sábado, 30 de julho de 2016

PL►Y: O Homem Irracional

Emma e Joaquin: pobre Kant!

Embora não tenha empolgado o público como desejava, O Homem Irracional de Woody Allen está longe de ser um desastre, se tornando ainda mais curioso como o veterano diretor consegue fazer um filme leve sobre traições amorosas e assassinato. Houve quem apontasse semelhanças da história com os aclamados Crimes e Pecados (1989) e Match Point (2005), mas ao contrário da densidade desses dois, o filme investe no tom cômico de uma comédia romântica das mais ligeiras. O filme conta a história de Abe (Joaquin Phoenix), professor de filosofia recém chegado numa universidade e rodeado de mitos sobre si próprio. Alguns atribuem seu pessimismo à traição da esposa, outros à morte de seu melhor amigo no Afeganistão, mas em ambas as histórias ninguém sabe direito o que aconteceu, sabe-se apenas que existe uma verdadeira aura sedutora em torno dele. Essa aura é sentida de perto por sua aluna Jill (Emma Stone, em seu segundo trabalho com Allen), jovem estudante namorada do tranquilo Roy (Jamie Blackley), filha de dois professores do departamento de música e que fica fascinada pelas teorias do novo professor. Existe um constante flerte entre os dois, mas o professor também se envolve com Rita (Parker Posey) que enfrenta problemas com o marasmo do casamento. Poderia ser apenas um filme sobre o triângulo amoroso que se forma, mas Jill e Abe escutam uma conversa num restaurante... que inspira Abe a realizar um crime perfeito e o filme passa a girar em torno disso. Woody Allen é famoso por lançar um filme por ano (o de 2016 é Cafe Society, que foi exibido em Cannes e deve estrear aqui depois das Olimpíadas), penso que ele escreve obsessivamente vários roteiros todos os anos, alguns ele lapida ao longo do tempo (e se tornam pérolas como Blue Jasmine/2013 e Meia-Noite em Paris/2011), outros ele desiste de ficar melhorando e lança quando está apresentável - deve ter sido assim com o mediano Magia ao Luar/2014 e com este aqui. O bom é que  O Homem Irracional possui uma série de ironias feitas para agradar os fãs do cineasta (o título se referir a um conceituado professor de filosofia que vira o assassino perfeito, as reflexões sobre Kant e a tola lanterna...), além do belo tratamento visual e uma trilha jazzy mais animada que de costume. Porém, é verdade que o elenco ajuda: Emma Stone está confiante como a jovem que cai de amores pelo professor e Joaquin Phoenix está deliciosamente blasé como um intelectual que reencontra o amor pela vida depois de tornar-se um assassino (o tipo de coisa que só poderia sair da cabeça de Woody Allen). 

O Homem Irracional (The Irrational Man/EUA-2015) de Woody Allen com Joaquin Phoenix, Emma Stone, Parker Posey, Ethan Phillips e Jamie Blackley. ☻☻☻

PL►Y: Victoria

Lau e Laia: uma noite de crimes. 

