quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Combo: Beatniks

O movimento Beat foi marcante no mundo artístico-cultural do pós-guerra, nele a prosa despojada marcava histórias sobre sexo, drogas e álcool eram mescladas à uma certa desilusão com as convenções literárias do período. Os escritores que construíram esse estilo se tornaram vozes de uma geração e, recentemente, o cinema americano parece ter redescoberto esse universo. Ser beatnik não era apenas ser "boêmio rebelde", mas questionar politicamente as bases de algumas convenções que serviam de base para a cultura dos EUA. Esse combo é um pouco diferente, já que optei por escrevê-los dentro de uma cronologia e não por gosto pessoal: 

01 Versos de Um Crime (2013) Imagine que na década de 1940 a Universidade de Columbia era cursada por ícones do Movimento Beat em plena efervescência hormonal e - com a identidade sendo construída junto com a voz literária de cada um. Isso poderia render um grande filme, mas o diretor John Krokidas, ao colocar Allen Ginsberg (Daniel Radclliffe), Jack Kerouac (Jack Huston) e William Burroughs (Ben Foster) no mesmo lugar, preferiu explorar a atração que Ginsberg nutria por Lucien Carr (Denis DeHaan) - pelo menos até que esse muso iconoclasta se envolvesse num crime. Versos de Um Crime poderia ser um filme melhor se, subitamente, o julgamento da homossexualidade não se tornasse mais importante que a literatura. Assim, a gênese beatnik aparece quase reduzida aos hormônios da juventude inconsequente.  

02 Uivo (2010) Baseado no antológico livro de 1956 lançado por Allen Ginsberg,  o roteiro escrito e dirigido por Rob Epstein e Jeffrey Friedman  transpõe a obra para o cinema mesclando cenas de animação, passagens da vida de Ginsberg (encarnado por James Franco), narrativas em off e entrevistas dramatizadas. Franco tem uma atuação espetacular, reproduzindo até o tom profético que Ginsberg imprime à sua obra. Por versos como "Eu vi os expoentes da minha geração destruídos pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus, arrastando-se pelas ruas do bairro negro de madrugada em busca uma dose violenta de qualquer coisa...", O livro foi apreendido pouco depois de seu lançamento e julgado por ser considerado obsceno - e o filme, em uma de suas várias camadas, retrata esse julgamento da arte de seu autor. Sem medo de ser multifacetado, Uivo é o melhor filme dessa lista. 

03 Na Estrada (2012) Fazia tempo que Hollywood queria levar para as telas a versão do livro do clássico de Jack Kerouac, lançado em 1957, On the Road tornou-se  a Bíblia dos beatniks - e criou polêmica com sua prosa espontânea que busca reproduzir o fluxo da consciência de seu autor. O livro mistura sexo, drogas e álcool ao conceito de liberdade de dois amigos que cruzam os EUA de automóvel. Está na cara porque era tão difícil levar o filme para as telas, mas um brasileiro (que não desiste nunca) o fez! Walter Salles exibiu seu filme em Cannes e dividiu opiniões (vale lembrar que nem o livro é uma unanimidade perante a crítica) com a jornada de Sal Paradise (Sam Riley como alter ego de Kerouac) e Dean (Garrett Hedlund alter ego de Neal Cassady) contra as convenções do sonho americano. Apesar da produção caprichada e dos bons momentos do elenco (até Kirsten Stewart parece ter vida), Na Estrada padece por não dar força ao contexto da época, construindo quase um universo paralelamente oco em que transitam os personagens. O que era para ser uma viagem prazerosa se tornou um tanto tediosa...

04 Mistérios e Paixões (1991) Considerado infilmável por muitos, Naked Lunch  de William Burroughs foi editado pela primeira vez em 1959 e chamou atenção por suas mais de duzentas páginas de escrita solta, tramas paralelas,  bizarrices e escatológias. Somente um doido como David Cronenberg para ter coragem de levar esse emaranhado de ideias para o cinema com um verniz de filme noir surrealista. Bill Lee (o Robocop clássico Peter Weller) é um escritor fracassado que ganha a vida como dedetizador de insetos. Mas até essa carreira pouco empolgante está ameaçada, já que o produto que utiliza está acabando porque sua esposa viciou-se no produto. Incentivado por ela (Judy Davis, bem esquisita) ele experimenta o produto e dá início a uma viagem alucinógena repleta de criaturas grotescas. Cronenberg mistura Lee e Burroughs numa jornada ainda mais complicada que o livro - e instiga o espectador a embarcar no delírio da junção simétrica dos universos (um tanto desagradáveis) do cineasta e do escritor.    

