domingo, 23 de novembro de 2014

DVD: As Aparências Enganam

O gigante a mãe dominadora: hora de crescer (por dentro). 

Em 2007 o diretor dinamarquês Mads Matthiesen lançou seu aclamado curta metragem Dennis. Contando a história de um fisiculturista tímido que vivia com a mãe, o filme chamou atenção em festivais e serviu de cartão de apresentação para sua estreia em longa metragem com esse As aparências Enganam. O filme é gratificante de se assistir, especialmente porque Mathiesen não está preocupado em criar planos inovadores, provocações ou utilizar uma edição moderninha. Sua maior ambição é fazer a plateia conectar-se com o seu protagonista. Dennis (o ex-jogador de futebol Kim Kold) é um fisiculturista que ainda mora com a mãe dominadora (Elsebeth Steentoft) e, para além do culto ao corpo em busca de uma musculatura perfeita, aos 38 anos, Dennis é extremamente tímido - o que só atrapalha sua relação com as mulheres. Ele até tenta sair com algumas garotas da academia, mas acaba desistindo. Sua grande chance de decolar a vida amorosa é quando seu tio casa com uma garota tailandesa e ele decide sair de Compenhagen para Pattaya. Acreditando que por lá é fácil encontrar o amor, ele irá perceber que as coisas não são tão fáceis - especialmente quando terá que mentir para a mãe, dizendo que irá participar de uma competição na Alemanha. Entre inúmeras prostitutas que cruzam seu caminho (sem muito sucesso), Dennis nem imagina que seu gosto pelo fisiculturismo irá colocar uma pessoa especial no seu caminho. Mathiesen  cria um filme elegante, simples e nobre ao explorar o contraste da fragilidade emocional de Dennis com sua aparência de gigante. É verdade que Kim Kold mostra-se um ator surpreendente por conseguir expressar suas emoções com pouco mais do que um olhar ou sorriso, além disso, a história não deixa de ser original por utilizar um personagem de porte que acostumamos a ver em filmes de ação (o próprio Kold atuou em Velozes e Furiosos 6 no ano passado) mostrando que existe um bocado de emoções dentro dele. O filme ainda cria um clímax poderoso quando Dennis precisa escolher entre tornar-se homem ou ser eternamente filho de uma mãe castradora. Matthiesen inova por um caminho diferente, explorando o romantismo de forma quase antiquada e mostrando que o fundamental é a plateia comprar a história que ele quer contar (ao ponto de lançar seu filme no exterior com o nome de Teddy Bear!!!). Premiado em Sundance (e em vários outros festivais) por ser sensível (sem cair em armadilhas), As Aparências Enganam é uma bela surpresa.

As Aparências Enganam (Teddy Bear/Dinamarca-2012) de Mads Matthiesen com Kim Kold, Elsebeth Steentoft e David Winters. ☻☻☻☻

DVD: O Maravilhoso Agora

Teller e Woodley: dupla de talento. 