O operador de câmera Sturla Brandth GrØvlen ganhou o Urso de Prata no Festival de Berlim de 2015 por sua contribuição artística no filme alemão Victoria de Sebastian Schipper. O prêmio revela muito sobre o filme que causou polêmica quando foi exibido ao contar a história de uma jovem espanhola (a Victoria do título vivida por Laia Costa, quase uma versão morena de Michelle Williams) que encontra três jovens alemães nas ruas de Berlim e se mete em uma série de situações perigosas. Acho que não vale a pena contar o que acontece durante o filme, afinal, ele depende muito das surpresas que surgem pelo caminho, mas acho que posso revelar que eles terão problemas com traficantes e policiais até o dia amanhecer. Poderia ser um filme sobre juventude transviada como tantos outros, mas o diferencial é que Schipper conta tudo em um único take, um único plano sequência, sem cortes. Em entrevistas o diretor disse que foram três tentativas para realizar o filme, sendo escolhida a que o resultado ficou mais interessante. Ele ressalta que também havia um plano B, onde o filme seguiria uma montagem tradicional, mas ele considerou essa versão muito desinteressante, afinal, tirando o trabalho de câmera premiado existe pouco a oferecer além do conceito escolhido pelo diretor. Para se ter ideia a primeira uma hora de sessão consegue ser bastante irrelevante, apenas tem o objetivo de situar o espectador no encontro dos personagens e na proposta de que não haverá cortes até o fim da sessão (algo que poderia ser explorado em quinze minutos). Nessa primeira hora fica visível como os diálogos e gestos são improvisados (o próprio diretor disse que o roteiro era de apenas dezoito páginas e que contou muito com as ideias dos atores para filmar) e apesar do esforço da dupla formada por Laia e Frederick Lau (que vive Sonne, o único personagem masculino bem construído do filme), os personagens carecem de profundidade (talvez o maior problema seja a própria Victoria que é um um tanto desmiolada de se meter em tanta confusão com um bando de desconhecidos. Tédio com a vida? Cansada da mesmice? Vontade de viver uma aventura? Amor à primeira vista? Nenhuma das opções anteriores?). O excesso de improviso compromete o andamento do filme que resulta irregular em suas mais de duas horas de projeção. Talvez se fosse mais curto e conciso ele funcionasse infinitamente melhor, afinal, se em algumas cenas Schipper consegue expressar a tensão dos personagens, nem sempre a direção dos atores flui como deveria - e não estou reclamando das cenas trêmulas, enquadramentos confusos ou dos diálogos que podem provocar risadas involuntárias (a cena em que Victoria tenta explicar para uma refém que eles são pessoas de bem é de rolar de rir). Victoria é um filme que tenta se sustentar sobre uma única ideia, mas por vezes ela se mostra tão traiçoeira quanto os planos dos personagens para aquela fatídica noite. 

Victoria (Alemanha/2015) de Sebastian Schipper com Laia Costa, Frederick Lau e Franz Rogowski. ☻☻

quinta-feira, 28 de julho de 2016

MOMENTO ROB GORDON: MovieStars Songs

Várias estrelas de cinema inspiraram títulos de músicas, algumas se tornaram sucesso, outras nem tanto, mas poucas de tornaram verdadeiros hits mundiais. Inspirado pelo filme Grace de Mônaco (2014), Rob Gordon lembrou de outras estrelas que fizeram sucesso nas rádios mundo afora:

#5 "Whatever Happened to Corey Haim?" / The Thrills
A banda irlandesa The Thrills fez sucesso com o segundo álbum  (Let's bottle Bohemia/2004) especialmente por conta do single onde eles perguntavam o que aconteceu com o astro juvenil Corey Haim. Corey nasceu em 1971 tornou-se ídolo teen nos anos 1980 (graças a filmes como Os Garotos Perdidos/1987 e Sem Licença para Dirigir/1988 e nos anos 1990 entrou em declínio, falecendo em 2010 por conta de problemas cardio-respiratórios. 

#4 "Bela Lugosi's Dead" / Bauhaus
Lançado em agosto de 1979, o primeiro single da banda inglesa de pós-punk Bauhaus não poderia ser melhor carta de apresentação para a banda. Sombria e cheia de climas, a música celebrava o ator que ficou famoso por viver o Conde Drácula em sua versão mais famosa nos cinemas. A canção virou clipe de abertura do filme Fome de Viver (1983) de Tony Scott e Bela Lugosi ainda rendeu o Oscar de coadjuvante para Martin Landau por vivê-lo em Ed Wood (1994) de Tim Burton.  

#3 "Grace Kelly" / Mika
O libanês Michael Holbrook Penniman Jr., ou simplesmente Mika, ficou famoso ao lançar seu primeiro álbum Life in Cartoon Motion (2007) que tinha como carro chefe a canção com o nome da atriz oscarizada que largou a carreira para assumir o principado de Mônaco. Na verdade, a letra e se refere à tentativa dos estúdios moldarem o estilo colorido do artista para algo mais convencional. A música virou hit por Mika mostrar que estava fora dos padrões masculinos da música pop (e que sabia emitir agudos com grande desenvoltura).

