ficou de fora. Só para lembrar, Alan e Susan Raymond (os câmeras que brigaram com Gilbert) continuaram na carreira de documentarista tendo sido indicados ao Oscar duas vezes, ganhando em 1994 por I am a Promise (documentário sobre crianças de uma escola pública americana).

A Saga de Uma Família (Cinema Verité/EUA-2011) de SShari Springer Berman e Robert Pulcini com Diane Lane, Tim Robbins, James Gandolfini, Thomas Dekker, Patrick Fuggit e Johny Simmons. ☻☻☻

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

CATÁLOGO: 1984

John Hurt: o melhor participante do Big Brother de todos os tempos

Um dos meus livros favoritos de todos os tempos é 1984 de George Orwell e sempre me irrita quando alguém fala sobre ter errado o ano em que seríamos vigiados por câmeras no estabelecimento de uma sociedade totalitária e vigilante. Lançada originalmente em 1948, a narrativa de Orwell é sufocante ao mostrar um mundo dividido em três grandes Estados: Eurásia, Lestásia e Oceania. Londres é a capital deste último que é liderado pelo Grande Irmão - um líder ditatorial que estabelece todas as regras de conduta e que é unipresente sob o uso de câmeras para vasculhar a vida dos cidadãos e conter comportamentos que são considerados dissonantes e, portanto, ameaçadores ao regime. A vigilância e a opressão afetam até mesmo o uso de palavras consideradas perigosas e todas relações sexuais - que são proibidas (afinal de contas, qualquer ato que desperte prazer é ameaçador, porque vai que as pessoas resolvam ter prazer em tudo que fazem?!). O protagonista da trama é Winston Smith (no filme vivido pelo bom John Hurt), um funcionário do Ministério da Verdade que fiscaliza as notícias publicadas nos jornais em busca de ameaças implícitas dos seguidores do inimigo do regime, um tal de Goldstein. No entanto, Smith mostra-se cada vez mais indiferente à esta sociedade castradora que o cerca, pelo menos até conhecer Julia (Suzanna Hamilton) e perceber que um pouco de rebeldia é capaz de dar graça aos seus dias - ainda que coloque em risco a sua mísera liberdade. Bem escrito, sombrio, apocalíptico e político na sua narrativa de um poder opressor, o livro de Orwell é obrigatório e precisa ser lido nem que seja para compreender o uso (assustador) do termo Big Brother. No entanto o filme de Michael Radford não consegue alcançar metade da intensidade da narrativa do livro, sua intenção parece ser mostrar como a vida é sem graça em Oceania, mas, com isso, compremeteu a graça de seu próprio filme. Sobra indiferença e distanciamento na trama consagrada que mostra-se cada vez mais atual quando um bando de desinformados cultuam os tempos da ditadura e exaltam a censura. Embora conte com uma bela direção de arte, ótima fotografia, trilha arrojada e um ator exemplar (Hurt) o filme não consegue encontrar seu ritmo sendo na melhor das hipóteses sonolento. Sei que a trama dó livro 1984 está longe de ser um thriller de ação como Minority Report (2002), mas também não é esta coisa arrastada que nos distancia cada vez mais dos personagens e suas angústias. Embora tenha alguns acertos o filme está longe de ter a grandiosidade do livro e torna-se apenas superficial em sua leitura de um clássico. Nem mesmo quando Smith é capturado o filme chega a empolgar. Chega a ser lamentável a forma como o filme passa por cima de questões atuais como o poder da imagem, a força do discurso, as campanhas de marketing governamentais que vendem realidades e a ameaça do poder transformador da rebeldia. A ideia de Radford foi fazer o filme para homenagear o livro no ano que lhe dá o título, mas a impressão que deixa é que trata-se de mais um desses que leem o livro e saem dizendo que "Orwell errou o ano!", sinceramente o que isso interessa diante do brilhantismo da obra de Orwell? Brilhantismo esse que acabou de fora desta adaptação burocrática. O livro teve uma versão anterior em 1956, mas esta é quase impossível de encontrar.

