sábado, 14 de abril de 2018

4EVER: Milos Forman

18 de fevereiro de 1932 ✰  14 de abril de 2018

Jan Thomas Forman nasceu na Tchecoslováquia em uma família de protestantes. Durante a Segunda Guerra Mundial seus pais foram perseguidos, sendo o pai preso e morto por distribuir livros proibidos e sua mãe levada para Auschwitz. Jan foi acolhido por parentes durante este período. Talvez pelo tom sombrio de sua história, Milos começou a carreira no cinema fazendo comédias em sua terra natal  (o que ajudou a moldar seu estilo um tanto subversivo). Com o sucesso de seu filme Os Amores de Uma Loira (1967), indicado ao Oscar de filme estrangeiro, o diretor começou a negociar sobre o seu primeiro filme nos EUA, mudando-se para lá e conseguindo a nacionalidade americana em 1977. Estabelecido em Nova York, ele se tornou professor de cinema na Universidade de Columbia.  Seu primeiro filme americano (Procura Insaciável/1971) foi premiado em Cannes e consolidou sua carreira em Hollywood. Logo depois ele lançou  o aclamado Um Estranho no Ninho (1975), que recebeu os cinco principais Oscars (Filme, diretor, ator, atriz e roteiro adaptado). Depois ele dirigiu Hair (1979) e Amadeus (1984), filme que ganhou oito Oscars, incluindo filme e direção. Forman ainda foi indicado ao Oscar mais uma vez pelo controverso O Povo Contra Larry Flynt (1996). O cineasta faleceu em sua residência em Connecticut após um breve mal estar. 

quinta-feira, 12 de abril de 2018

Na Tela: Jogador Nº 1

Tye: avalanche de easter eggs. 

Steven Spielberg construiu sua fama em Hollywood com base em uma revolução nos filmes de entretenimento. Pode se dizer que muito do que vemos entre as maiores bilheterias de cada ano não existiriam se ele não houvesse mudado a forma com que os estúdios percebem este tipo de cinema. Depois ele precisou fazer filmes sérios para ser consagrado como um cineasta de prestígio, por vezes amargou fracassos, em outros colheu elogios e ganhou Oscars (só de diretor ele tem dois na estante). O estranho foi que em suas últimas aventuras pelo mundo milionário das superproduções, ele amargou filmes que não conseguiam ser a sombra do que ele foi no passado. Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal (2008) deixou os fãs mais confusos do que satisfeitos, a animação As Aventuras de Tintim (2011) era mais bem feita do que empolgante e O Bom Gigante Amigo (2016) foi rotulado como um dos mais frustrantes de sua carreira. A chance de levar para as telas a obra de Ernest Kline era a grande chance do diretor entrar em sintonia com seu novo público para o século  XXI. Jogador Número 1 era tudo que Spielberg precisava para se comunicar com o público jovem atual, afinal, tem a chance de lidar com toneladas de efeitos especiais, ritmo vertiginoso e easter eggs - e este conceito  faz parte importante da história. São tantas referências escondidas no filme que assisti-lo se torna um verdadeiro desafio para saber identificar todos - e Spielberg ainda teve a elegância de cortar todas as alusões ao seu trabalho que estavam presentes no livro. A história em si não tem nada demais, mas serve de fio condutor para o diretor criar um mundo imagético próprio, repleto de símbolos da cultura pop (com curiosa ênfase nos anos 1980 e 1990) e que se misturam com um simples clique dos usuários do Oasis. Oasis é um mundo virtual onde a humanidade prefere viver conectada do que perceber a realidade cinzenta e sem muita perspectiva do mundo real. É neste mundo futurístico em frangalhos que vive o protagonista Wade (Tye Sheridan, o jovem Ciclope de X-Men: Apocalipse/2016 - que aqui usa óculos iguaizinhos ao do herói). No jogo ele é Parzival, um dos personagens que parte na busca de easter eggs escondidos pelo criador do Oasis e que servirá para derrotar o empresário megalomaníaco Sorrento (Ben Mendelsohn). Boa parte do filme se passa no mundo de fantasia, onde Wade, ou melhor, Parzival tem amigos que nem conhece no mundo real - pelo menos até ele ser perseguido por Sorrento. O filme é uma correria num verdadeiro espetáculo visual, poderia ser ainda mais interessante se o roteiro não optasse por diálogos simplistas e algumas situações que parecem puro clichê. Como diversão o filme funciona muito bem, mas perde a chance de ser uma alusão mais densa ao mundo fascinado (e viciado) por tecnologia que vivemos hoje. Porém, pode ser eu que tenha envelhecido demais para ficar satisfeito com este filme.  Não duvido que o longa será um sucesso ao redor do mundo e possa até se tornar uma série de sucesso nos cinemas, mas isto me faz pensar em outro ponto que nem é tão relevante agora: Tye Sheridan já me parece no limite para viver um adolescente. O ator mirim cresceu e se tornou um ator esforçado, mas quem rouba a cena é sua parceira de cena, Olivia Cooke. Cooke foi revelada na série Bates Motel e ganhou a tela grande com o ótimo Eu, Você e a Garota que Vai Morrer (2015) e aqui, prova mais uma vez que é impossível não se tornar fã dela. Espero que ela faça mais filmes depois deste aqui. 

