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quarta-feira, 12 de julho de 2017

Na Tela: Homem-Aranha: De Volta ao Lar

Holland: Aranha como manda o figurino. 

Tudo começou quando a Marvel não tinha dinheiro para bancar os seus filmes e vendia seus personagens para os grandes estúdios. Um deles foi o Homem-Aranha, que fez muito dinheiro nas mãos da Sony quando Sam Raimi era responsável pelos filmes e tinha Tobey Maguire na pele de Peter Parker e do herói aracnídeo. Depois de três filmes que fizeram bonito na bilheteria (mesmo com o terceiro sendo espinafrado até hoje), os ânimos se desentenderam e uma repaginada foi realizada. Com Andrew Garfield na pele de Parker/Aranha, O Espetacular Homem-Aranha prometia mundos e fundos e tudo foi por água abaixo já no segundo filme (o horroroso A Ameaça de Eletro). Diante da pressão dos fãs, a Sony começou a reconsiderar a ajuda da Marvel para colocar a carreira cinematográfica do herói novamente nos eixos. Assim, Homem-Aranha: De Volta ao Lar (com trocadilho, por favor) marca o retorno do herói para as mãos de sua editora e o resultado tem muitos acertos. O filme acerta em não matar o tio Ben novamente ou apresentar as transformações no corpo de Peter por conta de ser picado por uma aranha radioativa, ciente de que o público está cansado de conhecer essa parte da história, o filme opta por mostrar algo que o cinema sempre deixava de lado: a identidade do herói como adolescente. Se os filmes da Marvel sempre optam por fazer os filmes com gêneros diferentes, De Volta ao Lar é o filme de adolescentes com o selo do estúdio. Inspirado totalmente nos filmes do mestre John Hughes (o filme torna explícita a inspiração citando o clássico Curtindo a Vida Adoidado/1986 várias vezes). Outro grande acerto fica por conta de escalar Tom Holland para viver o herói. Elogiadíssimo por sua atuação em O Impossível/2012, o jovem ator tem 21 anos mas convence como adolescente, seja em suas inseguranças da idade ou a mania teen de se julgar indestrutível - é justamente este ponto que o faz se meter numa grande encrenca que perdura por todo o filme, afinal, ele cruza o caminho de um ladrão mais habilidoso que a maioria. Este vilão é vivido por Michael Keaton, conhecido nos quadrinhos como o Abutre, o vilão também passa por uma repaginada e surpreende ao se tornar um dos melhores vilões da Marvel no cinema. Seu personagem é tão cheio de mesquinharias que se torna convincente exatamente por conta disso (e tem a promessa de retornar em breve). Outro destaque do elenco é Marisa Tomei, que muita gente estranhou por ser uma Tia May mais jovial do que nunca (embora a atriz tenha 52 anos muito bem vividos), mas que além de ser alvo de olhares calorosos, ela deixa claro desde a primeira cena o seu zelo pelo sobrinho. Nesta mistura de filme teen com heroísmo, o diretor Jon Watts tem muitos elementos para dar conta, mas consegue fazê-lo evitando ao máximo repetir o que já vimos nos filmes anteriores. Watts faz um que pode não ter o sabor de novidade, mas que inova ao se concentrar justamente  no herói aprendendo a lidar com seus poderes, fama e impaciência de sempre esperar o chamado para se juntar aos Vingadores depois do que vimos em Capitão América: Guerra Civil (2016). Porém, nem tudo é perfeito, me incomodou o excesso de referências aos Vingadores (como se o personagem não tivesse condições de segurar nosso interesse sozinho).  Entendo que o Homem de Ferro (Robert Downey Jr.) tenha um apelo paternal ao personagem, que o Capitão América (Chris Evans) seja uma celebridade, mas por vezes o aranha surge demais à sombra destes ídolos. No entanto, não é nada que impeça Homem-Aranha: De Volta ao Lar de ser divertido e trazer novo fôlego para o personagem no cinema. 

Keaton: o Batman Birdman Abutre. 

Homem-Aranha: De Volta ao Lar (Spider Man: Homecoming/EUA-2017) de Jon Watts com Tom Holland, Michael Keaton, Robert Downey Jr., Marisa Tomei, Jon Favreau, Zendaya, Tony Revolori, Laura Harrier e Donald Glover. ☻☻☻

domingo, 24 de setembro de 2017

Na Tela: Mãe!

Bardem e Jennifer: prepare-se para a maior viagem do ano. 

Quando vi pela primeira vez o trailer de Mãe! de Darren Aronofsky tive a impressão de ver uma versão do clássico O Bebê de Rosemary/1968 para o século XXI. Acho que foi proposital fazer pensar que a história de um casal que começa a ter a casa invadida por um bando de adoradores em clima maligno tivesse relação com o clássico de Roman Polanski. Na verdade até tem, mas o que o diretor novaiorquino faz em sua nova provocação vai muito além disso. Na verdade, Darren subverte o que fazia o longa de Polanski assustador, já que aqui as referências vão de encontro ao divino, um divino estranho, mas, ainda assim, divino. Desde sua estreia em Pi (1998) até o sucesso absoluto com Cisne Negro (2010), Aronofsky demonstra interesse em personagens obsessivos, tão obsessivos que percebem a realidade de uma forma distorcida. Não importa se são matemáticos, bailarinas, lutadores, cientistas ou, até mesmo, uma mãe que deseja perder peso mais do que tudo na vida. Não foi por acaso que o diretor foi quase o responsável por repaginar os filmes de Batman antes que Christopher Nolan topasse a empreitada e criasse a trilogia do Cavaleiro das Trevas.  No entanto, depois que Darren se aventurou pelas águas bíblicas em Noé (2014), algo novo foi agregado ao seu estilo particular, já que o cineasta mostra-se mais preocupado com a responsabilidade humana com o planeta em que vivemos. Prometo que a partir daqui não vou revelar muito mais sobre o controverso Mãe! até a segunda parte desta postagem. Depois de um início mais revelador do que parece, conhecemos um escritor, na verdade um poeta (Javier Bardem) que convenceu a nova esposa (Jennifer Lawrence) a morar na antiga casa onde vivenciou uma tragédia no passado. Ela é bem mais jovem que ele, mas abraça a casa com a intenção de fazer dali mais do que um lar, um verdadeiro paraíso. Ela se esforça para que a casa se torne o mais aconchegante possível e, com isso, agradar o esposo que não escreve nada há tempos, enfim, ele não consegue criar. Embora ele pareça insatisfeito com a rotina da vida a dois, as coisas mudam quando recebem a visita de um médico (Ed Harris). Ela não parece confortável com a visita do estranho, o que piora ainda mais quando chega a sua inconveniente esposa (Michelle Pfeiffer) e, mais tarde os dois filhos do estranho casal (os irmãos Brian Gleeson e Dohmnall Gleeson) acarretando uma mudança radical na trama. Se a presença daquelas visitas atrapalha a rotina da casa, você não faz ideia do que irá acontecer na meia hora final. Mãe! faz crescer a tensão pouco a pouco até se tornar cada vez mais incômodo, seja pela necessidade do poeta sentir-se adorado, de seu desprezo às preocupações com a esposa ou com as pessoas que aparecem na casa sem ter respeito algum por aquele espaço. Darren nos brinda com um filme que torna-se cada vez mais sombrio, delirante e metafórico, estando sujeito a muitas leituras (seria um pesadelo? um livro escrito pelo poeta? Um surto da esposa que anseia a perfeição daquele lar? O retrato de um casamento abusivo? Uma casa assombrada?), aspectos que podem fazer o filme transitar por muitos gêneros. Embora muita gente possa odiar o filme (o que já mostrou-se comum desde sua primeira exibição no Festival de Veneza) não há como negar que Aronofsky realiza aqui um dos seus trabalhos mais impressionantes com a ajuda de atores em performances excepcionais. Faz tempo que Michelle Pfeiffer não tem um papel tão interessante e Jennifer Lawrence alcança sua performance mais intensa em muito tempo - mesmo quando o filme exagera, a queridinha de Hollywood mantem a linha e não deixa tudo cair no ridículo, tornando impossível não compartilhar de sua dor ao ver o lar que construiu com tanto zelo e carinho desintegrar diante dos nossos olhos. Se você não quer saber mais do que isso é melhor parar de ler exatamente aqui. Alerta SPOILER! 

