quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Na Tela: Simonal

Ísis e Fabrício: casal Simonal. 

Pode se dizer que Wilson Simonal foi um dos grandes nomes da música brasileira, até que, por conta de alguns tropeços num período conturbado em nosso país, ele foi boicotado pelo público e pela mídia. Esta parte mais sombria da história do cantor ficou mais conhecida com o documentário Wilson Simonal - Ninguém Sabe o Duro que eu Dei (2007) e doze anos depois, a mesma história chega ao cinema em versão dramatizada com atuação inspirada de Fabrício Boliveira na pele do artista. Ainda que os dois sejam bastante diferentes fisicamente, Fabrício tem o bom senso de fazer mais do que imitar o cantor, ele incorpora a alma de Wilson. Seu charme malandro, sua ginga, os trejeitos e uma certa inquietação diante de um mundo que não estava preparado para ter uma estrela de seu quilate com a pele negra -  o que o filme não deixa de registrar, ainda de forma leve, que era bastante incômodo. Dirigido por Leonardo Domingues (montador de documentários como A Pessoa é Para o que Nasce/2004) o filme tem um tratamento narrativo bastante envolvente e um grande cuidado com o ritmo (algo que se tornou incomum com as pretensões intelectuais de diretores que consideram que um filme para ser sério tem que ser arrastado e com roteiro preguiçoso). Não satisfeito com o corte a costura de sua obra, Leo ainda brinda a plateia com dois planos sequência que devem estar entre os melhores do cinema brasileiro. O cineasta também demonstra bom trabalho na condução dos seus atores, se Fabrício merece destaque, ele ainda é seguido de perto por Ísis Valverde que nunca me convenceu tanto na telona ou na telinha, mas aqui funciona muito bem! A atriz é responsável por dar vida à Tereza Puglesi, esposa do cantor que atravessa com ele a boa e má fase da carreira. O roteiro acompanha o início da carreira de Simonal, sua participação em grupos até que consegue partir para carreira solo com grande sucesso. O filme sabe aproveitar muito bem os hits do cantor, que embalam o filme de forma bastante orgânica e ajuda a entender o grande apelo que ele tinha perante o público. Boliveira capta o magnetismo do cantor e ajuda a torcer por ele mesmo quando ele mete os pés pelas mãos, seja na bebida, nos conflitos do casamento ou até quando cai na besteira de utilizar contatos perigosos para resolver um problema com seu contador. Além de contar a história de um artista, o filme não perde de vista o pano de fundo político de nosso país durante a carreira dele. Tempos sombrios que produziram uma história que colocou tudo a perder. O filme trabalha bem esta transição do festivo para o sombrio, torna-se denso em sua reta final e parte o coração quando o cantor se apresenta diante de uma plateia vazia. Bem realizado e com um roteiro eficiente, Simonal é um dos destaques do cinema nacional em 2019. 

Simonal (Brasil/2019) de Leonardo Domingues com Fabrício Boliveira, Isis Valverde, Leandro Hassum, Caco Ciocler, Silvio Guindade e Mariana Lima. ☻☻☻☻

domingo, 4 de agosto de 2019

.Doc: Bergman - 100 Anos

Bergman: genial e genioso. 

