segunda-feira, 21 de maio de 2018

Na Tela: A Noite do Jogo

Os amigos: a noite das brincadeiras perigosas. 

Max (Jason Bateman) e Annie (Rachel McAdams) costumam se encontrar com os amigos regularmente para uma noite de jogos e colocar a conversa em dia. Os dois parecem se entender bem e o maior problema que enfrentam é a dificuldade para Annie engravidar - pelo menos até o irmão bem sucedido de Max, Brooks (Kyle Chandler) aparecer e o clima ficar mais tenso pela competição que existe entre os manos. Tão logo Brooks chega, ele convida o irmão e os amigos fiéis para participar jogar em seu casarão e apresenta uma nova brincadeira, bem mais realista, onde um deles será sequestrado e os outros terão que resgatá-lo antes que seja assassinado. Sendo assim, tão logo a brincadeira começa, os personagens seguem as pistas e... descobrem que nem tudo faz parte do jogo. A Noite do Jogo tem como maior qualidade inserir personagens típicos de uma comédia num tom de suspense. Parece fácil, mas manter este equilíbrio durante a sessão é bastante complicado, sorte que o filme consegue cumprir seu objetivo! Os diretores John Francis Daley e Jonathan Goldstein (que como diretores nunca fizeram nada demais, mas já escreveram Homem-Aranha: De Volta ao Lar/2017 e Tá Chovendo Hambúrguer2/2013), capricham na atmosfera de mistério, sempre deixando o espectador desconfiado sobre o que está assistindo (dando uma sensação bastante semelhante à vivida pelos próprios personagens). A fotografia é interessante, a trilha sonora com sintetizadores (que parece saída de Stranger Things) ajuda na atmosfera e até o uso de maquetes funciona bem nas transições de cena. O elenco também consegue ser bastante eficiente, sendo como o casal que namora desde a adolescência e parece enfrentar a primeira crise de ciúme (Lamorne Morris e Kylie Bunburry), o amigo idiota que só fala bobagem (Billy Magnussen, ator que tem a aparência perfeita para ser o Adam Warlock da Marvel) que não acerta nem a nacionalidade de sua nova parceira muito mais esperta que ele (a inglesa Sharon Horgan). Martin Freeman faz o de sempre (mas ninguém de incomoda com isso) e Rachel McAdams acerta em todas as cenas, com uma eficiência cômica que faz tempo que ela não explora em cena. Outro destaque do elenco é Jesse Plemons (aquele que parece o irmão menos famoso de Matt Damon), que encarna o estranho vizinho policial de Annie e Max e consegue ampliar um personagem com pouco tempo em cena de forma impressionante. Plemons é capaz de causar calafrios, mas a plateia quase implora para que ele apareça em cena mais uma vez. A Noite do Jogo parece a versão light de Vidas em Jogo (1997), aquele de David Fincher onde Sean Penn presenteia o irmão Michael Douglas com um jogo sinistro, mas aqui a ideia funciona até melhor. Está certo que o roteiro até repete algumas piadas (algumas funcionam da segunda vez, outras nem tanto), mas é esperto o suficiente para ser uma grata surpresa que merecia fazer bem mais sucesso entre dois lançamentos badalados de super-heróis em cartaz. Se você cruzar com o filme por aí, vale a pena assistir e participar do coro que pede por uma sequência. 

A Noite do Jogo (Night Game/EUA-2018) de John Francis Daley e Jonathan Goldstein com Jason Bateman, Rachel McAdams, Jesse Plemons, Kyle Chandler, Billy Magnussen, Lamorne Morris, Kylie Bunburry, Sharon Horgan, Danny Huston Michael C. Hall e Jeffrey Wright. ☻☻☻☻

domingo, 20 de maio de 2018

PREMIADOS CANNES 2018

Cannes 2018: filmes para se falar o ano inteiro. 

