domingo, 8 de fevereiro de 2015

INDICADOS AO OSCAR 2015: Melhor Ator

 MICHAEL KEATON (Birdman)
Ele andava sumido faz tempo, parecia estar aguardando que alguém lembrasse dele. Pois o ator responsável por viver o Batman  na década de 1990 voltou em grande estilo - e sua trajetória pessoal faz parte do encanto para o sucesso do filme de Alejandro Gonzalez Iñárritu. Keaton tem sua primeira indicação ao Oscar na pele do ator que busca o talento reconhecido com uma peça em que aposta suas últimas fichas de prestígio. Keaton está excepcional. Com ele em cena você nunca sabe se ele é um ator querendo ser reconhecido, ou se é um homem com super poderes que recusa-se a ser herói. Simplesmente genial. 

  EDDIE REDMAYNE (A Teoria de Tudo)
Aos 33 anos, a atuação de Redmayne ganhou força aos poucos na temporada de prêmios - desbancando os até então favoritos à categoria. Eddie vive o famoso cientista Stephen Hawking, que teve que aprender a lidar com uma rara doença degenerativa enquanto começava sua carreira acadêmica e o relacionamento com sua namorada, Jane. A tarefa do ator foi das mais difíceis ao viver cada passo da evolução da doença no organismo. É a primeira indicação ao Oscar de um ator que eu conheci (e detestei) em Pecados Inocentes (2007), mas que redimiu-se em Sete Dias com Marilyn (2011) e Os Miseráveis (2012). 

 BENEDICT CUMBERBATCH (O Jogo da Imitação)

Muita gente considerava que seria uma barbada para Cumberbatch a categoria de melhor ator, mas conforme os filmes foram estreando, perceberam que era a temporada mais acirrada da categoria em anos. Na pele do matemático Allan Turing, que durante a Segunda Guerra Mundial, teve a árdua tarefa de decifrar a máquina Enigma utilizada pelos nazistas (além de esconder a homossexualidade numa época que era considerado crime),  Benedict está excelente! Ainda que não leve a estatueta para casa, novas oportunidades devem aparecer em breve. É a primeira indicação do ator inglês, que já participou de vários filmes que caíram na mira do Oscar como Desejo e Reparação (2007) e 12 Anos de Escravidão (2013)! 

STEVE CARRELL (Foxcatcher)

Quem diria que o personagem mais esquisito no páreo seria vivido pelo comediante Steve Carrell? Depois de ser elogiado em Cannes e indicado ao Globo de Ouro, Carrell recuperou o fôlego no final da temporada como o excêntrico milionário, amante de luta-livre, Jon DuPont. Seria maldade diminuir sua atuação à maquiagem utilizada, já que o trabalho vocal e de corpo do ator impressiona por sua contenção. Desde a primeira cena percebemos que existe algo fora do lugar no mundo do personagem - e a história real contada no filme só retrata bem isso. Famoso por comédias como O Virgem de 40 Anos (2005), Uma Noite Fora de Série (2010) e Amor à Toda Prova (2011), o ator conseguiu sua primeira indicação ao Oscar por um papel bem diferente. 

BRADLEY COOPER (Sniper Americano)
O único no páreo já indicado anteriormente é Cooper. Ele interpreta o atirador do exército americano Chris Kyle, responsável por mais de uma centena de execuções. O filme é baseado nas memórias do personagem, seus dilemas, seu relacionamento com a família e sua tentativa de conciliar a tensão da guerra com a vida domiciliar. Cooper foi indicado ao prêmio anteriormente por suas cômicas atuações em O Lado Bom da Vida (2012) e Trapaça (2013), mas aqui apresenta seu personagem mais dramático, sendo um caso raro de ator indicado três anos seguidos pela Academia (ou seja, se sua primeira indicação gerou estranhamento, agora isso é passado). 

O ESQUECIDO: JAKE GYLLENHAAL (O Abutre)

Houve um tempo em que Jake era uma séria ameaça aos atores que quisessem ser indicados ao Oscar 2015 por sua atuação como o cameraman freelancer caçador de desgraças noturnas que alimentam um jornal sensacionalista. O ator foi indicado ao Globo de Ouro e suas chances pareciam concretas junto à Academia... mas ele ficou de fora dos indicados. A explicação talvez esteja no mórbido emagrecimento para viver o personagem Lou Bloom (ele perdeu 13 quilos). Depois de Matthew McConaughey e Jared Leto esqueléticos na cerimonia do ano passado por Clube de Compras Dallas, a cota de tranformações físicas do ano ficou com Steve Carrell e só (né Jennifer Aniston?). Jake já foi indicado ao Oscar de coadjuvante  por Brokeback Mountain (2005) - e com seu gosto atual por personagens estranhos deverá ser indicado nos próximos anos. 

