domingo, 13 de outubro de 2013

APOSTAS PARA O OSCAR 2014 - CAPÍTULO I

Chega à temporada de outono do final do ano começam as especulações sobre quem terá um lugar na temporada de ouro que se anuncia. Sobre os palpites, vale ressalta que nos primeiros cinco palpites do Oscar 2011, todos os comentados receberam indicações, sendo que eu acertei quatro indicados ao prêmio de Melhor Filme e mencionei quatro futuras indicadas ao prêmio de melhor atriz (incluindo a ganhadora daquele ano). No ano seguinte (2012), minha sorte com as atrizes continuou - e acertei três das cinco indicadas logo de primeira (incluindo a ganhadora mais uma vez), mas o ganhador do Oscar daquele ano só veio no palpite posterior. Já em 2013 o grande vencedor da noite aparecia entre meus primeiros palpites. E para o ano que vem? Será que algum ganhador está nessa lista? As estatísticas parecem dizer que sim:

Gravidade (Gravity) 
Já que é para começar do começo, vamos iniciar do primeiro forte candidato que apareceu nos cinemas brasileiros. Gravidade de Alfonso Cuarón se tornou numa espécie de unanimidade desde que foi exibido no Festival de Veneza. A ficção científica intimista sobre a astronauta que se perde no espaço coleciona elogios - e tem indicação certeira para melhor atriz para Sandra Bullock (o que é bastante merecido já que a presença de uma estrela do seu quilate ajudou a viabilizar um projeto arriscado em 3D). Mesmo que o tom aventuresco espetacular não faça sucesso na votação final da Academia, dificilmente o filme será ignorado (as categorias técnicas já são uma barbada).

American Hustle
Jennifer Larence? Amy Adams? Bradley Cooper? Robert DeNiro? Parece uma reedição dos indicados do ano passado, mas não é. Trata-se de American Hustle, filme de David O. Russell sobre a história real de um golpista (Christian Bale) e sua amante (Amy Adams) que são forçados a trabalhar com um estranho agente federal (Bradley Cooper) para desmascarar mafiosos, vigaristas e políticos corruptos. A confusão está armada com o acréscimos de Jeremy Renner como um político que se envolve na história. Drama, romances, suspense e traições se misturam no decorrer do filme  que tem o maior número de já indicados ao Oscar por metro quadrado da temporada. 

Dallas Buyer's Club
Se alguns colecionam indicações, outros lutam para conseguir a sua primeira consagração. Matthew McConaghey se esforça desde o ano passado e dessa vez, parece que a coisa vai. Ao seu lado está Jared Leto, que retoma seu estilo de transformações físicas para mostrar que não é só um rostinho bonito. O diretor Jean-Marc Vallée conta com esses dois atores de grande apelo ao público feminino para contar uma história ambientada no início da propagação da AIDS na década de 1980. McConaghey é Ron Woodroof, um ninguém que vive de pequenos golpes e que contraiu o HIV no uso de seringas compartilhadas. Woodroof acaba se metendo num esquema de compra de remédios ilegais junto com outros soropositivos - que inclui o travesti Rayon (Leto). Embora o filme corra o risco de descambar para a militância, a dupla central transpira carisma e tem chances nas premiações. 

Doze Anos de Escravidão (12 Years a Slave)
Grande vencedor no Festival de Toronto, 12 Years Slave é a terceira parceria do diretor Steve McQueen com o ator Michael Fassbender. A trama conta a história de Solomon Northup (Chiwetel Ejiofor), um sujeito casado e educado que via para assumir um emprego em Washington é enganado e termina sendo escravizado. Sua liberdade agora depende das cartas que escreve para esposa e que chegam até ela com a ajuda de um abolicionista. Ao contrário dos outros filmes de McQueen, o filme tem a maior cara de Oscar e já está cotado como um dos favoritos ao prêmio. 

O Lobo de Wall Street (The Wolf of Wall Street)
Leonardo DiCaprio se entrega mais uma vez à direção de Martin Scorsese e comprova a tendência de história reais no Oscar 2014! O filme acompanha a trajetória de um corretor da bolsa de valores que passou quase dois anos preso por delitos de manipulação durante a década de 1990. A seu favor, o longa tem os créditos ilustres - mas o fato de ter que lidar com inúmeros filmes semelhantes sobre o cotidiano de Wall Street, o filme pode perder o fôlego na reta final. Ainda assim, ver Leonardo DiCaprio visivelmente mais envelhecido pode ser interessante - especialmente para esquecer o fracasso de O Grande Gatsby de Baz Luhrman. 

