segunda-feira, 22 de maio de 2017

Na Tela: Trainspotting2

Spud, Renton, SickBoy e Begbie: acertando das contas 20 anos depois. 

Fazia tempo que o diretor Danny Boyle havia comentado sobre o interesse que filmar uma continuação de seu segundo filme, Trainspotting (1996). A saga junkie filmada a partir da obra de Irwine Welsh se tornou um divisor de águas para carreira de Boyle e de seu astro, Ewan McGregor. Ambos foram para Hollywood e Boyle já ganhou até um Oscar de direção (por Quem Quer Ser Um Milionário/2008 que também recebeu a estatueta de melhor filme). No entanto, a filmagem de Trainspotting2 parecia ter virado um desses projetos que nunca saem do papel. Em algumas entrevistas os envolvidos diziam que ainda não era o momento certo de realizar o filme. Boyle pareceu ter retomado a ideia em 2002 quando foi lançada a continuação literária da trama (Pornô também de Irwine Welsh) que revisitava os personagens dez anos depois - desde então o roteiro parece ter sido lapidado. O tempo foi passando e o roteiro ganhando forma... e acrescentou mais uma década até que os personagens se encontrassem. O ruim é que, por melhor que seja, Trainspotting2 já nasce à sombra de um dos filmes que redefiniram a linguagem cinematográfica dos anos 1990. A edição nervosa, a trilha sonora saborosa e os delírios visuais influenciaram centenas de filmes e retomar a história duas décadas depois corria o risco de estragar aquele momento preciso em que deixamos os amigos de Mark Renton (McGregor) depois que ele os trai em nome do vil metal. Agora, Mark volta para visitar os amigos e precisa lidar com a fúria de Simon/Sick Boy (Johnny Lee Miller), o desejo assassino de Francis/Begbie (Robert Carlyle) e o fundo do poço de David/Spud (Ewen Bremner) - o único que recebeu algum dinheiro de Renton (e torrou tudo em drogas). O tempo passou e há um inevitável tom amargo nos personagens, eles estão mais velhos e parecem ainda mais cansados da sarjeta. Begbie sofre com a distância da família que não aguentava mais seu vício. Begbie está com sede de sangue após passar uma temporada na cadeia - e um dos seus desejos é acertar as contas com Renton definitivamente. Enquanto isso, Simon vive de aplicar golpes, filmando figurões em cenas comprometedoras com a namorada, Veronika (Anjela Nedyalkova) para chantagea-los depois. Sorte que não apenas Renton queria rever os únicos amigos que teve na vida (mesmo com todos os ressentimentos que poderiam ter), mas Danny Boyle também queria reencontrar este universo - e o faz com doses de maturidade e saudosismo. Embora ainda traga o humor negro do primeiro filme, T2 é mais melancólico e Boyle sublima essa sensação ao evocar cenas antológicas do seu clássico dos anos 1990 (da corrida na abertura, passando pela trilha sonora, a cena do banheiro, o discurso de outrora reformulado...) e, não satisfeito, reconta a amizade dos rapazes até o início, quando eram apenas um grupo de crianças escocesas. O roteiro de John Hodge (que concorreu ao Oscar pelo primeiro filme e fez outros quatro textos para longas de Boyle) faz o possível para dar conta de personagens que fazem parte da mitologia do filme (retoma Diane de Kelly MacDonald e até o finado Tommy de Kevin McKidd) e cria uma estrutura que solidifica ainda mais os laços entre os personagens, ainda que isso comprometa um pouco o ritmo da narrativa nervosa desejada por Boyle. Trainspotting2  não fez o sucesso esperado de bilheteria, embora funcione como um reencontro de amigos amargurados que não se veem há muito tempo (e daqui uns 20 anos poderia ter outro).

Trainspotting 2 (T2 Trainspotting / Reino Unido - 2017) de Danny Boyle com Ewan McGregor, Ewen Bremner, Johnny Lee Miller, Robert Carlyle, Anjela Nedyalkova, Scot Grenan e Kelly MacDonald. ☻☻☻☻

PL►Y: A Criada

O triângulo : nada é o que parece. 

