sábado, 19 de fevereiro de 2011

GANHADORES DO FESTIVAL DE BERLIM - 2011

Nader and Simin: vitória inédita do Irã.

O Festival de Berlim em sua 61ª edição resolveu premiar pela primeira vez um filme iraniano, no caso, Nader and Simin de Asghar Farhadi. E haja prêmio, já que além do Urso de Ouro de Melhor Filme ainda todo o elenco dividiu o prêmio nas categorias de melhora ator e atriz do Festival. a seguir todos os premiados:

Urso de Ouro de Melhor filme: Nader and Simin - a separation de Asghar Farhadi (Irã)
Urso de Prata, grande prêmio do júri: O Cavalo de Turim de Béla Tarr (Hungria)
Urso de Prata de melhor diretor: A Doença do Sono de Ulrich Kohler (Alemanha)
Urso de Prata de melhor atriz: elenco feminino de Nader and Simin - a Separation
Urso de Prata de Melhor ator: elenco masculino de Nader and Simin - a Separation
Urso de Prata de Melhor Contribuição artística: Woyciek Staron, na câmera, e Bárbara Enríquez, em desing da produção, no filme El premio de Paula Markovitch (Argentina, México, França, Polônia e Alemanha)
Urso de Prata de melhor roteiro: Joshua Marton e Andamion Murataj por The Forgiveness Of Blood (EUA, Albânia, Dinamarca, Itália)
Prêmio Alfred Bauer ao filme mais inovador: If Not Us, Who de Andres Veiel (Alemanha)
Prêmio de melhor primeiro filme: On the Ice de Andrew Okpeaha MacLean (EUA)
Urso de Ouro de melhor curta-metragem: Night Fishing de Park Chan-wook e Park Chan-kyong (Coreia do Sul)

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Pôster sobre os indicados ao Oscar

Jeff Leinenveber criou 10 símbolos que representam para cada indicado ao Oscar 2011 ao prêmio de Melhor filme. Você seria capaz de identificar os dez indicados? Lembrando que são eles: O Vencedor, A Origem, A Rede Social, Inverno da Alma, Minhas Mães e Meu Pai, 127 Horas, Toy Story 3, Cisne Negro, Bravura Indômita e O Discurso do Rei.  


quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

CATÁLOGO: Onde os Fracos não Tem Vez

Javier: Cabelo esquisito que vale um Oscar.

Onde os Fracos Não Tem Vez é o filme mais esquisito que lembro de ter ganho o Oscar. Tudo bem que ele  não é surreal ou de história mirabolante, mas não lembro de uma narrativa tão seca e repleta de violência ter recebido tanta consideração da Academia. Vocês podem até lembrar de Os Infiltrados(2006) no ano anterior, mas o filme de Scorsese tinha trilha sonora e um certo humor irônico que os manos Coen não se preocupam em exibir nessa jornada de crimes adaptada da obra premiada de Cormac McCarthy. A ideia do filme é simples: um homem comum (Josh Brolin, num desempenho que merecia atenção nas premiações) encontra uma mala cheia de dinheiro (dois milhões de dólares, para ser exato) e precisa fugir com ela já que a encontrou na cena de um crime - a grana pertence a um bando de traficantes. Para piorar a narrativa aponta para o momento em que o caminho deste homem comum irá se cruzar com o de um psicopata que se diverte matando um por um do elenco. Todo mundo sabe do domínio cênico que os Coen possuem e neste filme não é diferente, eles conseguem construir uma atmosfera opressora com poucos diálogos e sem trilha sonora mas de um efeito dramático impressionante. Claro que o elenco ajuda muito, já que além de Brolin eles contam com Tommy Lee Jones, Woody Harrelson, Kelly MacDonald (que além de impressionar sendo inglesa e interpretando uma texana, ganhou de presente a melhor cena do filme ao lado do assassino), no entanto, os maiores louros do elenco foram para Javier Bardem como o assassino de cabelo esquisito e mil e uma habilidades na hora de matar. Para muita gente pode parece uma matança sem sentido, mas os Coen tentam mostrar que a violência nunca tem sentido mesmo e cresce sem parar deixando até os mais vividos assustados (e esse é o foco do xerife vivido por Lee Jones). Os Coen capricham nas cenas e no suspense, mas o filme está longe de ter aquele trato no roteiro que nos deu ao mundo pérolas como Fargo (1996) e Gosto de Sangue (1984). Apesar de autoral e apresentado como um faroeste contemporâneo o filme não teria o mesmo sentido se o assassino Anton Chigurh não fosse apresentado como um ser totalmente desconectado da humanidade, tendo uma frieza inexpressível que assusta mais do que a própria violência que pratica.  Apesar de ser fã dos Coen considero um grande exagero o filme ter ganho quatro estatuetas no Oscar: Filme, direção, ator coadjuvante (Javier) e roteiro adaptado. Mas devo reconhecer que o filme impressiona pela forma com que conta uma história que anda em círculos o tempo inteiro.

