quarta-feira, 23 de setembro de 2026

PL►Y: O Homem que Sussurra

Robert e Adam: sobre pais e filhos. 
Prezado diáriw, nas últimas semanas ouvi muitos comentários sobre uma produção da Netflix abraçada pelo público, mas que a crítica estava torcendo o nariz. Resolvi ver o filme para chegar às minhas próprias conclusões. O filme é baseado no livro de Alex North e conta a história de um escritor que volta à sua cidade natal após a morte da esposa. Tom Kennedy (Adam Scott) imagina que voltar para as origens pode ser positivo para o filho, Jake (Acston Luca Porto), mas o moço nem cogita voltar a ter contato com o pai (Robert De Niro), um policial aposentado que ficou conhecido na região por sua investigação sobre um serial killer chamado Homem que Sussurra. No entanto, décadas depois, uma série de crimes semelhantes começam a acontecer e uma detetive (Michelle Monaghan) precisa da ajuda do veterano para entender o caso. Tom já tem problemas demais e quer distância de tudo isso, mas, quando o pequeno Jake desaparece, o principal suspeito é o criminoso que repete os procedimentos do famoso assassino - e pai e filho precisam esquecer a roupa suja para ajudar na investigação. Embora tenha um bom elenco e a direção de James Ashcroft seja esforçada, é difícil disfarçar algumas situações difíceis de engolir no roteiro (o próprio retorno de Tom para aquela cidade traumática não faz sentido), mas a forma como o longa insere personagens intrigantes na trama ajuda a prender atenção (embora apresente dificuldades em trabalhar os nós das relações entre pais e filhos). Se Robert De Niro está com cara de que fez o filme para pagar boletos, destaco o trabalho de Michael Keaton como o personagem do título e um irreconhecível Hamish Linklater como um sujeito muito estranho. Não é uma obra-prima, mas deixa a plateia curiosa até o final.

O Homem que Sussurra (The Whisper Man / EUA - 2026) de James Achcroft com  Robert De Niro, Adam Scott, Michelle Monaghan, Michael Keaton, Hamish Linklater, Acston Luca Porto e Owen Teague. ☻☻☻

domingo, 20 de setembro de 2026

PL►Y: No Caminho

Victor: fugindo do passado. 

Ousado diáriw, achei afrontoso o México indicar para tentar uma vaga no Oscar de filme estrangeiro o drama No Caminho que está em cartaz na HBOMax. O filme conta a história de Veneno (Vitor Prieto Simental), um jovem rapaz que está  fugindo para algum lugar que nem ele mesmo sabe direito onde fica. Aos poucos descobrimos que na verdade ele não está fugindo para um lugar, mas de um lugar que gostaria de nunca ter estado. Devido à sua fuga, ele passa a ser procurado sem ninguém saber ao certo o motivo. Quem aceita lhe ajudar é Muñeco (Osvaldo Sanchez), um caminhoneiro que está distante da família faz tempo e, devido a problemas com as drogas, não tem previsão de ver seus filhos tão cedo. A bordo do caminhão que atravessa estradas poeirentas do México, eles ensaiam algumas conversas até que se tornam próximos. A proximidade só aumenta com a sensação de solidão e isolamento, mas enquanto Veneno imagina que algo sério possa nascer dali, Muñeco não está disposto a ceder um espaço ao parceiro de viagem em sua vida. A coisa complica quando um crime atravessa o caminho da dupla e as desconfianças podem colocar a vida dos dois em risco. Sem  pudores em apresentar cenas tórridas e genitais masculinos expostos, dificilmente o filme cairá no gosto dos votantes do Oscar. O diretor David Pablos  marca a narrativa com um tom de desespero baseado na necessidade dos personagens principais se apegarem um ao outro, embora as circunstâncias se tornem cada vez mais hostis. O resultado  é uma história de amor marcada pela violência com um final assustador. Victor Prieto Simental e Osvaldo Sanchez apresentam bons trabalhos em personagens complicados e bem que mereciam um final feliz diante das mazelas do roteiro.  

No Caminho (En El Camino / México - 2025) de David Pabloc com Victor Prieto Simental, Osvaldo Sanchez, Victor Manuel Aguirre, Mariano López Sosa, Giovanni Ontiveros e Héctor Cárdenas. ☻☻☻

PL►Y: Vestido Maldito

Fatma e Marianne: sinistrices. 
Enfeitiçado diáriw, o inglês Peter Strickland é um dos diretores mais curiosos de seu país. Seus longas geralmente possuem um ritmo muito particular, direção de arte caprichada e uma atmosfera hipnótica, geralmente caprichando no suspense alimentado pela estranheza. Foi assim com Berberian Sound Studio (2012), com O Duque de Burgundy (2015) e de forma ainda mais escancarada com este Vestido Maldito. O filme conta a história de um vestido vermelho que está destinado a complicar a vida de quem  o usa. Foi assim desde a primeira modelo que o vestiu para um catálogo e a maldição segue quando Sheila (a ótima Marianne Jean-Baptiste) o compra para vestir em um encontro. A começar com o que parece um problema alérgico, a coisa só piora quando o vestido é colocado para lavar ou quando resolve azucrinar quem mais se aproximar de Sheila. No meio da sessão o vestido vai parar nas mãos de um rapaz (Leo Bill) que está prestes a casar e as situações estranhas passam a ter outro alvo. O filme capricha no visual anacrônico que deixa o tempo em que se passa a história indecifrável e evita explicar demais o que está por trás do tal vestido, mas sugere que esteja relacionado às vendedoras e o estranho proprietário da loja. Particularmente gosto mais da primeira parte com as desconfianças de Sheila de que existe algo de errado com o vestido enquanto precisa lidar com os patrões enjoados. Temperado com um pouco de humor macabro e um cadinho de luxúria, Vestido Maldito pode ser encarado como uma alegoria ao consumismo ou a relação que temos com uma roupa, mas Strickland pega essa ideia e vira do avesso num filme que chega ao caos completo em seu último ato. Embora a ideia possa parecer ridícula, o diretor consegue evitar que tudo caia no ridículo durante toda a sessão. 

