sexta-feira, 9 de setembro de 2011

CATÁLOGO: Do Jeito que Ela é


Katie Holmes: em busca de um forno.

Quem acompanha o blog há algum tempo deve ter percebido que tenho uma queda por filmes independentes. Gosto deles porque acho que não ficam perdendo tempo com o que é acessório (efeitos especiais, exagero no uso de trilha sonora, astros que esquecem de atuar...) e esquecendo o que realmente importa. Claro que existem exceções, vícios de toda espécie e hypes que não se justificam, mas na maioria das vezes é comum ver sinceridade e originalidade nestas produções de pequeno porte que tem feito a graça dos cinéfilos desde meados da década de 1980. Do Jeito que Ela é serve de exemplo de trama que vai direto ao ponto num roteiro enxuto e que serve para boas atuações de seu elenco sem ter pretensão de ser genial ou cabeça. O filme mostra uma garota com pinta de maluquete, April (Katie Holmes, correta e antes de se casar com Tom Cruise) que deve preparar a ceia de Ação de Graças para os seus familiares que não vê a algum tempo. Como o filme é anunciado como comédia é de se imaginar que tudo que puder dar errado, dará! Não bastasse todos os ressentimentos familiares que estarão em jogo mais uma vez (todos personificados magistralmente pela mãe vivida por Patricia Clarkson, que acabou indicada ao Oscar de coadjuvante), April ainda tem problemas sérios para preparar o peru da ceia, uma vez que seu forno acaba apresentando defeito! Este fato corriqueiro irá revelar ironicamente detalhes não imaginados entre os moradores do prédio de April e ainda um pouco mais de nossa protagonista. Enquanto vemos April ser descascada diante da câmera - mostrando de debaixo do cabelo ruivo mal pintado, das roupas e penduricalhos moderninhos existe uma garota que só quer receber bem os pais e deixar para trás seu estigma  de filha problemática - acompanhamos sua peregrinação atrás de um vizinho caridoso que possa lhe emprestar o forno. O roteiro consegue ser ironico e inofensivo ao mesmo tempo, desenvolvendo seus personagens com honestidade e auxílio de um elenco competente que sabe lidar com momentos bem humorados (como a cena de ares dramáticos em que a mãe pede para que os filhos não deixem April perceber que jogam a comida fora), tristes (como a mesma mãe mandando a filha caçula vivida por Alisson Pill pedindo para ela parar de cantar) e até violentos (a surra sofrida pelo namorado de April). Mas, apesar de cômico existe um bocado de drama em Do jeito que ela é, sorte que Hedges não deixa a coisa pesar nem quando exibe as marcas do sofrido câncer que a família tem de lidar. Embora exiba algum desleixo visual, o filme é cheio de boas intenções e não subestima a inteligência dos espectadores, mesmo quando inventa cenas improváveis como a matriarca mal humorada andando de carona na moto, o peru sendo sequestrado ou tendo a sua coxa remendada. O longa tem alma de filme família, mas trata-se de uma dramédia que aborda de forma simpática um tradicional feriado americano que conhecemos pouco, mas que mostra-se uma data interessante para uma família juntar os seus próprios pedaços. Hedges demonstrou mais uma vez ter mão boa para lidar com problemas familiares, são de sua autoria o roteiro de Gilbert Grape (1993) e Um Grande Garoto (2002), além de seu filme seguinte, a dramédia Eu, Minha irmã e Nossa Namorada (2007), mas foi por este longa de estreia que ganhou o prêmio do júri em Sundance.

Do Jeito que Ela É (Pieces of April/EUA-2003) de Peter Hedges com Katie Holmes, Patricia Clarkson, Oliver Platt, Alison Pill, Derek Luke e John Gallagher Jr. ☻☻☻ 

domingo, 4 de setembro de 2011

DVD: Sentimento de Culpa

Atrizes em ação: assuntos sérios em comédia de costumes.

