domingo, 22 de maio de 2016

PREMIADOS - FESTIVAL DE CANNES 2016

Daniel Blake: surpresa em Cannes. 

Pode se dizer que foi o Festival de Cannes mais surpreendente dos últimos anos. Não apenas pelo novo drama do diretor Ken Loach desbancar os favoritos e levar a Palma de Ouro com sua história de um senhor que escapa da morte e se aproxima de uma mãe solteira, mas principalmente por premiar um diretor que teve seu filme vaiado (se bem que além do novo de Olivier Assayas, a plateia ainda rendeu vaias para os novos de Nicolas Winding Refn e Sean Penn) e valorizar a nova obra de Xavier Dolan, que dividiu opiniões após ser a sessão mais disputada do ano. Se o brasileiro Aquarius de Kleber Mendonça Filho saiu de mãos abanando, pelo menos o documentário de Eryk Rocha foi reconhecido em sua categoria. A seguir os premiados do ano:

PALMA DE OURO 
"I, Daniel Blake" de Ken Loach

GRANDE PRÊMIO DO JÚRI
"Juste la Fin du Monde" de Xavier Dolan

PRÊMIO DO JÚRI
"American Honey" de Andrea Arnold

PRÊMIO DA CRÍTICA 
"Toni Erdman" de Peter Simonischeck

DIREÇÃO
Olivier Assayas ("Personal Shopper")

ATOR
Shahab Hosseini ("Forushande")

ATRIZ
Jaclyn Jose (Ma'Rosa)

ROTEIRO
Asghar Farhadi ("Forushande")

UN CERTAIN REGARD 
"Hymyilevä Mies" de Juho Kuosmanen

CURTA METRAGEM
"Timecode" de Juanjo Gimenez

CÂMERA DE OURO
"Divines" de Hounda Benyamina

OLHO DE OURO
"Cinema Novo" de Eryk Rocha

PALMA DOG
Para a bulldog Nelly de "Paterson"

MOMENTO ROB GORDON: Novos Diretores Italianos

O cinema italiano já nos presenteou com vários mestres da sétima arte: Federico Fellini, Sergio Leone, Vittorio de Sica, Antonioni, Pasolini e Ettore Scola. Algumas décadas atrás foi a época de Nani Moretti e Giuseppe Tornatore também alcançarem a fama à sombra de verdadeiras lendas do cinema. Recentemente uma nova geração de diretores italianos começou a chamar atenção em festivais e salas de cinema. A qualidade de seus trabalhos já rendaram convites para filmar em outros países carentes de novas ideias. Dentre os nomes que se destacam no novo cinema italiano eu preparei essa lista com os meus cinco favoritos. 

05 Daniele Luchetti 
O mais experiente da lista nasceu em Roma no ano de 1960 e filma desde 1985 - quando era um dos jovens cineastas mais promissores de seu país. Luchetti já foi indicado duas vezes à Palma de Ouro no Festival de Cannes (a última dela pelo comovente A Nossa Vida/2010 que rendeu o prêmio de melhor ator para Elio Germano - que dividiu o prêmio com Javier Bardem por Biutiful). A crítica costuma dizer que Daniele exagera no melodrama, mas ele não se importa.  Depois de doze filmes e doze prêmios internacionais, ele lançou no ano passado a cinebiografia do Papa Francisco, chamado Chiamatemi Francesco - Il papa della Gente que ainda não tem data de estrear no Brasil. 

04 Gabriele Muccino
Nascido na cidade de Roma em 1967, lançou seu primeiro filme em 1996, mas ficou conhecido mundialmente com sua terceira obra, o sucesso O Último Beijo/2001 (que ganhou  o prêmio da audiência no Festival de Sundance, uma refilmagem americana e uma sequência em 2010). O sucesso lhe rendeu convites para filmar em Hollywood - foi quando trabalhou com o astro Will Smith em À Procura da Felicidade/2006 e Sete Vidas/2007. Recentemente ele filmou com  Russell Crowe o elogiado Pais & Filhas (2015) ainda inédito por aqui.  Com nove filmes no currículo, Muccino já recebeu doze prêmios internacionais. 