05 Big Sur (2013) Lançado em 1962, o livro homônimo de Jack Kerouac tem um certo sabor de obituário. Com base nos retiros de Kerouacs na paradisíaca região de Big Sur (região central da Califórnia), Jack tenta se recuperar de sua deterioração física e psicológica no contato com a natureza - além de fugir do sucesso conquistado com a publicação de On The Road. Kerouac aparece mais velho (vivido por Jean Marc Barr) e um tanto amargurado com o resultado de sua obra e expectativa (rejeitando o título de "Pai dos Beatniks" e até a existência de um movimento Beat). Além disso, reencontra amigos (como o casal Neal Cassady, vivido por Josh Lucas e Carolyn Cassady, vivida por Radha Mitchell - papel que foi de Kirsten Dunst na versão de Na Estrada) enquanto lida com seus fantasmas. Seus conflitos vão atrapalhar seu envolvimento com com a romântica Willamine (Kate Bosworth). Big Sur funciona como uma espécie de ressaca após tudo o que vimos nos filmes anteriores dessa lista. 

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

DVD: Versos de um Crime

Kerouac, Ginsberg, Burroughs (ao fundo) e Lucien: a gênese beat.

Daniel Radcliffe fez fama e fortuna como Harry Potter na adaptação da milionária série literária de criada por J.K. Rowling. Por dez anos, o menino cresceu diante das câmeras. Antes de viver o bruxinho, Radcliffe tinha onze anos e apenas dois filmes no currículo. Quando a saga terminou ele já estava com vinte um anos, além de carregar na bagagem grandes desconfianças sobre o seu talento como ator. Essa desconfiança cria um dilema em qualquer jovem ator (Daniel comentou que  quando estava filmando a série refletia sobre o que a vida fora do personagem lhe reservava). Desde que os filmes (campeões de bilheteria) do pequeno feiticeiro chegaram aos fim, Daniel tem se dedicado a filmes que o distanciem do famoso personagem. Assim foi parar no terror A Mulher de Preto/2012, na série Diário de um Jovem Médico /2012-2013 (que tem se revelado o seu melhor trabalho) e outros três filmes (de sucesso modestíssimo) lançados no ano passado que o fizeram perceber algo que não se dera conta: quando se afasta do personagem que o consagrou, ao mesmo tempo, corre o risco de se distanciar dos fãs que conquistou na pele do mesmo personagem. Não que Radcliffe tenha que se preocupar com dinheiro, sua maior preocupação é manter a carreira. Auge desse processo de distanciamento de Harry Potter (e seus fãs) foi esse Versos de um Crime de John Krokidas, que foi exibido em alguns festivais de cinema independente com a proposta de mostrar a adolescência dos escritores que mudariam a literatura americana com o movimento beat. Trata-se do período em que os escritores Allen Ginsberg (Radcliffe), Jack Kerouac (Jack Huston) e William Burroughs (Ben Foster, perfeito) ainda cursavam a faculdade na década de 1940 e começavam a digerir as experiências que moldariam o estilo de escrita que os tornariam ídolos da chamada beat generation. É interessante a ideia de abordar os personagens na rigidez do espaço acadêmico para se contrapor ao discurso hedonista de espontaneidade e não conformidade com os padrões vigentes na época que construíram (anos depois o movimento seria até confundido com a cultura hippie).  No entanto, o filme tem alguns problemas na hora de conduzir os desejos dos personagens, já que o roteiro mostra-se um tanto empolado. O protagonista é Allen (numa atuação correta de Radcliffe), um jovem tímido com receio de estar condenado a viver sob sombra do pai (o poeta Louis Ginsberg vivido por David Cross) e o fantasma da loucura da mãe (Jennifer Jason Leigh). Quando Allen é aprovado para estudar na renomada Universidade de Columbia, seus interesses pelos estudos é ofuscado pela atração que sente por Lucien Carr (Denis DeHaan), um jovem rico e iconoclasta que vive uma confusão amorosa com um homem mais velho chamado David Kammerer (Michael C. Hall). Lucien e David são amigos do esquisito William Burroughs  (que é esperto demais para expressar empolgação com qualquer coisa que acontece durante o filme), mas é quando Kerouac aparece mais próximo de Lucien, que os amigos se metem em travessuras e crises de ciúme. Krokidas é muito esperto em tingir as relações dos jovens no filme com doses de homoerotismo, principalmente quando um crime acontece (e isso não é SPOILER já que o filme começa revelando isso) e ele é motivado pelo mesmo desejo que Allen tenta sufocar com tanto sacrifício (embora falte liga entre Daniel e Denis). No entanto, mais uma vez, falta uma contextualização vigorosa do período que motivou os personagens a construir seu estilo literário, no lugar disso temos um roteiro mediano embalado por uma edição muito ruim. Bastava acentuar os conflitos dos personagens com a ortodoxia do mundo acadêmico (o próprio título original "Mate seus ídolos" e alguns conflitos de Allen com um professor são aperitivos do que o filme poderia ter sido). Do jeito que aparece, a inspiração beat é motivada principalmente pelos anseios de um jovem riquinho, egocêntrico e antipático (vivido muito bem por DeHaan) capaz de inspirar escritores (muuuito) mais talentosos do que ele. O que salva a sessão é o elenco esforçado e cenas como de Allen encontrando a sua voz literária que ganharia os contornos magistrais em O Uivo, que lançado em 1956 se tornou uma das obras mais importantes da literatura americana. No entanto, a ideia de Versos de um Crime talvez seja de não ser mais do que um esboço do que seus personagens se tornariam nos anos seguintes. Se curtiu o filme eu recomendo ver James Franco na pele de Ginsberg no ótimo Uivo (2010)