 #2 "Clint Eastwood" / Gorillaz
Criada por Damon Albarn (Blur) e o cartunista Jamie Hewlett em 1998, a banda virtual Gorillaz se tornou febre mundial assim que lançou o seu primeiro CD em 2001. Apesar de ser formada por quatro personagens de animação, a sonoridade da banda já contou com a participação de vários músicos na vida real (até agora 15 instrumentistas já trabalharam com a banda). O primeiro sucesso da bando foi esse que misturava hip hop, música eletrônica, rock e um sample da trilha sonora de "O Bom, O Mau e O Feio" (1966) faroeste estrelado por Clint Eastwood.

#1 Bette Davis Eyes / Kim Carnes
Apesar de composta em 1974 por Donna Weiss e Jackie DeShannon, a música se tornou um hit somente quando foi regravada pela cantora Kim Carnes em 1981. Além da música alcançar o primeiro lugar da Billboard por nove semanas consecutivas, vender milhões no mundo todo, ganhar o Grammy de Canção do Ano e se tornar um dos maiores clássicos dos anos 1980, a própria Bette Davis declarou ser fã da música e agradeceu aos compositores pela homenagem. 

PL►Y: Grace de Mônaco

Nicole: produção cheia de percalços. 

Escolhido para ser o filme de abertura do Festival de Cannes em 2014, Grace de Mônaco foi apedrejado de todos os lados. A crítica detestou o filme, assim como a família real de Mônaco considerou o filme ofensivo à memória da atriz de Hollywood que deixou o estrelato para se dedicar ao reinado ao lado do Príncipe Rainier III. O diretor Olivier Dahan ainda enfrentou inúmeras discussões com os produtores sobre o corte final das produção, o que comprometeu a distribuição mundial do filme - nos EUA ele foi diretamente para a TV, concorrendo a dois prêmios Emmy (filme para TV e penteados) e um Prêmio no Sindicato de Atores para atuação de Nicole Kidman. Talvez o maior problema do filme seja a sua própria pretensão. É verdade que o roteiro mira em alvos demais para acertar em uma hora e quarenta minutos, o que deixa tudo um tanto superficial. Desde o início o filme deixa claro que trata-se de uma ficção inspirada na vida real (e por isso mesmo, entendo as ressalvas da família de Grace à obra) e tenta contar os conflitos que poderiam ter acontecido quando a atriz americana Grace Kelly (vivida por Nicole Kidman) aceitou casar-se com o herdeiro do principado de Mônaco (uma cidade-estado soberana ao sul da França), Rainier III (Tim Roth). A história se passa em meio à tensão quando o governo francês ameaçou a soberania de Mônaco, o segundo menor estado do mundo (com pouco mais de 2Km² de extensão), que se viu em meio a um embargo econômico. Enquanto isso, Grace recebe o convite de Alfred Hitchcock para estrelar um novo filme, Marnie. Esses dois elementos servem para que Dahan insira a bela Grace Kelly em meio à uma conspiração palaciana que carece um pouco de sentido. Dahan não aprofunda muito os dramas da personagem, apelando para as lágrimas constantes de Nicole até que a personagem perceba que ser a princesa de Mônaco seja o verdadeiro papel de sua vida. Com locações lindíssimas (afinal, Mônaco tem a bela vista do mar Mediterrâneo), fotografia impecável e um elenco competente, Grace de Mônaco tem como maior problema o roteiro fraquinho que poderia se contentar em ser apenas um recorte da vida de um verdadeiro ícone, mas nem isso ele tenta ser - basta ver a atuação de Nicole que está bem em cena, mas nem se preocupa em evocar a verdadeira Grace Kelly. Chega a ser irônico que em meio a tantas intenções o filme pareça tão vazio.

Grace de Mônaco (Grace of Monaco / Suíça, França, Bélgica, Itália, EUA - 2014) de Olivier Dahan com Nicole Kidman, Tim Roth, Frank Langella, Parker Posey, Paz Vega e Milo Ventimiglia. ☻☻

KLÁSSIQO: Repulsa ao Sexo

Catherine: a bela esquisita. 

