domingo, 9 de agosto de 2026

PL►Y: Undertone

Nina: maldição caótica. 

Aterrorizado diáriw, a julgar pelos filmes de terror que recebem atenção atualmente, posso dizer que os slasher movies e seus serial killers mascarados estão em baixa. A ideia agora é investir pesado no terror psicológico, no poder da sugestão, nos silêncios e brincar com medos mais íntimos da plateia. Nessa esteira que Undertone chegou aos cinemas. A trama se concentra em Evy (Nina Kiry), uma jovem cética que produz um podcast junto com o amigo Justin (Adam DiMarco) voltado para histórias assustadoras. Recentemente ela precisou se mudar para cuidar da mãe doente, este e outros aspectos da vida pessoal de Evy irão influenciar bastante a forma como ela lida com o trabalho quando recebe um conjunto de dez gravações de áudio de um casal desconhecido. Durante cada áudio escutado cresce a sensação de que algo estranho aconteceu com o casal que estava prestes a ter o primeiro filho. Evy sempre tenta explicar o que está acontecendo pela luz da lógica, mas aos poucos ela começa a perceber que em sua própria residência situações estranhas começam a acontecer. Undertone faz com que o espectador se identifique com a personagem por compartilhar com ela a audição dos áudios angustiantes, mas o filme escorrega quando na última meia hora precisa dar conta de concluir o que está acontecendo e tudo vira uma grande bagunça. Um misto de alucinação, culpas, maldições, entidades e crendices religiosas que são costuradas meio de qualquer jeito até que os créditos apareçam. Era uma ideia original com desenvolvimento irregular até virar um caos completo.  No entanto, não deixa de ser uma estreia promissora do canadense Ian Tuason. 

Undertone (Canadá-2025) de Ian Tuason com Nina Kiri, Adam DiMarco, Michèle Duquet, Jeff Yung, Ryan Turner, Keana Kyn Bastidas. 

PL►Y: Fremont

Zada: coração desamparado. 
 Isolado diáriw, Fremont é o tipo de filme que gosto muito de assistir, mas que é difícil de encontrar e de realizar. Tem um senso de humor sutil, um drama que é contado nas entrelinhas e se desenvolve com bastante fluidez entre silêncios e situações. O filme conta a história de Donya (Anaita Wali Zada), uma afegã que vive na cidade californiana do título em um prédio com outros afegãos, alguns não falam com ela devido ao período em que trabalhou como tradutora para os EUA no Afeganistão (cerca de 17.000 vistos americanos foram emitidos para tradutores afegãos, além de cerca de 10.000 para parentes, muitos deles ainda perigosamente abandonados após a retirada das tropas). Talvez por conta deste clima tenso, ela prefira ir todo dia trabalhar em São Francisco em uma fábrica de biscoitos da sorte (e justifica que achou que seria bom ver chineses de vez em quando). Donya tem problemas para dormir e procura um psiquiatra para ajudar, talvez ela nem tenha ideia da necessidade que sinta de construir vínculos em um lugar distante de sua terra natal. Anaita Wali Zada constrói uma personagem contida e um tanto enigmática, mas podemos sua alma num misto de força e desamparo. Durante o filme a percebemos cercada de personagens interessantes, uma colega de trabalho, o patrão chinês, o psiquiatra (Gregg Turkington é um achado) e até um mecânico (um fofo Jeremy Allen White) que acende uma pequena chama em seu coração solitário. Há quem veja traços do cinema de Jim Jarmusch neste filme de Babak Jalali, mas eu notei um tanto de Wes Anderson dos bons tempos. É um filme simples, simpático e bastante agradável de assistir. 

Fremont (EUA-2023) de Babak Jalali com Anaita Wali Zada, Gregg Turkington, Hilda Schmelling, Siddique Ahmed. ☻☻☻

sábado, 8 de agosto de 2026

Combo: Inspirado em Jane Austen

05 Jane Austen Arruinou Minha Vida (2024) foi o filme que me fez lembrar que para além das mais de 30 adaptações que a obra de Jane Austen (1775-1887) já rendeu para cinema e TV, existe um subgênero cinematográfico vinculado à popularidade da escritora. São produções que embora não sejam versões para as telas dos livros da autora, bebem diretamente na fonte de suas referências. Esta comédia romântica francesa não chega a ser engraçada e o romance é visto de forma um tanto... desconstruída, mas faz das desventuras de sua personagem uma mistura de referências do que já vimos em Razão e Sensibilidade (não é a toa que a protagonista tem uma irmã desencanada de romances), Orgulho e Preconceito e Emma

04 O Clube de Leitura de Jane Austen (2007) baseado no sucesso editorial de Karen Joy Fowler, este foi um dos primeiros exemplos de que os fãs de Austen estavam dispostos a curtir um filme sobre Austen que não fosse uma adaptação de um dos seus cultuados romances. O longa conta a história de cinco mulheres e um homem que se encontram para conversar sobre a obra da escritora quase como se fosse uma terapia de grupo para resolver tudo o que ocorre na vida sentimental de cada um. O elenco é impressionante ao juntar Emily Blunt, Maria Bello, Hugh Dancy, Kathy Baker e Amy Brenneam com nomes menos conhecidos. Pena que o filme tenha personagens e dilemas demais para dar conta em uma narrativa cheia de água com açúcar. 

