segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

FILMED+: Réquiem para um Sonho

Goldfarb: o pesadelo das drogas segundo Aronofsky.

Até assistir Réquiem para um Sonho eu não fazia ideia das sensações que um filme poderia provocar no expectador. Não estou me referindo às emoções que temos por torcer por um herói, ter raiva dos vilões ou sentir aquela tristeza junto a um punhado de personagens. Estou falando de enjoo mesmo, aquela sensação de nó na garganta que vai descendo até embrulhar o estômago e causar náusea. Réquiem é assim, um dos filmes mais angustiantes que um cineasta já ousou fazer, de uma melancolia tão profunda e de uma brutalidade tão dramática que beira o horror. Darren adapta o romance de Hubert Selby Jr (o mesmo de Noites Violentas no Broklyn de 1988) com tamanho estilo e ousadia que é impossível ficar indiferente. Quando o filme foi exibido em Cannes foi declarado o tipo de filme que ou se ama ou se odeia. Eu me enquadro no primeiro grupo. O filme acompanha o martírio de quatro personagens enquanto descem ao fundo do poço para fugir da realidade. Harry (Jared Leto) e seu amigo Tyrone (Marlon Wayans) fumam maconha, mas resolvem faturar uns trocados traficando drogas pesadas, assim pensam em bancar suas ambições - a de Harry é bancar a butique de sua namorada, a bela Maryon (Jennifer Connely, que aqui aprendeu a atuar de verdade). Enquanto os três começam a se afundar no vício em heroína, a mãe de Harry, Sarah Goldfarb (Ellen Burstyn, indicada ao Oscar de atriz e derrotada injustamente por Julia Roberts) sonha com o dia em que participará de um programa de televisão e caberá novamente no vestido vermelho que usou na formatura de seu filho. Sarah começa a usar remédios para emagrecer, logo estará viciada em anfetaminas com consequências desastrosas. Darren filma essa descida ao inferno com truques de edição, fotografia de cores sombrias ou exuberantes, contempla os delírios e a degradação de todos numa narrativa vertiginosa que tem seu auge nos últimos quinze minutos.  O filme é narrado dividido pelas estações do ano, verão, outono e inverno... propositalmente faltou a primavera, momento em que o diretor abandona os personagens para que retomem seus caminhos por mais dilacerados que estejam.  O diretor arranca a alma de seus atores no filme e o resultado é o melhor de suas carreiras nesta uma jornada auto-destrutiva de personagens que representam o obituário do sonho americano. Depois desse filme ninguém imaginava que Darren faria algo como Fonte da Vida. Até porque o filme colocou a arte sensorial cinematográfica em outro patamar - nisso a esplêndida trilha sonora de Kronos Quartett ajuda bastante.

Réquiem for a Dream (Requiem for a Dream/EUA-2000) de Darren Aronofsky, com Ellen Burstyn, Jennifer Connely, Jared Leto, Marlon Wayans e Sean Gullete. ☻☻☻☻☻