O sul coreano Park Chan-Wook ficou famoso mundialmente por conta do sucesso de Oldboy (2003), o episódio do meio de sua trilogia da vingança. Aclamado em Cannes e com sucesso ao redor do mundo, Chan-Wook fez um filme de vingança impressionar pela energia e estilo. Definitivamente não é qualquer diretor que alcançaria o mesmo - e se paira dúvida, basta ver a horrorosa refilmagem americana feita por Spike Lee dez anos depois. Ironicamente, foi em 2013 que o diretor filmou sua primeira obra em Hollywood (Segredos de Sangue com Nicole Kidman) mantendo a violência estilizada e  os personagens de sentimentos tão ocultos quanto latentes. O diretor ficou três anos sem lançar um longa de ficção e entregou A Criada no Festival de Cannes no ano passado. O filme fez sucesso perante a crítica, especialmente por ter se revelado uma versão habilidosa do romance Fingersmith de Sarah Waters (que virou minissérie da BBC em 2005). O filme transporta a trama dos arredores de Londres para a Coréia dos anos 1930. No período da ocupação japonesa no território coreano conhecemos Sook-Hee (Tae-ri Kim), uma jovem que trabalha no estranho comércio de bebês para famílias japonesas. Esses dias de trabalho inglório ficam para trás quando ela é escolhida para cuidar da sobrinha do Sr. Kouzuki (Jin-Woong Jo), um japonês com muito dinheiro na cidade (e a residência de Kouzuki é um verdadeiro achado entre as referência pelas quais o filme transita). A sobrinha de Kouzuki se chama Hideko (Min-Hee Kim) e vive isolada esperando o dia em que se casará com o tio - e transferir para ele toda a fortuna que herdou dos pais. Traumatizada pela morte da tia (que se enforcou pendurada numa cerejeira que assombra a janela de seu quarto), a moça mostra-se melancólica perante as inseguranças de seu futuro. Não demora para que o laço entre Hideko e Sook-Hee se intensifique cada vez mais, porém, a presença do Conde Fujiwara (Jung-Woo Ha) sempre nos lembra que nem tudo é o que parece.  Park Chan-Wook divide sua história em três partes e, na transição para cada uma delas, mantem a respiração da plateia suspensa depois de fazê-lo pensar que sabia exatamente o que iria acontecer. Ledo engano. Se no início o filme parece que será um romance de época convencional (com bela fotografia, figurinos irretocáveis, direção de arte impressionante...) o diretor revela, aos poucos, o que o universo em torno de Sr. Kouzuki tem de mais sórdido - e contrasta isso com cenas tórridas entre suas atrizes. Se o diretor consegue arrancar o melhor do seu elenco, vale ressaltar os desempenhos de Tae-ri Kim que é um verdadeiro achado de talento e carisma, além de  Jung-Woo Ha na pele do conde sedutor - que ajuda a formar um triângulo amoroso imprevisível. Em alguns momentos, Chan-Wook sucumbe a alguns exageros (quase cômicos), mas o espetáculo narrativo-visual que constrói é tão abrasivo que você nem se importa com os deslizes deste filme cheio de surpresas e erotismo. 

A Criada (Ah-ga-ssi/Coréia do Sul - 2016) de Park Chan-Wook com Tae-ri Kim, Jung-Woo Ha, Min-Hee Kim e Jin-Woong Jo ☻☻☻☻ 

sábado, 20 de maio de 2017

Na Tela: Corra!

Alison e Daniel: do amor ao terror. 