03 Orgulho Preconceito e Zumbis (2016) Jane Austen deve ter levado um susto no túmulo quando viu que em 2009 sua obra clássica recebeu uma releitura em tom de paródia que colocava as irmãs Bennett e Mark Darcy tendo que lutar contra uma legião de zumbis no século XIX. A fanfic do escritor Seth Grahame-Smith se tornou um sucesso nas livrarias e foi levada aos cinemas pelas mãos de Burr Steers (de A Estranha Família de Igby/2002, quem diria!). Embora se leve mais a sério do que deveria, o filme prende atenção pela química entre Lizzy (Lily James) e Darcy (Sam Riley) em meio ao massacre de zumbis. Vale dizer que figurinos, cenários e penteados são feitos no capricho até que um romance de época seja dominado por mortos-vivos. 

02 Austenland (2014) é mais uma adaptação literária de um livro voltado para fãs de Jane Austen, a diferença é que este conseguiu uma adaptação bastante equilibrada para a a telona, sendo divertido e esperto. Baseado na obra de Shannon Hale, o filme conta a história de  Jane Hayes (Keri Russell), uma mulher que aos 33 anos não encontrou seu par ideal. Apaixonada pela obra de Jane Austen, ela resolve usar suas economias para visitar um parque temático voltado para fãs da escritora. Lá ela vive um triângulo amoroso (que não sabe ser de verdade ou encenação) e se depara com os aspectos menos apaixonantes dos tempos de Austen (o ócio, o preconceito, as madames esnobes e a falta de dinheiro). Ser mocinha nos tempos de Austen não era moleza! 

01 Amor e Inocência (2007) confesso que quase que Austenland ficou em primeiro lugar na lista, mas achei que seria de bom tom deixar esta cinebiografia de Jane Austen. Dirigido por Julian Harrold, o filme conta um pouco da vida pessoal da cultuada autora nos tempos em que sonhava em conhecer o mundo e os pais queriam que se casasse com um homem rico. A americana Anne Hathaway vive a escritora inglesa e James McAvoy garante o tom de romance na pele de Tom Lefroy, homem que teria servido de inspiração para criação do famoso Mark Darcy em Orgulho e Preconceito. A graça do filme é captar as referências aos livros da autora que temperam a produção. O filme fez um relativo sucesso e Hathaway foi indicada ao British Independent Film Award na categoria de melhor atriz. A biopic vale uma conferida. 

PL►Y: Jane Austen Arruinou Minha Vida

Charlie e Camille: roteiro sem graça. 

Romântico diáriw, comédias românticas estão longe de ser meu gênero favorito. Porém, de vez em quando, até curto assistir algum longa metragem que prometa alguma coisa de diferente no gênero. Foi por conta disso que assisti Jane Austen Arruinou Minha Vida de Laura Piani, longa que recebeu alguma atenção no ano passado e rendeu para a atriz Camille Rutherford ao César de atriz revelação. Ela vive Agathe, uma dona de livraria que é fã da autora de Orgulho e Preconceito, mas que a vida amorosa anda estagnada. Traumatizada por um acidente, ela vive com a irmã e o sobrinho, além de ter como homem mais próximo o melhor amigo Félix (Pablo Pauly). Agathe também pretende escrever um livro, mas sempre considera que não tem tempo suficiente para isso. Eis que Félix a inscreve em uma espécie de retiro na propriedade que foi de Jane Austen na Inglaterra. Ela fica relutante em ir e os sentimentos pelo amigo ficam um tanto confusos. A coisa complica ainda mais quando ela conhece um tatatataraneto de Austen, Oliver (Charlie Anson), que é professor de literatura, desiludido do amor e imita trejeitos de Hugh Grant. Não é difícil perceber que Oliver assume aqui o papel de Mark Darcy e Agathe se vira como pode como uma heroína romântica contemporânea. O problema é que o filme faz pouca alusão à obra de Austen, os momentos que eram para ser engraçados não são tão engraçados assim e tudo soa bem menos esperto do que poderia ser devido às convenções do roteiro. Serve para passar o tempo e curtir o charme de Charlie Anson que parece mesmo um galã saído dos filmes baseados na obra da escritora. Confesso que não entendi o burburinho que houve em torno do filme, me pareceu bastante convencional e o final apressado serve só para expressar que não havia muito a dizer.

Jane Austen Arruinou Minha Vida ( Jane Austen a gâché ma vie / França - 2024) de Laura Piani com Camille Rutherford, Pablo Pauly, Charlie Anson, Annabelle Lengronne, Liz Crowther, Alan Fairban e Alice Butaud. ☻☻ 

PL►Y: We're All Going to the World's Fair

Anna: a vida online é ou não é real?

Arrepiado diáriw, antes de impressionar com Eu Vi o Brilho da TV (2024) a diretora Jane Schoenbrun realizou (ao lado de Valeria Santiago) este We're All Going to the World's Fair e deixou claro que tinha algo a dizer que não fosse convencional. O território de Jane é o thriller psicológico, temperado com dramas existenciais adolescentes que se alimentam uma atmosfera da horror. Aqui o roteiro se utiliza de um desafio online em que o cotidiano é transformado em registros que precisam avançar para situações de terror. A protagonista, Casey (a ótima Anna Cobb) é iniciante na brincadeira e não sabe muito bem como seus registros irão avançar. Sozinha no sótão registando vídeos e assistindo de outros participantes, Casey começa a construir sua trajetória online de forma que quem assiste não sabe se ela está sendo sincera ou se está criando uma ficção diante da câmera. A situação fica tensa quando um jogador veterano chamado JLB (Michael J. Rogers) começa a interagir com ela. O filme nunca deixa claro quais são os interesses de JLB em Casey e também não esclarece se os relatos dela são realmente angústias que ela atravessa cotidianamente. São nas ambiguidades do que é real e o que é encenação online  que o filme avança de forma instigante em um formato pouco convencional. A tensão cresce lentamente no estranhamento que o filme provoca, especialmente por usar o verniz do terror para falar de um tempo em que postagens online são constantes e embaçam a percepção de quem assiste. Esta ideia é o que torna o desfecho (apenas o relato de um personagem) ainda mais estranho.  Cheio de lacunas a serem preenchidas pelo espectador, o filme revela-se uma reflexão instigante sobre o mundo online e a solidão que camufla. Em cartaz na MUBI o filme é um ótimo aquecimento para Acampamento Miasma, novo filme da diretora que foi premiado em no Festival de Cannes deste ano. 