Versos de Um Crime (Kill your Darlings/EUA-2013) de John Krokidas com Daniel Radcliffe, Denis DeHaan, Michael C. Hall, Ben Foster, Jack Huston, Jennifer Jason Leigh e ELizabeth Olsen. ☻☻

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Na Tela: Sem Evidências

Reese: sem chegar a lugar algum. 

Sempre acho estranho quando resolvem pegar a história de um documentário e a transformar em um filme com personagens, atores, roteiro... Isso aconteceu com o documentário de José Padilha, Ônibus 174 (2002) que se tornou uma unanimidade documental, mas que se tornou o pífio drama Última Parada 174 (2008) nas mãos de Bruno Barreto, recentemente o mesmo ocorreu com GasLand (2010) que de documentário indicado ao Oscar virou o drama esquecido Terra Prometida (2013) escrito e estrelado por Matt Damon. Esses exemplos ilustram bem que o gênero documental pode não ser muito querido do grande público, mas permite uma abordagem mais completa do que as necessidades dramatúrgicas de outros gêneros. Sem Evidências de Atom Egoyan é mais um filme a entrar para esse grupo, sendo que já começa com a desvantagem de não contar em quase duas horas de duração o conteúdo de um documentário, mas de uma trilogia chamada Paradise Lost. O primeiro filme (com o subtítulo: Assassinatos de Crianças em Robin Hood Hill) foi lançado em 1996 e ganhou um Emmy por suas qualidades narrativas ao contar a triste história de três adolescentes acusados de matar três crianças na cidadezinha em que moravam. O segundo filme (com o subtítulo Revelações) foi lançado em 2000 e abordava as novas evidências que questionavam as circunstâncias em que os três adolescentes foram considerados culpados do crime (o filme foi indicado ao Emmy). O terceiro episódio (Purgatório) veio a público em 2011 e foi indicado ao Oscar por mostrar como as provas ignoradas na época do crime (incluindo um exame de DNA) inocentaram os jovens acusados mais de vinte anos depois do crime. Como dá para perceber, trata-se de uma das condenações mais polêmicas da história da justiça americana, tornando necessário um bocado de eloquência para fazer a coisa funcionar num único longa-metragem. O drama criminal começa bem ao montar o cenário da tragédia com os três meninos andando de bicicleta rumo ao bosque onde a tragédia acontecerá, consegue partir nosso coração quando os corpos são encontrados e instiga o espectador conforme surgem provas que são ignoradas no tribunal durante um julgamento de cartas marcadas. Egoyan mostra a histeria coletiva por vingança que cega a cidade sem muito esforço, mostrando como os boatos de seitas obscuras tornam-se bodes expiatórios para a cidade ocultar a incompetência ao lidar com as investigações. O simples fato dos jovens acusados gostarem de Heavy Metal já serve de evidência para o crime! O filme opta por uma edição fragmentada, cheia de idas e vindas, que dificulta ao espectador a acompanhar os rumos da investigação que envolve vários personagens (a maioria sub-aproveitados como o jovem instável vivido por Dane DeHaan ou a mãe maluquete encarnada por Mireille Enos). Mesmo contando com os oscarizados Reese Whiterspoon (como a mãe de um dos meninos) e Colin Firth (como um auxiliar da defesa), o filme nunca desenvolver eus personagens como deveria, optando por ficar em cima do muro em nome da imparcialidade. O resultado torna-se um tanto frustrante por acompanharmos várias pistas aparecendo e sendo descartadas rapidamente, deixando pontas soltas e interrogações sobre o caso. Sem uma direção a seguir (o roteiro podeira escolher qualquer personagem e acompanhar seu ponto de vista sobre o crime - ele até parece que fará isso com os personagens de Colin e Reese, mas a ideia se perde pelo caminho) o filme padece de um roteiro preguiçoso que se perdeu diante dos dados ricos que tinha em mãos. Egoyan é um bom cineasta e consegue envolver o espectador sobretudo quando repete um pouco os ingredientes que remetem à sua obra-prima (O Doce Amanhã/1997), sobretudo quando mostra o que há escondido debaixo dos cidadãos comuns da cidadezinha... mas o diretor erra ao pesar a mão para comover o espectador (com uma tragédia dessas  nem precisava, mas ele insiste e algumas cenas melodramáticas são quase risíveis). Por suas falhas Sem Evidências tem o gosto de uma confusa perda de tempo, uma história mal desenvolvida e sem saber muito bem para onde ir, sendo assim, mais uma vez, os documentários ganharam a disputa. Se você ficou interessado pela história e quer mais detalhes, veja a trilogia Paradise Lost/Paraíso Perdido, já que Egoyan alcança um desenvolvimento pior que as matérias criminais do Fantástico. 

