sábado, 24 de junho de 2017

CICLO DIVERSIDADESXL: Flores Raras

Mary, Elizabeth e Lota: triângulo amoroso. 

Nascida em 1911, a americana Elizabeth Bishop é considerada uma das maiores escritoras da língua inglesa. No entanto, pode se dizer que seu período mais criativo ocorreu durante os anos em que morou no Brasil. Elizabeth enfrentava problemas com a depressão e o alcoolismo quando resolveu fazer uma longa viagem pela América Latina, no entanto, ao visitar a amiga Mary no Brasil - com a arquiteta Lota Macedo Soares acabou ficando mais tempo do que pensava. O motivo para que ela ficasse no Brasil foi a própria Lota, que desde 1951 a hospedou em sua casa em Petrópolis até que formassem um casal por vários anos. Essa história do grande amor que transformou para sempre a vida da escritora já havia rendido uma peça teatral de grande sucesso com Regina Braga em 2001 e 2011. Anos depois Amy Irving, a senhora Bruno Barreto estava muito interessada em viver a personagem no cinema, mas acabou perdendo o papel por conta da idade para a australiana Miranda Otto. O filme é de fato o papel mais importante e desafiador que Miranda já teve em mãos, ainda que tenha participado de dois filmes da trilogia Senhor dos Anéis (2002/2003), Miranda nunca conseguiu muito destaque como atriz na telona e aqui tem a oportunidade de mostrar que poderia dar conta de papéis complexos. Ainda que o roteiro seja apressado nas transições da personagem, Miranda realiza um bom trabalho, mas que não chega a impressionar por conta de sua concepção sempre discreta da escritora. Ainda assim é palpável como os anos em que viveu no Brasil a fez abandonar o peso que carregava sobre as costas e produzir suas obras mais famosas que lhe valeram vários prêmios - incluindo o renomado Pulitzer. Sorte que Bruno Barreto escolheu Glória Pires para dar vida à Lota, o vigor da atriz brasileira funciona como excelente contraponto à discrição de Bishop. Gloria está firme como uma rocha na pele da arquiteta (embora um tanto desconfortável quando o filme tenta gerar cenas picantes entre as duas atrizes), sendo bastante convincente como a mulher firme à frente do seu tempo. Obviamente que o filme não poderia deixar de explorar o período delicado em que as duas mantiveram seu romance, passando pela polêmica construção do Parque do Flamengo (o ambicioso projeto de Lota no governo Lacerda) e a perplexidade de Elizabeth diante do comportamento dos brasileiros diante do golpe que tomava o Brasil (e seu discurso no jantar é ironicamente atual para a situação de nosso país atualmente). Embora não tenham muita química, Miranda e Gloria tem bons momentos juntas tornando compreensível a influência que uma teve sobre a vida e a arte da outra. Outro destaque do filme é a desconhecida Tracy Middendorf que faz um excelente trabalho como Mary, a amiga que perde Lota para Bishop e que passa a sustentar uma curiosa relação com as duas, me atrevo a dizer que ela é a grande revelação do filme. A sensibilidade de Bruno Barreto durante o filme (que também está presente na fotografia, transição dos figurinos de Bishop e na reconstituição de época) compensa alguns poucos tropeços aqui e ali, mas a trajetória das personagens reais transforma Flores Raras num filme bastante interessante sobre mulheres que ousavam ser elas mesmas em meados do século XX. 

Flores Raras (Brasil/2013) de Bruno Barreto com Miranda Otto, Glória Pires, Tracy Middendorf, Marcello Airoldi e Treat Williams.  ☻☻☻☻

sexta-feira, 23 de junho de 2017

CICLO DIVERSIDADESXL: Um Estranho do Lago

Christophe e Pierre: erotismo com personagens levados a sério. 