CATÁLOGO: Fonte da Vida

Hugh Jackman : O Melhor ator de 2006

Mês que vem estréia por aqui Cisne Negro, o novo filme de Darren Aronofsky e até lá espero comentar sobre os filmes anteriores do cara. Vou começar pelo filme que foi a coisa mais marretada que o cara já fez. Fonte da Vida foi um desses projetos que demoram anos para ser realizados, sendo difícil de conseguir financiamento, distribuidores... precisa de astros... é cancelado despudoradamente no meio da produção. Ou seja, foi o projeto mais complicado que Darren já fez, demorando seis anos para chegar aos cinemas. Darren foi de artista promissor com Pi (1998) ao auge com Réquiem por um Sonho (2000) e achou que poderia lançar o roteiro mais maluco que lhe viesse na telha. Foi assim que surgiu The Fountain. O filme foi badalado na época da produção porque Brad Pitt e Cate Blanchett se interessaram por ele, depois desistiram do projeto e tudo foi cancelado - com um corte de metade do orçamento. Enquanto isso, Hugh Jackman desperdiçava seu talento em filmes pós-X-Men, quanto seu agente disse que ele deveria se dedicar a produções mais ambiciosas. Foi quando o roteiro de Aronofsky caiu em seu colo e ele resolveu bancar parte da produção. Fonte da Vida é um filme bem menos complicado do que dizen. Por debaixo da narrativa complexa, trata-se de uma bela história de amor sobre um homem que quer vencer a morte. O  filme  possui dois núcleos narrativos (e não três como os que não entendem pensam), Jackman vive o doutor Thomas Creo que tenta buscar a cura do câncer que vitima sua esposa, Izzi (Rachel Weisz), correndo contra o tempo acaba se deparando com a essência de uma árvore rara encontrada na América do Sul que tem resultados impressionantes no combate à doença. Ao lado dessa narrativa existe o livro criado por Izzi, onde um explorador espanhol (também Jackman) parte em busca dessa mesma árvore para salvar sua rainha (também Weisz) tendo que enfrentar muitos perigos. Darren insere outra camada narrativa que parece ser a do próprio Creo imortalizado rumando à uma nebulosa que os astecas acreditavam ser o destino das almas. Na verdade todas as tramas são variações do mesmo tema: o homem em busca da imortalidade, rumando ao desconhecido em busca de repostas nem sempre existentes. Aronofsky consegue conduzir suas ideias de forma coesa e arranca atuações inspiradas de seu elenco, especialmente de Jackman que apresenta nuances que mereciam o Oscar daquele ano. Sua atuação devastadora casa à perfeição com o visual do arrebatador do filme - com efeitos criados a partir de texturas químicas. Apesar de toda a alardeada complexidade, Fonte da Vida é uma história de amor em formato de ficção científica (ou seria metafísica?), o que não o faz deixar de ser lírico como todo bom romance.

Fonte da Vida (The Fountain - EUA/2006) de Darren Aronofsky com Hugh Jackman, Rachel Weisz, Sean Gulette, Ellen Burstyn e Mark Margolis. ☻☻☻☻

CATÁLOGO: X-Men - O Filme

Jackman: Wolverine como manda o figurino.

Eu fui um dos sujeitos que torceu o nariz quando Bryan Singer topou adaptar o universo dos mutantes da Marvel para o cinema. Fã de carteirinha dos dois filmes anteriores do cara  - o  oscarizado Os Suspeitos (1995) e o menos badalado O Aprendiz (1998) - eu (e todo resto da humanidade) andava desconfiado de filmes inspirados em HQ depois das peruagens de Batman e Robin (1997). Singer procurava credibilidade ao declarar que a maioria dos filmes de heróis não funcionavam porque os diretores não tinham consciência de que estavam fazendo filmes e não histórias em quadrinhos. Deu para entender? Bem, se não deu bastou ver o primeiro filme da franquia mutante para perceber que Singer continuava não brincando em serviço. Pra começar, o longa tem a abertura mais bacana dos filmes dos mutunas: num campo de concentração, temos a impressão de estar diante de mais um filme sobre o holocausto, até o momento em que somos apresentado aos poderes de um Magneto nos primórdios. Depois somos apresentados aos personagens sem pressa, percebemos que Professor Xavier (Patrick Stewart) é o líder pacifista dos mutantes e os ensina a domar seus poderes na sua escola. O seu lado oposto é Magneto (o excelente Ian McKellen), líder da fraternidade mutante e que teme que a intolerância humana volte a vitimar os diferentes, até aí tudo bem, só que Magneto acredita que a melhor defesa é o ataque - e para isso conta com a ajuda de mutantes como Mística (Rebecca Romjin Stamos, que entra muda e sai calada, mas ganhou uma legião de fãs), Groxo e Dente de Sabre. O filme é curto, com uma hora e meia e Singer priorizou a apresentação dos persgonagens, entre eles Cyclope (James Marsden), Jean Grey (Famke Janssen), Tempestade (Halle Berry, ainda sem Oscar), Vampira (Anna Paquin), mas o que mais chamou atenção foi o então desconhecido Hugh Jackman como Wolverine. Jackman se tornou astro da noite para o dia depois que encarnou o mutante com garras de adamantium e recebeu cada vez mais destaque na série. Em pensar que ele nem era o favorito para o papel, tendo aceito depois da desistência de Russel Crowe e do afastamento de Dougray Scott (alguém lembra dele?), no fim das contas ele encarna a alma impressa por Singer no filme: nada de maniqueísmo. A coisa mais bem sacada de Singer foi criar analogias em todo o filme sobre uma realidade que conhecemos bem: o medo gerando preconceito e  terrorismo. Esse fator deu um verniz político ao filme que serviu de referência para os filmes de heróis que se seguiram. Nada mal para um diretor que nem era fã de gibi!