Miles Teller e Shailene Woodley são dois jovens atores de ouro em Hollywood. Bem, para falar a verdade Miles tem vinte e sete anos, enquanto Shailene tem vinte e três - embora ambos aparentem ter bem menos. Talvez por essa aparência enganosa, eu ainda me surpreenda quando penso nas histórias que ambos têm para contar. Woodley merecia uma indicação ao Oscar por ser a filha adolescente de George Clooney no superestimado Os Descendentes (2011), mas desde então conseguiu destaque em produções independentes e tem forte lobby para cravar uma indicação ao Oscar por A Culpa É das Estrelas (2014), se conseguir é merecido. Vale lembrar que a mocinha também é capaz de fazer a plateia esquecer a tosquice da série Divergente (2014) e se concentrar em sua capacidade de carregar um filme nas costas. Teller também esteve em Divergente e prepara-se para mergulhar em outra franquia ambiciosa, a nova versão de Quarteto Fantástico (prevista para o ano que vem) onde viverá o Sr. Fantástico. Teller chegou ao estrelato devagar como o adolescente perdido por ter atropelado o filho de Nicole Kidman em Reencontrando a Felicidade (2010), mas desde então sua carreira passou longe da apatia com oito longas no currículo (incluindo o cotado ao Oscar do ano que vem, o elogiado Whiplash de Damien Chazelle) e outras seis produções para estrear nos próximos anos. Talvez o grande diferencial de Miles e Shailene seja aparência de gente comum, sem o peso de ser galã ou beldade, são experts em viver pessoas com problemas comuns, especialmente se fora aquele mal estar típico da adolescência. Ambos já viveram essas desventuras em seus filmes, mas em O Maravilhoso Agora (título fiel, mas infeliz para The Spectacular Now) os dois mostram porque estão há léguas de distância de outros astros adolescentes que Hollywood quer nos empurrar goela abaixo. Quando o filme começa e somos apresentados a Sutter (Teller) ele está diante de uma tela de computador com grandes dificuldades para escrever uma redação. Esse no entanto parece ser o menor de seus problemas, já que ele ainda não digeriu o fim de seu namoro com Cassidy (Brie Larson). Além disso, a vida de Sutter segue uma rotina bastante semelhante a de outros adolescentes:  tenta ajudar a decolar a vida amorosa do melhor amigo (o simpático Masam Holden), frequenta festas, tem problemas com algumas matérias na escola, problemas de relacionamento com a mãe e, de vez em quando, exagera na bebida. É num desses excessos que encontra Aimee (Shailene), que estuda na mesma escola que ele, mas é incapaz de ter chamado sua atenção até aquele momento. Se Sutter tem uma forte tendência a enxergar o próprio umbigo, Aimee é sua antítese. Sempre preocupada com a mãe, mas incapaz de fazer dramas até com o falecimento do pai, por isso a plateia logo percebe que existem algumas fagulhas no ar quando o casal se encontra. O diretor James Ponsoldt faz seu filme evoluir sem pressa diante da plateia, até que chega ao ponto em que nos damos conta de que a relação de ambos com suas mães e o espectro dos pais ausentes servem para mostrar um problema muito maior. Quando Sutter resolve reencontrar seu pai, que não encontra há tempos, o que percebemos é que o rapaz é um protótipo do pai (vivido com desleixo preciso por Kyle Chandler), assim como, ele tem forte tendência a carregar a esperançosa Aimee para o fundo do poço. Apesar da cara de romance adolescente, O Maravilhoso Agora mergulha no drama como só os filmes de sarjeta podem fazer. Sem excessos ou grandes polêmicas, o filme desenvolve o personagem de Sutter com mais nuances do que o estereótipo desse tipo recebe até em filmes badalados. No fim das contas, gostei do filme romper com aquela bobagem determinista que algumas produções independentes utilizam. Se existe um defeito no filme é que Aimee é praticamente uma santa diante dos tropeços de seu amado, sempre disposta a perdoar a torna um pouco forçada (mas nada que a última cena não deixe espaço para minha mente corrigir). 

O Maravilhoso Agora (The Spectacular Now/EUA-2013) de James Ponsoldt com Miles Teller, Shailene Woodley, Kyle Chandler e Jennifer Jason Leigh. ☻☻☻

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

4EVER: Mike Nichols

6 de novembro de 1931 / 20 de novembro de 2014

Nascido em Berlim, Michael Igor Peschkowsky deixou sua cidade natal junto com a família em 1939 devido à Segunda Guerra Mundial. O início da carreira foi em 1950 e desde então colecionou elogios e prêmios, tornando-se um dos poucos diretores a receber os quatro principais prêmios do showbizz americano (Oscar, Tony, Emmy e Grammy). Em 1968, antes de completar trinta anos, recebeu o Oscar de direção pelo seu magnífico trabalho em A Primeira Noite de Um Homem, tento concorrido anteriormente por seu trabalho em Quem Tem Medo de Virginia Woolf/1967 e posteriormente por Silkwood/1983 e Uma Secretária de Futuro/1988. Na década de 1990 seus trabalhos foram menos celebrados, sendo lembrado novamente com o trabalho na aclamada série Angels In America/2003 pelo qual recebeu vários prêmios e abrindo caminho para sua cultuada adaptação cinematográfica de Closer (2004), baseado na peça de Patrick Marber. Nichols faleceu em 20 de novembro de um ataque cardíaco. 

domingo, 16 de novembro de 2014

APOSTAS PARA O OSCAR 2015: Capítulo III

Selma
Abordar a luta pelos direitos civis nos EUA é sempre bem vindo na temporada de premiações e se tiver os atores certos nos papéis cobiçados de Martin Luther King (David Oyelowo) e George Wallace (Tim Roth), as chances de sucesso aumentam consideravelmente! Dirigido por Ava DuVernay, o filme deixou a expectativa crescer ao seu redor aos poucos - e a presença de Oprah Winfrey e Tom Wilkinson só faz aumentar a atenção que o filme deve receber nos próximos meses em seu retrato da marcha pelos direitos civis na terra do Tio Sam. 