Na Tela: Dois Dias, Uma Noite

Os amigos e Sandra: o individual e o coletivo (forma por indivíduos). 

A ausência de Marion Cotillard nas listas de premiações já deviam ter deixado a atriz convencida de que não tinha chances de ser indicada ao Oscar desse ano. Com todo o favoritismo de Julianne Moore (Alice Para Sempre), os elogios recebidos por Rosamund Pike (Garota Exemplar), o reconhecimento de Felicity Jones (A Teoria de Tudo) e o retorno de Reese Witherspoon (Livre), a quinta vaga parecia estar garantida para Jennifer Aniston (por Cake). Então, os deuses do cinema conspiraram a favor da atriz francesa que foi indicada ao Oscar novamente por um filme falado em francês. Vale lembrar que Marion é a única atriz estrangeira na história do Oscar  a ganhar o prêmio de atriz por um filme não falado em inglês (Piaf/2007) e, depois de sua participação em vários filmes americanos, ela tornou-se bastante influente entre os votantes da Academia. O longa Dois Dias, Uma Noite dos irmãos Jean Pierre e Luc Dardenne competiu em Cannes e foi o escolhido francês para concorrer a uma vaga no Oscar de filme estrangeiro, mas acabou ficando de fora. Bastante atual e filmado com a câmera na mão (mas sem os tremeliques irritantes de tantos outros), existe um ar quase documental à peregrinação de Sandra (Marion), funcionária de uma fábrica que, um dia, acorda com o telefonema anunciando a sua demissão. A decisão foi tomada para que seus colegas de trabalho possam receber um gordo bônus salarial. A partir daí, Sandra aceita (a contragosto) a sugestão de procurar cada um dos dezesseis votantes para convencê-los de que ela precisa do trabalho, mais do que eles precisam do bônus. Com o apoio do esposo e um casal de amigo, ela começa uma tarefa difícil (e um tanto humilhante) no curto prazo anunciado pelo título para que haja uma nova votação na segunda-feira que se aproxima. A trama é bastante simples, mas entre um encontro e outro, o texto dos irmãos Dardenne apresenta um olhar bastante complexo das relações trabalhistas no mundo moderno, onde o individual e o coletivo (que não podemos esquecer que é formado por individualidades) entram em choque todo o tempo. Sem apontar para heróis ou vilões, o filme prefere expor alguns laços, ainda que frágeis, que se desenham entre a personagem e seus colegas. A estrutura da narrativa pode incomodar os mais dispersos, mas vale a pena conferir a produção que conta com uma atuação memorável de Marion, que mergulha nas nuances mais variadas de sua personagem complicada. Cotilard é uma das melhores atrizes do cinema atual e vendo sua performance logo percebe-se o motivo: um simples gesto ou olhar já consegue transmitir a alma da personagem. Seus silêncios são tão marcantes que os votantes da academia lembraram se sua atuação límpida, sem truques de maquiagem ou visual, trata-se de uma atriz que se defende apenas vestindo o personagem como ele merece e, assim, colocar a cara a tapa diante da câmera. Só ela já vale o filme. 

Dois Dias, Uma Noite (Deux Jours, une nuit/França-2015) de Luc e Jean Pierre Dardenne, com Marion Cotillard, Fabrizio Rongione, Catherine Salée e Batiste Sornin. ☻☻☻☻

PL►Y: O Espetacular Homem-Aranha 2: A Ameaça de Eletro


Garfield: universo paralelo (sem graça) da Marvel. 