X-Men - O Filme (X-Men - The Movie) de Bryan Singer com Hugh Jackman, Patrick Stewart, Halle Berry, Ian McKellen e Famke Janssen. ☻☻☻

domingo, 9 de janeiro de 2011

CATÁLOGO: Hairspray - Em Busca da Fama


Travolta e sua fillha: Quilos de simpatia e maquiagem.

Pena que o mundo virtual não é o único existente. Ando ocupado demais com a minha dissertação para conseguir pensar em outra coisa. A cabeça anda fervilhando de ideias e piora mais ainda na melhor forma de colocá-las no papel. Devido a tudo isso minhas escritas no blog andam rareando, mas tudo isso já está com dias contados, ao fim de fevereiro a vida desse simples cinéfilo deve voltar ao normal. Diante de tanta falta de tempo e cansaço mental, resta-me dar sorte de ligar a TV altas horas da noite e me deparar com uma reprise, no mínimo simpática antes de pegar no sono. Ontem me deparei com Hairspray na TV e é engraçado como depois dessa versão com John Travolta ou  da falada versão nos palcos tupiniquins com Edson Celulari, as pessoas nem imaginam que a origem de tudo isso é uma comédia trash dirigida por John Waters, onde um travesti legítimo interpretava a gorducha Edna nos idos de 1988. Tratava-se de Divine (musa, enquanto pôde, dos filmes de Waters). Mas vamos a esta versão que entrou em cataz depois que o original de Waters alcançou sucesso como musical da Broadway. O filme conseguiu boa bilheteria nos cinemas, principalmente pela curiosidade em ver Travolta como uma mulher gorda (papel que lhe valeu uma indicação ao Globo de Ouro de coadjuvante) e convenhamos que o cara alcança uma atuação correta, sem exageros que tenta criar uma mulher de verdade diante da câmera. Mas o astro é coadjuvante da novata Nikki Blonski que vive a personagem Tracy, a jovem gordinha que consegue espaço num cultuado programa de TV na década de 1960, rompendo com os padrões de beleza vigentes. Essa crítica à padronização é o tempero do filme, que lança várias alfinetadas a preconceitos variados. Além de cutucões no preconceito aos rechonchudos, Tracy aprende a dançar com os negros segregados de sua escola - e a segregação ainda aparece no próprio programa de TV e nas relações em volta dele (o que reflete as relações sociais de uma época próspera nos EUA, mas em que o preconceito ainda era vivenciado sem máscaras). Quem encarna, com muito estilo, esse american way of life é Michelle Pfeiffer, como a charmosa vilã coreógrafa Edna, que faz de tudo para que sua filha insossa brilhe mais do que qualquer outra pessoa no programa - o que causa problemas com os apresentadores do programa (Queen Latifah e James Marsden). O filme ainda conta com Christopher Walken, como esposo de Edna e Zac Efron no papel dele mesmo - um galãzinho teen. Longe de ser tão subversivo quanto o original, o filme conta com músicas animadas, coreografias e direção de arte simples - mas com piadas engraçadinhas até o final previsível. O bom mesmo é ver o diretor Adam Shankman fazer o Tio Sam rir de seus preconceitos sem que se dê conta (coisa que Walters fazia de forma muito mais ofensiva).