A Most Violent Year
O diretor J.C. Chandor já provou que pode fazer milagres num filme com um único cenário e um único ator em cena  (o cult Até o Fim/2013 com Robert Redford). Imagine o que ele pode fazer com uma atriz que chama cada vez mais atenção na sétima arte? Jessica Chastain estrela ao lado de Jason Isaacs esse drama de uma família de imigrantes que tenta manter os negócios na cidade de Nova York no ano mais violento de sua história (1981 - só para lembrar). Doses de violência, corrupção e decadência, atrapalham os personagens que lutam para evitar que tudo que construíram desabe perante a dura realidade que enfrentam. 

Livre (Wild)
Não sei por quanto tempo a moda permanece, mas o cinema oferece cada vez mais espaço para filmes onde um ator tem que estar sozinho em cena a maior parte do tempo (prendendo a atenção da plateia), a próxima a enfrentar esse desafio é Reese Witherspoon, que cada vez mais decepcionada com os papéis que os estúdios lhe oferecem, volta-se cada vez mais para filmes independentes de pequeno orçamento. Quase dez anos depois de seu Oscar por Johny e June (2005) a atriz tenta voltar ao radar da Academia nessa jornada intimista de uma mulher que tenta fugir de uma catástrofe pessoal. Obviamente que a assinatura de Jean Marc Vallée (de Clube de Compras Dallas/2013) valoriza o passe do filme consideravelmente. 

Sniper Americano (American Sniper)
Deve ser realmente ótimo não ter que provar mais nada para ninguém. Com duas indicações seguidas ao Oscar (ator por O Lado Bom da Vida/2012 e coadjuvante por Trapaça/2013), Bradley Cooper é capaz de emplacar uma terceira indicação no seu currículo. Com direção de Clint Eastwood, esse filme conta a história de Chris Kyle (Cooper), um atirador do exército americano que matou mais de 150 pessoas. Com previsão de lançamento para o final de dezembro, o filme chamou atenção pelos festivais onde passou. No elenco ainda estão Sienna Miller e Eric Close. 

 O Abutre (Nightcrawler)
O que seria de alguns atores sem as dietas radicais de Hollywood? Jake Gyllenhaal sempre foi um ator interessante, mas foi o último da lista  a enfrentar uma perda radical de peso para um papel. Vivendo um jornalista desesperado por emprego e obcecado por crimes - ao ponto de não dormir -, as coisas complicam quando ele ultrapassa a linha entre observador e criminoso (chamando a atenção de uma veterana da televisão). A estreia de Dan Gilroy (roteirista da trilogia Bourne) promete um retrato sórdido de Los Angeles (e da mídia). 

FILMED+: Entrevista com o Vampiro

Claudia, Pitt e Cruise: família disfuncional?