1984 (Reino Unido/1984) de Michael Radford com John Hurt, Richard Burton, Suzanna Hamilton e James Walker. ☻☻ 

DVD: Identidade Paranormal


Meyers e Moore: "Toc, toc... quem está aí?"

Julianne Moore é uma das melhores atrizes de Hollywood. Premiada (só pelos filmes que fez em 2002 tem os prêmios de Melhor Atriz em Veneza por Longe do Paraíso e Berlim por As Horas) e querida pela crítica, a atriz sabe que seu talento dá conta de papéis que nem mereciam uma atriz de tantos recursos. Além disso, tenho a suspeita de que ela possui a frustração de ter perdido o papel da agente Dana Scully do seriado Arquivo X para outra ruiva (Gillian Anderson). Tenho essa suspeita desde que ela aceitou fazer um pastiche de Scully ao lado do Fox Mulder/David Duchovny no intragável Evolução (2001) - filme que lidava com alienígenas num desleixo raramente visto em filmes de estúdio. Anos depois levou o sobrenatural mais a sério com o melhorzinho Os Esquecidos (2004) que fez sucesso de bilheteria, mas não era nada demais. Ano passado, entre a frieza de O Preço da Traição e a consagração de Minhas Mães e Meu Pai, a atriz encontrou tempo para este Personalidade Paranormal (péssima tradução para o título em inglês: Abrigo). Trata-se de um filme de terror desgovernado que flerta mais uma vez com os tipos de personagens estranhos que eram vistos no seriado Arquivo X. Desta vez Julianne é a psiquiatra forense Cara Jessup, no início ela pensa estar lidando com um paciente (Johanatan Rhys Meyers) que sofre de personalidades múltiplas (ou transtorno dissociativo). Mas aos poucos vai perceber que é algo muito mais complicado do que pode explicar sua vã psicanálise! Aos poucos novas personalidades vão dominando o personagem, todas envolvidas com identidades de pessoas mortas - e não demora muito para percebermos que o cara é um verdadeiro ímã de almas penadas! Mais do que isso, o cara é uma espécie de mutante que absorve a alma das pessoas! Sei que é sinistro, mas os diretores Måns Mårlind e Björn Stein devem ter achado que a estranheza de contar com um personagem assim já daria para segurar um filme. Talvez por isso chega uma hora em que tudo fica arrastado, repetitivo e aí o roteiro descamba para personagens coadjuvantes que manjam de bruxaria e tudo mais. A esta altura você até quer saber que fim aquilo tudo vai ter, mas o diretor não se esforça em fugir do trivial (todo mundo sabe que os parentes da psiquiatra estão ali somente para perecer pelo caminho). Julianne é mais uma vez desperdiçada nesse tipo de filme, mas é Johnatan Rhys Meyers que perde a chance de ter uma atuação inesquecível no papel do rapaz que absorve os espíritos dos defuntos e, com isso, tem a chance de explorar diversos personagens. Meyers tem uma atuação correta e nada mais, falta algo na atuação do premiado astro da série The Tudors, assim como em todo o resto do filme de premissa até interessante, mas que se perde em soluções fáceis para suas. Melhor ir numa locadora ou rever um dos episódios de Arquivo X que está sendo apresentado no canal TCM às segundas e sextas sempre na meia-noite.    

Identidade Paranormal (Shelter/EUA-2010) de Måns Mårlind e Björn Stein com Julianne Moore, Johnatan Rhys Meyers, Jeffrey DeMunn e Frances Conroy. ☻☻

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

CATÁLOGO: Os Grandes Músicos


Mitch & Mickey: sucesso no passado, no filme e no Oscar.