DVD: O Som ao Redor

Jahn: pesadelos urbanos e ameaças constantes. 

Muitos críticos ficaram animados quando o Brasil anunciou que O Som ao Redor seria o nosso candidato a concorrer uma vaga entre os indicados ao Oscar de filme estrangeiro. Considerado a melhor escolha em anos, o filme de Kleber Mendonça Filho foi premiado em festivais e elogiado pela imprensa gringa. O filme me pareceu uma versão brasileira, de acento nordestino, de filmes que já tempos são produzidos no resto da América Latina sobre a ótica da classe média. No Brasil, muitos cineastas já tentaram abordar o cotidiano dos moradores das grandes cidades em que estabilidade é mesclada à insegurança causada pelas diferenças sociais acirradas, no entanto, poucos conseguiram incrementar a abordagem com doses certas de delírio. Muitas vezes o resultado pode ser radical demais, ou abrigar mais pontas soltas do que o público suporta. O grande trunfo de O Som ao Redor é o roteiro bem lapidado que mistura vários personagens em torno de uma mesma história, embora, muitas vezes pareça que as tramas paralelas não se conectam. O início mostra fotos em preto e branco de um Pernambuco que parece ter ficado para trás. A realidade dos coronéis parece logo abandonada quando vemos uma Recife urbana, com as ruas cheias de prédios de classe média, onde a presença de grades e telas parece proteger a população de uma ameaça que está à espreita. O risco está sempre presente no filme, tanto que o roteiro preza por chamar cada parte com um título que remete à proteção (Cão de Guarda, Guarda Costas...), ainda que os moradores levem vidas tranquilas. Ainda que o filme se passe nos dias atuais, utiliza tintas fortes para valorizar o valor da descendência entre um grupo de personagens. Seu Francisco (Waldemar José Solha) seria o dono das terras onde o bairro cresceu com o tempo. Entre filhos e netos o que recebe mais destaque na história é o bom moço João (Gustavo Jahn), que sente o início do relacionamento com Sofia (Irma Brown) ameaçado quando roubam o rádio do carro dela quando dormem juntos na casa dele pela primeira vez. Conhecendo bem a vizinhança, João acredita que foi seu primo Dinho (Yuri Holanda) o responsável pelo roubo. Por uma espécie de coincidência, chega um grupo de homens na rua liderados por Clodoaldo (Irandhir Santos) oferecendo o serviço de vigiar a vizinhança a partir de um pagamento fixo bancado pelos moradores (milícia?). Paralelo a isso, acompanhamos a vida de Bia (Maeve Jinkings), uma dona de casa aparentemente comum que lida com marido e filhos com grande naturalidade -  mas que possui seus pequenos segredos cotidianos que vão para além dos aborrecimentos com o cão do vizinho. Mendonça Filho opta por um tom realista arriscado numa sucessão de situações sutilmente reveladoras - numa mistura clara de atores profissionais e amadores (e acho que isso deixa algumas atuações beirando a apatia). Talvez pelas cenas iniciais com fotos em preto e branco, me senti instigado a criar relações daquelas imagens com tudo que apareceu na tela. A postura de João como um educado coronelzinho, que quer proteger seus agregados e tem ciência do lado bom de sua herança familiar. Francisco como um grande coronel urbano. Dinho como um agroboy inconsequente e os seguranças novatos como jagunços. É neste ponto que o Som ao Redor surpreende ao deixar claro que o grupo de Clodoaldo não está subjugado ao coronel da região. Aos poucos o que era para gerar segurança, acaba sugerindo ameaça ao se misturar com sons estranhos ouvidos pela vizinhança, pessoas desconhecidas que aparecem pela rua, porteiros que não cumprem seu dever, moleques andando pendurados em lajes e árvores. A tensão se faz tão presente quanto recursos tecnológicos (celulares, rádios, câmeras, notebooks...), ilusões de segurança e paranoias urbanas das mais variadas. É ao traduzir essas nóias em imagens e sons (como o batismo de sangue de João num banho de cachoeira nas terras do avô, o quintal invadido por delinquentes ou a eterna confusão entre barulho de tiros e fogos) que o filme se fortalece numa abordagem do cotidiano de pessoas comuns. É verdade que muita gente irá dizer que durante o filme não acontece muita coisa, mas quem ficar atento verá que o roteiro é um dos mais bem trabalhados do cinema brasileiro durante os últimos anos, principalmente pela forma como evoca referências históricas para dar corpo ao subtexto que se revela o principal ao final da sessão. Não lembro, em nossa produção recente, um filme que conseguisse criar uma tensão crescente com tão poucos elementos. Além disso, eu não poderia deixar de destacar o excelente trabalho com a trilha sonora e os sons que perturbam durante o filme. Mesmo que não seja indicado a prêmio algum, O Som ao Redor tem identidade e estilo fortes, esses fatores que o torna uma obra tão instigante ao ir na contramão que se torna cada vez mais comum no formato enlatado do cinema brasileiro. Talvez por isso, o New York Times o tenha colocado entre os dez filmes mais interessantes exibidos nos EUA no ano passado.