De vez em quando os diretores dos chamados "filmes de arte" resolvem flertar com a pornografia, geralmente o resultado chama mais atenção da mídia do que do grande público  que ainda se choca com esse tipo de coisa - ou pelo menos diz que se choca nos tempos onde tudo pode ser visto a qualquer instante na internet. O fato é que ninguém nunca deu muita bola para os filmes do diretor francês Alain Guiraudie até ele misturar suspense, romance e sexo gay em Um Estranho no Lago, filme que conseguiu até espaço nas conservadoras salas brasileiras depois de ganhar o prêmio de melhor direção na mostra Un Certain Regard em Cannes2013. A história em si não traz muita novidade, afinal, já vimos dezenas de vezes histórias sobre pessoas que se apaixonam por desconhecidos que podem ser um serial killer, a diferença está justamente nas cenas bastante explícitas que aparecem no filme - e se você se incomoda em ver dois marmanjos se entregarem aos prazeres da carne é melhor passar bem longe do filme. Tirando as cenas mais picantes (sem trocadilho, por favor...), o que vemos é um filme bastante melancólico sobre a eterna busca pelo parceiro ideal. A história é toda ambientada nos arredores de um lago afastado da cidade onde gays se encontram com estranhos para manter relações sexuais. Sim, existe um bocado de fetiches envolvidos nisso, mas também algo de animalesco nesses encontros. O protagonista da história é o introvertido Franck (Pierre Delandochamps) que após algumas idas ao lago conhece Michel (Christophe Paou), que assim como ele, parece um tanto excitado com a aura de perigo que o local passou a ter depois que começaram a haver mortes naquela localidade. Seria algum assassino homofóbico? Seria um psicopata com fetiche por matar os seus parceiros? Diante de estranhos qualquer um poderia ser o assassino e, se não é você, provavelmente você será uma vítima. Além da dúvida que fica no ar, o filme é pontuado por vários diálogos sobre solidão e inseguranças que funcionam como excelente contraponto para as cenas mais despudoradas. Para provar que o filme não quer ser apenas sobre um bando de marmanjos se pegando, existe Henri (Patrick D'Assumção), um sujeito que não parece se enquadrar no gosto na maioria dos frequentadores e que está tão deslocado ali quanto esteve em qualquer outro lugar. Obeso, calado e visivelmente deprimido, Henri compõe ao lado de Franck alguns dos melhores momentos de um filme que pretende ser levado a sério. Um Estranho no Lago mantém o clima sempre lento, perpassado por silêncios e  surpreende na angústia gerada nos momentos finais cheios de tensão. A cena final onde vemos somente a sombra de Franck perdido num relacionamento que pode ser o último de sua vida sintetiza genialmente as intenções do filme sobre as paranoias que assombram o início de qualquer relacionamento. O filme surpreendeu ao ser indicado a oito prêmios César (o Oscar francês) - incluindo melhor filme -, mas foi apenas Pierre Delandochamps que saiu premiado na categoria de ator mais promissor daquele ano. 

Um Estranho no Lago (L'Inconnu du Lac/França - 2013) de  Alain Guiraudie com Pierre Delandochamps, Christophe Paou, Patrick D'Assumção e Mathieu Vervisch. ☻☻☻

quinta-feira, 22 de junho de 2017

CICLO DIVERSIDADESXL: Laerte-se

Laerte: protagonismo no documentário da Netflix. 