Nicole Holofcener não é uma das minhas diretoras favoritas, sempre acho seus filmes meio frios e a comparação na década de 1990 de que era o Kevin Smith de saias não lhe fez bem. No entanto, nada como o passar do tempo. Enquanto Smith se perdeu em produções que só demonstram que seus melhores anos ficaram para trás, Nicole demonstra estar mais madura, principalmente quando vemos sua última obra. Sentimento de Culpa fez sucesso em festivais independentes e alcançou boas críticas e foi merecido, apesar de ter feito carreira modesta em nossos cinemas. Pra começar conta com duas boas atrizes em momentos inpirados: Catherine Keeneer e Rebecca Hall. Keener é uma veterana e já trabalhou com a diretora outras vezez, já Hall demonstra, sem estardalhaço que é uma das melhores jovens atrizes em atuação. Keener interpreta Kate, uma mulher casada com um gorducho (Oliver Platt) que a ajuda a administrar uma loja onde vendem móveis antigos ao preço de pequenas fortunas, juntos tem uma filha que tem os conflitos da auto-estima adolescentes instigados por um jeans que custa 200 dólares e uma espinha que lhe nasce no nariz. Esta família tem lá os seus bons momentos, mas tem certa culpa em ter comprado o apartamento ao lado, onde a octogenátia Andra (Ann Morgan Gilbert) vive com o cachorro. As obras para ampliar o conforto do casal dependem da morte de Andra - que recebe constantemente os cuidados a neta Rebecca (Hall) que atualmente mora com a irmã, trabalha numa clínica e procura um namorado. A vida de Rebecca poderia ser bem mais legal se sua irmã Mary (Amanda Peet) não fosse uma das criaturas mais insuportáveis que já apreceram num filme. Holofcener não inventa muita coisa nesta trama sobre pessoas comuns e seus dilemas cotidianos, mas consegue promover reflexões interessantes sobre a solidariedade e o envelhecimento. É no centro dessa discussão que se insere de forma convincente a personagem de Keener, que compra mobiliário, por alguns trocados, de pessoas que perderam os parentes - para revender por preços exorbitantes à gente endinheirada que quer dar um toque cool  aos ambientes que habitam. A culpa que começa a sentir irá mudar a forma como percebe as relações e os valores atribuídos às coisas ao seu redor. Além desse argumento existe nas entrelinhas reflexões apoiados em dicotomias como juventude/beleza e velhice/feiúra e as ações que motivam. Esses contrapontos se fazem ainda mais presentes na relação entre as duas irmãs (que lidam de formas diferentes com uma trajetória semelhante). Sentimento de Culpa é um filme simples, mas que fala de coisas importantes por baixo de sua casca de comédia de costumes. Longe de garantir bilheterias exorbitantes, o cuidado da diretora com seus personagens traz ao filme uma identidade agradavelmente palpável - como se todos fossem nossos vizinhos parceiros de um lanche no fim de semana.

Sentimento de Culpa (Please Give/EUA-2010) de Nicole Holofcener com Catherine Keener, Rebecca Hall, Amanda Peet, Oliver Platt, Josh Pais e Ann Morgan Gilbert. ☻☻☻

DVD: Em Um Mundo Melhor


Os dois amigos: pessimismo em tom pacifista.

Ganhador do Oscar de melhor filme estrangeiro neste ano, Em um Mundo Melhor está chegando nas locadoras e vale a pena ser conferido, mas não espere muita coisa. Não que a produção dinamarquesa seja ruim, mas todos os ingredientes utilizados na produção me deixaram com a sensação de "já vi esse filme", talvez não com a cadência lenta impressa pela diretora Suzanne Bier ou com a bela fotografia que podemos conferir nas cenas, mas nada me pareceu muito original. Os admiradores do filme (que ainda foi premiado com o Globo de Ouro de Filme de Língua Estrangeira) costumam ressaltar sua poesia em pregar a tolerância, mas acho que Bier não soube aproveitar o material que tinha em mãos. Pra começar o filme é centrado em dois garotos,  Anton (Mikael Persbrandt) é  apelidado de "cara de rato"  pelos colegas e sofre bullying (alguém ainda aguenta falar disso?) dos valentões da escola. O garoto é um solitário e o único amigo que consegue é um menino inglês recém chegado - Christian (William Johnk Nielsen), que recebe as boas vindas com uma bolada na cara. Mal sabem os valentões que o novo aluno está longe de ser passivo como o perseguido - e responde à violência com mais violência. Se por um lado existe algo de assustador na postura do inglesinho, existe ainda o contraponto desta trama infanto-juvenil com a do pai de Anton, Claus(vivido com competência por Ulrich Thomsen) é um médico que trabalha em um país africano - que além de sofrer com a miséria ainda padece na mão de malfeitores ditatoriais que violentam crianças mesmo depois que estão mortas. O interessante da trama nasce da sobreposição desses dois núcleos, já que o médico pacifista percebe a violência crescer nos dois meninos e chegando ao extremo no local onde trabalha. Só este ponto já possuiria força suficiente para segurar o filme, especialmente quando no imaginário dos moleques a educação e pacifismo do médico soam como fraqueza - sobretudo quando este procura um homem que o agrediu somente para apanhar mais um pouco na frente das crianças.  Embora Bier seja cheia de boas intenções ao contruir um filme desses, o resultado é tedioso por bater sempre na mesma tecla, mesmo que caminhe cada vez mais para um final feliz. Nada contra um happy end, o problema é que ao mergulhar em tantos clichês pessimistas o resultado final está longe de deixar a sensação de que há algo bom a ser tirado de tudo isso. Fora isso existem outras coisas que me incomodam no filme, os africanos mostrados mais uma vez em sua miséria financeira e humana - com crianças correndo atrás dos carros que carregam os brancos para dentro e fora deste universo que parece paralelo ao nosso (quantos filmes já te deram essa sensação?), a escola sempre passiva diante das agressões vividas por seus alunos, a internet como a porta do inferno, os pais solitários e infelizes como se o destino houvesse feito as escolhas por eles. Repetir o que outros já disseram me parece covardia, agrava mais ainda essa sensação por Bier não entregar nada de novo ou realmente original num filme onde um garoto cheio de mágoas é tratado como um pequeno terrorista. Se Bier tem o maior capricho com as locações naturais, não se pode dizer o mesmo com os personagens, eles parecem habitantes de uma trama sem sujeitos, sendo guiados por impulsos agressivos descerebrados. Isso só aponta o tal médico como herói e que seu jovem filho deve seguir o mesmo caminho - talvez por herança genética [sic]. Não é um filme ruim, mas também não é bom, imagino como ele ficaria na mão de um diretor mais vigoroso que não se contenta em dizer que o mundo se divide entre os que batem e os que apanham.