Mitch e Mickey formavam uma dupla de música folk de grande sucesso quando o gênero estava no auge, mas por alguns problemas de percurso (que nunca fivam muito claros) os dois acabaram se separando. O reencontro do casal aconteceu em 2003, quando o falecimento de um artista do gênero rendeu uma homenagem com a participação de seus artistas contemporâneos. Mickey casou com um cara que vende materiais cirúrgicos enquanto Mitch afundou em esquisitices (seria por uso de drogas?) e o reencontro da dupla responsável pelo sucesso "A kiss at the end of the raibow" é o momento mais esperado da homenagem. Parece uma ideia de documentário? Pois este é o fictício Os Grandes Músicos de Christopher Guest, um especialista do gênero Mockumentary e que possui um estilo muito próprio de fazer seus filmes independentes e sempre na boa companhia de sua boa patota (Parker Posey, Jane Lynch, Harry Shearer, Catherine O'Hara...). Quem conhece seus filmes (o mais cultuado de seus longas, This is Spinal Tap/1984 acaba de ser eleito a melhor comédia de todos os tempos) sabe que existe um monte de referências e piadas sobre a própria linguagem documental (os tipos recorrentes do tema abordado, a postura dos entrevistados tentando imprimir seriedade mesmo nas partes mais constrangedoras, os sorrisos amarelos...). Mas Os Grandes Músicos é até inofensivo diante do carinho com que o diretor trata os personagens Mitch (Eugene Levy, hilariante) e Mickey (a ótima Catherine O'Hara), claro que sobra piadinhas para os produtores e empresários que buscam capitalizar o evento para faturar umas verdinhas e ressuscitar carreiras. Existem brigas de egos e inseguranças por parte desses artistas, mas Guest apresenta tudo sem muita maldade, mas com humor refinado e que flerta com o drama quando está em cena o problemático Mitch. É hilariante a cena em que mostra as capas cada vez mais depressivas de seus discos após a separação de Mickey (o roteiro nunca explica muito bem o que aconteceu, mas nem precisa, a cara de Eugene Levy já deixa claro que o cantor andou ingerindo substâncias... digamos... ilícitas!). É um filme de uma piada só, mas que  é tratada com muita simpatia pelo roteiro e elenco, com direito a cenas ternas (como o reencontro do casal protagonista cantando a música que rendeu até apresentação no Oscar  - num dos momentos mais bacanas da cerimônia) e outras inusitadas (como o cantor que assume ser uma mulher aprisionada em corpo de homem). Entre risos e gargalhadas, Christopher Guest (que é esposo de Jamie Lee Curtis) ainda demonstra fôlego para muitos documentários de mentirinha.

Os Grandes Músicos (A Might Wind/EUA-2003) de Christopher Guest com Catherine O'Hara, Eugene Levy, Jane Lynch, Parker Posey, Bob Balaban e Harry Shearer. ☻☻☻

DVD: Há Tanto Tempo que te Amo


Elsa e Kristin: irmãs reatando laços.