Lembro que quando fazia meus estudos na área de Representações Sociais eu percebi que o ser humano precisa classificar o que vê no mundo para que possa compreendê-lo melhor, ou pelo menos, ter esta confortável impressão. O problema é que quando lidamos com classificações, perdemos a noção da complexidade que um determinado objeto possui. Foi mais ou menos nessa época que eu lembro de ver o cartunista Laerte sendo classificado como crossdresser por usar roupas femininas. Algum tempo depois, Laerte se assumiu como transsexual, ou pelo menos, esta foi a classificação que consideravam que lhe cabia melhor. Laerte ainda tem dúvidas se deve ou não colocar implante e ter seios, não tem vontade de trocar de genital (embora ache uma boa ideia tirar sua bolsa escrotal e deixar o resto no lugar que está), mas ainda assim se percebe uma mulher para além do corpo que possui. Parece complicado? Talvez você possa entender melhor assistindo ao documentário Laerte-se, que está em cartaz no Netflix. Assinado pelas diretoras Lygia Barbosa e Eliane Brum o filme é uma verdadeira viagem nos questionamentos de Laerte e torna-se ainda mais interessante justamente pela artista evitar a todo instante cair nos lugares comuns que se imaginam sobre o universo trans. Se no início ela está hesitante em aceitar a ideia do documentário (por considerar que geralmente o resultado de suas entrevistas tem muito pouco do que ela deseja dizer), aos poucos ela se solta e dispara suas considerações sobre si mesmo, especialmente na busca de um equilíbrio íntimo que não depende dos rótulos construídos socialmente - seja pela sociedade heteronormativa - que estipula o que é ser isso ou aquilo - ou por uma militância que cai na tentação de guardar tudo em suas próprias gavetinhas. Laerte é simplesmente Laerte (sim, ela não quis mudar de nome), mantem bom relacionamento com a família, fica aflita com depilação, fazer unhas ou com aquele vestido dourado que não sai da cabeça, além de vez em quando considerar em entrevistas que não tem nada de importante a dizer. Diferente de quem conheceu Laerte em sua nova fase possa imaginar, Laerte era um homem muito bem humorado, mas discreto e contido. Ela não está preocupada em se tornar símbolo de uma coisa ou de outra, pretende apenas ser aceita do jeito que é (o que já dá bastante trabalho e dor de cabeça para ela mesma). A ideia do corpo está bastante presente em todo o filme, seja pelas corajosas cenas de nudez, pelos desenhos que Laerte realiza durante as filmagens ou até pelas tirinhas que já exploravam o que se passava na mente durante seu período de transição do masculino para o feminino. Laerte-se é um curioso mergulho na diversidade sexual, nas inquietações de uma pessoa provocada por si mesma a externalizar o que escondia até o incômodo se tornar insuportável. Apesar do documentário investir numa narrativa bastante tradicional, a sua simplicidade consegue realizar a tarefa de humanizar a figura de Laerte para além dos pré-conceitos.

Laerte-se (Brasil/2017) de  Lygia Barbosa da Silva e Eliane Brum com Laerte, Rita Lee e Angeli. ☻☻☻☻ 

quarta-feira, 21 de junho de 2017

CICLO DIVERSIDADESXL: Eu Sou Michael

James e Zachary: personagem polêmico, filme idem. 

Em tempos em que tudo vira polêmica eu ainda consegui me surpreender com as críticas recebidas por Eu Sou Michael quando ele começou a ser exibido em festivais. O problema todo era que o diretor estreante Justin Kelly (que depois dirigiu King Cobra/2016) resolveu fazer uma cinebiografia controversa do pastor Michael Glatze, que de ativista gay se tornou hétero  ao encontrar Deus. Diante desse vespeiro, nem o envolvimento do sempre simpatizante da causa James Franco, dos assumidos Zachary Quinto, Gus Van Sant (o produtor do filme) e o próprio Kelly evitou que fosse considerado um verdadeiro desfavor à causa GLSBT. O motivo para tanta polêmica é que a história do personagem poderia incitar ainda mais o preconceito e o discurso de que para deixar de ser gay basta querer. Não é bem assim. Sinceramente, acho que a maioria das críticas vieram de pessoas que não assistiram ao filme e - influenciadas pela figura real de Glatze é mais do que compreensível todas as críticas. O fato é que Kelly consegue explorar de forma bastante equilibrada os conflitos do personagem, sugerindo que debaixo do seu discurso de "ex-gay" existem ainda sentimentos um tanto confusos que ele prefere esconder, especialmente motivado pelo medo da morte e preceitos religiosos. No início do filme ele mantem um relacionamento duradouro (e aberto) com Bennett (Quinto) e trabalha numa revista voltada para o público gay ao lado dele. Depois eles se mudam para o Canadá, aceitam outro parceiro em suas vidas - o jovem Tyler  (Charlie Carver) - e Michael começa a fazer palestras voltadas para jovens gays. Das palestras ele tem a ideia de fazer um documentário, uma nova revista e, após alguns problemas de saúde ele começa a ter dúvidas sobre se é certo ou não ser gay. Estranho? Então espere até descobrir que a mudança não é apresentada através da perda do desejo por outros homens ou pelo personagem conhecer uma mulher que o faz deixar seu "estilo de vida", mas porque o personagem deseja ir para o céu e reencontrar os pais. Michael procura refúgio na  meditação, no budismo, em retiros espirituais, escola de estudos bíblicos e gera controvérsias pelo que escreve na internet condenando a homossexualidade, que segundo ele, trata-se de uma questão de escolha. Apesar de  Eu Sou Michael abordar um tema polêmico, buscando sempre um (des)equilíbrio entre religiosidade e homossexualidade, o filme pode ser bastante interessante por ser uma nota dissonante entre os filmes com temáticas gay. Assim, ele reflete, ainda que por um caminho inusitado, os estigmas que ainda recaem sobre quem sente desejo por pessoas do mesmo sexo. Quem se interessar pela história já está no Netflix o registro do reencontro de Klatze e Bennett depois da repercussão do filme (basta procurar Michael Lost and Found). 