Em um Lugar Melhor (Haevnen/Dinamarca-2010) de Suzanne Bier com Ulrich Thomsen, Mikael Persbrandt e Gabriel Muli. ☻☻

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

DVD: Reencontrando a Felicidade


Kidman e Eckardt: a ausência como um tijolo no bolso.

A carreira de Nicole Kidman não andave bem. Desde que ganhou o Oscar por As Horas (2002) não emplacava um sucesso de bilheteria. Embora colecionasse bons trabalhos com diretores importantes como Lars Von Trier e Noah Baumbach, a maioria das pessoas preferia perceber os efeitos do botox em seus rosto do que sua atuação. Nicole chegou a falar em aposentadoria quando Austrália (2009) de Baz Luhrman naufragou nas bilheterias. Mas para tudo se tem um jeito. Reencontrando a Felicidade é uma espécie de tiro de misericórdia da atriz. Ela comprou os direitos da premiada peça Rabbit Hole e convidou John Cameron Mitchel para dirigir - com clara intenção de colocá-la novamente no páreo das premições (fora isso deixou de realizar as injeções de botox para evitar os sinais do tempo em sua face). O resultado é que depois de longo e tenebroso inverno, Kidman ficou novamente no páreo das principais premiações do ano (incluindo Oscar e Globo de Ouro), colhendo elogios de público e crítica. Nicole ainda foi responsável pela produção do filme (que custou 10 milhões de dólares, um valor considerável para revitalizar uma carreira) e o resultado é um filme simples, que não utiliza recursos baratos para envolver o público. Tudo no filme é direto, sem frescuras e absurdamente honesto. Nicole encarna Becca, uma mãe que sofre há oito meses com a morte de seu filho de quatro anos. Em busca de cicatrizar as feridas, Becca escolhe o caminho de apagar de sua frente qualquer vestígio que lembre o filho falecido. Seu esposo Howie (Aaron Eckardt, em mais um bom momento) opta por um caminho diferente, assiste a vídeos do filho e mantém o quarto dele intocado. O mais interessante do filme é justamente mostrar o período em que a vida deste casal tenta entrar nos eixos, quando decidem se desfazer das roupas do filho que perderam ou quando mostram o quarto do menino aos possíveis compradores da casa. Cada detalhe da casa parece emanar uma lembrança, cada frase ou olhar de quem se aproxima despertar memórias, todo este material resulta em atuações belíssimas. Outro diferencial do filme é a busca por conexões desse casal com o mundo, Howie começa a se envolver com uma parceira de grupo de auto-ajuda (Sandra Oh) enquanto Becca começa a ver nos encontros com o adolescente que vitimou seu filho (Miles Teller que parece anestesiado por boa parte do filme, mas até que funciona dentro da proposta de Mitchell) como uma espécie de terapia. Bons diálogos, ótimas atuações (incluindo Diane Wiest como a mãe de Becca), cortes precisos, trilha sonora perfeita e direção surpreendentemente contida de Mitchell (responsável pelo musical drag Hedwig/2001 e o erótico-cabeça Shortbus/2006) rendem momentos memoráveis como o momento em que Becca descobre que o filho faleceu (a cena se concentra somente em closes nas expressões de Kidman e Teller). É desta emoção arrebatadora, embora contida, que Reencontrando a Felicidade emana sua força narrativa de forma adulta e convincente.  Bem vinda de volta, Nic!

Reencontrando a Felicidade (Habbit Hole/EUA-2010) de John Cameron Mitchell, com Nicole Kidman, Aaron Eckardt, Miles Teller, Dianne Wiest e Sandra Oh. ☻☻☻☻ 

CATÁLOGO: EXistenZ


Law e Jennifer: jogo tedioso entre lubrificantes e lambidas.

