domingo, 19 de março de 2017

PL►Y: O Silêncio do Céu

Carolina e Leonardo: teia de culpa e vingança. 

A cena inicial de O Silêncio do Céu já deixa clara a sua intenção de ser uma obra perturbadora, afinal, sua longa cena de abertura mostra a angústia de uma mulher sendo violentada por dois homens. O diretor Marco Dutra amplia o desconforto da cena utilizando ângulos que (sabiamente) escondem mais do que mostram, usa cortes precisos, jogo de luzes e tem como trunfo a expressão de horror e vulnerabilidade de Carolina Dieckman na pele de Diana. Alguns minutos depois percebemos que a personagem encontra-se dentro da própria casa. Ela pega o telefone e pede para o esposo buscar as crianças na escola. Mal sabe ela que ele estava do lado de fora da casa e testemunhou todo o ocorrido. A partir daí começa um estanho jogo entre o casal. Ela não conta para ele oque aconteceu e ele também não diz a ela que testemunhou o que houve. Mario (Leonardo Sbaraglia) até tentou fazer alguma coisa, mas sentiu medo - e ao se dar conta os dois criminosos já estavam longe. Leonardo Sbaraglia cria um personagem bastante curioso, repleto de medos, mas que ainda consegue dar a impressão que está prestes a tomar uma decisão drástica para expiar a própria culpa, assim, a busca pela catarse torna-se sua maior motivação. Se o fato de Mario querer descobrir quem são os dois meliantes já cria um certo suspense, paralelo a isso cria-se outro em torno do comportamento silencioso da vítima: afinal, porque Diana não toma uma atitude diante do que aconteceu?  Carolina Dieckman capricha nas expressões ambíguas da personagem, que aos poucos tornam a personagem mais misteriosa, sugerindo que havia algo a mais na cena assustadora que presenciamos. O Silêncio do Céu é construído de forma surpreendente pela maior parte do tempo, tropeçando apenas no final quando torna-se mais previsível diante das atitudes do seu protagonista. O diretor Marco Dutra demonstra refinar ainda mais o seu gosto pelo terror e suspense. Se em Trabalhar Cansa/2011 ele dividia a direção com Juliana Rojas e em Quando eu era Vivo/2014 ele voava sozinho para instigar os espectadores, com O Silêncio do Céu ele procura uma abordagem mais sutil e ambiciosa de um horror urbano com base na obra de Sergio Bizzio. O resultado é um filme interessante sobre um homem que utiliza seus medos como camisa de força. 

O Silêncio do Céu (Brasil-Chile/2016) de Marco Dutra com Carolina Dieckman, Leonardo Sbaraglia, Chino Darín, Dylan Cortez e Alvaro Armand Ugon. ☻☻☻☻

PL►Y: A Pastoral Americana

Ewan e Jennifer: destruindo o sonho americano. 