Onde os Fracos Não tem Vez (No Country for Old Men/EUA-2007) de Joel & Ethan Coen com Josh Brolin, Kelly MacDonald, Javier Bardem, Tommy Lee Jones e Woody Harrelson. ☻☻☻

CATÁLOGO: Antes do Anoitecer

Bardem: atuação irrepreensível como Reinaldo Arenas

 O diretor Julian Schnabel começou sua carreira como artista plástico. Foi desse mundo que tirou inspiração para o seu primeiro longa-metragem, o cult Basquiat (1996) sobre o pintor protegido de Andy Warhol na década de 1980.  Quatro anos depois, Schnabel alcançou projeção maior com Antes do Anoitecer, uma cinebiografia sobre o poeta cubano Reinaldo Arenas e sua vida difícil com as perseguições no governo castrista. No filme, Arenas sabia de sua homossexualidade desde a infância e Javier Bardem abraça essa característica sem exageros, com uma leveza impressionante e gestos corporais precisos - e até inéditos em sua carreira cinematográfica até então. O filme acompanha a infância pobre de Arenas, seu gosto pela escrita desde menino e sua inadequação a um mundo que está fora do eixo. Adolescente tenta se juntar aos revolucionários de seu país, ironicamento os mesmos que o perseguiria por ser homossexual e Schnabel utiliza um ritmo que beira o documental, utilizando arquivos de imagens sobre a história cubana a fazendo de pano de fundo para a trajetória do escritor. Se o regime ditatorial instaurado pela revolução percebe a escrita como algo ameaçador o que dizer se ela é feita por uma pessoa que foge dos padrões de prazer permitidos? Tudo que foge a ordem, ao senso comum aparece enquanto alvo de perseguição (não precisa nem de denúncias muito elaboradas, basta um ladrãozinho mentir que foi molestado por um cara mais delicado para que uma perseguição preconceituosa seja realizada). Esta atmosfera sufocante do país de Fidel Castro é muito bem apresentada por Schnabel que mostra o quanto os artistas podem ser maltratados num lugar onde as ideias são temidas como armas e ao mesmo tempo do que estes são capazes para divulgar sua obra. Dificilmente o fime teria a força apresentada sem o desempenho colossal de Bardem (premiado em Veneza pelo papel e que quase perde o papel para Benício Del Toro) que abraça as tristezas, as alegrias e os desejos de seu personagem com absurda precisão. Se Schnabel constrói cenas como se estivesse pintando é Bardem (em sua primeira indicação ao Oscar) que serve de inspiração para cada enquadramento - até mesmo para os momentos mais sórdidos de uma trajetória tão bela quanto sofrida. Arenas crescia em reconhecimento mundial à medida que era mais perseguido em seu país e quando as coisas pareciam melhorar se via sem um tostão. O filme não está isento de defeitos, o roteiro faz uma indefensável confusão com a língua adotada, há momentos falados em inglês (ou spanglês) e espanhol sendo visível o incômodo que provoca nos atores. Outro aspecto que incomoda muito é o seu desfecho, que é esticado para além do limite no momento em que Arenas pede para que seu amigo Lázaro (Olivier Martinez, acho que em sua melhor atuação) realize seu último desejo. Detalhes que são até pequenos diante de um filme de grande força narrativa, especialmente pelo respeito com que trata seu protagonista. O filme ainda merece ser conferido pelas participações de Johny Depp (como um travesti e um militar) e Sean Penn (irreconhecível), além de conferir uma das poucas aparições do cineasta Hector Babenco diante das câmeras como um dos mentores artísticos de Arenas.  