Vestido Maldito (In Fabric / Reino Unido - 2018) de Peter Strickland com Marianne Jean-Baptiste, Fatma Mohamed,  Jaygann Ayeh, Richard Bremmer, Steve Oram, Gwendoline Christie e Barry Adamson. ☻☻☻

PL►Y: Supergirl

Milly: garota esforçada. 

Flopado diáriw, Supergirl se tornou uma decepção arrecadando menos do que custou nas bilheterias. O motivo para isso? Talvez seja toda a expectativa em torno do segundo longa-metragem do DCU capitaneado pelo James Gunn. É verdade que ele ficou meio sem opção quando desejou fugir dos nomes dos heróis que ganharam filmes-solo na era Zack Snyder, mas logo depois de levar Superman para as telas investir em um longa da prima do kryptoniano parece mais do mesmo. Embora o filme seja baseado na cultuada HQ A Mulher do Amanhã de Tom King, talvez o espectador aguardasse algo mais robusto do que uma aventura trivial como segundo longa-metragem do famigerado universo. No filme, Kara Zor-El (Milly Alcock) resolve comemorar seu aniversário viajando pelo espaço até que uma órfã com sede de vingança (Eve Ridley) cruza seu caminho e propõe que a ajude a encontrar um grupo de bandidos espaciais que mataram sua família. Kara rejeita a proposta, mas quando sua nave é roubada e a vida de seu cãozinho Krypto é colocada em risco, ela resolve partir em busca dos vilões da história. O diretor Craig Gillespie é craque em lidar com personagens femininas fora da caixinha (basta ver Eu, Tonya/2017 ou Cruella/2021), mas aqui o roteiro não ajuda com a protagonista sempre bêbada, apanhando e usando o famoso uniforme só no finalzinho. A trama roda, roda, roda e não sai do lugar numa aposta arriscada de engajar o público. A bilheteria murcha deve ter soado o alarme e a venda da Warner só complica mais as coisas. Se você olhar o cronograma da DC no cinema a coisa fica ainda mais complicada: Cara de Barro estreia mês que vem e o resto são séries e animações para a TV. Animados?

Supergirl (EUA-2026) de Craig Gillespie com Milly Alcock, Eve Ridley, David Corensweat, Matthias Schoenaerts, Ferdinand Kingsley, Diarmaid Murtagh e David Krumholtz. ☻☻☻ 

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

CICLO VERDE E AMARELO: A Natureza das Coisas Invisíveis

Laura e Serena: amizade irresistível. 

Querido diáriw, esta semana a Academia Brasileira de Cinema escolheu o filme Feito Pipa de Allan Deberton para concorrer à uma vaga nas indicações ao Oscar de Melhor Filme Internacional. Será uma ano complicado sem um concorrente impulsionado pela consagração em grandes festivais até o momento. Quem também estava no páreo para ser escolhido era A Natureza das Coisas Invisíveis que está em cartaz na Netflix e que mostra-se uma verdadeira joia a ser descoberta. É um dos filmes mais fofos que assisti nos últimos tempos e o mais interessante é que consegue o ser tocando em temas bastante sensíveis e até polêmicos. A leveza do filme deve-se muito à opção da diretora e roteirista Rafaela Camelo abraçar a lógica do olhar das meninas protagonistas. Glória (Laura Brandão) está de férias, mas precisa passar os dias no hospital acompanhando sua mãe no trabalho (Larissa Mauro). Lá ela conhece Sophia (Serena), que está no mesmo hospital com a mãe (a ótima Camila Mardila) por conta da bisavó (Aline Marta Maia), que está internada. Enquanto as meninas ficam amigas aproveitando aquele ambiente inusitado, as mães tem um primeiro encontro complicado que logo muda de rumo para que se aproximem também. Logo todas as personagens estarão dividindo um outro cenário em uma trama  bem escrita sobre amizade, amor, morte, aceitação e muitos outros temas que você consegue sentir nas interações daquelas personagens. Embora demore um pouco para engrenar, o filme se torna cada vez mais interessante e chega a um desfecho emocionante. Assista com um lenço que você vai precisar. Uma excelente estreia da diretora Rafaela Camelo em longa-metragem. 

A Natureza das Coisas Invisíveis (Brasil-2025) de Rafaela Camelo com Laura Brandão, Serena, Camila Mardila, Larissa Mauro e Aline Marta Maia. ☻☻☻☻  

