segunda-feira, 12 de maio de 2014

DVD: Vai que Dá Certo + O Concurso

Vai que Dá Certo: quando tudo dá errado. 

Recentemente o Brasil foi apresentado a um novo grupo de jovens comediantes que ganharam fama com shows de stand up comedy e vídeos no youtube. Agregados e conhecidos sob o nome de Porta dos Fundos, os vídeos da trupe são campeões de audiência na internet e rendeu convites para vários trabalhos na TV, no entanto, diante da liberdade que a internet lhes proporciona, deixaram claro que era melhor continuar mais ou menos com o caminho que trilharam. Alguns podem até ser vistos em programas de TVs por assinatura, mas é o cinema que tem se mostrado uma plataforma de interesse para Fábio Porchat, Gregório Duvivier e sua patota. É verdade que eles ainda precisam saber utilizar seu brilhantismo para segurar uma história de hora e meia de duração, mas basta comparar os resultados alcançados com Vai que Dá Certo (2013) e O Concurso (2013) para ver que eles estão no caminho certo. Vai que Dá Certo é fruto da parceria de Porchat com o diretor Maurício Farias (um dos maiores responsáveis pelo sucesso do seriado A Grande Família), os dois deram o trato na história dos quatro amigos de infância que após uma festa caem na real de que a vida deles não anda muito bem. A maré de azar é capitaneada por Rodrigo (Danton Mello) que perde a mulher e o emprego logo em seguida, graças a esses fatos acaba caindo na lábia de Danilo (Lúcio Mauro Filho), que inventa um crime perfeito de assalto a um carro forte para que todos consigam tirar o pé da lama. Obviamente que o plano irá se desenrolar da pior forma possível e - a melhor sacada do roteiro - os amigos irão acumular dívidas ao invés de lucros com a empreitada. A história não chega a ser original, mas prende atenção quando os amigos se metem em confusões - que ainda envolvem um amigo que virou político (Bruno Mazzeo) e a Jaqueline (Natália Lage) menina gorducha que virou cobiçada pela turma. No entanto, o desenvolvimento da história não é notável, já que existem muitos diálogos que parecem soltos e cenas em que todo mundo falando alto numa histeria irritante incomoda um bocado. Em alguns momentos parece um filme amador, mesmo que conte com os talentos de Porchat e Duvivier como uma dupla de irmãos que não levam a mínima vocação para bandidos. A bagunça final consegue ser divertida, mas enquanto cinema ainda fica devendo. Melhor resultado alcançou O Concurso, uma chacota sobre o concorrido concurso para Juiz Federal a ser realizado no Rio de Janeiro. O filme aborda a trajetória de quatro concorrentes dias antes da famigerada prova. Tem o certinho funcionário de cartório chamado Bernardinho (Rodrigo Pandolfo), o gaúcho carregado de desconfiança que atende por Rogério Carlos (Fábio Porchat), o advogado malandro carioca de nome Caio (Danton Mello) e Freitas (Anderson Di Rizzi), um cearense que vê no concurso a saída para as dificuldades que enfrenta ao lado da esposa grávida (Carol Castro). O roteiro de LG Tubaldini Jr. investe em tudo que o preparo para o concurso pode ter de inusitado. Da compra do gabarito em negociação com traficantes, sessões num centro de umbanda, pendengas com drag queens vingativas e até uma artista de circo filha do atirador de facas com a contorcionista (vivida pela comediante Sabrina Sato) aparece para atrapalhar um dos candidatos. As piadas intermináveis sobre os estereótipos do roteiro rendem risadas até o final. Destaque para Porchat e seu personagem de trejeitos sutis que mostram que uma franga está prestes a ser solta a qualquer momento. Bem fotografado e de ritmo ágil, O Concurso é uma comédia bem cuidada tecnicamente com um elenco que não tem medo do ridículo - todo mundo tem aquele momento em que a vergonha precisa desaparecer do mapa, seja por uma prótese dentária ou uma corrida sem calças por aí. Tanto empenho custou 5 milhões de reais e rendeu quase quinze milhões nas bilheterias nacionais, parece bastante, mas Vai Que dá Certo rendeu quase vinte e nove milhões nos cinemas. O sucesso dos filmes ajudaram a consolidar a produção em massa de filmes de comédia rasgada no cinema nacional, embora alguns nem sempre sejam tão divertidos quanto imaginam.  