Antes de estrear, sempre que lia a sinopse ou via as fotos promocionais de Get Out! eu pensava que seria mais um filme sobre o dia da visita no namorado negro à casa da família branca da namorada. Depois que o filme estreou nos Estados Unidos ele se tornou um sucesso surpreendente de público e crítica pro ser um criativo filme de... TERROR?!!! Corra! funciona melhor se você for ao cinema imaginando que é apenas mais um filme sobre o que citei acima, mas é algo que pretende ser mais elaborado. O diretor Jordan Peele já surpreende na cena inicial, com o tom sombrio e a trilha sonora estranha que embala os primeiros momentos antes de conhecermos o casal Chris (Daniel Kaluuya) e Rose (Alison Williams). Os dois estão prestes a viajar para a casa dos pais dela e ele está preocupado por ela não ter contado para a família que namora um rapaz negro. Sorridente e meiga, Rose convence Chris de que não haverá problema algum durante a visita, já que seus pais não são racistas. Chegando lá, o casal Dean (Bradley Whitford) e Missy (Catherine Keener) parecem além da perfeição. Simpáticos, sorridentes e muito receptivos eles só não conseguem evitar o estranhamento de que todos os empregados da casa serem negros e parecem agir feito uma espécie de transe. Este é apenas o primeiro ponto que aflige Chris, que aos poucos irá ouvir comentários estranhos de alguns convidados (afinal, aquele é o fim de semana de uma festa tradicional da família e... Rose nem se lembrava) e o tom sempre incômodo do cunhado inconveniente, Jeremy (Caleb Landry Jones). Aos poucos, Chris irá desconfiar que os Armitage formam uma família muito estranha - e que é melhor ele se mandar dali antes que algo pior aconteça. Só que... Jordan Peele faz um filme que parece ser um capítulo do seriado Além da Imaginação, só que se torna melhor pelo que existe de simbólico no horror que apresenta. A trama em si não se preocupa com muitas explicações e deixa muita coisa nas entrelinhas para o espectador descobrir sozinho (embora a presença de Keener de Quero Ser John Malkovich/1999 não soe por acaso quando o segredo da família é revelado). O destaque fica mesmo com a habilidade com que Peele cria guinadas narrativas de forma bastante envolvente, oscilando entre o terror, o romance, o suspense, o surreal e até, a comédia. Podem dizer que sou mal humorado (e sou mesmo), mas as partes cômicas (sobretudo as relacionadas com o personagem de LilRel Howery, que chega a falar sozinho em uma cena sofrível) são as que eu menos aprecio no filme - eu teria cortado todas elas. Sorte que com exceção de Howery todo mundo acerta o tom na empreitada, sobretudo Daniel Kaluuya (que já fizera bonito como o agente amigo de Emily Blunt em Sicario/2015, onde parecia ser bem mais velho do que aqui e ele também estará no aguardado Pantera Negra no ano que vem) e Alison Williams que (embora magra feito um espeto) deve ter vida depois da Marnie no finado seriado Girls da HBO.

Corra! (Get Out!/EUA-2017) de Jordan Peele com Daniel Kaluuya, Alison Williams, Bradley Whitford, Catherine Keener, Caleb Landry Jones e Marcus Henderson. ☻☻☻☻

PL►Y: Little Boxes

Os Burns: preconceitos aqui e ali. 

Depois do controverso "Oscar So White" do ano passado, vários filmes envolvendo temáticas raciais foram produzidos nos Estados Unidos. Alguns se tornaram sucesso de bilheteria (Estrelas Além do Tempo/2016), outros ganharam prêmios importantes (Moonlight/2016, Um Limite Entre Nós/2016, O Nascimento de Uma Nação/2016), alguns fracassaram nas bilheterias (Um Estado de Liberdade/2016 , Loving/2016) e outros queriam apenas contar uma história. O indie Little Boxes é despretensioso demais para ser lembrado no Oscar ou fazer bilheterias milionárias, mas toca em algumas questões de forma que parece ser "quase sem querer". A trama gira em torno de uma família formada por uma professora universitária de artes, Gina (Melanie Linskey), um escritor Mack Burns (Nelsan Ellis) e o filho adolescente Clark (Armani Jackson). Todos se mudam de Nova York para uma pequena cidade de Washington. Deixando a diversidade de Big Apple para trás, o casal se vê numa vizinhança majoritariamente branca que os fará lembrar o tempo todo de que formam uma família inter-racial. O roteiro de Annie Howell opta por avançar a trama a partir de pequenos conflitos que surgem na vida do trio. Primeiramente com as caixas da mudança que demoram para chegar (as "pequenas caixas" do título), depois com os olhares surpresos quando alguém percebe que o esposo de Gina é negro. A seguir temos os comentários aparentemente "inofensivos" e o olhar curioso das nova amigas de Clark  que consideram interessante ter um amigo negro para exibir para os outros. Ainda que os conflitos estejam todos ali e apareçam encadeados um ao outro, o diretor Rob Meyer opta por manter o tom discreto da narrativa, sem exageros, histeria ou gritaria, ele faz uma comédia de costumes que funciona alfinetando a temática racista com a mesma naturalidade que elas aparecem nas ações mais comuns do cotidiano. Se por um lado Nelsan Ellis imprime um olhar blasé ao seu personagem, Melanie Linskey prefere assumir sua esposa/mãe imperfeita, que também tem lá os seus preconceitos (afinal, como ela poderia deixar o filho namorar com uma menina sem perspectiva de futuro?). Ainda que seja agradável de assistir, Little Boxes poderia aprofundar algumas situações que são abordadas superficialmente (como o incidente de Clark  no quarto com a amiga, a relação de Gina com as colegas de trabalho ou a visita do primo distante), no entanto, pela forma como o filme termina, podemos imaginar que a família continuará presa àquelas situações por um bom tempo - graças às pequenas caixas mentais etiquetadas em que o ser humano costuma guardar suas referências pessoais sobre o mundo em que vive. 