O Som ao Redor (Brasil/2013) de Kleber Mendonça Filho com Gustavo Jahn, Irandhir Santos, Maeve Jinkings, Waldemar José Solha, Yuri Holanda e Irma Brown. ☻☻☻☻

sábado, 12 de outubro de 2013

DVD: Um Fantástico Medo de Tudo

Pegg: brincando com psicopatas. 

Acredito que na comédia inglesa atual, Simon Pegg é o rosto que mais aparece no cinema. Desde que lançou paródia sobre zumbis Todo Mundo Quase Morto (2004) fez sucesso, aparecer em chacotas de gêneros cinematográficos virou seu campo de trabalho. É verdade que de vez em quando ele aparece em franquias milionárias de ação (como fez em Missão Impossível: Protocolo Fantasma/2012 e o novo Star Trek/2008), porém, mesmo nesses trabalhos o seu ofício é ser o alívio cômico às cenas de ação. Um Fantástico Medo de Tudo pode não ter alcançado o sucesso esperado nas bilheterias, mas rende boas gargalhadas com seu clima de terrir inglês. Pegg faz um autor de livros infantis que quer mudar de público e se aventura em escrever um livro sobre os maiores serial killers da Inglaterra. Ele só não contava que sua vasta pesquisa de campo o deixaria com uma espécie de síndrome do pânico onde tudo é motivo de desconfiar de que existe um psicopata à sua procura. Suas analogias sobre o olhar assassino de quem passa por perto (onde aparece até a foto hilariante de um bebê para exemplificar a teoria) é apenas uma de suas paranoias. O fato de morar sozinho numa casa que mais parece um mausoléu vitoriano (com direito de à vários recortes de jornais, fotos de assassinos e luzes sempre apagadas sobre a bagunça) também não ajuda. Crianças inocentes pedindo doces, gatos andando no telhado, vento e janelas que abrem sozinhas só aumentam o pavor que o escritor tem do mundo. Ele poderia viver confinado em seus medos no tal apartamento se não fosse a proposta de transformar seu livro em filme. O que poderia ser uma guinada em sua carreira passa a ser uma ameaça quando ele percebe que terá de sair de casa, ou pior do que isso, terá que lavar suas roupas para se encontrar com o tal produtor (que ele acredita ser descendente de um psicótico e que o encontro faz parte de um plano para matá-lo). Some isso um trauma de frequentar lavanderias que vem desde a infância do personagem e você pode imaginar o que acontece. Bem, na verdade não pode, já que a lavanderia é frequentada pelo grupo de mulheres mais esquisitas que já apareceram nesse tipo de estabelecimento. Misturando suspense e comédia o filme consegue fazer graça com a velha história de superar os próprios medos - e consegue até ser original ao mostrar que mocinho e vilão podem nascer de formas diferentes de lidar com situações semelhantes. Um Fantástico Medo de Tudo é no fundo um besteirol absurdo, e por isso mesmo muito divertido, o que o faz perder alguns pontos é o formato quase televisivo que os diretores Crispian Mills e Chris Hopewell imprimem à trama. Mas as gargalhadas nos fazem até esquecer desse detalhe. 

Um Fantástico Medo de Tudo (A Fantastic Fear of Everything/Reino Unido-2012) de Crispian Mills e Chris Hopewell com Simon Pegg, Alan Drake, Clare Higgins, Paul Freeman e Mo Idriss. ☻☻☻

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

DVD: Uma História de Amor

Benoît e Laetitia: sadomasoquismo e inversão de papéis. 