Eu Sou Michael (I am Michael/EUA-2015) de Justin Kelly com James Franco, Zachary Quinto, Emma Robers e Charlie Carver. ☻☻☻

terça-feira, 20 de junho de 2017

CICLO DIVERSIDADESXL: The Duke of Burgundy

Chiara e Sidse: nada é o que parece. 

Evelyn (Chiara D'Anna) pedala pelo campo até chegar numa casa imponente no meio das árvores. Ela é recebida por uma madame que não parece muito satisfeita com a sua chegada. Cynthia (Sidse Babett Knudsen) é a dona da casa e só permite que a visita sente no sofá mediante autorização. Não demora para que a senhora lhe passe as tarefas do dia e, com um tom sempre altivo, seja arrogante o suficiente para que Evelyn sinta-se humilhada a cada instante. Quando o serviço não é perfeito, Evelyn é castigada, sendo levada pela senhora a um cômodo e, com a porta fechada, ouvimos apenas ruídos. Nesta primeira parte o filme The Duke of Burgundy beira o sublime, fazendo com que o espectador sinta toda a tensão que existe entre as duas personagens e, diante do estranhamento, o espectador se surpreende ao descobrir que as duas mulheres são amantes - e que toda aquela relação abusiva trata-se de um pedido da própria Evelyn para sua amada. Lançado no início de 2015 no Reino Unido, o filme fez sucesso em alguns festivais pela forma como conduz um relacionamento temperado com fantasias, fetiches, submissão e poder. Não por acaso, o título faz alusão a Carlos "O Terrível" Duque de Borgonha que ficou famoso por sua crueldade. Existe neste ponto um aspecto interessantíssimo, já que por vezes Cynthia sente-se desconfortável com os pedidos da companheira, mas, mesmo assim, aceita submetê-la às humilhações e punições durante todo o filme. O diretor Peter Strickland conduz o filme cheio de movimentos calculados, além de olhares e gestos reveladores - que na maioria das vezes contam mais sobre aquele relacionamento do que os diálogos. A produção é impecável, figurinos e cenários irretocáveis, bela fotografia, edição de corte perfeito, no entanto, o espectador que não aprecia muito filmes carregados de simbologias e metáforas poderá achar a narrativa um pouco cansativa, já que por boa parte do filme o que se vê é o jogo de Cynthia ser levemente subvertido (seja numa palestra sobre mariposas ou com a presença de uma outra personagem feminina que desperta ciúmes) - ou será que tudo não faz parte do jogo entre as duas?Embora considere que o filme paga um preço alto por manter as personagens isoladas do resto da sociedade (além de contar seu maior segredo cedo demais), o diretor tem o mérito de construir uma história habitada somente por mulheres, borboletas e mariposas (e a introdução com a música da dupla Ca'ts Eyes ajuda muito a construir esta passagem atmosférica do nosso mundo para o que se vê na tela). Algumas pessoas podem até dizer que o filme tem mais forma do que conteúdo,  mas Strickland ao lado de suas duas atrizes cria um espetáculo visual capaz de hipnotizar quem está em busca de um filme diferente sobre um casal - e seus segredos mais íntimos. 

The Duke of Burgundy (Reino Unido/Hungria - 2015) de Peter Strickland com Chiara D'Anna, Sidse Babett Knudsen, Monica Swinn e Fatma Mohamed. ☻☻☻ 

segunda-feira, 19 de junho de 2017

CICLO DIVERSIDADESXL: C.R.A.Z.Y

Zac: nascido para causar. 