Jogador Número 1 (Ready Player One/EUA-2018) de Steven Spielberg com Tye Sheridan, Olivia Cooke, Ben Mendelsohn, Mark Rylance, Simon Pegg e Phillip Zao. ☻☻☻

terça-feira, 10 de abril de 2018

10+ Jake Gyllenhaal

Pouca gente lembra, mas Jacob Benjamin Gyllenhaal começou sua carreira como ator infantil em 1990, durante as filmagens da comédia de faroeste Amigos, Sempre Amigos (1991). O menino californiano cresceu e chamou atenção com seus grandes olhos azuis. Bastou ele ser protagonista do bom O Céu de Outubro (1999) para que percebessem o seu potencial para astro. O papel promoveu a primeira guinada em sua carreira, rendendo três filmes em 2001 - com destaque para o cult Donnie Darko (2001). De lá para cá, Jake enfrentou críticas, foi indicado a prêmios e amadureceu o suficiente para ser um dos atores mais respeitados de sua geração. Esta lista é para lembrar meus dez papéis favoritos do rapaz - e que o ajudaram a ser um dos atores mais requisitados do cinema americano:

10 Soldado Anônimo (2005) de Sam Mendes
Pouca gente entendeu este filme quando estreou, no entanto, é uma das obras mais curiosas sobre a relação dos americanos e seu gosto por guerras. 

Jake convence como um boxeador em crise profissional e pessoal, mesmo que o roteiro capenga não ajude o filme a alcançar todas as intenções que deveria. 

Fosse feito nos anos 1990, provavelmente o papel teria ficado com Jim Carrey, no entanto, a escolha de Jake para este papel caricato inusitado surpreende até hoje. 

O primeiro papel adulto do ator foi como o jornalista Robert Graysmith que ajudou nas investigações para encontrar o famigerado serial killer americano entre os anos 1960 e 1970. 

06 Donnie Darko (2001) de Richard Kelly
O primeiro grande sucesso do ator se tornou cult com sua história que mistura viagens no tempo, apocalipse e um coelho macabro. Até hoje teorias se multiplicam sobre o filme.

Jake bem que merecia maior destaque nas premiações com sua desconstrução de um recente herói americano. Entre a fama e seus desafios pessoais, o ator acerta o tom num filme irregular. 

Em sua segunda parceria com o diretor canadense, Jake encarna dois personagens que podem ser sósias, irmãos, clones, rivais, projeções, ilusões ou apenas um devaneio aracnídeo. 

O ator perdeu 14 quilos para viver o sanguinário freelancer que faz a glória de um canal sensacionalista. Pelo ar estranho (e cadavérico), ele  foi indicado ao Globo de Ouro. 