O sueco Ingmar Bergman é considerado um dos precursores do cinema moderno e basta assistir a um dos seus filmes para entender o motivo. Repletos de ângulos interessantes, conflitos psicológicos, recursos narrativos diferentes, metáforas e simbologias, seus filmes são ricos e dignos de culto até hoje. Considerado um verdadeiro patrimônio do cinema, não é surpresa que sua vida e obra rendesse um documentário. Realizado por Jane Magnusson e exibido no Festival de Cannes no ano passado, o filme tenta desvendar um pouco da genialidade e do temperamento difícil de Ingmar. Desde o início do filme demonstra sua admiração pelo cineasta, especialmente pela sua alta produtividade, não por acaso utiliza como ponto de partida a importância do ano de 1957 para sua carreira. Segundo o documentário, foi a partir daquele ano que sua carreira atingiu outro patamar com o lançamento de dois dos seus filmes mais cultuados: O Sétimo Selo e Morangos Silvestres. Naquele mesmo ano ele realizou um filme para a televisão, peças de teatro e trabalhos para rádio. O nome dele era trabalho. Por outro lado, tanta obsessão por produzir deixava sua vida particular bastante conturbada. Além de vários casamentos e envolvimento com suas atrizes favoritas (incluindo Bibi Andersson e Liv Ullman), Ingmar demonstrava grande sensibilidade, mas também uma irritabilidade que se intensificou com o tempo. Se a sua intensidade pode ser vista em sua obra, havia alguns acontecimentos familiares que o deixaram profundamente marcado para o resto da vida. O filme cita seu complicado relacionamento com o pai rígido e religioso, além do delicado laço com o irmão mais velho, no entanto, estas questões familiares serviram de inspiração para vários de seus filmes - culminando com Fanny e Alexander (1982), indicado a seis Oscars (ganhou quatro), que apresenava uma alegoria sobre sua infância e que se tornou seu último filme para o cinema. O filme também aborda como Ingmar dificultava a vida dos que tentavam compreender o homem por trás do artista, seja com  entrevistas cheias de ambiguidades ou as autobiografias que mais confundiam do que esclareciam, além de apresentar como o ego se tornou gigantesco ao se tornar um unanimidade perante público e crítica. Foi neste período que ocorreu um dos episódios mais controversos de sua carreira, a discussão com o promissor Thorsten Flinck nos bastidores do teatro sueco. Assistindo ao documentário, conseguimos até entender um pouco mais sobre o artista que ao final da vida preferiu viver numa ilha isolado e tornando-se cada vez mais recluso. Realizado para comemorar cem anos do nascimento deste ícone, o filme conta com entrevistas de vários artistas que trabalharam com ele e vários admiradores, além de contar com cenas de arquivo e comentários preciosos sobre sua obra. Documentário imperdível para quem é fã e obrigatório para quem quer conhecer uma dos criadores mais interessantes da sétima arte. 

Bergman - 100 anos (Bergman: Ett år - ett liv / Suécia - Noruega / 2018) de Jane Magnusson com Ingmar Bergman, Lena Endre, Elliot Gould, Barbra Streisand, Liv Ullman, Bibi Andersson, Thorsten Flinck e Lars Von Trier ☻☻☻☻

KLÁSSIQO: Sonata de Outono

Liv e Ingrid: relacionamento desastroso. 

Ingmar Bergman é um dos meus cineastas favoritos, mas sei que preciso de cautela para assistir seus filmes. A densidade absurda da relação entre seus personagens por vezes pode ser bastante perturbadora. Some isso ao meu hábito de assistir dramas europeus em dias chuvosos e você terá uma ideia ampliada do que estou tentando dizer. Diante de toda economia que pode ser vista na produção, Sonata de Outono é a prova de que o diretor pode fazer muito com poucos recursos em cena. A ideia é bem simples: Charlotte Andergast (Ingrid Bergman), uma pianista famosa, resolve visitar sua filha, Eva (Liv Ullman) após vários anos de distância. Charlotte acaba de perder seu parceiro de vários anos e as dores nas costas sempre aparecem para atrapalhar (ou elas seriam apenas a manifestação do incômodo diante do reencontro). Eva está visivelmente tensa com a visita da mãe, mas consegue sorrir a maior parte do tempo e transparecer disposta a fazer tudo para agradar. O esposo de Eva, Viktor (Alvak Björk) parece ter ciência do que aquela visita representa e tenta manter uma distância segura do que está prestes a acontecer. O primeiro grande desconforto é a presença da outra filha de Charlotte na casa, Helena (Lena Nyman) que precisa de cuidados especiais e desde o início motiva na mãe uma sensação de desconforto que apenas se amplia com o tempo. Não vai demorar muito para que a proximidade daqueles dias faça com que antigos ressentimentos apareçam e transbordem quando Eva e Charlotte estiverem mais vulneráveis. Indicado ao Oscar de roteiro original, o filme traz alguns dos diálogos mais duros já travados entre mãe e filha, em certo momento Eva até afirma que "mãe e filha não poderia ser uma combinação mais desastrosa". Os anos de ausência da mãe, o fracasso do matrimônio dos pais, a sensação de que nunca uma foi boa o suficiente para a outra pesam, mas pesam de verdade com a atmosfera do filme que utiliza closes sufocantes das duas atrizes. Liv Ullman, musa de Ingmar, encontra aqui um dos seus papéis mais oscilantes e perde aos poucos a doçura quase infantil de sua personagem para se tornar uma verdadeira bomba de ressentimentos. Já sua parceira de cena, Ingrid Bergman fez aqui sua despedida do cinema em grande estilo. Uma das grandes musas de Hollywood, ganhadora de três Oscars e indicada outras três vezes, conseguiu aqui sua sétima indicação com um papel difícil, bastante intimista, já que ao contrário de Eva, a dor de Charlotte é toda para dentro, silenciada e até comovente. Ainda que tenha todo um estilo teatral por trás (o duelo de atrizes, o cenário único, algumas narrativas...) Ingmar faz um filme que é puramente cinematográfico em seu formato. Reza a lenda que o filme foi inspirado no complicado relacionamento do cineasta com o pai. Arrepiante. 