Sei que ninguém entendeu muito bem os motivos que levaram a Sony a repaginar as aventuras do Homem Aranha na telona. É verdade que a terceira aventura capitaneada por Sam Raimi com Tobey Maguire na pele do aracnídeo foi um vexame (por iniciativa do próprio estúdio), mas nada que um quarto episódio não fosse passar a borracha. Depois de alguns desentendimentos, Raimi e Maguire largaram a franquia e o estúdio fingiu que não entendeu, resolveu começar tudo de novo. Escalaram Marc Webb (saindo do sucesso de 500 Dias com Ela/2009), escalou dois jovens astros em alta (Emma Stone e Andrew Garfield, que engataram um romance na vida real) e disseram ter algumas novidades para as aventuras do herói na telona. Com o Espetacular Homem-Aranha (2012), tivemos mais promessas de um novo universo do que provas concretas, deixando a expectativa para a segunda empreitada de Webb nas alturas. Chegando aos cinemas a decepção foi indisfarçável e o gosto deixado pela aventura anterior, teria sido melhor se fosse ambientada num episódio isolado de um universo Marvel paralelo. O Espetacular Homem Aranha 2 é quase um desastre. O roteiro é muito ruim, os diálogos são péssimos e o encadeamento da história é uma sucessão de clímax e anticlímax como há muito não se via num filme de super-herói. Dessa vez o herói aracnídeo tem que enfrentar o vilão Eletro (Jamie Foxx) e seu maior inimigo, o Duende Verde (Dane DeHaan) enquanto tenta salvar seu relacionamento com Gwen Stacy (Emma Stone) que contraria a promessa que Parker fez ao pai dela ao final do filme anterior). Essa premissa é o ponto de partida para a aventura que empolga menos do que deveria. Mais uma vez Parker é amigo do jovem Harry Osborne (DeHaan)  e inventaram que o alter-ego de Eletro, Max Dillon (Foxx) era uma espécie de fã pateta número um do herói. Misture isso a um segredo empresarial envolvendo o pai de Parker e o roteiro terá que caminhar a duras penas já que Andrew Garfield sente-se tão a vontade na pele de Peter Parker que o personagem acabou virando uma paródia de Andrew Garfield - animado em excesso e descolado demais para o Peter que conhecemos nos quadrinhos ou filmes anteriores, Andrew perdeu a mão na composição do personagem. O mesmo acontece com Jamie Foxx, exagerado quando simples mortal e inexpressivo quando se torna o vilão Eletro (que visualmente mais parece uma versão pobre e pouco criativa do Dr. Manhattan). DeHaan está melhor, mas sua pose de rebelde já começa a cansar logo na metade do filme e resta à Emma Stone ser o destaque do elenco, mas sem muitas cenas para brilhar. Decepcionante, o filme acarreta até negociações da Sony com a Marvel para inserir Spider Man nas aventuras de seus heróis, afinal, nas mãos da Sony, o herói vive realmente num universo paralelo da Marvel, um mais histérico, sem graça e sem rumo. 

O Espetacular Homem Aranha 2: A Ameaça de Eletro (The Amazing Spider Man 2/ EUA-2014) de Marc Webb com Andrew Garfield, Emma Stone, Dane DeHaan, Jamie Foxx, Sally Field, Colm Feore, Felicity Jones. ☻

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Na Tela: O Jogo da Imitação

Keira, Benedict e seus colegas de elenco: belo filme quadrado. 