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

CICLO VERDE E AMARELO: Sonhar com Leões

Denise: estranha onda portuguesa. 
Amargo diáriw, este filme dirigido por Paolo Marinou-Branco é um daqueles que testa as reações da plateia. Muito se deve ao tom tragicômico com que lida com a vida de Gilda (Denise Fraga), uma mulher com câncer em fase terminal que se muda para Portugal com o esposo (Roberto Bomtempo) para participar de um workshop que ensina a morrer com dignidade.  Gilda já tentou o suicídio três vezes e diante da doença que atravessa uma ideia se tornou fixa em sua cabeça: eutanásia. Disposta a aderir ao suicídio assistido, o workshop começa a deixá-la cada vez mais irritada e consciente de que a vida não lhe serve mais. É um tema incômodo e que o diretor e roteirista aborda com doses cavalares de humor negro que mais desafia a plateia do que faz rir. Denise Fraga faz tudo o que pode ao defender uma personagem amarga diante do que o destino lhe reserva. Ela quebra a quarta parede, narra suas tentativas frustradas e ilustra como o diretor/roteirista estava um tanto cansado de ver pessoas doentes terem que demonstrar bravura e heroísmo diante das dores e tratamentos - além de apresentar uma ojeriza à positividade tóxica. Gilda ilustra tudo isso, mas se perde quando o roteiro cai no clichê do romance com seu colega órfão Amadeu (João Nunes Monteiro). É um filme interessante, mas que encontra dificuldade para encontrar o tom certo do humor com críticas ácidas que realiza. Apesar de ser uma coprodução entre Brasil, Portugal e Espanha, o que fica mais evidente é a inspiração do diretor (que nasceu em Nova York, mas é descendente de portugueses e... gregos) no cinema da estranha onda grega que consagrou Yorgos Lanthimos. Existe muito do absurdismo daquele cinema por aqui e talvez por isso seja um desafio para maioria dos espectadores. 

Sonhar com Leões (Brasil - Portugal - Espanha/2024) de Paolo Marinou-Blanco com Denise Fraga, João Nunes Monteiro, Joana Ribeiro, Victoria Guerra, Sandra Faleiro, Roberto Bomtempo, António Durães e Felipe Rocha. 

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

CICLO VERDE E AMARELO: Ruas da Glória

Caio: apaixonado pelo abismo. 

Apaixonado diáriw, o cinema queer brasileiro continua rendendo filmes interessantes como este assinado por Felipe Sholl. O carioca já é reconhecido pelos seus roteiros de filmes consagrados como Hoje/2013 e Manas/2025, mas aqui segue por um caminho completamente diferente ao contar a história de Gabriel (Caio Macedo), um professor que se apaixona por Adriano (Alejandro Claveaux), um garoto de programa que lhe quebra completamente a rotina. No entanto, a coisa sai do controle quando Adriano some sem maiores satisfações. Gabriel passa a procurá-lo e deixa sua vida de lado em busca do parceiro perdido. Ruas da Glória pode render várias leituras, uma delas é sobre a dependência emocional de Gabriel que busca absorver a vida de Adriano para fazê-lo presente novamente em sua vida. Entre drogas, orgias e mudar-se para o apartamento do desaparecido, Gabriel se perde na busca do que ele acredita ser o amor que o abandonou. Há quem perceba uma certa ingenuidade no rapaz em cair sem para-quedas (ou salva-vidas) em um relacionamento com um sujeito tão escorregadio, outros apontam uma espécie de crítica ao próprio comportamento do moço ao encarar a relação daquela forma - o que acarreta o último ato em que ele mesmo começa a repensar sua situação (ainda que por linhas tortas). Cheio de nudez e cenas tórridas, o filme é bastante ousado e apresenta uma história cheia de perdição no desejo. Destaque para a beleza com que  o diretor constrói as locações na praia (que funcionam como um respiro em meio ao caos). Ruas da Glória é ousado e não faz questão de agradar todo mundo ao apresentar as camadas mais sombrias de um relacionamento que flerta com o abismo. 

Ruas da Glória (Brasil/2024) de Felipe Sholl com Caio Macedo, Alejandro Claveaux, Diva Menner, Alan Ribeiro, Jade Sassará, Sandro Aliprandini, Ernesto Piccolo e Daniel Rangel. 

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Pódio: Leandra Leal

Bronze: a escritora  obsessiva. 

3º Nome Próprio (2007) Filha da atriz Ângela Leal com o produtor Américo Leal, Leandra começou a atuar no teatro aos sete anos e na adolescência foi trabalhar na televisão no ano seguinte. Entre séries e novelas chegou ao cinema em 1997 e desde então colecionou papéis importantes na telona. Um deles foi neste filme de Murilo Salles em que vive Camila, uma jovem que deseja ser escritora, no entanto, seu processo criativo parece sair do controle quando ela cria um blog e escreve compulsivamente sobre suas experiências nem sempre agradáveis. Sua obsessão com a escrita gera até mesmo um isolamento cada vez maior. O papel rendeu à atriz vários prêmios, incluindo melhor atriz no Festival de Gramado e no Grande Prêmio Cinema Brasil. 

Prata: a menina crescida. 
2º A Ostra e o Vento (1997)  A atriz começava a ser conhecida por seu trabalho na televisão quando foi escalada para realizar este filme de Walter Lima Jr. Indicado ao Leão de Ouro no Festival de Veneza. O longa conta a história de Marcela, uma garota que cresceu em uma ilha ao lado de seu pai faroleiro (vivido por Lima Duarte) e Daniel (Fernando Torres), um senhor que acredita que a menina merecia ter uma vida para além daquele isolamento. Conforme Marcela cresce, sua relação com o pai se torna mais complicada e o vento se torna um elemento poético em uma trama que aborda temas delicados. Fazia dois anos que o cinema brasileiro voltava a respirar e o filme foi um dos mais comentados da era da retomada. Pelo papel de Marcela, Leandra foi eleita melhor atriz do Festival de Biarritz aos quinze anos de idade. 