Sem Evidências (Devil's Knot/EUA-2014) de Atom Egoyan com Colin Firth, Reese Whiterspoon, Alessando Nivola, James Hamrick, Seth Meriwwther, Amy Ryan, Bruce Greenwood, Dane DeHaan e Elias Koteas. ☻☻

domingo, 7 de setembro de 2014

DVD: Kick Ass 2

Coronel, Hit Girl, Kick e Motherfucker: menos fôlego que o anterior. 

Sequências são sempre complicadas, a de Kick-Ass parece ter sido mais ainda. Quando os quadrinhos de Mark Millar ganharam vida pelas mãos de Matthew Vaughn (2010) dividiu opiniões com seu humor regado à violência dos adolescentes no combate ao crime. Cenas de violência crua se fundiam à estética atraente criada para a sessão. A bilheteria em solo americano não chegou a chamar atenção, mas a presença do filme em várias listas de melhores do ano, além de ter aparecido entre indicados a premiações importantes, deram ao longa uma aura cult irresistível. No entanto a Universal relutou um bocado em dar sinal verde para a continuação. Tanto que Kick-Ass 2 chegou às telas somente três anos depois. Nesse meio tempo, seus astros Chloë Grace Moretz e Aaron Taylor-Johnson se tornaram requisitados para várias produções de Holywood enquanto distanciavam-se ainda mais da idade dos personagens. Quando o filme estreou todo mundo sabia o que lhes esperava, no entanto, a direção esperta de Matthew Vaughn fez falta na costura das cenas. Kick-Ass 2 está longe de ter a inventividade, fluência e graça do primeiro filme, já que o diretor Jeff Wadlow (que não fizera nada de relevante até aqui) torna as cenas de ação em grande bagunça e os personagens ficam menos interessantes. Kick-Ass (Aaron) não tem muito o que fazer em cena além de tentar convencer Hit Girl (Chloë) a se juntar a um grupo de heróis urbanos mascarados esquisitos - com discursos tão estranhos quanto seus nomes: Dr. Gravidade (Donald Faison), Vadia da Noite (Lindy Booth), Homem-Inseto (Robert Emm), Tommy's Parents (Monica Dolan e Steven Mackintosh) e Coronel (Jim Carrey, numa paródia do psicótico Comediante de Watchmen)... afinal, Hit Girl depois da morte do pai, mora com um policial bem intencionado (Morris Chestnut) que lhe pede para deixar a carreira de justiceira para trás. O problema é que na pele da inofensiva Mindy, a heroína passa maus bocados com as garotas mais populares da escola. Essa parte escolar do filme é tratada da forma mais insípida possível, deixando mais destaque para o retorno do riquinho Chris D'Amico (Christopher Mintz-Plasse), deixando o codinome Red Misty para trás e virando o supervilão Motherfucker, que recruta uma legião de seguidores maldosos para se vingar dos heróis - com destaque para a parruda Mãe Rússia (Olga Kurkulina). Ainda que funcione como passatempo, as cenas de ação são menos elaboradas que as vistas na primeira aventura dos personagens, da mesma forma, o filme carece de um ápice tão dramático quanto a que vimos anteriormente - embora aqui envolva o pai de um personagem como no anterior. O filme termina de forma irregular, sendo salvo da bobagem absoluta apenas pelo seu trio de jovens astros em ascensão, no entanto, o roteiro lhes reserva muito pouco para fazer nessa aventura, ou talvez, o diretor que não soubesse muito bem o que fazer com os personagens que tinha em mãos. Sem uma "causa" a defender (um retrato realista dos heróis em choque com o mundo real) o filme não empolgou nas bilheterias (a bilheteria americana mal rendeu lucro) e a terceira aventura de Kick-Ass nas telas ficou comprometida, enquanto Jeff Wadlow já tem seu próximo projeto agendado: o X-Force da Marvel previsto para 2016. 