Embora já colecione várias atuações no currículo, Jake foi indicado ao Oscar somente como o cowboy gay Jack Twist neste aclamado filme. Jake concorreu como melhor ator coadjuvante. 

Dar conta de um personagem que se divide em dois não é tarefa fácil. No elaborado filme de Tom Forde, Jake interpreta um escritor e seu personagem com a mesma precisão (e angústia). 

segunda-feira, 9 de abril de 2018

Na Tela: O que Te Faz Mais Forte

Tatiana e Jake: a vida após uma tragédia. 

Com uma indicação ao Oscar de ator coadjuvante por Brokeback Mountain (2005) faz algum tempo que Jake Gyllenhaal anda se esforçando para que sua segunda indicação se concretize. No entanto, a Academia o tem ignorado solenemente nos últimos anos. Se os votantes do Oscar não se impressionam com suas atuações recentes, por outro lado, faz tempo que a crítica deixou de o considerar um ator limitado. Prova disso é o seu trabalho neste O Que Te faz Mais Forte - sua atuação ficou de fora de praticamente todos os prêmios da temporada, sendo lembrado somente no Critic's Choice Awards 2018. Adaptado pelo diretor David Gordon Green do livro autobiográfico de Jeff Bauman, muita gente viu o filme com grande desconfiança, imaginando que seria mais um daqueles filmes melodramáticos sobre superação, no entanto o filme toma algumas decisões curiosas, corajosas até, no que se refere ao seu protagonista. Jeff Bauman ficou famoso por ser uma das vítimas do atentado ocorrido na Maratona de Boston no ano de 2013, onde dois homens explodiram bombas de fabricação caseira e deixaram uma centena de vítimas que assistiam o evento pelas ruas da cidade. Bauman perdeu a maior parte de suas pernas e após um período desacordado, se tornou um herói nacional por identificar um dos responsáveis pelas explosões. Esta parte mais conhecida da história é tratada de forma bem rápida no início do filme, o que interessa mesmo ao diretor é explorar o conflito vivido por um homem que era visto como um herói, mas se encontrava em frangalhos por dentro. Enquanto todos queriam tirar fotos e entrevistá-lo, ele sofria com a sua nova condição, onde situações simples como acordar pela manhã ou ir ao banheiro marcava o início de um grande desafio. Além disso o filme dedica boa parte de sua duração a narrar a dura reabilitação de Jeff, que rende para Jake Gyllenhaal um trabalho físico realmente impressionante. É curioso como o filme não ameniza a vida comum de seu protagonista, optando por representá-lo como uma pessoa de carne e osso, que mostra-se imaturo, fala e faz bobagens ao lado dos amigos e não consegue disfarçar o incômodo com o gosto da mãe pela bebida e o prazer de ver o filho se tornar uma celebridade (é notável o desconforto toda vez que tem que vibrar os braços no ar em uma celebração constante de algo que não via sentido). Quem esperava uma visão bonitinha da vida de Bauman vai se decepcionar, já que o filme faz justamente o oposto (o que colaborou para o filme ir mal nas bilheterias americanas). O ponto de equilíbrio na vida de Jeff é a presença de Erin, a ex-namorada que o levou a estar presente na tal maratona (que rende para a canadense Tatiana Maslany, da série Orphan Black, outro bom trabalho). O relacionamento entre Jeff e Erin é um dos pontos mais interessantes do filme, já que mistura romance (com um tanto de culpa e cobranças) que serve de fio condutor para a narrativa um tanto dispersa ao gosto de Gordon Green. É verdade que o filme funciona bem em sua primeira hora. Consegue ser realista na medida certa, enxuto, redondinho... depois ele começa a relaxar e utilizar cenas que parecem estar ali só para esticar a duração da história. O que te Faz Mais Forte não é um grande filme, mas é sincero ao transformar um herói americano no que ele realmente é: um sujeito comum que viu a vida mudar radicalmente após uma tragédia. 