Ouro: a sofrida vingativa.
1 O Lobo Atrás da Porta (2014) A atriz foi premiada novamente no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro com sua performance avassaladora como neste drama de suspense dirigido por Fernando Coimbra. Leandra vive a mulher que acredita ter encontrado o amor de sua vida, mas sua vida se torna num verdadeiro pesadelo que a mergulhará em uma trama de vingança da qual não há chance de sair ilesa. A atriz faz a transição da personagem da doce jovem apaixonada para uma mulher sem limites de forma arrepiante (e foi indicada aqui no blog como uma das melhores atuações daquele ano). Com 44 anos de idade recém completados e 37 anos de carreira, Leandra Leal é uma das atrizes mais respeitadas do Brasil. Com 24 filmes no currículo e 32 prêmios ao longo da carreira, Leandra também conquistou espaço como produtora e roteirista. 

CICLO VERDE E AMARELO: Os Enforcados

Irandhir e Leandra: em crise. 

Elogiado diáriw, difícil acreditar que um filme tão interessante como Os Enforcados tenha recebido tão pouca atenção. Mesmo o Grande Prêmio Cinema Brasil lembrou dele em somente duas categorias: ator (Irandhir Santos) e ator coadjuvante (Augusto Madeira), deixando de fora o trabalho de atuação mais interessante do filme, o de Leandra Leal. Esta é a segunda colaboração da atriz com o diretor Fernando Coimbra, diretor de O Lobo Atrás da Porta (2014). Leandra vive Regina, a esposa de Valério (Irandhir Santos), os dois são apaixonados e confiam um no outro ao ponto de serem cúmplices em fantasias sexuais, digamos, "agressivas". Os dois vivem num casarão que está numa interminável reforma, mas este se tornará o menor dos problemas quando os negócios ilegais da família começarem a entrar em crise e a solução encontrada pelo casal só trará mais problemas. Entre assassinatos e uma investigação policial, a crise se instaura na confiança do casal. Existe uma tensão absurda no encadeamento dos acontecimentos sórdidos da trama, mas ao mesmo tempo, o filme não deixa de temperar a trama com um senso de humor cortante. Me atrevo a dizer que diante do ótimo elenco, os melhores diálogos são travados entre Leandra e Irene Ravache que vive a sua mãe com uma visão pouco ortodoxa perante os temores da filha. Misturando um drama criminal com referências que vão de clássicos Macbeth e Crime e Castigo ao noticiário diário em sua guerra de criminosos, Os Enforcados é um filme que chama atenção pela sua eficiência narrativa auxiliada por uma montagem perfeita. Além disso, tem Leandra Leal em um daqueles papéis que só comprovam que ela é uma das melhores atrizes de nosso país. Seu trabalho na transformação pela qual Regina passa ao longo da trama é digna de Oscar. 

Os Enforcados (Brasil/2024) de Fernando Coimbra com Irandhir Santos, Leandra Leal, Thiago Thomé, Pêpê Rapazote, Augusto Madeira, Ernani Moraes, Irene Ravache e Stepan Nercessian. ☻☻☻☻

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

CICLO VERDE E AMARELO: (Des)Controle

Carol: indicada a prêmios. 

Querido diáriw, Carolina Dieckmann foi indicada ao prêmio de Melhor Atriz no Grande Prêmio Cinema Brasil deste ano por conta de seu trabalho neste filme dirigido por Rosane Svartman e Carol Minêm. O trabalho da atriz é o principal motivo para ver o filme, já que por mais que tente aprofundar sua discussão sobre uma personagem alcóolica, o filme por vezes se perde em uma montagem picotada demais que faz a carga dramática da trama perder sua força. Carolina vive Kátia Klein, uma escritora de sucesso que após quinze anos de sobriedade volta a beber por conta de sua realidade estressante. Entre a escrita de um novo livro, problemas com a família e a falta de tempo, a protagonista encontra na bebida um refúgio para sua rotina exaustiva. Se de início ela pensa que está tudo sob controle com um golinho aqui e outro ali, não demora para que a situação se complique colocando em risco sua vida e de pessoas queridas.  Como é comum na carreira de Rosane Svartman (que também se tornou autora de novela após seu sucesso no cinema), apesar do tema sério, a trama é desenvolvida com bastante leveza e toques de bom humor tendo até um toque de surrealismo quando a personagem se vê diante de uma outra versão de si mesma que assume o controle quando se entrega ao vício com cada vez mais frequência. Centrado em sua protagonista, sobra pouco tempo para desenvolver os personagens que estão ao seu redor. No entanto, o maior problema do filme é a edição acelerada, sei que pode ser uma forma de fazer o espectador sentir na pele a sensação da personagens sentir-se perdida diante dos fatos, mas esta opção narrativa prejudica o desenvolvimento de situações importantes ao longo da narrativa. Baseado em histórias reais de superação, o final é exatamente como você imagina. 

(Des)Controle (Brasil/2026) de Rosane Svartman e Carol Minêm com Carolina Dieckmann, Caco Ciocler, Irene Ravache, Daniel Filho, Júlia Rabello e Mouhamed Harfouch. 

domingo, 13 de setembro de 2026

CICLO VERDE E AMARELO: Love Kills

Thais Lago: vampiros em São Paulo. 