HAIRSPRAY - EM BUSCA DA FAMA (Hairspray - EUA/2007) de   Adam Shankman, com Nikki Blonski, John Travolta, Michelle Pfeiffer, Queen Latifah, James Marsden, Christopher Walken, Amanda Bynes e Zac Efron.  ☻☻☻

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

4EVER: Pete Postlethwaite

Pete Postlethwaite (07/02/1946 - 02/01/2011)

Nascido em Liverpool,  Pete Postlethwaite faleceu de câncer no dia 02/01/2011 e ficou famoso em 1988 com o filme Vozes Distantes. Pete foi indicado ao Oscar de coadjuvante pelo papel de pai de Daniel Day Lewis em Em Nome do Pai (1993). Além disso participou de uma dezena de filmes com diretores importantes, merecendo destaque em Os Suspeitos (1995) de Brian Singer, Amistad (1997) de Steven Spielberg, Romeu + Julieta (1996) de Baz Luhrman, O Jardineiro Fiel (2005) de Fernando Meirelles, Água Negra (2005) de Walter Salles. Neste ano, Pete participou de três produções Fúria de Titãs, Atração Perigosa e A Origem. Pete era um dos atores mais prestigiados da Inglaterra.

domingo, 2 de janeiro de 2011

DVD: "Detenção" | "Experiência"

Detenção: Adrien Brody numa refilmagem longe de ser perfeita.

Obviamente que no meio da crise criativa de Hollywood apelar para refilmagens de sucessos estrangeiros entraram em pauta. Uma delas foi lançada direto em DVD tanto aqui quanto nos EUA, Detenção do diretor Paul T. Scheuring (da série Prision Break) é a versão americana do sucesso alemão Das Experiment, lançado por aqui com o nome de Experiência. O filme alemão de Oliver Hirschbiegel é um primor no tom claustrofóbico adaptação do livro The Black Box, onde narrava uma experiência real ocorrida na Universidade de Oxford no ano de 1971. O experimento consistia em colocar 26 homens divididos em dois grupos dentro de uma construção que simulava uma prisão, um grupo vestia-se de policial e devia zelar pelas regras do experimento. O outro grupo ficava em celas vestidos de prisioneiros. Com o tempo notava-se que os dois grupos começavam a se comportar de acordo com suas vestes, especialmente o grupo "policial", mas na história real, quando se percebia que a violência iria explodir os psicólogos comportamentalistas pararam a pesquisa. Nos dois filmes não é isso que acontece. Mas enquanto Das Experiment consegue manter a tensão do início ao fim, Detenção fica pelo meio do caminho se contentando em preencher a tela com uma violência ainda mais explícita do que o original. Enquanto o nome mais conhecido do longa alemão era Moritz Bleibtreu (visto recentemente em Soul Kitchen), a versão americana conta com os oscarizados Adrien Brody (O Pianista) e Forrest Whitaker (O Último Rei da Escócia) o que não deixa de ser uma esperteza. Afinal, o mocinho desde o primeiro minuto tem biotipo judeu e está preso numa cela e o "vilão", líder do grupo "policial" é negro e age como o ditador de Uganda. Ao evocar os dois famosos personagens de seus atores o filme deixa ainda mais acentuada a sensação de dejá vù. Mas enquanto Brody faz o que pode em seu personagem assistente social, bom moço e unidimensional (apresentado desde o início com tendências humanitárias e comunistas, bem diferente do jornalista provocador da versão alemã ), Whitaker acaba se perdendo no meio de tiques de um personagem tolhido no mundo real e que percebe ali a chance e libertar seu lado mais obscuro. Desde as primeiras cenas com animais se devorando sabemos que a coisa vai descambar para a violência física e psicológica e o diretor Scheuring faz uma direção sem firulas, sem qualquer criatividade nos enquadramentos e tenta criar dramas utilizando metáforas que nem sempre funcionam como o esperado (como ficar mencionando o personagem Flying Man ou ressaltar o romance de Brody com aquela garota sem sal de Lost). O resultado acaba sendo óbvio demais, totalmente diferente da atmosfera precisa do filme alemão que tinha violência, mas que tratava com elegância e estilo a decadência moral de um grupo de homens guiados pelo que vestiam.