O Concurso: preparo inusitado para o grande dia. 

Vai que Dá Certo (Brasil-2013) de Maurício Farias com Fábio Porchat, Danton Mello, Lucio Mauro Filho, Natália Lage, Gregório Duvivier e Felipe Abib. ☻☻

O Concurso (Brasil/2013) de Flávio R. Tambellini com Danton Mello, Fábio Porchat, Rodrigo Pandolfo, Anderson Di Rizzi, Carol Castro e Pedro Paulo Rangel. ☻☻☻

sábado, 10 de maio de 2014

DVD: Sete Psicopatas e um Shih Tzu

Olga, Walken, Colin, Sam, Abbie, Tom e Woody: com quantos psicopatas se faz um filme? 

Por sua engenhosidade, o inglês Martin McDonagh tem um Oscar na estante de melhor curta de ficção por Six Shooter (2004), prêmio que lhe rendeu a repercussão necessária para dirigir seu primeiro longa metragem, o superestimado Na Mira do Chefe (2008), que lhe rendeu a indicação ao Oscar de roteiro original e  o Globo de Ouro de ator de comédia para Colin Farrell (aquele ator irlandês de espessas sombrancelhas que andou gastando seu talento em refilmagens como O Vingador do Futuro/2012 e A Hora do Espanto/2011). É interessante que o filme mais interessante que Farrell fez desde então seja o segundo longa de McDonagh, este Sete Psicopatas e um Shih Tzu. Maldosamente, o filme teve menos repercussão que o anterior, embora seja mais elaborado e com atuações mais marcantes. No entanto, entendo o motivo das reservas que alguns tiveram com o filme, já que em alguns momentos o diretor tropeça em sua própria pretensão narrativa. A história gira em torno de Martin (Farrell), roteirista de cinema que está tendo dificuldades para criar seu novo roteiro: Sete Psicopatas. Afim de subverter a ordem dos filmes americanos do gênero, Martin não consegue criar a história de seus sete personagens, assim apela para a ajuda do amigo Billy (Sam Rockwell) que lhe dá algumas sugestões na construção deles. Billy já seria um personagem interessante por si só, já que ajuda um senhor acima de qualquer suspeita, Hans (Christopher Walken, estupendo), a sequestrar cachorros para depois devolvê-los aos donos - depois deles divulgarem uma gorda recompensa para quem encontrar o cãozinho. Quando some o Shih Tzu do gangster Charlie (Woody Harrelson, ótimo), Hans torna-se o principal suspeito, mas existem outros interesses de Billy debaixo do sumiço do gracioso Bonny. McDonagh utiliza sua engenhosidade para costurar essa trama quase banal com os sete psicopatas do roteiro de Martin, que inspirados na vida real, acabam cruzando seu caminho em alguns momentos. Um quaker com sede de vingança, uma jovem negra sequestrada que se une ao namorado para assassinar serial killers, um vietnamita budista e um assassino que deixa cartas de baralho no local das mortes são alguns dos tipos curiosos que aparecem pelo roteiro. Dá para perceber que o diretor faz sua escrita sobre a própria história que assistimos e, a maior parte do tempo, faz com grande desenvoltura. O irônico é que enquanto costura suas tramas até o ponto em que os personagens imaginários revelam-se reais, o filme é de tirar o fôlego, depois que resolve virar "um filme francês" (nas palavras de um  dos personagem com delírios em volta de uma fogueira no deserto) o filme perde o ritmo bruscamente em situações aquém da tensão que se armava no início. Essa quebra no ritmo é até perdoável se não deixasse a impressão que McDonagh considera isso a grande sacada de sua história. Não é bem assim. Seu exercício de metalinguística funciona melhor quando é auto-crítico, como o momento em que reclama-se que a personagens femininas de Martin nunca apresentam profundidade (e percebemos que o diretor escalou um time feminino de primeira com Gabourey Sidibe, Abbie Cornish e Olga Kurylenko para pequenas participações que ficam pelo meio do caminho) ou quando relata-se uma cena de "tiroteio final" que sabemos que nunca acontecerá (embora possa ter passado pela cabeça de McDonagh). A certa altura tudo parece que é o filme que Guy Ritchie teria pensado após ver Adaptação (2002). O longa tem cenas de arrepiar entre o divertido e o sangrento, além de atuações vigorosas de Walken, Harrelson e Amanda Warren - a única personagem feminina de respeito e Sete Psicopatas e um Shih Tzu não deixa de ser uma evolução de seu criador como cineasta, agora só falta a humildade de não entregar tanto ouro antes da hora.