Sempre acho interessante quando um ator famoso estreia como diretor. Não sei explicar muito bem o motivo, mas acho que está relacionado à oportunidade revelar como este pensa "cinema". Ano passado foi a vez do escocês Ewan McGregor fazer o seu debut com a adaptação de um livro de Phillip Roth, no entanto, se não demonstra ser um cineasta brilhante, Ewan sabe zelar pelo visual do filme e criar uma atmosfera sombria bastante eficiente. A  Pastoral Americana conta  história de uma família nos conturbados anos 1950, o casal é formado pelo judeu Swede Levov (McGregor) - que ficou famoso na cidade por seu sucesso como jogador no time da escola - e a católica Dawn (Jennifer Connelly), uma rainha da beleza que chegou a concorrer ao prêmio de Miss America. Como em todo livro de Phillip Roth eles não servem apenas como pessoas de uma narrativa, mas são encarnações símbolos do imaginário norte-americano. Ele trabalha numa indústria de confecção de luvas e ela queria ser professora de música na escola local, mas acabou cuidando de algumas cabeças de gado que herdou do pai. Juntos eles tiveram Merry (vivida por Dakota Fanning quando adolescente). Menina meiga e carinhosa, mas de uma gagueira incurável que uma terapeuta considera um reflexo de como ela lida com o histórico de seus pais - talvez ela se frustre por não ser capaz de seguir os passos da mãe nos concursos de beleza e tão pouco encontrar um cavalheiro tão atraente quanto o pai. O fato é que Merry cresce um tanto revoltada com a situação política do seu país (guerra do Vietnã, luta pelos direitos civis, movimento hippie, ativismo radicalista...) e sente-se um tanto culpada pelo conforto do lar. Não demora muito para a menina se torna suspeita de uma explosão realizada na cidade e seu paradeiro se torna desconhecido. Pode se dizer que o filme se divide em três atos que testarão a habilidade de McGregor em construir uma narrativa fluente. No primeiro ato ele se sai bem, apresentando os personagens e as fissuras de onde os maiores problemas surgirão, depois ele se complica. No segundo ato, o roteiro e montagem deixam a narrativa confusa, deixando o espectador mais preocupado com onde perdeu o fio da meada do que com o desaparecimento da menina. Esta é a parte mais importante do filme, já que o foco recai sobre o olhar dos pais sobre a princesa da casa é suspeita de terrorismo. Por conta disso, o filme ganha um tom de filme noir que segue para testar a índole incorruptível do pai enquanto a mãe mostra-se mais fragilizada e prestes a ter um colapso. Passada a confusão do miolo, chegamos ao último ato, onde se joga por terra tudo o que o casal acreditava ser verdadeiro diante do estranho destino doentio escolhido pela filha. A Pastoral Americana só não voa mais alto porque resulta truncado em sua realização que deixa de lado alguns pontos importantes da complexa relação familiar que acompanhamos. Embora não tenha medo de ser uma história deprimente, o longa poderia ser mais interessante se tivesse um texto melhor lapidado, mas penso que a própria escrita de Roth deixa os roteiristas um tanto confusos na hora de criar um roteiro. Sobre o diretor estrante, vale dizer que McGregor está liberado para novas obras, só espero tenha uma voz mais definida em sua próxima empreitada atrás das câmeras.

A Pastoral Americana (American Pastoral/EUA-2016) de Ewan McGregor com Ewan McGregor, Jennifer Connelly, Dakota Fanning e David Strathairn. ☻☻☻

sábado, 18 de março de 2017

§8^) Fac Simile: Alicia Silverstone

Alicia Silverstone-Jarecki
Andando pelas ruas da Califórnia, nosso repórter imaginário encontrou com Alicia Silverstone, atriz que ficou muito conhecida nos anos 1990 com os clipes do Aerosmith e com o sucesso do filme As Patricinhas de Beverly Hills (1995). A atriz, que saia de uma almoço beneficente,  aceitou responder cinco perguntas para o nosso correspondente numa entrevista que nunca aconteceu.

§8^) As pessoas ainda te reconhecem na rua por conta de As Patricinhas de Beverly Hills (1995)?

Alicia Sim, claro! De vez em quando alguém me encontra na rua e me chama de Cher... como eu sei que não se trata da verdadeira Cher eu sei que é um fã das Patricinhas. Eu fiz muitos outros trabalhos desde então, mas aquele foi o mais marcante. Foi muito divertido filmar e curtir todo aquele sucesso! Naquela época poucas pessoas andavam com celular nas ruas, na escola e achavam graça dos exageros da minha personagem, hoje eles percebem que ela era alguém... à frente do seu tempo [risos]. Particularmente eu prefiro que lembrem da Cher do que da Batgirl, uuugh!

§8^) É engraçado falar isso, porque Batman & Robin/1997 foi um dos seus grandes fracassos! Falaram muito sobre você estar acima do peso para o papel e, o mais interessante, é que seu par em Patricinhas (o ator Paul Rudd) é o Homem-Formiga da Marvel! E se ele conseguisse espaço para você ser a Vespa nos filmes, o que acha?