Das Experiment: atmosfera claustrofóbica é o trunfo do filme.

Detenção (The Experiment/EUA-2010) De Paul T. Scheuring com Adrien Brody, Forrest Whitaker, Cam Gigandet, Maggie Grace e Fisher Stevens. ☻☻

Experiência (Das Experiment / Alemanha - 2001) de Oliver Hirschbiegel com Moritz Bleibtreu, Christian Berkel e Danny Richter. ☻☻☻☻

DVD: Um Olhar do Paraíso


Tucci e Ronan: Bons atores num filme em ponto morto.

Considero um bom diretor aquele cara que sabe o que quer fazer num filme e consegue contar isso numa tela de forma harmônica com os demais envolvidos. A maioria desses que conseguem agradar o público até ganham Oscars e, com ele, liberdade para fazer projetos cada vez mais ambiciosos. Talvez por isso o caso de Peter Jackson me instiga. O neozelandês sempre teve atração pela fantasia, não fantasias infantis, mas que apelam para o sombrio. Foi assim que nasceu sua repercussão no insano Fome Animal (1992), ganhou status com uma indicação ao Oscar de roteiro original no verídico Almas Gêmeas (de 1994, que revelou Kate Winslet), o levou para Hollywood em Os Espíritos (1996) e gerou o seu auge oscarizado da trilogia Senhor dos Anéis (2001, 2002 e 2003). Depois das bilheterias robustas e elogios seu projeto seguinte foi refilmar King Kong (2005). Encarei isso como um passatempo de alguns milhões de dólares. Em 2008 ele resolveu adaptar o livro The Lovely Bones, que é narrado por uma menina que é violentada por um vizinho e contempla a dissolução de sua família enquanto não descansa em paz. Essa premissa está longe de parecer atrativa para o grande público, mas Peter Jackson tinha nome suficiente para fazê-la um sucesso, ainda mais que agregou nomes de gabarito como a prodígio Soirse Ronan (indicada ao Oscar de coadjuvante por Desejo e Reparação), Rachel Weisz (Oscar de coadjuvante por O Jardineiro Fiel), Mark Wahlberg (indicado ao Oscar de coadjuvante por Os Infiltrados - assumindo o posto que era de Ryan Gosling), Susan Sarandon (Oscar de Atriz por Os Últimos Passos de um Homem) e o sempre correto Stanley Tucci (que merecia maior atenção por O Diabo Veste Prada). O problema é que Jackson parece não saber muito bem qual história quer contar. Jackson acerta no tom inicial, onde mostra as expectativas Suzie Salmon, uma garota de 14 anos (Ronan) na década de 1970 diante da vida adulta que se anuncia junto aos interesses amorosos. Essa promessa de futuro é rompida com o plano de um vizinho solitário (Tucci) que começa a nutrir uma bizarra atração pela menina. Jackson consegue equilibrar drama e suspense até esse momento com perfeição, mas começa a errar a mão na parte em que antes era um mestre: a fantasia. Quando suspeitamos que a garota foi morta o diretor nunca deixa claro onde a garota está, parece presa num mundo imaginário - e proporciona cenas que nem sempre funcionam. Embora existam algumas idéias bem sacadas na influência da defunta no mundo dos vivos, esse miolo deixa a impressão que após terminada as filmagens o diretor achou que tudo estava muito sombrio e tentou criar um apelo cômico para a trama com delírios adolescentes e a presença de uma avó maluquete (Sarandon) - mas isso acaba desviando o foco da narrativa quando ele deveria se concentrar na menina diante do impacto de sua morte nos laços de sua família. Enquanto o pai (Wahlberg, esforçado) tenta descobrir a identidade do assassino a mãe acaba abandonando a família, mas tudo é mostrado superficialmente, sem explorar os tons que tornaram o início do filme tão atraente. Curiosamente é nesse momento que a presença do vilão parece um refúgio para a platéia. Encarnado pelo eterno coadjuvante Stanley Tucci, o vizinho é capaz de provocar arrepios a cada aparição, principalmente quando percebemos que aquele sujeito que se finge agradável está à espreita da irmã de sua última vítima. Quando o filme chega em seu ponto morto, é Tucci que faz as coisas funcionarem (já que todos os personagens parecem abandonados pelo caminho, até mesmo a protagonista) e por isso foi o único lembrado no Oscar (de coadjuvante) do ano passado nessa produção. Quando as coisas voltam a entrar nos trilhos o espectador já está um bocado aborrecido de ver que até um diretor consagrado como Jackson é capaz de tropeçar em sua pretensão e não perceber que está errando a mão na boa história que tinha em mãos.