Sete Psicopatas e um Shih Tzu (Seven Psychopaths/EUA-2012) de Martin McDonagh com Colin Farrell, Sam Rockwell, Woody Harrelson, Christopher Walken, Tom Waits e Tom Waits. ☻☻☻☻

.Doc: Young at Heart

Young@Heart Chorus: vitalidade que rompe paradigmas. 

Faz tempo que queria assistir a esse documentário que acompanha o célebre coro de velhinhos de Northampton que cantam versões de clássicos do rock em suas apresentações. Sabia que a garganta deles era capaz de explorar sonoridades de bandas como Arcade Fire, Talkin Heads, David Bowie... No entanto, engana-se quem imagina que o mais interessante são as cenas de bastidores que exploram os conflitos dos cantores com seu maestro na escolha do repertório e os problemas que encontram para se adaptar (ou se apegar) a elas. Logicamente que é interessante ver o grupo desbravar os versos de canções dançantes como I Feel Good de James Brown ou a melosa  Fix You do Coldplay, mas o interessante mesmo é a forma como eles não desistem diante das dificuldades, seja em memorizar os 71 "can" encaixados de Yes, We Can Can que se tornou sucesso na voz do grupo Pointer Sisters ou (confesso que ri um bocado) quando o coordenador do grupo os desafia a criar uma versão para Schizophenia do Sonic Youth - com toda aquela sonoridade distorcida que é peculiar à banda de Kim Gordon & Cia (confesso que até eu desistiria). Mas essas dificuldades sônicas não se comparam aos problemas de saúde que alguns membros do coral encontram entre o início dos ensaios e o dia da estreia. É essa visão da vitalidade lutando contra um corpo que não consegue mais acompanhar seus anseios que torna o filme ainda mais interessante. No entanto, o filme não é fúnebre, pelo contrário, celebra a vida, a música, a amizade, os laços que só conseguem se fortalecer com o tempo (que vai embora aos poucos e tão rápido). Existe um grupo de personagens notáveis no filme - que alguns poderão rotular como "exemplo de vida", como se o recorte que nos é apresentado os fizesse se tornar "super sujeitos", quando o que os torna tão especiais é ser um grupo de pessoas comuns que não tem pudores ao ressignificar canções conhecidas como Dancing In the Dark de Springsteeen ou Forever Young de Bob Dylan diante de uma plateia formada por detentos boquiabertos. Acompanhar os destinos desse grupo de pessoas já seria um espetáculo, mas eles ainda são capazes de preencher Schizophrenia com arranjos vocais que tomam o lugar de guitarras barulhentas e cantar a um amigo falecido para que ele se faça presente diante de nossa memória de mero espectador. O filme Young At Heart (ou Young@Heart como podemos encontrar na Internet) até faz graça com alguns irônicos clipes de sucessos de apresentações anteriores do grupo, mas eles  se tornam até sem graça diante da história que preenche de significados canções que parecíamos conhecer tão bem - e de quebra, rompe com o estereótipo de um coral onde a média etária é de 81 anos. 