Mesmo com as manifestações contra o assédio e o abuso sexual nos bastidores do cinema, o Festival de Cannes deste ano foi bem mais tranquilo do que no ano anterior. Curiosamente, os filmes presentes nas mostras paralelas deram mais o que falar dos que os exibidos na mostra competitiva. O novo de Lars Von Trier (voltando ao Festival após seu banimento em 2011) parece ter conseguido exatamente o que desejava em sua primeira exibição. Parte do público saiu revoltada do cinema e quem ficou até o fim destestou o que viu, ou seja, The House that Jack Built será um sucesso com marketing garantido pela mídia interessada no filme em que Matt Dillon é um serial killer e Uma Thurman é uma de suas vítimas. Outro cineasta radical que exibiu seu novo filme no Festival foi Caspar Noe, sua nova ousadia, Clímax foi elogiado e foi premiado na Quinzena dos Realizadores! em uma linha mais convencional,  Solo se tornará um dos blockbusters do verão ao contar a juventude do famoso personagem da saga Star Wars! O Homem que Matou Dom Quixote de Terry Gillian finalmente viu a luz após décadas de trabalho! PDestaque na mostra principal, Blakkklansman se tornou o queridinho e, ainda que não tenha levado a Palma de Ouro, levou o grande prêmio do júri com elogios rasgados da presidente deste ano, Cate Blanchett. O grande premiado do ano foi o japonês The Shoplifters contando a história de uma família de ladrões que adota uma criança de rua. O filme impressionou pelo seu realismo e o olhar humanista sobre os personagens. A seguir todos os premiados em Cannes 2018: 

Competição Longas-Metragens
Palma de Ouro: “The Shoplifters” de Kore-Eda Hirokazu
Palma de Ouro Especial: "Le Livre D’Image” de Jean-Luc Godard
Grande Prêmio do Júri: “Blackkklansman”de Spike Lee
Melhor Diretor: “Cold War | Zimna Wojna”de Pawel Pawlikowski
Roteiro: “Lazzaro Felice” de Alice Rohrwacher  e
“3 Faces” de Jafar Panahi
Prêmio do Júri: “Capharnaüm”de Nadine Labaki
Melhor Atriz: Samal Yeslyamova por “Ayka”
Melhor Ator: Marcello Fonte, por “Dogman”
Cámera D’Or: “Girl”de Lukas Dhont
Semana da Crítica: “Egy Nap” de Zsófia Szilàgyi
Un Certain Regard: “Girl”de Lukas Dhont
Competition: “Burning” de Lee Chang-Dong
Prêmios Júri Ecumênico: “Blackkklansman” de Spike Lee
Prize Awards: “Capharnaüm” de Nadine Labaki
Olho de Ouro: “Samouni Road”, de Stefano Savona
Palma Dog: Elenco Canino de “Dogman”
Grande Prêmio do Júri: “Diamantino”
Semaine da Crítica: “Diamantino”

Competição Curtas-Metragens
Palma de Ouro: “All These Creatures” de Charles Williams
Menção Honrosa Curta-Metragem: “On The Border” de Wei Shujun

Un Certain Regard
Prêmio Un Certain Regard: “Gräns | Border”, de Ali Abbasi
Prêmio do Júri: “Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos” 
Melhor Direção: “Donbass” de Sergei Loznitsa
Melhor Roteiro: “Sofia” de Meryem Benm’Barek
Melhor Ator: Victor Polster por “Girl”

Quinzena dos Realizadores
Prêmio Cinema de Arte: “Climax” de Gaspar Noé
Europa Cinemas Lable: “Lucia’s Grace” de Gianni Zanasi
Prêmio da SACD: “The trouble with you” de Pierre Salvadori
Curta-Metragem: “Skip Day”de Patrick Bresnan e Ivete Lucas

Kore-Eda Hirokazu: premiado por The Shoplifeters. 