O que faz um filme se tornar clássico? Dentre várias características necessárias, algumas merecem destaque: em primeiro lugar ele precisa transmitir o espírito do seu tempo através do texto e das imagens que apresenta, além disso, ajuda bastante se ele tiver fôlego suficiente para não ser datado, se provando atemporal, capaz de gerar leituras inquietantes para o espectador de qualquer época - mas essa característica fica evidente somente com o passar do tempo.  Dito isso, não resta dúvida de que Repulsa ao Sexo de Roman Polanksi é um clássico (e com "C" maiúsculo). Lançado em 1965 o filme provocou arrepios ao colocar a musa Catherine Deneuve como uma jovem tão linda quanto perturbada. Carole Ledoux (Deneuve) vive com a irmã Hélène (Yvonne Furneaux) num apartamento e trabalha como manicure num salão de beleza conceituado. No entanto, existe algo de estranho no comportamento de Carole. Com o olhar perdido e sempre na defensiva quando o assunto é homem, fica cada vez mais evidente que existe algo de estranho na mente da personagem, algo que está além da antipatia que sente pelo namorado da irmã, o casado  Michael (Ian Hendry) e da resistência aos carinhos e atenção do namorado Colin (John Fraser). Basta sua irmã dizer que irá viajar com o namorado para que o comportamento de Carole torne-se ainda mais esquisito. Ela se torna mais isolada, distante do  mundo que está ao seu redor e agressiva com os homens que aparecerem em sua frente. Polanski faz um trabalho de mestre durante todo o filme, capricha nos enquadramentos (closes, zooms e colocando o espectador no lugar de personagens) e nas cenas que demonstram como a casca de sua protagonista está prestes a ruir (repare quantas rachaduras aparecem em cena), aos poucos o que poderia ser interpretado como serenidade, timidez ou até frigidez revela-se algo muito mais perturbador. As cenas do corredor cheio de mãos e braços é antológica - e expressam com precisão o que se passa na mente de Carole. Ao assumir o posto de alma do filme Catherine Deneuve tem uma atuação perigosa, que poderia ser facilmente vista como inexpressiva a maior parte do tempo, mas que revela o quanto sua personagem era complicada (e para quem gosta de tudo explicadinho, fique atento à cena final que evidencia a foto da família Ledoux). Repulsa ao Sexo foi o primeiro filme em língua inglesa de Roman Polanski e foi a primeira parte de sua conhecida (e assustadora) trilogia do apartamento, ao lado de  O Bebê de Rosemary (1968) e O Inquilino (1976),  servindo de inspiração para vários filmes, entre eles Cisne Negro (2010) de Darren Aronofsky. Ganhador do Urso de Prata no Festival de Berlim, o tempo fez do terror psicológico de Repulsa ao Sexo mais do que um clássico, fez dele uma referência. 

Repulsa ao Sexo (Repulsion / Reino Unido - 1965) de Roman Polanski com Catherine Deneuve, John Frase, Ian Hendry, Yvonne Furneaux e Valerie Taylor. ☻☻☻☻

quarta-feira, 27 de julho de 2016

§8^) Fac Simile: James Franco

James Edward Franco
Nosso repórter imaginário entrou numa livraria em Nova York e encontrou o ator James Franco conversando com alguns amigos. Fac insistiu por algumas perguntas e James aceitou conceder essa entrevista que nunca aconteceu:

§8^) Às vezes tenho a impressão que tem uma lista presa à porta de sua geladeira com tudo o que você quer fazer na vida: ser ator [check], ser um vilão de HQ [check], lecionar numa universidade [check], escrever livros [check], ser indicado ao Oscar [check], apresentar o Oscar [check], dirigir filmes estranhos [check]...

James Ei! Você já foi lá em casa?

§8^) Não. Eu devo ter visto a lista no seu Instagram!

James Ah sim, no meio daquelas fotos idiotas...

§8^) Soube que você está envolvido com 25 produções atualmente, só para 2016 são 17 projetos para cinema e televisão em que você trabalha como ator, diretor, produtor, roteirista... como você consegue?