Sonata de Outono (Höstsonaten/Suécia - Alemanha - França / 1978) de Ingmar Bergman com Liv Ullman, Ingrid Bergman, Lena Nyman e Halvar Björk. ☻☻☻☻

sábado, 3 de agosto de 2019

4EVER: D.A. Pennebaker

15 de julho de 1925 ✰ 1 de agosto de 2019

Don Alan Pennebaker, mais conhecido como D.A Pennebaker nasceu no estado de Illinois (EUA) e se tornou um dos mais renomados documentaristas da história. Um dos precursores do chamado "Cinéma Verité" e que privilegiava políticos e artistas performáticos em seus trabalhos. Fundador de de sua produtora nos anos 1960  ao lado de alguns amigos, seus trabalhos se tornaram referências no gênero. Em 1965 ele lançou o antológico "Don't Look Back" (1965) que se tornou o primeiro grande documentário da história do rock ao abordar o fenômeno Bob Dylan na cultura pop. Pennebaker ainda realizou trabalhos sobre Jimmy Hendrix e David Bowie, além de trabalhos políticos bastante influentes como Primarias (1960) sobre a campanha de John Kennedy para a presidência dos Estados Unidos. Pennebaker faleceu de causas naturais em sua residência em Long Island e seu novo filme, Rebirth ainda não tem data de estreia.  

NªTV: Crônicas de San Francisco

Tales of the City (1993): marcando época. 
O escritor Armistead Maupin ficou famoso ao escrever a coluna Tales from the City no jornal San Francisco Chronicle em 1978. A coluna começou de forma despretensiosa pelas mãos do autor nascido em Washington, mas que ficou cada vez mais atento ao que acontecia ao seu redor. A efervescência do período com a liberdade sexual e os efeitos da cultura hippie, tornaram o cenário de San Francisco bastante peculiar para o conservadorismo do Tio Sam. Aos poucos seus textos se tornaram um espelho para a cidade olhar para si. O sucesso foi tão grande que Maupin lançou uma coletânea e depois outros oito livros sobre aqueles personagens. Com a popularidade em alta criou-se uma série em 1993, que aos poucos chamou atenção por suas qualidades revolucionárias. A série falava abertamente sobre sexo, gays e uso de drogas, mantendo a atmosfera de meados da década de 1970 - período em que as histórias aconteciam. Embora o papel de protagonista fosse de uma jovem recém chegada do interior Mary Ann Singleton (Laura Linney antes do estrelato), ela servia de  ponte entre o espectador e aquela realidade diferente do mundo em que vivia. Mais diversa e livre, San Francisco lhe apresenta a pós-hippie Mona Ramsey (Chloe Webb famosa por seu trabalho posterior em Sid & Nancy/1997), o jovem gay Michael "Mouse" (Marcus D'Amico) e o conquistador Brian (Paul Gross). O quarteto habita a mesma pensão capitaneada por Anna Madrigal (a ótima Olympia Dukakis (que já tinha um Oscar na estante por seu trabalho em Feitiço da Lua/1987) e se torna uma família incomum e em Barbary Lane, nº28 (localidade que é vista como um refúgio para a população LGBTQ+ do país). Mantendo uma atmosfera quase novelesca, a série amplia as histórias daqueles personagens e suas aventuras amorosas sem perder a chance de humanizá-los. O resultado é um grupo de personagens com qualidades e defeitos,  que os torna bastante reais. Cancelada em seu sexto episódio, Crônicas de San Francisco teve o cuidado de fechar seu arco da primeira temporada, deixando no ar o mistério que tornaria Anna Madrigal como uma das personagens mais inovadoras da história da televisão. Cinco anos se passaram até que foi lançado Mais Crônicas de San Francisco (1998) em que voltamos a encontrar aqueles personagens. A história parte quase do ponto em que a outra parou. Mary Ann aparece mais a vontade em sua nova casa, Michael (agora vivido por Paul Hopkins) se tornar mais livre, leve e solto - mas ainda às voltas com seu relacionamento com o médico Jon Fielding (Billy Campbell), o que costuma coloca-lo às voltas com dilemas constantes sobre seu apetite sexual. O segredo de Anna Madrigal é mais explorado nesta temporada, assim como o histórico familiar de Mona (vivida pela bem mais jovem Nina Siemaszko). 