Antes do Anoitecer (Before the Night Falls/EUA-2000) de Julian Schnabel com Javier Bardem, Olivier Martinez, Andrea Di Stefano e Johny Depp. ☻☻☻☻

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

INDICADOS AO OSCAR 2011: Melhor Ator

COLIN FIRTH (O Discurso do Rei) Num ano curioso onde todos os outros concorrentes começam com a letra "J", o inglês está disposto a ganhar um prêmio que deveria ter recebido no ano passado por Single Man de Tom Ford. Firth, perdeu o Oscar para o seu (mais uma vez) oponente Jeff Bridges, mas neste ano ele é o favorito pelo papel do rei inglês George VI (o avô do príncipe Charles) que enfrenta problemas graves com a gagueira - o que afeta muito sua credibilidade perante os súditos. Pelo papel Firth já ganhou um punhado de prêmios da crítica (incluindo o Globo de Ouro) e até o BAFTA, dificilmente ele perderá o prêmio pela humana saga  construção de um personagem que costuma ser visto com o distanciamento pela maioria da plebe global. Sem falar que sua derrota no ano passado causou insatisfação em muita gente que deve contemplar sua atuação neste ano mais uma vez. Apesar de ser muito querido entre diretores e atores, o ator ficou famoso quando interpretou o namorado certinho de Bridget Jones, o advogado Mark Darcy.

JAVIER BARDEM (Biutiful) O espanhol já tem um Oscar de coadjuvante na estante por sua atuação em Onde os Fracos não Tem Vez (2007) dos irmãos Coen. A primeira indiação ao Oscar foi em 2001 quando fez o poeta cubano Reinaldo Arenas em Antes do Anoitecer (2001) pelo qual ganhou o prêmio de ator em Veneza. Javier volta a falar espanhol neste dramalhão do diretor Alejandro Gonzalez Iñarritú, que apresenta a vida de Uxbal (Bardem), homem envolvido com imigrantes ilegais e que descobre que está com câncer. Não bastasse isso, Uxbal começa a ter visões com mortos e tenta melhorar sua vida rumo ao fim. O filme está longe de ser uma unanimidade, mas Bardem conseguiu elogios rasgados da crítica desde que o filme foi exibido em Cannes (de onde saiu com o prêmio de ator). Há quem credite parte de sua indicação a um badalado jantar promovido por Julia Roberts que sugeria uma indicação ao esposo de Penélope Cruz, que acabou prejudicado pelo lançamento tardio do filme nos EUA. A esta altura, os personagens garanhões nos filmes do tio Bigas Luna parecem estar cada vez mais distantes.

JAMES FRANCO (127 Horas) Faz um tempinho que James Franco vinha tentando provar que era capaz de ser mais do que coadjuvante. Foi quando vimos o cara em Milk (2008) que notamos que ele estava no ponto para ganhar um filme só dele. Bem, Danny Boyle achou a mesma coisa e chamou o cara para interpretar um dos filmes mais vertiginosos do século XXI. Franco é praticamente o único personagem em cena durante a duração de seu novo filme sobre a história real de Aron Ralston, um alpinista que ficou com o braço preso debaixo de uma pedra pelo tempo do título. A solução encontrada para não morrer? Cortar o próprio braço!! Mas até lá, Boyle e Franco mergulham nas lembranças de Aron. James foi um dos atores mais elogiados do ano por sua interpretãção. E foi até convidado para apresentar a cerimonia do Oscar ao lado de Anne Hathaway. Mesmo que não ganhe, ele nunca mais será lembrado como o amigo rico do Homem Aranha!