We're All Going to the World's Fair (EUA / 2021) de Jane Schoenbrun e Valeria Santiago com Anna Cobb, Michael J. Rogers, Turner Greaves, Theo Anthony, Marc Santiago e Holly Anne Frink. ☻☻☻

PL►Y: Toque Familiar

Kathleen: veterana premiada. 
Querido diáriw, naquele época de listas de melhores do ano, houve uma menção que fiquei realmente curioso. Dentre todas as atrizes que estavam disputando vagas em Oscar e tudo mais, uma pessoa (realmente não lembro quem foi) elegeu Kathleen Chalfant como a melhor performance feminina de 2024. A atriz veterana de 81 anos, estreou nos cinemas na década de 1980 e coleciona vários trabalhos para a telona e para a TV  - particularmente lembro dela como a avó da série The Affair (2014-2019). Embora tenha muito tempo de carreira, ela foi indicada a prêmios pela primeira vez em sua carreira por este Toque Familiar, pelo qual foi indicada ao Independent Spirit de melhor atuação e foi premiada no Festival de Veneza. No filme, a atriz interpreta Ruth, uma mulher que devido a problemas de memória passa a viver em uma casa de repouso para receber cuidados especiais. Kathleen consegue expressar com brilhantismo a confusão mental da personagem, construindo reações que se alternam de um minuto para o outro enquanto não consegue reconhecer que realmente possui um problema. A diretora e roteirista Sarah Friedland se concentra na relação de Ruth com quem está por perto (seja o filho ou os cuidadores), mas principalmente na relação com os fragmentos de memória que ainda lhe resta. O resultado não possui exatamente uma estrutura de começo meio e fim, mas uma espécie de costura de acontecimentos e situações que revelam um pouco mais sobre quem foi aquela mulher e sua relação com o mundo. É um filme com momentos emocionantes ancorados na atuação precisa de uma atriz que nunca recebeu a devida atenção. O trabalho de Kathleen Chalfant compensa a narrativa pouco inventiva, especialmente para quem viu a imersão sensorial proposta por Florian Zeller em Meu Pai (2020) que subverteu tudo que vimos nesse tipo de filme. 

Toque Familiar (Familiar Touch / EUA - 2024) de Sarah Friedland com Kathleen Chalfant, Carolyn Michelle, Andy McQueen, H. Jon Benjamin e Rafael Hernandez. 
 

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

4EVER: William Orbit

15/12/1956 ✰ 07/08/2026

William Mark Wainwright nasceu em Londres e abandonou a escola aos 15 anos para estudar por conta própria. O artista iniciou sua carreira na música nos anos 1980 como integrante do grupo Torch Song e fundou sua própria gravadora em 1989. Elogiado como músico, compositor e produtor, seu reconhecimento na cena eletrônica dos anos 1990 rendeu-lhe o convite de produzir o icônico álbum Ray Of Light (1998) de Madonna que recebeu 4 prêmios Grammy (sendo indicado a Álbum do ano). Dentre os artistas com quem estão U2, Blur e Prince. Ao longo de sua carreira solo, o artista lançou dez álbuns. A causa da morte não foi informada. 

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

GRANDE PRÊMIO DO CINEMA BRASILEIRO 2026

Jesuíta: melhor ator. 
Ontem aconteceu a entrega dos prêmios da Academia Brasileira de Cinema, o Prêmio Gande Otelo foi entregue no Rio de Janeiro e selou uma estranha rivalidade que marcou toda a temporada do ano passado. A culminância com o empate entre O Agente Secreto e Manas como melhor filme foi uma das coisas mais estranhas da história da premiação. Se ano passado Ainda Estou Aqui quase ganhou um prêmio especial e ficou de fora de todas as categorias para que os acadêmicos pudessem premiar outros profissionais do ramo, a sensação é que este ano a vontade foi tentar fazer o mesmo. O Agente Secreto (que foi indicado a quatro Oscars) acabou levando quatro prêmios técnicos na noite e a categoria principal. Manas levou cinco (atriz coadjuvante, direção, roteiro original e montagem). Fiquei feliz mesmo foi com Jesuíta Barbosa celebrado por Homem com H que foi escolhido como melhor filme pelo júri popular (pairando acima de toda briga de egos que marcou o gosto da Academia durante a temporada). A seguir os premiados da noite: 

Melhor Filme de Ficção

Melhor Filme de Comédia
Velhos Bandidos

Melhor Documentário
Apocalipse nos Trópicos

Melhor Filme Infantil
O Diário de Pilar na Amazônia

Melhor Animação
Tainá e os Guardiões da Amazônia 

Melhor Filme Ibero-Americano

Melhor Direção
Marianna Brennand — Manas

Melhor Primeira Direção de Longa-Metragem
Rafaela Camelo — A Natureza das Coisas Invisíveis 