Little Boxes (EUA-2016) de Rob Meyer com Melanie Linskey, Nelsan Ellis, Armani Jackson, Oona Lawrence, Christine Taylor e Janeane Garofalo. ☻☻ ☻

sexta-feira, 19 de maio de 2017

4EVER: Kid Vinil

10 de março de 1995 ✰ 19 de maio de 2017

Antonio Carlo Cenofante nasceu em São Paulo e ficou conhecido como Kid Vinil nos ano 1980. Kid tocou em várias bandas, a mais conhecida delas foi a Magazine - responsável por canções de sucesso como "Tic tic Nervoso", "A Gata Comeu" e "Sou Boy". O cantor também foi um dos maiores incentivadores do movimento punk paulista e além de cantor e compositor, Vinil ficou conhecido como radialista, jornalista e apresentador de televisão - especialmente por seu trabalho no programa Lado B da MTV, em que apresentava artistas underground do Brasil e do exterior. Kid Vinil estava em coma desde abril, após passar mal durante um show em Minas Gerais e faleceu após uma parada cardíaca. 

quarta-feira, 17 de maio de 2017

FESTIVAL DE CANNES 2017

Festival de Cannes 2017: ainda o mais influente do mundo. 

O Festival de Cannes deste ano antes mesmo de começar já precisava lidar com o fato de ter escolhido dois filmes produzidos pela Netflix em sua lista de concorrentes à Palma de Ouro. Okja e The Meyorowitz Stories levantaram debates antes mesmo de serem exibidos. Toda a polêmica vem da ideia de que é um sacrilégio que um filme que ganhe o prêmio do festival de cinema mais influente do mundo não seja exibido em uma telona. Polêmicas à parte, só penso no bando de produtores procurados pelos respectivos cineastas e toda sorte (ou azar) de coisas que os autores ouviram antes de ser rejeitados sistematicamente. Se querem reclamar, deveriam reclamar com estes produtores de cinema que não acreditaram nos projetos que estão num renomado festival - não com a Netflix que bancou os dois filmes dando total liberdade criativa, respectivamente  a Bongo Joon- Ho e Noah Baumbach. Enfim, além destes, Cannes ainda tem muito mais: os aguardados filmes de Sofia Coppola, Lynne Hamsey, Yorgos Lanthimos, Todd Haynes, do sempre premiado Michael Haneke e de  Michel Hazanavicius, doido para ressuscitar a carreira. No dia 28 de maio serão divulgados os escolhidos pelo júri presidido por Pedro Almodóvar - e que ainda conta com Jessica Chastain e Will Smith. A seguir os concorrentes ao prêmio 

"Loveless" de Andrey Zvyagintsev
 "Good Time" de Benny Safdie e Josh Safdie
 "You were never really Here" de Lynne Ramsay
"L'Amant double" de François Ozon
 "Jupiter's Moon" de Kornél Mandruczo
 "A gentle creature" de Sergei Loznitsa
 "The Killing of a sacred deer" de Yorgos Lanthimos
 "Radiance" de Naomi Kawase
 "Le jour d'après" de Hong Sangsoo
 "Le Redoutable" de Michel Hazanavicius
 "Wonderstruck" de Todd Haynes
 "Happy end" de Michael Haneke
 "Rodin" de Jacques Doillon
 "O estranho que nós amamos" de Sofia Coppola
 "120 battements par minute" de Robin Campillo
 "Okja" de Bong Joon-Ho
 "In the Fade" de Fatih Akin
"The Meyerowitz stories" de Noah Baumbach

Okja e Meyerowitz da Netflix: polêmicas antes do Festival. 