O Que Te Faz Mais Forte (Stronger/EUA-2017) de David Gordon Green com Jake Gyllenhaal, Tatiana Maslany, Miranda Richardson, Richard Lane Jr., Clancy Brown e Nate Richman. ☻☻☻

NªTV: A Casa de Papel

A gangue: sucessivas reviravoltas. 

A minissérie espanhola La Casa de Papel estreou na Netflix em meio às comemorações de fim de ano (25 de dezembro de 2017 para ser exato) sem fazer muito alarde. Aos poucos a série ganhou numerosos fãs que realizaram uma verdadeira campanha boa a boca e a série se tornou uma das mais assistidas do serviço de streaming nos primeiros meses de 2018. Lançada em maio do ano passado na Espanha, A Casa de Papel conseguiu ótima audiência por onde passou e se tornou um sucesso mundial com sua narrativa ágil e personagens complexos que, não raro, enveredam por um tom quase novelesco (e não há problema nenhum nisso, já que, devidamente lapidado, faz parte da identidade do próprio cinema espanhol). Concebida e exibida originalmente como uma minissérie, não entendi muito bem o motivo da Netflix dividir a série em duas partes aqui no Brasil, afinal, quando assistimos a segunda parte (que está disponível desde o dia seis de abril) vemos claramente que a tensão crescente sofre um golpe doloroso com o intervalo forçado de tempo. No entanto, isso não prejudica os méritos da série que apresenta um elaborado roubo à Casa da Moeda espanhola, ou melhor, na verdade, o roubo nem é tão elaborado assim, mas subverte um dos pontos mais importantes nas produções do gênero: o tempo. Enquanto na maioria das produções sobre assaltos os criminosos precisam fazer tudo no espaço mais curto de tempo para não serem pegos, os ladrões aqui precisam de tempo, ou melhor, enrolar a polícia para que fiquem mais tempo ali dentro produzindo mais e mais dinheiro. Ao longo dos capítulos, a cifra se aproxima da casa do bilhão de euros, no entanto, a quadrilha precisa ficar atenta para driblar todos os percalços do caminho. Embora tudo seja magistralmente arquitetado pelo Professor (Álvaro Morte), várias vezes o fator humano coloca em risco o sucesso de sua meticulosa arquitetura. Neste ponto não estamos falando apenas no romance da narradora Tóquio (Úrsula Corberó) e o jovem hacker Rio (Miguel Herrán), das rusgas entre Nairóbi (a ladra de cenas Alba Flores) e o assustador Berlim (Pedro Alonso), as pendengas familiares entre  o pai Moscou (Paco Tous) e o filho temperamental Denver (Jaime Lorente), ou a presença sempre truculenta de Helsinque (Darko Peric) e Oslo (Roberto García Ruiz), estou falando também do envolvimento do Professor com a encarregada de resolver aquela situação que se arrasta por dias, a detetive Raquel Murilo (Itziar Ituño). O mais legal da série é a forma como ela se reinventa para nunca perder a atenção do espectador, seja com estratégias improvisadas para manter o plano original funcionando ou descobertas e surpresas que aparecem pelo caminho, A Casa de Papel flui com uma eficiência invejável e, mesmo quando exagera nas mentiras, torna-se ainda mais divertida. Outro ponto forte da história é como os roteiristas ampliam seu leque de personagens durante os episódios, utilizando parentes, dramas pessoais, reféns e investigadores para alimentar ainda mais a tensão da história. Além de seus méritos, o sucesso da produção ainda pode ter outro mérito: chamar atenção do público brasileiro para séries europeias. A grande maioria são exibidas por aqui sem muito alarde, o que é uma pena já que séries magistrais como a francesa Les Revenants (que ganhou uma versão chamada The Returned na própria Netflix, só que bem menos interessante que a original) e a sueca Real Humans (que foi refilmado pela AMC sem tanto êxito) nunca ganharam atenção merecida do público brasileiro. Quem sabe com A Casa de Papel o público descubra que existem séries muito interessantes em línguas diferentes da inglesa.