JESSE EISENBERG (A Rede Social) Lembro uma vez quando um renomado crítico brasileiro disse que Jesse era um "Michael Cera mais baratinho". Bem, ele terá que rever os seus conceitos. Enquanto Michael Cera esta sempre preso ao mesmo papel, Eisenberg mostra que pode dar conta de personagens mais complexos do que os presentes nas comédias em que costumava fazer. Jesse interpreta o criador do Facebook, Mark Zuckerberg com uma precisão assustadora, tanto no encadeamento das falas quanto no olhar intenso que alterna momentos de frieza e melancolia. Tá pensando que é fácil interpretar o nerd mais bem sucedido dos últimos tempos? Jesse cria um personagem que parece uma versão anabolizada do seu personagem de A Lula e a Baleia (2005). É o mais jovem entre os indicados deste ano (27 anos)

JEFF BRIDGES (Bravura Indômita) Veterano com cinco indicações anteriores ao Oscar (três de melhor ator coadjuvante por A Última Sessão de Cinema/1971, O Último Golpe/1974 e A Conspiração/2000) e duas enquanto melhor ator (Starman/1984 e Coração Louco/2009, pelo qual ganhou o Oscar no ano passado), o filho de Lloyd Bridges conseguiu sua sexta indicação ao prêmio e numa tarefa complicada: repetir o ex-xerife bêbado e caolho na refilmagem de um faroeste clássico que oscarizou John Wayne. O resultado parece ter agradado, já que o filme se tornou sucesso de público e crítica além de promover seu reencontro com os irmãos Coen - com quem fez o hilariante O Grande Lebowski (1998). Mas o fato de Bridges ter ganho o Oscar na última edição acaba trabalhando contra o seu desempenho.  

O ESQUECIDO: ROBERT DUVALL (Get Low) Quando Get Low estreou em meados de 2010 muitos críticos clamaram uma indicação para Duvall por sua brilhante atuação como um caipira recluso que planeja seu próprio funeral. Com tom quase folclórico e com os boatos de que a trama humanista era baseada numa história real, as chances de Duvall foram crescendo, mas ao final do ano foi lembrado apenas em algumas premiações menores. Duvall acabou ficando de fora do Oscar e do Globo de Ouro mesmo que sua atuação seja considerada uma unanimidade entre público e a crítica. Os elogios devem servir de consolo ao veterano que possui um Oscar na estante por sua atuação em A Força do Carinho (1983) e cinco outras indicações ao prêmio (sendo a última por O Apóstolo em 1997). 

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

CATÁLOGO: Obrigado por fumar

Aaron: o mercador da morte mais simpático do mundo.