quinta-feira, 17 de maio de 2018

4EVER: Eloísa Mafalda

18 de setembro de 1924 ✰ 16 de maio de 2018

Nascida em Jundiaí, a paulista Mafalda Theotto se tornou conhecida como Eloísa Mafalda, uma atriz de carisma imbatível, ela era capaz de dar conta de todo tipo de personagem. Da mãe zelosa, passando por megeras e aquela amiga que sempre se podia contar, Eloísa foi uma das atrizes mais versáteis de nosso país. Capaz de fazer dramas e comédias com a mesma desenvoltura. Ela colecionou trabalhos memoráveis na televisão em sucessos em produções que marcaram época - Gabriela (1975), Saramandaia (1976), Locomotivas (1977), O Astro (1977), Corpo a Corpo (1984), sendo já grande sucesso quando foi a primeira de Dona Nenê na primeira versão da série A Grande Família (1973). No cinema ela participou de seis filmes, entre eles o elogiado Beijo 2348/72 (1990) no período da retomada do cinema brasileiro. Afastada das telonas desde 1998 e das telinhas desde 2002 (ano da novela O Beijo do Vampiro/2002) por problemas de memória, a atriz atualmente dedicava seu tempo à família. Eloísa faleceu em consequência de uma insuficiência respiratória por conta da idade (93 anos) na casa em Petrópolis em que vivia com a filha. 

PL►Y: Anon

Amanda e Clive: longe de ser um Black Mirror. 

Nada tira da minha cabeça que o neozelandês Andrew Niccol é um dos precursores do estilo que deu forma à série Black Mirror. Ele estreou no cinema com o ótimo sci-fi Gattaca (1997), apresentando uma sociedade onde somente os seres mais perfeitos geneticamente poderiam ambicionar determinadas posições. A ideia gerava falsificações de identidade, mortes e investigações num filme noir futurista envolvente, uma estreia realmente promissora! No ano seguinte ele foi indicado ao Oscar por O Show de Truman (1998), clássico sobre um homem que cresce diante das câmeras, sem ter a menor ideia de que sua vida é o reality show mais famoso de todos os tempos. Este fascínio pela relação do homem e suas tecnologias também apareceu em seu segundo filme, S1m0ne (2002), onde uma atriz virtual se torna a salvação de um cineasta em baixa em Hollywood. O filme não fez muito sucesso, de forma que ele mudou um pouco seu foco no engenhoso O Senhor das Armas (2005), para voltar a um futuro distópico em O Preço do Amanhã (2011), onde os seres humanos conseguem mais tempo de vida e juventude eterna a partir de um aparato tecnológico revolucionário. Depois das derrapadas com Good Kill (2014) e A Hospedeira (2013) era de se esperar que o cineasta se redimisse no seu filme seguinte. Não é o que acontece. O mundo que vemos em Anon é mais uma vez dominado por uma tecnologia que modifica a forma como as pessoas se relacionam. Aqui, existe um sistema que grava as memórias das pessoas e que ambiciona tornar o mundo mais seguro com seus registros e capacidade de identificar as pessoas que cruzam o seu caminho, mas ao mesmo tempo elimina o direito à privacidade do cidadão comum. Esta ideia cai por terra quando um hacker serial killer descobre como alterar o sistema e fazer suas vítimas olharem a si mesmas no momento de sua morte, assim, não permite que se descubra quem é o assassino. É uma ideia engenhosa, mas que já vimos antes no episódio Crocodile na última temporada de Black Mirror (com excelente atuação de Andrea Riseborough), aqui a coisa poderia ser igualmente interessante, já que o diretor conta com efeitos especiais que tratam  a tela como se fosse uma tela virtual, repleta de dados, além de ter o confiável Clive Owen como protagonista. O filme começa promissor, emulando um clima noir  que empobrece aos poucos, resultando cansativo antes da metade com as voltas que o roteiro dá para apresentar sua vilã (Amanda Seyfried). Quando ela aparece... o filme desaba. O plano dos investigadores para descobri-la é cheio de furos, inventam desculpas para inserir cenas de sexo na trama a cada dez minutos e, para piorar,  os dois personagens principais se tornam cada vez mais artificiais. Amanda (que já trabalhou com Niccol em O Preço do Amanhã) não convence em nenhum instante como a hacker revolucionária contra o sistema - e que ao final ainda faz pose de heroína. Sua personagem não tem mistério e ela gasta mais tempo tentando parecer sexy do que interessante. Por outro lado, Clive Owen está muito envelhecido para o papel (que no filme tem 46 anos, mas na vida real já chegou aos 54 e deveria parar de pintar o cabelo, o grisalho lhe fica muito melhor), assim, os vinte um anos de diferença com sua parceira de cenaa pesam quando inventam que os dois precisam ter um affair mal ajambrado na história. Anon resulta decepcionante,  com direito a uma surpresa estapafúrdia que ninguém liga e um desfecho inventivo cenicamente, mas prejudicado por uma péssima edição.  Andrew Niccol ainda nos deve um grande filme, ou será que Black Mirror elevou nossa imaginação para outro patamar de qualidade?