A Casa de Papel (La Casa de Papel / Espanha - 2017) de Álex Pina com Álvaro Morte, Itziar Itoño, Úrsula Corberó, Miguel Herrán, Pedro Alonso, Alba Flores, Jaime Lorente, Paco Tous, Darko Peric e Esther Acebo. ☻☻☻☻

domingo, 8 de abril de 2018

Na Tela: Um Lugar Silencioso

Emily: minha primeira favorita  ao Oscar 2018. 

John Krasinski ganhou fama como o simpático Jim da série americana The Office, o programa durou oito temporadas e terminou em 2013. Embora tenha lá seus dons dramáticos, John é essencialmente um ator cômico e, por conta deste estigma ainda não tinha conseguido o devido reconhecimento em sua carreira no cinema - tanto que está para estrear no cobiçado papel de Jack Ryan na série de TV homônima inspirada na obra de Tom Clancy. Krasinski lançou dois filmes como diretor, um em 2009 (Breves Entrevistas com Homens Hediondos) e outro em 2016 (Família Hollar), dos quais ninguém lembra e que não demonstram o mínimo vestígio do que ele faria neste Um Lugar Silencioso. Em entrevistas ele costuma dizer que o roteiro chegou como convite para que ele interpretasse o papel do pai presente no filme, mas sua mente de cineasta trabalhou a todo vapor ao imaginar as cenas e as interpretações que poderia tirar daquela história. Vale lembrar que John é casado com a atriz Emily Blunt desde 2010 e tem duas filhas, o que deve ter ajudado muito a se identificar com o horror vivido pelos personagens do filme. A trama conta a história de uma família perseguida por monstros misteriosos que são atraídos pelo som, sendo assim, os personagens precisam sobreviver fazendo o menor ruído possível para evitar que se tornem comida. O filme não perde tempo com muitas explicações sobre a forma como o mundo passou a ser atormentado por estas criaturas, mas  sabe exatamente como contar a sua história abusando de um recurso ao qual o público está cada vez menos acostumado: a sugestão. Sem dispor de diálogos para explicar o que está acontecendo, o filme investe numa narrativa extremamente visual e o faz com maestria. A imagem se torna o centro da história e são elas que conduzem a trama até o seu sugestivo final. É verdade que existem ruídos e trilha sonora, mas que não conseguem diminuir o feito notável do diretor Krasinski em utilizar o silêncio para ampliar a angústia do espectador e cada barulho que surge durante a história. O roteiro é bem escrito e os atores estão muito bem em cena, das crianças (os expressivos Millicent Simmonds e Noah Jupe), ao diretor/ator que consegue interpretar a angústia de um pai para proteger sua família do desconhecido até chegar à magnífica atuação da britânica Emily Blunt, na pele da mãe grávida que passará por alguns dos momentos mais angustiantes da história do cinema sem poder soltar um grito. Além disso o filme tem a sensibilidade de quando escolhe uma canção para tocar, escolher uma das mais lindas de todos os tempos (e não vou contar qual é).  Fui desconfiado para o cinema imaginando como o a plateia reagiria ao filme, mas foi uma experiência ótima, já que o silêncio imperava e até a respiração da pessoa ao lado eu conseguia ouvir. Krasinski se arriscou bastante em seu terceiro filme e merece elogios por ter encontrado sua voz em meio a um gênero tão desgastado em Hollywood. Simplesmente surpreendente - ainda mais se você optar por fazer uma leitura ainda mais contemporânea da história em paralelo com o mundo atual. 

Jupe, Milli e John: aplausos ao diretor. 

Um Lugar Silencioso (A Quiet Place/EUA-2018) de John Krasinski, com Emily Blunt, John Krazinski, Millicent Simmonds e Noah Jupe. ☻☻☻☻

Na Tela: Com Amor, Simon

Robinson: saindo do armário. 