Vampiresco diáriw, a O2 filmes acabou de lançar um canal no Youtube em que colocará filmes de seu acervo em cartaz de forma gratuita, Love Kills é um dos filmes que está em cartaz por lá. Adaptado da graphic novel de Danilo Beiruth, a diretora Luiza Shelling Tubaldini faz um verdadeiro deleite estético na construção de uma cidade de São Paulo habitada por vampiros. Fotografia, figurino, direção de arte, tudo é feito no capricho para contar uma fase complicada da vida imortal de Helena (Thais Lago), uma vampira com mais de cinco mil anos que procura suas refeições pela maior metrópole brasileira. Sua rotina de dormir de manhã e vagar durante a noite é transformada  quando um grupo de vampiros pretende acabar com sua existência. Após a vampira tanto tempo tendo ao seu lado somente o amigo Victor (curiosamente vivido por Flow Kountouriotis), surge um rapaz mortal aparece apaixonado por ela. Leander (Erom Cordeiro) trabalha no bar frequentado por ela e aos poucos descobre que sua amada está longe de ser uma mera mortal. De vez em quando o roteiro arranha a história de Leander, mas ela nunca recebe muita atenção, concentrando o texto em sua relação com Helena. Cheio de estilo, Love Kills inova ao ser um raro filme de vampiro brasileiro, mas por vezes tropeça na própria pose, o que que torna a experiência um tanto artificial. Os diálogos um tanto rebuscados também incomodam, mas se você embarcar na atmosfera proposta pelo filme você é capaz de relevar tudo isso. O capricho da produção não evita também que tenhamos a sensação de que estamos diante do primeiro episódio de uma série para televisão sobre uma vampira que encontra o amor enquanto todos os desafetos colecionados através  dos milênios resolvem se vingar dela. Se você busca um filme brasileiro diferente, este é uma boa pedida. 

Love Kills (Brasil-2025) de Luiza Shelling Tubaldini com Thais Lago, Erom Cordeiro, Flow Kountouriotis, Almir Guilhermino, Gabriela Flores, Rosana Maris e Marat Descartes. 

sábado, 12 de setembro de 2026

CICLO VERDE E AMARELO: Transe

Luisa e Ravel: de boas intenções...

Fúlgido diáriw, o período das eleições de 2018 se caracteriza como um dos mais estranhos da história recente de nosso país. Nos anos seguintes, a coisa apenas se complicou ainda mais com uma pandemia no meio para embolar ainda mais as lembranças e as emoções da população. No meio da polarização acirrada daquela eleição as diretoras Anne Pinheiro Guimarães e Carolina Jabor resolveram realizar filmagens do que resultaria em Transe, filme lançado em 2022 com registros daquele período. O filme é um misto de ficção e documentário com base em seu trio de atores interagindo com pessoas nas ruas e improvisando cenas diante da câmera. Em alguns momentos a coisa parece se tornar interessante, mas em outras cai em armadilhas que só denunciam uma fragilidade no discurso que só evidencia certa superficialidade. Luisa Arraes vive Luisa, uma atriz que mora com o namorado músico Ravel (Ravel Andrade). Ela conhece Johnny (Johnny Massaro) em uma manifestação e subitamente se estabelece um trisal. A ideia é que o trio personifique tudo o que incomoda a família tradicional brasileira, mas faltou construir os personagens para que eles parecessem de verdade. A ideia de dar a eles o nome dos atores também não ajuda, assim como os diálogos saídos de uma enciclopédia de clichês, o que dificulta ainda mais a plateia comprar o discurso politizado que tenta imprimir. Algumas pessoas com que os atores interagem tiram o filme do marasmo, mas nada avança como debate interessante sobre um período crucial da realidade sócio-política brasileira recente. O distanciamento temporal só faz a produção soar ainda mais simplista em suas complexas intenções de desvendar o transe coletivo em torno do candidato que seria eleito.  

Transe (Brasil/2022) de Anne Pinheiro Guimarães e Carolina Jabor com Luisa Arraes, Ravel Andrade, Johnny Massaro, Bella Camero, Matheus Macena e Ana Flavia Cavalcanti. 

PREMIADOS FESTIVAL DE VENEZA 2026

Woman Unknown: melhor filme e melhor atriz em Veneza

 E o Festival de Veneza chegou ao fim anunciando seus premiados. Gerou alguma polêmica o fato do grande premiado com o Leão de Ouro ser Woman Unknown da diretora May El-Toukhy o único longa da mostra competitiva dirigido por uma mulher. Ainda assim, as qualidades do filme (sobre a rotina de uma empregada na ocupação alemã na Dinamarca durante a Segunda Guerra Mundial) devem lhe garantir algum fôlego para o Oscar do próximo ano - e ao que parece a mídia já anunciou o seu favorito ao Oscar de melhor ator: John Malkovich. A seguir todos os premiados desta edição: 

Leão de Ouro: "Woman Unknown" de May el-Toukhy

Leão de Prata - Grande Prêmio do Júri: "Amor Possível" de Lee Chang-dong

Leão de Prata - Melhor Direção: Ilya Khrzhanovsky (DAU)

Prêmio Especial do Júri: "NAZA"  de Yuval Abraham e Rachel Szor

Melhor Roteiro: "Un bon petit soldat"

Copa Volpi de Melhor Ator: John Malkovich (Cavalo Selvagem Nove) 

Copa Volpi de Melhor Atriz: Mathilde Arcel (Woman Unknown)

Prêmio do Público: "Eu Contez" de Alina Şerban

Melhor Jovem Ator: Malou Khebizi  (A Place to Heal)


terça-feira, 1 de setembro de 2026

4EVER: Gracindo Júnior.

21/05/1943 ✰ 01/09/2026

Epaminondas Xavier Gracindo nasceu no Rio de Janeiro, filho do lendário ator Paulo Gracindo, estreou como ator no teatro em 1962. Na mesma década iniciou seus trabalhos na televisão em produções. Trabalhou nas novelas A Moreninha (1965), Dona Beija (1986), Mandala (1987) e Celebridade (2003) e muitas outras. Em 1980, Gracindo Jr fez um comercial para a Loja Adonis em que inaugurou a nudez masculina na TV (na ocasião ele aparecia sem roupa somente com uma sombra na altura dos quadris). Diretor, roteirista, ator e roteirista, fez mais de vinte filmes ao longo de sua carreira, incluindo Buffo & Spalanzani (2001) e Irmã Dulce (2014). O artista faleceu de causas naturais. 