Um Olhar do Paraíso (The Lovely Bones / EUA - 2008) de Peter Jackson com Saoirse Ronan, Stanley Tucci, Rachel Weisz, Mark Wahlberg e Susan Sarandon. ☻

DVD: Meu Malvado Favorito


Gru e as três meninas: malvado com coração de mocinho.

Apesar de toda alardeada crise, 2010 foi um bom ano para as animações e um exemplo dessa criatividade "animada" podemos ver em Meu Malvado Favorito que acaba de sair em DVD por aqui. Claro que o vilão do filme tem que repeitar os padrões aceitáveis para o público infanto-juvenil e não irá cometer grandes crimes contra a humanidade, mas ações inusitadas como roubar a TV do Super Bowl, explodir o balão de uma criança... esse sujeito malvado é Gru (dublado por Steve Carrell). Gru tem a figura que mescla as características físicas da vilania clássica (ombros encurvados, nariz pontiagudo, careca, olheiras, sotaque estrangeiro...) e quando percebe que tem um concorrente capaz de lhe roubar o título de vilão do século (afinal o seu opositor, o jovem Vetor, roubou uma pirâmide do Egito e a substituiu por uma inflável) ele percebe que terá de fazer algo mais ambicioso: roubar a Lua com a ajuda de um minimizador. Seu plano para pegar a tal máquina roubada por Vetor terá o efeito colateral de adotar três meninas órfãs que vendem biscoitos para ajudar a instituição na qual vivem. Um vilão que se preza não pode ser bonzinho com crianças, mas Gru apesar dos esforços, começa a perceber que se afeiçoar por alguém não é algo de todo ruim - mesmo que comece a atrapalhar os seus planos. Essa relação irá gerar a sua maior maldade: permitir que as meninas sejam enviadas para o orfanato novamente. O filme investe bastante no ritmo de aventura e cria um personagem vilanesco cativante (apresentando até uma justificativa simplista como ã mãe, dublada por Julie Andrews, que ignora suas criações) com o auxílio de piadas bem sacadas que não atrapalham a fluência da história. Por investir na fantasia sem medo de parecer ridículo (afinal a Lua é miniaturizada sem maiores problemas para a física do universo, mesmo que prejudique surfistas e lobisomens) o filme é uma produção divertida e colorida, que não tem pudores de ter um arremate totalmente sentimental (onde Gru descobre um dom surpreendente junto ao público infantil), arremate este que não deve decepcionar o mais mal humorado dos adultos. Para dar ainda mais ânimo para o filme existem os inúmeros auxiliares amarelinhos de Gru e a trilha sonora inspirada de Pharrell Williams - que considero o melhor trabalho que o cara já fez.