Mais Crônicas de San Francisco: alguns atores diferentes e mesma essência. 

Agora que todo mundo já sabia do que a série tratava, a produção se tornou bem mais ousada, com direito a mais cenas de nudez masculina e maior intensidade no contexto homossexual de alguns personagens. No entanto, o saldo da série foi mais do que positivo, já que se a primeira temporada foi lembrada em duas categorias no Emmy (roteiro e minissérie), esta segunda foi  indicada a cinco categorias (minissérie, roteiro, figurino, direção de arte e atriz para Olympia Dukakis). No entanto, a terceira adaptação dos livros (feita em 2001 e ambientada em 1981) foi bem mais enxuta com apenas três episódios com duração hora e meia cada. Ainda que o elenco seja esforçado e seja mantido um mistério para conduzir a narrativa (envolvendo a socialite Dede e seus filhos), a temporada vale mesmo por ver Mary Ann, Michael e Brian  (Whip Hubley) ajeitando suas vidas amorosas e dando corpo para o que vemos nesta quarta temporada produzida pela Netflix. Ambientada quase quarenta anos depois da terceira, desta vez temos o acerto de contas de Mary Ann com a família que deixou para trás ao priorizar a carreira em Nova York. Neste hiato nos damos conta de que Michael (agora interpretado por Murray Bartlet) contraiu o vírus HIV e mantém um relacionamento com um rapaz mais jovem (Charlie Barnett). Brian (novamente vivido por Paul Gross) se tornou um pai zeloso e assombrado pelo que sente por Mary Ann e Anna Madrigal completa noventa anos tendo seu lar ameaçado por uma chantagem. Ponto diferente desta temporada é a apresentação de um conjuntos de novos personagens, mas nem todos funcionam como deveriam. A personagem de Ellen Page é inexpressiva e difícil de engolir, assim como a de Zosia Mamet, que continua se esforçando tanto para não ser cômica depois de Girls que parece interpretar um robô. Os irmãos gêmeos que vivem postando coisas no Instagram também não conseguem ir além da caricatura, deixando o posto de melhor nova aquisição para o casal formado pelo trans Jake (Garcia) e Margot (May Hong). Além de criar pontos de relação com as temporadas anteriores (a cena do jantar com Michael, a lista de desejos escrita por ele, a gênese do movimento LGBTQ+, o resgate da personagem de Parker Posey - que sempre ficou de lado na trama), a temporada tem como ponto alto seu oitavo episódio em que se aprofunda na história da nonagenária Anna Madrigal. Vivida quando jovem por Jen Richards e tendo como amiga a espanhola Daniela Vega (ambas excepcionais) o capítulo se torna um verdadeiro marco dentro do universo da série. No entanto, para além do clima festivo dos anos anteriores, a série me pareceu mais melancólica na forma como enxerga o presente. 