Faz tempo em que assisti Entrevista com o Vampiro, versão cinematográfica do clássico livro de Anne Rice lançado em 1976 (e que no Braisl foi traduzido por Clarice Lispector). Recentemente o filme me veio à memória por conta de Amantes Eternos (2013) de Jim Jamursch. O filme estrelado por Tom Cruise (que estava no auge) e Brad Pitt (que começava a consolidar seu fã clube) permanece intacto em suas qualidades - além de ter uma fluência igualmente envolvente à sua época de lançamento. Evidente que os maiores elogios são para o diretor Neil Jordan, que criou um visual barroco para contar a história de vampiros mais multifacetada da história do cinema, além de manter a rédea curta para que tudo não caísse no ridículo (e acredite o risco era grande: vampiros afetados com um único personagem feminino marcante - feito por uma criança que age feito adulta). Beneficiado pelas influências do horror clássico, Entrevista com o Vampiro é uma ode à maldição de ser eterno na busca por sangue. Não lembro de ter visto um filme que conseguisse retratar tão bem essa sensação, até então não explorada sobre essa figura emblemática do horror. A trama começa como o título anuncia, quando um jornalista (Christian Slater) se prepara para entrevistar um homem de pele muito branca e reservado, mas que não demora muito para revelar-se um vampiro. Seu nome é Louis (Brad Pitt ainda apático), transformado em vampiro no século XVIII pelo misterioso Lestat (Tom Cruise). Porém, enquanto Lestat considera ter conferido ao rapaz a maior dádiva de todas (a eternidade), Louis considera que sua vida se transformou num inferno. Condenado à escuridão, ele atravessa o século ao lado de Lestat e seus métodos de sedução para conquistar as presas. Enquanto Lestat abraça sua maldição com gosto, Louis apenas lamenta o que seus olhos veem. A vida entre os dois tem uma guinada brusca quando a menina órfã, Claudia (Kirsten Dunst, com 12 anos na época do lançamento do filme) cruza-lhes o caminho e ela se torna uma criança vampira. Condenada a amadurecer num corpo infantil, Claudia rebela-se contra Lestat e o resultado só aumenta o tom de tragédia do filme. Ao lado de Louis ela precisa  sufocar seus desejos de mulher e enfrentar sua impossibilidade de crescer. Jordan cria uma dinâmica irresistível entre o trio, com surpreendente destaque para a atuação madura de Kirsten na pele de uma personagem difícil e que poderia gerar polêmicas desnecessárias ao filme. Mas além do trio, existem outros vampiros, sendo a sequência mais desagradável o dos membros do sanguinário Teatro dos Vampiros. Liderados por Armand (Antonio Banderas, com uma peruca que tenta imitar a cabeleira de Glória Pires), a trupe poderá descobrir o maior segredo de Claudia e Louis e deixá-los em perigo. Neil Jordan cria um espetáculo visual que impressiona, sem perder a densidade desses seres imortais. Além de todo cuidado estético e dramático, o filme carrega forte no homoerotismo que chamou atenção da crítica e público por seu elenco repleto de de galãs hollywoodianos. Recentemente, a fome dos estúdios por novas sagas cinematográficas milionárias gerou uma nova compra de direitos da coleção criada por Anne Rice, a série Crônicas Vampirescas conta com dez livros - se contarmos com o ainda inédito Princípe Lestat a ser editado ainda esse ano - e todos devem chegar ao cinema nos próximos anos. Com especulações de que Pitt e Cruise podem atuar novamente juntos pela saga (será que dessa vez os dois se entenderão melhor no set?), a série parece querer manter distância do grotesco A Rainha dos Condenados (2002), outro livro da série que mostrava Lestat com pose de rockstar (vivido por Stuart Townsend) e que fracassou nas bilheterias. O mais interessante é que enquanto Entrevista mostra exatamente como tratar os personagens de Rice, o outro reflete exatamente o oposto. 

Entrevista com o Vampiro (Interview with a Vampire/EUA-1994) de Neil Jordan com Tom Cruise, Brad Pitt, Kirsten Dunst, Christian Slater, Atonio Banderas e Stephen Rea. ☻☻☻☻☻

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

DVD: Michael

Fuith e um menino: monstro disfarçado. 

Os primeiros minutos de Michael mostram um homem chegando em casa e realizando coisas comuns que qualquer outra pessoa faria depois de um dia de trabalho. Após preparar o jantar e fechar as janelas, abre a porta do porão e diz "saia". Alguns segundos depois, um menino aparece. A plateia pode não entender ainda o que presencia, mas o trato do personagem adulto com a criança está longe de ser carinhoso, é apenas ríspido, sem muito carinho ou atenção. Alguns minutos depois a plateia terá a dimensão assustadora do que presencia. Michael (vivido pelo ator Michael Fuith) é o protagonista do filme de estreia do austríaco Markus Schleinzer e, não demora muito para notarmos o que sua rotina regrada tem de doentia: o sujeito é um pedófilo. Não sabemos direito como aquela criança foi parar em seu porão, mas alguns detalhes deixam claro os motivos pelo qual o personagem é mantido trancado por um adulto. O diretor constrói um filme perturbador a partir da rotina dos personagens. Envolto em silêncios e solidão, o filme se desenvolve mais como um suspense (que nos faz esperar para ver o que irá acontecer até o desfecho), amparado pela tortura psicológica de Michael sobre o menino e seus truques para mantê-lo ali. Diante da abordagem de um tema tão explosivo, Schleinzer faz o favor de evitar cenas polêmicas, afinal de contas, sabe que não é necessário chocar a plateia mais ainda (tem apenas uma cena que foi realizada através de montagem - cena que serve para o diálogo mais cruelmente patético do filme - e talvez da história do cinema). O filme se desenvolve com uma fluência mórbida, com poucos diálogos e ritmo quase arrastado, feito de pequenos detalhes que anunciam a quebra do equilíbrio forjado dentro da casa. Há de se elogiar a atuação de Michael Fuith (que quase desistiu do papel com medo do impacto em sua carreira), que interpreta um personagem difícil de contenção impressionante, da mesma forma, seu parceiro de cena (o menino David Raunchenberger) consegue conciliar a inocência perdida com a precisão de uma bomba relógio (e o diretor ressaltou que em momento nenhum o menino sabia o que seu personagem sofria no filme). O filme foi exibido em Cannes e conseguiu vários elogios pela maneira sutil como aborda um tema tão perigoso. Longe de fazer uma obra agradável, vale lembrar que Schleinzer trabalhou com Michael Haneke (A Fita Branca/2009) em vários filmes e aqui demonstra que aprendeu a lição direitinho: seu cinema é cerebralmente devastador (com a vantagem der ser menos explícito que algumas obras de seu mestre). Deixando a última cena à cargo do público, cria em nossa mente o momento da descoberta de que aquele homem calado e solitário era apenas o disfarce de um monstro. 

