domingo, 9 de novembro de 2014

DVD: A Menina que Roubava Livros

Sophie Nélisse: menina prodígio, filme nem tanto. 

Não sei por onde anda, mas de vez em quando eu cito meu amigo Osmar (quase um clone de Lázaro Ramos), que me ensinou que "devemos fugir de best sellers como o diabo foge da cruz" (e como tenho vontade de rir quando alguém diz "mas é um best seller" como se fosse sinônimo de qualidade literária... aff). A máxima também é lembrada quando vejo um filme baseado num grande sucesso editorial, às vezes até com mais força do que quando leio o sucesso editorial. A Menina que Roubava Livros do australiano Markus Zusak teve sucesso estratosférico próximo ao de O Caçador de Pipas  de Khaled Hosseini. Depois que Caçador foi levado para as telas, era bastante provável que o livro de Zusak tivesse o mesmo destino. Eu li O Caçador de Pipas e me frustrei com a versão cinematográfica, já que a trama perdia seus pontos mais interessantes na adaptação. O início com seu relato histórico ficou de fora, os conflitos culturais também e a surra catártica foi amenizada. Já A Menina que Roubava Livros é um livro que nunca consegui terminar de ler (e juro que o retomei umas cinco vezes). Não que seja um livro ruim, mas um dos aspectos mais alardeados do livro me incomodava bastante: os comentários da morte. Todo mundo sabe que o livro é narrado pela morte e seus encontros com a menina Liesel. O artifício quebra o fluxo da narrativa constantemente, ao ponto de eu abandonar a leitura várias vezes. Tem gente que curte, eu não curti. No filme, o diretor Brian Percival (famoso por seu trabalho na série Dowton Abbey) tem o bom senso de amenizar essas digressões da célebre narradora (com voz de Roger Allam) e se concentrar na jornada de Liesel (a canadende Sophie Nélisse) a partir do encontro com seus novos pais: o casal formado pelo bondoso Lars Hubermann (Geoffrey Rush) e a megera Rosa Hubermann (Emily Watson), ou nas palavras de Liesel, um homem com coração de acordeon e uma mulher vestida de trovão. O cenário da história é a Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial, com perseguições a judeus, comunistas e outros que incomodavam a política nazista, no entanto, a trilha sonora melosa de John Williams (indicada ao Oscar) entrega que o tom da narrativa está mais para fantasia da Disney do que para a densidade dramática que o livro sugere. É evidente a Fox quis amenizar o que o livro tinha de mais desagradável, mas com isso perdeu a oportunidade de criar uma obra cinematográfica mais poderosa. O resultado é um filme que se assiste fácil, mas que perde a capacidade de permanecer em nossa lembrança. É verdade que os atores conseguem manter nossa atenção, mesmo quando o tom melodramático domina a produção, especialmente quando Leisel ao lado dos Huberman escondem o jovem Max (Ben Schnetzer) no porão - e se Lars já aguça na menina o gosto pelos livros (onde ela descobre novas palavras, novos mundos, emoções e alento) o contato com Max e os livros que consegue na casa do prefeito da cidade só aumentam sua paixão pelo uso das palavras. O mais interessante do filme é que enquanto os experientes Rush e Watson tentam dar carne e osso para os personagens, é Sophie Nélisse que precisa defender sua personagem com a graça de uma veterana. Quem curtiu o trabalho dessa pequena atriz aqui pode ver o que ela faz em O que Traz Boas Novas (2011), onde sua atuação é ainda mais comovente. Se eu já conhecia o talento de Sophie, o meu achado foi o menino Nico Liersch que desde a primeira cena ganha o coração da plateia (para depois despedaçá-lo impiedosamente). A Menina que Roubava Livros pode não ser a obra excepcional que todos esperavam, mas envolve personagens que não costumam ser o centro das atenções em longas da Segunda Guerra Mundial: os cidadãos alemães comuns largados à própria sorte sob os devaneios do führer e seus seguidores. 