Anon (Alemanha/2018) de Andrew Niccol com Clive Owen, Amanda Seyfried, Sebastian Pigott,  Colm Feore e Mark O'Brien. ☻☻

PL►Y: Eu Não sou um Homem Fácil

Marie e Elbaz: comédia romântica invertida. 

Não tive muito tempo para ver filmes e escrever aqui no blog nos últimos dias, foram semanas muito cansativas, mas agora parece que tudo será mais tranquilo. Diante desta lacuna em minha realidade cinéfila, um dos filmes mais comentados por minhas amigas foi este Eu Não Sou Um Homem Fácil, comédia romântica francesa que está em cartaz na Netflix e fazendo sucesso, especialmente  pela forma como inverte a lógica de uma sociedade patriarcal. O filme conta a história de Damien (Vincent Elbaz), um típico macho alfa seguro de seu status e apelo junto à mulherada. No início o filme não se aprofunda muito na personalidade do personagem, aproveitando para explorar seu caráter a partir de um aplicativo hediondamente machista criado por ele para contar conquistas sexuais, feito apenas para homens. A concepção um tanto grotesca do produto não agrada muito a diretora administrativa da empresa e ele fica bem nervoso. Ainda assim, parece que está tudo bem, até ele bater com a cara num poste e embarcar numa espécie de mundo paralelo onde as mulheres estão no comando. A partir daí, a diretora Éleonore Pourriat cria um filme de uma piada só que tem como maior desafio explorar os detalhes deste mundo tão estranho para Damien. É interessante como o filme mostra a inadequação do protagonista a este mundo e como, aos poucos, ele vai se ajustando aos fatos que costumam acontecer sobre ele. A cena em que uma mulher se recusa a transar por conta dos pelos dele não chega a ser absurda de acontecer em nosso mundo (sim, isso já ouvi relatos sobre isso...) mas o formato como ele depila os pelos é hilariante de tão sugestivamente obscena! Gosto quando o filme investe nestes pontos mais sutis, como o clássico Madame Bovary se tornar Monsieur Bovary na estante ou quando ele passa a usar roupas cada vez mais curtas para mostrar as pernas e atrair a atenção da mulherada dominante. Quando surge a personagem Alexandra (Marie Sophie-Ferdane) o filme perde um pouco do fôlego e se torna mais previsível. Sabemos que ela é a versão feminina do homem cafajeste que coleciona amantes (e guarda uma bolinha de gude para cada conquista que possui na estante da sala) e que Damien irá se apaixonar por ela e relevar qualquer deslize que ela possa cometer. Embora o ambiente continue a ser o mesmo com suas provocações sobre fatos triviais de uma sociedade dominada por homens, ainda que adaptada para um mundo invertido, todo mundo já sabe onde aquilo vai dar. Se Elbaz convence nas transições de seu personagem, Marie Sophie utiliza de uma canastrice proposital para expor o quanto você já conheceu Alexandras cheias de testosterona por aí. Há quem reclame que o filme não explora como aquela sociedade surgiu, mas isso é o que menos importa - na brincadeira é só lembrar como o homem decidiu que era superior e pronto, não faz muito sentido mesmo. O final funciona como um belo desfecho para a história. Talvez estes dois mundos paralelos realmente existam e, talvez, entre tantos outros, existam um em que homens e mulheres vivam em uma sociedade igualitária sem que um subjugue o outro aos seus caprichos. Se você curtiu a ideia, vale conferir o filme canadense Proibido Homens (2015) que aborda esta mesma temática de forma ainda mais surpreendente. 