Alicia Melhor não... eu não tenho perfil para esse tipo de filme! E com o tempo passaram a me considerar pé frio para bilheterias - e acho que a Marvel não iria me querer por perto [risos]. Por outro lado, Hollywood é muito dura  com as atrizes! George Clooney também estava em Batman & Robin, foi o pior Batman de todos os tempos e hoje tem dois Oscar na estante, além de uma penca de indicações. Eu era só uma garota deslumbrada querendo ganhar meu espaço. Havia grande cobrança de me tornar uma grande estrela, mas não aconteceu. Dizem que tudo foi abaixo quando produzi Excesso de Bagagem (1996), uma comédia boba que não era para ganhar prêmios, só era para divertir! Mas foi tratada como um grande desastre! Eu fui massacrada... mas todo mundo adorou eu ter colocado o Benicio Del Toro no filme. Ele ficou com os elogios e anos depois ganhou um Oscar de coadjuvante... e eu? Bem, eu ainda guardo meus MTV Movie Awards! 

§8^) É verdade! Você ganhou duas vezes, não foi?

Alicia Na verdade foram quatro! Atriz Revelação e Melhor Vilã por Paixão Sem Limite (1993) e Melhor Atriz e Mais Gostosa por As Patricinhas de Beverly Hills (1995). Sou uma das recordistas, eu e Jim Carrey... oops! [risos]. Não posso reclamar, eu tive os meus momentos de glória! Clooney só ganhou um e Benicio nunca ganhou nada no MTV Movie Awards... nem a Meryl!

§8^) Mas se o cinema não lhe rende muita atenção, você se tornou ativista do Peta e tem uma vida familiar muito confortável (a atriz se casou com o executivo da Geffen Records, Christopher Jarecki em 2005 e em 2011 tiveram o primeiro filho, Bear Blu Jarecki), no fundo você não se importa muito com a fama, não é?

Alicia Quando você é mais jovem você valoriza muito esse tipo de coisa, com o tempo você percebe que a vida tem outras coisas interessantes para fazer e aproveitar! Sou mãe, esposa, ativista... tudo isso graças ao Chris, que é vegano, uma advogado brilhante que luta pelos direitos dos animais e adoramos cachorros! Temos quatro e acho legal ter uma carreira de atriz sem que seja o centro de minha vida! Gosto quando se lembram de mim, pedem autógrafos, tiram fotos e me convidam para algum projeto interessante sem ter a obrigação de ser um grande sucesso e ganhar prêmios.  
  
§8^) Lembro que no auge você iria fazer Romeu + Julieta (1996) com Leonardo DiCaprio e acabou perdendo o papel para Claire Danes. Você sente que fazer Shakespeare poderia ter sido a grande chance de sua carreira deslanchar?

Alicia Bem... eu fiz Shakespeare e com o diretor mais entendido no assunto! Lembra? Eu fiz  Amores Perdidos (2000) com o Kenneth Branagh e recebemos muitos elogios! Porém, pouca gente assistiu... nunca temos controle sobre essas coisas! Veja o que houve com a Claire, todos aqueles prêmios e o cinema ainda não percebeu todo o talento que ela tem! Sorte que ela tem Homeland para mostrar que é uma grande atriz! Eu também fiz um seriado, Miss Match, fui até indicada ao Globo de Ouro na época... mas durou só uma temporada! Eu tô dizendo, eu sou pé frio, cara [risos]!

PL►Y: King Cobra

Garrett e Slater: nasce uma estrela?

