quinta-feira, 9 de junho de 2011

CATÁLOGO: Bastardos Inglórios

Fassbender e Diane: atuações vigorosas na guerra de Tarantino 

Acho que vale a pena destacar o filme que colocou Michael Fassbender (o jovem Magneto de X-Men Primeira Classe) no mapa hollywoodiano e que de quebra é um dos melhores filmes do diretor Quentin Tarantino. Inglorious Basterds era um filme que eu mesmo acreditava que nunca seria feito. Desde que estourou mundialmente com a Palma de Ouro em Cannes por Pulp Fiction (1994) este era o filme que QT começava a preparar. Mais de uma década depois ele finalmente ficou pronto e, não por acaso, foi exibido pela primeira vez em Cannes. A crítica se dividiu entre elogios e críticas sobre a fantasia do diretor sobre o holocausto - não que fosse uma comédia como a realizada por Roberto Benigni em A Vida é Bela (1997, o qual eu detesto), mas por exibir uma leitura completamente original sobre as mazelas provocadas pelo nazismo na Europa. Depois de Cannes o filme voltou para a edição e o resultado estreou muitos meses depois. Em Basterds não há campos de concentração, mas a tensão anti-semita e o sentimento de vingança sobre o clima de guerra perpassa todas as cenas. Ajuda muito também o elenco espetacular que o diretor conseguiu reunir para contar a história insusitada de um grupo de soldados americanos com a missão de caçar nazistas e - se possível - matar Hitler. Só para se ter ideia, o nome no alto dos créditos é de Brad Pitt (como o caricato líder dos Bastardos - papel que seria de Michael Madsen), mas ele parece coadjuvante de atores europeus em atuações inesquecíveis. A começar pela francesa Mélanie Laurent que vive a heroína Shosana, a sobrevivente de uma família dizimada por nazistas em seu próprio lar e que tem a chance de se vingar do oficial mandante do massacre, o escorregadio Hans Landa (o austríaco Christoph Waltz que levou para casa todos os prêmios de coadjuvante naquele ano - e o de melhor ator em Cannes). Três anos após o massacre Shosana possui um cinema, que por um desses acasos do destino (leia-se roteiro), acaba sendo o espaço escolhido para marcar a premier de um filme alemão de divulgação nazista - estrelado por um herói de guerra que apaixona-se por ela (o alemão Daniel Brühl). Vale ressaltar que a premier irá contar com o alto escalão no Reich e seu plano tem tudo para dar certo. Paralelamente conhecemos o grupo de soldados americanos judeus com o mesmo sentimento de vingança, mas estes personagens são mais atrapalhados do que eficientes. Os planos de Shosana e dos Bastardos irão se cruzar por conta da atriz Bridget Von Hammersmark (Diane Krugger, que nunca apareceu tão bonita e tão boa atriz numa tela). Tarantino embaralha esses dois planos que convergem para uma mesma noite com muita eficiência e alguns cacoetes que poderiam ter perecido na ilha de edição (a cena de Eli Roth saindo da caverna com o taco de beisebol poderia ter ficado de fora, assim como a participação arrastada de Mike Miyers), mas QT apresenta-se em plena forma nas cenas mais difíceis. A cena inicial é de tirar o fôlego e faz Shosana ganhar nosso coração nos primeiros minutos, da mesma forma, a cena da discussão na taberna com (os atores alemães) Michael Fassbender, Til Schweiger e Diane Krugger é espetacular sendo um dos melhores momentos do cinema tarantiniano. Mas nada se compara ao ápice da narrativa: a execução do plano de Shosana. O diretor alcança a perfeição na execução e na tensão que cresce na plateia. No fim das contas, mais do que a pergunta de que se vale a pena combater o mal utilizando as mesmas armas que ele, fica a impressão que Tarantino queria experimentar uma temática (o holocausto) dentro de duas linguagens diferentes. Bastardos busca o equilíbrio de uma narrativa americana (do espetáculo) e a européia (a intimista) e não precisa nem dizer que durante a sessão a parte europeia ganha de lavada. Quando a sessão termina o diretor declara que está diante de sua obra-prima. Não sei se é correto, mas com certeza, Bastardos Inglórios está entre os melhores filmes do diretor, sendo que trouxe de volta o Tarantino que sabe digerir diversas referências e construir uma obra original e que exala ousadia em seu texto e formato. Pelo caminho da ficção, Tarantino reescreve a história mundial - não por acaso num cenário de cinema - e talvez por isso considere que depois desta obra, a temática da Segunda Guerra Mundial não fará mais sentido. Será?