03 Matteo Garrone 
Nascido em 1968 na cidade de Roma, Garrone lançou seu primeiro longa metragem em 1996, mas ficou famoso mundialmente em 2008 - quando lançou o violento Gomorra sobre criminosos italianos. O filme gerou muita polêmica além de fama mundial após receber o Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes. Gomorra foi aclamado como um dos melhores do ano, sendo indicado ao Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro - gerando até uma série de TV! Garrone voltou à Cannes com Reality, causando comoção por ter escolhido um presidiário para ser protagonista. O filme lhe rendeu mais uma vez o prêmio do júri no festival e três anos depois fez seu primeiro filme em inglês (O Conto dos Contos/2015). Em sua carreira Garrone já coleciona mais de 30 prêmios internacionais. 

02 Paolo Sorrentino
Se você acompanha cinema nos últimos anos sabe que o napolitano Sorrentino está no auge! Dono de 51 prêmios internacionais, este cineasta nascido em 1970 filma desde 1994, sendo indicado seis vezes à Palma de Ouro em Cannes - uma delas por Il Divo (2008), a cinebiografia de Giulio Andreoti (escolhido primeiro ministro sete vezes desde a restauração da democracia italiana em 1946). O filme foi um dos filmes europeus mais comentados daquele ano e foi indicado ao Oscar de melhor maquiagem. Depois ele lançou Aqui é o meu Lugar - que recebeu somente o Prêmio Ecumênico em Cannes e em 2014 ganhou o Oscar de Filme Estrangeiro com o aclamado A Grande Beleza e voltou a filmar em inglês no ano passado com Juventude - que concorreu ao Oscar de Melhor Canção. Sorrentino gosta de acompanhar a trajetória pessoal de seus personagens de uma maneira única (e com senso estético apuradíssimo) - e, ao que parece, é o novo diretor italiano favorito da Academia! 

01 Saverio Costanzo
O romano Saverio Costanzo é o mais jovem da lista. Nascido em 1975 ele começou a carreira como documentarista em 2002 e gosta de contar histórias repletas de personagens complexos - alimentando-os com uma humanidade ímpar. Enquanto seus colegas ganham espaço no Festival de Cannes, ele consegue renome no Festival de Veneza, especialmente com seus dois filmes mais conhecidos: o excelente A Solidão dos Números Primos (2010) e o angustiante Corações Famintos (2014), onde trabalhou com o astro americano em ascensão Adam Driver. Com seis filmes no currículo, Costanzo ainda é o responsável pela série In Treatment (o nosso Sessão de Terapia) em seu país. Com dezesseis prêmios no currículo, Saverio já é um dos meus cineastas favoritos. 

Na Tela: O Conto dos Contos

Salma: a rainha mãe.

O italiano Matteo Garrone trabalha com cinema desde 1996, mas ficou conhecido mundialmente depois que ganhou o Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes pelo violento Gomorra em 2008. O filme foi indicado ao Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro e causou protestos quando ficou de fora do Oscar. Seu filme seguinte, Reality (2012) repetiu o feito junto ao júri de Cannes, mas não fez tanto sucesso com a trama sobre a obsessão de tornar-se famoso, o filme causou grande repercussão por ser estrelado por um ator que ainda cumpria pena na prisão (o ótimo Aniello Arena). Nas duas obras o diretor deixou claro que não gostava de se repetir - e que sabia ser engenhoso atrás das câmeras. Quando exibiu o recente O Conto dos Contos em Cannes no ano passado, muitos ficaram surpresas pela forma como adaptou a obra do escritor napolitano Giambattista Basile (1566-1632), um dos primeiros a escrever um livro sobre os "contos de fada". O livro O Conto dos Contos foi publicado dois anos após a morte de Basile, contendo as primeiras versões de Cinderela, Bela Adormecida, Rapunzel, entre outras - e deixava claro que as histórias poderiam ser bastante assustadoras até mesmo para os adultos. O filme de Garrone mantém esse espírito sombrio ao escolher três histórias pouco conhecidas para o seu roteiro, sem aliviar os desvios de caráter de seus personagens ou as consequências de suas ações. Longe de ter o clima leve dos filmes da Disney, o filme pode causar estranhamento aos desavisados, mas isso não quer dizer que o resultado não seja mais interessante do que as releituras moderninhas que estão na moda. O filme se concentra em três histórias ambientadas em reinos vizinhos. Em Longtrellis, a rainha (Salma Hayek) está frustrada por não conseguir engravidar. Diante disso, por mais que o rei (John C. Reilly) se esforce para deixá-la feliz, ele não consegue - mas existe uma esperança quando um personagem misterioso aparece e sugere que o rei consiga o coração de um monstro marinho, que ao ser cozido por uma virgem e servido à rainha será capaz de fazer com que a majestade possa gerar um bebê. Aos poucos, o que era para ser uma dádiva torna-se uma maldição pela forma como a rainha lida com o filho e a amizade dele com o filho da tal virgem. 