Um rapaz  que pretende ficar famoso, um homem solitário que produz filmes eróticos em sua casa e um casal que pretende faturar muito dinheiro com pornografia na internet. Estes são os ingredientes que aparecem no polêmico King Cobra, segundo filme de Justin Kelly (do não menos controverso "I am Michael") e, assim como o primeiro, baseado numa história real. Sean Paul Lockhart (Garret Clayton) disse para a família que iria fazer um curso de verão, colocou a mochila nas costas e partiu atrás da fama - só que ela chega encarnada por Stephen (Christian Slater), homem solitário que aproveita o isolamento de sua casa para fazer filmes pornográficos para um site na internet. Sean se tornará muso de Stephen, passará a se chamar Brent Corrigan e renderá muita grana para seu produtor/diretor e até será seu amante. Obviamente que o sucesso do rapaz chama atenção de outros profissionais do ramo, especialmente do casal de namorados Harlow (Keegan Allen) e Joe (James Franco, que também é produtor do filme), que fazem os vídeos de outro site erótico gay, o Viper Boys. Se Stephen realiza seus negócios com total discrição, os Viper Boys são o oposto, tentam levar uma vida luxuosa sempre contando com o sucesso dos seus vídeos, mas a febre provocada pelos filminhos de Brent estragam seus planos e... quando tentam tirar proveito do novo astro da indústria, as consequências são sangrentas. King Cobra conta uma história que ganhou as páginas policiais em 2009, mas que serve para contar os bastidores mais obscuros de uma indústria que fatura milhões por ano - mas que ainda precisa lidar com situações delicadas que envolvem legalidade, tabus, fantasias e negócios. Afinal, Sean se torna refém da própria fama, assim como Stephen comete um deslize que expõe toda a sua vida secreta (e regrada) de forma irreversível. Justin Kelly tinha nas mãos material para criar um filme explosivo, mas prefere criar apenas uma crônica, por vezes caricata da situação que tem em mãos. Embora James Franco seja o destaque do elenco (e o filme conta ainda com Molly Ringwald e Alicia Silverstone) sua atuação parece mais uma brincadeira do que propriamente uma interpretação, o que acaba prejudicando seu parceiro de cena, Keegan Allen, que tem um personagem mais complicado em mãos e não consegue desenvolvê-lo a contento em seu misto de traumas, inveja e ambição. Garret Clayton (que antes teve destaque no filme da Disney Teen Beach Movie/2013) convence como garoto fetiche da história, mas quem rouba mesmo a cena é Christian Slater, que constrói o certinho devasso Stephen com grande desenvoltura em suas nuances mais dóceis e perigosas. King Cobra mostra-se um filme mais provocador do que erótico, alivia a tensão da temática com doses de humor e tenta esclarecer o que havia por trás de um crime que chocou os fãs de pornografia na rede.

Franco e Allen: traumas, ambição e caricatura. 

King Cobra (EUA/2016) de Justin Kelly com Garret Clayton, Christian Slater, James Franco, Keegan Allen e Alicia Silvertone. ☻☻

4EVER: Chuck Berry

18 de outubro de 1926 ✰ 18 de março de 2017

Charles  Edward Anderson Berry nasceu em Saint Louis nos Estados Unidos e é considerado por muitos o criador do rock, sobretudo pela forma como tornou a guitarra uma extensão do seu corpo quando estava sobre o palco. Compositor, cantor e guitarrista sua música  o cantor ficou famoso no início de sua carreira pelos problemas com a polícia e por viajar em turnês carregando somente uma guitarra Gibson - e acreditando que encontraria bandas que conheciam suas músicas em cada cidade por onde passava. Chuck foi encontrado inconsciente em dentro de sua própria casa no dia 18 deste mês. Embora suas músicas tenham aparecido em vários filmes (e faça parte do repertório da nave Voyager que está a bilhões de milhas de distância da Terra), ela é fonte de dois momentos antológicos do cinema. Um deles é quando Marty McFly toca "Johny B. Goode" no baile de formatura em De Volta para o Futuro (1985) - três anos antes da música ser lançada.  O outro é Mia e Vincent dançando "You Can Never Tell" em Pulp Fiction (1994). Dois momentos imortalizantes que você pode lembrar logo abaixo: 