Young At Heart (Reino Unido-2007) de Stephen Walker e Sally George com Joe Benoit, Helen Boston, Louise Canady e Len Fontaine. ☻☻☻☻

Combo: Envelhescência

Já que os pequenos dependem dos adultos para ir aos cinemas e os adolescentes apreciam ver filmes em qualquer telinha tanto quanto no cinema, já estava na hora de Hollywood mirar em um público que andava esquecido. Sempre existiram filmes voltados para os mais maduros, mas só recentemente os filmes declaradamente voltados para eles ganharam status perante a indústria. É verdade que nem todos se tornam sucesso de bilheteria, mas costumam ser valorizados por bom elenco de veteranos (que nem sempre recebe atenção nas grandes produções) e temáticas que abordam dilemas comuns entre da faixa etária (o a vida sem os filhos, solidão, as lembranças, o passado, o presente, o futuro...). Nesse combo destaquei cinco produções que falam diretamente para esse público - mas que pode agradar qualquer faixa etária

05 Querido Companheiro (2012) Diane Keaton (68) e Kevin Kline (66) tem a vida alterada no dia em que resolvem adotar um cachorro abandonado. Por conta do canino a filha deles até se casa com um veterinário! O cenário do casório é a casa de campo dos pais que resolvem ficar mais um tempo ali com a companhia da tia Diane Wiest (66) e seu novo namorado Richard Jenkins (67). O problema é que por uma imprudência Kline perde o cachorro no meio do bosque. A busca pelo cão serve para que o casal coloque a relação sob o crivo do tempo e as ausências acumuladas (e o fato dele ser médico ajuda muito nas queixas). Filme de sessão da tarde - valorizado pelo premiado time de veteranos.

04 Alguém Como Você (2008) Depois de longo tempo servindo de coadjuvante em Hollywood, lembraram que o oscarizado Dustin Hoffman (76) é um dos melhores atores que eles tem à disposição. Famoso por inúmeros clássicos dos anos 1970, 1980 e 1990, Hoffman andava esnobado quando o chamaram para atuar nessa comédia romântica madura ao lado de outro talento oscarizado que andava esquecido na época: Emma Thompson (55). Por sua atuação de homem solitário, que encontra companhia para ir ao casamento da filha distante, o ator foi indicado ao Globo de Ouro de Melhor Ator de Comédia. Simpaticamente agridoce, o título original (Last Chance Harvey/A Última Chance de Harvey) merece atenção por não tratar seus personagens maduros como adolescentes. 

 03 O Exótico Hotel Marigold (2012) Se havia certa timidez em rotular uma produção voltada para os mais maduros, esse filme de John Madden acabou com essa palhaçada! Não é todo dia que vemos talentos como Judi Dench (79), Bill Nighy (64), Maggie Smith (79), Tom Wilkinson (66) e Penelope Wilton (67) juntos num mesmo filme. Como um grupo de aposentados que vão parar na espelunca indiana do título (administrada a duras penas pelo jovem exagerado Dev Patel) eles tem suas vidas transformadas de diferentes formas. O texto é cheio de boas intenções e o filme fez tanto sucesso que prepara-se uma continuação para 2015 com elenco anabolizada por Richard Gere (64) e David Straitharn (65).

02 RED (2010) Aposentados e Perigosos é um verdadeiro manifesto do segmento, já que serve para provar que os veteranos ainda dão conta de carregar um filme de ação e humor nas costas com bastante leveza. Quem tinha saudade de filmes como Máquina Mortífera não tem do que reclamar com o time de ex-agentes da CIA vivido por Bruce Willis (59), John Malkovich (60), Morgan Freeman (76) e Helen Mirren (68 -  o que prova como uma sessentona pode ser muito sexy) unindo forças contra uma conspiração que pode acabar com eles. Para ajudar, o filme ainda conta com o sumido Richard Dreyfuss (66) e Brian Cox (67). Sucesso nas bilheterias o filme teve uma sequência em 2013. Ah, o manifesto ganhou até uma versão troglodita no mesmo ano com Os Mercenários...

 01 Rugas (2011) Pouca gente conhece essa animação espanhola de Ignacio Ferreras baseado na graphic novel de Paco Roca, o filme é bastante emblemático ao abordar a amizade entre um grupo de idosos em um asilo a partir da chegada de Emílio (que conta com a ajuda dos amigos para disfarçar os sintomas de Alzheimer que começam a aparecer). Apesar do ambiente melancólico o filme consegue equilibrar sua narrativa sobre os dramas dos personagens (seus problemas, lembranças e trajetórias) com um humor refinado e um realismo surpreendente (eu não me assustaria se o filme ganhasse uma versão de carne e osso e ganhasse vários prêmios). Longe de querer dizer que o lugar dos atores desse combo é um azilo, Rugas está aqui por ser uma grata surpresa e sintetizar que os mais maduros são interessantes até em animações - um formato que é erroneamente associado aos pequeninos. 