Considero filmes sobre amores estranhos sempre interessantes, mesmo quando as ideias não são bem aproveitadas. Uma História de Amor é o típico filme que é classificado como polêmico ao chegar nos cinemas e, embora tenha um roteiro que parece correr atrás do próprio rabo por quase hora e meia de duração, tem alguns elementos que prendem a atenção do espectador. Um que mostra-se fundamental para o interesse na trama é a dupla central encarregada de defender as tintas de um casal adepto de práticas sadomasoquistas - cujo os papéis se invertem entre a vida social e as quatro paredes. A atriz francesa Hélène Fillières foi sábia em escolher Benoît Poelvoorde e Laetitia Casta para protagonizar seu primeiro longa metragem na direção. Poelvoorde interpreta um banqueiro arrogante que coleciona armas e manias de perseguição, para ele o mundo é uma grande conspiração contra sua pessoa milionária. Laetitia é uma mulher que começa a ter um caso com ele após uma festa e inicia um tórrido romance de tintas sadomasoquistas. Na vida social ele é um sádico, pedante e cheio de si, humilhar as pessoas ao seu redor é o esporte favorito - principalmente a modalidade de chamar a amante de prostituta a toda instante. Na cama ele se entrega ao papel de masoquista. Aprecia mordaças, agressões, cordas e toda a sorte de elementos que possam lhe proporcionar dor. Ela, que mostra-se submissa em sua companhia em eventos e restaurantes, mostra-se uma eficiente dominatrix, que debaixo de toda aquela sedução, demonstra um pouco do sabor de vingança nos momentos de prazer que compartilham. Aos poucos percebemos como essa troca de papéis os excita na vida social e íntima, porém, ao mesmo tempo, a relação entre ambos revela traços obscuros de suas personalidades. Afinal, Benoît ressalta a verdadeira obsessão de seu personagem: a morte, enquanto Laetitia sempre deixa uma incógnita sobre seu relacionamento com o outro homem que acreditamos ser seu esposo (ou cafetão?). Apesar de andar em círculos, Uma História de Amor tem seus méritos na forma elegante em contar um romance de traços fortes escondido sob um nome explicitamente lírico (tradução literal do título francês) e desbravar como o amor pode ressignificar ações dentro de uma relação. Nesse processo, fiquei surpreso como Benoît Poelvoorde se afasta de sua aparência quase cômica (vista em várias comédias francesas como o recente Românticos Anônimos/2010) na composição de um personagem que se equilibra entre a sedução e a repulsa com bastante desenvoltura - tanto que encara até uma reveladora cena de nudez aos 49 anos. Da mesma forma, a beldade Laetitia Casta surpreende numa atuação sutil que demonstra seu amadurecimento como atriz depois de longa carreira como modelo. Os dois conseguem encarnar os dois lados de seus personagens com bastante competência, numa química interessante e quase improvável. Considero que os dois conseguem fazer do filme uma experiência melhor do que o roteiro previa. 

Uma História de Amor (Une Histoire D'Amour/2013) de Hélène Fillieres com Benoît Poelvoorde e Laetitia Casta, Richard Bohringer e Reda Kateb. ☻☻

terça-feira, 8 de outubro de 2013

FILMED+: Ferrugem e Osso


Matthias e Marion: boa química em ótimo romance. 