A Menina que Roubava Livros (The Book Thief/2013) de Brian Percival com Sophie Nélisse, Geoffrey Rush, Emily Watson, Nico Liersch e Ben Schnetzer. ☻☻☻

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

APOSTAS PARA O OSCAR 2015 - Capítulo II

Unbroken
O filme ainda nem foi lançado é já existem mais do que expectativas, são quase promessas para o novo filme de Angelina Jolie na direção (O anterior, Na Terra do Amor e Ódio/2011, não vingou). Com lançamento previsto para a semana do Natal, o filme conta a história de Louis Zamperini, um atleta olímpico que sofre uma acidente de avião, lutando 47 dias para encontrar terra firme - mas quando encontra é capturado por japoneses durante a Segunda Guerra Mundial. Com roteiro em colaboração com os irmãos Coen, atuação devotada de Jack O'Connel, produção caprichada de Brad Pitt e história incrivelmente edificante, Unbroken tem tudo para cair nas graças da Academia de Hollywood (e o falecimento recente de Zamperini aos 97 anos só aumenta a força do filme). 
Vício Inerente 
Depois de O Mestre/2012 Paul Thomas Anderson retoma sua parceria com Joaquin Phoenix (em papel que seria de Robert Downey Jr.) colocando-o ao lado de sua companheira no oscarizado Johny & June (2005), Reese Whiterspoon (que teria atuado no papel que ficou com Amy Adams em O Mestre). Phoenix interpreta o detetive particular Larry Spotello,  que é contratado por uma ex-namorada para investigar o sequestro de um bilionário latifundiário. Baseado no livro de Thoman Pynchon, a história mistura traficantes, policiais corruptos e várias camadas de mentira que surpreende no trailer pelo seu tom cômico. O elenco ainda conta com nomes de peso como Josh Brolin, Benicio Del Toro e Maya Rudolph. 

Mr. Turner
O Oscar tem os seus autores favoritos, um deles é o inglês Mike Leigh, cujas produções costumam receber alguma indicação. Em sua cinebiografia do pintor impressionista J.M.W. Turner o diretor exibe novamente o rigor estético apresentado em Topsy Turvy/1999 para contar a história de um homem apaixonado pela luz e seu efeito sobre o mar, cidades, paisagens... o filme retrata um período difícil na vida do artista, onde ainda cuidava de suas duas filhas e onre reencontra o amor. Exibido em Cannes, o filme premiou Timothy Spall (o ator favorito de Leigh) por sua atuação na pele do protagonista e o fotógrafo Dick Pope por seus respectivos trabalhos (e lhes deu fôlego para as premiações que culminam no Oscar).

Still Alice
Falando no prêmio de Melhor Atriz, existe um consenso de que já passou da hora de premiar Julianne Moore com uma estatueta. A atriz indicada ao Oscar quatro vezes deve entrar no páreo novamente por sua atuação nesse filme assinado por Richard Glatzer e Wash West Moreland. Na pele de Alice Howland, uma conceituada professora de linguística, Moore encarna todas as dificuldades de perder aos poucos a memória para o Mal de Alzheimer. Enquanto a relação com o esposo (Alec Baldwin) corre riscos, os laços com a filha (Kirsten Stewart) se fortalecem. Será que Julianne será finalmente premiada? A crítica garante que sim. 

Cake
Sempre percebi um incômodo em Jennifer Aniston em ter que interpretar sempre o mesmo papel na maioria de seus filmes. De vez em quando a atriz aparece em um longa independente com atuações mais dramáticas (vale conferir Por Um Sentido na Vida/2002), mas esses acabam tendo pouca repercussão e ela volta para as comédias românticas... mas agora Aniston parece ter entrado no radar das premiações com sua atuação desglamourizada nesse drama dirigido por Daniel Barnz sobre uma mulher traumatizada e deprimida que entra para um grupo de autoajuda e, após o suicídio de uma integrante do grupo, acaba se envolvendo com o ex-marido da falecida (Sam Worthington). Exibido em Toronto, as apostas em Jennifer cresceram consideravelmente nas últimas semanas. 

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

ROBOCOP x ROBOCOP

Weller: O Robocop em nossa memória. 