Michael (Áustria/2011) de Markus Schleinzer com Michael Fuith, David Raunchenberger, Christine Kain e Victor Tremmel. ☻☻☻ 

DVD: Joan Rivers - Piece of Work

Rivers: os dias difíceis de uma diva. 

Em 2014 o mundo ficou mais triste com a morte de Joan Rivers. Embora estivesse em alta com seu programa de TV (o hilariamente maldoso Fashion Police) e com participações mais que especiais no cinema (a melhor delas em Homem de Ferro 3), Joan já teve o seu período de vacas magras. As diretoras Ricki Stern e Anne Sundberg escolheram justamente esse período para contar a história da atriz nesse documentário que fez sucesso em vários Festivais (incluindo Sundance, de onde saiu com o prêmio de melhor montagem, além de ter concorrido ao prêmio de melhor documentário). Os envolvidos mal sabiam que a atriz estava prestes a dar novo fôlego à carreira depois de participar do programa Celebrity Aptrentice capitaneado pelo milionário Donald Trump. Quando o filme começa, Joan não poupa esforços para manter seu estilo de vida luxuoso, aceitando propostas para shows em qualquer lugar, propagandas de qualquer coisa e capas de qualquer revista (enquanto prepara um espetáculo sobre a sua vida e se prepara para o retorno à TV - que parece nunca chegar). Rivers estava com 75 anos na época da filmagens e não tem pudores em aparecer diante da câmera sem maquiagem ou com os efeitos de aplicações de botox ou cirurgias plásticas (dizem que foram mais de 70!). Rivers não tem pudores de se despir da personagem que criou para si e relembra alguns momentos delicados de sua carreira e vida pessoal. Desde o início quando apareceu na TV ao lado de Johnny Carson no celebrado The Tonight Show em 1965, os americanos se depararam com aquela mulher de humor ácido, voz rouca e forte sotaque novaiorquino. Ainda que o filme aborde um período de maré baixa da artista, fica claro que sempre foi considerada uma rainha da comédia americana, ainda que seu humor peculiar possa ter lhe custado caro (especialmente pela perseguição sofrida pelos críticos que nunca a reconheceram como ela gostaria). Passagens como sua traumática carreira solo na Fox, o suicídio do marido e o relacionamento com a filha Melissa Rivers são abordados sem sentimentalismo, mostrando como Rivers é capaz de rir de si mesma (e não apenas de outras celebridades) e reinventar-se quantas vezes forem necessárias. Para os fãs os momentos onde cria (e arquiva) suas piadas são saborosos! No entanto, o filme de Stern e Sundberg ultrapassa os limites da vida de sua biografada quando amplia seu olhar para o ingrato mundo artístico, onde a velhice é considerada um demérito aos mais experientes, especialmente se for comediante! Piece of Work mostra o vigor de Joan e outros artistas que foram esquecidos pelo mainstream (o momento em que ela encontra a fotógrafa Flo Fox é de arrancar lágrimas da plateia) e a necessidade de reconhecimento. Com cenas de palco, de arquivo e entrevistas, Piece of Work é um retrato riquíssimo de uma mulher que desafiava as convenções conservadoras dos americanos na década de 1960 e que, com o passar do tempo, só tornou seu olhar mais arguto e sua língua feroz. Entre fãs, críticos, seguidores, familiares e entourage, Joan Rivers aparece como uma personagem imortalizadamente irresistível. 