Parceiro de Nicole Kidman no drama Rabbit Hole e sempre esquecido pela Academia, Aaron Eckhart esteve bem próximo de ser lembrado na categoria de melhor ator quando estrelou o irônico Obrigado por Fumar, o filme que marcou a estreia de Jason Reitman (filho do menos cortejado Ivan Reitman de Os Caça Fantasmas) no cinema. Reitman demonstra um domínio narrativo muito atraente neste filme que é basicamente um tratado sobre a retórica. Tudo bem, podem dizer que se trata sobre os bastidores da indústria do cigarro, de como eles manipulam a mídia, de como faturam milhões espalhando a morte entre a população mundial e blábláblá... mas prefiro pensar que esse é outro filme, no caso o chamado O Informante (1999) de Michael Mann, que é muito bom por sinal e que devo comentar um outro dia, uma outra hora. Obrigado por Fumar é sobre a retórica. Esse jeito de dizer uma coisa com tanta certeza e convicção que consegue convencer todo mundo de que está certo. Na Grécia Antiga, Sócrates morria só de pensar o estrago que os sofistas eram capazes de fazer ao ensinar a retórica aos jovens sem se preocupar com a essência do que estavam dizendo. É isso que Nick Naylor, o protagonista do filme, é: um sofista. Só que muito bem arrumado, com pinta de galã simpático (cortesia de Eckhart) e muito bem remunerado por defender os interesses da indústria do tabaco. O filme acompanha alguns dias na vida deste homem esperto a partir de sua participação num programa de televisão e consegue se sair de uma enrascada ao defender o fumo diante de um adolescente que está morrendo de câncer. A partir daí conhecemos seus chefes na indústria (Robert Duvall e J.K.Simmons, o ator assinatura de Reitman) e seus planos para aumentar o número de fumantes, conhecemos os amigos "mercadores da morte" de Naylor, uma mulher (Maria Bello) responsável pela retórica da bebida alcóolica e um homem (David Koechner) responsável pela retórica armamentista. Ainda tem um senador que está doido para puxar o tapete de Naylor (vivido por Willian H. Macy), uma repórter (Kate Holmes) disposta a tudo para escrever uma matéria bombástica sobre Nick  e o filho de Nick (Cameron Bright).  É o herdeiro de Nick que nos parece guiar na outra direção do que o protagonista faz. Seria muito fácil dizer que o menino serve para mostrar o lado humano do seu progenitor, mas é  algo mais: serve para mostrar o quanto uma argumentação bem construída pode ser eficiente no embate de ideias, onde quem consegue expô-las melhor tem a vantagem. De certa forma é isso que Reitman faz com o espectador, afinal, pela forma como mostra seu personagem, dificilmente não nutrimos simpatia por Naylor, apesar de seu emprego ser execrável. Curioso mesmo é ver outro ponto da trama, a impressão dos rótulos de veneno nos maços de cigarro. Será que é preciso? Será que ninguém sabe que o cigarro causa doenças? Será que ninguém sabe que ele mata? No Brasil com aquelas fotografias de filme de terror nos maços de cigarro dizendo os malefícios do cigarro eu me pergunto até onde a retórica de fumantes e anti-tabagistas pode chegar. Questão de bom senso? Acho que Naylor chamaria isso de outra coisa, principalmente quando começa a defender que o uso de celulares não causa tumores cerebrais. Opa! Essa deu medo... 

Obrigado por Fumar (Thank you for smoking/EUA-2005) de Jason Reitman com Aaron Eckhart, Cameron Bright, J.K.Simmons, Robert Duvall, Willian H. Macy e Maria Bello. ☻☻☻☻