Melhor Atriz de Longa-Metragem
Denise Weinberg — O Último Azul 

Melhor Ator de Longa-Metragem

Melhor Atriz Coadjuvante de Longa-Metragem
Dira Paes — Manas

Melhor Ator Coadjuvante de Longa-Metragem

Melhor Roteiro Original

Melhor Roteiro Adaptado

Melhor Direção de Fotografia
Evgenia Alexandrova — O Agente Secreto 

Melhor Direção de Arte
Thales Junqueira — O Agente Secreto

Melhor Figurino

Melhor Maquiagem

Melhor Montagem de Ficção
Isabela Monteiro de Castro — Manas

Melhor Montagem de Documentário
Apocalipse nos Trópicos

Melhor Efeito Visual

Melhor Som

Melhor Trilha Sonora

Melhor Série

Melhor Atriz em Série
Alice Carvalho — Cangaço Novo 

Melhor Ator em Série

Melhor Série de Documentário
Caçador de Marajás 

Melhor Série de Animação
Osmar, a Primeira Fatia do Pão de Forma (3ª temporada) 

Melhor Curta de Ficção
Amarela

Melhor Curta de Documentário
Sebastiana

Melhor Curta de Animação
A Tragédia do Lobo-Guará

terça-feira, 4 de agosto de 2026

NªTV: DTS St. Louis

Jason e David: nada é o que parece.
Elogiado diáriw, a minissérie DTS St Louis da HBO se tornou uma das produções mais celebradas do ano e, se considerarmos suas 13 indicações ao EMMY, deve se tornar uma das mais premiadas da temporada. Exibida nos meses de março e abril na emissora, meu interesse pelo programa veio com os comentários positivos unânimes que ouvi. O mérito aqui é subverter a impressão inicial de "já sei o que vai acontecer". Aquela sensação de comédia dramática suburbana que gerou pérolas como Beleza Americana (1999) e a série Desperate Housewives (2004-2012) repete-se aqui, mas nada é do jeito que você imagina. A trama aborda a amizade entre o apresentador Clark Forrest (Jason Bateman) e o intérprete de libras Floyd Smernitch (David Harbour) que o acompanha nos telejornais. Os dois ficam muito próximos e quando Floyd é encontrado morto, recai sobre Clark a suspeita de assassinato. Ao final do primeiro episódio a suspeita ganha ares de certeza com o caso entre ele e a esposa do falecido (Linda Cardellini) e os seis capítulos que se seguem servem para confundir o público e os investigadores encarregados do caso vividos por Richard Jenkins e Joy Sunday (que já teve destaque na série Wandinha, mas aqui mostra-se a revelação do elenco). A trama criada por Steve Conrad mistura adultério, aplicativos sexuais, amizade e auto-estima como uma espécie de jogo contra as expectativas do espectador. Se a visão inicial é a intenção de surpreender a plateia a qualquer custo, no desfecho percebemos que a proposta torna-se um desafio à nossa percepção sobre relações humanas. Não por acaso, a minissérie reforça o tempo inteiro que de perto ninguém é normal - e afinal, o que é ser normal? No fim das contas, só senti falta de um melhor desenvolvimento da esposa de Clark que praticamente some da narrativa. 

DTF St. Louis (EUA-2026) de Steve Conrad com Jason Bateman, David Harbour, Linda Cardellini, Richard Jenkins, Joy Sunday, Peter Sarsgaard, Chris Perfetti e Arlan Ruff.  

domingo, 2 de agosto de 2026

PL►Y: Mesa Maldita

Pareja: o horror do luto. 

Enlutado diáriw, dia desses vi este filme espanhol em uma lista de filmes angustiantes ao lado de Speak No Evil (2022), Faça Ela Voltar (2025) e outros filmes que já assisti. Fiquei curioso e fui procurar mais sobre este filme e fiquei surpreso ao descobrir que recebeu mais de vinte prêmios internacionais e, devido ao sucesso, rendeu até uma versão turca que foi lançada no ano passado. A trama conta a história de um casal que acaba de ter o primeiro filho. Depois de muitos anos de tratamento para conseguir um herdeiro, o clima entre Maria (Estefanía de los Santos) e Jesús (David Pareja) anda tenso. A cena de abertura em que os dois discutem sobre a compra de uma mesa de centro retrata bem como as alfinetadas entre um e outro se tornaram constantes. Ele quer comprar uma mesinha com tampa de vidro que dizem ter design sueco, ela acha a mesa horrorosa (e é mesmo). Contrariando a vontade de esposa, ele compra o móvel, mas ocorre um imprevisto na montagem e um acidente ocorre logo depois envolvendo o marido. Sem coragem de contar o que aconteceu, ele tenta esconder os fatos da esposa enquanto tenta lidar com seu próprio trauma. A parte em que o filme lida com a tensão entre marido e esposa funciona com perfeição, mesmo as atitudes um tanto desencontradas do marido fazem sentido diante o choque que vivenciou. A coisa perde um pouco o tom no jantar com as visitas que resolvem aparecer, junto com a vizinha de 13 anos que insiste em dizer que está apaixonada pelo marido de Maria. Nessa parte todo drama e tensão se dissolve no exagero, o que compromete um pouco o ótimo trabalho do diretor Caye Casas até então. Contado com atmosfera de filme de terror, o filme funciona mesmo como um drama pesado sobre um casal em crise.  

Mesa Maldita (La mesita del comedor / Espanha - 2022) de Caye Casas com David Pareja, Estefanía de los Santos, Josep Maria Riera, Claudia Riera, Eduardo Antuña, Gala Flores e Cristina Dilla. 