Joan Rivers - Piece of Work (EUA-2010) de Ricki Stern e Anne Sundberg com Joan Rivers, Jocelyn Pickett, Kathy Griffin, Melissa Rivers e Bill Sammeth. ☻☻☻☻

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

MOMENTO ROB GORDON: CineRobôs

5  - Gigante de Ferro (Gigante de Ferro/1999)
O filme de estreia do diretor de Os Incríveis/2004 teve que se contentar com o fracasso nas bilheterias. Confiante do que tinha em mãos, a Warner teve enormes dificuldades na distribuição do seu filme, ao ponto de cancelar seu departamento de animação com medo de outro fracasso. O fato é que a história do robô (construído para ser uma arma) e sua amizade com um menino torna-se uma bela fábula antibelicista. Ambientado num tom de paranoia, Gigante de Ferro é um personagem que conquista fácil (curiosamente ele tem voz de Vin Diesel que recentemente interpretou outro personagem de poucas falas: o Groot de Guardiões da Galáxia/2014) por mostrar em suas expressões que mesmo construído para matar, ele pode redimir-se por sentimentos bastante nobres.

4 - WALL.E (WALL.E/2008)
Talvez num futuro próximo, a tecnologia deixe todos os homens gordinhos de tão sedentários e a Terra se torne um grande depósito de entulhos. Nesse futuro possível que vive o robozinho Wall.E, um coletor de lixo que acaba se apaixonando e vivendo uma aventura no espaço. O personagem carismático tem o grande desafio de prender a atenção da plateia durante boa parte do filme emitindo somente ruídos num ambiente de lixão. O Oscar de melhor animação comprovou que o robozinho alcançou seus objetivos. 

3 - TARS (Interestelar/2014)
Um dos melhores personagens do novo filme de Christopher Nolan é um robô bastante estranho, que lembra o monolito de sua fonte de inspiração (2001 - Uma Odisseia no Espaço/1968). No entanto, sua estrutura física pode limitar seus movimentos, mas ainda assim é capaz de surpreender quem lhe confia missões bastante perigosas. TARS ainda tem um senso de humor bastante peculiar, (ainda que ajustável) que ajuda a solidão no espaço ser um pouco mais agradável. 

 2 - Marvin (O Guia do Mochileiro das Galáxias/2005)
Poucos robôs são dignos de culto antes de sua ida para as telonas, nesse clube se encontra Marvin o robô mais depressivo do universo! Cultuado já no livro de Douglas Adams, o personagem inspirou até uma música do Radiohead (Paranoid Android do histórico álbum Ok, Computer). Inteligente como todos os robôs, Marvin sabe que as possibilidades de tudo dar errado é muito grande (especialmente depois que a Terra foi demolida por uma construtora alienígena pelo simples fato de estar no meio do caminho de uma obra). Seu baixo astral o torna ainda mais divertido!

1 - C-3PO & R2-D2 (Star Wars/1977)
O motivo dos inesquecíveis personagens da saga de George Lucas aparecerem em primeiro lugar não apenas por eu querer me livrar de outro apedrejamento, mas porque a soma da força de ambos fizeram essa colocação, afinal, eu poderia separar os dois? Os dois funcionam juntos, como Bonnie & Clide, Timão & Pumba ou Thelma & Louise! Ou seja, uma dupla clássica da história do cinema! Ajudando mestre Luke em sua luta contra o lado negro da força, os dois personagens atravessam muitos problemas com mais dignidade do que muito ator de carne e osso que tem por aí!

Na Tela: Interestelar

Hathaway e McConaughey: aventuras num buraco de... minhoca?!