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Festival de Veneza 2026

A 83ª edição do Festival de Veneza começa no dia 02 de setembro e se estenderá até o dia 12 de setembro, na competição estarão filmes assinados por Danny Boyle, Werner Herzog, Martin McDonoagh, Hirokazu Koreeda, Nanni Moretti e Florian Zeller. Com a realização próxima da temporada de ouro das grandes premiações, o Festival está cercado de expectativas. O júri deste ano é presidido pela cineasta e atriz Maggie Gyllenhaal e conta com Daniel Blumberg, Xavier Giannoli e Frenacesco Casetti entre os jurados. A seguir todos os filmes que serão exibidos no festival ao longo de dez dias:

Mostra Competitiva

Ink, dir. Danny Boyle (Filme de Abertura)

Company, dir. Casey Affleck

A Bit of Light, dir. Ali Asgari

Ritorno a Buenos Aires, dir. Marco Bechi

Un Bon Petit Soldat, dir. Stephane Brize

Il Fuoco Che Ti Porti Dentro, dir. Edoardo de Angelis

Woman Unknown, dir. May el-Toukhy

Bucking Fastard, dir. Werner Herzog

A Place to Heal, dir. Cedric Kahn

Dau, dir. Ilya Khrzhanovsky

Look Back, dir. Hirokazu Koreeda

Possible Love, dir. Lee Chang-dong

Cavalo Selvagem Nove, dir. Martin McDonagh

It Will Happen Tonight, dir. Nanni Moretti

Primetime, dir. Lance Oppenheim

The Echo Chamber, dir. Andrea Pallaoro

Un Peu Avant Minuit, dir. Nicolas Pariser

L’Estranea, dir. Paolo Strippoli

Mr. Nelson, Did You Kill People?, dir. Shinya Tsukamoto

Bunker, dir. Florian Zeller

Mostra Holofote

Sumo: Spirit Weighs Nothing, dir. Erik Shirai (Filme de Abertura)

Conversation With the Sea, dir Muayad Alayan,

Hombre Al Agua, dir. Gael Garcia Bernal

Serpenti, dir. Roberto de Paolis Maino

Furies, dir. Rami Kodeih

Guria, dir. Levan Koguashvili

Ground Floor, dir. Gabor Reisz

I Matter, dir. Alina Serban

Mostra Horizontes

La Ragazza con la Leica, dir. Alina Marazzi (Filme de Abertura)

The Burning Giants, dir. Phuttiphong Aroonpheng Thai

What Belongs to Others, dir. Grzegorz Debowski

Una Storia, dir. Anna Foglietta

La Citta dei Vivi, dir. Edoardo Gabbriellini

Falling House, dir. Mohsen Gharaei

Too Much Sugar, dir. Robert Greene

The Difficult Bride, dir. Rubaiyat Hossain

La Maison du Vent, dir. Auguste Bernard Kouemo Yanghu

I Figli Della Scimmia, dir. Tommaso Landucci

A Day in the Life of Jo: Chapter Phaedra, dir. Jacqueline Lentzou

Oasis, dir. Jannis Lenz

Until the Day Ends, dir. Jelena Maksimovic

La Moula, dir. Jerome Pierrat

Lovers in the Blue Night, dir. Anuparna Roy

Un Detour par Diane, dir. Ann Sirot, Raphael Balboni

The Color of the Sun, dir. Xavier Tera

Mostra Venice Open

Juso Per Ferie, dir. Karen di Porto

Nino – Un Film su Nino, dir. Walter Fasano

The Pervert’s Guide to Utopias, dir. Sophie Fiennes

Joie de Vivre, dir. Luca Guadagnino

Twist and Shoot Mister Suzuki, dir. Yves Montmayeur

Intermission, dir. Yonfan

Mostra Venice Open  Não-Ficção

Be Brave, dir. Francesco Carrozzini

What Loves Builds, dir. Russell Crowe

Burgundy, dir. Michael Dweck, Gregory Kershaw

Musk, dir. Alex Gibney

The Road to Jericho, dir. Amos Gitai

Citizen Osama, dir. Ahmed Hassouna

Union Town, dir. Barbara Kopple

Holy Wood Dust, dir. Victor Kossakovsky

Letters from the Silenced Country, dir. Andrei Kutsila

Biografia de Jorge Luis Borges, dir. Mariano Llinas

My Undesirable Friends Part II – Exile, dir. Julia Loktev

Boatbilders, dir. Luke Lorentzen

Imperium, dir. Sergei Loznitsa

Shumei – The Living Legacy of Kabuki, dir. Takashi Miike

Queer Edward II, dir. Theo Rollason

Oasis: Don’t Look Back in Anger, dirs. Dylan Southern, Will Lovelace

Dust, dir. Tsai Ming-liang

Everest: The Other Side, dirs. Elizabeth Chai Vasarhelyi, Jimmy Chan

From Inside Out – The Architecture of Peter Zumthor, dir. Wim Wenders

Mostra Venice Open - Ficção

Nessun Dolore, dir. Gianni Amelio

Let Us Through, Dear Ancestors, dir. Lav Diaz

Father Joe, dir. Barthelemy Grossman

Scherzetto, dir. Mario Martone

Place to Be, dir. Kornel Mundruczo

No Paradise if You Are Killed by a Woman, dir. Halkawt Mustafa

Arrested Memory, dir. Sabu

The Basics of Philosophy, dir. Paul Schrader

Un Bon Avocat, dir. Tristan Seguela

Jupiter, dir. Alexandre Smia

Dio Ride, Giovanni Veronesi (Filme de Encerramento)

PL►Y: Vida Privada

Jodie: a ética na esquina. 