NªTV: Proud

Ignassy: a vida em julgamento. 
Orgulhoso diáriw, a HBO acabou de exibir a primeira temporada da premiada série polonesa Proud e confesso que fiquei surpreso ao descobrir que existe um gancho para uma segunda temporada. O motivo de minha surpresa é que no sexto episódio (são oito no total) eu imaginava que as coisas já poderiam se resolver devido ao sabor de enrolação. A trama conta a história de Filip Raczynski (Ignacy Liss), um jovem rapaz gay que curte noitadas com múltiplos parceiros sexuais, álcool e drogas. Ele ganha a vida fazendo alguns trabalhos como modelo por indicação de amigos e mora com a irmã Anna (Sylwia Boron) e a sobrinha, Tosia (Alicja Lewczuk). Acostumado com uma rotina sem responsabilidades, tudo muda quando Anna morre e a pequena Tosia precisa de alguém para cuidar dela. De início Filip não quer assumir a sobrinha, mas acaba revendo seus próprios fantasmas do passado (o fato de ter crescido em um orfanato e durante a vida poder contar somente com a irmã, que não está mais por perto). No decorrer dos episódio, Filip percebe que precisa mudar o estilo de vida e enfrenta as dificuldades de ajeitar a rotina para dar conta de um bebê. Das dificuldades de conseguir um emprego, manter um relacionamento e até de ser levado a sério pelos amigos, tudo piora quando a guarda pela menina vai para a justiça e suas chances permanecem mínimas pelo fato de ser gay. Quando começa a parte das visitas da assistente social a série começa a enveredar por situações que carecem de um pouco de credibilidade, prejudicando o tom realista da série. Ignassy Lyss dá conta de viver a transição do protagonista e entre os coadjuvantes está a excepcional Joanna Kulig (do maravilhoso Guerra Fria/2018) como a advogada sem firulas de Filip. 

Proud (Polônia/2026) de Karol Klementewicz e Monika Pęcikiewicz com Ignassy Lyss, Maria Sobocińska, Kamil Studnicki, Joanna Kulig, Mateusz Więcławek e Maja Ostaszewska. ☻☻

PL►Y: Blue Moon

Hawke: texto afiado. 

Prezado diáriw, nos anos 1990 Ethan Hawke sofreu um bocado para provar que não era apenas um rostinho bonito. Vendo as várias produções que estrela atualmente, percebo que ele soube aproveitar muito bem a passagem do tempo em sua aparência. Trabalhando mais do que nunca, o ator conquistou sua quinta indicação ao Oscar, a terceira por um trabalho como ator e a primeira como ator principal. Ele vive o letrista Lorenz Hart (1895-1943) que ficou famoso por sua parceria com Richard Rodgers (e pela canção que aparece no título). O filme é ambientado em uma noite na vida de Hartz, 31 de março de 1943, a noite de estreia do musical Oklahoma!, escrito por Rodgers (vivido aqui por Andrew Scott) em parceria com Oscar Hammerstein II (Simon Delaney) que se tornou um enorme sucesso. O diretor Richard Linklater utiliza esta noite para que Hartz coloque sua vida em perspectiva, especialmente por conta de ter sido deixado de lado pelo parceiro por conta de seus problemas com o álcool. Hawke constrói o personagem de forma impressionante, com alteração na voz, na postura, no olhar e demonstra claramente a imagem de alguém que percebe que perdeu as rédeas da própria vida. Com melancolia, amargura e um senso de humor ácido, Hawke carrega o filme nas costas. Linklater por sua vez faz um bom trabalho no uso de planos e cortes para contornar o risco da sensação de um teatro filmado. O roteiro é baseado nas cartas trocadas entre Hartz e Elizabeth Weiland (vivida por Margaret Qualley), mas ironicamente, o longo diálogo entre os dois é a parte em que o filme mais perde o ritmo. A estética do filme é perfeita para a reproduzir a época em que se passa a trama e se torna um trunfo desta produção que também concorreu ao Oscar de roteiro original. 

Blue Moon - Música e Solidão (Blue Moon / EUA  2025) de Richard Linklater com Ethan Hawke, Andrew Scott, Margaret Qualley, Jonah Lees, John Duran e Patrick Kennedy. ☻☻  

Na Tela: Homem-Aranha: Um Novo Dia

Tom: Miranha com burnout. 
Aracnídeo diáriw, fico muito feliz que a Marvel tenha descoberto que menos é mais e voltado a se dedicar mais às suas produções ao invés de fazer muita coisa sem importância. Este é o terceiro acerto seguido do estúdio nas telonas. Um Novo Dia mostra os acontecimentos posteriores ao filme de 2021, em que para segurança de quem o conhecia, Peter Parker (Tom Holland) utiliza um feitiço para que todos esqueçam que o conheceram algum dia. Com isso, ele passou os últimos anos sozinho em Nova York, espiando sua amada MJ (Zendaya) e o amigo Ned (Jacob Batalon) pelas redes sociais enquanto combatia o crime. Se dedicar ao trabalho para não pensar na vida pessoal deixa Peter estressado e deixa seus sentidos de aranha descontrolados. Para piorar, ele percebe que uma força estranha está tomando conta da mente das pessoas e algo lhe diz que tem relação com o Departamento de Controle de Danos liderado por William Metzger (Tramell Tillman). Embora apareçam muitos candidatos a vilões por aqui, a ideia central do roteiro é Peter Parker organizar os dois lados de sua vida após os traumáticos acontecimentos do filme anterior e, por isso mesmo, o filme encontra fôlego emocional suficiente para nova fase do herói nas telas. A direção de Destin Daniel Cretton (do pouco lembrado Shang chi e a Lenda dos Dez Aneis/2021 e do ótimo Temporário 12)  mostra-se um grande acerto, ele torna a trama mais orgânica demonstrando a mesma eficiência seja em cenas de ação e na valorização dos laços entre os personagens. Com boas participações especiais de super-heróis da Marvel já conhecidos, nada de compara à introdução de uma personagem defendida com excelência por Sadie Sink (não vou contar para não dar Spoiler) que deve levar os fãs ao delírio com uma promessa há muito aguardada no MCU. Depois dos aplausos ao final da sessão, a expectativa para o novo Vingadores: Doomsday em dezembro mostra estar perto do topo. 