Toby: com a pulga atrás da orelha. 

Perto dali, o bondoso rei de Highills (Toby Jones) se encanta por uma pulga e a torna seu animal de estimação. O rei ainda tem uma filha adolescente (Bebe Cave) que pensa cada vez mais em casamento - não irá demorar para que ele estabeleça que terá a mão da princesa somente o homem que desvendar um mistério. Nessa história o maior problema será que o Rei sabe o valor da palavra  - e isso poderá desapontar a sonhadora princesa. Já o rei de Strongcliff (Vincent Cassel) só pensa em participar de orgias com suas múltiplas parceiras até que se apaixona pela voz de uma plebeia, mal sabe ele que pertence a uma das solitárias irmãs Imma (Shirley Henderson) e Dora (Hayley Carmichael), que estão muito distantes do padrão de beleza que o rei aprecia (mas que farão de tudo para não perder a oportunidade que aparece). Filmado na Itália, com figurinos marcantes e direção de arte bem cuidada, Garrone escolheu atores que transitam em Hollywood para fazer seu primeiro filme em inglês. Embora conte com ingleses, americanos, uma atriz mexicana e um astro francês, o diretor consegue construir uma forte identidade à costura das histórias paralelas que tem em mãos. Embora deixe claro o viés da "moral" de cada história, ele surpreende quando pontua seu filme com cenas que oscilam entre o sublime (a ruiva dormindo na floresta), o surrealismo (a cena em que a rainha devora o coração do monstro) e o horror (a cena da caverna ou o triste destino de Dora), as cenas servem para retirar o filme do lugar comum que alguns filmes de fantasia costumam se acomodar. Com seu humor estranho e as ousadias visuais, O Conto dos Contos não é perfeito, mas torna-se um programa muito interessante para quem procura conhecer um diretor ousadamente criativo e ainda pouco reconhecido por aqui.  

Cassel e Stacy: quase a Venus de Botticelli.  

O Conto dos Contos (Il Racconto dei racoonti - Itália/França/Reino Unido/2015) de Matteo Garrone com Salma Hayek, Toby Jones, John C. Reilly, Vincent Cassel, Shirley Henderson, Hayley Carmichael, Stacy Martin, Christian Lees, Jonah Lees e Bebe Cave. ☻☻☻

sexta-feira, 20 de maio de 2016

PL►Y: Virando a Noite

Scott, Taylor, Jason e Judith: a noite mais perigosa de todas!