terça-feira, 29 de abril de 2014

4EVER: Bob Hoskins

(26 de outubro de 1942 / 29 de abril de 2014)

Nascido na Inglaterra, Robert Williams Hoskins Jr. estreou no cinema em 1972 ficando associado rapidamente aos papéis de homens brutos, gangsteres e psicóticos, chegando a ser indicado ao Oscar pelo personagem do clássico Mona Lisa (1986) de Neil Jordan. Não satisfeito com o estereótipo, Bob começou a interpretar personagens mais leves e cômicos como o detetive Eddie Valiant em Uma Cilada Para Roger Habbit (1988) e Smee em Hook - A volta do Capitão Gancho (1991). Hoskins se aposentou em 2012 ao descobrir que possuía doença de Parkinson logo após de participar de filmes como Branca de Neve e o Caçador (2012) e Revolução em Dagenham (2010). Hoskins faleceu vítima de complicações de uma pneumonia aos 71 anos.  

segunda-feira, 28 de abril de 2014

DVD: Sem proteção

Redford e Jenkins: manchas do passado na militância. 

Faz tempo que Robert Redford tinha aquele rosto perfeito que provocava suspiros na plateia, no entanto, aos 77 anos ele continua trabalhando com fôlego. Ele sabe que seu nome já está escrito na história do cinema e pode relaxar em frentes variadas. Se ele ainda tem prestígio suficiente para carregar um filme nas costas com Até o Fim (2013) ele também pode chamar atenção numa participação especial em Capitão América 2 ou por dirigir filmes como esse Sem Proteção. Em seus últimos filmes como cineasta, Redford mostra-se mais politizado, motivando discussões em torno do "discurso dominante" sobre histórias de prismas variados. Foi assim com o fiasco Leões e Cordeiros (2007) sobre as implicações da guerra no Afeganistão no congresso americano, com o elogiado Conspiração Americana (2010) sobre os meandros da morte de Abraham Lincoln e Sem Proteção prefere abordar um grupo de militantes que na década de 1970 tornou-se procurado pelo FBI por um assalto a banco que causou a morte de um homem. Os membros do grupo militante conhecido como Weather Underground desapareceram do mapa sendo incorporados à sociedade com identidades variadas. Quando Sharon Solarz (Susan Sarandon), uma pacata dona de casa, é presa, uma série de ligações a relaciona com o advogado Jim Grant (Robert Redford). As ligações entre os dois personagens mostram-se mais profundas conforme um jovem jornalista (Shia Labeouf) começa a investigar de onde os dois se conhecem, não demora muito para que descubram que Jim na verdade era o ativista Nick Sloan, que viveu no anonimato por 30 anos, casando-se e criando uma filha, que agora completa doze anos. Ciente da encrenca iminente, Nick corre em busca de seus ex-companheiros para encontrar provas que possam reconciliá-lo com o passado. Redford faz um filme bastante convencional, que torna cansativa a jornada em busca dos amigos do protagonista. É verdade que o time de veteranos é do mais respeitável, além de Redford e Sarandon o time de ativistas aposentados ainda conta com Richard Jenkins, Nick Nolte e Julie Christie - e  os personagens ainda encontram Stanley Tucci, Brendan Gleeson e Chris Cooper pelo caminho - mas não há talento que dê conta de uma narrativa de encontros e surpresas a cada dez minutos. A partir de certo momento o filme parece se estender demais nesse formato e resta ao público saborear as discussões entre os personagens. Redford tem a sabedoria de não tomar partido no tema espinhoso que está abordando, mas consegue abordar a militância sob diversos focos para não tornar seus personagens em simples heróis ou vilões. Sabendo que a ideologia que os movia tornou-se mais complexa com o passar do tempo, o roteiro ainda explora o papel da imprensa na forma como lida com suas fontes e informações e, principalmente, o efeito do passado no presente dos personagens. Sharon Solarz diz que os filhos mudaram sua forma de ver o mundo, Nick tem em sua relação com a filha um ajuste de contas com o passado... talvez Redford encontre na trama do livro de Neil Gordon uma forma de expressar sua preocupação em deixar um legado, uma marca no mundo.  Nesse ponto o filme funciona, o problema é a parte da investigação (no qual gasta mais tempo) já que o jornalista vivido por Shia Labeouf consegue estabelecer a lógica dos passos de Nick com uma facilidade impressionante - enquanto o FBI levou 30 anos para fazer o mesmo. 