Homem-Aranha: Um Novo Dia (Spider Ma: Brand New Day - EUA / 2026) de Destin Daniel Cretton com Tom Holland, Zendaya, Sadie Sink, Joe Bernthal, Florence Pugh, Liza Colón-Zayas, Jacob Batalon, Michael Mando,Mark Ruffalo, Marisa Tomei e Tramell Tillman. ☻☻  

quinta-feira, 30 de julho de 2026

Na Tela: A Odisseia

Damon: Odisseu em Amnésia.

Mitológico diáriw,  confesso que fiquei preocupado quando soube que Christopher Nolan faria a nova versão cinematográfica de A Odisseia. A minha maior preocupação era como o diretor iria embaralhar a temporalidade, algo que gosta tanto de fazer, mais por estilo do que propriamente favorecer a narrativa. Tão logo o elenco espetacular foi anunciado começaram as polêmicas, mas não vejo problema nenhum na diversidade da produção. Afinal, estamos falando de mitos, de representações sobre a humanidade e suas alegorias sobre emoções e valores. É estranho imaginar que uma produção baseada em uma das histórias mais antigas da humanidade (século VIII a.C) imaginada em contexto politeísta, possa despertar tanto conservadorismo. Enfim, talvez hoje,  Nolan seja o único diretor com cacife de bancar uma produção visual impressionante como esta. Na trama, Odisseu (Matt Damon) relembra como perdeu todos o seu exército depois da Guerra de Troia. Entre tantos desafios, encontros e perigos, ele passou vinte anos longe de casa enquanto a esposa Penélope (Anne Hathaway) resistiu aos seus pretendentes que desejam assumir o trono de Ítaca. Obviamente que o filme de quase três horas não adaptaria na íntegra as vinte e oito partes da obra de Homero na íntegra e várias alterações são realizadas em nome da "fluência" narrativa. Existem vários momentos impactantes, como a concepção do Cavalo de Troia, os encontros com o Ciclope, a passagem pelo Reino de Tártaro e o encontro com a solitária Circe (Samantha Morton em um trabalho impressionante), no entanto, a visão um tanto simplista do protagonista compromete sua jornada pessoal diante das cenas de ação e aventura. É o preço de criar um blockbuster épico lucrativo que padece um pouco com a montagem truncada na cronologia dos fatos. No entanto, perante o sucesso de crítica e bilheteria, Nolan corre o risco de levar mais Oscars para casa em 2027. 

A Odisseia (The Odissey / EUA - Reino Unido / 2026) de Christopher Nolan com Matt Damon, Anne Hathaway, Tom Holland, Zendaya, John Leguizamo, Robert Pattinson, Charlize Theron, Samantha Morton, Elliot Page, Lupita Nyong'o, Joe Bernthal, Logan Marshall Green, Benny Safdie e Mia Goth. 

Pódio: Harry Melling

Bronze: o escritor cult.
3º O Pálido Olho Azul (2022) Harry Edward Melling nasceu em 1989 em Londres e começou a ficar conhecido ainda pequeno como o primo (muito) trouxa  do bruxinho Harry Potter. Dentre todos os atores revelados na adaptação da franquia para a telona, ouso dizer que Melling é o meu favorito. Sem fazer questão de ter um visual padrão, ele ama interpretar personagens diferentões. Quando já acumulava algum respeito na indústria foi escalado para viver o escritor Edgar Allan Poe nesta adaptação do livro de Louis Bayard. Na trama, o jovem Poe se torna peça importante num misterioso assassinato. Mesmo tendo outros nomes conhecidos no elenco, o considero o maior destaque da produção ao viver o cultudo escritor gótico como manda o figurino sendo indicado a melhor ator coajuvante do aqui no blog.  

Prata: o amante submisso.
2º Pillion (2025) fossem as grandes premiações menos conservadoras, provavelmente o ator teria cravado indicações a prêmios de melhor ator pelo papel do jovem tímido que descobre seus pendores, digamos, submissos em um relacionamento com um motoqueiro com pinta de galã. Na pele de Colin, o ator encontra o equilíbrio entre o cômico e o dramático, deixando o espectador até surpreso perante a forma como mistura os tons em sua interpretação. Ao viver um personagem com tantas camadas, ele ainda encara cenas ousadas com seu parceiro de cena (Alexander Skarsgård) e deixa os puritanos de cabelo em pé. Pelo papel, o ator foi considerado melhor ator no Festival de Estocolmo e foi indicado ao British Independent Film Award. 

Ouro: o contador de histórias.
1º A Balada de Buster Scruggs (2018) O ponto de virada na carreira de Melling após seus trabalhos nos filmes de Harry Potter, curtas e produções para TV foi sua escalação para viver o rapaz sem os membros que ganha a vida como atração de circo. Melling é o responsável pelo segmento mais melancólico do filme dos irmãos Coen, construindo um personagem que depende muito da expressividade vocal e facial do ator. Diante das limitações físicas do papel, o moço impressiona em cada cena. O filme concorreu ao prêmio de melhor elenco no Actor Awards e foi eleito aqui no blog como artista revelação daquele ano. O trabalho serviu para deixar claro que aquele ator mirim cresceu e se tornou um dos atores mais interessantes de sua geração. 

PL►Y: Pillion

Ray e Col: amor além de fetiche? 