Bastardos Inglórios (Inglorious Basterds/EUA-Alemanha - 2009) com Brad Pitt, Mélanie Laurent, Diane Krugger, Michael Fassbender, Til Schweiger, Eli Roth e Daniel Brühl. ☻☻☻☻

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Ganhadores MTV MOVIE AWARDS

Chloe Moretz: O maior acerto do Movie Awards 2011

Me recuso a colocar aqui fotos de Crepúsculo ganhando prêmios (de CISNE NEGRO e A ORIGEM!!! SACRILÉGIOOOOO!). Eu nem apostei nos candidatos ao Movie Awards (já que todo mundo sabia que a insossa Bella & Cia iriam levar para casa os prêmios de maior prestígio - ou pelo menos o que sobrou dele depois das outras lavadas da saga vampiresca nas edições anteriores). Preferi sinalizar os meus favoritos (devidamente marcadas com smiles). Tive três acertos e fiquei mais feliz em ver Chloe Moretz sendo consagrada perante o público teen. Houve quem ficasse desconfiado que a garota mais cool de Hollywood não emplacaria depois do fracasso da versão americana de Deixe Ela Entrar, mas vai ser difícil esquecer a menina com sede de vingança na saga pancada de Matthew Vaughn. Agora vamos ver se o estúdio se empolga e faz logo a continuação de Kick Ass! Afinal de contas, mais dois capítulos de Crepúsculo já estão garantidos e... ninguém merece!!! Engraçado mesmo é ver Tom Felton que fez N-A-D-A no último Harry Potter ser eleito o pior vilão!
  
MELHOR FILME
A Saga Twilight: Eclipse

MELHOR ATRIZ
Kristen Stewart - “A Saga Twilight: Eclipse”

MELHOR ATOR
Robert Pattinson - “A Saga Twilight: Eclipse”

MELHOR REVELAÇÃO
Chloë Grace Moretz - “Kick-Ass”

MELHOR ATUAÇÃO CÔMICA
Emma Stone - “A Mentira” ☻

MELHOR FALA DE UM FILME
 Alexys Nycole Sanchez - “Gente Grande”: “Eu quero ficar bêbada com chocolate” ☻

MELHOR VILÃO
Tom Felton - “Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 1″

MELHOR LUTA
Robert Pattinson vs. Bryce Dallas Howard e Xavier Samuel - “A Saga Twilight: Eclipse”

MELHOR BEIJO
Kristen Stewart e Robert Pattinson - “A Saga Twilight: Eclipse”

MELHOR MOMENTO “P*TA M*RDA”
Justin Bieber - “Justin Bieber: Never Say Never”: Performance

MELHOR ATUAÇÃO ASSUSTADA
Ellen Page - “A Origem”

MELHOR ESTRELA QUEBRA TUDO
Chloë Grace Moretz - “Kick-Ass” ☻

PODERES ESPECIAIS - 3ª Edição

Nem só de heróis de histórias em quadrinhos vivem os personagens cinematográficos com habilidades inexplicáveis para um ser humano. Esses seres poderosos disfarçados de seres humanos normais pensam que nos enganam sob as identidades de:

Rachel Marron (O Guarda-Costas)
Poder: voz super-sônica
Difícil imaginar um poder tão perturbador quanto o de Rachel Marron, ex-cantora e atriz ganhadora do Oscar, Rachel ficou ainda famosa por manter um affair com o seu guarda-costas, mas as coisas ficaram insustentáveis quando ela percebeu que não precisava de ninguém para defendê-la - já que era só utilizar sua voz super-sônica para destruir os seus oponentes. Suas cordas vocais são capazes de alcanças notas altíssimas provocando a surdez, a inconsciência, o estouro de tímpanos ou vidros quebrados. Depois de ter sofrido na pele todo tipo de atentado sem originalidade, Marron largou o showbusiness e dedica sua vida a proteger os oprimidos de ouvidos resistentes!

O Narrador (Clube da Luta)
Poder: Indolor
O fundador do Clube da Luta sabe exatamente o valor de manter sua identidade secreta em sigilo absoluto. Talvez por isso deixe o trabalho sujo para Tyler Durden - estanho que seu maior inimigo acabe sendo sua própria criação... ops! Melhor não entrar em detalhes. Por não ter o nome divulgado ele é conhecido como O Narrador (por contar as coisas mais estranhas sobre a sociedade secreta de marmanjos que adorava sair na pancada). Ele pode não ter obtido sucesso ao tentar evitar o colapso nas redes de cartão de crédito no fim do século passado, mas sua capacidade de não sentir dor (ele até se soca nas horas vagas para testar seus limites) tem sido muito útil no confronto seus os oponentes. Como ninguém é de ferro ele tem até uma namorada maluquete e devotada: Marla Singer (uma das sujeitas mais complexas que já cruzaram o caminho de um homem).

Mulher Invisível (A Mulher Invisível)
Poder: Invisibilidade
Amanda começou os seus serviços de pura farra no imaginário de um publicitário em crise existencial, mas desde então percebeu que poderia ocupar seu tempo em outras missões. Obviamente que sua vida pessoal continua sendo meio confusa (ganhou até um programa de televisão onde disputa a mente de André com uma mulher de carne e osso), mas para as missões mais inusitadas ela ainda é a melhor aposta. Basta a beldade infectar a mente de um homem para simplesmente fazer o que bem entender com ele. André só não pode descobrir, senão pode ficar enciumado!

Cooler (Quebrando a Banca)
Poder: Transmissão de azar
Bernie Lutz é um sujeito simpático, educado e até meio tímido, o problema é o seu poder especial de transmitir azar para quem esteja por perto. Talvez por isso sua família seja um tanto confusa e os namoros sempre enfrentem dificuldades. Sua profissão por um tempo não foi das melhores (mas diante de sua capacidade inexplicável era bem coerente). Lutz trabalhava num cassino e ficava sempre por perto dos apostadores mais sortudos. Depois de alguns problemas profissionais acredita-se que o cara esteja morto - mas os mais antenados dizem que Lutz anda fazendo alguns serviços para a CIA infiltrado em países que representam alguma ameaça ao governo dos EUA. Seja como for a CIA foi esperta em mantê-lo longe de sua sede...