Quase que em 2013 tivemos a chance de ver duas atrizes francesas na disputa do Oscar da categoria. Infelizmente, a Academia reservou lugar somente para a performance irretocável de Emanuelle Riva em Amor e Marion Cotillard ficou de fora. Não que isso importe. Faz tempo que uma atriz francesa não cria tanto rebuliço em Hollywood. Desde que foi celebrada por sua atuação em Piaf - Um Hino ao Amor (2007), onde levou para casa inúmeros prêmios entre Oscar e Globo de Ouro, a  atriz já marcou presença em vários filmes. Seja sob a batuta de Woody Allen ou Christopher Nolan, suas atuações são sempre dignas de elogios, mesmo que suas participações sempre fosse de coadjuvante. Chega a ser irônico que para ser protagonista ela tenha que voltar para a França e provar, mais uma vez que é capaz de carregar um filme - não que alguém tenha duvidado. Assinado por Jacques Audiard (do excelente O Profeta/2009), Ferrugem e Osso é uma história de amor bastante inesperada que é valorizada pelas atuações precisas de Marion e do belga Matthias Schoenaerts (protagonista de Bullhead/2009). Ela é uma beldade que trabalha em shows protagonizados por baleias orcas. Ele é um estrangeiro que tenta a vida como segurança na França depois que ficou com a responsabilidade de cuidar do filho. Apesar de ser um romance, Audiard tempera a trama com bastante brutalidade. Não por acaso, Stéphanie (Marion) e Alain (Matthias) se conhecem em meio à uma briga na boate onde ele trabalha, mas a relação entre os dois personagens só irá aprofundar meses depois, quando um acidente irá mudar a vida de Stéphanie para sempre. O acidente que sacrifica metade das pernas da personagem é o motivo para que os dois personagens se aproximem e descubram que se complementam. Marion está excepcional  ao explorar as transformações de sua personagem após o acidente. As dificuldades de perceber que a vida continua estão estampadas em seus rosto. Suas vaidades e desejos parecem ter sido tão mutiladas quanto seu corpo. É com a companhia e intervenções do rústico Alain que ela irá subjetivar sua nova condição. Ao mesmo tempo em que Alain se mete em arriscadas lutas clandestinas, percebemos outras nuances do personagem conforme ajuda Stéphanie a redescobrir sua sexualidade e autoestima. Nesse ponto, há de se reconhecer que Matthias prova mais uma vez que é expert em mesclar brutalidade e sensibilidade em suas atuações. Não deixa de ser interessante como após um filme extremamente testosterônico (O Profeta), Audiard tenha experimentado tons mais sutis nas relações de seus protagonistas. Stéphanie descasca Alain e Alain descasca Stéphanie durante o filme, explorando o que parecia escondido entre os dramas que sofreram.  É verdade que existem socos e sangue na trajetória de ambos, mas a alma de seu filme é extremamente romântica. Audiard é capaz de construir cenas belíssimas - especialmente quando Stéphanie relembra os gestos que guiavam os movimentos da baleia, além das cenas na praia - e ousa criar um final diferente aos que estamos acostumados a esse tipo de filme. Alguns chamaram o filme de implausível pela forma como mistura os dois mundos dos personagens, mas eu não acho. Ferrugem e Osso é original em suas escolhas e, apesar do exagero no sofrimento do pequeno filho de Alain,  pode ser considerado outro grande acerto na cinematografia de Audiard. O cineasta filma muito bem e constrói um deleite para quem está cansado de histórias pasteurizadas. Além disso, acertou em cheio em sua dupla principal. Schoenaerts deixa claro que não se contenta em ter cara e porte de galã e Marion crava ainda mais fundo o seu lugar no coração dos cinéfilos. 

Ferrugem e Osso (De rouille et d'os/França-2012) de Jacques Audiard com Marion Cotillard, Matthias Schoenaerts, Armand Verdure e Céline Sallette. ☻☻☻☻☻

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

DVD: Faroeste Caboclo

Ísis e Fabrício: Maria Lúcia inconcebível. 

Acho que deve existir duas músicas chamadas Faroeste Caboclo. Uma é aquela famosa de letra quilométrica dita por longos minutos da Legião Urbana. Nela podemos ver a história dos personagens se misturar com as diferenças sociais em Brasília, uma cidade de visual futurista, projetada no coração do Brasil, mas que servia de pano de fundo para a saga de João de Santo Cristo, seu envolvimento com o crime, os embates com o traficante Jeremias e o romance com Maria Lúcia. A outra música chamada Faroeste Caboclo deve ser a que o diretor René Sampaio ouviu quando resolveu fazer esse filme. Nada contra uma pessoa querer pegar uma história e transformá-la quando a leva para outra mídia. Essa discussão é velha nas adaptações cinematográficas para obras literárias ou teatrais, mas Sampaio faz um estrago sem tamanho na história que perpassa o imaginário dos brasileiros desde a década de 1980. Tenho a impressão que o diretor queria fazer uma espécie de Cidade de Deus do Planalto Central, mas não sabia para que lado atirar (sem trocadilho). O filme até que começa promissor - apesar de resumir em dois crimes a infância e adolescência de Santo Cristo (Fabrício Boliveira, que às vezes briga com a câmera para não ser uma versão repaginada de Zé Pequeno). Mas quando o personagem chega à Brasília - e o roteiro trata isso como se fosse apenas uma vírgula - o estranhamento é inevitável. Em momento algum Santo Cristo mostra encantamento pela cidade que irá devorar o que lhe resta de inocência. A coisa degringola de vez quando a edição picotada (que é outro ponto fraco do filme) tenta mostrar a história de uma apática Maria Lúcia em paralelo. Penso que o ponto mais rasteiro do filme foi a escolha de Ísis Valverde para viver a heroína na canção. A atriz pode até dar conta de personagens unidimensionais em novelas, pode fazer gracinhas e bancar a Lolita adulta em novelas, mas ela não consegue alcançar um por cento da complexidade da personagem. Sua Maria Lúcia é inconcebível. Sem força e inexpressiva, fica difícil entender como Santo Cristo se apaixonou por ela enquanto Jeremias (Felipe Abib) a cobiçava. Apesar de alguns exageros, Abib consegue compor um Jeremias realmente sórdido e que serve de contraponto para o anti-herói Santo Cristo. Ambos são figuras marginalizadas, mas conseguem compor motivações diferentes para essa essência bandida que carregam. A adaptação perde várias nuances da música que impregnava de poesia uma história que contrastava inocência e violência. Da forma como o filme foi feito parece mais um longa da marginália tupiniquim. Apesar de ter levado mais de um milhão de espectadores nos cinemas, Faroeste Caboclo consegue ser mais decepcionante do que qualquer coisa. Acho que no fundo, Sampaio não achava que a histórica composição de Renato Russo já renderia um bom filme. 