O canadense Jean Marc Valée faz cinema desde 1995, mas ficou conhecido do grande público quando convenceu o mundo de que Matthew McCounaghey merecia o Oscar de melhor ator por sua atuação em Clube de Compras Dallas (2013). Quem tem o radar ligado para filmes interessantes além de Hollywood conheceu Valée em 2005 quando ele conseguiu o seu primeiro sucesso: C.R.A.Z.Y. (assim mesmo, como se fosse uma abreviação). O filme se tornou cult e bastante querido em vários festivais, chamando atenção para um diretor que contava uma história comum com bastante estilo e energia. Existem trocentos filmes sobre adolescentes que descobrem a homossexualidade, mas poucos conseguem ter um ritmo pop irresistível como este aqui. Com trilha sonora cheia de hits e personagens que parecem saídos de uma sitcom, o filme acompanha o menino Zachary desde o seu nascimento no dia de Natal em 1960. Desde aquele momento sabia-se que ele seria um filho diferente para o casal Gervais (Michel Côté) e Laurianne (Danielle Proulx), não apenas por conta de uma mecha de cabelo branco que possui perto da nuca ou dos "poderes" que uma amiga psicoterapeuta garante que Zac possua, o fato é que o próprio menino sabe que não possui nada em comum com seus três irmãos  (um cretino, um nerd e um atleta) - e mais tarde ainda ele ainda perderá o posto de caçula para o quarto filho do casal. Embora de vez em quando ele vestisse as roupas da mãe quando pequeno, seu interesse por outros meninos na adolescência é sempre vista como algo que pode ser superado na adolescência (mesmo quando o namorado da prima aparece para uma festa). Das implicâncias dos irmãos, à rejeição às investidas da amiga ruiva Michelle (Natasha Thompson que evoca algumas fases de David Bowie, ídolo de Zac) o tempo passa e o pai começa a se preocupar com a sexualidade do filho e desta preocupação o filme tem alguns dos seus melhores momentos, afinal, se antes os dois eram próximos, aos poucos o pai se torna cada vez mais crítico com Zac. Vivido por Marc-André Grondin (já comentei outro filme com ele aqui no blog, O Homem que Ri/2012) o personagem descobre sua sexualidade aos poucos, sempre sob a desconfiança do pai que possui algumas atitudes bastante engraçadas (como o orgulho do filho ter se envolvido numa briga na escola e provar assim que é homem de verdade, situações assim são valorizadas ainda mais pela atuação de  Michel Côte). Zac torna-se fã de rock, mostra-se cada vez mais crítico com a postura dos irmãos, com  a religião e sempre mostra-se em dúvida sobre sua sexualidade. Mistura de comédia com drama familiar, Valée faz um filme vibrante, colorido e que se torna universal por explorar sem sensacionalismos a reação de um garoto e sua família perante a descoberta da homossexualidade (a cena de pai e filho no estacionamento é um primor ao sintetizar como a revelação pesa para ambos os lados). Valée só erra a mão quando investe mais do que devia na fantasia e nos delírios das aventuras do personagem pelas bandas de Jerusalém, mas trata-se de um deslize pequeno para um filme que pode ser uma grande surpresa para quem não conhecia os primórdios da carreira deste elogiado diretor canadense.  

C.R.A.Z.Y (Canadá-2005) de Jean Marc Valée com Marc André Grondin, Michel Côte, Michelle Proulx, Pierre-Luc Brillant, Alex Gravel e Natasha Thompson. ☻☻☻☻

domingo, 18 de junho de 2017

CICLO DIVERSIDADESXL: Weekend

Tom e Chris: romance de fim de semana. 