James Simples: Eu não durmo! Eu trabalho vinte e quatro horas por dia e se tiver que fazer serão eu topo! Já reparou como meus olhos estão inchados? Pois é, eles tentam fechar mas eu os mantenho sempre abertos! 

§8^) Percebo que o público de vez em quando se assusta com alguns de seus trabalhos. Eu mesmo assisti Interior. Leather Bar (2013) e fiquei pensando qual a razão de tudo aquilo...

James Acho que depois que fui indicado ao Oscar por 127 Horas (2010) as pessoas imaginaram que eu faria um monte de filmes sérios para ser indicado outras vezes... não é bem assim! Por que eu deveria fazer uma coisa só diante de toda a variedade de trabalho que aparece? A intenção de Leather Bar era essa mesma, afinal, por qual motivo alguém filmaria as cenas cortadas do roteiro de Parceiros da Noite? Fazer pensar, gostar, odiar nada disso me incomoda, o que me incomoda é ter que fazer exatamente o que as pessoas esperam que eu faça. 

§8^) E Leather Bar aumentou ainda mais as especulações sobre a sua sexualidade...

James As pessoas adoram ficar pensando nisso! Não vejo muita relevância em ficar pensando se um artista é hétero, gay, bi... mas o público acha a maior graça! Deve satisfazer alguma fantasia íntima, sei lá! Eu já fiz muitos personagens gays, mas interpretei muito mais héteros em minha carreira. Eu já fiz o Mágico de Oz e nem por causa disso eu sei fazer mágicas! Eu interpretei uma torrada em A Festa da Salsicha (2016) e não sou uma torrada! Eu também fui a Raposa de O Pequeno Príncipe (2015) e nem por causa disso eu sou uma raposa... embora haja controvérsias quanto a isso...

§8^) Você também interpretou a si mesmo em É o Fim...

James Exatamente... e nem por causa disso eu sou o James Franco!

PL►Y: Traumas de Infância

Harris e Franco: mudança de perspectiva. 

Em seu segundo longa metragem a diretora Pamela Romanowsky confirma ter muita afinidade com o ator James Franco, afinal, mais uma vez, os dois demonstram o seu fascínio por escritores. Os dois trabalharam juntos anteriormente na estreia da cineasta (o pouco visto The Collor of Time/2012) que contava a vida do ganhador do Pulitzer CK Williams. Franco já havia demonstrado que consegue dar vida à densidade de escritores renomados em Uivo (2010), onde encarnava o polêmico Allen Ginsberg. Infelizmente, Traumas de Infância promete mais do que cumpre ao levar para as telas a obra mais reveladora de Stephen Elliot, autor americano que ficou famoso por destrinchar suas lembranças infanto-juvenis em livros, especialmente no que diz respeito ao relacionamento tempestuoso com o pai. Embora tenha cenas fortes, o título resulta apenas apelativo já que não existe uma abordagem dos traumas de Elliot, apenas o seu confronto com o passado - encarnado pelo pai. Elliot (vivido por James Franco) já gozava de algum sucesso quando o pai (interpretado por Ed Harris) surgiu e desmentiu várias informações que constava nos livros do filho, inclusive que ele, o pai, estava morto. A repercussão de que Elliot exagerava em seus livros para aumentar a dramaticidade de sua obra caiu feito uma bomba na carreira do rapaz, ao ponto de prejudicar seu livro seguinte - que deveria acompanhar Hans Reiser um homem acusado de matar a esposa. Ainda que seja interpretado por Christian Slater, a história de Hans não recebe muita atenção na história, servindo apenas para que Stephen perceba algumas de suas obsessões com relação à sua história de vida. Fica evidente o que atraiu Franco para o papel, já que Stephen curte sadomasoquismo, medicação pesada e ainda lidava com as marcas de uma adolescência complicada, pena que o roteiro nunca aprofunda os aspectos mais sombrios da personalidade do escritor. O tom sombrio fica por conta das cenas escuras e um certo desleixo nos cenários e figurinos. Quando os personagens começam a revelar que existe algo de estranho na própria personalidade de Elliot, o filme fica mais interessante - especialmente por conta de Ed Harris que encarna um pai apresentado como abusivo, mas que apresenta uma inesperada dimensão humana. Quando Elliot aprende que suas lembranças são apenas partes de uma realidade - que pode até surpreender quando vista de outra perspectiva - The Aderall Diaries mostra o motivo de merecer atenção, afinal, instiga a mudança do olhar de um narrador sobre si mesmo. Curiosamente o filme lembra em vários aspectos outro lançamento de James Franco no ano passado, o drama A História Verdadeira de Rupert Goold. 