Kick Ass 2 (EUA-2013) de Jeff Wadlow com Aaron Taylor-Johsons, Chloë Grace-Moretz, Christopher Mintz-Plasse, Jim Carrey, John Leguizamo e Olga Kurkulina. ☻☻☻

DVD: Amante a Domicílio

Turturro: sedutor convincente. 

John Turturro já contabiliza quase cem filmes em seu currículo de ator. Embora continue requisitado para todo tipo de filme, Turturro teve o auge de sua carreira nos anos 1990, onde fez papéis importantes em Barton Fink (1991), Quiz Show (1994) e A Trégua (1997). Sendo um dos atores favoritos dos irmãos Coen e de Spike Lee, o ator também se interessa pela direção de filmes, tanto que já soma seis longas em sua carreira como cineasta. Nenhum deles chegou a se tornar um sucesso, mas Amante a Domicílio (2014) chegou bem perto disso com seu baixo orçamento e narrativa simpática ancorada no talento de um elenco bastante eficiente. Além de dirigir, Turturro (que está longe de ser bonito) convence como um tipo rusticamente atraente que, meio que por acaso, acaba fazendo programas através do pedido de um amigo, o judeu Murray (Woody Allen). Murray, em uma consulta com a dermatologista, descobre que ela tem a fantasia de realizar um ménage com uma amiga e um homem desconhecido. Murray tem apenas que convencer o desconfiado Fioravante (Turturro) a aceitar o serviço. Curiosamente, o desconforto de Fior é encarado como sensualidade pela dermatologista (que é vivida por Sharon Stone) que acaba fazendo propaganda do moço para a tal amiga (Sofia Vergara), que na verdade é sua amante (mas o filme não polemiza essa relação). Não demora muito para que Murray descole outras clientes para o amigo, sempre recebendo uma parte do que Fior recebe pelos serviços prestados. No entanto, não espere cenas de sexo e baixarias, Turturro tem mais interesse em abordar os sentimentos que se revelam na relação do protagonista com as mulheres que cruzam seu caminho. A carreira do protagonista no mundo dos programas é bastante promissora até que Avigail (a francesa Vanessa Paradis), viúva de um rabino cruza o seu caminho. Diante das regras que ela deve seguir, o relacionamento entre os dois deixa o sexo sempre para depois, dando espaço para sentimentos mais sutis que desestabilizam a carreira do moço. Para piorar ainda mais, os encontros entre os dois chamam a atenção da patrulha do bairro (especialmente do policial vivido por Liev Schreiber) e rendem até um julgamento de Murray pela cafetinagem que anda praticando no bairro. Amante a Domicílio, apesar de sua temática, é bastante inofensivo e apesar de nunca aprofundar demais os seus personagens, consegue lhe conferir bastante humanidade e simpatia, algo raro nas comédias atuais. Apesar das personagens femininas marcantes e da presença de Woody Allen como um coadjuvante de luxo, o destaque vai mesmo para John Turturro que transpira sex appeal  ressaltando alguns de seus atributos e sendo profundamente econômico em cena (deixando as impressões por conta da plateia), o que não é pouco para um ator que costuma ser um patinho feio em Hollywood.