Crônicas de San Francisco (2019): maior diversidade e maior melancolia.
Crônicas de San Franscisco ( / EUA-1993) de Alaister Red com Laura Linney, Olympia Dukakis, Paul Gross, Chloe Webb, Marcus D'Amico, Billy Campbell, Thomas Gibson, Barbara Garrick, Parker Posey e Donald Moffat. ☻☻☻☻

Mais Crônicas de San Francisco (EUA-1998) de Pierre Gang com Olympia Dukakis, Laura Linney, Paul Hopkins, Nina Siemaszko, Whip Hubley, Jackie Burroughs, Billy Campbell, Colin Ferguson e Thomas Gibson. ☻☻☻☻

Outras Crônicas de San Franscisco (EUA-2001) de Pierre Gang Olympia Dukakis, Paul Hopkins, Laura Linney, Barbara Garrick, Billy Campbell, Whip Hubley, Mary Kay Place, Henry Czerny, Sandra Oh e Parker Posey. ☻☻☻

Crônicas de San Franscisco (Tales of the City / EUA-2019) de  Lauren Morelli com Laura Linney, Olympia Dukakis, Paul Gross, Murray Bartlett, Charlie Barnett, Ellen Page, Zosia Mamet, Garcia e May Hong. ☻☻☻☻

PL►Y: O Mau Exemplo de Cameron Post

Chloe: tratamento de "cura gay". 

Ganhador do prêmio do júri no Festival de Sundance do ano passado, O Mau Exemplo de Cameron Post conta a história de uma adolescente que após o namorado a encontrar tendo relações com uma outra garota é enviada para uma instituição capaz de fazê-la deixar de ser homossexual, ou pelo menos, é este o objetivo. A ideia que parece absurda curiosamente também rendeu outro filme no ano passado, só que em versão masculina, Boy Erased de Joel Edgerton. Os filmes têm várias semelhanças, mas este aqui é bem mais ousado, porém o desenvolvimento o roteiro é bem mais simples. Cameron (Chloe Grace Moretz) é uma adolescente como tantas outras, só que sente-se atraída por uma amiga. É em flashbacks que conhecemos a relação entre as duas - e o filme aproveita para ter bastante cenas de meninas fazendo algo mais do que se beijar. Aos poucos descobrimos um pouco mais sobre Cameron e os outros jovens que estão naquela mesma situação - mas nenhum deles recebe um desenvolvimento muito profundo (aquela dinâmica do iceberg é um instrumento interessante, mas não me satisfez muito). Chloe Grace Moretz já provou antes que é uma boa atriz e aqui ela capricha nas expressões de perplexidade diante do que acontece à sua personagem. Colabora muito para isso os diálogos ao seu redor e os métodos utilizados para que ela sufoque o desejo que sente por pessoas do mesmo sexo. Além de apontarem motivos para sua conduta (que a própria Cameron não se vê encaixando, afinal, ela nem havia pensado se era hétero ou gay diante do que sentia) existe ainda um bocado de tortura psicológica com um bando de jovens que ainda estão construindo suas identidades. Evitando ser maniqueísta, o filme consegue compor de forma interessante o casal responsável pelo tal "tratamento", a atuação de Jennifer Ehle (ótima atriz e sempre pouco lembrada) é na medida para criar alguém que acredita realmente em sua proposta e seu parceiro John Gallagher Jr. também compõe um sujeito que finge não perceber o que fez a si mesmo. Se você não curte filmes sobre o tema é melhor nem assistir, já que a diretora Desiree Akhavan a partir do livro de Emily M. Danforth deixa claro os efeitos colaterais que este tipo de terapia pode provocar. Akhavan também escreveu o roteiro e tornou a história bem mais enxuta que no livro (com 500 páginas e contando a história de Cameron de 11 aos 17 anos). Acima da questão da sexualidade, o filme me fez pensar muito na solidão daqueles personagens que em pleno sexo XX (o filme é ambientado nos anos 1990) tem a sexualidade rejeitada pelas pessoas que mais deveriam amá-las. 