Simon é um rapaz de dezessete anos que vive com os pais e a irmã mais nova. O pai era o jogador mais bonito da escola, a mãe foi rainha da formatura e a irmã mais nova viu tantos programas de culinária que faz da cozinha uma verdadeira experiência (e a família seu grupo de cobaias). Simon tem um casal de amigos de infância e tem uma amiga recém chegada que parece conhecer há um tempão. Sua vida escolar não apresenta problemas. Ele não é perseguido por colegas ou tem alguma dificuldade de aprendizagem. Seus pais também lhe deram um carro assim que ele tirou a carteira de motorista, mas, ainda assim, existe algo que incomoda Simon. Faz um tempo que , em meio a sonhos com Daniel Radcliffe, ele descobriu que gosta de outros rapazes, no entanto, na insegurança de se assumir para ao mundo, Simon prefere guardar este segredo. No entanto, quando ele descobre pela internet que em sua escola tem outro garoto gay não assumido, os dois começam a trocar e-mails e Com Amor, Simon constrói assim dois pontos importantes de sua narrativa: como Simon aceita aos poucos a sua sexualidade e, para manter certo suspense, quem é o rapaz com quem conversa (e faz o olho do personagem brilhar sempre que surge um suspeito). O diretor Greg Berlanti (que até então não fizera nada de relevante) tem a difícil tarefa de levar para as telas a história de Simon vs a Agenda Homo Sapiens de Becky Albertalli, se no livro a narrativa fácil voltada para young adults funciona, na tela esta tarefa costuma ficar complicada por correr o risco de atenuar demais as partes mais complicadas e soar artificial demais, dando assim um sabor de pastel de vento. Embora o filme mantenha aquele clima de que "o mundo é bom e aceitará você do jeito que és" (com exceção dos dois idiotas da escola), o longa consegue um certo equilíbrio com os dilemas e as dores que o personagem precisa enfrentar até o desfecho da história. Colabora muito para o funcionamento do filme a leveza adotada pelo diretor (esqueça o tom filme de arte de Me Chame pelo seu Nome/2017 ou a densidade de Moonlight/2016), aqui o clima é outro, próximo do que John Hughes fazia nos anos 1980 - e igualmente funcional (e aquela citação na cena final só reforça isso). Boa parte da eficiência se deve aos diálogos bastante espontâneos e o elenco que cai como uma luva em seus personagens. Embora os nomes mais conhecidos sejam Jennifer Garner e Josh Duhamel (que interpretam os pais do protagonista), a alma do filme é mesmo o jovem Nick Robinson (que está infinitamente melhor do que vimos em Jurassic World/2015), o melhor aspecto do seu trabalho é não tornar a  homossexualidade a característica que define seu personagem, deixando que este ponto seja apenas um aspecto de sua personalidade (embora toda a trama do filme gire em torno disso). Seus colegas também estão bem em cena e ajudam a manter o bom humor da história mesmo quando as piadas não são tão boas. Com Amor, Simon é um filme despretensioso em suas ambições e deve conquistar o público exatamente por conta disso, não soa panfletário ou rebuscado, parecendo sincero e resultando bastante eficiente em demonstrar que se o mundo colaborar, ser gay não é um bicho de sete cabeças. 

Com Amor, Simon (Love, Simon/EUA-2018) de Greg Berlanti com Nick Robinson, Jennifer Garnder, Josh Duhamell, Katherine Langford, Logan Miller, Alexandra Shipp e Tony Hale. ☻☻☻

sexta-feira, 6 de abril de 2018

PL►Y: The Lovers

Winger e Letts: casal reencontra a chama. 