Além de berço do movimento grunge, existe um consenso de que a chuvosa Seattle é uma das melhores cidades para se criar um filho - talvez por isso seja a cidade mais densamente povoado do estado de Washington. É de lá que vieram Alex (Adam Scott) e Emily (Taylor Schilling) um casal feliz que resolveu mudar-se para ensolarada Califórnia com o pequeno RJ (R.J. Hermes). Apesar da afinidade, o casamento da dupla precisa superar alguns desafios que vão para além do sustento ficar por conta do trabalho de Emily. O problema é sugerido na cena inicial, mas será retomado mais adiante quando eles se aproximarem dos pais de um menino com que RJ faz amizade numa festinha. Kurt (Jason Schwartzman) e Charlotte (Judith Godrèche) moram num casarão e parecem os melhores anfitriões do mundo quando os novos amigos os visitam a primeira vez. No entanto, depois que os meninos dormem, algumas atitudes fazem a desconfiada Emily perceber que existe algo de estranho no ar. Produzido pelos irmãos Jay e Mark Duplass, o filme tem o típico tom de comédia indie assinada pelos dois, mas a direção de Patrick Brice incrementa ainda mais a graça conjugada à tensão do que acontecerá a cada ato que se sucede. Passando pelo vídeo protagonizado por Charlotte, o atelier de Kurt (com seu quadros sugestivos), o banho de piscina durante à madrugada... tudo é pontuado com diálogos insinuantes que tornam as suspeitas de Emily ainda mais palpáveis para o público. Virando a Noite brinca com a rotina do casamento e fantasias sexuais com uma habilidade rara, sem cair na baixaria (e existem muitos momentos que isso realmente poderia ter acontecido) e lida com a nudez de seus personagens com uma naturalidade difícil de encontrar. Misturando o que é suspeita e o que é real, o resultado consegue ser uma comédia adulta interessante que pode gerar debates por horas entre os casais que o assistirem. Brincando com temas sérios, o resultado ainda consegue ser enxuto em seus 80 minutos de duração, alcançando seus objetivos com um grande eficiência - parabéns ao diretor esperto (que estava mais acostumado a lidar com filmes de terror como Creep/2014) e aos atores que tornam seus personagens em sujeitos comuns, pessoas que poderiam ser seus vizinhos ou até os pais do amiguinho do seu filho. 

Virando a Noite (The Overnight/EUA-2015) de Patrick Brice com Adam Scott, Taylor Schilling, Jason Schwartzman, Judith Godrèche e R.J. Hermes. ☻☻☻

PL►Y: Minions

Minions e Scarlet: servindo aos maiores malvados da História. 

Os Minions ficaram famosos como coadjuvantes nas aventuras de Gru em Meu Malvado Favorito  1 (2010) e 2 (2013).  A origem dos simpáticos monstrinhos amarelos nunca foi explicada, mas diante do grande apelo que as criaturas possuem diante da criançada era de se imaginar que eles teriam uma aventura solo, onde maiores informações seriam trabalhadas. Sucesso nos cinemas, Minions partiu justamente dessa premissa para fazer sucesso nas bilheterias e o filme consegue ser bem divertido, mesmo com alguns grandes desafios para dar conta. O primeiro deles é que diante da semelhança entre as centenas de amarelinhos eles precisavam construir a identidade de pelo menos alguns deles para garantir uma aventura com começo meio e fim, assim são designados Bob, Kevin e Stuart. O próximo desafio era muito mais complicado, já que a trama apresenta os personagens como seres que desde a origem da vida no planeta Terra se dedicaram a servir aos maiores vilões do mundo. Em tempos do politicamente correto, como fazer os protagonistas sendo cúmplices de atos malévolos? Sendo assim, começaram servindo a tubarões, tiranossauros, um homem das cavernas mal intencionado... por algumas razões que não vale revelar, eles acabam se isolando no polo norte, mas a existência do grupo passa a ficar cada vez menos interessante. Assim, o trio citado acima parte na busca de um novo líder maléfico para servir, eles acabam encontrando Scarlet Overkill (voz de Sandra Bullock), a primeira supervilã da história. Scarlet, ao lado do esposo Herb (voz de Jon Hamm) - que inventa uma mente privilegiada para criar apetrechos esquisitos, possuem um plano maluco para tomar a coroa da Rainha da Inglaterra, mas precisa da ajuda de Bob Kevin e Stuart. O filme capricha nas trapalhadas dos protagonistas, deixando tudo engraçadinho, voltado especificamente pas as crianças - mas os adultos que entrarem na brincadeira devem achar graça sobretudo de alguns detalhes (a sorridente rainha da Inglaterra, um renomado diretor de cinema filmando a chegada do homem à Lua dentro de um estúdio...). É verdade que existem momentos que o filme patina em gelo fino (como a cena na câmara de tortura), mas acho que as crianças nem entendem direito do que se trata numa animação que utiliza a fantasia para espantar qualquer aspecto realista. Eu cheguei a pensar em alguns momentos que Scarlet (personagem que tem o visual da vocalista Karen O. da banda Yeah Yeah Yeahs!) e Herb eram os pais de Gru, mas a maldade dos personagens é maior e espantam logo essa impressão, sobretudo na última cena. Minions fez muito sucesso ao redor do mundo e deve render novas aventuras para os amarelinhos, mas só depois que Meu Malvado Favorito 3 chegar aos cinemas no ano que vem!