Nem todo mundo tem o estilo de David Lynch para lidar com o bizarro, na década de 1980 o diretor que David Cronenberg chegou até a realizar algumas proezas que arranhavam no estilo do diretor de Coração Selvagem (1990) e O Homem Elefante (1980). A diferença é que Cronenberg sempre teve um interesse pelo nojento, se conseguia proezas estimulantes como Gêmeos - Mórbida Semelhança (1988) e até Crash - Estranhos Prazeres (1996), por outro lado tinha as gelecas de A Mosca (1986) e este EXistenz (1999). EXistenZ acabou servindo para colocar um ponto final nos excessos do diretor. Vendo o filme hoje, depois que o diretor se reinventou com Spider (20002), sendo aclamado com Marcas da Violência () e estando prestes a lançar A Dangerous Method (que está cotado para as premiações deste ano), mal reconhecemos o diretor na tosqueira de  EXistenZ. O filme parece um rascunho de Matrix (lançado no mesmo ano) e até A Origem, mas é tão mal escrito e dirigido que deve ser lembrado como o pior filme do diretor. As atuações de Jennifer Jason Leigh e (o então novato) Jude Law também não ajudam, já que não conseguem nunca ultrapassar o nível da caricatura. O título se refere a um jogo virtual feito a partir de pessoas conectadas a uma criatura criada em laboratório a partir de genes anfíbios (e que parece um daqueles moldes de posto de saúde para explicar o aparelho reprodutor feminino). Para jogar, as pessoas precisam fazer um furo (as chamadas bio-portas)  na lombar para meter um treco que parece um cordão umbilical de borracha. Retire desses detalhes as analogias que quiser, mas tudo é apressado e mal desenvolvido absurdo para se retirar algo de relevante. Alegra Geller (Jennifer) é uma designer de games que é uma espécie de musa dos jogadores até começar a sofrer atentados. Nessa confusão ela é ajudada por Ted Pikul (Law), um estagiário, virgem nos jogos (me perdoem o termo, mas as cenas em que fazem o buraco a bio-porta nas costas de Jude são mais eróticas do que os beijinhos que rolam no filme) para salvar EXistenZ da destruição. Depois de algumas cenas de correria e perseguições sonolentas onde encontram personagens esquisitos (e que não acrescentam muita coisa), os dois começam a jogar na realidade virtual. O problema é que a realidade virtual é tão sem graça como suas vidinhas sem graça, sendo  vivenciada de forma tão artificial pelos atores que é impossível conter o riso ("acho que o jogo quer que façamos amor!", "acho que o jogo me fez dizer isso", "acho que o jogo quer que eu mate alguém"). Tudo soa trash e datado, como os piores momentos que Cronenberg cometeu na década de 1980. Ao final temos certeza que Cronenberg tinha um boa ideia, mas não fazia a mínima de como desenvolvê-la. Os defensores podem dizer que o diretor era um visionário com relação às relações estabelecidas pelas máquinas, que elas fariam parte de nós e blábláblá, mas é preciso ter um bocado de boa vontade para imaginar que EXistenZ tem ideias mais importantes do que ver Jennifer Jason Leigh passanto lubrificante no orifício na bio-porta do estagiário ou deste lambendo o a bio-porta de Allegra. Sorte que diante do desastre, Cronenberg viu que estava na hora de voltar a surpreender - nem que fosse mudando radicalmente o seu estilo.

EXistenZ (Canadá/1999) de David Cronenberg com Jennifer Jason Leigh, Jude Law, Ian Holm, Don McKellar, Christopher Eccleston, Sarah Polley e Willem Dafoe. ☻

terça-feira, 30 de agosto de 2011

DVD: TWIN PEAKS - DEFINITIVE GOLD EDITION


David Lynch é um dos meus cineastas favoritos. Podem chamá-lo de picareta, enganador, pervertido que não estou nem aí. Podem me tacar pedra na rua, mas ainda acho que um cineasta de verdade é aquele capaz de construir narrativas inesquecíveis que ficam gravadas em nossa mente e não apenas um sujeito que diz “Ação” para os atores cuspirem o texto decorado diante de uma câmera. Lynch é um dos mestres da sétima arte e reconhecido como o pioneiro do surrealismo cinematográfico estadounidense, embora esteja desiludido ultimamente com a forma como os filmes de autor têm sido tratados em seu país (tanto que não lança um longa desde sua homenagem no Festival de Veneza em que lançou o radical Império dos Sonhos/2006), podemos perceber a influência do universo Lynchiano em sucessos recentes como A Origem de Chris Nolan, Cisne Negro de Darren Aronofsky além dos roteiros de Charlie Kauffman. Na década de 1990 o diretor foi convidado a realizar um programa para a televisão – numa época em que se alguém migrar do cinema para a TV era visto como decadência em Hollywood. Lynch se juntou ao parceiro Jack Frost para construir a história de um programa que recebeu carta branca da rede ABC (que estava à beira da falência) para fazer o que quisesse. Twin Peaks foi ao ar na páscoa de 1990 e fez história batendo recordes de audiência com um piloto de duas horas de duração (contando os comerciais) e uma pergunta que assombrava a audiência: “Quem matou Laura Palmer?”


Kyle e Lynch: terceira parceria.