Pfeiffer: Eva em carne, osso e costela?

Desta parte em diante me darei ao luxo de comentar SPOILERS sobre o filme, recomendando que você leia essa parte somente se já tiver visto o filme ou se quiser conhecer uma espécie de manual para entender o que se passa na tela durante a nova piração do diretor de Réquiem Para um Sonho (2000). Mãe! se tornou um sucesso de crítica, mas tão logo o filme começou a ser criticado pela maioria do público o diretor e sua estrela começaram a comentar um pouco mais por todas as ideias que estavam por trás da trama, talvez a pedido do estúdio que fez divulgação e distribuição maciça do filme ao redor do mundo (se fosse feito no esquema independente de antigamente, provavelmente Aronofsky nem ligaria para as reclamações). Se você tem um olhar atento é capaz de identificar várias delas, principalmente se pescar das cenas iniciais dica de desvencilhar o filme de uma estética realista. Claro que você pode explicar tudo de formas diferentes, mas o fato é que o roteiro foi inspirado na Bíblia, da gênese ao apocalipse - e até o que viria depois dele. Em vários lugares já mencionaram que Javier Bardem interpreta o poeta como o criador (ou Deus, se preferir), Jennifer Lawrence é a mãe natureza, o homem que os visita é Adão (Ed Harris), a esposa que aparece (depois dele surgir rapidamente machucado na altura da costela) é Eva (Michelle Pfeiffer). O quarto de criação do poeta seria a árvore do conhecimento ou da ciência que estava presente no paraíso, o cristal que eles quebram seria o fruto proibido, da ciência e a (assustadora) origem de tudo. Os filhos que vivem brigando são Caim e Abel e... você sabe o que acontece. Depois o filme tem o alento da gravidez da mãe natureza, a alegria e a inspiração surgem e tudo volta ao normal como uma boa nova para aquele lar... nas, antes que o filho do criado nasça, ele já é adorado por uma multidão cega que interpreta a obra do poeta de forma diferente, mas a multidão é incapaz de zelar pela casa onde estão. A casa é o nosso planeta, devastado, depredado, explorado quase ao ponto do apocalipse que é anunciado pela própria protagonista antes da pior noite de sua vida. A multidão cega tem a mesma devoção pelo criador quanto o Noé interpretado por  Russell Crowe, ao ponto de não ter a mínima consideração por um bebê e criar a alusão à comunhão da forma mais horripilante que já se viu no cinema (provocação máxima do filme, já que em O Bebê de Rosemary os adoradores do coisa ruim queriam cuidar do anticristo). Em meio à histeria coletiva, guerra e toda a loucura que se instaura nos momentos final do filme, Aronofsky paga um preço alto pelas sua trama cheia de simbologias e alusões religiosas. Ele provoca, choca,  exagera (confesso que me desconectei do filme por um tempo durante a parte da guerra) e faz do caos a matéria prima de uma obra realmente insana como não se via em muito tempo. A própria Jennifer Lawrence passou mal durante as filmagens, deixando claro que não é uma obra angustiante somente para quem assiste. Mãe! é um filme para amar ou odiar, numa relação tão extrema como a dos personagens apresentados na tela. Mas se você prefere considerar toda essas simbologias uma grande viagem, você pode optar por pensar que tudo é um delírio de uma dona de casa desesperada que parou de tomar seu misterioso remédio amarelo - e que deu o azar de casar com um megalomaníaco obcecado por ser adorado.     

Jennifer e a casa: delírios apocalípticos.  

Mãe! (Mother! - EUA/2017) de Darren Aronofsky com Jennifer Lawrence, Javier Bardem, Michelle Pfeiffer, Ed Harris, Domhnall Gleeson e Brian Gleeson. ☻☻☻☻

segunda-feira, 29 de julho de 2019

Na Tela: Homem-Aranha Longe de Casa

Homem-Aranha e Mysterio: o universo fora do eixo.  