Amante a Domicílio (Fading Gigolo/EUA-2014) de John Turturro com John Turturro, Woody Allen, Sharon Stone, Vanessa Paradis, Liev Schreiber e Sofia Vergara. ☻☻☻

sábado, 6 de setembro de 2014

DVD: A UM PASSO DO ESTRELATO

backing vocals: os altos e baixos da carreira. 

O documentário The Act of Killing foi um dos filmes mais celebrados de 2013, recebendo vários prêmios (incluindo o BAFTA) e se tornando o favorito na cerimonia do Oscar/2014 na sua categoria. Portanto, foi uma enorme surpresa quando o longa metragem de Joshua Oppenheimer perdeu sua estatueta para este A Um Passo do Estrelato. Seria uma grande perda de tempo comparar os dois para tentar entender os motivos, já que são completamente diferentes. A Um Passo do Estrelato aborda o universo americano das cantoras de apoio, as popularmente conhecidas como backing vocals, explorando, principalmente, o curioso fato de suas vozes ficarem conhecidas em sucessos de diversos artistas - sem que elas se tornem estrelas reconhecidas pelo público. O documentarista Morgan Neville entrevista várias dessas cantoras e revela suas histórias e os desfechos nem sempre felizes de suas carreiras. Partindo da revolução causada na música quando o backing vocal "certinho" abriu espaço para as interpretações de cantoras negras (ou seja, de outra forma de defender a melodia das composições) chegando à última cantora de apoio de Michael Jackson, A Um Passo do Estrelato consegue comover o espectador enquanto mergulha numa viagem ao passado embalado por belas vozes. De cantoras veteranas como Tatá Vega (que atribui aos preconceitos a dificuldade de sua carreira solo), Darlene Love (que teve problemas sérios com o produtor Phil Spector), Merry Clayton (responsável pela voz de "Sweet Home Alabama" do Lynyrd Skynyrd, "Gimme Shelter" dos Rolling Stones e muitos outros clássicos) até as mais recentes como Lisa Fischer (que tem um Grammy como artista solo, mas canta com os Rolling Stones desde 1989) e Judith Hill (a protegida de Michael Jackson que cantou no funeral do Rei do Pop), o filme tenta abordar vários aspectos desse universo - e talvez por durar 91 minutos, alguns parecem ter ficado pelo meio do caminho. Afinal, o filme aborda a ascensão em meio a luta pelos direitos civis, o trabalho com ícones como Ray Charles, Luther Vandross, Tina Turner, passando pelos trabalhos com o rock inglês de David Bowie, Sting e Rolling Stones (incluindo entrevistas com a Srª Brown Sugar em pessoa) até as dificuldades de ganharem espaço no competitivo mundo da música. O resultado por não ser bilhante, mas cumpre o seu papel de homenagear com um olhar atento, por vezes melancólico, essas cantoras extraordinárias. 

A Um Passo do Estrelato (Twenty Feet from Stardom/EUA-2013) de Morgan Neville com Merry Clayton, Lisa Fischer, Judith Hill, Darlene Love, Tata Vega, Mick Jagger e Bruce Springsteen. ☻☻☻☻ 

CATÁLOGO: Café da Manhã em Plutão

Gatinha: Cillian vestido para... usar spray?!?