Ano passado o diretor Andrew Haigh entrou no radar do Oscar com Charlotte Rampling indicada ao prêmio de melhor atriz por 45 Anos (2015). No filme, um casal enfrenta uma crise no casamento  (por conta de um relacionamento passado) quando está prestes a realizar uma festa pelos vários anos de união. Tão sutil quanto avassalador eu ainda considero que em nas primeiras versões do roteiro, Haigh havia pensado em contar uma história com personagens homossexuais (seja tendo o casal protagonista do mesmo sexo ou tendo como pivô da crise um homem). O motivo para essa desconfiança é que Haigh não apenas ficou conhecido como o criador da série Looking (2014-2015) da HBO, mas por ter estreado na direção com este filme de orçamento baixíssimo (120 mil libras) e olhar bastante intimista sobre o relacionamento entre dois rapazes que se envolvem durante um final de semana. Weekend se tornou cult ao contar história de Russell (Tom Cullen), um rapaz que deixa de participar de uma festa na casa dos amigos para ir a um bar e descola uma companhia para a noite. Ele acaba conhecendo Glenn (Chris New) e após a noite, o sexo sem compromisso gera um envolvimento que não estava nos planos de nenhum dos dois. O discreto Russell se incomoda com algumas posturas do recém conhecido, especialmente com o "projeto" de filmar entrevistas com os parceiros sexuais que cruzam seu caminho e o despudor de revelar sua sexualidade mundo. O que era para ser uma noite, se torna alguns dias na companhia um do outro e se Russell e Glenn se mostram bem diferentes no início, existe uma sintonia quase complementar entre os dois - em que a plateia pode perceber que existia combustível para uma relação mais duradoura do que o prazo para terminar sugere. Durante o fim de semana eles se conhecem um pouco melhor, tem alguns atritos, fazem sexo, consomem drogas e o diretor imprime uma direção que parece nem existir, como se a câmera fosse tão intrusa na vida dos dois quanto o espectador que assiste aquele recorte na vida de duas pessoas - que em alguns momentos até esquecemos ser personagens. Por vezes Russell e Glenn parecem dois lados opostos de de uma mesma pessoa, seja por conta da forma como vivenciam suas posturas diante do sexo e da vida  - e gravar seus parceiros casuais não seria uma forma de se lembrar deles por mais tempo? Com sensibilidade, boa trilha sonora e referências cinematográficas variadas, o filme termina com aquela sensação de que algo mais poderia ter acontecido entre os dois, talvez por ainda acreditarmos que a impessoalidade nas relações é mais complicada do que parece, seja para héteros ou gays. 

Weekend (Reino Unido - 2011) de Andrew Haigh com Tom Cullen, Chris New, Jonathan Race e Laura Freeman. ☻☻☻

PL►Y: Krisha

Trey e Krisha: ficção e realidade em drama surpreendente. 

Depois de muito tempo afastada, Krisha (Krisha Fairchild) vai passar o dia de Ação de Graças na casa da irmã e reencontra toda a família. É visível o esforço da protagonista para soar agradável a todos os presentes. Sempre sorrindo, com traços de gratidão e olhar compreensivo, basta que fique sozinha para ela respirar aliviada por não ter que demonstrar felicidade o tempo todo. Quando está sozinha ela apela para suas pílulas, uma indefectível pomada para o dedo decepado e respira profundamente para enfrentar o olhar de todos novamente.  O filme do estreante Trey Edward Shults poderia ser apenas mais um drama familiar sobre desajustes que o cinema indie americano cria às centenas todos os anos, mas pretende ser diferente. Em Krisha, todos se esforçam para que tudo saia perfeito, independente dos problemas que estão sufocados, mas quando tudo desandar todos voltarão as acusações para Krisha. Dos sobrinhos crescidos que se comportam feito imbecis, do filho (vivido pelo próprio diretor) que não consegue demonstrar qualquer afeição por ela, do cunhado que odeia a dezena de cachorros criados pela esposa  e a mãe idosa que não faz a mínima ideia do que acontece ao seu redor, o filme constrói lentamente uma tensão que torna-se insuportável conforme se aproxima o desfecho - e a trilha sonora ajuda bastante a adicionar toneladas de pressão psicológica sobre a reunião familiar que presenciamos. Antes que seja revelado qual é o grande problema da personagem, o próprio espectador já está com o pé atrás com aquela família de sorrisos postiços e sentimentos ambíguos com relação à visitante que sente-se  uma verdadeira estranha depois de tanto tempo afastada. Aos poucos sabemos um pouco mais da triste trajetória da personagem e como afetou a vida de todos ao seu redor. Sabemos que nada sairá bem. Mais notável do que o jeito de contar a história (com olhar firme, movimentos de câmera bem bolados e uma melancolia opressiva) é saber que Shults se inspirou num drama vivido em sua própria família para construir o roteiro (na vida real, a situação aconteceu com seu primo). Encarar um fantasma familiar já é um grande desafio, mas filmá-lo em nove dias na casa da família e com ajuda de parentes e amigos (a protagonista é tia do cineasta), em sua maioria não atores torna o resultado ainda mais notável. Talvez seja essa familiaridade que faça as dores dos personagens soarem bastante autênticas - o que lhe rendeu elogios no festival de Cannes2015 e o Prêmio John Cassavetes (para filmes de baixíssimo orçamento) no Independent Spirit Awards.  A habilidade do diretor em extrair suspense deste drama familiar lhe rendeu a chance de fazer seu segundo longa metragem, o elogiado terror Ao Cair da Noite (2017) com Joel Edgerton e Christopher Abbott que deve colocar seu nome entre os nomes mais cobiçados em Hollywood neste ano. 