Em pouco mais de uma década, Christopher Nolan se tornou um desses diretores que chamam a atenção quando desenvolve qualquer projeto. Se levarmos em consideração que seu cartão de visitas era um longa contado de trás para frente (Amnésia/2000) e que anos depois reformulou a estética dos heróis da DC Comics para a telona com a trilogia Cavaleiro das Trevas de Batman (ao ponto de quem foge da fórmula, como o patético Lanterna Verde/2011, amargar severas críticas e bilheteria decepcionante) sabemos logo o motivo dos filmes do moço ser tão aguardados. Interestelar é o primeiro filme de Chris depois que se despediu da batcaverna, ao mesmo tempo que parece um irmão bastante próximo de A Origem (2010), seu único trabalho a ser indicado ao Oscar de Melhor Filme. Enquanto A Origem utiliza a ficção científica para mergulhar em várias camadas do inconsciente, Isterestelar é o retorno do diretor ao gênero, mas dessa vez ele não mergulha nos segredos do ser humano (pelo menos, não explicitamente), mas em aventuras espaciais. Num futuro próximo nosso planeta enfrenta problemas sérios com a produção de alimentos, cada vez mais seca e com poeira constante, os humanos questionam o rumo de algumas coisas. Uma delas é que os produtores de alimentos merecem ser mais valorizados que engenheiros, assim como os gastos com explorações espaciais precisam ser deixados de lado, já que a prioridade é melhorar a vida na Terra, que está ameaçada de extinção. Por conta disso os livros de história foram revistos, a chegada do homem à Lua questionada e a NASA trabalha de forma clandestina. Nesse cenário conhecemos relatos de idosos sobre como nosso planeta mudou nos últimos anos, especialmente de Murphy (Ellen Burstyn) que conta a história de seu pai, o ex-piloto e fazendeiro Cooper (Mathew McConaughey) que cuidou dela e do irmão até partir para uma viagem espacial idealizada por Professor Brand (Michael Caine). Em instalações clandestinas, Brand descobriu indícios de planetas que poderiam ser colonizados por humanos, contra a vontade da então pequena Murphy (a ótima Mackenzie Foy), Cooper parte na expedição ao lado da filha de Brand (Anne Hathaway) e Romilly (David Gyasi). Esse é o início do filme e... tudo o que podemos mencionar para não estragar as surpresas que Nolan reservou no roteiro de seu irmão, Jonathan (em texto escrito originalmente para Steven Spielberg). Muito se fala sobre as referências ao clássico 2001: Uma Odisseia no Espaço/1968  de Stanley Kubrick (e tem mesmo, não apenas os silêncios, a lentidão dos movimentos no espaço, mas o próprio monolito que aparece transfigurado em mais um robô cool para a história do cinema). No entanto, o que marca a história é como ela relativiza mais do que tempo e espaço, ela relativiza nossas verdades. Tecnologia ou alimentos? Engenheiros ou fazendeiros? Individual ou coletivo? Nessas dicotomias alguns sentimentos se tornam tão constantes (e necessários) como a gravidade para manter nossos pés no chão (ou não). Nolan nos esfrega o presente de nosso mundo destinado a virar pó (ou como bem lembrou minha querida amiga Marcela Paula: "do pó vieste a ao pó retronarás!") para situar sua obra. Em projetos de novos mundos que parecem uma Terra com defeito (muita água, ou muito frio...), o desespero da solidão, da distância do lar, da extinção mostra-se sempre presente e gerando reações adversas. Enquanto a vida no mundo segue seu rumo - e a solução parece cada vez mais distante - a aventura espacial parece destinada ao fracasso.  Considero que às vezes o roteiro se perde em explicações desnecessárias, especialmente quando lembramos que as melhores obras de ficção científica (como de qualquer outro gênero) funcionam melhor quando servem de espelho para refletir o mundo aos olhos do espectador. Talvez por isso o diretor não esclareça quem foi que ajudou a NASA com o tal buraco de minhoca (também conhecido como buraco branco ou, numa linguagem leiga, "um atalho através do eixo espaço/tempo"), ou quais foram as informações dadas por um dos personagens para guiar a humanidade a desfecho que presenciamos. Para terminar, agradeço a Christopher Nolan por não fazer o filme em 3D - do jeito que está já gerou dor de cabeça na plateia, especialmente pela "pentadimensão", uma vertiginosa representação das três dimensões espaciais mesclada ao tempo e ao espaço, o que gera uma cena vertiginosa (que representa com maestria como o agora mescla passado e futuro para quem consegue enxergar além da percepção simplista do presente). Quem embarca na viagem e não perde tempo buscando defeitos irá perceber que Nolan acertou mais uma vez em fazer cinema espetacular sim, mas sem deixar de estimular a inteligência da plateia (e isso é mais raro do que você pode imaginar). 

Interestelar (Isterstellar/EUA-2014) de Christopher Nolan com Matthew McConaughey, Anne Hathaway, Jessica Chastain, Mackenzie Foy, Michael Caine, David Gyasi, Wes Bentley, John Lithgow, Casey Affleck, Matt Damon e Ellen Burstyn. ☻☻☻☻