Sempre me impressiono com o clima construído por Lynch em suas obras. Admiro a forma como consegue conduzir o lado sombrio de suas histórias com uma plasticidade que nos faz pensar porque cinema é uma arte. Digo cinema, apesar de ser um projeto televisivo, porque Twin Peaks foi pioneira a levar planos e ritmos cinematográficos para a TV. Muito do que vemos com sucesso na TV hoje, se deve a esse hibridismo pioneiro proposto por Lynch/Frost. Não serei o primeiro nem o último a dizer que sem Twin Peaks não existiria Arquivo X, Fringe e Lost (que flertam mais abertamente com a linguagem Lynchiana). Atrevo-me a dizer que sem Twin Peaks não existiria a possibilidade de produzir séries do porte cinematográfico de Família Soprano ou Six Feets Under, até mesmo as recentes aventuras televisivas de cineastas como Scorsese (Boardwalk Empire), Todd Haynes (Mildred Pierce) e Frank Darabonts (The Walking Dead). Acho que não preciso dizer mais sobre a importância de Twin Peaks sobre a cultura pop e sua influência na qualidade da TV americana. A série fez história com sua trama cheia de camadas, interpretações, crimes e mistérios e mostrou algumas das cenas mais estranhas que já foram feitas para a telinha. Twin Peaks é uma cidadezinha americana fictícia que fica perto do Canadá, a abertura da série explora a melancolia da trama com suas locações e trilha sonora. Pássaros, árvores e cascatas são mostrados evidenciando o aspecto bucólico do lugar, não precisa muito mais do que isso para percebemos que trata-se de uma cidade tranqüila com pouco mais de cinqüenta mil habitantes. A paz do lugar é ameaçada pela morte de uma jovem popular na cidade, Laura Palmer (Sheryl Lee) e a chegada de um agente do FBI que começa a deixar a população nervosa - já que qualquer um pode ser o assassino e, por isso mesmo, suas vidas são vasculhadas em busca de evidências, com isso as excentricidades e segredos de seus personagens ganham cada vez mais força. Kyle MacLachlan (um dos atores favoritos de Lynch que esteve presente no cultuado Veludo Azul/1986 e o mal compreendido Duna/1984) interpreta magistralmente o agente excêntrico Dale Cole, que busca uma resposta para o crime. Nesse processo conta com parceiros fiéis como o delegado Harry (Michael Ontkean), o policial chorão Andy (Harry Goaz) e a secretária tagarela Lucy (Kimmy Robertson). A lista de suspeitos é gigantesca e no piloto da série eles são expostos - sem perder de vista que Palmer era uma garota que guardava segredos perigosos em sua vida amorosa, envolvendo drogas e prostituição. O piloto da série coloca todas as fichas da série na mesa e o sucesso fez com que Lynch e Frost fossem convidados a dar continuidade ao projeto, com uma temporada de sete episódios que fez história na TV. 
TWIN PEAKS - PILOTO: "NORTHWEST PASSAGE" (1990)☻☻☻☻☻

Os mocinhos: flerte com o sobrenatural e com belas mulheres.

A primeira temporada de Twin Peaks virou uma febre, foi a mais falada, a mais comentada e badalada da década de 1990. Elegeu musas em seu núcleo jovem (as saborosa Lara Flynn Boyle era a melhor amiga de Palmer e a suculenta Sherilyn Fenn era a colegial perigosa que morre de amores pelo agente Cole - ambas conseguiram até alguns projetos no cinema depois que a série terminou) e deu oportunidades para que Lynch ampliasse seu público em cenas hipnoticamente bizarras como as do sonho de cortinas vermelhas de Cole, o anão que fala e se move ao contrário, além de sugerir a existência de um mal existente que independe da vontade de quem o pratica. Além de todos os mistérios e audácia narrativa o que mais enche os olhos ao ver a primeira temporada é a qualidade da trama. São tantas camadas, referências e subtextos que é irresistível a atmosfera construída pela produção – sem falar que o filme dialoga diretamente com as outras obras do diretor (a presença dos sonhos, as alucinações, as fendas e orifícios, a duplicidade bem/mal, anjo/demônio de seus personagens, gritos, silêncios, trilha sonora magnífica de Angelo Badalamenti). Há muito de filosófico na série – e as introduções dos capítulos realizadas pela Mulher do Tronco (Catherine Coulson) é um bom exemplo disso. No último capítulo da temporada todos os ganchos possíveis para a segunda foram lançados. Porém, apesar de todas as expectativas e ideias lançadas o seriado teve uma queda brutal de audiência e perdeu muitas de suas qualidades nos episódios seguintes. Acho que o fato de ter 22 episódios fez com que tudo perdesse o ritmo e se tornasse exaustivo demais, isso sem falar pelos outros problemas enfrentados no caminho. A curta primeira temporada sobre a supervisão de Lynch/Frost deu a oportunidade para que vários diretores exercitassem sua criatividade narrativa durante a produção dos episódios – e para manter os mistérios os atores recebiam somente trechos de cada episódio. Tudo funcionava perfeitamente até que os exageros desenfreados acabaram destruindo a originalidade do seriado no ano seguinte. A obscuridade e o estranhamento constituíam a alma e a certa dose de humor de Twin Peaks. 
TWIN PEAKS - PRIMEIRA TEMPORADA (1990) ☻☻☻☻☻

Palmer: anjo ou diabo?