Minions (EUA/2015) de Brian Lynch com vozes de Sandra Bullock, Jon Hamm, Michael Keaton, Steve Coogan, Geoffrey Rush e Allison Janney. ☻☻☻

quarta-feira, 18 de maio de 2016

PL►Y: Amor Fora da Lei

Rooney e Casey (ao centro): alma de faroeste. 

David Lowery tem longa carreira como editor de filmes (são 33 no total, a maioria curtas metragens), mas ele também é um cineasta indie bastante produtivo (são 16 filmes, apenas três longas) embora pouco conhecido. Para o público brasileiro o filme que funcionou como cartão de apresentação do diretor foi este Amor Fora da Lei estrelado por Rooney Mara e Casey Affleck. Ambientado nos anos 1970, o filme conta a história do ladrão Bob Muldoon (Affleck), que é apaixonado por Ruth (Mara) - com quem vive de assaltos na região. Um dia eles são descobertos pela polícia e, por conta de uma troca de tiros, Bob é preso e condenado a passar longos anos na prisão. Aumenta ainda mais a angústia do personagem o fato de Ruth estar grávida e ele não acompanhar o crescimento do bebê. Enquanto Bob está preso, a vida de Ruth segue tranquila junto à filha e da atenção do policial Patrick Wheeler (Foster), mas as coisas mudam quando Bob foge da prisão e a polícia volta a aparecer em sua vida - afinal, eles consideram que em breve o fugitivo irá procurar a família. O filme conta a jornada  do protagonista rumo ao encontro, que parece cada vez mais distante enquanto Lowery demonstra pleno controle da narrativa, construindo lentamente uma história de amor triste e cheia de tensão que remete, curiosamente, à linguagem do faroeste. Entre diálogos, uma mocinha que é menos ingênua do que parece e um anti-herói que anseia por encontrar seu destino, o filme é decorado com bela reconstituição de época e fotografia caprichada. A edição também é bastante competente e, em alguns momentos, remetem à construção narrativa de Terrence Mallick, numa conjunção reflexiva de imagens e reflexões. Para além da qualidade técnica impressa pelo diretor, o filme conta com boas atuações, Casey Affleck ainda me parece o melhor ator da família (mesmo que às vezes se esforce demais em parecer estranho) e Rooney Mara consegue criar um tipo mais humano do que está acostumada (também vale ficar atento ao melhor amigo de Bob, vivido pelo ator Nate Parker que causou sensação no último Festival de Sundance com o filme "The Birth of a Nation", já cotado para o Oscar do ano que vem). Embora o desfecho seja previsível, Lowery consegue chegar até ele com um controle impressionante deixando a impressão de termos vivido uma experiência cinematográfica peculiar, uma espécie de Bonnie & Clyde que troca o glamour pela melancolia. 

Amor Fora da Lei (Ain't them Bodies Saints/EUA-2013) de David Lowery com Rooney Mara, Casey Affleck, Ben Foster, Keith Carradine e Nate Parker. ☻☻☻

PL►Y: Fique Comigo

Tassadit e Michael Pitt: encontro inusitado. 