Submisso diáriw, este filme até tentou encontrar espaço nos cinemas, mas não conseguiu. Obviamente que a dificuldade vai além do fato de girar em torno de um relacionamento gay, mas também por ter algumas cenas explícitas que nem o verniz cômico impresso pelo diretor estreante Harry Lighton amenizou o receio dos distribuidores. O filme conta a história de Colin (Harry Melling), um rapaz gay e tímido que tenta encontrar um namorado. Um dia ele conhece Ray (Alexander Skarsgård), um motoqueiro que o convida para um encontro e Colin nem sabe definir exatamente o que aconteceu entre eles. Considerando que não agradou, imagina nunca mair encontrar o motoqueiro, mas os encontros pasam a ser constantes, porém, a relação entre os dois é bem diferente do que Colin idealizou. Ray faz questão de deixar seu parceiro sempre em posição de submissão, o tratando como um verdadeiro servo. De início Colin se incomoda, mas aos poucos parece se acostumar e aceitar o tipo de relação que se instaura entre os dois. Carência? Baixa auto-estima? Só um fetiche? Fica a cargo do espectador pensar nisso. O fato é que aos poucos começam a aparecer fissuras neste relacionamento, que incomodam ambos os lados. Lighton faz um filme com uma dinâmica interessante entre os protagonistas, beneficiando-se muito das performances de Melling e Alexander, que deixam o subtexto sempre impresso nos olhares e posturas dos personagens. Imprimindo uma atmosfera queer, o filme não é para todos os gostos, mas quem se interessa por filmes de relacionamentos com um "tempero" diferente, vai considerar uma obra interessante. Com momentos incômodos, entre outros bem humorados e até de partir o coração, a narrativa é fluente até chegar a um desfecho que revela um padrão que talvez seja difícil de compreender. 

Pillion (Irlanda - Reino Unido / 2025) de Harry Lighton com Harry Melling, Alexander Skarsgård, Douglas Hodge, Lesley Sharp, Jake Shears, Matt Hill e Anthony Welsh. ☻☻ 

quarta-feira, 29 de julho de 2026

KLÁSSIQO: Glória Feita de Sangue

Kirk: contra à pena de morte. 

Obstinado diáriw, entre meus objetivos cinéfilos está assistir todos os filmes de Stanley Kubrick. O mais difícil é encontrar os mais antigos, portanto fiquei muito feliz quando encontrei o clássico Glória Feita de Sangue no catálogo do Looke. Estrelado por Kirk Douglas no ano de 1957, o filme foi esquecido nas premiações dos Estados Unidos, provavelmente por sua visão pouco heroica da Guerra, no caso aqui a Primeira Guerra Mundial. Kirk interpreta o comandante francês Dax, que tem plena consciência que sua tropa não tem chances nas trincheiras contra o exército alemão. No entanto, um general planeja fazer seu nome na Guerra e ordena um ataque fadado ao fracasso. Enquanto metade da tropa se recusa a avançar nos campos, três sobreviventes do campo de batalha irão sofrer as consequências das ordens do general não serem obedecidas. Os três serão condenados à pena de morte e caberá a Dax tentar resolver a situação na corte marcial, mas seus esforços nunca parecem suficientes. Kubrick mais uma vez constrói uma narrativa que prende a atenção e capricha nas ironias de uma guerra. Ideais e heroísmos se reduzem a interesses mesquinhos e as vidas são declaradamente descartáveis. Enxuto em sua duração, o filme tem uma ótima fluência de um ato para o outro e mantem a tensão sobre toda a situação até a última cena. Além do texto afiado (baseado no livro de Humphrey Cobb lançado em 1935), acho sempre curioso perceber os efeitos especiais práticos utilizados na época com bastante eficiência. Kubrick voltaria a abordar a loucura da guerra em Dr. Fantástico (1964) e Nascido para Matar (1987), outras duas pérolas de sua filmografia. Interessante que várias décadas depois, os três filmes continuam bastante atuais em suas abordagens, graças às características que definem um clássico e a genialidade de um verdadeiro deus do cinema. 

Glória Feita de Sangue (Paths of Glory/EUA-1957) de Stanley Kubrick com Kirk Douglas, Ralph Meeker, Adolph Menjou, George MacReady, Joe Turkel, Timothy Carey e Kem Dibbs. ☻☻ 

Glória Feita de Sangue ()

PL►Y: Hamnet - A Vida Antes de Hamlet

Shakesperiano diáriw, a irlandesa Jessie Buckley levou para casa o Oscar de  melhor atriz deste ano por seu trabalho neste filme que concorreu em outras sete categorias, incluindo filme, direção e roteiro adaptado. Consagrado como um dos mais celebrados do ano passado, provavelmente seria o grande premiado no Oscar caso a Academia não houvesse passado por mundanças recentes e alterado seu perfil. Baseado no livro de Maggie O'Farrell, que constrói sua trama em torno da inspiração de William Shakespeare na escrita de Hamlet, o filme gira em torno da relação de Shakespeare (que aqui não tem o nome citado e é vivido por Paul Mescal) com a esposa, Agnes (Jessie Buckley). O ano é o de 1596, ele deseja ser escritor, mas a família o enxerga como um inútil - e a relação dele com o pai é bastante tensa. Já Agnes tem fama de ser filha de uma bruxa, gosta de se refugiar na floresta e ter contato com bichos e plantas. Eis que os dois deslocados se apaixonam, se casam e contituem uma família. Entre os desafios que aparecem, ela precisa lidar com distância com a ida dele para trabalhar em uma Companhia Teatral em Londres, a criação dos três filhos e nada se compara com a morte de um deles, o fofo Hamnet (Jacobi Jupe). A diretora Chloe Zhao capricha no tom poético e na dor da perda, construindo alguns momentos arrebatadores como a parte em que Hamnet adoece e o desfecho que leva o público a uma catarse coletiva. É um filme sensível sobre como a arte pode ajudar a exorcisar uma dor tão profunda que não consegue ser descrita em palavras, mas achei o filme um tanto emperrado. A fotografia que ressalta as cores da natureza com os interiores cinzentos é interessante e retrata bem as emoções dos personagens, os atores estão bem em cena, mas algo em toda a densidade da trama me fez desconectar da trama. Talvez seja o caso de filme que eu precise rever para gostar mais. 