Faroeste Caboclo (Brasil/2013) de René Sampaio com Fabrício Boliveira, Ísis Valverde, Felipe Abib, Flavio Bauraqui, Léo Rosa e Marcos Paulo. ☻☻

DVD: Rock Brasília

Uma amiga me perguntou o motivo dessa epidemia de filmes relacionados à Legião Urbana. Honestamente, eu não conseguia imaginar uma resposta melhor do que o fato da obra de Renato Russo & Cia estar completando três décadas de existência. É verdade que enquanto a Legião Urbana é a banda de rock brasileiro mais cultuada de todos os tempos,  Plebe Rude virou cult para os politizados e o Capital Inicial se tornou tão pop quanto a maioria das bandas da década de 1980 que tentam persistir ainda hoje. Rock Brasília - A Era de Ouro é um documentário realizado por Vladimir Carvalho, que na década de 1980, acompanhou a ascensão de algumas dessas bandas, com direito a entrevistas e tudo mais. Existem várias cenas de arquivo e entrevistas, nesse ponto o documentário é bastante rico ao enfatizar o período histórico que o Brasil atravessava e as manifestações que pipocavam em Brasília. Assim, o filme serve de complemento para a versão xarope da vida de Renato Russo em Somos Tão Jovens (2013). Cenas de manifestações são tão marcantes para o período quanto as primeiras bandas que surgiam motivadas pelo movimento punk na Inglaterra. O filme deixa claro que não poderia haver um lugar melhor para nascer essa influência na juventude tupiniquim, afinal, os filhos de diplomatas que viviam em Brasília formavam a ponte ideal para o que se ouvia lá fora e os anseios da juventude brasileira numa sociedade que lidava com o ranço do governo militar e ditaduras. Assim, fica fácil entender como nasceram as letras politizadas da Plebe Rude e os momentos de mais rebeldes da Geração Coca-Cola da Legião Urbana. As conversas com músicos e familiares conseguem expressar certa nostalgia, mas também, como aquelas composições eram impregnadas de ideias. É verdade que Carvalho reserva mais espaço para a trajetória de Renato Russo do que para as outras bandas, mas o fato da trajetória desses músicos se misturarem na capital nacional consegue deixar a coisa com certo equilíbrio. É interessante ver o documentário resgatar o motivo da Legião Urbana detestar fazer shows (o último deles em Brasília foi quase um massacre), membros da Plebe lembrando seus embates com o Paralamas do Sucesso ou a presença dos Titãs em alguns programas de televisão, além disso tem Dinho Ouro Preto lembrando que era um novato num movimento que tentava ser absorvido pelo mainstream. Dos shows quase amadores, passando pelo contato com gravadoras, produtores e programas de TV (Renato Russo no programa Chico & Caetano é arrepiante) até o momento em que as bandas enfrentam seus problemas pós-adolescência (a morte de Renato Russo, o fim do Capital Inicial, a dissolução da Plebe Rude por motivos variados) o filme consegue ser um retrato até exaustivo daquela época. Se fosse mais dinâmico, o filme poderia ser menos exaustivo, mas o formato quadradinho que Carvalho dá ao seu filme deixa a desejar, fazendo o resultado final parecer um especial de TV. Não há ousadias em sua narrativa, pelo contrário, ele parece querer tornar tudo meio datado, nostálgico e até piegas - prova disso é o desfecho inexplicável com uma entrevista com o pai de Fê Lemos (membro fundador do Aborto Elétrico e conhecido baterista do Capital Inicial, mas que o diretor achou que não tinha cacife para bancar a cena final). Sorte que sobra bons elementos num dos movimentos mais importantes da música brasileira para salvar um documentário de formato que funciona como paradoxo ao que exibe. 