Não sei se alguém acompanha o blog ao ponto de perceber que fiquei praticamente um mês sem colocar novas postagens por aqui. Uma pena que não se tratou de férias, mas sofri um acidente e passei várias semanas resolvendo situações pelas quais nunca imaginei. Por sorte só houve perdas materiais, mas a imprudência de alguns motoristas me deixa ainda mais assustado depois de ficar de ponta cabeça preso pelo cinto de segurança. Pareceu cena de filme. A angústia do momento não dá para descrever, mas no fim das contas, estamos bem. No meio desta confusão eu nem conseguia escrever, por falta de tempo e paciência. Aos poucos a vida voltou ao normal e colocarei o blog de novo na ativa. Passada a confusão eu assisti Homem-Aranha-Longe de Casa, o filme que a Marvel vendeu sendo o final da fase 3 após o sucesso arrebatador de Vingadores: Ultimato/2019. Eu demorei tanto para escrever que o novo filme do aracnídeo já ultrapassou o bilhão de dólares em bilheterias (o primeiro do herói a conseguir tal feito) logo após Ultimato ultrapassar Avatar (2009) e se tornar o filme com maior bilheteria de todos os tempos. Se com isso o público deixa claro que curte muito a Marvel  (e elevou o estilo do estúdio ao posto de padrão do gênero super-heroico no cinema), por outro lado, é preciso deixar claro que as aventuras de Peter Parker tem uma linha própria dentro do estúdio e que precisa amadurecer. Assim como o anterior, o estilo é aquele filme de adolescentes ingênuo ambientado em escola, com paqueras, piadinhas inofensivas e um protagonista atrapalhado. A fórmula é a mesma de Homem-Aranha de Volta ao Lar (2019), só que aqui ela ganha um tempero diferente por contar um pouco de como o mundo lidou com aquele maldito estalar de dedos. Ficamos sabendo que foi difícil para quem virou pó retornar após cinco anos e, com isso, enfrentar um mundo diferente. É neste mundo diferente, que surge Mysterio (Jake Gyllenhaal), novo escolhido por Nick Fury (Samuel L. Jackson) depois que os Vingadores sofreram baixas consideráveis. Fury ainda não está convencido de que Homem-Aranha (Tom Holland) tenha maturidade para se tornar um herói - e o roteiro dá motivos de sobra para ele continuar pensando assim, mesmo com monstros de outra dimensão capazes de destruir o mundo. Com o peso de honrar o legado dos heróis sobre os ombros, o resultado consegue ser apenas divertido, já que não avança nada em comparação ao que vimos no filme anterior do aracnídeo em sua nova casa. Embora Mysterio seja um dos meus vilões favoritos dos quadrinhos (aquela bola enfumaçada na cabeça dele sempre me deu calafrios), não me incomodou o fato do rosto famoso de Jake Gyllenhaal precisar aparecer para vender o filme. Incomoda muito mais a performance de Zendaya como uma pífia Mary Jane. No primeiro filme eu até relevei com o pouco destaque que ela tinha na trama, mas aqui seu maior talento parece ser indiferente ao que acontece durante toda a história. Voltando à trama, existe um verniz de homenagem ao Homem de Ferro que confere charme à produção, mas o que gostei mesmo foi o flerte constante de Tia Mae (Marisa Tomei) com Happy (Jon Favreau), que funciona muito bem dentro da cadência esquemática da produção. Neste ponto do Universo Marvel eu não percebi muita relevância desta produção no contexto que vem por aí, mas algumas falas do Mystério ainda são capazes de pensar sobre o mundo em que vivemos atualmente com pessoas que acreditam em qualquer coisa.

 Homem-Aranha Longe de Casa (Spider Man: Far From Home / EUA-2019) de Jon Watts com Tom Holland, Jake Gyllenhaal, Marisa Tomei, Jon Favreau, Zendaya, Tony Revolori e Cobi Smulders. ☻☻☻

sábado, 22 de junho de 2013

DVD: A Hora Mais Escura

Chastain: é duro ser mulher na CIA.

Já ouvi muita gente falando que Kathryn Bigelow dirige feito um homem. Discordo dessa frase não somente pelo fato de soar extremamente machista, mas porque muito homem não dirige feito ela. Desde que se tornou a primeira mulher a ganhar o Oscar de direção, Bigelow se tornou ainda ainda mais seca e crua em sua narrativa. Vale ressaltar, que não vejo problema algum nisso. Muita gente torceu o nariz para o tom de seu Guerra ao Terror (2008), reclamaram de sua imparcialidade  (?!) de não acusar a guerra como algo ruim. Essa crítica poderia ser até pertinente se o foco da moça não fosse outro: mostrar como o belicismo corre nas veias dos americanos (ou não foi isso que ficou claro quando o personagem de Jeremy Renner fica entediado com a comodidade do lar - e a companhia da esposa - e volta para o campo de batalha?). A ideia nem era uma novidade, já que Sam Mendes já havia tratado o assunto em Soldado Anônimo (2005), só que com a diferença de possuir toneladas de ironias e piadinhas sobre a necessidade dos rapazes dar alguns tiros por aí. Em Guerra ao Terror a coisa era diferente: uma ambição realista que beirava o documental. A Hora Mais Escura é o claro passo seguinte ao filme anterior. Sai a vida na linha de frente e chega-se aos bastidores, ou seja, as ações dos estrategistas da CIA para encontrar o paradeiro de Osama Bin Laden. Já ficou famosa a história que depois que o líder terrorista foi encontrado, o roteirista Mark Boal teve que transformar seu roteiro em algo mais coerente com a realidade atual. Além disso, o filme gerou muita polêmica. Uma delas ficou por conta de Boal afirmar que se baseou em depoimentos de agentes  da CIA metidos na operação (alegando que não citaria nomes por ter que preservar suas fontes), a outra é que se a história é tão comprometida com a verdade como diz, então os americanos torturaram em nome do paradeiro de Bin Laden (algo que negam veementemente). Sinceramente, eu prefiro acreditar em Papai Noel! Guantánamo e Jack Bauer já deixaram claro que a tortura não é tão rara quanto gostariam que imaginássemos. Obviamente que a tortura é uma violência, como todas as outras, injustificável - além de uma tática questionável de obter informações. O que mais deve ter chocado é o fato da protagonista, Maya (Jessica Chastain) presenciar a tortura com visível desconforto mas sem muito remorso (durante o filme vários personagens aparecem reclamando quando Obama proíbe os "interrogatórios"). Mas quem disse que a tortura deve ser aceita pela plateia só porque os personagens não a questionam? Afinal, trata-se de uma obra para adultos e espera-se que esses tenham discernimento para interpretar um filme! Penso que Boal e Bigelow fizeram uma reconstituição notável dos acontecimentos em torno da operação em busca de Bin Laden. A coisa é tão minuciosa que me senti tão exausto quanto os personagens. Os fatos estão ali, resta-nos interpretá-los diante da linha do bem e do mal que aparece meio borrada entre os mocinhos e bandidos do filme. Talvez os méritos do trabalho da diretora esteja justamente em deixar que os atos de seus personagens falem por si, sem necessidade de mastigar e regurgitar para o espectador o que já é visto. Pelas descobertas de Maya e sua dificuldade de se impor na fronteira entre universos repletos de testosterona, a atuação de Chastain foi muito elogiada. No início sua personagem parece apenas de corpo presente, mas conforme compreende aquele universo ela ganha força para se impor diante dos outros personagens e situações que atravessam seu caminho (passando pelo convencimento dos superiores aos atentados que sua equipe sofre). Entre perdas, suspeitas e estratégias, o filme torna-se um recorte diferente de uma história bem conhecida dos jornais, mas que aqui é tratada com a frieza  distante da esfera burocrática em confronto com a protagonista (que tomou à caça ao terrorista mais famoso do mundo como algo pessoal). O filme concorreu a cinco Oscars (Filme, atriz, edição, roteiro original e ganhou o de edição de som) e tantas polêmicas acabaram colocando o filme em comparações com Argo (2012) que ganhou o Oscar deste ano. 

A Hora Mais Escura (Zero Dark Thirty/EUA-2012) de Kathryn Bigelow com Jessica Chastain, Jason Clarke, Jennifer Ehle, Mark Strong, James Gandolfini, Stephen Dillane e Joel Edgerton. ☻☻☻☻

sexta-feira, 22 de julho de 2011

FILMED+: Lavoura Arcaica


Spoladore: estreia calada, mas não muda...