A Noiva (Kill Bill)
Poder: Habilidade Física
Beatrix Kiddo sofreu todo tipo de trauma e maus tratos nas mãos de seus amigos matadores profissionais do DIVAS e armou um plano de vingança em que se mostrou uma samurai das mais eficientes. Sua disciplina e velocidade nos golpes é reconhecida internacionalmente, da mesma forma que sua força e obstinação. Ela é capaz de derrotar sozinha dezenas de oponentes e ainda arrancar o olho de uma inimiga sem que esta se dê conta. Isso sem falar nos seus dotes em fugir do próprio caixão em que foi enterrada viva. Pode até parecer que A Noiva não possui poder especial algum, mas você acredita mesmo que uma pessoa normal conseguiria lutar daquele jeito?

domingo, 5 de junho de 2011

Na Tela: X-Men Primeira Classe

Os primeiros membros do Instituto Xavier: Sem respirar. 

Com o final de X-Men: O Conflito Final a Fox se viu numa rabuda. Primeiro que seus atores haviam realizado um contrato para três filmes, sendo assim, continuar com as aventuras de Xavier & Cia demandava uma grande dor de cabeça para conciliar agendas e cachês (para se ter ideia, foi isso que levou o Spider Man4 de Sam Raimi para o saco). Por outro lado seria um verdadeiro suicídio financeiro abandonar a franquia do século XXI mais lucrativa do estúdio. A solução ideal foi logo dada: explorar o universo de cada personagem em aventuras solo. Daí nasceu X-Men Origens: Wolverine (...) de resultado regular e as promessas de um solo de Magneto (enquanto as especulações sobre o filme do Fera eram esmagadas pela repercussão pífia do mutante azul na terceira aventura mutante). E agora o que fazer? Bryan Singer na ressaca ao boicote de Superman Returns (2006) retornou à franquia, mas pouco depois dizia estar interessado somente em produzir e roteirizar uma nova aventura. Quando o projeto começou a tomar forma, X-Men First Class era menos uma promessa de estilo do que o atestado de que a Fox estava diposta a contar a origem de seus personagens. Ninguém ainda admitiu, mas o novo fime de X-Men tem o maior jeitão da aventura solo de Magneto e sua inevitável abordagem da amizade com Charles Xavier - só para dar uma forcinha misturaram isso aos primeiros membros X-Men (que nas HQ eram Jean Grey, Homem de Gelo, Fera, Ciclope e Anjo - ou seja, personagens que apareciam nos outros filmes). Qual o problema disso? Aparentement nenhum, já que a história de Magneto é o que o filme possui de mais bem explorado. O filme retoma a saga dos mutunas no momento inicial da primeira aventura no cinema, com Magneto sofrendo maus tratos num campo de concentração e  descobrindo seus poderes. A isso intercala a vida do bem nascido Charles Xavier e seu relacionamento com Raven, que mais tarde será Mística. Toda a trama se move em torno de Magneto, o interesse nazista pelos seus poderes, seus traumas e o crescente desejo de vingança quando adulto (com direito à interpretação sempre vigorosa de Michael Fassbender). É esse desejo de se vingar do oficial nazista que assassinou sua mãe que move a trama e o faz conhecer Xavier (o sempre confiável James McAvoy). Os dois se tornam amigos e se unem para destruir o tal nazista, que agora é conhecido como Sebastian Shaw (Kevin Bacon), dono do Clube do Inferno e que possui uma quadrilha de mutantes mal intencionados (que conta com a Emma Frost de January Jones que começa e termina o filme com a mesma cara). Xavier e Magneto acabam recrutando jovens mutantes para sua equipe: Mística (Jennifer Lawrence), Destrutor (Lucas Till), Angel (Zoe Kravitz), Fera (Nicholas Hoult), Banshee (Caleb Landry Jones) e Darwin (Edi Gathegi). Obviamente que conta pontos a forma como explora a origem desses personagens (sem ser totalmente fiel à HQ) usando fatos históricos (como a crise dos mísseis em Cuba) determinantes para o futuro que se desenha para os mutantes. Estão ali as primeiras divergências entre Charles e Magneto, as inseguranças de Mística com sua aparência (e o esboço de um romance com Fera), a origem da sala de treinamento e brindes para fãs (como a lendária Moira McTaggert, a aparição de Wolverine e Rebecca Romjin como a Mística madura). No entanto Matthew Vaughn (que mostrou toda sua eficiência em filmes de heróis com Kick-Ass no ano passado) tem a tarefa ingrata de lidar com um roteiro inchado de informações. O resultado é um filme que não respira com muita ação e efeitos especiais, mas sem muita vida própria. Concordo que é interessante construir ligações com os filmes anteriores, mas do jeito que aparece o filme nunca sai da sombra dos anteriores. Quando consegue (em sua última meia-hora) a coisa já está perto de acabar e temos a exata sensação do que o filme poderia ter sido se houvesse deixado as pausas dramáticas que não sobreviveram à ilha de edição (acredito que o lançamento em DVD ou Blu-ray será apinhado de cenas deletadas). Bom mesmo é que apesar desses deslizes o filme funciona (especialmente pelas ótimas atuações de Fassbender, McAvoy e Lawrence) e deve garantir uma nova trilogia para os mutantes - só espero que no próximo Vaughn tenha tempo de respirar.     