O fato é o seguinte: ninguém pediu por uma refilmagem de Robocop. Dito isso, escrevo o que hesito há tempos, desde que a versão de José Padilha chegou aos cinemas. Passado todo aquele alvoroço do lançamento e com o distanciamento seguro de todas as expectativas possíveis, acho que é um momento onde minha opinião será apenas isso: uma opinião. O filme de Paul Verhoeven está na memória de quem cresceu curtindo o cinema na virada da década de 1980 para os anos 1990. Era uma verdadeira orgia de violência, mas que debaixo de tudo aquilo guardava simbologias sobre o homem fundido à tecnologia de uma sociedade onde os interesses de grandes corporações contaminavam a política e transbordava numa sociedade agressivamente sombria. Por isso mesmo, nada melhor do que localizar a trama na cidade americana de Detroit, que cresceu como terreno de indústrias milionárias e viu sua economia ruir mediante cortes para evitar a falência das mesmas. Com bairros que parecem fantasmas, Detroit era o palco para as desventuras do policial honesto Alex Murphy (Peter Weller) que é quase morto pelos criminosos mais sanguinários da cidade num futuro próximo. O que restou do corpo de Murphy é utilizado num experimento revolucionário que produzirá o policial ideal para lidar com a violência das ruas. Servindo à criação do Robocop, Murphy conta com a ajuda de sua parceira Anne Lewis (Nancy Allen) para lembrar um pouco de sua história enquanto lida com os interesses da megacorporação OCP e a vontade de capturar os homens que atiraram nele. Verhoeven explora os conflitos desse futuro distópico de forma mais sombria do que o habitual nos blockbusters, sobrando poucos mocinhos e muitas intenções politiqueiras em temáticas como influência da mídia, privatização e corrupção numa atmosfera acertadamente opressiva. No centro da narrativa, a química entre Weller e Allen é uma atração a parte na colaboração de um filme que custou modestos 13 milhões de dólares e se tornou um sucesso mundial. Obviamente que criar uma franquia era inevitável e Robocop 2 tinha o desafio de elevar o que vimos no primeiro filme a um novo patamar. Inserindo o tráfico de drogas na narrativa, além da criação de um novo modelo de híbrido de homem e máquina para as ruas, a continuação ousa colocar uma criança como líder do tráfico e cenas ainda mais violentas. No projeto do novo Robô, eles acabam utilizando um traficante chamado Cain (Tom Noonan) no protótipo e, como era de se esperar o fracasso é iminente.  O maior problema da continuação é a perda da direção visceral do pessimista (com causa) Verhoeven, substituído por Irvin Kerschner (que pouca gente lembra ser o diretor do melhor Star Wars de todos os tempos: O Império Contra-Ataca/1980). O filme consegue ser mais sombrio que o anterior, mas falta aquela substância densa que pesava nas entrelinhas do primeiro filme. Sem tantos conflitos pessoais para lidar, Peter Weller aparece mais heroico que antes e com a mesma química de antes ao lado de Lewis.  Com boa bilheteria, o filme garantiu um terceiro longa da série, onde o Policial do Futuro tinha que lidar com um grupo de sem teto de Detroit, tornando-se muito amigo de uma menina inexpressiva. O roteiro capenga do terceiro filme enfatizava a criação de Delta City, sendo Robocop com o risco de ser destruído ao ir contra o sistema. A trama era tão ruim que a direção ficou a cargo do inexpressivo Fred Dekker. Peter Weller deve ter ficado com vergonha do que estavam fazendo com a franquia milionária e deixou que Robert John Burke o substituísse, enquanto Nancy Allen tem participação inexpressiva. Com pouco para se lembrar do filme (ah, o Robocop agora voa!), a franquia foi aposentada. Vale lembrar que além dos longas, o filme gerou um desenho animado (em 1988) e uma série para a TV (em 1994 - que durou apenas quatro episódios). Até aí, todas as ideias do filme original foram diluídas.

Kinnaman: armadura sem brilho.