Hamnet: A Vida Antes de Hamlet (Hamnet / EUA - Reino Unido / 2025) de Chloe Zhao com Jessie Buckley, Paul Mescal, Joe Alwyn, Emily Watson, David Wilmot, Justine Mitchell e Jacobi Jupe. 

domingo, 26 de julho de 2026

KLÁSSIQO: Lembranças de Hollywood

Meryl e Shirley: filha e mãe. 

Nostálgico diáriw, eu fiquei realmente feliz quando vi que Lembranças de Hollywood está no catálogo da Netflix. Trata-se de um daqueles filmes que sempre quis rever, assisti só uma vez quando passou no SBT há muito tempo (um tempo em que TV a cabo era um sonho distante e streaming nem habitava o mundo das ideias). Na época em que eu sabia os filmes que estavam passando nos cinemas e contava os anos para ser anunciado na programação de uma emissora no início do ano (e por vezes era exibido só no ano seguinte). O filme já valeria por suas duas atrizes principais, Meryl Streep (já com dois Oscars na estante) e Shirley MacLaine (com o seu Oscar bem guardado) que dispensam apresentações respectivamente como filha e mãe sob o sol de Hollywood. Só que enquanto a mãe mantem seu prestígio, a filha enfrenta problemas com os vícios e observa sua carreira afundar. Para continuar a fazer filmes, ela precisa voltar a viver com a mãe e todos os bons sentimentos começam a dar espaço para as feridas colecionadas ao longo da vida. Se a lavagem de roupa suja por vezes é inevitável, o trunfo da produção é o equilíbrio entre comédia e drama com as atuações precisas das divas. Existem muitas camadas e entrelinhas nesta relação, as inseguranças, o ego, um tanto de narcisismo materno, drogas e álcool... se tudo poderia dar errado, a direção do mestre Mike Nichols segura a química entre as duas até o final num roteiro baseado no livro da Princesa Lea Carrie Fisher sobre um período delicado de sua vida e a relação com a mãe, Debbie Reynolds (a relação entre as duas era tão poderosa que Debbie faleceu apenas um dia após a morte de Carrie). Vale a pena também ficar atento às várias participações especiais presentes no filme (Gene Hackman, Annette Benning, Richard Dreyfuss, Gene Hackman...) que aumenta ainda mais o charme da produção. Apesar de ser um dos grandes triunfos de 1990 o filme só concorreu ao Oscar de atriz (para Meryl) e trilha sonora. 

Lembranças de Hollywood (Postards from the Edge / EUA - 1990) de Mike Nichols com Meryl Streep, Shirley MacLaine, Dennis Quaid, Simon Calow, Rob Reiner, Mary Wickes e Oliver Platt. ☻☻

sexta-feira, 24 de julho de 2026

PL►Y: Marvin

Finnegan: em busca de si. 

Discriminado diáriw, a diretora Anne Fonatine diz ter se inpirado no livro O Fim de Eddy de Edouard Louis e na atmosfera das obras do autor para construir a trama deste filme. Lançado em 2014, o  livro é de partir o coração ao se concentrar na infância de uma criança que sofre preconceitos por conta de sua homossexualidade. Fontaine quis dar um passo além e retratar um personagem que vivenciou as mesmas situações em sua origem pobre na França, mas que encontra seu espaço quando percebe que o mundo é maior do que aquele lugar áspero em que nasceu e cresceu. A montagem mistura passado e presente, mas faz com que o protagonista encontre seu próprio futuro ao ver no teatro a chance de construir sua vida longe da família que rejeitava os indícios de sua sexualidade e do bullying sofrido na infância, o personagem passa a ter que lidar com a busca de satisfazer seus próprios desejos e entender que seu talento pode fazer a diferença. Buscando seu espaço como ator e dramaturgo, o protagonista é vivido de forma bastante contida na adolescência por Finnegan Oldfield (indicado ao César de ator revelação e que merecia estar em mais filmes, recentemente ele apareceu em Alpha da Julia Ducourneau). Ele, assim como o menino Jules Porrier, consegue transmitir as dores do crescimento em um ambiente hostil e cujo maior objetivo é sobreviver aos ataques e a rejeição de si mesmo. Apesar da dureza da trama, a diretora consegue manter seu personagem de cabeça erguida em busca de seu próprio rumo. Entre desilusões amorosas e aquela vontade de desistir, ele conhece até uma espécie de fada madrinha chamada Isabelle Huppert, vivida pela própria atriz, que acredita no talento do moço. Interessante é que diante da fama, sua família diz não perceber o comportamento homofóbico que praticava (talvez por ser algo tão natural que nem merece ser questionado).  

Marvin (França - 2017) de Anne Fontaine com Finnegan Oldfield, Jules Porier, Isabelle Huppert, Vincent Macaigne, Catherine Salée, Catherine Mouchet, Grégory Gadebois, Charles Berling, Sharif Andoura e Yannick Morzelle. ☻☻