Curiosamente enquanto a primeira temporada virava mania pelo mundo, era exibida a segunda em que o seriado acabou se tornando uma autoparódia. A segunda temporada vale ser vista somente pelos primeiros e últimos capítulos (o que deve somar mais ou menos o número de episódios da primeira). Lynch falou muito que o assassino jamais deveria ser revelado, essa dúvida era a grande alma do programa, ela percorria todas as subtramas e fazia os personagens tão interessantes, afinal, enquanto não provassem a inocência perante o público, todos eram culpados. Nos primeiros episódios da segunda temporada descobrimos quem matou Laura Palmer – e apesar da descoberta do assassino lançar um novo mistério na trama, este mostrou-se menor para o interesse do público. Também não ajudou o fato de (por problemas interpessoais) não avançarem no novo foco da temporada: o envolvimento de Audrey (Sherilyn Fenn) e o agente Cole (MacLachlan), juntando isso ao distanciamento (por pirraça da revelação do assassino de Laura?) de Lynch (que zelava por Coração Selvagem/1990) e Frost (que investia em seu primeiro longa metragem) fez com que tudo saísse do eixo, com esquisitices vazias, piadas em exagero, personagens subaproveitados, resgate de outros que ninguém lembrava e um exagero de convidados especiais que fez tudo parecer uma novelinha aguada com direito a doninhas agressivas, mulheres caolhas com super-poderes e um rival do passdo de Cole que parece saído de um filme dos Trapalhões. Tudo que a série havia conquistado foi para o lixo e as constantes mudanças de horários não ajudava. É chocante o desleixo com que a série foi tratada no meio desta temporada. Diante do abacaxi, Lynch e Frost tomaram as rédeas da coisa na reta final, tentando evitar o inevitável, quando a temporada chegou ao seu derradeiro episódio final tentou se resgatar o clima inicial, os mistérios e as ideias presentes no subconsciente de seus personagens (mesclando o bem e o mal na figura confiável do agente Cole num gancho para a terceira temporada que nunca foi produzida). O último episódio é um dos melhores da série e deixou claro, que não é qualquer um que pode brincar de David Lynch. Afim de dar um final digno para sua obra, Lynch realizou o filme Os Últimos Dias de Laura Palmer (Twin Peaks: Fire walk with me / 1992) que padeceu com críticas pífias e que alegavam ser mais do mesmo, mas os fãs da primeira temporada gostaram do filme e perceberam novas revelações sobre os personagens que acompanharam em uma das séries mais inventivas de todos os tempos - para quem leu o livro do cineasta sobre meditação, a série fará ainda mais sentido. TWIN PEAKS - THE DEFINITIVE GOLD BOX EDITION traz muitos extras sobre (participação no Saturday Night Live, comerciais, entrevistas...) mas não conta com a participação de todos os atores (será que ficaram magoados com o processo de banalização da série?), é um box de colecionador que só não é mais completo por conta de não conter o longa dirigido por Lynch no ano seguinte em que a série terminou (o qual fico devendo uma resenha, mas diante do meu maior post de todos os tempos acho que você não vai se importar...).
TWIN PEAKS - SEGUNDA TEMPORADA (1991) ☻☻  
TWIN PEAKS - EXTRAS ☻☻☻☻


TWIN PEAKS – THE DEFINITIVE GOLD BOX EDITION (2010) produzido por David Lynch e Mark Frost, com Kyle MacLachlan, Sheryl Lee, Lara Flynn Boyle, Sherilyn Fenn, Ray Wise, Richard Beymer, Grace Zabriskie, Joan Chen, Piper Lauren, Mädchen Amick, David Lynch e David Duchovny.

Ladies & Gentlemen: Amy Adams

Sei que não parece, mas a ruiva Amy Adams é italiana - mas a surpresa diminui um bocado quando descobrimos que a atriz é filha de um casal de americanos (Kathryn e Richard Adams) e nasceu na terra da pizza por conta do trabalho de seu pai. Nascida em 1974, Amy é uma das atrizes mais aclamadas de sua geração e esperta o suficiente para aproveitar as boas chances que lhe aparecem pelo caminho (mesmo quando parecem arriscadas), por conta disso já conseguiu três indicações ao Oscar nos últimos cinco anos! Apesar da maioria de seus papéis ser de meninas comportadas, a atriz já demonstrou que consegue dar conta dos mais variados personagens - e estes nem precisam ser os protagonistas para que ela se destaque. Amy começou sua carreira no cinema em 1999 (num filme de pouco conhecido chamado Drop Dead Gorgeous, ao lado de Kirsten Dunst e Denise Richards), despois seu talento foi lapidado na TV em produções variadas como o seriado That '70's show, Charmed, The Office, West Wing e Smalville - além de alguns filmes para a telinha como Segundas Inteções 2 (onde assumiu o papel que era de Sarah Michelle Gellar). As grandes produções do cinema pareciam tê-la encontrado quando Spielberg a escalou em Prenda-me de for capaz (2002), mas ainda não era daquela vez que Adams ganharia o devido destaque, já que o papel era pequeno na trama. A guinada em sua carreira aconteceu em Retratos de Família (2005), onde interpretou a personagem mais carismática da trama: uma jovem grávida em meio à fria família de seu esposo. Amy fez o papel de forma tão comovente que além dos prêmios do cinema independente, ainda cavou uma vaga entre as indicadas ao Oscar de coadjuvante. Depois enveredou por comediotas americanas   como Ricky & Bob (2006) e Tennacious D (2006), mas mostrou todos os seus recursos em Encantada (2007), onde fazia uma princesa de contos de fada perdida em Nova York. Se Encantada tornou-se um sucesso, se deve muito à desenvoltura de Amy, que canta, dança, interpreta e parece uma legítima discípula de Julie Andrews (fato que lhe rendeu uma indicação ao Globo de Ouro e o direito de cantar as três músicas indicadas ao Oscar na noite de premiação)! Pena que no mesmo ano foi desperdiçada no chato Jogos do Poder (o primeiro malfadado encontro de Tom Hanks e Julia Roberts em 2007). Em 2008 ela lançou três filmes, sendo indicada ao Oscar e ao Globo de Ouro de coadjuvante pelo drama Dúvida (2008), onde interpretava uma freira bem-intencionada, apesar da língua maior que a boca.  Talvez pela densidade de sua personagem tenha optado por relaxar no ano seguinte, interpretando uma... estátua de Amelia Earhart em Uma Noite no Museu II (2009) e a blogueira cozinheira de Julie & Julia (2009). Se os românticos Moonlight Serenade (2009) e Casa Comigo (2009) não fizeram o sucesso esperado no ano seguinte, a atriz não tem do que reclamar de  seu papel mais ousado: Charlene, a namorada do lutador Micky Ward em O Vencedor (2010). Charlene é bem diferente de seu outros papéis, nada refinada e de personalidade forte, o papel lhe valeu a terceira indicação ao Oscar de coadjuvante (e perdeu para sua parceira de elenco, Melissa Leo). Para este ano a atriz promete dois filmes: On the Road (a adaptação do brasileiro Walter Salles para o livro de Jack Kerouac) e a nova aventura dos Muppets. Amy não para por aí, anda filmando a versão repaginada de Zack Snyder para Superman (sob o título de Man of Steel) previsto para ser lançado em 2013, no filme ela é a eterna musa do herói kryptoniano, Lois Lane.  