O Mau Exemplo de Cameron Post (The Miseducation of Cameron Post/EUA-2018) de Desiree Akhavan com Chloe Grace Moretz, Quinn Shephard, Jennifer Ehle, John Gallagher Jr., Forrest Goodluck e Owen Campbell. ☻☻☻

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Pódio: Ethan Hawke

Bronze: o policial novato. 
3º Dia de Treinamento (2001)
Reza a lenda que, no início de carreira, Ethan Hawke criou para si uma competição com River Phoenix para saber quem seria mais talentoso. Infelizmente a carreira de River acabou cedo e Ethan continuou sua busca por reconhecimento. Sempre fugindo do rótulo de galã, o texano conquistou sua primeira indicação ao Oscar por sua performance como policial novato deste filme. Lembrado na categoria coadjuvante, o ator provou de vez que era um bom ator ao lado da performance oscarizada de Denzel Washington. Seu papel aqui é ser o bom moço que sofre nas mãos de um policial que está longe de ser o exemplo da corporação. 

Prata: o músico atormentado. 
Se o filme não tivesse sofrido tantos problemas para entrar em cartaz, provavelmente o ator seria um dos favoritos na temporada de prêmios por seu trabalho comovente como o lendário Chet Baker nesta biografia reimaginada por Robert Budreau. Ainda que o filme tenha aquele jeitão de telefilme, o diretor consegue fugir das armadilhas do gênero e constrói uma história sólida e realmente envolvente - e muito sofrida. O trabalho de Hawke é de partir o coração e merecia bem mais reconhecimento do que recebeu. Outro destaque é a ótima Carmen Ejogo - que é parecidíssima com a esposa real do músico. 

Ouro: o religioso em crise. 
Faz tempo que Hawke encontra abrigo seguro em produções independentes para criar personagens interessantes, no entanto, sempre vê problemas para os filmes entrarem em cartaz. Este demorou um ano para chegar às telas americanas! Com quatro indicações ao Oscar no currículo (duas como ator coadjuvante -  a segunda foi por Boyhood/2014 - e outras duas como roteirista), Hawke quase recebeu mais uma neste ano pelo trabalho como religioso em conflito neste drama sombrio de Paul Schrader. Em um trabalho difícil, ele demonstra maturidade como ator e aumenta a torcida para que em breve receba uma estatueta. Atualmente, Ethan Hawke não precisa provar mais nada para ninguém. 

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

PL►Y: Fé Corrompida

Ethan Hawke: perdendo a fé. 

Muita gente considerou que Ethan Hawke seria lembrado no Oscar por seu trabalho em First Reformed, um dos filmes mais elogiados do ano passado. Seu trabalho acabou celebrado somente em festivais e premiações indies - o que culminou nas quatro indicações do filme ao Independent Spirit deste ano (concorreu a ator, filme, primeira produção e roteiro). Com problemas de distribuição nos Estados Unidos o filme foi lembrado somente na categoria de melhor roteiro original pelo Oscar. O roteiro e a direção são de Paul Schrader, especialista em criar tipos deslocados em seus trabalhos (Taxi Driver/1976, Gigolô Americano/1980, Temporada de Caça/1997, Auto Focus/2002...). Aqui ele gira em torno de Toller (Hawke), um líder religioso que atua numa pequena congregação nos arredores de Nova York.  De início não existe nada demais naquela realidade apresentada sem grandes atrativos. A coisa começa a mudar quando uma mulher grávida  (Amanda Seyfried) se aproxima dele e revela que seu esposo insiste para que realize um aborto.  Diante da angústia daquela jovem, Toller se aproxima do casal e tenta fazer com que o marido dela mude de ideia. Acontece que o moço tem uns pensamentos estranhos. De comportamento radicalista, o problema domiciliar é apenas um dos pontos de conflito entre os dois personagens. Schrader compõe um roteiro que se desenvolve aos poucos, enriquecendo detalhes sobre os personagens, especialmente sobre o protagonista que começa a questionar aspectos de seu papel. O filme fala um pouco de política, da forma como o homem se relaciona com o mundo e a natureza, além de fazer Toller revisitar os próprios fantasmas e o renascimento do desejo (que precisa ser sufocado a todo custo). Schrader consegue imprimir uma alma viajante no filme, ainda que seus planos e enquadramentos tenham uma rigidez bem cuidada em fotografia quase sem cores. Este aspecto reflete com fidelidade os conflitos de Toller, que sempre busca o equilíbrio sob o fio da navalha. Me arrisco a dizer que Hawke tem aqui o seu melhor trabalho,. Contido a maior parte do tempo, seus olhos são capazes de expressar um desespero genuíno como alguém que aos poucos perde suas certezas. Lançado por aqui com o nome de Fé Corrompida, o filme de Paul Schrader fala de uma fé muito maior do que a religiosa, trata-se de fé na própria humanidade e, por isso mesmo, seu final em aberto parece ainda mais certeiro. 