PL►Y: Quase 18


Hailee Steinfeld ficou famosa como a garota tagarela na versão dos irmãos Coen para Bravura  Indômita (2010), a atriz tinha 14 anos na época e foi indicada ao BAFTA de melhor atriz e ao Oscar de atriz coadjuvante por sua performance. Elogiadíssima por sua estreia no cinema, ela teve que se contentar com vários papéis menores nos últimos anos - como a jovem guitarrista Mesmo se Nada der Certo (2013) ou a novata de A Escolha Perfeita 2 (2015). Haille também investiu na carreira de cantora, mas depois da sua indicação ao Globo de Ouro de melhor atriz de comédia pelo divertido Quase 18 a mocinha merece muita coisa boa nos próximos anos. Hailee vive Nadine, adolescente de 17 anos que cresceu à sombra do irmão popular e bonitão (Blake Jenner) e teve como maiores companheiros o pai bondoso (Eric Keenleyside) e a melhor amiga, Krista (Haley Lu Richardson). No entanto, os dois são fonte das duas maiores tragédias da vida de Nadine. Se a primeira já a pega de surpresa (e ela parece nunca ter se recuperado muito bem), a segunda explode como uma bomba, comprometendo todo o equilíbrio do universo habitado pela personagem (e não adiante insistir, eu não vou contar o que acontece para não estragar a surpresa). A maior graça do filme da estreante Kelly Fremon Craig é a forma como ela abraça a visão superlativa que Nadine tem do mundo ao seu redor - afinal, na adolescência, os hormônios deixam tudo mais intensamente exagerado! O garoto da escola que nem te dá bola é o amor de sua vida! O dia que sua melhor amiga fala com outra pessoa ela está deixando você de lado para toda a eternidade! Sua mãe nunca será capaz de entender a intensidade de todos os seus sentimentos - e as regras sociais torna impossível gostar dela e do irmão ao mesmo tempo! A vida de Nadine sempre parece estar à beira do abismo - por isso mesmo o filme começa com a personagem anunciando o suicídio ao professor que faz as vezes de conselheiro, Mr. Bruner (Woody Harrelson, em atuação saborosa) -, mas ao mesmo tempo, ela está tão obcecada pelas suas vontades que nem percebe o quanto um colega de classe está apaixonado por ela (Hayden Szeto) e como pode ser desagradável junto às pessoas que mais lhe querem bem (incluindo a mãe vivida por Kyra Segdwick). Quase 18 traz muito dos filmes de adolescente que John Hughes fazia nos anos 1980. Do cinema de Hughes traz não apenas o carinho com os personagens, o bom humor ao lidar com os dilemas juvenis e a sintonia com a geração que o assiste, mas bebe diretamente na fonte de suas protagonistas: Nadine tem muito do jeito mal-humorado encarnado pela ruiva Molly Ringwald nos clássicos de Hughes. Sempre se considerando injustiçada e incompreendida, Nadine não percebe o quanto pode ser incompreensiva e mesmo tirana com quem está por perto. Somente quando ela consegue perceber as necessidades de quem está perto dela é que finalmente ela encontra algum equilíbrio e, oferece a si mesma, a chance de curtir as oportunidades que surgem pelo caminho. Quase 18 é um filme esperto e feito para agradar os mais jovens e os mais velhos (estes ainda podem achar tudo ainda mais divertido por terem sobrevividos a todos os horrores da adolescência - e não estou falando das espinhas). 

Quase 18 (The Edge of Seventeen/EUA-2016) de Kelly Fremon Craig com Hailee Steinfeld, Woody Harrelson, Kyra Segdwick, Blake Jenner, Haley Lu Richardson e Hayden Szeto. ☻☻☻☻

segunda-feira, 13 de março de 2017

FILMED+: A Luz Entre Oceanos

Michael e Alicia: dramalhão dos bons. 