Sem Proteção (The Company You Keep/EUA-2012) de Robert Redford com Robert Redford, Shia Labeouf, Julie Christie, Susan Sarandon, Nick Nolte, Stanley Tucci, Terence Howard, Richard Jenkins, Chris Cooper e Anna Kendrick. ☻☻☻

DVD: A Face Oculta

Cillian e Susan: "Psicose" light. 

O diretor estreante Michael Lander merecia melhor sorte com seu longa de estreia, A Face Oculta foi rejeitado pelos distribuidores e foi lançado somente em DVD em vários países (incluindo os EUA). Se chegasse aos cinemas, possivelmente, o filme teria rendido a Cillian Murphy e Ellen Page indicações a prêmios por suas atuações em papéis complicados. Cillian interpreta o bancário John Skillpa, que vive na pequena cidade de Peacock no estado de Nebraska. Apesar de preferir passar-se por invisível, John é visivelmente tenso, cheio de tiques e Cillian consegue construir um personagem que aprendeu a sufocar suas intenções pagando um alto preço por isso. Mas o que um sujeito aparentemente tão comum poderia esconder? Isso descobre-se quando um trem desgovernado atravessa o seu quintal enquanto John pendura roupas no varal. Não haveria problema algum se John não gostasse de se vestir de mulher enquanto cuida da casa... nos minutos em que ficou inconsciente perante o acidente, John é visto por vários vizinhos que acreditam que o que viram era a esposa dele. Esse é o ponto de partida para um filme estranho e sombrio sobre um personagem que poderia sofrer de dupla personalidade (ou não?). Mais do que falar sobre a provável homossexualidade do personagem, o filme mergulha na mente de seu protagonista e seu dilema em ter que lidar com Emma, sua personalidade feminina. Diante das situações que o trem gera na casa de Skillpa, Emma começa a aparecer cada vez mais, mais até do que John - e isso o aborrece bastante. Se John é arredio e antissocial, Emma é seu total oposto. No início ela é bastante reservada, mas conforme percebe que consegue ser aceita por pessoas como a primeira dama da cidade (Susan Sarandon), ela torna-se mais forte do que John. Colabora ainda para que Emma domine a cena a aparição de Maggie (Ellen Page), uma jovem sofrida que teve um filho com John e que precisa de dinheiro para as despesas - e que o instinto maternal de Emma pretende ajudar. Lander faz um filme cria uma atmosfera bastante opressora e consegue jogar com bastante competência com sua maior referência, o clássico Psicose (1960) de Hitchcock. Além do protagonista estranho, a maior influência do filme está na presença fantasmagórica da mãe de John, uma mulher capaz de atrocidades e que, de fato, colaborou para a personalidade dissonante de seu filho. A Face Oculta pode irritar alguns com sua narrativa lenta e a presença de Cillian Murphy querendo convencer que todos acreditam que, quando vestido de Emma, ele é uma mulher, mas o filme consegue envolver em sua estranheza que culmina num final aberto que é quase uma prisão para o personagem. Vale lembrar que Murphy já se travestiu em Café da Manhã em Plutão (2005) e aqui ele apresenta uma atuação totalmente diferente. 

A Face Oculta (Peacock/EUA-2010) de Michael Lander com Cillian Murphy, Ellen Page, Susan Sarandon, Bill Pullman e Josh Lucas. ☻☻☻☻

domingo, 27 de abril de 2014

N@CAPA: Noé

Russel Crowe contempla o dilúvio do filme de Aronofsky. 