Rock Brasília - A Era de Ouro (Brasil-2011) de Vladimir Carvalho com Fê Lemos, Phillipe Seabra, Dado Villa Lobos, Dinho Ouro Preto e Marcelo Bonfá. ☻☻☻

Seabra: salvando um documentário quadradinho. 

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

DVD: Margaret

J. Smith Cameron e Anna: ideias demais. 

Anna Paquin é um caso raro de atriz que se consagra na infância e que continua a carreira com respeito na fase adulta. Nascida no Canadá em 1982 e criada na Nova Zelândia, desde os quatro anos, Paquin foi descoberta pelo mundo quando filmou O Piano de Jane Campion. A atriz tinha onze anos na época e, até hoje, é a segunda atriz mais jovem a ganhar um Oscar. Versátil, a moça já apareceu em comédias (Quase Famosos/2000), dramas (Encontrando Forrester/2000), filmes de ação (a primeira trilogia X-Men), terror (Escuridão/2002) e protagoniza desde 2008 a cultuada série True Blood (onde conheceu o esposo, Stephen Moyer com quem tem dois filhos gêmeos). Anna foi até pré-candidata novamente ao Oscar por sua complexa atuação em Margaret, filme de Kenneth Lonergan. Se Lonergan não fosse tão megalomaníaco em sua obra, a atriz poderia ter até cravado uma indicação. Com excessivas duas horas e meia de duração, muitos podem considerar o filme um teste de paciência pelo excesso de ideias que aparecem todo o tempo, outros vão perceber como uma tentativa de retratar a inquietação juvenil por repostas que não foram encontradas. Lonergan (indicado ao Oscar de roteiro original pela sua estreia na direção em Conta Comigo/2001 e pelo texto de Gangues de Nova York/2003) parece totalmente descontrolado ao contar as histórias em que sua protagonista se envolve. Lisa Cohen (Paquin) é uma jovem que vive todos os conflitos da adolescência. Sabe que tem um menino que gosta dela, mas prefere um garoto problema que namora uma amiga -  mas de vez em quando flerta com um professor (Matt Damon). Em casa se ressente da mãe atriz (J. Smith Cameron) estar preocupada com uma nova peça - enquanto Lisa se irrita com o irmão caçula sempre que nota que ele está por perto. Seu melhor vínculo familiar parece ser com o pai (vivido pelo próprio diretor), que tem conversas burocráticas com ela - sempre à distância depois do divórcio. Na escola, Lisa parece uma bomba prestes a explodir quando os colegas discordam o que tem a dizer, enfim, se Lisa não é uma chata está muito perto de se tornar uma. O principal do filme é que, apesar de todos esses dilemas, ela se culpa de ter provocado um atropelamento que acarretou a morta da vítima em seus braços (Alisson Jeaney em memorável participação). Essa situação de grande força dramática é o principal motivador do filme. A tragédia urbana aparece na tela com toda a força que lhe é possível e as lágrimas são inevitáveis. A morte aparece implacável quando o que temos é um fiapo de esperança nos momentos iniciais do filme. O que poderia ser um divisor de águas na trivialidade vivida por Lisa quase se perde em meio a um monte de situações que podem ter a intenção de mostrar o desajuste da personagem, mas serve apenas para distribuir pontas soltas na narrativa. É até fácil acompanhar o namoro da mãe com o latino Jamon (o francês Jean Reno) nas entrelinhas, mas para cada duelo intenso de seu elenco existem um bocado de cenas desnecessárias. Sorte que Paquin se rende a todos os defeitos de Lisa, muitos deles motivados pelos hormônios superlativos da adolescência - é interessante como o filme parece traçar um paralelo entre essa "juventude" com o tom operístico. Mostrada como egoísta, mesquinha e até cruel, sua expiação acontece através da culpabilização do outro (no caso o motorista vivido por Mark Rufallo) - talvez por isso o roteiro solta comentários sobre o nazismo. Essa intensidade de Lisa encarar o mundo cansa - e o espectador só tem um refresco quando o diretor nos embala com cenas em câmera lenta e bela trilha sonora.  Com alguns cortes certeiros, o filme seria mais enxuto e poderia ser até apreciado por seu brilhantismo, mas, do jeito que está, parece um exercício pretensioso. 