Com oito indicações ao Oscar (Filme, diretor, ator, atriz coadjuvante, roteiro adaptado, edição, design de produção, trilha sonora original) chega aos cinemas brasileiros o elogiado O Jogo da Imitação, filme que conta parte da história do matemático Alan Turing (vivido com o talento habitual de Benedict Cumberbatch), que durante a Segunda Guerra Mundial ajudou a Inglaterra a desvendar os códigos misteriosos da máquina alemã conhecida como Enigma. A máquina realizava uma combinação de caracteres que mudavam de significado sempre que o relógio batia à meia-noite (o que impossibilitava que a Inglaterra e seus aliados previssem os planos do inimigo e impedissem os avanços da Alemanha nazista). As combinações beiravam o infinito para o grupo de meia-dúzia de homens que foi contratado para desvendar o código alemão. Enquanto seus colegas quebravam a cabeça para descobrir o próximo passo dos alemães, Turing gastava seu tempo desenvolvendo uma máquina capaz de descobrir o significado dos caracteres através de sucessivas combinações em tempo hábil para intervenções militares. No entanto a tarefa é mais complicada do que parece, já que decifrar a Enigma beirava o impossível com a tecnologia dos meados da década de 1940. Além dessa parte histórica, o filme explora a sexualidade de Turing, um sujeito reservado e antissocial que despertava a fúria de seus colegas de trabalho. Com uma enorme dificuldade de comunicação, fazer amizades lhe parece tão difícil quanto decifrar os códigos militares dos alemães. Sua maior afinidade acontece com Joan Clarke (Keira Knightley), com quem consegue certa afinidade por ela ser tão estanha no ninho quanto ele (ele com suas reservas para silenciar a homossexualidade e ela por ser mulher num universo majoritariamente masculino), a sintonia entre os dois é tão forte que eles mergulham num noivado fadado ao fracasso. Enquanto o passado é apresentado, conhecemos acontecimentos posteriores, onde o segredo de Turing torna-se alvo de investigações policiais que suspeitam que ele seja um espião - e vale lembrar que ser gay era considerado crime no Reino Unido até 1967, sob pena de sofrer castração química). Como dá para perceber, há um bocado de assunto no roteiro do estreante Graham Moore, o texto é defendido por um bom elenco (que ainda conta com Matthew Goode, Allen Leech, Charles Dance e Mark Strong) mas é explorado de forma um tanto conservadora pelo cineasta norueguês Morten Tyldum (que mesmo sem apresentar nenhuma novidade, foi indicado ao Oscar de direção). Em alguns momentos Tyldum chega a irritar com a sua necessidade de resolver os conflitos antes que gerem desconforto na plateia. Existem alguns conflitos (rasos) rumo ao final do filme e cenas que claramente não aconteceram, mas que pretendem reforçar a atmosfera triste do filme. Provavelmente a maioria dos espectadores nem irão se incomodar com a visão tradicional que Tyldum imprime a história, até porque estarão absorvidos pela atuação precisa de Cumberbatch na pele do gênio que construiu o tataravô do computador. Talvez na reta final das premiações, a visão um tanto dura da história de um personagem tão fascinante colaborou para que Benedict perdesse seu favoritismo para outro ator inglês que vive um gênio real (era visível o desapontamento de Benedict quando perdeu o Globo de Ouro para Eddie Redmayne que vive Stephen Hawking em "A Teoria de Tudo", tanto que nem foi ao SAG para ver o adversário ser premiado). Benedict é a alma de O Jogo da Imitação, já que o filme anuncia o conceito interessante de que homossexuais enrustidos, espiões, agentes da inteligência, mulheres inteligentes e todo tipo de gente imitam códigos de conduta para ficar a salvo de represálias, isso poderia resultar num filme tão brilhante quanto seu protagonista se tivesse um pouco mais de ousadia no ano em que enfrenta Birdman, Boyhood e O Grande Hotel Budapeste no Oscar.    

O Jogo da Imitação (The Imitation Game/EUA-Reino Unido/2014) de Morten Tyldum com Benedict Cumberbatch, Keira Knightley, Mark Strong, Matthew Goode e Allen Leech. ☻☻☻

§8^) Fac Simile: Elisabeth Moss

Elisabeth Singleton Moss
Nosso repórter imaginário nem acreditou quando andava pelas ruas de Los Angeles e encontrou com Elisabeth Moss, a estrela do seriado Mad Men. Em uma rápida entrevista a atriz comentou sobre o fim da aclamada série, seus planos para o cinema e o que mais a irrita em ser uma celebridade nessa entrevista que nunca existiu: 

§8^) Como se sente com o fim do seriado que a tornou conhecida mundialmente na pele de Peggy Olson?

Moss: Sinto-me muito grata por ter conquistado um papel que sofreu tantas transformações. Acho que Peggy foi a personagem que mais mudou na série e sinto que eu também mudei muito: perdi peso, mudei a cor do cabelo, ganhei prêmios... quando vejo a Peggy no primeiro episódio eu não a reconheço como sendo eu. Sem falar nos personagens que ficaram pelo meio do caminho... veja o que houve com a  January Jones ela simplesmente perdeu todo o espaço no programa, sorte minha! rs

§8^) A mídia já a colocou entre as bad girls de Hollywood, já falou que você namorava com Tom Cruise e criou um estardalhaço quando você levantou o dedo do meio num programa da TV. A mídia irrita você?