4EVER: Chris Cornell

20 de julho de 1964 ✰ 17 de maio de 2017

Nascido na cidade de Seattle, Christopher John Boyle, mais conhecido como Chris Cornell, fez parte do movimento musical que colocou a chuvosa cidade novamente no mapa sonoro mundial. Com a banda Soundgarden, ele dividiu os holofotes com Nirvana, Alice in Chains e Pearl Jam no etilo que ficou conhecido como grunge e pregava oposição ao rock comercial dos anos 1990. A voz peculiar de Cornell ajudou o Soundgarden a tornar o sombrio álbum Superunknown um dos melhores álbuns de rock de todos os tempos com os hits Black Hole Sun, The Day I Tried do Live e Feel on Black Days. No século XXI, Chris ficou famoso pelos vocais de outra banda, a Audioslave, mas com o término desta em 2007 o cantor prosseguiu em carreira solo. Para quem não lembra, o cantor foi responsável pela canção "You Know my Name" tema do filme 007 - Cassino Royale (2007) que marcou a estreia de Daniel Craig na pele de James Bond. Cornell fazia tratamento contra ansiedade e realizava uma turnê pelos Estados Unidos até ser encontrado morto em um hotel sob suspeita de suicídio. 

terça-feira, 16 de maio de 2017

Na Tela: Alien - Covenant

Catherine e Michael: a síndrome do filme do meio. 

Não sei quanto a vocês mas li umas trocentas críticas negativas a Alien - Covenant - e em todas a principal reclamação era que o filme estava longe de trazer a velha forma da série Alien. Para estes, o resultado é ainda mais frustrante que Prometheus (2012), o filme que marcou o retorno do diretor Ridley Scott para o universo que ele criou em 1979 com toda a mitologia do extraterrestre com sangue ácido e a eterna pendenga com a vigorosa Tenente Ripley (Sigourney Weaver). Eu entendo todas as reclamações, mas vou tentar ser bem prático: Ridley Scott não está interessando em reproduzir aquela atmosfera, ele pretende ampliar aquela história e lhe dar um ângulo ainda mais sombrio ancorado num personagem fascinante: o andróide David. Quem viu Prometheus já percebeu que David está longe de ser confiável, ele está mais interessado em criar seus próprios experimentos e superar seu próprio deus - no caso o cientista e empresário vivido por Guy Pearce. Não bastasse a Inteligência Artificial de David inspirar medo, o personagem ainda conta com uma atuação avassaladora de Michael Fassbender, que camufla toda a frieza do personagem com uma serenidade perturbadora. Se Fassbender já eleva o interesse pelo filme, imagina quando podemos ter dois Fassbenders diante da câmera - afinal, ele também interpreta Walter, o andróide responsável por ajudar a tripulação da nave colonizadora Covenant. A Covenant tem como destino um planeta que será o destino de dois mil humanos em hibernação e milhares de embriões, além de uma tripulação formada por vários casais que acordam após um acidente.  Entre a tripulação os destaques seriam Oram (Billy Crudup) - que assume o posto de capitão após a morte do anterior - e Daniels (Catherine Waterston), a viúva do falecido. Os outros personagens não recebem muita atenção no roteiro, que, aliás é o maior problema do filme. Ambientado dez anos depois dos acontecimentos de Prometheus, Covenant dá seguimento aos fatos daquele filme, explicando o que aconteceu com os personagens que sobreviveram à busca por respostas sobre a origem da humanidade e se deparavam com o monstrengo do título (vale a pena ver o prólogo que faz a ponte entre as duas produções para entender melhor a ideia). Pena que o roteiro tem aquele estranho sabor de filme do meio - ou seja, não tem as novidades do primeiro e não revela tudo o que deveria, guardando o ápice que se espera para o terceiro - mas a receita piora quando a maioria dos diálogos são sofríveis e não desenvolvem seus personagens como deveria - mesmo a religiosidade de Oram é caricata e Daniels padece da missão de se tornar a nova Tenente Ripley (mesmo sem ter convicção para tanto). Evite o engano de que o núcleo da história é a criação do monstro, o que mais interessa a Scott é enriquecer a figura de David em sua sociopatia-cibernética. Aqui as intenções sugeridas no longa anterior se tornam explícitas e ampliadas por Fassbender - que ainda dá conta do "melhorado" Walter com as mesmas limitações de expressividade que o papel exige (Walter é uma figura tão importante que também rendeu outro filminho antes do lançamento do longa). Covenant parece uma versão espacial de A Ilha do Doutor Moreau com direito a furos (mesmo descontando o estresse da tripulação, ela é de uma incompetência gigantesca durante a missão - ao ponto de não conhecer sequer os atributos do andróide que tem a bordo e fazer tudo errado o tempo todo). Existem alguns sustos, devaneios sobre o divino e o profano, mas o que importa é que ao final fica claro quem é o centro desta nova trilogia elaborada por Scott. Enfim, o personagem e o ator certo ele já tem, mas faltou um roteiro capaz de extrair o que a sua ideia tem de melhor.