Fazia tempo que Hollywood queria repaginar Robocop. A vez em que isso chegou mais perto foi com Darren Aronofsky antes de Cisne Negro/2010. Mas, reza a lenda que foi José Padilha que numa conversa com produtores americanos revelou sua vontade de refilmar o clássico de 1987. Em alta com o sucesso de Tropa de Elite 2 na Terra do Tio Sam, Padilha era uma boa aposta para dar nova vida ao Policial do Futuro. No entanto, por mais que Padilha seja um bom diretor, ele não conseguiu driblar as armadilhas de repaginar uma franquia milionária. Existem pontos interessantes como dar mais destaque para a família de Murphy, ou enfatizar discursos (muito presentes no Brasil) de colocar aparato militar nas ruas, mas as ideias parecem estar no limite da diluição. A violência chocante do filme original (que era um reflexo do abandono da população à lei do olho por olho, dente por dente) é amenizada, ficando restrita às intervenções americanas no exterior. O próprio Murphy é vitima de uma explosão no quintal de casa e não mais de uma rajada de balas. Até aí, tudo bem. A coisa começa a virar água quando esperamos cenas de impacto que nunca chegam. O roteiro gasta tempo demais nos conflitos de Murphy como um homem máquina e parece esquecer de todo o resto. Joel Kinnaman (da série The Killing) consegue dar conta do personagem, mas o roteiro não o ajuda, dando voltas para chegar no mesmo lugar a todo instante. As ideias de Padilha começam a ficar pelo caminho até que o final óbvio aparece quando torna-se impossível enrolar mais a plateia nas duas horas de duração. Cenas como Murphy observando o pouco que restou de seu corpo humano ou os conflitos éticos dos cientistas envolvidos em sua criação não conseguem sustentar o filme, deixando um gosto de decepção. Percebe-se que existiam boas ideias, principalmente pelo elenco que aderiu ao projeto (Samuel L. Jackson, Gary Oldman, Jennifer Ehle, Jackie Earle Haley, Abbie Cornish...), mas todas foram diluídas nos interesses dos produtores. Os fãs de Padilha elogiaram a forma como relaciona o universo de Robocop com a política armamentista americana, politicagens e a polícia corrupta, mas vale lembrar que tudo isso estava presente no filme original, de forma mais rica e até mais moderna.  Entre os detalhes que não curti estão a pintura preta no corpo de Robocop (que o faz parecer mais um uniforme do que um corpo cibernético) e o desaparecimento completo de sua parceira Anne Lewis (já que os produtores preferiram substituí-la por um homem). Se serve de consolo, o filme consegue ser melhor do que o terceiro filme da série, mas não tem força para relançar a franquia. Padilha já disse que não retorna se houver continuação - ele sabe das coisas. 

Robocop - O Policial do Futuro (EUA- 1987) de Paul Verhoeven com Peter Weller, Nancy Allen, Ronny Cox e Miguel Ferrer. ☻☻☻☻ 

Robocop 2 (EUA-1990) de Irwin Kershner com Peter Weller, Nancy Allen, Mario Machado e John Dolittle. ☻☻☻

Robocop 3 (EUA-1993) de Fred Dekker com Robert John Burke, Nancy Allen, John Castle e Jill Hennessy. #

Robocop (EUA-2014) de José Padilha com Joel Kinnaman, Gary Oldman, Michael Keaton, Abbie Cornish, Jennifer Ehle, Jay Baruchel e Jackie Earle Haley. ☻☻ 

Na Tela: Attila Marcel

Paul: quebra-cabeça da memória. 

Diretores que deixam a animação para lidar com atuações de carne e osso costumam tropeçar ao não perceber que alguns recursos narrativos podem funcionar melhor num universo de fantasia. A crítica tem assistido Attila Marcel com grande desconfiança, afinal, marca a estreia em longa metragem live-action do cineasta Sylvain Chomet com atores de verdade (antes ele havia dirigido uma das histórias de Paris, Eu Te Amo/2006). Chomet lida com um filme cheio de referência, nem sempre costuradas com a competência de quem criou animações inesquecíveis como As Bicicletas de Belleville/2003  e O Mágico/2010. O filme conta a história de Paul (Guillaume Goix), um pianista mudo que vive com duas tias idosas desde que seus pais morreram de forma inexplicável. As esquisitices de Paul remetem aos de Amélie Poulain (2001), mas a culpa é mesmo do cuidado exagerado de suas tias Annie (Bernadette Lafont, musa da nouvelle vague falecida em 2013) e Anna (a veterana Héléne Vincent), que parecem guardar um segredo sobre a morte dos pais do moço. Atormentado por pesadelos e cansado de viver tocando piano em saraus e aulas de dança, Paul encontra na estranha vizinha Madame Proust (Anne Le Ny) algumas respostas para seus dilemas - vale ressaltar que as respostas estavam o tempo todo escondidas em sua memória. Chomet desenvolve assim uma espécie de quebra-cabeças sobre a identidade de Paul. Esse mergulho nas memórias do personagem tem alguns momentos interessantes e outros nem tanto. As cenas onde consegue desvendar um pouco mais da personalidade agressiva de seu pai - o lutador que dá título ao filme (que por sua vez é inspirado numa canção) - até funcionam em seu exagero caricato, mas o filme não deveria investir em cenas que parecem um musical pobre. Quando os personagens começam a cantar nos pensamentos do protagonista o efeito é o mesmo do chá misterioso que Madame Proust oferece a Paul. É melhor quando aparece uma banda de sapos nos momentos mais inusitados, ou a própria cantora da canção título. Existem outras passagens que remetem às animações de Chomet (o jantar que termina com cerejas em licor, a competição de música ao final da sessão, a casa cheia de plantas de Madame Proust, ou a cena da briga entre senhoras mostrado somente em sombras). Talvez se fosse uma animação, o filme seria mais harmônico, em live action parece um primo menos exuberante do cinema de Jean Pierre Jeunet ou uma versão pobre de Wes Anderson. No entanto, a história do rapaz que busca respostas sobre sua origem ainda pode encontrar fãs graças à ingenuidade fantasiosa que permeia todo o filme. 