Com a chuva de longas metragens assinados por diretores vindos da TV em nossos cinemas, dia desses me dei conta de que o filme Lavoura Arcaica de Luiz Fernando Carvalho faz dez anos e merece ser revisto. O diretor realizou um dos trabalhos mais notáveis do cinema brasileiro, sendo ousado,  inovador e nada televisivo. Desde que dirigia novelas na Globo (Renascer/1993, Rei do Gado/1996) era mais do que visível que o diretor trazia para a telinha qualidades da sétima arte.  Na verdade, Lavoura trouxe Carvalho de volta às suas origens, já que foi no cinema que construiu sua primeira obra-prima (o curta A Espera/1986) e devido às qualidades sublimes deste trabalho foi convidado a injetar sangue novo na teledramaturgia (o que causou grande polêmica entre os diretores tradicionais). Admiro a coragem de, neste retorno, Carvalho tenha escolhido um dos mais belos livros de nossa literatura - embora seja um dos mais densos também, um jorro de memórias de um protagonista autocentrado que abandona os sua família de imigrantes libaneses, assim como os seus valores. A narrativa é tão forte e vertiginosa que depois dele o escritor Raduan Nassar largou a literatura (foi viver numa fazenda após, somente, três livros publicados).  O filme Lavoura Arcaica busca reproduzir o jorro narrativo em forma de imagens e consegue realizar, magistralmente, um filme irretocável visualmente. Visualmente inebriante, o filme causa algum desconforto a partir do momento em que temos contato com a escrita forte e literata na boca de seus atores, mas a intensidade das atuações, os enquadramentos, o jogo de luzes e sombras nos absorvem de tal forma que é impossível ficar indiferente. Não é todo mundo que se satisfaz a este estilo narrativo (me lembra muito o cinema de Terrence Mallick com as vozes alternadas em off e cenas que remetem às memórias do protagonista) mas é uma experiência inesquecível. Carvalho realizou um trabalho de preparação intenso para o filme, preparou seu elenco por três meses numa fazenda afastada da civilização. A produção se alongou por três anos e juntou um elenco excepcional com dois atores de grande apelo perante o público (Raul Cortez e Selton Mello, que perdeu vinte quilos para o papel) e quatro (então) menos conhecidos em papéis estratégicos (Juliana Carneiro da Cunha, Simone Spoladore, Leonardo Medeiros e Caio Blat). O filme cria o avesso da parábola do filho pródigo, André (Selton, excepcional no papel que fincou seus pés no cinema) saiu de casa deixando para trás todo o rigor de seu pai (Cortez, em mais um grande momento), o afeto (que é visto como uma anomalia na casa) da mãe (Juliana Carneiro, estupenda) e seus irmãos. Para buscá-lo a família envia o primogênito Pedro (Leonardo Medeiros), que ao encontrá-lo se depara com as angústias que levaram ao distanciamento da família. André se mostra confuso, entre a vulnerabiliade e a ira, jorrando sobre Pedro todos os seus dilemas e contradições sobre o discurso de seu pai e seus sentimentos - especialmente pela irmã Ana (a espetacular estreia de Simone Spoladore).  Isso é suficiente para que o diretor nos mergulhe em belas imagens pontuadas por diálogos áridos, numa espécie de paradoxo estilístico. Mesmo que alguns considerem o filme pretensioso em demasia (talvez merecesse perder uns vinte minutos), há de se ressaltar que o filme desperta as mesmas sensações que o livro, com a vantagem de ampliar os sentimentos dos personagens secundários (já que o livro se concentrava especialmente em André). Apesar de Selton ter mais tempo em cena, todos tem seus momentos (Spoladore não tem uma fala, mas nem precisava, suas cenas de dança são as mais impressionantes que já vi, Cortez mostra sua eficiência habitual num diálogo com Selton que é de arrepiar, Denise Del Vecchio tem uma participação pequena e memorável, Medeiros, Blat e Juliana tem atuações precisas, contidas e inesquecíveis em todas as cenas). Além deste acréscimo o filme ainda me fez despertar para uma leitura que ainda não havia feito sobre o livro, o diálogo do pai com André remetem diretamente à filosofia pós-moderna ao expor as contradições do poder e das referências expostas naquele lar. Um lar que ao final dá a sensação de ruir perante as revelações que  André desejava esconder. Carvalho faz uma adaptação muito pessoal do livro (tão pessoal que até assume a narração, como o André adulto, durante quase todo o filme), apesar de precisar de um ajuste aqui e outro ali, o longa é uma das obras mais impressionantes do cinema brasileiro.
LAVAOURA ARCAICA (Brasil/2001) de Luiz Fernando Carvalho com Selton Mello, Raul Cortez, Juliana Carneiro da Cunha, Simone Spoladore, Leonardo Medeiros e Caio Blat. ☻☻☻☻☻

sábado, 20 de abril de 2013

DVD: Bastidores de Um Casamento

Ezra e Kate: momento de lucidez. 

O drama familiar é um dos gêneros mais complicados de se fazer, principalmente quando costuma misturar vários personagens e a tendência de cair no exagero beira o inevitável - especialmente quando o roteiro inventa de mergulhar nos dramas de cada parente. Esse é o mal de Bastidores de um Casamento, filme de estreia de Sam Levinson, que chegou a ser premiado em Sundance pelo roteiro. Ainda que não seja um filme ruim, ele é construído em exageros em torno de um casamento e as relações familiares que se esgarçam quando um bando de parentes se reúne. O problema é que os personagens quase nunca conseguem se afastar da caricatura e o humor negro que brota das situações nasce justamente do excesso de drama, especialmente da protagonista Lynn (Ellen Barkin em atuação esforçada) que tenta colocar a vida em ordem depois que seu primeiro casamento foi um desastre para todos os envolvidos. O problema é que já se passou quase duas décadas desse fracasso emocional! O noivo, que remete ao título em português (que é péssimo), é filho do primeiro casamento de Lynn. Dylan (Michael Nardelli) foi criado pelo pai (Thomas Haden Church) e pela madrasta (Demi Moore, que tem uma das piadas mais bem sacadas do filme ao ser acusada de ser stripper no passado). Dylan é o único filho não problemático de Lynn.  Ainda que seja atualmente casada com um marido boa praça (Jeffrey DeMunn), Lynn lida com vários problemas entre seus filhos. Alice (Kate Bosworth), fruto do primeiro casamento, enfrenta problemas psiquiátricos que a leva a se cortar com navalhas e estiletes (e a evita falar com o pai desde o divórcio). Seus meio-irmãos também tem problemas psicológicos, se o caçula (Daniel Yelski) aparenta ter um diagnóstico precoce de autismo, Elliot (Ezra Miller) acaba de sair de uma clínica de desintoxicação após enfrentar problemas com as drogas (mas continua consumindo drogas e álcool escondido da mãe). Embora nunca tenha sido reconhecida como uma grande atriz, a loura Ellen Barkin dá conta do que o roteiro lhe pede: ser uma mulher que está no limite - quando percebe que todos os comentários de sua família gira em torno de sua inabilidade de reconstruir a vida as expressões estranhas de um rosto cheio de plásticas colabora ainda mais para a sensação que um colapso é iminente! Os dramas exagerados ainda ganham espaço com o patriarca da família (George Kennedy) que está prestes a morrer e sua esposa (Ellen Burstyn) que tem medo da solidão que está por vir. O que não falta são lágrimas e  alfinetadas de parentes (que tornam a família Baker numa das mais insuportáveis insensíveis do cinema), mas pior que isso são os comentários cheios de psicologismos que nem sempre funcionam, deixando o filme cansativo depois de uma hora de projeção. Enquanto percebemos que a festa de casamento servirá para lavar muita roupa suja, fica evidente que  Levinson abraça o olhar cínico de Elliot sobre a família em questão - isso deve explicar porque falta carinho no olhar do diretor perante seus personagens. Presos em caricaturas, poucos são os momentos em que os Baker não são mostrados como seres unidimensionais. No fim das contas, o filme não deixa de ser melancólico ao provar que a tese de Elliot (que momentos tristes unem mais os membros de uma família do que momentos felizes) está certa, ao mesmo tempo que coloca Alice e Elliot acordados  guiando a família na volta para o lar (que apesar de tantos problemas parece ser mais confortável do que a casa da vovó). 