Após sobreviver aos horrores da Primeira Guerra Mundial o introspectivo Tom (Michael Fassbender) chega à costa australiana para cuidar de um farol. Ele é bem recepcionado por uma família local, os Graysmark, especialmente pela filha deles, Isabel (Alicia Vikander). Antes de partir para a sua solitária tarefa é perceptível que surge uma fagulha entre os dois, que se intensifica cada vez mais, principalmente porque a alegria de Isabel é tudo o que falta ao calejado faroleiro - que não demora irá casar com ela e viver feliz num mundo somente dos dois. No entanto, o destino mostra-se cruel quando Isabel percebe que não é capaz de ter filhos. Parece sempre faltar algo ao casal de expectativas frustradas quando o filho desejado não chega. Eis que um dia o mar traz um bebê num barco perdido ao lado de um homem morto. Isabel percebe aquilo como um presente divino, uma espécie de reparação por toda a dor que maternidade negada lhe proporcionava até então. Tom tem plena ciência dos deveres de sua profissão, mas Isabel implora que nenhuma notificação seja feita e que eles cuidem da menina. Parece que eu contei demais? Bem, qualquer um que tenha visto o famigerado trailer do filme (que deu início ao romance entre dois dos atores mais badalados do cinema atual) já sabia tudo o que citei acima e mais ainda, sabe que a coisa irá desandar quando toda a felicidade familiar for ameaçada quando a mentira que construíram vier à tona. A Luz Entre os Oceanos é um filme que não tem medo de mergulhar no drama vivenciado pelos seus personagens e o torna cada vez mais intenso justamente pelos dilemas que inflige sobre eles (e que contamina a plateia de forma inevitável), especialmente quanto surge a personagem de Rachel Weisz se equilibrando entre vítima e algoz,  levando as angústias do casal ao limite. O filme é feito no capricho! Fotografia espetacular, trilha sonora de deixar os olhos marejados, enquadramentos perfeitos, atuações irretocáveis, tudo no lugar certo para um drama na linguagem mais clássica do cinemão. O que surpreende é que o filme é esteticamente muito diferente dos outros filmes do diretor Derek Cianfrance (do excelente Namorados Para Sempre/2010 e o mediano O Lugar Onde Tudo Termina/2012), que sempre apresentou um estilo cru e até "sujo" em suas obras anteriores. No entanto, aqui ele mostra aos seus detratores que ele  domina a técnica cinematográfica muito bem e melhor do que muito diretor oscarizado. Além de ter um ótimo trabalho junto aos atores, Derek revela aqui algo curioso (e não estou falando no efeito do tempo nos relacionamentos, com suas idas e vindas narrativas ou dores e amores sobrepostos): seu maior interesse é por figuras paternais de filhos não biológicos (reparou isso nos três filmes anteriores dele? Senão, vale a pena conferir). Parece um detalhe pequeno, mas que revela muito sobre o olhar terno que o diretor tem sobre esses personagens, geralmente incompreendidos em suas narrativas. Se o farol do filme está entre dois oceanos, A Luz Entre os Oceanos coloca seus protagonistas diante de um mar de escolhas e suas consequências não muito desejadas. Baseado no livro de M.L. Stedman, o resultado é uma pérola do dramalhão - gênero que quando bem feito é bonito de doer!

A Luz Entre Oceanos (The Light Between the Oceans/EUA - Nova Zelândia - Reino Unido) de Derek Cianfrance com Michael Fassbender, Alicia Vikander, Rachel Weisz e Bryan Brown.☻☻☻☻☻

sábado, 11 de março de 2017

10+: Diretoras

Para fechar o Ciclo Diretoras desta semana, o blog lembra (em ordem alfabética) de alguns filmes assinados por mulheres que já apareceram por aqui. Embora sempre recebam (injustamente) menos atenção que seus colegas homens (basta ver que em toda história do Oscar apenas quatro mulheres concorreram ao Oscar de direção, a primeira foi a italiana Lina Wertmüller na 50ª edição do prêmio!), as diretoras de cinema já mostraram diversas vezes que fazer filme bom não depende do sexo e sim de talento! Aqui estão dez cineastas, em atividade, que sempre merecem nossa atenção. 