CATÁLOGO: Moulin Rouge


Nicole: ainda melhor sem a sombra de Tom Cruise

Antes de ganhar o Oscar por As Horas, Nicole Kidman foi a favorita ao prêmio de melhor atriz pelo papel da cortesã Satine em Moulin Rouge. Para surpresa de muita gente ela acabou perdendo o prêmio para Halle Berry por A Última Ceia. São papéis tão opostos que chega a ser impossível de compará-los. Não quero tirar os méritos de Halle (a primeira atriz negra a ganhar o Oscar de atriz principal) que pelo papel também foi premiada em Berlim, mas o papel de Nicole serviu para mostrar que a ex-esposa de Tom Cruise era capaz de reluzir feito ouro em pó, mostrando que sabia atuar (sem desafinar entre os arcos dramáticos e cômicos de sua personagem), cantar e dançar como uma verdadeira diva da sétima arte. Depois de Moulin Rouge a carreira de Nicole deu uma guinada realmente impressionante. Para começar os musicais estavam indo de mal a pior em Hollywood, as tentativas de ressuscitar o gênero mostravam-se incapazes de atrair o público e o gênero parecia cada vez mais destinado ao passado. O histérico Baz Luhrman parecia ter feito o impossível quando as primeiras críticas positivas apareceram no Festival de Cannes e se propagaram na medida em que o filme foi exibido pelo mundo. Moulin Rouge pode trazer  a marca de Baz (o estilo visual que beira o cafona, os cortes rápidos e a linguagem metida à moderninha), mas existe uma mágica nas cenas que talvez nem o próprio diretor saiba explicar. Seria difícil atribuir o sucesso do filme à sua trama, já que é chupada do clássico A Dama das Camélias na maior cara de pau. Afinal, conta a história de um jovem escritor em crise criativa que se apaixona por uma cobiçada cortesã que padece de tuberculose, a diferença é que ela trabalha no badalado Moulin Rouge - onde as profissionais dançam o famoso CanCan sem inibição alguma. Baz teve muita inteligência ao escalar Ewan McGregor para viver o escritor Christian (sempre achei que o cara levava o maior jeito para os musicais desde que vi aquela cena cantada com Cameron Diaz em Por uma vida menos ordinária de Danny Boyle nos idos de 1997) e mais sorte ainda (esta de forma descomunal) em escalar Nicole Kidman para ser a musa do cara, a belíssima Satine. Quando Nicole aparece pendurada naquele trapézio, com a pele pálida de porcelana e os cabelos vermelhos o filme alcança outro patamar. Afinal, sabemos que a partir dali irá começar as confusões amorosas entre a bela Satine e Christian, que ainda serão atasanados por um Duque que quer Satine só para ele. Mas se existe um toque de gênio mesmo no filme é a opção por utilizar canções pop contemporâneas sendo entoadas por personagens que vivem em 1899. Sendo assim, canções de Elton John, David Bowie, The Police, Madonna, Queen, The Who e até Whitney Houston são costuradas entre os diálogos de forma irônica (como Jim Broadbent entoando Like a Virgin) ou com o mais profundo lirismo (Your Song com Ewan McGregor tocava direto nas rádios). Porém, o que mais gosto no filme, é como ele muda de tom conforme a tragédia em torno do romance se anuncia. A edição se torna mais concisa, a fotografia fica soturna, o drama enfim se sobrepõe à atmosfera eufórica do filme. Além do sucesso de público o filme foi indicado à oito categorias no Oscar (incluindo filme,atriz e excluindo a de diretor...) mas levou somente duas para casa (direção de arte e figurino), no Globo de Ouro teve mais sorte ganhando os prêmios de filme comédia/musical e atriz comédia/musical. Muitos anunciaram a volta dos musicais com o filme de Luhrman, mas não lembro de ter visto depois outro tão empolgante quanto esse anacrônico exercício do diretor australiano - nem mesmo Chicago (que acabou levando o Oscar de Melhor Filme no ano seguinte, vá entender).

MOULIN ROUGE (EUA-Austrália/2001) de Baz Luhrman com Nicole Kidman, Ewan McGregor, Jim Broadbent, John Leguizamo, Richard Roxburgh e Kylie Minogue. ☻☻☻

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

GANHADORES BAFTA 2011

O Discurso do Rei: Sete prêmios no Oscar britânico. 

Enquanto O Discurso do Rei cresce em favoritismo para o Oscar, ele foi o mais premiado no BAFTA. O que não é nenhuma novidade, já que trata-se de um filme britânico premiado no maior prêmio de cinema... britânico. Será que a Academia fará o mesmo e honrar uma obra de seu país favorecendo A Rede Social? Enfim, vamos aos ganhadores anunciados no último dia 13.