Bastidores de Um Casamento (Another Happy Day/EUA-2011) de Sam Levinson com Ellen Barkin, Ellen Burstyn, Kate Bosworth, Ezra Miller e Demi Moore. ☻☻

sábado, 14 de julho de 2012

DVD: Um Gato em Paris

Nico, Zoé e Felino: praticantes de Le Parkour. 

Muita gente foi pega de surpresa quando esta animação francesa cravou uma indicação ao Oscar de animação. Na verdade, quem teve a oportunidade de assisti-la nas poucas salas em que era exibida no Brasil não estranhou muito. O trabalho de Jean Loup Felicioli e Alain Gagnol é de um visual impressionante, que lembra um livro infanto-juvenil em movimento. Não tenho nada contra animações feitas em computação gráfica, mas com o modismo, os desenhos feitos no formato tradicional acabam quebrando a mesmice - principalmente se o traço não tem a intenção de repetir o estilo Disney de desenhar e contar suas histórias. Além do traço estiloso, Um Gato em Paris possui uma trama bastante original, que flerta com histórias policiais sem perder sua leveza. Quem é dono de felinos deve ter cansado de especular para onde eles vão quando deixam o conforto do lar e vão se aventurar pela noite da vizinhança. Este foi o ponto de partida de Gagnol para criar o filme. Zoé é uma menina que não pronuncia uma palavra, ela mora com a mãe e um gatinho que à noite se aventura ao lado de um ladrão, Nico. Depois de suas aventuras ele volta para casa e se rende aos carinhos da menina - e às implicâncias da babá que toma conta de Zoé enquanto a mãe dela trabalha. A mãe de Zoé, Jeanne é uma delegada que está intrigada com as pistas de um certo ladrão de jóias que deixa vestígios felinos como pêlos e patinhas pelo chão. Além disso, Jeanne tem a chance de capturar o gangster Victor Costa, responsável pela morte do seu esposo policial e a oportunidade para isso se aproxima com a chegada à cidade de um artefato raro que chama a atenção do bandido. O problema é que o interesse de Nico pela mesma peça irá gerar algumas confusões que colocarão Zoé em perigo. O roteiro de Alain Gagnol capricha na criação da ação e gera cenas de perseguição pelos telhados parisienses como se todos em cena fossem praticantes de parkour. Com ritmo e tensão crescente embalando o traço estiloso,  o único problema do filme é a duração (70 minutos). O roteiro é um exemplo de concisão, mas se fosse mais longo daria para aprofundar mais a relação que se anuncia entre o "bom ladrão" Nico e Jeanne. De todos os personagens é Nico o menos desenvolvido, mas seu traço tem tanto charme que nem ligamos para isso, torcemos por ele porque diante do vilão em cena, Nico se torna protetor de Zoé. A animação foi um sucesso nos cinemas franceses (rendendo mais de um milhão nas bilheterias) e conquistou fãs pelo mundo pela coesão com que apresenta seu traço infantil embalando uma trama que deve agradar muita gente grande. A forma como o filme reproduz os movimentos do bichano e dos gatunos sobre os telhados é de uma precisão impressionante, um detalhe técnico que torna-se uma saborosa cereja neste filme que entra na lista de animações cultuadas e cheias de estilo. 

Um Gato em Paris (Une Vie de Chat/França-2011) de Jean Loup Felicioli e Alain Gagnol com vozes de Dominique Blanc, Bruno Salomone e Oriane Zani ☻☻☻☻

segunda-feira, 19 de maio de 2014

DVD: A Busca

Os Gadelha: família distante em busca do filho que sumiu. 

O baiano Wagner Moura é um talento incontestável. Ele é capaz de atuar com grande versatilidade entre diferentes gêneros e mídias. Seja na televisão, no cinema ou no teatro, Wagner consegue sempre ser motivo para que alguma produção chame a atenção e instigue o espectador até o final de sua performance. Dito isso, ele é o principal motivo pelo qual muita gente assistiu ao filme A Busca, longa metragem dirigido por Luciano Moura. Quando o filme começa, vemos apenas o desespero de Wagner dentro de um carro e o barulho de um atropelamento, diante daí, iremos acompanhar o que aconteceu antes daquele fato. Theo Gadelha (Wagner Moura) é um médico que conseguiu construir uma casa confortável para a família formada pela mulher (Mariana Lima) e o filho Pedro (Brás Antunes), mas isso não foi o suficiente para que a família se entendesse. Como dá para perceber pelo início cheio de discussões e cobranças, o casamento já ruiu e o relacionamento de Theo com o filho não é dos melhores. A única cena em que vemos os três personagens juntos consegue ser bastante verossímil, ao dar conta de uma dessas discussões familiares onde palavras que não deveriam ser ditam vem à tona e ações inconsequentes traçam a relação diante dos nossos olhos. Pouco depois, Pedro diz que irá viajar com uns amigos no dia de seu aniversário, a mãe assiste sua despedida sem maiores esforços (revelando um grande abismo entre ele e seus pais) e ele não volta para o lar dentro do prazo previsto,  O pânico se instaura entre o casal e eles começam a juntar pistas para descobrir onde o filho está. Existe tensão e suspense nesse momento, mas a cada nova pessoa encontrada que cruzou o caminho de Theo, o filme vai mostrando que não tem fôlego para esticar essa estrutura narrativa por noventa minutos - especialmente se você for esperto para descobrir onde o menino foi logo nos minutos iniciais do filme. Talvez esse tenha sido o meu maior problema com o filme, desde o início eu sabia que a conclusão seria simplista demais para todo o tormento que Theo atravessa. No entanto, essa parece ser a intenção do filme, fazer Theo pagar seus pecados perante o árduo relacionamento que estabeleceu com sua família, como se todos fossem vítimas de sua postura. Theo não parece uma pessoa ruim, mas assumiu uma postura quase ditatorial para decidir o que é ideal para sua família e, se a família não concorda, é porque eles devem ter algum problema. No início, parece impossível estabelecer um diálogo com Theo, ele está sempre nervoso, falando sem parar, insatisfeito com a postura dos outros perante suas vontades, mas no decorrer do filme, conforme cruza com diversos personagens, tão distantes da bolha da classe média em que vive, as coisas mudam um pouco... talvez ele devesse ter feito um tour por comunidades paulistanas a mais tempo. Luciano Moura tem uma ideia interessante, mas que parece redundante demais quando estamos diante de três gerações de uma família e seus conflitos particulares que são mais uma vez silenciados, só que dessa vez, em nome de uma gentileza geradora de bem estar da plateia insatisfeita. Insatisfeita porque toda a angústia que sentimos junto com Theo se transforma numa espécie de raiva diante de um fato tão estúpido que lampejo de pensamento poderia ter resolvido sem tantos problemas. O simplismo de seu final (que poderia ser poético) é quase cômico no contraste que estabelece com o resto da história.  