Traumas de Infância (The Adderall Diaries/EUA-2015) de Pamela Romanowsy com James Franco, Ed Harris, Christian Slater, Amber Heard, Cynthia Nixon e Jim Parrack. ☻☻☻

domingo, 24 de julho de 2016

Na Tela: Dois Caras Legais

Crowe, Ryan e Rice: humor afiado em brincadeira noir. 

O diretor Shane Black é um gaiato - e não há nada de pejorativo nisso. Afinal, pense num rapaz de vinte e seis anos que começa a carreira como roteirista em Hollywood com o texto de Máquina Mortífera (1987)? Máquina Mortífera definiu novos parâmetros no filme policial ao investir pesado em ação e piadas na mesma medida, mas sem perder de vista a relação de dois sujeitos completamente diferentes (e que acabam se tornando amigos). Filmes de ação engraçadinhos se tornaram a especialidade de Shane, embora nem sempre ele conseguisse render o sucesso de sua estreia (O Último Grande Herói/1993 que o diga). Depois de alguns fracassos, Black resolveu provar que ninguém melhor do que ele mesmo para dar conta de levar seus roteiros para o cinema. Foi assim que ele colocou  a carreira nos eixos com o elogiado Beijos e Tiros (2005), fazendo amizade com outro gaiato Hollywoodiano, Robert Downey Jr. - que depois o convidou para dar fôlego a Homem de Ferro 3 (2013). Depois do sucesso no universo Marvel, Black convenceu Russell Crowe e Ryan Gosling que os dois seriam capazes de dar liga à sua nova dupla cinematográfica. Nos anos 1970, Crowe vive o truculento detetive Jackson Healy, que cruza o caminho do desastrado Holland March (Gosling) meio que por acaso. Os dois acabam contratados para trabalhar juntos e encontrar Amelia (Margareth Qualley), jovem que parece envolvida numa série de assassinatos relacionados à uma estrela pornô, Misty Mountains (Murielle Telio). A investigação segue rumos cada vez mais inusitados e investe no contraste entre Healy e March, gerando vários diálogos bem construídos e momentos divertidos - além de uma reconstituição de época mais que eficiente com tons berrantes e luzes coloridas. Um pançudo Russell Crowe convence sem esforço, assim como Ryan Gosling (que está hilariante com os seus gritos agudos e movimentos desconjuntados, aqui ele comprova que está cada vez mais a vontade atuando em comédias). A dupla ainda recebe o auxílio inusitado da filha de March, Holly (a promissora Angourie Rice) que funciona como a mocinha (de 13 anos!!) que ajuda os detetives em suas (des)venturas. Shane Black constrói um esfuziante pastiche dos filmes noir, contando ainda com a colaboração de Kim Basinger (que esteve ao lado de Crowe no último grande clássico do gênero Los Angeles - Cidade Proibida/1997) e Matt Bomer (na versão psicótica de John Boy da Família Dó Ré Mi). Com cenas de ação elaboradas, beldades perigosas, diálogos divertidos e uma dupla cheia de química, Shane Black prova que ainda sabe das coisas - e encontra nos coloridos anos 1970 um terreno bastante fértil para sua imaginação.

Dois Caras Legais (The Nice Guys/EUA-2016) de Shane Black com Russell Crowe, Ryan Gosling, Angourie Rice, Kim Basinger, Matt Bomer, Margareth Qualley, Matt Bomer e Yaya DaCosta. ☻☻☻☻

NªTV: Wayward Pines 2ª Temporada / Outcast

Wayward Pines: novos atores e novo fôlego. 