Debra Winger começou sua carreira em 1976 como a Garota Maravilha no seriado da Mulher Maravilha. Ela só participou de três episódios, mas chamou atenção do público com seu carisma e olhar sereno. Desde então fez vários filmes, incluindo os cultuados Cowboy do Asfalto (1980, em que fez para com John Travolta) e A Força do Destino (1982, onde era o par romântico de Richard Gere)., mas foi indicada ao Oscar de coadjuvante como a filha de Shirley MacLaine em Laços de Ternura (1983) que Debra demonstrou fôlego para muitos anos de carreira. Ela conseguiu outros papéis importantes nos anos 1980 e 1990 e foi indicada ao Oscar mais uma vez, desta vez como  melhor atriz por Terra das Sombras (1993), onde ofuscou Sir Anthony Hopkins (e o ator interpretava o escritor CS Lewis). O tempo passou, os convites foram rareando e o cinema a deixou de lado. Há dez anos ela teve um papel marcante em O Casamento de Rachel (2008), mas permaneceu com a carreira numa espécie de limbo que ninguém sabe explicar muito bem. Atualmente ela está na série The Ranch (que está em sua terceira temporada), mas espero que o cinema lembre dela mais vezes e lhe ofereça papéis interessantes como o que ela desempenha neste The Lovers. O filme concorreu ao Filme Independent Spirit Awards de melhor roteiro ao contar a história de um casal maduro em crise que retoma o interesse sexual de um pelo outro. O que faz a diferença aqui é uma certa ironia, já que ambos tem amantes fixos e planejam acabar com o casamento e seguir novos caminhos em suas vidas, mas sempre acabam adiando... gerando conflitos e exigências dos amantes carentes, que tornam o adultério tedioso, rotineiro e cheio de exigências, como se fosse... um casamento em crise. Esta ideia é o que ampara o roteiro escrito pelo diretor Azazel Jacobs, que prima por um humor refinado, valorizado ainda mais pelas atuações cheias de nuances de Debra e Tracy Letts (que era mais conhecido como dramaturgo, mas aos poucos se mostra um ator cada vez mais interessante). É incrível como o filme os apresenta dentro de um casamento de vida sexual inexistente até que surge aquela faísca que os liga novamente. Ambos se tornam mais felizes, sexys e luminosos a partir deste ponto - e os amantes vividos por Aiden Gillen e Melora Walters se tornam ainda mais cansativos e frustrantes. Também não é por acaso que o relacionamento fica prestes a desabar quando o fantasma do adultério ameaça se revelar e aparece o filho para atrapalhar. The Lovers é uma comédia dramática esperta, com boas atuações, mas que derrapa quando chega perto do final e enrola para decidir qual caminho irá seguir. No entanto, até chegar nesta derrapada, o filme mostra que Debra Winger ainda é uma atriz interessantíssima e que o passar dos anos lhe deu a capacidade de demonstrar emoções ainda mais complexas com um simples olhar. Sua última cena no filme explora bem este talento e torna o desfecho em uma charmosa ambiguidade.   

The Lovers (EUA/2017) de Azazel Jacobs com Debra Winger, Tracy Letts, Melora Walters, Aiden Gillen e Tyler Ross. ☻☻☻☻

quinta-feira, 5 de abril de 2018

4EVER: Isao Takanahata

29 de outubro de 1935 ✰  05 de abril de 2018

Isao Takanahata nasceu na cidade de Ise, no Japão e ganhou fama internacional por seus trabalhos como roteirista, escritor, animador, diretor e produtor de animações japonesas. Takanahata trabalha com animação desde 1959, quando começou a trabalhar para os estúdios Toei, mas reza a lenda que começou a trabalhar como animador somente quando teve domínio pleno sobre o projeto. Enquanto cineasta seus filmes sempre transitaram por vários gêneros, sendo hábil em construir narrativas de aventuras, comédias, mas seu maior sucesso foio drama de guerra O Túmulo dos Vagalumes (1989). Takanahata ficou ainda mais famoso ao se associar ao amigo Hayao Miyazaki na fundação do estúdio Ghibli em 1985. Seu último trabalho como diretor foi o magnífico O Conto da Princesa Kaguya (2014), que foi indicado ao Oscar de Melhor Animação em 2015. Há alguns anos. Takanahata faleceu em decorrência de problemas cardíacos que o acompanhavam desde 2016.