Moss: Só quando me chamam para um ensaio numa revista e usam tanto photoshop que eu fico me procurando nas fotos - sendo que somente eu apareço nelas. Sou atriz, não sou modelo, não me acho uma beldade, mas aprendi a me cuidar, mas sei que não sou a Kate Moss e, vale ressaltar, que não somos parentes. Também não quero que as pessoas comecem a ficar falando do meu corpo como fazem com o Jon (Hamm), houve uma  época em que todo mundo só olhava para a pélvis dele... houve quem falasse que... digamos... o "mecanismo" dele foi fundamental para compor o garanhão Don Draper. Dá para acreditar?

§8^) É verdade que ele não usa cueca?

Moss: Sim. Ele diz que não existe tamanho próprio para ele. A autoestima de Jon é realmente fascinante... e a esposa dele tem sempre uma pele ótima.

§8^) No ano que Mad Men termina você tem cinco filmes agendados para chegarem às telas. Já disseram que você lembra Jodie Foster e Kate Winslet quando está atuando?

Moss: Sério? Fico muito feliz com seu elogio... vou encarar isso como se você dissesse que ganharei o Oscar algum dia. 

§8^) Eu acredito nisso! Ainda mais agora que o cinema redescobriu você! Lembro quando vi Garota, Interrompida (1999) e percebi que você era um talento!

Moss: Meu Deus, você lembra disso? kkk! Lembro que todas as minhas expectativas foram por água abaixo quando todo mundo só falava da Anjelina Jolie e eu pensava: "mas ela só sabe fazer beicinho" e eu tendo que ser expressiva com aquela maquiagem horrorosa. Anjelina era muito esquisita, mas agora ela mudou, casou, perdeu uns cinquenta quilos, tem uma dúzia de filhos e não bebe mais sangue (risos).

§8^) Acho que se Top of the Lake  fosse um filme, você ganharia um Oscar!
Moss: Eu penso a mesma coisa!

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

PL►Y: As Complicações do Amor

Mark e Elisabeth: discutindo a relação com surrealismo. 

Lançado em agosto nos EUA, As Complicações do Amor não conseguiu espaço nas telas brasileiras e chega direto em DVD. Considerado um dos filmes mais interessantes do ano passado, o longa do diretor estreante Charlie McDowell concorreu ao Independent Spirit de melhor roteiro de estreia por sua mistura de comédia romântica com o seriado "Além da Imaginação". O filme começa de maneira bastante simples ao apresentar o casal em crise formado por Ethan (Mark Duplass) e Sophie (Elisabeth Moss). Os dois tentam reencontrar a graça da vida a dois, mas até o momento a terapia de casal só serviu para mostrar o quanto estão fora de sintonia. Diante da crise, o terapeuta (vivido por Ted Danson) lhes empresta a chave de uma casa de campo, onde os casais costumam passar alguns dias e voltar com a afetividade renovada. Afastados da cidade e do cotidiano rotineiro do lar, Ethan e Sophie voltam a lembrar dos velhos tempos em que o casamento ainda conseguia ser divertido, nisso começam a reparar elementos da personalidade um e do outro que pareciam esquecidas. É nesse momento que o roteiro dá uma guinada e apresenta os dois lados da personalidade dos personagens de forma bastante... concreta: se Ethan está quase sempre tenso em suas convicções, ele agora aparece mais relaxado, charmoso e divertido, da mesma forma, Sophie que parecia sempre aborrecida, agora está leve e compreensiva como há tempos não era. Parecendo outras pessoas, o roteiro investe numa abordagem surrealista para abordar como a rotina do casamento pode tornar as pessoas bastante diferentes do que costumavam ser quando atraiam seus parceiros. O roteiro de Justin Leader não permite que se comente mais do que isso, mas entre uma situação inusitada e outra, consegue levantar discussões interessantes sobre casamento, amor, fidelidade, rotina e confiança, para isso, o entrosamento de seus atores era fundamental para que funcionasse. Duplass e Moss (que aqui prova, mais uma vez, que tem talento para sobreviver cinematograficamente ao fim próximo do seriado Mad Men) possuem uma química surpreendente, aparentando realmente formar um casal em suas afinidades e conflitos, permitindo diálogos interessantes entre as nuances de Ethan e Sophie. O casal consegue levar o filme com grande naturalidade, mesmo quando o absurdo da trama perde o pique e compromete o ritmo perto do desfecho. Porém, McDowell consegue manter o  interesse do espectador que consegue relacionar a história a tantas outras que já vivenciou.  Destaque para o momento crucial em que o casal tem que provar que ainda existe identificação entre eles para continuar juntos... o resultado pode ser surpreendente. Pelas discussões que motiva de forma bastante lúdica, o filme merece ser descoberto.