Sempre tenho a impressão que os produtores não sabem muito bem o que fazer com o irlandês Cillian Murphy. Ele chamou a atenção pela primeira vez no drama indie O Clube dos Suicídas (2001), mas somente no ano seguinte sua carreira cresceu em escala mundial quando Danny Boyle o escolheu para viver o herói de Extermínio (2002).  Prestes a completar quarenta anos, o ator está bem longe de ser o galã adolescente que queriam que fosse, ao contrário, gasta seu tempo atuando principalmente em produções independentes (sejam americanas ou europeias), mas de vez em quando aparece em uma superprodução (especialmente se for dos amigos Christopher Nolan ou Danny Boyle). Avaliando seu currículo, podemos perceber que o filme que lhe colocou no radar das premiações foi esse Café da Manhã em Plutão de Neil Jordan, onde o ator vive uma travesti que acaba sendo acusada de ter relações com o IRA. Murphy foi indicado a vários prêmios, incluindo o Globo de Ouro, por sua atuação bastante feminina  num filme que não tem medo de fazer humor ao abordar um período delicada da história da Irlanda. Baseado no livro de Patrick McCabe, Breakfast é mais ou menos o que o título promete: um delírio! Da cena de abertura em que Patrick "Gatinha" Braden (Cillian) aparece loura empurrando um carrinho de bebê, passando pelos passarinhos falantes do início e a infância do menino abandonado na porta de uma igreja, o filme de Neil Jordan pode ser considerado provocador demais para os puristas. Patrick cresce com a vontade de partir para Londres e conhecer a mãe que o abandonou (sua única referência é que ela parecia com uma atriz muito desejada na época), sobre sua origem ele tem apenas a suspeitas de que seu pai era o padre da região (vivido por Liam Neeson). Patrick sabe o que quer desde pequeno, para o desespero de sua mãe adotiva e da escola que não permite que o moço expresse suas angústias da forma que seu estilo fabuloso deseja. Patrick cresce transexual, encarando sua feminilidade de forma bastante natural, por vezes confundindo até os outros que o cercam. Nesse ponto a atuação de Murphy é fundamental, uma vez que seus traços andróginos e físico franzino são trabalhados para que soe realmente como uma mulher. No entanto, na década de 1970, a vida de Patrick é invadida pela ação do Exército Republicano Irlandês em várias ocasiões, seja através do amante  roqueiro que está metido com o armamento do IRA, com o amigo de infância que se mete em confusão e até com um atentado que o faz padecer na mão de policiais. Mesmo nesses momentos, o cineasta tem o maior cuidado em deixar o filme com um tom fabuloso, ao ponto de sempre abordar sutilmente os envolvimentos amorosos do protagonista (o mais declarado ocorre com o mágico vivido por Stephen Rea). Embora a narrativa episódica prejudique a fluência dos fatos, Café da Manhã em Plutão é uma espécie de Forrest Gump/1994 purpurinado ao mesclar situações reais com um personagem desconhecido. Figurinos caprichados, trilha sonora impecável e uma atuação antológica de Cillian Murphy (que depois vestiu-se de mulher novamente no soturno A Face Oculta/2010), Café da Manhã em Plutão é um filme pouco conhecido ainda esperando por reconhecimento.

Café da Manhã em Plutão (Breakfast on Pluto/Irlanda - Reino Unido/2005) de Neil Jordan com Cillian Murphy, Liam Neeson, Stephen Rea, Laurence Kinlan, Brendan Gleeson e Bryan Ferry. ☻☻☻☻

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

4EVER: Joan Rivers

(8 de junho de 1933 - 04 de setembro de 2014)

Joan Alexandra Molinski tornou-se uma lenda da comédia americana. Com voz rouca, sotaque nova-iorquino e humor ácido, foi uma das primeiras mulheres a fazer apresentações de stand up comedy, além de revolucionar o conceito de abordar o mundo das celebridades. Depois de anos de sucesso na TV ela poderia se aposentar e ficar conhecida somente pelas cirurgias plásticas (segundo ela, foram 734),  mas ela preferiu liderar o divertido "Fashion Police", fazer shows, participar de filmes (de Smurfs à Homem de Ferro 3) e lançar livros. Em um deles chegou a descrever como deveria ser o seu funeral para a filha Melissa: "Quando eu morrer (e, sim, Melissa, esse dia vai chegar; e, sim, Melissa, tudo está no seu nome), quero que meu funeral seja um grande evento do showbiz, com luzes, câmeras e ação. Quero buffet, paparazzi, e assessores de imprensa roubando a cena. Quero que seja bem hollywoodiano. Quero Meryl Streep chorando com cinco sotaques diferentes. Não quero discurso fúnebre. Quero que Bobby Vinto segure minha cabeça e cante 'Mr. Lonely'! Quero estar incrível, melhor morta do que viva. Quero ser cremada com um vestido Valentino e quero que Harry Winston faça uma etiqueta para colocar nos meus pés. E eu quero também uma máquina de fazer vento para que, mesmo no caixão, meu cabelo fique voando como o da Beyoncé". Joan faleceu após complicações em uma cirurgia na garganta.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

DVD: Obsessão

McConaughey, Cusack, Kidman e Efron: noir do avesso. 