Attila Marcel (França-2013) de Silvayn Chomet com Guillaume Goix, anne Le Ny, Bernadette Lafont e Héléne Vincent. ☻☻☻

§8^) Fac Simile: Julia Louis-Dreyfus

Julia Scarlett Elizabeth Louis-Dreyfus
Com o calor que anda fazendo no Brasil, nosso repórter imaginário nem acreditou quando percebeu que Julia Louis-Dreyfus estava disfarçada na orla carioca. A atriz já recebeu vários prêmios em sua carreira (Globos de Ouro, Emmys, Prêmios do Sindicato de Atores, Critic's Choice Award...) Em alta com sua atuação no seriado Veep da HBO, a atriz aproveitou o período de férias para curtir o calor brasileiro. Um tanto esquentada, ela respondeu a cinco perguntas numa entrevista que nunca existiu:

§8^) No Globo de Ouro desse ano fizeram piada com o fato de você ter sido indicada ao prêmio de melhor atriz em filme de comédia.  Ainda existe esse racha em Hollywood?

Julia: Claro que sim! Acho impressionante como atores que não garantem bilheterias milionárias no cinema estão invadindo a televisão! Matthew McConaughey, Eva Green, Clive Owen, Vera Farmiga... estão todos migrando para a TV! Eu estava quieta no meu canto e resolvi fazer um filminho para me distrair e todo mundo ficou pegando no meu pé! Halle Berry topou fazer um seriado e acho que em breve teremos um programa com Jim Carrey! Eu tenho um programa de sucesso para voltar e ganhar prêmios no fim do ano... e esse pessoal? 

§8^) Você deu realmente muita sorte com seus papéis na TV...

Julia: Sorte? Sorte? Não me venha falar de sorte, eu ralo muito isso sim! Fiz Saturday Night Live, fui a única garota de Seinfeld! Penei em Arrested Development! Fiz As Novas Aventuras de Christine e agora Veep! Tem gente que diz que se eu sair da TV o mundo acaba!

§8^) Você tinha medo daquela história de maldição dos atores de Seinfeld?

Julia: Não acredito em nada disso! Acredito no meu talento e ponto! Não tenho reclamação alguma de Jerry Seinfeld! Eu adorava fazer uma série dos anos 1990 sem a necessidade de ser a gostosa da TV! Mas tenho reclamações de Clark Gregg, meu ex-marido em As Novas Aventuras de Christine! O safado foi fazer filmes na Marvel e esquece completamente de mim! Eu topava qualquer coisa! Ser a Mulher-Hulk, Mulher-Invisível, Mulher-Aranha, Mulher-Cretina... topo tudo! Eles faturam bilhões de bilheteria e recebem percentual no número de ingressos, já pensou nisso?

§8^) Fazer a vice-presidente dos EUA é cansativo?

Julia: Pra #$%@&*! Ainda mais que Selina Meyer tem plena consciência de que é incompetente, mas eu preciso disfarçar isso! Ela parece que fica feliz quando está prestes a assumir a presidência, mas sabe que assim que os holofotes principais estiverem sobre ela, tudo irá por água abaixo! Se ela não tem competência para ter um cargo tão irrelevante quanto ser vice-presidente imagine se tem competência para ser qualquer outra coisa!? Talvez ela esteja no lugar certo, se fosse professora ou engenheira seria ainda mais desastroso!

§8^) Você é parente de uma pessoa muito famosa não é?

Julia: Como você descobriu? A qual deles se refere? Meu avô francês Gérard Louis-Dreyfus era um bilionário muito famoso na França! Meu primo Robert Louis-Dreyfus é um dos fundadores da Adidas, mas hoje se dedica somente ao time de futebol dele na frança! E, antes que pergunte, eu não tenho nenhuma relação com aquele soldado francês traidor Alfred Dreyfus... do Caso Dreyfus!