As Complicações do Amor (The One I Love/EUA-2014) de Charlie McDowell com Mark Duplass, Elisabeth Moss, Ted Danson e Charlie McDowell. ☻☻☻

PL►Y: Os Infiéis

Gilles e Jean: o risco de fazer um filme sem importância. 

O francês Jean Dujardin atua no cinema desde 2002, mas desde a década de 1990 era um rosto conhecido na TV francesa. Apesar dos vários trabalhos, Dujardin nunca foi um dos nomes mais badalados do cinema francês, sua consagração aconteceu mesmo foi com O Artista (2011), espécie de brincadeira com o cinema mudo que deu certo nas mãos do diretor Michel Hazanavicius (e ganhou 5 Oscars). Pelo papel, o ator ganhou fama mundial como galã de Hollywood que precisava adaptar-se ao cinema falado. O trabalho lhe rendeu muitos prêmios importantes - e culminou com o Oscar. Mas desde que recebeu o prêmio sua carreira não deslanchou como esperavam. Os papéis no cinema francês não o colocaram novamente em foco e em Hollywood se limitou a participações especiais em alguns filmes (como O Lobo de Wall Street/2013). Assim, Dujardin pode ser lembrado como um dos casos de oscarizados que padecem de uma espécie de maldição, especialmente se levarmos em consideração que seu filme após o sucesso de O Artista foi a comédia safada Os Infiéis. A ideia nasceu do próprio astro, que pensou num filme episódico que contasse com curtas de diversos diretores sobre a infidelidade, sendo que, os protagonistas dos curtas são vividos pelo próprio Dujardin e Gilles Lelouche. O objetivo era reviver o clima das comédias sexuais italianas (que inspiraram até as pornochanchadas no Brasil), mas o resultado desagradou desde a divulgação dos primeiros cartazes. Não era para levar a sério o tom jocoso da divulgação, mas consideraram o filme ofensivo desde aquele momento. Quando o filme estreou, a coisa desandou de vez, especialmente por procurarem nele algo que nunca ambicionou ser. É verdade que suas partes não trazem nada de muito especial, as tramas sobre os dois amigos que traem suas esposas e depois voltam para casa como se nada houvesse ocorrido, ou do grupo de auto-ajuda onde todos os adúlteros só pensam em uma noite de sexo com a psicóloga que conduz as reuniões, ou as tentativas de um homem trair a esposa durante uma convenção... não trazem nada de muito original. No entanto, os episódios dos dois amigos que resolvem aprofundar mais "os laços" numa viagem a Las Vegas e a acalorada discussão de um casal que descobre a infidelidade um do outro após um jantar com os amigos pode proporcionar alguns momentos interessantes. São eles que me fizeram pensar que se não fosse episódico, mas um filme de história única com começo, meio e fim envolvendo os acontecimentos que surgem na tela, o longa poderia resultar em algo mais consistente. Costurando seus curtas o resultado soa repetitivo e um tanto redundante, camuflando o que alguns curtas possuem de mais interessante. No fim das contas, a impressão que fica é que Dujardin tinha no inconsciente a vontade de separar sua imagem do galã do longa de Hazanavicius (que dirige uma das histórias), as cenas de nudez debochadas e uma reveladora cena gay com Lellouche, demonstra que o ator não tem pudores diante das câmeras - resta saber se depois de tantos prêmios, não houve propostas mais interessantes para explorar o potencial do sorridente ator. 

Os Infiéis (Les Infidèles/França-2012) de Emmanuelle Bercot, Jean Dujardin & outros, com Jean Dujardin, Gilles Lellouche, Karine Ventalon e Pierre Benoist. ☻☻

Na Tela: Foxcatcher

Tatum e Carrell: relacionamento perigoso.