Admirado diáriw, Jodie Foster é uma das minhas atrizes favoritas desde sempre. Sou fã dela desde que a vi em O Silêncio dos Inocentes (1991) e ela se tornou uma daquelas atrizes em que basta o nome estar em alguma produção para atiçar meu interesse. Infelizmente ela filma pouco ultimamente, o que deixa uma curiosidade a mais para assistir este Vida Privada que está em cartaz na HBOMAX. Ela interpreta Lilian Steiner, uma renomada psiquiatra que tenta lidar com o suicídio de uma de suas pacientes, Paula (Virginie Efira). Considerando que conhecia bem a paciente, ela não acredita que tenha tirado a própria vida, suspeitando que trata-se de um caso de assassinato. Ajuda muito a aumentar as suspeitas de Lilian a hostilidade com que é tratada pelo marido da paciente, Simon (Mathieu Almaric) e o comportamento suspeito da enteada da falecida, Valérie (Luàna Bajrani). A narrativa se dedica à mostrar a psiquiatra descobrindo fatos e costurando pistas conforme sua suspeita instiga e, embora o roteiro não ofereça nada demais ao espectador, torna-se interessante pela forma como expõe nossa capacidade de criar as próprias verdades, moldando o que se encaixa em nosso ponto de vista e desconsiderando todo o resto que indique uma direção contrária. A diretora Rebecca Zlotowski consegue construir uma atmosfera envolvente de mistério e conta com um elenco impressionante que ainda conta com Daniel Auteuil como o ex-marido de Lilian e Vincent Lacoste como o filho cheio de ressentimentos. Entre suspeitas e desventuras, o filme de vez em quanto encontra até espaço para algum humor ancorado em um trabalho que soa como a antítese da personagem que Jodie Foster interpretou na última temporada de True Detective. Não chega a ser um filme memorável, mas é até instigante. 

Vida Privada (Vie Privée / França - 2025) de Rebecca Zlotowski com Jodie Foster, Mathieu Almaric, Virginie Efira, Luana Bajràni, Daniel Auteuil e Vincent Lacoste. 

domingo, 30 de agosto de 2026

PL►Y: O Convite

Seth e Olivia: casal anfitrião em crise. 

Entusiasmado diáriw, fico muito feliz de ver Olivia Wilde reencontrando seu caminho como diretora após a bagunça de Não se Preocupe, Querida (2022). A diretora brigou para que seu terceiro filme fosse lançado nos cinemas e chegou a recusar uma proposta robusta da Netflix que o lançaria direto no streaming. O resultado é um sucesso de bilheteria abraçado pelo público adulto que estava carente de um comédia madura ancorada em diálogos e atuações inspiradas. Baseado no filme espanhol Sentimental (2020) de Cesc Gay, o roteiro de Rashida Jones e Will McCormack  onsegue dar aos personagens novas nuances que torna tudo mais interessante. O filme conta a história do jantar promovido por Angela (Olivia Wilde) para os seus vizinhos, Piña (Penelope Cruz) e Hawk (Edward Norton) - mesmo que seu esposo, Joe (Seth Rogen) seja contra. A situação anda tensa entre o casal anfitrião, Joe é frustrado com sua carreira na música e Angela nunca conseguiu se dedicar à sua profissão, ficando presa às neuras de afazeres cotidianos. Já os convidados são descolados e tem uma vida sexual audível que mostra-se ainda mais movimentada do que os seus vizinhos suspeitavam. Entre diálogos afiados sobre a vida dos casais e alguns constrangimentos surge um convite inesperado para o casal em crise sair da rotina. Olivia Wilde faz um ótimo trabalho na direção, os atores apresentam uma ótima sintonia e a narrativa do filme flui de forma surpreendente levando em consideração a ambientação em uma única locação. Utilizando a estrutura do apartamento para emoldurar seus personagens, O Convite tem um pouco do cinema de Woody Allen quando ele dizia "vamos parar de rir e falar sério" e, não por acaso, o filme é dedicado à Diane Keaton (musa master do cineasta cancelado). Eu amei a última cena que deixa o final em aberto. 

O Convite (The Invite / 2026) de Olivia Wilde com Olivia Wilde, Seth Rogen Penelope Cruz e Edward Norton. ☻☻☻☻ 

PL►Y: Michael

Jafaar: honrando o legado do tio. 

Sonoro diáriw, a cinebiografia de Michael Jackson rende mais de um bilhão de bilheteria. Enquanto estava em cartaz era comum ver as reclamações com uma plateia disposta a render-se à empolgação e cantar junto, levantar e dançar na frente da tela. O repertório do Rei do Pop justificaria a postura de quem esqueceu os bons modos em casa e achou que iria para um show? Fato é que a trilha sonora de Michael é realmente empolgante e quem vivenciou aquele tempo em que ele dominava as rádios e a MTV (antes de se tornar um sujeito estranho) viverá uma compreensível nostalgia. Tirando a música do filme não sobra muita coisa no longa assinado por Antoine Fuqua. O roteiro de John Logan é capenga e se limita a costurar com algumas situações da vida do cantor os momentos dedicados aos seus maiores sucessos, no entanto vemos pouco do processo criativo do artista e nada de sua complexidade artística ou enquanto sujeito. De resto temos Jaafar Jackson (sobrinho do Michael) convincente como o cantor enquanto está cantando, dançando e consegue representar os gestos, olhares sorrisos e voz do tio, mas como ator o material que tem em mãos é pouco para trabalhar, já que os conflitos do protagonista estão mais vinculados à sua figura paterna opressora (vivido por Colman Domingo fazendo mais do que o roteiro lhe oferece) do que as suas ambições. Desta forma o final não poderia ser muito diferente do que ele anunciando sua saída do crivo do pai, mas é como cinema é pouco. A produção é bem cuidada, as luzes, a montagem, o som... mas o texto é fraquíssimo. O Rei do Pop merecia mais. Não por acaso a mana Janet Jackson pediu para nem ser mencionada na produção. Terminando na era Bad (1987), o filme terá uma sequência que acompanhará os anos mais complicados da carreira de Jackson. Imagino como será...  