Eu Não Sou um Homem Fácil (Je ne Suis pas un Homme Facile/França-2018) de Éleonore Pourriat com Vincent Elbaz, Marie Sophie-Ferdane, Pierre Benezit e Moon Dailly. ☻☻☻

domingo, 13 de maio de 2018

4EVER: Margot Kidder

17 de novembro de 1948 ✰ 13 de maio de 2018

Nascida em Yellowknife no Canadá, a atriz Margareth Ruth Kidder começou a trabalhar em séries de TV no ano de 1968. Não demorou muito para que ela conseguisse seu primeiro papel no cinema. No entanto, seu primeiro papel de destaque veio em 1972, quando fez o papel duplo em Irmãs Diabólicas de Brian De Palma. Ela continuou fazendo filmes regularmente para cinema e televisão, mas nada se compara ao seu trabalho como a jornalista Lois Lane nos primeiros filmes do Superman (1978). Ao lado de Christopher Reeve, eles encarnaram um dos casais mais icônicos da cultura pop e, até hoje, consideram que ambos são as encarnações definitivas dos lendários personagens da DC Comics. Margot e Lois se misturam em nossa memória, de forma que atribuímos características exploradas pela atriz (o destemor, a esperteza, o atrevimento, a inteligência...) como traços inerentes à personagem até hoje. Ainda que tenha feitos muitos trabalhos desde então (foram mais de 100 filmes em 60 anos de carreira!), seus filmes posteriormente não fizeram o mesmo sucesso. Sendo considerada com temperamento difícil, a atriz foi diagnosticada com Transtorno Afetivo Bipolar em 1996. A atriz faleceu de causa não divulgada. 

terça-feira, 8 de maio de 2018

FESTIVAL DE CANNES 2018

Festival de Cannes: de 9 a 19 de maio. 

O Festival de Cannes - 2018 começa amanhã e vale a pena ficar atento para os filmes que entraram na programação, seja em sua mostra competitiva ou paralelas. Não faltam filmes de cineastas conhecidos que devem dar o que falar durante o ano e, que possivelmente, estarão nas premiações de fim de ano. Vale lembrar que The Square, o ganhador do prêmio máximo do Festival no ano passado (a cobiçada Palma de Ouro), ficou entre os finalistas do Oscar de filme estrangeiro deste ano. Com poucos filmes americanos na mostra, chama atenção os filmes do leste europeu e do oriente, lembrando que dois filmes brasileiros serão exibidos na mostra. Se Cannes ano passado foi mais pop do que nunca com um júri encabeçado por Pedro Almodóvar, Jessica Chastain e Will Smith envolto em polêmicas sobre dois filmes da Netflix que estavam na mostra competitiva, neste ano (com o serviço de streaming banido da concorrência), as manchetes deverão ser dedicadas às manifestações contra o assédio no meio cinematográfico e ao júri predominantemente feminino presidido por Cate Blanchett. Quem também integra o júri deste ano é Kristen Stewart, Léa Seydoux, Ava DuVernay e Khadja Khadja Nin, além do diretor Dennis Villeneuve. A seguir todos os filmes que serão apresentadas:

ABERTURA
"Todos lo saben", Asghar Farhadi (Irã)

COMPETIÇÃO
"Le livre d'image", Jean-Luc Godard (França)
"BlacKkKlansman", Spike Lee (EUA)
"Three Faces", Jafar Panahi (Irã)
"Cold War", Pawel Pawlikowski (Polônia)
"Leto", Kirill Serebrennikov (Rússia)
"Lazzaro Felice", Alice Rohrwacher (Itália)
"Under The Silver Lake", David Robert Mitchell (EUA)
"Capernaum", Nadine Labaki (Líbano)
"At War", Stephane Brizé (França)
"Asako I&II", Ryusuke Hamaguchi (Japão)
"Sorry Angel", Christophe Honoré (França)
"Dogman", Matteo Garrone (Itália)
"Girls of the Sun", Eva Husson (França)
"Yomeddine", A.B Shawky (Egito)
"Burning", Lee-Chang Dong (Coreia do Sul)
"Shoplifters", Kore-Eda Hirokazu (Japão)
"Ash Is Purest White", Jia Zhang-Ke (China)