Amy encarna Gisele: princesa impagável.

DVD: O Vencedor

Wahlberg, Leo e Bale: boas atuações em mais um filme de boxe.


Dia desses completei minha jornada em busca dos dez filmes indicados ao Oscar deste ano (ufa!), O Vencedor foi o último da lista que eu vi. Se meu analista ler isso terá uma série de coisas para me dizer, mas vou poupar o trabalho dele e repetir uma coisa que disse aqui no blog há algum tempo: não curto filme de boxe. Desculpem amigos, mas todos me parecem tão parecidos! Claro que sei a diferença entre a obra-prima do gênero Touro Indomável (1980), um filme de auto-ajuda como Rocky, Um Lutador (1976), um melodrama seco como Menina de Ouro (2004) e vou colocar até (ei sei que não é boxe) O Lutador (2006) de Darren Aronofsky na lista com sua narrativa indie sujinha. Mas no fim, em sua essência, entre altos e baixos, ambições e frustrações os filmes possuem questões muito semelhantes: os treinos exaustivos, os problemas pessoais influenciando no desempenho profissional, sucessos profissionais, tragédias pessoais, emocionais, vida familiar problemática, sangue, suor e lágrimas! Claro que um diretor competente como Scorsese e Eastwood faz toda a diferença ao explorar estes ingredientes. Se o elenco cooperar, as chances do filme faturar prêmios aumenta consideravelmente (todos os listados acima receberam suas glórias perante público e crítica) e este foi o caso, também, de O Vencedor. Dirigido por David O. Russel (distante do gênero que o consagrou, a comédia, mas ainda assim bem humorado), O Vencedor foi ganhando força nas premiações, mas seria maldade atribuir seus sucesso somente ao lobby violento de seus produtores. O filme é bem feito, honesto, sendo extremamente bem sucedido ao colocar no centro da narrativa os problemas familiares (que não são poucos) na vida do bom moço Mick (Mark Wahlberg). Mick é treinado por seu irmão Dick (Christian Bale, mais uma vez assustadoramente magro para um papel), um promissor lutador de boxe que perdeu sua vida para o vício em crack. Ainda assim, Dick é o queridinho da família, tudo parece girar em torno de suas vontades, numa espécie de compensação exacerbada - e o fato de ser alvo de um documentário da HBO só aumenta esta sensação. Além de Dick, Mick tem que lidar com a personalidade dominadora de sua mãe, Alice (a ótima Melissa Leo, totalmente brega)  que acaba funcionando como âncora para a sua carreira. Não bastasse esses dois pesos em suas costas, Micky Ward tem um bando de irmãs acomodadas que mais parecem formar uma gang que não vai com a cara de sua nova namorada, Charlene (a sempre competente Amy Adams). É Charlene que o faz perceber que por mais que Mick ame sua família, isso não dá o direito a ela de podar suas ambições. O Vencedor é um raro caso de filme que tinha tudo para dar errado, mas dá certo. Não são poucas as vezes em que achei que o filme iria descambar para o mais apelativo melodrama, mas os envolvidos são tão espertos que nos fazem acreditar que não há excessos, apenas a vida de um bando de personagens perdidos que buscam lidar com os problemas que aparecem pelo caminho. Nesta busca por originalidade, acho que o mais notável é colocar um filme dentro do filme - que serve para revelar (em rede nacional) como as atitudes de Mick revelam que existe algo fora do eixo na família. Se o diretor tem seus méritos, o elenco também merece ser ressaltado. Amy Adams surpreende num papel bem diferente da moça comportada que vimos em seus outros filmes, Wahlberg alcança sua melhor atuação desde o longínquo Boogie Nights (1997), enquanto isso Melissa Leo e Christian Bale se tornaram os coadjuvantes papa-prêmios da temporada com direito a Oscar, prêmios de críticos, sindicatos e Globo de Ouro.  O Vencedor pode não ser um filme inesquecível, sua maior qualidade é a honestidade com que trata seus personagens entre as temáticas que o roteiro explora - ainda que esqueça de desenvolver alguns personagens pelo caminho (como o esposo de Alice e até mesmo as irmãs que são pouco mais do que um bando de figurantes desagradáveis).
O Vencedor (The Fighter/EUA-2010) de David O. Russel com Mark Wahlberg, Christian Bale, Amy Adams e Melissa Leo. ☻☻☻