Meu Malvado Favorito (Despicable Me / EUA - 2010) de Pierre Coffin, Chris Renaud e Sergio Pablos com vozes de Steve Carrell, Jason Segel e Julie Andrews.  ☻☻☻☻

PERSPECTIVA 2011

2011 é um ano em que a tendência hollywoodiana de lançar sequências e adaptações de quadrinhos irá permanecer com força. Sendo assim, fica fácil perceber quais são os dez filmes mais esperados para 2011. Diante dessa perspectiva criei minha listinha dos que estou mais ansioso para conferir:

BESOURO VERDE A Adaptação de Michel Gondry para o herói da série de TV é o primeiro a estrear. Depois de ser adiado de 2010 para 2011 ele chega aos cinemas americanos em janeiro - e em fevereiro no Brasil. O filme foi filmado em 2D e depois ganhou efeitos para agradar os fãs do 3D e aumentar a bilheteria. Seth Rogen emagreceu um bocado para dar vida ao milionário que usa máscara para combater o crime. Essa aventura conta com um elenco de primeira (Cameron Diaz, e Christoph Waltz inclusos) e uma gigantesca expectativa que pode trabalhar a favor ou contra o filme.



THOR Sempre achei o Deus do Trovão um dos heróis mais esquisitos com aquelas longas madeixas loiras e aquele martelinho dourado. Mas o que acompanhei na imprensa sobre o filme dirigido por Kennetth Branagh conseguiu me deixar entusiasmado. Thor será vivido por Chris Hemsworth (que apareceu no repaginado Star Trek) seu par será Natalie Portman e... precisa dizer mais alguma coisa? Se para você não foi suficiente Anthony Hopkins tb está no elenco. O filme estréia em abril de 2011 nos EUA e logo sem seguida dará as caras nos cinemas tupiniquims.

X MEN - FIRST CLASS Eu queria muito ver a continuação da trilogia com Hugh Jackman & Cia, mas entendo que ficou complicado para a FOX negociar os cachês e as agendas de todos os atores da trilogia oringinal após o fim do contrato. Sendo assim, apelaram para essa prequência que conta a origem dos primeiros alunos do Professor Xavier. Produzido por Bryan Singer (diretor dos dois primeiros longas dos mutunas) a coisa ficou séria com James McAvoy (Xavier), Michael Fassbender (Magneto), Jennifer Lawrence (Mística), Nicolas Hoult (Fera), January Jones (Rainha Branca) entre outros nomes de primeira linha no elenco. Como cereja do bolo está a direção de Mathew Vaughn (Kick Ass). O filme está prometido para o início de junho. 

LANTERNA VERDE O marido de Scarlett Johansson encontrou um caminho muito rentável em sua carreira: as adaptações de HQ. Depois de participar de Blade Trinity e ser o vilão Deadpool no filme do Wolverine, Ryan Reynolds ganhou um filme de herói só seu. O herói de anel esmeralda da DC Comics terá o início de sua trajetória contada nos cinemas a partir do dia 17 de junho de 2011. No filme ele conhecerá seu maior inimigo, o Sinestro (Mark Strong, o vilão da moda de Hollywood). A direção ficou por conta do operário padrão Martin Campbell.

HARRY POTTER E AS RELÍQUIAS DA MORTE - PARTE 2 Eu admito que sou fã dos filmes do bruxinho. Nunca li um livro de J. K. Rowling, mas vi todos os filmes. Nada contra a literatura, mas gasto menos tempo conferindo os filmes do que lendo. Portanto, me pareceu uma maldade quando a Warner quebrou o último livro em duas partes e separou os lançamentos por alguns meses intermináveis... Dá para perder o confronto final de Potter com seu inimigo Lorde Valdemort depois de uma década de filmes? Claro que não. O filme promete se o mais sombrio da série e mostrar o futuro dos personagens. O filme estréia dia 15 de julho.

Além desses filmes, 2011 ainda conta com as estréias de Missão Impossível 4, Super 8, The Smurfs, Kung Fu Panda 2,  Hotel Transilvania, Cowboys & Aliens, Rise of the Apes, Battle: Los Angeles, Capitão América, Piratas do Caribe 4, Happy Feet 2, Rango, Pânico 4, Contagion, Red Rising Hood, Carros 2, Transformers 3, Sucker Punch... ou seja, pipoca é o que não vai faltar!