Uma atriz que admiro muito é Kristin Scott Thomas, lembro quando a vi a primeira vez em Lua de Fel (1992) de Roman Polanski num papel pequeno - esposa de Hugh Grant. Fiquei instigado com aquela atriz que não tinha medo de fazer pose de antipática enquanto a esposa de Polanski, Emanuelle Seigner era "a gostosa" do longa. O filme estava longe de ser perfeito, mas Kristin já mostrava que podia fazer bonito num papel maior. Ele em Quatro Casamentos e Um Funeral (1994), cultuada comédia assinada por Mike Newell - onde dessa vez fazia uma antipática refinada e com destaque na trama (ser apaixonada por Hugh Grant!). Não demorou muito para Kristin ser indicada ao Oscar quando foi escolhida para ser a heroína de O Paciente Inglês (1996). Curiosamente sua carreira ganhou prestígio, mas não decolou, nem adiantava trabalhar com nomes como Robert Redford (O Encantador de Cavalos/1998) ou Harrison Ford (Destinos Cruzados/1999) se os roteiros frouxos não ajudavam. A atriz foi recebendo papéis de pouco destaque com o passar dos anos - sempre com performances esforçadas-, mas quem é fã da atriz britânica teve que se contentar com papéis pequenos até que a atriz se aventurou pelo cinema francês em Há Quanto Tempo que Te Amo (2008) do diretor estreante Phillipe Claudel. Não é por que eu sou fã, mas a atriz alcança um momento excepcional em sua carreira como a ex-presidiária que tenta reconstruir a vida enquanto mora com a irmã, o cunhado e as sobrinhas. Pela atuação Kristin foi (merecidamente) indicada ao Globo de Ouro. Trata-se de uma personagem difícil, pesada, mal-humorada, com repentes de ira e tudo mais. É impressionante como a atriz consegue sintetizar o estado de espírito de sua personagem já nas primeiras cenas, quando o diretor lhe reserva closes que mostra o quão sem energia aquela mulher está. Mas os méritos não são apenas da atriz, sua parceira em cena, Elsa Zylbertein, também alcança momentos sublimes como a irmã bem intencionada, que coloca seus sentimentos fraternais acima de qualquer atitude da irmã. Afinal de contas, são irmãs, possuem uma história em comum, um sentimento que persiste apesar de todos os fatos que aconteceram. Claudel não se esforça em fazer um filme de grandes recursos visuais, trata sua trama com sobriedade, ritmo lento e com cenas que terminam antes do esperado, mas não perde o foco do roteiro - que parece uma reflexão sobre uma espécie de "cartilha do ex-presidiário". Os encontros com a família, as desconfianças que surgem, a busca de um emprego, os encontros com a assistência social, a primeira relação sexual (depois de quinze anos de enclausuramento), a diferença é que o olhar sobre esses fatos é sempre o de Juliette - que evita ter pena de si e falar sobre a tragédia que a levou para a prisão. Na verdade, o drama do longa é contado como um quebra-cabeça, onde as peças surgem aleatóriamente e que buscamos encaixar aos poucos. A desconfiança que se instaura no público se dissipa aos poucos quando a personagem reencontra um rumo para sua vida e ajusta os pontos com a nova fase em que se encontra. Esta fase começa se torna mais fácil para a personagem quando a trama começa a dedicar espaço para os dramas de quem a cerca, desde a mãe senil que se encontra num azilo, um intelectual viúvo e (com visíveis interesses amorosos) e um assistente social atencioso e depressivo. Sem apelar para o dramalhão, nem quando todas as circunstâncias do crime são expostas, o filme resulta num longa construído sobre pessoas comuns lidando com a força das circunstâncias que fugiram do controle e a busca de alguma redenção (mesmo que ela pareça cada vez mais distante).  

Há Tanto Tempo que Te Amo (Il y a Longtemps que je T'Aime/ França-2008) de Phillipe Claudel, com Kristin Scott Thomas, Elsa Zylberstein, Serge Hazanavicius e Laurent Grevill. ☻☻☻

domingo, 2 de outubro de 2011

FILMED+: Um Dia de Cão


Pacino: a melhor atuação de uma carreira.