Ao final do século XX as comédias dominavam as séries televisivas, depois seguiram as séries hospitalares, as investigativas e atualmente as tramas de mistério ganham mais espaço nas emissoras . A FOX percebeu a demanda por tramas de suspense e investe cada vez mais no gênero, tanto que voltou atrás e bancou a segunda temporada de Wayward Pines, produzida por M. Night Shyamalan e comprou os direitos de exibição da adaptação da HQ Outcast (originalmente do Cinemax) para a exibição no Brasil.  As duas estão chegando ao final de suas respectivas temporadas e a audiência não tem do que reclamar, se Outcast tinha como maior desafio manter o tom macabro de seu primeiro episódio, o de Wayward Pines era ajustar alguns deslizes de sua primeira temporada e aumentar o número de fãs. Sem a necessidade de alimentar seus maiores segredos na nova temporada, Wayward Pines teve uma narrativa mais fluente, menos confusa e mais dramática que o ano anterior. Mesmo com um elenco renovado, a série soube lidar com bastante elegância na transição de um grupo para o outro (e não é todo dia que podemos contar com participações especiais de luxo de Melissa Leo, Toby Jones e Hope Davis). Se na primeira temporada o agente Matt Dillon teve a tarefa complicada de desvendar o que havia de mais estranho na cidade misteriosa, o médico vivido por Jason Patric recebeu a tarefa de estranhar uma cidade comandada por adolescentes e cercada por aberrações. O choque inicial diante da situação em que se encontrava existiu, mas foi tratada de forma mais concisa, evidenciando que os roteiristas não queriam repetir o foco do ano anterior. A trama com Jason (Tom Stevens) comandando a cidade em meio às suas próprias inseguranças soube abordar algumas questões bastante contemporâneas como a adesão ao pensamento autocrático e a intolerância, além da prepotência que o tornou incapaz de perceber a realidade que estava a um palmo de seu nariz. Com mistérios e dramas que apareciam naturalmente no andar da trama, Wayward Pines merece uma nova temporada, mas se terminar por aqui, obteve um desfecho digno e conseguindo uma rara segunda temporada que supera a primeira. Já  a novata Outcast precisa tomar cuidado para não ficar repetitiva com a história de um jovem perseguido por demônios. O episódio de estreia foi bastante promissor, sobretudo pela ótima atuação de Patrick Fugit (que já foi o jovem jornalista de Quase Famosos/2000), que é assombrado por espíritos do mal - que prejudicaram sua vida familiar com a mãe e com a esposa. Fugit está perfeito como Kyle Barnes, o homem com a vida arruinada, mas que tenta superar o passado e colocar a vida nos eixos, mesmo que seja trabalhando como auxiliar de um exorcista da região (Phillip Glenister). Criado por Robert Kirkman (o mesmo de Walking Dead) para os quadrinhos e adaptado para a TV, a série tem atmosfera bem construída, mas precisa tomar cuidado para não errar a mão nas cenas de violência e atrocidades, que podem tirar o foco do protagonista e tornar-se apenas um show de horrores - essa busca pelo equilíbrio de seus elementos esteve presente em todos os episódios, alcançando um resultado coerente sobre as descobertas que Kyle faz sobre si mesmo ao longo da temporada de estreia. Outcast já possui uma segunda temporada confirmada para o ano que vem e comprova que as histórias de horror e suspense ainda terão sucesso por mais algum tempo. 

Outcast: atuação perfeita de Patrick Fugit. 

Wayward Pines - 2ª Temporada (EUA-2016) de Chad Hodge com Jason Patric, Niomrat Kaur, Tom Stevens, Kacey Rohl, Hope Davis, Toby Jones, Josh Helman e Djimon Hounsou.  ☻☻☻☻

Outcast (EUA-2016) de Robert Kirman com Patrick Fugit, Phillip Glenister, David Denman e Wrenn Schmidt ☻☻☻