X-Men: Primeira Classe (X-Men: First Class/EUA-2011) de Matthew Vaughn com Michael Fassbender, James McAvoy, Jennifer Lawrence, Kevin Bacon, January Jones, Nicholas Hoult e Jason Flemyng. ☻☻☻☻

sexta-feira, 3 de junho de 2011

MOMENTO ROB GORDON: A Primeira Classe dos X-MEN

Sem os atores conhecidos e consagrados da saga mutante o filme de Mathew Vaughn apelou para nomes em ascenção que precisam convencer na pele dos personagens dos quadrinhos. Você já deve ter ouvido falar de:

5 January Jones
Musa da série Mad Men, Jones tem aqui a sua chance de se tornar uma sex symbol da sétima arte. Afinal de contas quem conhece Emma Frost dos quadrinhos sabe que os trajes da Rainha Branca do Clube do Inferno são bem... digamos... convidativos. Antes do sucesso do seriado a atriz já aparecia em filmes assinados por gente importante, como Full Frontal (2002) de Steven Soderberg,  Simplesmente Amor (2003) de Richard Curtis  e Três Enterros (2005) de Tommy Lee Jones - onde tem sua melhor atuação. Recentemente apareceu nas telonas ao lado de Liam Neeson em Desconhecido (2011), mas encarnar a gélida Frost pode dar uma guinada em sua carreira que já conta com duas indicações ao Globo de Ouro (por Mad Men).

4 Nicholas Hoult
Hoult começou cedo (doze anos) no cinema ao lado de Hugh Grant em Um Grande Garoto (2002) onde fazia troça de si mesmo por não ter o talento dramático do garoto de O Sexto Sentido (Haley Joel Osment). Auto-veneno à parte, Hoult depois apareceu já crescidinho em O Sol de Cada Manhã (2005) ao lado de Nicholas Cage e os elogios lhe renderam um papel fixo no cultuado seriado 'briteen' Skins (2007-2008) - além de campanhas publicitárias alavancadas por Tom Ford. Quem diria que aquele molequinho iria virar modelo? Ford gostou tanto do trabalho do rapaz que o escalou para ser o aluno que flerta com Colin Firth em Direito de Amar (2009). Pelo papel, Hoult concorreu ao BAFTA e ganhou papéis em superproduções: Fúria de Titãs (2010, onde foi desperdiçado), o remake de Mad Max previsto para o fim do ano e o novo X-Men onde interpreta o Fera. Onde está  Joel Osment mesmo?  

3 Jennifer Lawrence
Dificilmente você não ouviu falar de Jennifer nos últimos meses. Depois da entrega do Oscar a loura virou musa com seu vestido vermelho e que motrava que ao contrário de suas colegas contemporâneas (tem vinte e um anos) ela tem muito mais carne do que ossos. Rapidamento foi rotulada de ser uma estrela à moda antiga, com corpão, talento e glamour. Talento já sabiam que ela tinha, já que em seu primeiro papel importante, em Vidas que se Cruzam (2009) de Guillermo Arriaga, já foi premiada em Veneza. Mas tudo ganhou maior magnitude quando Sundance se rendeu ao seu talento em Inverno da Alma (2010) pelo qual recebeu uma indicação ao Oscar pelo papel da adolescente que carrega as mazelas da família nas costas. Lawrence tem tudo para deslanchar no papel de Mística (em pensar que o papel sugere que ao crescer ela será Rebecca Romjin... que responsabilidade).    

2 James McAvoy
Das estrelas novatas de X-Men Primeira Classe, McAvoy deve ser o mais conhecido. Tanto pelos adolescentes (foi o chifrudinho Mr.Tumns no primeiro Crônicas de Nárnia/2005), como pelos adultos (foi o médico de O Último Rei da Escócia/2006), pelas mulheres em geral (foi o herói romântico de Desejo e Reparação/2007 e Amor e Inocência/2007)  e até os brucutus devem lembrar dele (foi o assassino desajeitado de O Procurado/2008). Claro que McAvoy prefere os papéis sérios (como o feito no recém-estreado A Última Estação ao lado de Helen Mirren), mas sabe que o convite para ser o jovem Professor Xavier não aparece todo dia. O ator escocês já deu mostras de que é capaz de carregar um filme nas costas e isso é muito bem vindo no nível de risco em que este filme dos mutantes se situa.

1 Michael Fassbender
Ok, Fassbender não é o mais famoso da lista, mas é o que possui maiores responsabilidades no filme - já que encarna Magneto, ou melhor, o Sir Ian McKellen quando jovem. Primeira Classe tem resquícios do roteiro da aventura solo de  Magneto e por isso mesmo dever ter maior foco no personagem que muitos consideram o vilão favorito da HQ. Fassbender ficou conhecido depois de encarnar o prisioneiro em greve de fome em Hunger (2008) - que se fosse menos pesado poderia ter lhe rendido os maiores prêmios do cinema. Antes o ator havia aparecido entre os descamisados de 300 (2006)  Michael tem 34 anos e nasceu na Alemanha e ganhou vários créditos entre o público em sua tensa cena na taberna de Bastardos Inglórios (2009) onde toma o filme para si (e depois queremos ainda mais). Pois é, Fassbender tem tomado cada vez mais filmes para si (tanto que tem seis filmes prestes a estrear) e com X-Men não deve ser diferente (ainda mais sem Wolverine pelo caminho). 