§8^) Eu estava pensando no Richard Dreyfus...

Julia: Que tipo de pessoa lembra do Richard Dreyfus?!!

domingo, 2 de novembro de 2014

DVD: À Procura do Amor

Gandolfini e Julia: namoro com manual. 

A americana Nicole Helofcener é uma das diretoras mais interessantes do cinema independente. Interessante porque enquanto a maioria de seus colegas costumam se repetir em histórias de sarjeta ou famílias disfuncionais, Nicole procura fazer cinema sobre situações simples e cotidianas que revelam-se mais originais do que podemos imaginar em seu ponto de partida e, À Procura do Amor não foge à regra dos conflitos éticos que suas protagonistas costumam viver. Famosa por seus papéis na televisão, Julia Louis-Dreyfus recebeu uma indicação ao Globo de Ouro de melhor atriz de comédia por sua atuação no filme, no entanto, o falecido James Gandolfini também merecia ter sido lembrado nesta que é uma de suas últimas atuações. O filme conta a história da massagista Eva (Dreyfuss), que conhece Albert (Gandolfini) em uma festa e os dois começam a se conhecer melhor. Helofcener evita os clichês dos "romances maduros" evitando traumas passados, azedumes e reclamações sobre os filhos e tudo mais. Aos poucos os personagens ajustam sua sintonia de forma bastante crível e nos fazem acreditar que combinam um com o outro (mesmo com os aparentes receios, normais e todos os mortais prestes a mergulhar num relacionamento). Tudo vai bem entre os dois até que Eva percebe que o ex-marido, ao qual uma cliente (Catherine Keener) sempre se refere é o próprio Albert. A partir das conversas com ela, Eva começa a pensar até que ponto todos aqueles "defeitos" irão incomodar o futuro de sua relação. A personagem nem sente o quanto ela passa a mudar com o seu namorado, não por conta de suas insatisfações, mas, devido às impressões que outra pessoa tem dele. Holofcener parte de uma ideia simples e a amplia da forma mais simpática que o dilema moral de sua personagem pode permitir, mas sem deixar de nos fazer perceber o quanto a situação é desonesta com Albert, sempre disposto a agradar. Apesar das gracinhas presentes no roteiro, À Procura do Amor carrega um bocado de melancolia ao lidar com as inseguranças dos relacionamentos, ao mesmo tempo que mostra que um manual sobre nossa cara metade (afinal, o papel de Catherine Keener não passa disso) pode atrapalhar mais do que ajudar na experiência salutar que envolver-se com o outro pode ser. Helofcener pode não fazer um filme genial, mas chega perto disso com sua capacidade de ter um olhar atento às relações humanas (além do carinho em lidar com seus personagens) o que faz a diferença nesse tipo de filme.

À Procura do Amor (Said Enough/ EUA - 2013) de Nicole Holofcener com Julia Louis-Dreyfuss, James Gandolfini, Catherine Keener, Toni Collette e Ben Falcone. ☻☻☻

CATÁLOGO: A Professora de Piano

Magimel e Isabelle:  amor é sadomasoquismo. 