Foxcatcher (me recuso a acrescentar o aposto "Uma História que Chocou o Mundo" que o título recebeu no Brasil)seria lançado ao final de 2013 para concorrer aos Oscars do ano passado, mas os produtores ficaram tão otimistas com o resultado do novo filme de Bennett Miller (Capote/2005 e do superestimado O Homem que Mudou o Jogo/2011) que resolveram guardar o filme para que ele fosse exibido pela primeira vez no Festival de Cannes (em maio de 2014) e começasse sua trajetória rumo às premiações. O filme recebeu o prêmio de melhor diretor no Festival francês e termina sua trajetória com cinco indicações ao Oscar: ator (Steve Carrell), ator coadjuvante (Mark Ruffalo), roteiro adaptado, maquiagem e direção, mas ficando de fora do páreo de melhor filme (já que esse ano a Academia resolveu indicar somente oito produções na categoria mais cobiçada da noite do dia 22 de fevereiro). O que aconteceu de maio para cá foi que a produção começou a receber críticas pela forma como o Miller conta o estranho envolvimento do milionário John du Pont (Carrell) com os irmãos lutadores de luta-livre Dave (Ruffalo) e Mark Schultz (Channing Tatum), ambos premiados em campeonatos mundiais e medalhistas olímpicos. Ambientado na década de 1980, o filme aborda como o interesse de du Pont pelo esporte o aproximou dos irmão Schultz, especialmente de Dave. Convidando os dois para treinar atletas nas instalações de sua fazenda Foxcatcher, somente Dave aceitou o convite. Foi o primeiro passo para um relacionamento desastroso. Du Pont era um sujeito estranho, vivia numa espécie de mundo bastante particular, onde sua mãe, Jean du Pont (Vanessa Redgrave) parecia dar mais atenção aos cavalos de raça do que ao desenvolvimento do filho. Enquanto ele investia dinheiro em atletas sobre o tatame, Jean reprovava profundamente o interesse do filho pelo esporte, por considerar sua prática algo vulgar (e os motivos para isso ficam bem claros numa cena evocativa da sexualidade reprimida de seu filho). As excentricidades de John (com direito a vícios e invenção de apelidos patéticos para si mesmo) servem como uma espécie de ímã para Dave que necessitava do reconhecimento sem estar à sombra do irmão esportista (e mais expressivo). Em contraponto com a habilidade para o esporte, Dave tinha uma dificuldade enorme de verbalizar o que sentia (e nesse ponto, Channing Tatum está bastante convincente na interiorização das emoções do personagem e, se fosse indicado ao Oscar, não seria o equívoco que alguns imaginavam), mas John surge como um mistro de mentor e protetor, que gradativamente quase leva seu protegido à ruína nos preparativos para as Olimpíadas de Seul (1988). Alguns criticam Bennet Miller pela frieza com que conduz seu filme, algo tão latente que alguns reclamam da relação de John e Dave ficar demais nas entrelinhas, mas não vejo sua abordagem como um equívoco. Foxcatcher quer mesmo ser um filme sombrio, melancólico e desolador, sem os exageros que poderia desandar as intenções do diretor - mais preocupado com a forma dos personagens se encaixarem nas lacunas emocionais um do outro. Se a forma tem sido criticada, todos reconhecem que Miller é um exímio diretor de atores. Seria uma maldade sem tamanho diminuir a interpretação de Carrell à sua maquiagem - o ator, famoso por trabalhar em comédias, faz um trabalho de corpo impressionante no jeito de andar, de sentar, de olhar... sua atuação consegue compor um sujeito tão interessante como uma grande interrogação. Da mesma forma, Tatum sustenta a aparência de brucutu, mas com fragilidade emocional palpável a cada cena - mas as premiações preferiram celebrar Mark Ruffalo numa atuação que parece simples, mas é bem diferente das que estamos acostumados a vê-lo (ele parece ser a única fortaleza em cena), mas de total cumplicidade com seu irmão em cena. Ainda que não agrade a todos, Foxcatcher mostra que o cinema de Bennett Miller tem virtudes bastante específicas, principalmente quando tudo exala o lado sombrio dos seus personagens, inclusive o que não é dito. 