CATÁLOGO: Trilogia X-MEN


X1: Inspirado em Luther King e Malcolm X.

Bryan Singer tinha dois filmes de respeito no currículo (Os Suspeitos/1995 e O Aprendiz/1998) quando topou dirigir a adaptação dos mutantes da Marvel para a telona. Uma decisão que até eu estranhei, já que ao contrário de hoje, os filmes de super-heróis eram projetos muito arriscados depois da lambança que Joel Shumacher fez com Batman & Robin (1997). Quando colocaram os olhos na primeira aventura cinematográfica de X-Men (2000) perceberam que Singer colocava os filmes baseados em HQ em outro parâmetro. Marcado pelo realismo e um roteiro sólido o princípio do diretor nortearia o trabalho de outros que se aventurassem pelo gênero (incluindo Chris Nolan e seu Batman), ou seja,  não fazer uma adaptação de  HQ, mas uma obra cinematográfica. Trocando em miúdos, o cara respeita a obra em que se inspira, mas toma liberdade de alterar alguns aspectos para que a história tenha maior fluência enquanto cinema - afinal, são linguagens artísticas bem diferentes. O grande acerto de Bryan e seus parceiros no roteiro foi construir toda a trama em torno do preconceito contra os mutantes (sujeitos com desajustes genéticos que possuem características especiais) usando uma analogia com um fato histórico: a Segunda Guerra Mundial. E neste ponto obscuro da história que conhecemos o jovem Magneto que teme que aquela situação se repita. Este temor o colocará em oposição aos anseios de Charles Xavier e o futuro irá se encarregar de colocar Magneto (Ian McKellen, ótimo como sempre) e Patrick Stewart (Patrick Stewart) em lados opostos na busca de um mesmo interesse. Enquanto o primeiro é a favor da violência na defesa dos mutantes, o segundo é um pacifista que acredita na convivência entre mutantes e seres ditos "normais" numa sociedade mais justa. No filme essa disputa serve de pano de fundo para as intrigas políticas em torno da rejeição dos mutantes. Enquanto Magneto tem seus seguidores em planos que beiram o terrorismo (destaque para a estonteante Mística de Rebecca Romjin-Stamos), Xavier possui uma escola para jovens com poderes especiais com "professores" do porte de Ciclope (James Marsden), Tempestade (Halle Berry) e Jean Grey (Famke Janssen) que estão prestes a receber dois mutantes novos. Um deles é Vampira (Anna Paquin) capaz de drenar a energia vital de quem tocar, o outro é o arisco Wolverine (o então desconhecido Hugh Jackman, o grande achado do filme). A esta altura não precisa dizer que o australiano Jackman rouba o filme em meio ao plano de Magneto de tranformar todos em mutantes. O filme foi criticado pro ser didático demais na apresentação de seus personagens e por ser curto (pouco mais de noventa minutos), mas o estúdio (FOX) não queria se arriscar. No fim das contas o resultado é enxuto, competente e elogiado por driblar brilhantemente o maniqueísmo que gira em torno desse tipo de produção. É difícil identificar quem é mocinho ou vilão no filme. Se Xavier tem seus fãs seguidores, o mesmo pode se dizer de Magneto - e isso torna o filme ainda mais interessante. 
  
X2: filme anabolizado na melhor aventura mutante.