SESSÕES ESPECIAIS
"Dead Souls", Wang Bing (China)
"10 Years In Thailand", Aditya Assarat, Wisit Sasanatieng, Chulayarnon Sriphol & Apichatpong Weerasethakul (Tailândia)
"Pope Francis – A Man Of His Word", Wim Wenders (Alemanha)
"La Traversée", Romain Goupil (França)
"To The Four Winds", Michel Toesca (França)
"O grande circo místico", Carlos Diegues (Brasil)
"The State Against Mandela And The Others", Nicolas Champeaux & Gilles Porte (França)

SESSÕES DA MEIA-NOITE
"Arctic", Joe Penna (Brasil)
"The Spy Gone North", Yoon Jong-Bing (Coreia do Sul)

FORA DE COMPETIÇÃO
"Le Grand Bain", Gilles Lellouche (França)
"Han Solo: Uma História Star Wars", Ron Howard (EUA)

UN CERTAIN REGARD
"Long Day’s Journey Into Night", Bi Gan (China)
"Little Tickles", Andréa Bescond & Eric Métayer ( França)
"Sofia", Meyem Benm’Barek (França)
"Border", Ali Abbasi (Irã)
"Sextape", Antoine Desrosières (França)
"The Gentle Indifference Of The World", Adilkhan Yerzhanov (Cazaquistão)
"El Ángel", Luis Ortega (Argentina)
"In My Room", Ulrich Kohler (Alemanha)
"The Harvesters", Etienne Kallos (África do Sul)
"My Favorite Fabric", Gaya Jiji (Síria)
"Friend", Wanuri Kahiu (Quênia)
"Euphoria", Valeria Golino (Itália)
"Angel Face", Vanessa Filho (França)
"Girl", Lukas Dhont (Bélgica)
"Manto", Nandita Das (Índia)

PL►Y: A Cura

Dane: curando o mal estar com... mal estar?

Ninguém pode se chamar Gore impunemente! Gore Verbinski começou sua carreira com o inofensivo Um Ratinho Encrenqueiro (1997), desde então o homem fez de tudo. É diretor dos três primeiros filmes da série Piratas do Caribe (2003, 2006 e 2007), fez o remake americano de O Chamado (2002), ganhou um Oscar pela (ótima) animação Rango (2011), misturou Julia Roberts e Brad Pitt e amargou o fracasso de A Mexicana (2001) e promoveu o fiasco O Cavaleiro Solitário (2013), que eu adoro! Mas Gore (por acaso o nome do subgênero de terror sanguinolento e cheio de vísceras) também aspirou ser sério e conseguiu uma das últimas atuações de verdade de Nicolas Cage em O Sol de Cada Manhã (2005). Se você acompanha a carreira deste diretor nascido no Tennessee, irá perceber que sua filmografia não cabe muito dentro da caixinha, sendo geralmente uma coleção de roteiros cheio de ideias, na maioria das vezes apresentadas de forma confusa e com pitadas de humor negro. Em sua última obra, ele segue a mesma cartilha que pode ser irregular, mas que confere uma identidade única ao seu olhar como diretor. A Cura começa como uma espécie de crítica ao pensamento do sucesso a qualquer preço no mundo corporativo. No início um personagem parece trabalhar após o expediente e acaba tendo um infarto, este é apenas o começo da história do executivo Lockhart (coração trancado?) vivido por Dane DeHaan. Ele só pensa no trabalho e no lucro que pode proporcionar à empresa em que trabalha. Sua vida social praticamente não existe e mesmo quando está num carro ou trem, ele está conectado para continuar fazendo o que faria no escritório. Considerando que busca apenas ser o melhor funcionário que conseguir, ele considera seu estilo de vida mais do que natural para um sujeito dedicado que planeja ser bem sucedido. Talvez por tamanha dedicação ele foi indicado para buscar um executivo do alto escalão da empresa que precisa assinar uma transação ambiciosa. No entanto, chefão se encontra numa espécie de retiro nos Alpes Suíços, no que todos acreditam ser um SPA para meditação e tratamento do que já foi chamado de mal estar da contemporaneidade. Meio a contragosto, Lockhart aceita o desafio e acredita que logo estará em casa, ou melhor, no escritório... mas uma sucessão de acontecimentos o deixará confinado no tal SPA localizado em um castelo e repleto de histórias sobre os antigos proprietários do lugar. De tom sombrio e pausado, A Cura se perde quando começa a embaralhar mistérios demais e o que poderia ser uma bem vinda crítica aos radicalismos do século XXI se torna uma obra um tanto confusa com todas as pontas que precisa amarrar até o final. Existem ideias demais para serem trabalhadas, mesmo tendo huas horas e vinte minutos de duração, o filme se perde no meio delas e nem a edição engenhosa com bons efeitos sonoros dá conta. Sobram algumas cenas gratuitas e outras apenas grotescas, deixando a sensação de que o filme costurou duas histórias que não se casam muito bem e, por isso mesmo, uma delas parece estar sobrando. Infelizmente é a história menos interessante que toma conta do filme, o que poderia ser uma crítica social se torna apenas mais um filme de suspense confuso e pretensioso. Resta curtir os talentos do veterano Jason Isaacs (que nunca recebeu a atenção merecida) e o novato Dane DeHaan, que aos poucos deixa de ser uma versão mais jovem de Leonardo DiCaprio. 