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

FILMED+: Alta Fidelidade

Gordon: colocando as coisas em ordem biográfica.

John Cusack é um dos atores mais curiosos de Hollywood, começou sua carreira em comédias adolescentes na década de 1980 e aos poucos se envolveu em produções mais sérias, especialmente Os Imorais (1990) de Stephen Frears – onde vivia uma espécie de triângulo amoroso com sua noiva picareta (Annete Benning) e a mãe trambiqueira (Anjelica Houston) num brilhante clima noir dirigido por Stephen Frears. Se o filme chamou atenção com suas parceiras indicadas ao Oscar e com Cusack esquecido (o que serviu para que dissesse em entrevistas que não está nem aí para as premiações), pelo menos ele se tornou amigo de Frears e o escolheu para dirigir um dos seus melhores roteiros. Pois é, Cusack além de ator é roteirista (é dos mais competentes) já que é o responsável pela escrita do aclamado Matador em Conflito (1997) além deste divertidamente pop Alta Fidelidade (2000). Cusack comprou os direitos do best-seller de Nick Hornby sobre um homem transbordante de cultura pop e com mania de fazer lista dos cinco mais isso e os cinco mais aquilo. Rob Gordon (John Cusack, ótimo e indicado ao Globo de Ouro) é o proprietário de uma loja de discos e o filme começa quando ele é abandonado por sua noiva, Laura (a dinamarquesa Iben Hjejle) que está cansada de esperar que seu parceiro amadureça. Não que Gordon seja infantil como os personagens abobados de Adam Sandler, Gordon é muito articulado, bem entendido, mas parece viver dentro de um universo muito próprio e não percebe que existe uma hora para a vida alcnaçar, digamos, outro estágio, não se resumindo a saborear música pop e ficar aturando os clientes e vendedores excêntricos de sua loja (Jack Black e o ótimo Todd Louiso). Rob e Laura têm suas semelhanças e diferenças, mas uma gravidez coloca em questão o que pretendem fazer de suas vidas nos próximos anos. Ouso dizer que Cusack tem aqui sua melhor atuação e ao transferir a trama da Inglaterra para os EUA, ele evidencia que nasceu para ser Rob Gordon, sua desenvoltura é realmente impressionante, até esquecemos que está atuando – e interpretar um homem comum é mais difícil do que se imagina. Todo esse mérito fica ainda mais evidente quando Cusack precisa tornar interessante uma trama que flerta o tempo todo com um gênero extremamente feminino: a comédia romântica. Sem as embromações comuns ao gênero e com o olhar masculino sem as baixarias de Judd Apatow, o filme precisava do ator exato como protagonista e Cusack alcança uma atuação que dosa ironia, insegurança, humor e inteligência. Seja falando para câmera, pedindo uma trilha para Bruce Springsteen, listando os cinco maiores foras que já tomou na vida, ou até em momentos que beira o clichê (como os delírios de Laura na cama com um Tim Robbins cabeludo e esquisito) o cara dá conta do recado. Claro que a trilha sonora esperta (sugerida pela própria obra literária, registre-se) ajuda, assim como o elenco de apoio mais que eficiente - que ainda inclui (a sumida) Lilly Taylor, Catherine Zeta-Jones (como duas ex-namoradas), a bela (raramente vista) Lisa Bonet e a mana Joan Cusack. A direção de Stephen Frears (num território que raramente explora em sua carreira, mas que faz muito bem: a comédia) imprime um ritmo de narrativa descompromissado que equilibra bem o que há de alucinante e de realista urbano no filme. Todos esses elementos fazem de Alta Fidelidade uma ótima pedida sobre uma geração que conhecemos muito bem e que Nick Hornby se tornou um porta-voz.

Alta Fidelidade (High Fidelity/ Reino Unido-EUA/ 2000)de Stephen Frears com John Cusack, Iben Hjejle, Jack Black, Todd Louiso, Joan Cusack, Lisa Bonet, Catherine Zeta-Jones, Lilly Taylor, Tim Robbins e Bruce Springsteen.☻☻☻☻☻