Na segunda aventura mutante o orçamento ganhou uma anabolizada, o filme ganhou mais tempo de duração e tudo ficou ainda melhor. Em X2 (2003), Singer volta para a direção e aprofunda ainda mais os conflitos entre o governo e os mutantes. Se Magneto (McKellen) e Mística (Rebecca) ainda estão no elenco, desta vez eles estão longe de ser os vilões da trama. O posto fica para Willian Striker (Bryan Cox) que possui planos de invadir a mansão de Xavier (Stewart) e prender quantos mutantes puder. Striker ainda possui uma ligação com o passado misterioso de Wolverine (Jackman) e um rejeitado filho mutante que será peça fundamental em sua caça. O filme serviu para aprofundar vários traços do primeiro filme: a amizade ente Xavier (Stewart) e Magneto, a cumplicidade entre Magneto e Mística, o relacionamento entre Vampira (Paquin) e Bob/Homem de Gelo (Shawn Ashmore), a tensão sexual entre Jean (Jamssen), Cyclope (Marsden) e  Wolverine, além do eixo principal que é a proximidade da guerra entre homo-superior (mutantes) e o resto da humanidade. Como se pode perceber assunto é o que não falta para desenvolver e Singer consegue manter um ritmo impecável na narrativa - o único problema no desenvolvimento dos personagens é o foco religioso que é posto entre Tempestade (Berry, já com o Oscar na estante) e Noturno (Alan Cumming, que resulta bem menos descolado que nos quadrinhos), a religiosidade presente nos diálogos dos dois é pouco mais do que rasteira. Mas ainda bem que X-Men não é filme religioso... por conta de Striker a galera de Xavier e de Magneto irão lutar juntos para a não extinção dos mutantes e o resultado é ainda melhor que o primeiro filme. No meio do caminho o pacifismo de Xavier e a agressividade de Magneto tem até um soldado a disputar: Pyro (Aaron Stanford), que ainda coloca um pouco de fogo na relação de Vampira e Bob. O ápice do filme é uma baixa que promete uma mudança radical na vida dos X-Men. Os dois filmes se mostramservem uma boa estrutura para a terceira aventura dos mutantes na telona: X-Men - O Confronto Final (2007) que  volta com o mesmo elenco e roteiro esperto pautado na Fênix Negra (Famke Janssen) - a identidade obscura de Jean Grey que ressurge das cinzas. O problema maior do filme foi Bryan Singer ter topado dirigir Superman Returns (2006) para Warner e a Fox (talvez por ciúme) o riscou da direção. Quem ficou no seu lugar foi Brett Ratner (que não tem metade do estilo de Singer) que faz o que pode  em suas limitações autorais. O resultado é um fechamento coerente com o arco narrativo da trilogia, mas que não possui o mesmo estilo  e tudo parece descambar fica a um passo do melodrama. Prova disso é o romance rasgado entre Wolverine e Jean. Entre mortos e feridos na trama que gira em torno de uma "cura" para mutantes,  novos personagens aparecem - o Fera (Kelsey Grammer), Anjo (Ben Foster, no seu único papel de rapaz bonzinho), Leach - a cura em pessoa (Camreon Bright) entre outros. Alguns ganham destaque como Lince Negra (Ellen Page, antes de virar estrela) e  Colossus (Daniel Cudmore). O filme comprovou a teoria de que cada filme da trilogia mutante potencializava a bilheteria do seguinte - de forma que este foi o maior sucesso dos mutantes nas telas e deixou a FOX com um dilema: negociar o cachê e a agenda de todos os astros do filme (e seguir a mesma linha) ou arriscar um novo caminho de sua franquia milionária.

 X3: Wolverine e Jean aproveitam a ausência de Bryan Singer.

X-Men:  O Filme (X-Men - The Movie/EUA- 2000) de Bryan Singer com Hugh Jackman, Ian McKellen, Patrick Stewart, Famke Janssen, Jamer Marsden, Halle Berry, Anna Paquin, Bruce Davison e Rebecca Romjin-Stamos. ☻☻☻☻

 X-Men 2 (X2: X-Men United/EUA-2003) de Bryan Singer com Hugh Jackman, Ian McKellen, Patrick Stewart, Rebecca Romjin-Stamos, Bryan Cox, Famke Janssen, Allan Cumming, Shawn Ashmore, Halle Berry, Anna Paquin, Aaron Stanford. ☻☻☻☻

X-Men: O Confronto Final (X-Men: The Last Stand/EUA-2007) de Brett Ratner com Hugh Jackman, Famke Janssen, Halle Berry, Ian McKellen, Patrick Stewart, Rebecca Romjin-Stamos, Shawn Ashmore, Anna Paquin, Aaron Stanford, Ellen Page, Ben Foster, Cameron Bright e Shooreh Aghdashloo. ☻☻☻

quinta-feira, 2 de junho de 2011

DVD: No Sufoco


Rockwell e MacDonald: dicotomias tragicômicas.