A Cura (A Cure for Wellness/EUA-Alemanha/2016) de Gore Verbinski com Dane DeHaan, Jason Isaacs, Mia Goth, Ivo Nandi, Harry Groener, Magnus Krepper e Celia Imrie. ☻☻☻

segunda-feira, 7 de maio de 2018

PL►Y: Terra de Minas

Hofmann e Roland: humanizando o "inimigo". 

Terra de Minas foi o candidato dinamarquês ao Oscar de Filme Estrangeiro do ano passado - ocupando o desconfortável posto de azarão (já que ninguém imaginava que o filme estaria entre os cinco finalistas). Bem recebido no Festival de Toronto de 2015, o filme é inspirado em fatos reais com sua ambientação na Dinamarca após a II Guerra Mundial. O filme acompanha um grupo de jovens  alemães prisioneiros de guerra que são forçados a desarmar minas terrestres no litoral da Dinamarca sob o comando do sargento Carl Rasmussen (Roland Møller). Para realizar o trabalho, os jovens contam com um mapa aproximado da localização das mais de mil minas que se encontram na região. Os meninos são forçados a trabalhar de sol a sol e dormir num galpão trancado durante a noite na companhia de ratos e, se cumprirem a tarefa dentro do prazo previsto, poderão voltar para a casa ao final de três meses. Desde as primeiras cenas fica claro como o trabalho dos meninos é perigoso. Sob o risco de voarem pelos ares se não tiverem todo o cuidado necessário, resta a eles apenas a esperança de voltarem para suas famílias na Alemanha algum dia. O roteiro do diretor Martin Zandvliet utiliza esta premissa para abordar mais assuntos do que você imagina. A começar pelo ódio em torno dos alemães após as atrocidades cometidas durante a guerra, vistos sem compaixão pelos moradores locais e o sargento encarregado do grupo, os meninos são tratados da pior maneira possível, sendo explorados mesmo doentes e com fome. Quem considera que direitos humanos é para proteger bandidos, vale a pena ver o filme. Em tempos de intolerância, fica a sensação do quão semelhantes os algozes dos meninos são dos oficiais nazistas de outrora. A crueldade emerge em vários momentos da primeira metade do filme, até que uma sucessão de tristezas amolece o coração do sargento, num ótimo trabalho de Roland Møller, que na proximidade com aqueles meninos começa a percebê-los como um grupo de seres humanos subjugados a sofrimentos variados. Este  conflito entre vingança e compaixão torna a jornada dos personagens ainda mais melancólica. Além disso, do drama emana o suspense toda vez que eles precisam desarmar uma mina terrestre - ou a suspeita de que o desespero será capaz de promover uma ação radical entre um dos meninos. Com uma fotografia que já emula tristeza e um ritmo que só prorroga a tragédia, o filme só perde pontos do final onde uma sucessão de fatos apressados compromete a sobriedade da sessão. Ainda assim, Terra de Minas ganha pontos por conhecida e que merece ser redescoberta.

Terra de Minas (Under Sandet/Alemanha-Dinamarca/2015) de Martin Zandvliet com Roland Møller, Louis Hofmann, Joel Basman, Laura Bro, Emil Belton, Oskar Belton e Leon Seidel. ☻☻☻☻