Quando vi Um Dia de Cão pela primeira vez eu devia ter uns doze anos e não era capaz de captar todo brilhantismo com que o filme foi executado. Lembro que ri um pouco da multidão que acompanha as desventuras de Al Pacino em seu caótico assalto a banco e de alguns personagens que pareciam ter saído de alguma novela das sete (naquela época as novelas da sete eram altas comédias de gargalhar com vontade), mas lembro de já ter notado que o filme estava longe de ser uma comédia. Era um filme triste e seu final deixava isso bem claro. Vinte anos depois revi o filme e é impressionante este trabalho de Pacino nas mãos de Sidney Lumet. Poucos clássicos merecem ser chamados assim com tanta justiça quanto este. Além de se tratar de uma obra-prima, o filme ainda carrega as marcas do tempo em que foi feito com uma propriedade excepcional. O filme se passa na década de 1970, quando Sonny (Pacino) resolveu assaltar um banco pela manhã com dois amigos, um deles desiste logo no início (e nem aparece mais na história), o outro, Sal (John Cazale) é a contradição em pessoa em mostrar-se temente a Deus enquanto segura uma arma em direção aos reféns. O problema maior da situação é que Sonny se dá conta de que no cofre existe pouco mais de mil dólares, já que o dinheiro já fora recolhido, e ao tentar sair do banco, percebe estar cercado pela polícia. Sidney Lumet realiza um trabalho excepcional ao aumentar a tensão de seu protagonista gradativamente e considero difícil que um ator pudesse dar mais magnetismo a Sonny do que Pacino. Basta ver a primeira cena em que percebe a enrascada em que se meteu para torcer para que no fim tudo acabe bem para ele. Eu sei que estou falando de um ladrão, mas aos poucos Lumet mostra que o personagem é muito mais rico do que a aquela situação é capaz de evidenciar - essa sensação só aumenta quando ele conversa com a polícia pela primeira vez diante da multidão de civis que se aglomera em frente ao banco e todos parecem estar torcendo por ele (inclusive os reféns, que assim que as polícia surge, parecem se sentir mais ameaçados por eles do que pelos bandidos). Devo ressaltar que além de Pacino, todo o elenco está muito bem, não só Charles Durning (que faz o policial que negocia os reféns com Sonny) como todos os reféns (destaque para Penny Allen, a gerente que coordena quais os reféns devem ser liberados pelo ladrão, afinal, estão sob responsabilidade dela no local de trabalho). Me impressiona como aos poucos a trama se exterioriza, colocando em cena os personagens que estavam aos redor de Sonny antes da confusão. São mostrados sua esposa obesa com duas filhas, sua mãe descontrolada e, finalmente, seu amante Leon (Chris Sarandon, discreto e convincente). Leon é o grande estopim da confusão, amante de Sonny, a confusão se arma quando um psicólogo diz que o cara é uma mulher presa num corpo de homem. Ao ver o amante (se bem que o roteiro diz que os dois se casaram) deprimido com a situação, Sonny resolve roubar o banco. Apesar de gerar em torno de um casal gay o filme não faz estardalhaço ou não motiva o escândalo, mas registra como a revelação de sua homossexualidade pesa mais sobre o público que assiste ao assalto do que o fato dele ser um ladrão. Existe um deboche aqui e outro ali, um desconforto de Sal de ser considerado um cúmplice homossexual, Sonny percebe a diferença no ar... Este pequeno detalhe só enriquece ainda mais a atuação de Pacino, que demonstra sua vulnerabilidade desde a primeira cena e pequenos gestos que evidenciam seu "segredo". Além desse tempero GLS, o filme ainda tem vários elementos de contracultura (a polícia gerando insegurança, os marginalizados que torcem por Sonny, os militatnes gays que aparecem de repente...). Mas, em momento algum, Lumet debocha de seus personagens e motivações. Sem deixar que tudo caminhe para o pastiche, Lumet realiza um grande filme deixando sempre a sensação de que um assalto nunca irá terminar bem, não importa a nobreza das intenções do assaltante. Isso sem falar que ver Pacino em um de seus melhores momentos (eu considero O MELHOR MOMENTO DE AL PACINO) é fenomenal! O filme concorreu a 5 Oscars (filme, diretor, ator, ator coadjuvante/Sarandon e roteiro), mas só ganhou um (roteiro) o que prova que clássicos se fazem mais com talento do que com prêmios. 

UM DIA DE CÃO (Dog Day Afternoon/EUA-1975) de Sidney Lumet, com Al Pacino, Charles Durning, John Cazale, Lance Henriksen, Carol Kane e Chris Sarandon. ☻☻☻☻☻