Foi o filme que Kathryn fez logo após se tornar a primeira mulher a ganhar o Oscar de melhor diretora por Guerra ao Terror/2009 (derrotando o ex-marido James Cameron). Neste filme ela coloca uma mulher no centro da narrativa da captura de Osama Bin Laden. 

A filha do celebrado cineasta Francis Ford Coppola amadureceu e ganhou brilho próprio ao ser a primeira americana a concorrer o Oscar de direção. Ela não ganhou o prêmio, mas fez história (e levou o de melhor roteiro original por esta singela comédia dramática). 

Enxergar fora da caixa é o maior mérito da diretora britânica, filha de iranianos (que fugiram de Teerã nos primeiros dias da revolução islâmica). Criada na Califórnia, Lily começou a filmar aos doze anos e no seu primeiro filme conta a história de uma vampira no Irã. Resultado: Sensacional!

A diretora californiana tem três longas no currículo e chamou atenção ao mostrar uma nova organização familiar neste filme que foi indicado a vários prêmios (incluindo 4 Oscars). A marca de Lisa é a leveza para tratar temas que ainda são tabus para a sociedade. 

A criadora (e atriz) da série Girls chamou atenção em Sundance neste seu segundo longa, onde uma jovem busca a identidade numa narrativa sincera e despojada. Por seu estilo, Lena foi considerada a voz de uma geração e preza por ir ao limite para desglamourizar suas personagens. 

A neozelandeza (nascida em Wellington)  tem sua cinematografia marcada por mulheres fortes. Com esta obra-prima, ela levou o Oscar de roteiro original (e viu suas atrizes, Holly Hunter e Anna Paquin sendo premiadas), além de se tornar a segunda mulher a concorrer ao Oscar de direção. 

A escocesa tinha dois filmes pouco conhecidos quando contou a história de uma mãe que suspeita que existe algo de muito errado com seu filho. Arrepiante, o filme conta com uma atuação soberba de Tilda Swinton e lança um olhar sem frescuras sobre o sentimento de culpa na maternidade.

Romancista gráfica, cineasta, ilustradora e escritora infanto-juvenil, Marjane cresceu em Teerã  e presenciou a revolução de seu país  antes de viver na França. Sua história é contada na  HQ que virou este filme imperdível indicado ao Oscar de Filme Estrangeiro. 

Muylaert sempre fez ótimos filmes, mas repararam nela somente quando resolveu abordar a relação entre as classes sociais no Brasil a partir da história de uma doméstica e sua filha. Premiado na estreia em Sundance o filme foi um grande sucesso no Brasil e no mundo. 

Com este filme, Ava se tornou a primeira diretora negra a ter uma obra concorrendo ao Oscar de Melhor Filme. Indicada ao Globo de Ouro de direção pela sua narrativa da jornada de Martin Luther King pelos direitos civis, DuVernay voltou ao Oscar neste ano com o documentário 13ª Emenda. 

CICLO DIRETORAS: Sonho de Valsa

Xuxa e Daniel: ela preferia ser viúva. 