O austríaco Michael Haneke tem uma verdadeira legião de fãs. É inegável que sua obra tem qualidades capazes de tornar belo as desventuras de seus personagens desagradáveis em jornadas repletas de violência física e psicológica. No entanto, esses mesmos fãs devem concordar que existe uma rigidez tão forte no cinema de Haneke que torna seus filmes bastante semelhantes entre si, o que não chega a ser um defeito, mas que torna seus longas um tanto familiares para quem conhece o seu cinema. Quem conhece a obra de Haneke, sabia desde o início como o oscarizado Amor (2012) acabaria. Dia desses revi A Professora de Piano, que retrata magistralmente bem a rigidez no estilo do cineasta. Com uma atuação inesquecível de Isabelle Hupert na pele da pianista Erika Kohut, o filme pegou de surpresa quem esperava uma história de amor marcada pela delicadeza das melodias que sua personagem tece ao instrumento. Erika é uma pianista de prestígio, que ensina piano para alunos que devem demonstrar total dedicação. Sabe aquela velha história da precisão técnica que todo professor de piano exige? Pois é, Érika eleva isso à enésima potência, ao ponto de elevar a dor de uma aluna aos seus piores pesadelos apenas por considerar que a garota ainda não tem a emoção necessária para a música. Talvez esse gosto sádico por destratar seus aprendizes seja porque Erika tem problemas sérios para lidar, principalmente motivados pela educação castradora que recebeu da mãe (a veterana Annie Girardot) - que ainda controla as roupas, os horários e a carreira da filha, ao ponto de dividirem a mesma cama. Apesar do ambiente sufocante em que vive, Erika tem uma regrada rotina de fugas, não pela música, mas pelas visitas à enferninhos, sex shops e peep shows para satisfazer o que sua casca de perfeição não pode revelar. No entanto, esse pseudo equilíbrio de Erika é abalado quando ela encontra o jovem Walter Klemmer (Benoît Magimel) num sarau e o mesmo revela um desejo por ela que está além da música. Klemmer passa a cortejar Erika, que corresponde suas investidas com desprezo, até o dia em que ela revela que nessa relação ela deverá citar as regras. Quando a professora revela ao admirador suas fantasias mais secretas o efeito é devastador para ambos. Huppert e Magimel apresentam uma química perfeita na tela, não errando nem quando os papéis da relação se invertem num relacionamento que começa a ter traços doentios e, por isso mesmo, foram eleitos os melhores atores na competição do Festival de Cannes na edição de 2001. Haneke ainda decora essa triste história com um visual cru que não poupa o espectador da tristeza de sua personagem em perceber que não sabe lidar com o amor. No entanto, bastava lidar com seus personagens quando o equilíbrio de um universo tão rígido entra em colapso, mas a necessidade de chocar desvia muitas vezes o foco do espectador. Assim, mesmo a cena onde Walter realiza as fantasias de Érika de forma inesperada, o impacto torna-se menor pelos detalhes "ousados" encontrados pelo caminho. Ainda assim, A Professora de Piano estabelece uma dinâmica única entre seus personagens, especialmente nutrida por Isabelle Huppert destruindo o coração da personagem diante da câmera. 

A Professora de Piano (La Pianiste/França - Austria - Alemanha/2001) de Michael Haneke com Isabelle Hupert, Benoît Magimel, Annie Girardot, Susanne Lothar e Udo Samel. ☻☻☻☻

DVD: Locke

Hardy: único em cena. 

Até meados do ano, houve um burburinho para que o Oscar 2015 lembrasse da atuação de Tom Hardy nesse filme inglês de pequeno orçamento. O fato é que dificilmente alguém irá lembar de sua atuação em um longa onde somente ele aparece em cena resolvendo seus problemas por telefone por 85 minutos de projeção. O filme do diretor Steven Knight é mais um da moda recente onde escolhe-se um ator para carregar um filme nas costas - e o sucesso do filme está vinculado ao esforço desse astro ao lado dos elementos técnicos (trilha sonora, montagem...) para não deixar a coisa cair na monotonia. Tom Hardy já provou que é um bom ator, o problema é que na pele do construtor Ivan Locke falta-lhe um grande momento para ficar na memória, já que a maior parte do tempo ele lida com várias situações como se nada o abalasse, assim, fica difícil tornar sua jornada comovente. Por conta do filho de uma relação extraconjugal, Locke está prestes a jogar tudo pra o espaço, sua carreira e família, sendo que não pela amante, mas pelo filho mesmo. Os patrões não entendem sua indisponibilidade para trabalhar no dia seguinte, a esposa não entendo porque ainda não foi para casa, o filho não compreende porque não foi assistir o aguardado jogo em casa, todos seus atos abruptos e impensados tentam ser explicados com uma justificativa capenga sobre sua infância, mas não escondem o que Ivan Locke tem de egoísta e arrogante. Embora Hardy o torne o personagem interessante em suas dimensões humanas, sua personalidade é de um homen que não está ligando para muita coisa além de suas próprias vontades, talvez por isso, acompanhar os diálogos do personagem com os outros pode se tornar uma tarefa árdua para a plateia nos seus primeiros trinta minutos de projeção. É verdade que Steven Knight tem grande habilidade em lidar com um único ator em cena, tornando os diálogos dinâmicos com uso de bons atores (além do melhor celular do universo em cena), mas a experiência pode ser curiosa, mas longe de ser inesquecível. 