Fé Corrompida (First Reformed/EUA-2017) de Paul Schrader com Ethan Hawke, Amanda Seyfried, Cedric The Entertainer, Victoria Hill, Philip Ettinger, Bill Hoag e Frank Rodriguez. ☻☻☻☻

PL►Y: Halloween 2018

Jamie: reencontrando o algoz.

Lançado em 1978 com a assinatura de John Carpenter, Halloween - A Noite do Terror se tornou um clássico do gênero e inspirou dezenas de filmes onde um assassino trucida o elenco com mortes elaboradas. Fazia parte do horror do filme o fato dele dar continuidade a uma história que ninguém assistiu, afinal, o assassino Michael Myers escapava de um sanatório quinze anos depois de ter matado a irmã - e esta ideia prévia só aumentava o horror. Se o filme provocava arrepios, suas inúmeras continuações caíram na repetição caça-níqueis. Em 1998 a coisa recebeu um caráter especial com Halloween  H20 que contava a história do alvo favorito do assassino vinte anos depois do massacre original. A perseguida Laurie Strode (Jamie Lee Curtis) estava com a vida até confortável, tentando educar o filho (na época vivido por Josh Hartnett), com uma vida amorosa ativa e aparentemente bem resolvida até que seu algoz aparece para destruir tudo. H20 está longe de ser um clássico, mas cumpria sua missão com eficiência. Além de Jamie Lee Curtis, o filme ainda contava com Janet Leigh (mãe de Jamie) em uma participação especial e um elenco jovem interessante que contava ainda com Michelle Williams, Adam Hann-Byrd e Joseph Gordon-Levitt.   Pois esqueça tudo sobre H20, o décimo filme da franquia (que chegou aos cinemas no ano passado) faz de conta que o filme nunca existiu e confesso que senti certa decepção com isso. Laurie aparece aqui paranoica, reclusa e plenamente preparada para seu último confronto com Michael Myers. Ela aparece como uma pessoa tão estranha que sua presença é visivelmente desconfortável para a família, especialmente para a filha (Judy Greer). Sim: filha. Pois é, mudaram o sexo do filho da protagonista. De resto, o filme conta como Michael foge do sanatório mais uma vez, desta vez instigado por uma dupla de documentaristas que cutucam o serial-killer com vara curta, ou melhor, com a horrenda máscara que serve de gatilho para sua loucura. Daí em diante ele foge e mata os personagens sem critério algum até reencontrar Laurie - que se recusa a ser vítima desta história. O filme tem alguns momentos de bom suspense e uma ou duas cenas que impressionam (particularmente eu gosto da cena dos loucos caminhando à noite no meio da estrada), mas no geral é bastante enfadonho. Existem referências ao filme original e a ideia de prestar homenagem ao clássico, mas achei uma produção bem insossa e não via a hora de terminar. Considerei muito estranho o filme ser dirigido por David Gordon Green (O que te faz mais forte/2017 e Príncipes da Estrada/2013), que já provou se dar bem em dramas mais intimistas e aqui trabalha definitivamente fora da linguagem que domina. 

Halloween (EUA/2018) de David Gordon Green com Jamie Lee Curtis, Judy Greer, Andi Matichak, Will Patton e Rhian Rees. ☻