Lançado no início de março em poucas salas no Brasil, a comédia dramática Fique Comigo poderá conquistar o espectador que curte um tipo de humor mais melancólico em DVD. O filme do cineasta Samuel Benchetrit foi exibido numa mostra paralela do Festival de Cannes no ano passado e concorreu ao César (o Oscar francês) de melhor roteiro adaptado com uma ideia é bastante simples, mas que cativa pela simpatia como mistura suas tramas. A história se passa em um prédio no subúrbio parisiense onde conhecemos alguns moradores, um deles é Sterkowitz (Gustave Kervern) que recusa-se  a colaborar na compra de um novo elevador para o prédio, pelo simples motivo de morar no primeiro andar - mal sabe ele que um golpe do destino fará com que se arrependa da decisão (ainda que a partir dela, conheça a enfermeira interpretada pela sempre interessante Valeria Bruni Tedeschi). Outra parte da história acompanha o jovem Charly (Jules Benchetrit, filho do diretor) que conhece a nova vizinha, a atriz Jeanne Meyer (a cultuada Isabelle Huppert), que ainda precisa encontrar um novo rumo para a carreira. A história mais inusitada aborda o encontro da senhora argelina chamada Hamida (Tassadit Mandi) que recebe a visita de um astronauta americano (Michael Pitt) que, literalmente, cai sobre o prédio e precisa permanecer secretamente no apartamento dela. São três histórias que funcionam de forma independente, mas que giram em torno de uma temática em comum: tipos solitários que encontram novos relacionamentos e procuram mantê-los. O resultado pode não ser surpreendente, mas gera bons momentos seja com o fotógrafo Sterkowitz superando seus desafios para conquistar a melancólica enfermeira, com Charly ajudando Jeanne a conseguir um papel no teatro ou a relação entre duas pessoas completamente diferentes que não compartilham nem a mesma língua. Durante o filme se escuta diálogos em francês, inglês e árabe, mas o que vemos não é uma Torre de Babel, pelo contrário, Benchetrit sustenta seu filme com um senso de humor bastante sutil e uma abordagem singela da construção dos laços entre os seres humanos. Outro aspecto interessante é como o interior dos apartamentos  contrasta com o universo desgastado do mundo exterior (seja nas ruas ou nos corredores depredados), parece que para além da história dos personagens, o filme os utiliza para compor um microcosmo onde os espaços coletivos se encontram desgastados, enquanto o mundo privado, por mais que seja aconchegante, parece um tanto vazio, pronto para acolher outro indivíduo. É na relação entre o coletivo e o individual que o diretor abriga, nas entrelinhas de sua história, sua visão de mundo (que não deixa de ser curiosa num tempo onde as pessoas interagem cada vez mais virtualmente e esquecem o quão prazeroso pode ser estabelecer laços fisicamente). A cena final, embora bem realizada e até emocionante, pode desagradar quem não curte finais abertos, mas, ainda assim, Fique Comigo pode revelar-se uma grata surpresa aos cinéfilos mais atentos.

Fique Comigo (Asphalte/França-2015) de Samuel Benchetrit com Gustave Kervern, Isabelle Huppert, Jules Benchetrit, Tassadit Mandi, Michael Pitt e Valeria Bruni Tedeschi. ☻☻☻

terça-feira, 17 de maio de 2016

§8^) Fac Simile: Tom Holland

Thomas Stanley Holland
Não parece, mas mês que vem o jovem ator Tom Holland irá completar 20 anos! Como presente de aniversário ele recebe o sucesso de sua encarnação como Homem-Aranha no blockbuster Capitão América: Guerra Civil. A participação no filme da Marvel só foi possível mediante um acordo entre o estúdio com a Sony, detentora dos direitos do personagem aracnídeo. A escolha do ator, que encarna a versão mais adolescente do herói, foi perante uma grande disputa em Hollywood. Nosso repórter imaginário encontrou o jovem astro inglês em meio à divulgação do filme e conseguiu lhe fazer essas cinco perguntas numa entrevista que nunca aconteceu:

§8^) Você chamou atenção na primeira vez em que apareceu na telona - quando sobreviveu ao tsunami de O Impossível/2012 (que lhe valeu o título de melhor ator coadjuvante aqui no blog). Você não envelheceu nada de lá para cá! Qual o seu segredo? Botox?