Locke (Reino Unido - EUA/2014) de Steven Knight com Tom Hardy, Olivia Colman, Ruth Wilson e Andrew Scott. ☻☻☻

APOSTAS PARA O OSCAR 2015 - Capítulo I

Esse ano demorei um pouco mais para arriscar meus palpites para a temporada de ouro que culmina no Oscar. O motivo para isso não foi insegurança, mas o apreço por um ano em que os lançamentos superaram minhas expectativas. O fato é que alguns fortes candidatos às estatuetas já foram até lançados no Brasil, basta lembrar de O Grande Hotel Budapeste e Era Uma Vez em Nova York ambos com chances concretas de cravar indicações, seguidos de Garota Exemplar (que pode ser lembrado em algumas categorias - principalmente no que se refere às suas atrizes) além de Boyhood que acaba de estrear por aqui. Ah, claro, não custa lembrar que nos meus palpites para o Oscar 2014, dos cinco mencionados, todos foram indicados ao prêmio principal (incluindo que mais levou estatuetas para casa, o Melhor Filme e os ganhadores dos prêmios de ator, atriz coadjuvante e ator coadjuvante), ou seja: os grandes ganhadores do ano podem estar logo aí embaixo:

Birdman
Parece que depois de sua separação traumática com o roteirista Guillermo Arriaga, o diretor Alejandro González Iñárritu encontrou seu caminho. Após dramas pesadões, o diretor investe em sua primeira comédia. Mas não se trata de uma comédia simples, contando a história de um ator decadente (Michael Keaton) que ficou famoso décadas atrás por encarnar um super-herói (ei!) que está prestes a fazer as pazes com a fama numa peça da Broadway, Birdman é celebrado por suas várias camadas metalinguísticas. História esperta, atores inspirados (Emma Stone, Naomi Watts, Edward Norton...) e uma montagem sagaz que imita um plano sequência faz de Birdman um forte concorrente nas premiações que se aproximam. 

Foxcatcher
O novo filme de Bennet Miller era para ter sido lançado ano passado, mas os estúdios consideraram que havia concorrência demais. Com o lançamento adiado para o Festival de Cannes/2014, o filme saiu de lá com seu diretor considerado o melhor do Festival e ainda com uma campanha vigorosa que permanece intacta até agora. O filme é baseado na relação do lutador olímpico Charles Schultz (Channing Tatum) com o milionário John Du Pont (Steve Carrell, irreconhecível e muito elogiado), que o convida para fazer parte de sua equipe. O problema é que Du Pont é mais excêntrico do que o atleta imagina, tornando sua vida um tanto complicada. 

A Teoria de Tudo
Dramas baseados em histórias reais sempre chamam atenção com seus personagens conhecidos, o que dizer então de um filme baseado na história de um dos maiores cientistas de todos os tempos? Dirigido pelo premiado James Marsh, o filme conta como o jovem astrofísico Stephen Hawking (Eddie Redmayne) fez descobertas importantes sobre o tempo e ainda encontrou tempo para flertar com Jane Wilde (Felicity Jones, será que dessa vez ela consegue ser indicada?), que se tornaria sua esposa. O que deve agradar ainda mais a Academia é a forma como o filme aborda o diagnóstico de uma doença degenerativa (quando Hawking tinha apenas 21 anos) e seu impacto no casamento com Jane. 

O Jogo da Imitação
Outro personagem real que ganha as telas na temporada de ouro é Alan Turing (Benedict Cumberbatch), matemático inglês, especialista em lógica que auxiliou os EUA a decifrar mensagens de guerra durante a Segunda Guerra Mundial. Além de seu trabalho durante o período conturbado da História, Turing tinha problemas em lidar com sua homossexualidade, o que o vez perseguir uma cura inexistente - o que lhe rende um punhado de tragédias pessoais. Dirigido por Morten Tyldum e estrelado por nomes britânicos em ascensão (Keira Knightley, Mark Strong, Matthew Goode...) o filme não deve ser esquecido entre os indicados. 

Interstelar 
Prestes a estrear no Brasil, o novo filme de Christopher Nolan tem como maior desafio driblar os preconceitos contra o gênero ficção-científica nas premiações. Estrelado por alguns queridos nas últimas edições do Oscar (Matthew McConaughey, Anne Hathaway e Jessica Chastain), o filme conta uma jornada espacial (inspirada em Stanley Kubrick, claro!) que busca planetas com recursos naturais capazes de preservar a vida da humanidade. Cheio de efeitos especiais e com uma trama que investe nos dramas dos personagens no espaço (e na terra), o filme terá que driblar com o espetacular Gravidade na memória recente da Academia.