A Busca (Brasil/2013) de Luciano Moura com Wagner Moura, Mariana Lima, Theo Gadelha e Lima Duarte. ☻☻☻

domingo, 7 de abril de 2019

PL►Y: A Sombra da Árvore

Sigurður em silêncio no coral: da comédia para a tragédia. 

Não é novidade que a intolerância está cada vez mais forte ao nosso redor. No meio das auto-verdades os conflitos se tornam cada vez mais presentes e inflamados, de forma que qualquer pequena discordância ou suspeita pode gerar uma verdadeira guerra. Embora seja ambientado na Islândia, a história de A Sombra da Árvore poderia ser ambientada em qualquer lugar que os acontecimentos poderiam ser exatamente os mesmos. Por esta capacidade de universalizar seu olhar sobre os relacionamentos humanos o filme foi escolhido pelo país para representar sua cinematografia no Oscar de filme estrangeiro. A obra acabou ficando de fora (afinal, são apenas cinco vagas para filmes de todo tipo do mundo inteiro), mas continua digno de atenção por sua trama que começa inofensiva e descamba para a tragédia. O início é quase cômico quando uma esposa percebe que seu marido gravava vídeos de sexo com a ex-namorada e ainda os utiliza para se satisfazer sozinho diante do computador. O episódio acaba o levando de volta para a casa dos pais, um lar aparentemente confortável no subúrbio de casas de quintal verde e tons pastéis. Enquanto ele tenta convencer a esposa a aceitá-lo de volta, sua mãe começa a ter conflitos crescentes com um casal de vizinhos. As discussões começam por conta de uma árvore que faz sombra no quintal deles, mas o que poderia ser resolvido sem maiores problemas, começa a gerar suspeitas e discussões cada vez mais aguçadas entre os vizinhos. Um dos pontos mais interessantes do roteiro é justamente apresentar personagens que são pessoas comuns, ainda que sejam calcados em alguns arquétipos, estão bem longe de se caracterizarem como heróis e vilões, são pessoas que poderiam estar próximas seja em Reykjavik, Buenos Aires ou Niterói - da mesma forma, todos podem perder as estribeiras quando o bom senso se perde no meio das percepções subjetivas sobre a realidade, afinal, a verdade é bem mais complicada do que a minha opinião. Ao escolherem suas verdades, o diálogo se torna cada vez mais inviável, a crueldade surge implacável disfarçada de "justiça", as palavras se tornam mais ásperas e as pessoas param de perceber que no fundo todos são feitos de carne e osso, qualidades e defeitos, erros e acertos.. Lá pelo fim das contas você até consegue entender o motivo de um personagem decidir sair daquele ambiente de um forma dolorosamente radical. A Sombra da Árvore ilude seu público com seu humor cortante e aos poucos se revela um drama devastador sobre seres humanos presos em sua Torre de Babel pós-moderna.    

A Sombra da Árvore (Undir Trénu/Islândia-2017) de Hafsteinn Gunnar Sigurðsson com  Steinþór Hróar Steinþórsson, Edda Björgvinsdóttir, Sigurður Sigurjónsson e Selma Björnsdóttir. ☻☻

quinta-feira, 9 de junho de 2011

CATÁLOGO: Bastardos Inglórios

Fassbender e Diane: atuações vigorosas na guerra de Tarantino 

Acho que vale a pena destacar o filme que colocou Michael Fassbender (o jovem Magneto de X-Men Primeira Classe) no mapa hollywoodiano e que de quebra é um dos melhores filmes do diretor Quentin Tarantino. Inglorious Basterds era um filme que eu mesmo acreditava que nunca seria feito. Desde que estourou mundialmente com a Palma de Ouro em Cannes por Pulp Fiction (1994) este era o filme que QT começava a preparar. Mais de uma década depois ele finalmente ficou pronto e, não por acaso, foi exibido pela primeira vez em Cannes. A crítica se dividiu entre elogios e críticas sobre a fantasia do diretor sobre o holocausto - não que fosse uma comédia como a realizada por Roberto Benigni em A Vida é Bela (1997, o qual eu detesto), mas por exibir uma leitura completamente original sobre as mazelas provocadas pelo nazismo na Europa. Depois de Cannes o filme voltou para a edição e o resultado estreou muitos meses depois. Em Basterds não há campos de concentração, mas a tensão anti-semita e o sentimento de vingança sobre o clima de guerra perpassa todas as cenas. Ajuda muito também o elenco espetacular que o diretor conseguiu reunir para contar a história insusitada de um grupo de soldados americanos com a missão de caçar nazistas e - se possível - matar Hitler. Só para se ter ideia, o nome no alto dos créditos é de Brad Pitt (como o caricato líder dos Bastardos - papel que seria de Michael Madsen), mas ele parece coadjuvante de atores europeus em atuações inesquecíveis. A começar pela francesa Mélanie Laurent que vive a heroína Shosana, a sobrevivente de uma família dizimada por nazistas em seu próprio lar e que tem a chance de se vingar do oficial mandante do massacre, o escorregadio Hans Landa (o austríaco Christoph Waltz que levou para casa todos os prêmios de coadjuvante naquele ano - e o de melhor ator em Cannes). Três anos após o massacre Shosana possui um cinema, que por um desses acasos do destino (leia-se roteiro), acaba sendo o espaço escolhido para marcar a premier de um filme alemão de divulgação nazista - estrelado por um herói de guerra que apaixona-se por ela (o alemão Daniel Brühl). Vale ressaltar que a premier irá contar com o alto escalão no Reich e seu plano tem tudo para dar certo. Paralelamente conhecemos o grupo de soldados americanos judeus com o mesmo sentimento de vingança, mas estes personagens são mais atrapalhados do que eficientes. Os planos de Shosana e dos Bastardos irão se cruzar por conta da atriz Bridget Von Hammersmark (Diane Krugger, que nunca apareceu tão bonita e tão boa atriz numa tela). Tarantino embaralha esses dois planos que convergem para uma mesma noite com muita eficiência e alguns cacoetes que poderiam ter perecido na ilha de edição (a cena de Eli Roth saindo da caverna com o taco de beisebol poderia ter ficado de fora, assim como a participação arrastada de Mike Miyers), mas QT apresenta-se em plena forma nas cenas mais difíceis. A cena inicial é de tirar o fôlego e faz Shosana ganhar nosso coração nos primeiros minutos, da mesma forma, a cena da discussão na taberna com (os atores alemães) Michael Fassbender, Til Schweiger e Diane Krugger é espetacular sendo um dos melhores momentos do cinema tarantiniano. Mas nada se compara ao ápice da narrativa: a execução do plano de Shosana. O diretor alcança a perfeição na execução e na tensão que cresce na plateia. No fim das contas, mais do que a pergunta de que se vale a pena combater o mal utilizando as mesmas armas que ele, fica a impressão que Tarantino queria experimentar uma temática (o holocausto) dentro de duas linguagens diferentes. Bastardos busca o equilíbrio de uma narrativa americana (do espetáculo) e a européia (a intimista) e não precisa nem dizer que durante a sessão a parte europeia ganha de lavada. Quando a sessão termina o diretor declara que está diante de sua obra-prima. Não sei se é correto, mas com certeza, Bastardos Inglórios está entre os melhores filmes do diretor, sendo que trouxe de volta o Tarantino que sabe digerir diversas referências e construir uma obra original e que exala ousadia em seu texto e formato. Pelo caminho da ficção, Tarantino reescreve a história mundial - não por acaso num cenário de cinema - e talvez por isso considere que depois desta obra, a temática da Segunda Guerra Mundial não fará mais sentido. Será?