Michael (EUA-2026) de Atoine Fuqua com Jaafar Jackson, Colman Domingo, Nia Long, Miles Teller, Mike Myers, Laura Harrier, Jessica Sula e KeiLyn Durrell Jones. 

sábado, 29 de agosto de 2026

PL►Y: 9 ¹/² Semanas de Amor

Kim e Mickey: relacionamento tóxico. 
Amoroso diáriw, este filme faz parte daquela lista de "filmes muito falados que eu nunca assisti". Nunca tive muita vontade de assistir, acho que por pré-conceito mesmo já que sempre imaginei que era sobre uma casal apaixonado até que o amor acabava antes da décima semana. Confesso que fiquei surpreso em perceber como o filme tem mais nuances do que a pecha de romance erótico que atribuíram a ele. As cenas de sexo são  discretas e não deve deixar espectadores impressionados, mesmo contando com os corpos jovens de Kim Basinger e Mickey Rourke. Ele vive um executivo charmoso e um tanto misterioso, ela vive uma mulher que ainda tenta lidar com as feridas de um divórcio. Os dois começam um tórrido relacionamento amoroso, mas logo nas primeiras cenas você percebe que o rapaz é meio cretino e curte promover umas situações humilhantes com sua amada. Chamar de amada é um tanto demais, já que eu não enxerguei muito amor no filme. Percebi desejo, tesão, fantasias e fetiches, mas amor... a coisa fica ainda mais complicada quando percebemos a vulnerabilidade de Elizabeth em um relacionamento que mexe em algumas feridas de  sua auto-estima. Dizem que o diretor Adryan Lyne (que se tornou expert em dramas sexuais já no ano seguinte com Atração Fatal/1987 e depois vieram Proposta Indecente/1993, Lolita/1997 e Infidelidade/2002) tinha várias horas de filme que foram cortadas e que davam um sentido muito mais complexo (e ordenado) para o relacionamento entre os personagens. No fim das contas achei um filme ousado para época (foi fiasco nos EUA e sucesso na Europa) e serviu para dar status de estrela para o casa principal. Décadas depois cada um receberia uma indicação ao Oscar, mas neste filme Kim tem cenas de partir o coração (e nunca tinha imaginado como ela parecia com a Liv Ullman!). 

9 ¹/² Semanas de Amor (9¹/² Weeks / EUA - 1986) de Adrian Lyne com Kim Basinger, Mickey Rourke, Margareth Whitton, Sarah Kernochan, Christine Baranski e David Marguiles. 

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Pódio: Tim Curry

Bronze: o palhaço maldito. 

3º It - Uma Obra-Prima do Medo (1990) Antes de Bill Skarsgård encarnar o palhaço macabro criado por Stephen King no cinema em 2017, foi Tim Curry que deixou muita gente com medo de palhaço (tem até nome para isso: coulrofobia) ao viver o ser misterioso que personifica os medos alheios (para se alimentar dos próprios temerosos). Na produção feita para TV em 1990 em formato de minissérie (e chegou por aqui em VHS duplo para dar conta de suas mais de 3 horas de duração), o palhaço sinistro inferniza a vida de sete pré-adolescentes que na vida adulta precisam derrotá-lo. Tim é o destaque da produção com sua caracterização assustadora que nunca mais deixou um palhaço ser visto da mesma forma. 

Prata: O Coisa Ruim.
2º A Lenda (1985) Antes de dar conta do palhaço do mal, Tim viveu o Senhor das Trevas em pessoa neste filme de Ridley Scott. Você deve estar se perguntando o motivo dele estar na medalha de prata e não na posição do bronze. O fato é que eu tinha mais pesadelos com o chifrudo depois de ver o filme estrelado por Tom Cruise do que com o palhaço maldito. No entanto, de nada valeria a caracterização impecável (os chifres gigantes, os dentes pontudos e até o corpo torneado) se a alma do coisa ruim não fosse um ator do porte de Tim Curry. Formado em Teatro de Birmingham e com vasta experiência em musicais, o ator demonstra uma expressividade facial e física que faz toda a diferença para viver um ser tão malévolo. Um clássico esquecido que merece ser revisto. 

1º O Transexual Transilvânia
1º Rocky Horror Picture Show (1975) Quando assisti ao filme dirigido por Jim Sharman na adolescência eu imaginei que aquele ator que vivia o cientista alienígena transexual do planeta Transilvânia teria recebido vários prêmios pelo seu trabalho. Não foi bem assim. O filme foi um fracasso de bilheteria, mas ao longo dos anos os produtores perceberam que uma parcela do público desenvolvia um verdadeiro culto em torno dele em sessões à meia-noite. Tornando-se cult na marra, o musical alucinadamente queer sobre um casal comportado que vai parar no castelo habitado por um grupo de criaturas, digamos, diferentes, tornou o personagem Frank'n Furter em um ser icônico do cinema e tudo por conta da energia contagiante impressa por Tim Curry. Só por este papel, ele já merece o céu junto aos Deuses do Cinema.