A cineasta Ana Carolina Teixeira Soares, ou simplesmente, Ana Carolina nasceu em 1949 em São Paulo e se tornou um ícone do cinema brasileiro, pena que ela filma pouco. Ela começou a carreira de cineasta em 1968, lançando em média dois longas por década a partir dos anos 1970. Em 1987, nos tempos da Embrafilme, Seu quinto filme teve problemas com distribuição e sua obra-prima Sonho de Valsa terminou sendo exibido somente na TV, mas hoje ele pode ser visto em mostras e festivais na tela grande. Como nos seus filmes mais famosos (Mar de Rosas/1977, Das Tripas Coração/1982 e Amélia/2000) a diretora se dedica a várias inquietações femininas de toda ordem (ou desordem), mesclando drama e humor além de carregar fortes simbologias. Sonho de Valsa é um verdadeiro marco em nosso cinema por ser profundamente inventivo em sua narrativa, com fartas doses surrealistas para contar a jornada pessoas de Teresa (Xuxa Lopes, digna de Oscar) uma mulher que ao completar 30 anos ainda se vê insegura perante a maturidade (mas afinal, o que é isso?). Ela mora numa casa bastante confortável com o pai (Arduíno Colassanti) e o irmão (Ney Matogrosso), mas cheia de conflitos (basta perceber a cena inicial fofa do gatinho e o que se segue no comportamento quase infantil da personagem). Teresa é cheia de desejos, mas encontra alguns obstáculos para crescer em suas próprias inseguranças - e o texto primoroso de Ana Carolina serve para ilustrar tudo o que se passa na mente da personagem. Do relacionamento quase incestuoso com os homens da casa (afinal, eles são os únicos homens daquele mundo) para depois ampliar sua rede de relações numa festa que parece destinada à frustração - cortesia do pretendente Carlos Alberto (Ricardo Petráglia). Não por acaso, da festa Teresa pula de um abismo ao lado do seu novo amor. Ao lado de Marcos (Daniel Dantas) a vida a dois, fora do conforto da casa do pai, torna-se um mar de neuroses, povoado por todas as inseguranças e expectativas que um romance pode proporcionar, some ao tédio gerado pela rotina e tudo vai pelo cano (literalmente) e frases como "perdi o meu amor" (próprio?) e "estou sem identidade" dão conta do que se passa dentro de Teresa. Ana Carolina brinca com simbologias o tempo inteiro, o que pode tornar o filme um pouco confuso para quem imagina uma comédia romântica para passar o tempo. Pois é, além de gerar risadas, o filme é denso, bastante denso. A complexidade do filme vai para além dos personagens, fazendo com que cada personagem seja um signo: a mulher em frente ao pai, o irmão, a amiga, o namorado, o melhor amigo do namorado... este merece destaque especial pelo charme  deliciosamente canastrão de Paulo Reis, um homem que parece seguro, mas está cheio de "hesitações e dúvidas", onde até mesmo a sua sexualidade é ambígua (e a forma como Ivan multiplica as dicotomias entre o sagrado e o profano na mente de Teresa é um deleite). Nas mãos da diretora, o desempenho superlativo de Xuxa Lopes ganha contornos surpreendentes em suas angústias, paranoias e ansiedades diante do que Teresa espera da vida (ou seria do que os outros esperam que ela faça da própria vida?). A jornada de Teresa é tão intensa que ela até retorna como uma filha pródiga para a casa do pai, mas aquele conforto não sugere mais proteção, mas uma verdadeira prisão em seus medos de encarar a vida. Partindo do príncipe encantado, passando pelo fundo do poço - e pelo sapo (que ao invés de um beijo ganha uma mastigada, afinal "é importante aprender a engolir sapos) - o filme termina retratando que Adão e Eva no fundo são irmãos, portanto filhos do mesmo pai  e iguais perante os olhos dele. Deu para entender? Ainda que tenha trilha sonora datada (leia-se sintetizadores) e padeça daquela inserção de som estranha dos filmes brasileiros dos anos 1970 (o som era inserido depois das filmagens), Sonho de Valsa promove uma verdadeira montanha-russa de emoções e o melhor, graças à sua riqueza de detalhes você irá querer assistir várias vezes e perceber coisas que era incapaz de notar (dentro e fora do filme). Um clássico. 

Ana Carolina

Sonho de Valsa (Brasil/1987) de Ana Carolina com Xuxa Lopes, Daniel Dantas, Paulo Reis, Ney Matogrosso, Arduíno Colassanti, Cristina Pereira e Ricardo Petráglia. ☻☻☻☻☻