Bastardos Inglórios (Inglorious Basterds/EUA-Alemanha - 2009) com Brad Pitt, Mélanie Laurent, Diane Krugger, Michael Fassbender, Til Schweiger, Eli Roth e Daniel Brühl. ☻☻☻☻

segunda-feira, 21 de maio de 2018

Na Tela: A Noite do Jogo

Os amigos: a noite das brincadeiras perigosas. 

Max (Jason Bateman) e Annie (Rachel McAdams) costumam se encontrar com os amigos regularmente para uma noite de jogos e colocar a conversa em dia. Os dois parecem se entender bem e o maior problema que enfrentam é a dificuldade para Annie engravidar - pelo menos até o irmão bem sucedido de Max, Brooks (Kyle Chandler) aparecer e o clima ficar mais tenso pela competição que existe entre os manos. Tão logo Brooks chega, ele convida o irmão e os amigos fiéis para participar jogar em seu casarão e apresenta uma nova brincadeira, bem mais realista, onde um deles será sequestrado e os outros terão que resgatá-lo antes que seja assassinado. Sendo assim, tão logo a brincadeira começa, os personagens seguem as pistas e... descobrem que nem tudo faz parte do jogo. A Noite do Jogo tem como maior qualidade inserir personagens típicos de uma comédia num tom de suspense. Parece fácil, mas manter este equilíbrio durante a sessão é bastante complicado, sorte que o filme consegue cumprir seu objetivo! Os diretores John Francis Daley e Jonathan Goldstein (que como diretores nunca fizeram nada demais, mas já escreveram Homem-Aranha: De Volta ao Lar/2017 e Tá Chovendo Hambúrguer2/2013), capricham na atmosfera de mistério, sempre deixando o espectador desconfiado sobre o que está assistindo (dando uma sensação bastante semelhante à vivida pelos próprios personagens). A fotografia é interessante, a trilha sonora com sintetizadores (que parece saída de Stranger Things) ajuda na atmosfera e até o uso de maquetes funciona bem nas transições de cena. O elenco também consegue ser bastante eficiente, sendo como o casal que namora desde a adolescência e parece enfrentar a primeira crise de ciúme (Lamorne Morris e Kylie Bunburry), o amigo idiota que só fala bobagem (Billy Magnussen, ator que tem a aparência perfeita para ser o Adam Warlock da Marvel) que não acerta nem a nacionalidade de sua nova parceira muito mais esperta que ele (a inglesa Sharon Horgan). Martin Freeman faz o de sempre (mas ninguém de incomoda com isso) e Rachel McAdams acerta em todas as cenas, com uma eficiência cômica que faz tempo que ela não explora em cena. Outro destaque do elenco é Jesse Plemons (aquele que parece o irmão menos famoso de Matt Damon), que encarna o estranho vizinho policial de Annie e Max e consegue ampliar um personagem com pouco tempo em cena de forma impressionante. Plemons é capaz de causar calafrios, mas a plateia quase implora para que ele apareça em cena mais uma vez. A Noite do Jogo parece a versão light de Vidas em Jogo (1997), aquele de David Fincher onde Sean Penn presenteia o irmão Michael Douglas com um jogo sinistro, mas aqui a ideia funciona até melhor. Está certo que o roteiro até repete algumas piadas (algumas funcionam da segunda vez, outras nem tanto), mas é esperto o suficiente para ser uma grata surpresa que merecia fazer bem mais sucesso entre dois lançamentos badalados de super-heróis em cartaz. Se você cruzar com o filme por aí, vale a pena assistir e participar do coro que pede por uma sequência. 

A Noite do Jogo (Night Game/EUA-2018) de John Francis Daley e Jonathan Goldstein com Jason Bateman, Rachel McAdams, Jesse Plemons, Kyle Chandler, Billy Magnussen, Lamorne Morris, Kylie Bunburry, Sharon Horgan, Danny Huston Michael C. Hall e Jeffrey Wright. ☻☻☻☻

segunda-feira, 11 de maio de 2020

PL►Y: A Sala

Kevin e Olga: eficiente drama familiar em formato de suspense. 