Alien - Covenant (EUA-2017) de Ridley Scott com Michael Fassbender, Catherine Waterston, Billy Crudup, Jim McBride, Guy Pearce, Noomi Rapace e James Franco. ☻☻ ☻

§8^) Fac Simile: Groot

Groot Timber Wood
Nosso repórter imaginário conseguiu uma verdadeira façanha na última semana: marcou uma entrevista com o astro mais recluso de Guardiões da Galáxia: Groot Timber Wood! Muito simpático, o conhecido ator de 35 anos respondeu a cinco perguntas nesta entrevista que nunca aconteceu - no conforto de sua casa em Los Angeles (onde ainda conhecemos sua esposa, Natalie):

§8^) Afinal de contas, quem é você?

Groot Eu sou Groot! Sei que parece estranho, mas meu pai era fã das HQs dos Guardiões desde a década de 1960 e ao ver um personagem de nossa espécie ele se sentiu verdadeiramente homenageado. Então ele me deu o nome do seu herói favorito! 

§8^) Você enfrentou muitos preconceitos quando resolveu ser ator?

Groot Muito! A começar pela minha família, todos foram Guardas Florestais, devido a nossa aparência podemos vigiar sem ser percebidos e isso é uma grande vantagem! Mas eu queria fazer algo diferente! Em Hollywood faço figuração desde a década de 1990, quando era apenas um adolescente! Aparecei até em filmes que ganharam Oscars como Forrest Gump/1994, Além da Linha Vermelha/1998 e Gladiador/2000, sempre fazendo figuração como árvore. Meu primeiro papel importante veio em O Senhor dos Anéis - As Duas Torres (2002) onde interpretei todas as árvores humanoides do filme! Foi um grande desafio, mas pude mostrar toda minha versatilidade.

§8^) É como é viver o Groot no cinema?

Groot É outro grande desafio! Já que repito sempre a mesma fala com entonações diferentes e preciso ser muito expressivo fisicamente! Acho que consigo realizar um bom trabalho e me tornei realmente popular! Só fiquei frustrado quando não fui indicado ao Oscar de melhor ator coadjuvante pelo primeiros Guardiões da Galáxia. Ainda tive que ouvir meu pai dizendo "uma árvore nunca será indicada ao Oscar"! Como assim? Até Mark Wahlberg já foi indicado uma vez!

§8^) Agora no Guardiões da Galáxia - Vol. 2 você aparece em uma versão em miniatura, foi difícil fazer o Baby Groot?

Groot Foi interessante criar uma nova realidade para um personagem já conhecido. Tive que realmente voltar à minha infância! O resto é todo de efeitos especiais que utilizaram para me deixar menor. É um excelente trabalho de computação gráfica, mas o que fizeram com o meu rosto é pura maquiagem! As pessoas acham que eu não utilizo este recurso, mas na maioria dos meus trabalhos utilizo muita caracterização! O mais curioso é que no meu filme anterior, Sete minutos Depois da Meia Noite (2016) eu vivi uma árvore gigante e neste eu sou, praticamente, um brotinho!

§8^) Nossa! Era você em Sete Minutos Depois da Meia-Noite?! Eu adorei sua atuação!

Groot Muito obrigado! Foi um belo trabalho! Muito intenso e emocional. Além disso o Lewis (MacDougall, o menino protagonista do filme) é um prodígio muito talentoso! 

§8^) Você também é um ótimo ator, mas houve algum papel que você não conseguiu e ficou frustrado?

Groot Vários! Eu já tentei fazer personagens comuns, mas nunca sou o tipo certo! Fiz teste para 007 e até para um político cara de pau em House of Cards, mas sempre perco esses papéis! Fiz até teste para La La Land (2016), me elogiaram, disseram que eu cantava e dançava melhor do que os outros candidatos mas não era o tipo que eles procuravam! Mas ainda acho que o mais frustrante foi quando cortaram todas as minhas falas de Fonte da Vida (2006), onde eu faço a Árvore amiga do Hugh Jackman! Eu também era protagonista de A Árvore da Vida (2011) de Terrence Mallick e cortaram todas as minhas cenas!! Dá para acreditar? Fiz até terapia por causa disso!