Quem conhece Clube da Luta (1999) sabe exatamente o que esperar de um filme baseado num livro de Chuck Palahniuk. Esqueça piadinhas amenas, bobagens para passar o tempo e aprecie um olhar inusitado (e até perturbador) sobre a identidade do homem contemporâneo (ou eu deveria dizer pós-moderno?). Ao contrário de Fight Club, ao escrever Choke o diretor demonstrou claramente que se tratava de uma comédia. Agora, que tipo de comédia se tornou  filme de Clark Gregg isso já é algo muito mais pessoal. Alguns podem considerar um besteirol por ter como protagonista um cara viciado em sexo que finge engasgar em restaurantes para não ter que pagar a conta e ainda ter algum contato humano. Outros podem considerar uma comédia de humor negro, pela forma como o diretor lida com os problemas (que não são poucos) que atordoam os personagens. Os mais otimistas podem até ver que debaixo de todas as bizarrices listadas o filme é uma dramédia das boas. Como ando otimista é nesta última opção que acredito. Choke, o livro e o filme, receberam no Brasil o nome de No Sufoco (prefiro o nome recebido em Portugal: Asfixia me parece muito mais sonoro e interessante) e não ajuda muito aos mais distraídos perceberem que se trata da história de um cara problemático em busca de sua identidade. Bem... põe problemático nisso, já que ele trabalha num parque temático de época e não pode ver uma mulher que já pensa em sacanagem. Fosse outro ator o personagem seria insuportável, mas tiveram o bom senso de dar o papel para Sam Rockwell - que está virando especialista em tornar sujeitos sórdidos em personagens dignos de compaixão.  Rockwell merecia um bocado de prêmios por sua atuação como Victor, especialmente pela forma que equilibria comédia e tragédia no percurso de seu personagem. Não bastasse o vício em sexo (ele até tenta fazer uma terapia de grupo, mas o assédio das ninfomaníacas não ajuda) ele ainda tem que conviver com com a mãe vítima de Alzheimer (uma espetacular Anjelica Huston) que nem o reconhece mais. Entre tantas estripulias (vividas com uma expressão cada vez maior de auto-decepção), Victor começa a acreditar que descobrir quem é seu pai pode ajudar a colocar as coisas nos eixos. Mas a coisa acaba complicando mais ainda quando encontra o diário de sua mãe escrito em italiano. Para ajudá-lo nessa busca por suas origens ele aceita a ajuda de Paige (Kelly McDonald, que está cada vez mais próxima do sublime como atriz) que acredita ser uma médica devotada à sua mãe. Mas a coisa só piora quando Victor descobre que pode ser um clone de Jesus Cristo!? Essa sandice ilustra bem a ideia de Pahlaniuk: a dicotomia entre o modelo de comportamento e o que o homem se tornou entre o ideal "divino" e a tentação do "profano" - o uso das cenas na capela só intensificam isso. Devo ressaltar que existe muita semelhança ente No Sufoco e Clube da Luta (estão lá o amigo gorducho, os grupos de auto-ajuda, o chefe chato, as mulheres maluquetes, o paradoxo entre o mocinho e o bandido), mas o tom é outro. Dizem que Clark Gregg (que conheci como o ex-esposo bacana do seriado  As Aventuras da Velha Christine e que é o agente da SHIELD que costura os filmes da Marvel) amenizou muito do conteúdo do livro (que dizem ter o "sabor de uma esponja de aço descendo pela garganta"), mas o resultado ainda é bem diferente da produções pasteurizadas que vemos todos os anos - acredito que você nunca viu um filme sobre viciados em sexo realizado de forma tão sincera. Apesar de ter se tornado vítima de sua própria aura de esquisito (já que foi esnobado em premiações e festivais tendo de se contentar só com elogios), o filme é uma dramédia que beira o patético (basta ver as cenas de engasgo que culminam numa das cenas mais estapafúrdias que já vi). Neste outro olhar de Pahlaniuk sobre o homem temos o acréscimo de lugares especiais para as mulheres (em especial uma stripper mais pensante que todos os demais personagens juntos - uma ótima atuação de Gillian Jacobs). Existem momentos no filme que eu não sabia se ria ou chorava - é por esta mistura perigosa de sensações que o filme merece ser conferido.

No Sufoco (Choke/EUA-2008) de Clark Gregg com Sam Rockwell, Kelly MacDonald, Anjelica Huston, Clark Gregg e Brad William Henke. ☻☻☻☻

DVD: A Mentira

Emma: como se não bastassem todos os predicados, ela ainda usa espartilho!

Não sou grande fã da comédia besteirol Superbad-É Hoje (2007), mas devo admitir que considero Emma Stone um dos grandes achados do filme. Portanto, fiquei muito feliz quando vi seu nome entre as estrelas em alta de Hollywood atualmente (sendo a mais cotada entre as adolescentes) e nisso a indicação ao Globo de Ouro de Melhor Atriz de Comédia/Musical pela comédia Easy A ajudou um bocado. Lançado por aqui direto em DVD com o nome de A Mentira o filme tenta reproduzir aquele clima das comédias adolescentes da década de 1980 em que John Hughes era o grande mestre - e existe uma pilha de referências aos seus filmes (Clube dos Cinco, Curtindo a Vida Adoidado, Gatinhas e Gatões... os quais tenho todos em DVD) inclusive o fato da musa ser uma ruiva.  Se o diretor Will Gluck não consegue reproduzir o clima de seu muso inspirador, pelo menos conseguiu fazer uma comédia esperta que sabe muito bem manipular os clichês a seu favor e extrair um humor ingênuo de cenas espinhosas. Stone é Olive, uma garota certinha do colegial que numa conversa com uma amiga inventa ter perdido a virgindade. Este é o ponto de partida para uma fofoca que a tornará uma das garotas mais promiscuas da escola. Claro que tudo não passa de um mal entendido, mas Olive aproveita sua fama para fazer algumas benfeitorias.  Sendo assim aceita sair com um garoto perseguido por ser gay e fingir que transam numa festa ou sai com o garoto gorducho da escola para que passe a ser visto como conquistador. O gosto pela afronta a faz até bordar um A vermelho na roupa (como no clássico literário citado na trama A Letra Escarlate) O problema é que debaixo de tanta mentira a verdadeira Olive acaba desaparecendo e seus anseios românticos começam a dar sinais de insatisfação (ainda mais quando está em jogo sua paixão do ginásio). Existem algumas ideias bem sacadas como colocar a personagem narrando sua história em capítulos de nomes rebuscados e ter Lisa Kudrow como uma conselheira escolar malévola. Mas não chega a ser novidade colocar um bando de adolescentes carolas para ser vilões preconceituosos (o pouco visto Galera do Mal/2004 fez a mesma coisa de forma infinitamente mais mordaz). Embora o elenco conte com nomes de peso (indicados ao Oscar) como Stanley Tucci (o pai de Olive), Patricia Clarkson (a mãe da protagonista) e Thomas Hayden Church (o professor favorito de Olive e esposo da conselheira do mal) o brilho do filme reside todo em Emma Stone que demonstra charme e inteligência numa personagem que poderia ser apenas mais uma adolescente americana cabeça oca. Com trilha sonora com semi-hits, surpresa guardadas pelo roteiro e  algumas alfinetadas dignas de gargalhadas (aquela de Tom Cruise é impagável), A Mentira tem tudo para ser um sucesso nas locadoras e pavimentar a ascenção de Stone até a chegada de sua Gwen Stacy no novo Spider Man.