Margaret (EUA/2011) de Kenneth Lonergan com Anna Paquin, J. Smith Cameron, Jean Reno, Mark Rufallo, Matthew Broderick, Kieran Culkin, Jeannie Berlin e Allison Janney. ☻☻

FILMED+: O PIANO

Holly e Anna: oscarizadas em sintonia perfeita. 

Eu deveria ter uns dezesseis anos quando assisti O Piano pela primeira vez. Eu tinha todas as expectativas que podiam ser geradas pelo fato de que era um dos mais falados e premiados de seu ano de lançamento. No Oscar de 1994, muitos críticos torciam para que esse filme independente de forte marca neozelandesa levasse a melhor sob o concorrente A Lista de Schindler de Spielberg. Trata-se de dois filme bastante diferentes, mas, naquele tempo, eu já entendia os motivos de adoração à obra-prima de Jane Campion. O Piano foi o terceiro longa da cineasta que ficou famosa com suas participações no Festival de Cannes e serviu para inserí-la no seleto grupo de cineastas femininas indicadas ao Oscar de direção. Mesmo sendo de época, o filme está longe de ser convencional, não que utilize edição acelerada ou modernices, mas o filme tem um estilo bastante próprio ao contar a história de Ada McGrath (Holly Hunter, estupenda e premiada com o Oscar de atriz), uma mulher que não fala desde os seis anos de idade e que muda-se para a recém colonizada Nova Zelândia para consumar um casamento arranjado pelos seus pais. Ela chega naquele país desconhecido com algumas malas, a filha pequena chamada Flora (Anna Paquin, talentosa desde a infância, pelo papel recebeu o Oscar de atriz coadjuvante aos onze anos) e um piano. Mal sabia que para chegar à casa do noivo, Alisdair Stewart (Sam Neil) ela teria que atravessar mangues, bosques e muita lama. Por esse motivo, Alisdair não leva o piano para a casa em que irão morar. O instrumento fica na praia. Sabemos pouco sobre a história da protagonista, tendo que nos contentar com as histórias (fantasiosas?) de Flora. O relacionamento de Ada com o noivo é conturbado desde o início (e a presença infantil de Flora gera algumas situações engraçadas que enfatizam ainda mais as diferenças) - especialmente porque existe um piano abandonado entre eles. É quando o rústico Georges Baines (Harvey Keitel, num papel bem diferente do que acostumamos vê-lo) decide levar o piano para sua própria casa e um acordo com Ada se estabelece. É através de cada tecla do priano que fica estabelecido um jogo de sedução entre Georges e Ada. Aos poucos, Ada seduz Georges através da música, o que desperta o lado mais ciumento do então gentil Alisdair. Campion constrói uma história hipnótica sobre o nascimento de um amor proibido rodeado de ciúmes. Ciúme que nasce intrinsecamente relacionado às suspeitas de que Ada é capaz de falar com o amante e não com o esposo. Dessa tensão que Alisdair se aproxima de um ato de extrema crueldade com o auxílio quase involuntário da pequena Flora. É um contraste tão brutal que se estabelece entre a narrativa bucólica e o ato de violência cometido por Alisdair que é impossível ficar indiferente às convenções que o filme apresenta. No entanto, a cada cena, cada ato, cada tensão impressa nas situações mais triviais elaboradas por Campion estão ali para preparar o espectador para o ápice da narrativa: momento em que Ada, e seus espectadores, percebem que viver sem desejo pode ser uma verdadeira ameaça. O filme tem muitos méritos, mas o maior deles está no rosto expressivo de Holly Hunter e em sua dolorosa cena rumo ao desfecho. Holly despedaça nosso coração e merece que O Piano fique para sempre em nossa memória com uma pintura irretocável que se move diante de nossos olhos.

O Piano (The Piano/ Nova Zelândia-França-Austrália/1993) de Jane Campion, com Holly Hunter, Anna Paquin, Harvey Keitel e Sam Neil.
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