Tom Não mesmo! KKK meu segredo foi ter nascido em 1996! E eu não sabia que fui considerado melhor ator coadjuvante por vocês! Fico lisonjeado! 

§8^) Qual a sensação de ter sido o escolhido para viver o SpiderMan mais jovem do cinema?

Tom Eu ainda não acredito que fui o escolhido! Tinha tantos jovens atores legais na disputa. Tinha o Asa Buterfield, o Logan Lerman... fiquei realmente surpreso quando a Marvel decidiu que eu era a melhor escolha. Sem falar que eu tenho feito personagens muito sérios até aqui, fazer um filme de super-herói me pareceu pura diversão! Vendo na tela fica melhor ainda...

§8^) O que foi mais difícil: sobreviver ao Tsunami ou enfrentar o Capitão América?

Tom Ainda não tinha pensado nisso, mas acho que enfrentar a versão gigante do Homem Formiga foi mais assustador! O Capitão América é um cara legal, não importa o que ele faça em Guerra Civil. É o tipo de herói em estado puro... eu sabia que não corria grandes riscos contra ele. Acho que o pior de tudo foi ter enfrentado Moby Dick em No Coração do Mar/2015, até hoje quando revejo o filme eu fico enjoado! 

§8^) Você tem mais três filmes previstos para esse ano e em breve deve estrelar o novo filme do herói aracnídeo. O que você espera dessa nova fase do herói nas telas?

Tom Acredito que será a melhor de todas! A Marvel sabe realmente como tratar seus heróis na tela, eles não criam filmes, mas tecem um verdadeiro universo! Já me disseram até que terá participação especial do Homem de Ferro! Não é demais ter Tony Stark como mentor? E a Marvel deixou bem claro que não terá pressa de envelhecer o personagem! Bom que assim eu tenho idade para fazer pelo menos uns dez filmes do Homem-Aranha!

§8^) E você prefere o SpiderMan do Tobey Maguire ou do Andrew Garfield?

Tom Eu curti mais os filmes com o Tobey! Eram mais divertidos e eu poderia ficar dias vendo só o Aranha pendurado pulando de prédio em prédio. Ainda que o terceiro filme dele fosse um pouco esquisito - e espero que nunca me peçam para fazer um Peter Parker emo - ele ainda era melhor que A Vingança de Electro que é muito ruim. Eu acho a próxima aventura muito promissora, e nem estou levando em conta que Marisa Tomei é a Tia May mais linda de todos os tempos! Dá para acreditar que ela já tem 51 anos?! Ela até fez um filme com o Robert Downey Jr. nos anos noventa... mas eles não gostam de lembrar disso... parece que não era muito bom... como era mesmo o nome... não consigo lembrar...

§8^) Não se preocupe, querido... ninguém lembra...

domingo, 15 de maio de 2016

Na Tela: Capitão América - Guerra Civil

Capitão América Vs. Homem de Ferro: crise ideológica. 