A Mentira (Easy A/EUA-2010) de  Will Gluck com Emma Stone, Amanda Bynes, Stanley Tucci, Patricia Clarkson, Thomas Hayden Church, Lisa Kudrow, Malcolm McDowell, Penn Badgley e Cam Gigandet. ☻☻☻

quarta-feira, 1 de junho de 2011

FILMED+: Pecados Íntimos

Winslet e Wilson:  as verdadeiras crianças do filme.

Com a ideia de que nem todo adulto deixou de ser criança, o escritor Tom Perrotta deve ter escrito seu livro mais conhecido (e lançado no Brasil) Criancinhas. No entanto, o livro está longe de ter como foco personagens de pouca idade e sim três personagens que cresceram em tamanho, mas que possuem grande dificuldade de assumirem as responsabilidades e consequências da vida adulta. Dois desses personagens viverão um caso extraconjugal e o outro é um pedófilo (existe ameaça maior à infância) que ronda a vizinhança. Sarah (Kate Winslet, indicada ao Oscar) é a estudante de literatura que se tornou uma dona de casa insatisfeita após terminar o seu mestrado. Casada com um homem mais velho que prefere passar o tempo em sites pornográficos do que ficar perto dela e da filha. Talvez por existir essa relação distante com o esposo, Sarah não faça a mínima ideia de como lidar com a maternidade - e sua filha se aproveita da situação se tornando uma pequena tirana profissional.  Para passar o tempo, Sarah passeia com a filha no parquinho e se dedica a apreciar, ao lado das outras mães, o pai bonitão da vizinhança: Brad (Patrick Wilson, indicado para o papel pela própria Kate) - o qual apelidam carinhosamente de O Rei do Baile. Brad vai todo dia ao parquinho com seu filho e também possui frustrações. É advogado formado e desempregado - por ainda não ter sido aprovado no exame da Ordem. Por isso dedica seu tempo a cuidar do filho enquanto sua bela esposa se dedica ao trabalho de documentarista bem-sucedida (acrescente  a isso o fato dela ser interpretada por Jennifer Connely e perceberá que a mulher beira a perfeição). Mas a relação de Brad com a esposa também não é das melhores, já que muitas vezes ele parece apenas o filho mais velho dela - já que ainda precisa de alguém para regular seus afazeres, despesas e rumos. Ah, e sexo - com o filho dormindo entre os dois na cama de casal - anda rareando. Talvez por suas semelhanças Brad e Sarah acabam engatando um romance proibido (e que ganha conotações quase adolescentes) que tenta ser mantido em segredo - apesar das indiscrições de ambos. Um representa para o outro a fuga de uma vida de inércia, ainda que esta fuga comprometa a família que (mesmo aos trancos e barrancos) conseguiram construir. Se o adultério já mostra que só a casca de tranquilidade da vida suburbana é perfeita, esta perfeição é ainda mais prejudicada pela presença de um recém liberto pedófilo: Ronald (Jackie Earle Haley - que ironicamente era um ator mirim esquecido que retomou a carreira em grande estilo com uma indicação ao Oscar por sua atuação neste filme). Ronnie volta a morar com a sua mãe e que causa grande rebuliço entre os vizinhos - que em crises de histeria coletiva promovem algumas das cenas mais interessantes do filme. Com  uma história dessas é notável a evolução de Todd Field em contar esta história cheia de nuances com um punhado de personagens complexos. Em momento algum o diretor desvia nossa atenção para algo irrelevante,  cada cena tem sua razão de ser na construção de uma espécie de crônica sobre o crescimento e a dificuldade de tomar as rédeas de si mesmo e de seus desejos. Neste processo as simbologias ganham importância ainda maior (a casa repleta de relógios e bibelôs de criança, o balanço vazio, a discussão sobre Madame Bovary, o pânico na piscina, o jogo de futebol com os homens do bairro, os skatistas, o maiô vermelho, o calor e a chuva)  e é justamente este cuidado em construir um universo que pareça tão similar ao que nos acostumamos a ver todos os dias que faz de Pecados Íntimos um filme tão especial. Para além do adultério, Field esplora a dificuldade de se tornar adulto através de rupturas (ilustrada belamente no desfecho da trama, que muitos consideram moralista - mas que indica um novo rumo aos personagens, ainda que tudo pareça estar do mesmo jeito). O Oscar e o Globo de Ouro deram várias indicações ao filme, mas deixaram de fora a atuação de Patrick Wilson, que veio da Broadway e que lida com maestria um personagem difícil. Pecados Íntimos é o meu filme americano favorito de 2006.

Pecados Íntimos (Little Children/EUA-2006) de Todd Field com Kate Winslet, Patrick Wilson, Jennifer Connely, Jackie Earle Haley, Noah Emmerich, Phyllis Summerville e Jane Adams. ☻☻☻☻☻