Krisha (EUA-2015) de Trey Edward Shults  com Krisha Fairchild, Bill Wise, Robyn Fairchild, Alex Dobrenko, Chris Doubek e Trey Edward Shults. ☻☻☻☻

sábado, 17 de junho de 2017

Combo: Casais Casados

05 À Beira Mar (2015)
Ano passado um dos casais mais badalados de Hollywood colocou um ponto final em seu casamento de seis filhos. Brad Pitt e Anjelina Jolie se conheceram durante as filmagens de Sr. e Srª Smith/2005 e sempre diziam que não faziam uma sequência por não terem encontrado um roteiro que tivesse relação com os dois. Ironicamente os dois contracenaram juntos neste filme dirigido por Jolie sobre um casal que tenta superar a crise no casamento. O divórcio veio no ano seguinte com vários comentários dela reclamando da postura dele e ele dizendo que como diretora ela é muito mandona.  

04 Um Copo de Cólera (1999)
Os brasileiros Julia Lemmertz e Alexandre Borges eram casados há tempos quando o diretor Aluizio Abranches convidou os dois para esta adaptação da obra de Raduan Nassar. Os dois ficaram animadíssimos, mas quando leram o roteiro Julia tomou um susto: "Você vai filmar a gente fazendo isso?!". Ela se referia às cenas de sexo sem vergonha protagonizadas pelo casal que protagoniza a história. Ele é um ex-ativista que escolheu viver isolado numa chácara (assim como  o escritor) ela é uma jornalista, juntos eles protagonizam cenas tórridas até começarem uma verborrágica discussão interminável...

03 Irreversível (2002)
Por treze anos o francês Vincent Cassel e a italiana Monica Bellucci formaram o casal mais badalado do cinema europeu. Os dois se conheceram nas filmagens de O Apartamento (1996) mas oficializaram a relação três anos depois. Os dois dividiram os créditos novamente neste drama violento de Gaspar Noé que fez muita gente passar mal na sala escura com a narrativa invertida, a cena de estupro mais longa do cinema, a cabeça esmagada por um extintor, um clube SM gay e... o tom constante de tragédia. No meio ao caos, a química do casal é um excelente contraste às atrocidades que Noé propõe no seu filme mais bem sucedido. 


02 Um Sonho Distante (1992)
Tom Cruise e Nicole Kidman se conheceram nas filmagens de Dias de Trovão (1990). Já casados embarcaram neste drama romântico sobre um casal de jovens irlandeses que vão tentar a sorte nos Estados Unidos no ano de 1893 (e descobrem que o sonho americano é mais difícil do que pensavam - mesmo com a direção açucarada de Ron Howard). A intenção do filme era fazer bonito nas premiações, mas agradou somente as suspirantes fãs do astro. O casal atuaria juntos novamente em 1999 num contexto completamente diferente em De Olhos Bem Fechados de Stanley Kubrick - pouco tempo antes da famosa separação. 

01 Uma Aventura da Martinica (1944)
Bastava ver uma cena para perceber que existia algo de muito especial quando se colocava o galã Humphrey Bogart e a destemida Lauren Bacall juntos na mesma cena. Aqui ele é um capitão americano, ela... uma ladra e quando o caminho dos dois se cruzam você pode deduzir tudo (dentro e fora da tela) olhando para a foto ao lado. Embora o casamento tenha durado pouco (1845 à 1957 devido ao falecimento dele), as faíscas entre os dois renderam mais três filmes clássicos: À Beira do Abismo (1946), Dark Passage (1947) e Paixões em Fúria (1948). Hoje a dupla é reconhecida como o casal mais celebrado da história do cinema.