A Capa do mês de abril foi do novo filme de Darren Aronofsky,  Noé, que era um dos filmes mais esperados do ano e, desde sua produção, sabia-se que geraria polêmicas pela abordagem do personagem bíblico. Apesar da crítica mundial ter se dividido nas opiniões sobre o filme - e o público (ainda) se surpreender com o cinema de Aronofsky, o filme que custou 125 milhões (o orçamento mais inchado do diretor) já arrecadou quase isso somente nos cinemas americanos. Sem se contentar em fazer um filme religioso, o diretor criou um filme que fala muito sobre problemas do nosso tempo - a exploração dos recursos naturais, a religiosidade cega, o individualismo exacerbado - e traz belas cenas pesadelescas orquestradas pelo cineasta (afinal, essa é sua especialidade). O filme aborda as temática favorita do diretor (a sensação de viver no limite) e decola quando aborda o lado mais sombrio dos personagens. Vale lembrar que foi por conta do projeto que Darren abandonou a produção de Wolverine 2 (que faria em favor ao amigo Hugh Jackman) e que jamais o filme seria possível sem o sucesso de Cisne Negro (que arrecadou mais de 200 milhões pelo mundo, tendo custado somente 13 milhões). Ainda assim, o filme teve vários problemas para chegar ao corte final, mas entre corta daqui e retira dali o filme chegou aos cinemas envolto de grandes expectativas (e as polêmicas só ajudaram na publicidade). 

Na Estante: A Culpa é das Estrelas

A Culpa é Das Estrelas de John Green é um desses livros em que subitamente parece estar em toda parte. Lembro quando o livro foi lançado no Brasil em 2012 e uma resenha na mídia me chamou atenção por se tratar de um romance entre dois jovens com câncer. Era uma época estranha, onde uma série de produções procuravam ver com bom humor a cruel doença. Talvez por ser mais ou menos a mesma época dos filmes O Ruído do Gelo (2010) e 50% (2011), além da série The Big C (2010-2013), o livro não motivou que eu o lesse naquele exato momento - talvez eu mesmo devesse digerir meus preconceitos com relação à uma abordagem menos trágica ao assunto. Foi na minha visita à Bienal do Livro do ano passado que me rendi ao livro. Terminei de acompanhar a saga de Hazel Grace e Augustus Waters no mês passado e fiquei impressionado com a capacidade de John Green tratar de forma leve a história de personagens tão jovens lidando com a morte à espreita. Sem fazer dramalhão, Green tem a habilidade necessária para temperar o romance de seus personagens com bastante cultura pop. Eles sempre mencionam games, livros, estrelas de cinema (o livro sempre tenta criar uma semelhança de Hazel com Natalie Portman), bandas... enfim, seus personagens são jovens e se comportam como tal -  e por essa identificação o livro agradou tanto e está prestes a ganhar sua versão no cinema. O livro não é brilhante, mas cria truques interessantes que funcionam bem na cabeça do espectador, seja a sensação de que Hazel (que aos 16 anos tenta lidar com a metástase no pulmão gerada por um câncer de tireóide) e Augustus (vítima de Osteosarcoma) poderão falecer a qualquer capítulo ou a obsessão de Hazel com o destino de uma personagem de seu livro favorito (que a leva a conhecer o autor da obra) que revela muito de si mesma. O mais interessante é que Green não cria vítimas em seu livro, Hazel e Augustus tem suas qualidades e defeitos, são adolescentes que ainda constroem sua identidade e o olhar sobre o mundo, têm passagens de rebeldia, desobediência, estranhamentos... e ficarei feliz se o filme dirigido por Josh Boone (que antes realizou Ligados Pelo Amor/2012 com a estreia sempre adiada no Brasil) conseguir manter essas características que sempre afastam dos personagens a pecha de "coitadinhos" (coisa que Hazel e Augustus detestam). Simpático e melancólico, a versão cinematográfica do filme chegará aos cinemas brasileiros em 05 de junho de 2013 e trará um elenco inspirador formado por Shailene Woodley (Hazel), Ansel Elgort (Augustus), Laura Dern (na pele da atenciosa mãe de Hazel) e Willem Dafoe na pele de um autor cultuado por Hazel até que... bem, melhor ler o livro - nem que seja para comparar com o filme. 

A Culpa é das Estrelas (The Fault in our Stars) de John Green, tradução de Renata Pettengill. Editora Intrínseca, 2012.

Shailene e Ansel: Hazel & Augustus no cinema.