Lançado por aqui com o título pouco inspirador de A Sala (The Room - produtores gringos atenção! Deve ter uns cinco filmes com este nome) é um filme de suspense que surpreende pelas boas ideias dramáticas que apresenta. A trama é sobre um casal, Matt (o belga Kevin Janssens) e Kate (a ucraniana Olga Kurylenko) acabam de comprar um casarão que ficou abandonado por muitos anos e tem muita coisa para organizar. Ambos trabalham em casa, ele é pintor e ela é tradutora, o que explica escolherem um local afastado para viver. Eis que um belo dia os dois descobrem um cômodo diferente na casa, que parece um quarto do pânico do início do século passado, mas que tem a capacidade inexplicável de realizar os desejos de quem está nele. No início o casal pede dinheiro, bebida, joias, brincam com fantasias e imaginam que a vida será bem mais fácil dali em diante. No entanto, neste mundo de perfeição, Matt e Kate não conseguem ter filhos. Já tiveram duas experiências frustrantes e não demora para que Kate peça um filho para o quarto. A ideia rompe com os paradigmas que o esposo tinha com aquele lugar. Ele fica assustado e desde o início, pensa que o ideal seria fazer o menino desaparecer da mesma forma como ele foi apareceu. A partir deste ponto inicia um interessante conflito no casal, para ela o bebê é seu filho desde o primeiro momento que foi acolhido, para ele é uma ficção, uma fraude, uma fantasia da mente traumatizada de sua esposa. A partir daí sempre que o filme enveredar para o drama familiar dos três personagens ele cresce, comove e deixa o espectador imerso numa mistura de compaixão e medo (afinal, desde o início sabemos que algo dará errado). Aos poucos a trama revela alguns segredos que irá complicar bastante a vida da família e esgarçar ainda mais as dificuldades de relacionamento de Matt com a criança, ainda que por várias vezes, colabore com a esposa em medidas para protegê-lo e por outras não hesita em ser cruel com o pequeno. Existe alguns conflitos bastante freudianos na história, a ideia do lar como um lugar seguro, toda justificativa para o zelo excessivo da mãe, a ideia de crescer se distanciando dos pais... quando o filme investe no suspense destas relações ele funciona muito bem, principalmente com a boa atuação de Olga Kurylenko (atriz subestimada que eu adoro) na pele de uma mãe cada vez mais consciente do que o destino reserva para o filho. O filme poderia ser perfeito se o diretor Christian Volckman não tomasse um desvio "surpreendente" em seus minutos finais, que muda o tom do filme e deixa de lado o que ele tinha de mais sutil e interessante: o drama familiar em tom fantástico. O que era tão interessante se torna confuso em nome de uma ação que ninguém pediu e a personalidade do filho se perde nas artimanhas de um roteiro que teve seu desfecho alterado no limite do ridículo. Confesso que fiquei confuso na hora de colocar a cotação do filme, mas pelo seu tempo de duração e pelas emoções que o filme desperta, acho que ele ainda merece atenção, já que depois de se enrolar na própria corda, o filme volta ao desfecho que deveria estar previsto desde o início do projeto - que ainda é de partir o coração. Volckman (que antes dirigiu apenas uma animação (o estiloso Renaissance/2006) assina a ideia original do roteiro, mas divide os créditos com outras quatro pessoas na construção do texto. Talvez, se houvesse executado a tarefa sozinho, ou com alguém que tivesse compreendido melhor a história que gostaria de contar, The Room poderia ser uma obra-prima do gênero. 

A Sala (The Room / França - Bélgica / 2019) de Christian Volckman com Olga Kurylenko, Kevin Janssens, Joshua Wilson, John Flanders, Francis Chapman e Vince Drews. ☻☻

sexta-feira, 25 de setembro de 2020

PL►Y: Enola Holmes

Henry, Millie e Sam: Sherlocks reunidos. 

Criada pela escritora americana Nancy Springer, Enola Holmes é a irmã mais nova do detetive mais famoso de todos os tempos. Isso mesmo, Sherlock Holmes tinha uma irmã e você nem sabia. Na verdade, a personagem não existia nos livros de Sir Arthur Conan Doyle, gerando descontentamento dos fãs mais ferrenhos do clássico personagem. Springer criou a personagem para ter visível apelo junto ao público infanto-juvenil (especialmente o feminino) e o sucesso já rendeu seis livros. Ciente do potencial da personagem, a Netflix produziu esta adaptação calcada no primeiro livro (O Caso do Marquês Desaparecido) e teve a boa ideia de escalar a prodígio Millie Bobby Brown para encarnar a protagonista. Quem assiste a série Stranger Things sabe que a menina é um talento! Aos dezesseis anos ela comprova aqui que pode carregar um filme nas costas com tranquilidade. Sem perder tempo com as polêmicas em torno da personagem, Enola é logo apresentada como a irmã mais nova de Sherlock (Henry Cavill) e Mycroft (Sam Caiflin), mas enquanto seus irmãos foram seguir as carreiras longe do lar, ela permaneceu com a mãe (Helena Bonhan Carter) no campo. Enola foi educada pela mãe nos mais variados conhecimentos, mas, sem aviso prévio, a matriarca desaparece. Este sumiço traz de volta para a casa seus dois irmãos - o que causa um verdadeiro impasse com o conservador Mycroft, que por ser mais velho, tem a guarda da menina. O primogênito fica decepcionado com os modos da irmã e decide envia-la para um colégio interno de meninas, some isto à admiração que sente pelo irmão Sherlock - que não corresponde da forma como ela imagina - e ela terá a motivação que precisa para fugir em busca da mãe. Nesta fuga ela acaba se deparando com outro mistério envolvendo o jovem Marquês chamado Tewkesbury  (Louis Patridge) que está sendo perseguido por um assassino. Misturando as duas investigações, o filme segue de forma bastante agradável no melhor ritmo de aventura juvenil. Embora a forma como a personagem conduz suas investigações seja bastante simples e a história siga um caminho previsível (ao identificar o período que o filme se passa e as manchetes dos jornais, eu já imaginava do que se tratava), Enola Holmes diverte e ganha fôlego pelo bom trabalho do diretor e elenco. O diretor Harry Bradbeer (que ficou famoso por seu trabalho na série Fleabag) cria uma narrativa esperta com brincadeiras ao gênero e ousa até quebrar a quarta parede, colocando Enola falando diretamente com o público (embora em um  ou dois momentos o recurso não encaixe bem), é verdade que às vezes as cenas de luta passam um pouco do tom, mas não chega a atrapalhar. Ajuda muito também a química que Millie tem com seu par, Louis Patridge - quando os dois estão juntos a inversão dos papéis do mocinho valente e da mocinha indefesa funciona bem. Helena Bonhan Carter também tem um ótimo momento como a mãe de um trio de filhos peculiar e a maior polêmica ficou por conta do Sherlock que Henry Cavill encarna de forma bem mais agradável e sedutora do que as outras encarnações do herói - e esta caracterização acabou indo parar nos tribunais por não respeitar os traços emocionais do personagem (mas dê um desconto que ele aqui está entre seus familiares que a coisa funciona). No fundo, Enola Holmes é uma brincadeira esperta e despretensiosa que utiliza um olhar diferente sobre o período histórico dos personagens, existem comentários sobre o voto das mulheres, espartilhos e tradição, que só reforçam como é duro ser uma garota a frente do seu tempo. 

Enola Holmes (Reino Unido - 2020) de Harry Bradbeer com Millie Bobby Brown, Henry Cavill, Sean Claiflin, Helena Bonhan Carter, Louis Patridge e Fiona Shaw. ☻☻☻