Obsessão é um filme que teve uma das trajetórias mais interessantes do cinema recente. Pra começar, o roteiro de Peter Dexter (baseado em seu controverso livro) andava de mão em mão entre os produtores de Hollywood. Lembro que no ano 2000 ele quase saiu do papel pelas mãos do espanhol Pedro Almodóvar - naquele que seria sua estreia no cinema americano. Ainda bem que Almodóvar pulou fora do projeto e o texto ficou esperando por Lee Daniels. Daniels ficou consagrado com Preciosa (2009), drama que era descaradamente exagerado e, por isso mesmo, tinha o sabor de uma fantasia virada do avesso. O prestígio serviu para que The Paperboy caísse em suas mãos e chamasse a atenção de atores renomados dispostos a embarcar numa produção que não pensa em criar um retrato bonito dos Estados Unidos. Esse detalhe é importante, já que o filme foi um dos mais aclamados quando foi exibido no Festival de Cannes em 2012 e quando foi lançado nos EUA, as críticas negativas se acumularam restringindo a atuação de Nicole Kidman ao páreo das premiações (mas sem fôlego para chegar ao Oscar). Apesar de Daniels utilizar  a época em que se passa a trama (entre a década de 1960 e 1970) para decorar a narrativa com a tensão racial durante a luta pelos direitos civis, o diretor explora outras tensões que a história permite abordar (principalmente a sexual, seja juvenil, homossexual, interracial, fetichista...). Narrado pela empregada negra da família Jansen (viviva pela cantora Macy Grey), o filme conta a história do jornalista Ward (Matthew McConaughey) que volta à  sua terra natal no sul dos EUA para polemizar a condenação de um homem à morte. Hillary Van Wetter (um soturno John Cusack) é acusado de matar o odiado xerife da cidade - que costumava instigar os crimes raciais na cidade - e quem lhe atribui inocência é Charlotte Bless (uma surpreendentemente vulgar Nicole Kidman - indicada co Globo de Ouro de coadjuvante), que satisfaz seu fetiche por foras da lei escrevendo cartas para prisioneiros. No entanto, Charlotte está apaixonada por Hillary, ao ponto de não notar que o cara vale menos que nada. Não demora muito para Ward e seu redator, Yardley (David Oyelowo) perceberem que não há uma gota de inocência em Hillary - mas o assunto promete dar projeção aos dois na mídia e por isso seguem com a matéria. Apesar do núcleo policialesco, o centro da narrativa é a atração do jovem Jack (Zac Efron) por Charlotte. Jack quase foi um nadador profissional, mas devido a alguns problemas de comportamento acabou se tornando entregador do pequeno jornal que seu pai (Scott Glenn) edita. Daniels brinca com o estilo noir para desconstruir a percepção da plateia sobre seus personagens, por isso, mesmo apelando para várias cenas de Jack sem camisa, ele mostra que debaixo de toda aquela musculatura também bate um coração (e verdade seja dita, Efron está muito bem num personagem de coração bom num mundo profano), assim como as toneladas de vulgaridade de Charlotte (que irá perceber a fria em que se meteu quando for tarde demais). O cineasta mergulha seus personagens num verdadeiro pântano de situações imprevisíveis (seja Jack recebendo banho de urina depois de ser atacado por águas-vivas ou a cena do orgasmo de Hillary e Charlotte na prisão - que é tão desconfortável quanto hilária, ao contrário da desagradável cena de Ward violado por vários homens num quarto de hotel). A medida que Daniels se afasta do que parecia ser o seu foco (o crime de Hillary), o filme busca fôlego no ar pesado das relações perigosas que se desenham entre os personagens até a tensão final.  Obsessão não quer divertir a plateia com a orgia imagética de violência e humor grotesco, mas criar um retrato (em fotografia saturada) sujo e suado  de uma época que costuma ficar esquecida na cinematografia americana. 

Obsessão (The Paperboy/2012) de Lee Daniels com Zac Efron, Matthew McConaughey, Nicole Kidman, Scott Glenn e John Cusack. ☻☻☻☻