Foxcatcher (EUA/2014) de Bennett Miller com Steve Carrell, Channing Tatum, Mark Ruffalo, Vanessa Redgrave, Sienna Miller, Anthony Michael Hall e Brett Rice. ☻☻☻☻

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

INDICADOS AO OSCAR 2015: Melhor Atriz

JULIANNE MOORE (Alice Para Sempre)
Pelo papel da professora especialista em linguística que sofre de Alzheimer precoce, Julianne tornou-se a favorita. Ela já levou para a casa o Globo de Ouro de atriz dramática e o prêmio do Sindicato dos Atores na mesma categoria (além de outros prêmios) pelo papel. Faz tempo que Julianne merece um Oscar, seu talento já foi reconhecido pela Academia em outras quatro ocasiões, afinal ela já concorreu quatro vezes: melhor atriz por Longe do Paraíso/2002 e Fim de Caso/1999  e Atriz Coadjuvante por Boogie Nights/1997 e As Horas/2002, em todas as vezes poderia ter ganho, mas somente agora é considerada imbatível. Aos 54 anos, se ganhar, será uma das poucas atrizes a ganhar todos os principais prêmios do cinema (Cannes, Veneza, Berlim, Globo de Ouro e Oscar) ao longo da carreira.

FELICITY JONES (A Teoria de Tudo)
Faz tempo que essa Felicity fica na mira das indicações e acaba de fora. Houve especulações de indicações por A Tempestade/2010 , Loucamente Apaixonados/2011 e O Nosso Segredo/2013 mas foi como a devotada esposa do físico Stephen Hawking que a Academia lhe conferiu a primeira indicação. Ela transborda emoção na pele de Jane Hawking e o desafio de lidar com a doença degenerativa do esposo - considerado um dos homens mais inteligentes do mundo. Atuando desde os treze anos, Felicity é uma de minhas atrizes favoritas (e com o prestígio alcançado com o filme deve ter seu número de admiradores  aumentado consideravelmente).

REESE WITHERSPOON (Livre)
Baseado na autobiografia de Cheryl Strayed, o filme do canadense Jean Marc-Vallé mostra a jornada de uma mulher em busca de superar seus fantasmas numa trilha de mil milhas pela costa do Oceano Pacífico. A jornada também ajudou Reese Witherspoon a encontrar sua redenção no cinema independente, com qual flertava nos últimos anos depois de servir apenas de chamariz em filmes que nem ligavam se ela tinha um Oscar de atriz por Johny & June/2005. Pela personagem que lida com o divórcio, tenta superar o vício em heroína e a morte da mãe, a atriz entrou no radar da Academia mais uma vez por um papel dramático. 

ROSAMUND PIKE (Garota Exemplar)
Apesar do filme ser um dos mais falados do ano, a Academia considera que a melhor coisa nele é a interpretação da atriz como a multifacetada esposa desaparecida do filme de David Fincher. Na obra, em que nada é o que parece, Rosamund está excepcional na pele de uma personagem complicada. Curiosamente, quase que Reese Witherspoon (que tinha comprado o direito autoral para adaptar o best seller) ficou com o papel, mas Fincher conseguiu convencê-la de que não era adequada para o papel. É a primeira vez que a atriz inglesa concorre ao Oscar, antes seu papel mais conhecido era como a doce Jane de Orgulho e Preconceito/2005. 

MARION COTILLARD (Dois Dias, Uma Noite)
 A academia gostou mesmo dela no papel da mulher que precisa convencer seus colegas operários de que eles devem votar pela sua permanência na fábrica (e abrir mão de um gordo bônus salarial). Ótima em cena, Cotillard tem um Oscar na estante por Piaf (2007), onde interpretou a diva francesa Edith Piaf - e desde então mostrou-se versátil em blockbusters (A Origem/2010 e Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge/2012 ), produções que miram o Oscar (Nine/2009 , Meia-Noite em Paris/2011, Era Uma Vez em Nova York/2014) além de produções estrangeiras (Ferrugem e Osso/2012). Vale lembrar que Marion é a única atriz estrangeira a ganhar um Oscar de atriz em língua não inglesa. 
  
A ESQUECIDA: Jennifer Aniston (Cake)
Sei que para muitos é difícil acreditar, mas Aniston foi uma das ausências mais sentidas nas indicações desse ano. No filme ela interpreta uma mulher traumatizada e depressiva, dependente de remédios e de grupos de autoajuda (e ainda torna-se obcecada por uma conhecida que se suicidou). O filme de Daniel Barnz rendeu elogios à atriz desde que foi exibido no Festival de Toronto, mas desde o início o produtor inexperiente comprometeu a repercussão do filme no período de votação. Pelo papel, Aniston concorreu a vários prêmios, entre eles o Globo de Ouro de atriz dramática e o Prêmio do Sindicato. Jennifer também foi quase indicada ao Oscar por sua atuação em Por um Sentido na Vida (2002).