Acho que no futuro o ano de 2016 será lembrado como o ano em que nossas certezas foram quebradas. Verdades, ideologias e ideias foram questionadas, desconstruídas e reconstruídas numa escala poucas vezes vista. Da ascensão de ideias que considerávamos coisa do passado, chegando a redenções que nunca se concretizaram com seus ídolos caídos, acho interessante como os filmes de super-heróis captaram essa mensagem em voga. Na história das adaptações em histórias em quadrinhos, o ano em que vivemos será lembrado como o ano das pendengas super-heroicas. Afinal, foi o ano em que Batman tinha tanto medo de um mundo com seres mais poderosos que ele, que quase deu cabo de Superman e tudo o que ele representava em Batman Vs Superman (2016). Não bastasse isso, chegou a vez do time de heróis da Marvel, Os Vingadores discutirem a relação, especialmente Capitão América (Chris Evans) e Homem de Ferro  (Robert Downey Jr.) que ficam em lados opostos quando tem que enfrentar as consequências de toda a destruição que causaram enquanto salvavam o mundo em suas missões - porém, causaram as mortes de centenas de civis. No início de Capitão América: Guerra Civil, outro acidente vitimando pessoas comuns acarreta um arranjo governamental para regular a ação dos Vingadores: o Tratado de Sokóvia. Um acordo que subjuga a ação dos heróis à supervisão do governo. O passado bélico faz com que Tony Stark concorde com a medida, no entanto, o Capitão percebe que a influência dos interesses governamentais sobre suas ações poderá gerar problemas (assim como gerou à S.H.I.E.L.D) - some isso à perseguição ao seu amigo Buck, ou melhor, O Soldado Invernal (Sebastian Stan), acusado de cometer um ato terrorista e você sentirá para o lado que o sempre correto Capitão pende. Na primeira parte os heróis escolhem seus lados numa trama cheia de intrigas, espionagem e os conflitos mais bem desenhados de uma trama elaboradaa, mesmo com o desafio de lidar com mais de uma dezena de personagens - alguns deles que não conseguem escolher um lado até a já antológica cena do aeroporto. 

Pantera Negra: como manda o figurino.

Os diretores Joe e Anthony Russo conseguem manter a narrativa entre os ideais de um e outro, demonstrando que por mais que o espectador escolha um lado, ele é capaz de compreender os motivos que movem os adversários. Entre o "time" Capitão América e o "Time" Homem de Ferro, existem motivações que envolvem conflitos bastante pessoais, sobretudo pelos laços de amizade que se formaram nos filmes anteriores. Assim, por mais que o roteiro insira o ardiloso Zemo (Daniel Brühl, que poderá render muito mais nos próximos filmes da Marvel, já que o desenvolvimento me pareceu mais uma introdução do personagem no universo), o antagonismo fica por conta dos personagens conhecidos que já lutaram juntos nos filmes anteriores. É preciso destacar que os diálogos são tão valorizados como as cenas de ação - dessa vez, sem o exagero de efeitos especiais que se tornaram quase obrigatórios nesse tipo de filme - e servem para inserir um novo marco nos filmes do estúdio (que serve de ponto de partida para Vingadores - Guerra Infinita, previsto para 2018). Além disso, traz Homem-Formiga (Paul Rudd) para o front e insere Pantera Negra (em outra ótima atuação de Chadwick Boseman) com uma gana invejável ao universo já instituído, sem falar que conserta tudo o que o cinema já errou com o popular Homem Aranha (graças à boa participação de Tom Holland), de volta para casa Marvel após o desastrado último filme da Sony. Holland encarna o SpiderMan mais fiel que já vimos na tela: adolescente, tagarela, gentil... assim como o Pantera Negra, deixa o desejo de vermos um filme solo somente dele. No fim das contas, Capitão América: Guerra Civil coloca nos trilhos o que ficou desengonçado em A Era de Ultron. Embora o carro chefe da Marvel sejam os filmes dos Vingadores, percebo que são nos filmes de seu veterano herói que a Marvel costuma desenhar suas melhores estratégias, lapidando tramas mais sérias e  com verniz político no que poderia ser apenas entretenimento descartável. Em Guerra Civil, mais do que um super-herói impedindo os planos de um vilão maluco, o que vale são os conflitos de ideias impregnadas de ideologias e subjetividades. Acredito que os filmes da Marvel não serão os mesmos depois daqui. 

Homem-Aranha: voltando para casa Marvel. 

Capitão América: Guerra Civil (Captain America: Civil War/EUA-2016) de Joe e Anthony Russo com Chris Evans, Robert Downey Jr, Scarlett Johansson, Chadwick Boseman, Anthony Mackie, Sebastain Stan, Daniel Brühl,  Elizabeth Olsen, Paul Bettany, Tom Holland, Paul Rudd e Don Cheadle. ☻☻☻☻