MELHOR FILME: O Discurso do Rei

MELHOR FILME BRITÂNICO: O Discurso do Rei

MELHOR ESTREIA DE UM ARGUMENTISTA, REALIZADOR:  Chris Morris - Four Lions

REALIZADOR: David Fincher - A Rede Social

ATOR:  Colin Firth - O Discurso do Rei

ATRIZ: Natalie Portman - Cisne Negro

ATOR COADJUVANTE: Geoffrey Rush - O Discurso do Rei

ATRIZ COADJUVANTE: Helena Bonham Carter - O Discurso do Rei

ARGUMENTO ORIGINAL: David Seidler - O Discurso do Rei

ARGUMENTO ADAPTADO: Aaron Sorkin - A Rede Social

FILME DE ANIMAÇÃO: Toy Story 3

FILME EM LÍNGUA NÃO INGLESA: The Girl with the Dragon Tattoo

MÚSICA ORIGINAL: Alexandre Desplat - O Discurso do Rei

FOTOGRAFIA: Roger Deakins - Bravura Indômita

MONTAGEM: A Rede Social

DIREÇÃO DE ARTE: A Origem

FIGURINO: Alice no País das Maravilhas

SOM: A Origem

EFEITOS VISUAIS: A Origem

MAQUIAGEM E ADEREÇOS: Alice no País das Maravilhas

CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO: The Eagleman Stag

CURTA-METRAGEM: Until the River Runs Red

PRÊMIO ORANGE WEDNESDAY RISING STAR (votado pelo público): Tom Hardy

domingo, 13 de fevereiro de 2011

FILMED+: As Horas

Kidman: Quem tem medo de Virginia Woolf?

Stephen Daldry tinha um único filme no currículo (Billy Elliot/2000) quando resolveu adaptar o premiado romance de Michael Cunninghan, As Horas, que explora variáveis do clássico de Virginia Woolf, Senhora Dalloway. A narrativa revisita a história de uma mulher refinada que esconde suas frustrações preparando uma festa para o marido enquanto cogita o suicídio. Cunninghan pegou esta história e após pesquisas escreveu sobre o processo criativo da escritora no exílio ao lado de seu dedicado esposo Leonard Woolf numa cidadezinha bucólica nos arredores de Londres. O que era para motivar a melhora de sua saúde física e mental aparece como um período angustiante para uma mulher que adorava as festas e a vida frenética da capital inglesa. É nesse período que ela escreve seu livro mais conhecido e que marcou a literatura por se passar num único dia de vida de sua protagonista. Esta fórmula aparece também na obra literária de Cunninghan onde ele acompanha outras duas personagens, uma é Laura Brown e a outra é Clarissa Vaughan. No filme as duas personagens ganharam atuações vigorosas graças aos talentos de Julianne Moore e Meryl Streep, respectivamente, que ao lado de uma surpreendente Nicole Kidman (de nariz postiço para viver Virgina) transformaram o filme numa obra inesquecível. Daldry entrelaça os dilemas das personagens com uma edição perfeita que referencia tanto a obra em que se baseia quando o trabalho de Virginia. Trata-se de uma aula de realismo onde cada pedaço do cotidiano da vida dessas mulheres aparece repleto de significados. Virginia escrevendo serve de narradora para o dia em que Laura Brown (numa atuação fenomenal de Moore indicada ao Oscar de coadjuvante) lê seu livro. Grávida e em crise com o rumo que sua vida tomou, Laura está insatisfeita com o esposo carinhoso (cortesia de John C. Reilly) e o filho adorável (o precoce Jack Rovello). O ponto em que tudo parece desabar é quando sua vizinha Kitty (Toni Collete) irá se submeter a uma perigosa cirurgia no dia do aniversário do esposo de Laura nos idos de 1951. Enquanto isso, o filme também acompanha uma Senhora Dalloway moderna, Clarissa Vaughan (Streep, indicada ao Globo de Ouro pelo papel) uma editora lésbica e que prepara uma festa para comemorar o prêmio que seu ex-namorado soropositivo Richard (Ed Harris indicado ao Oscar de coadjuvante) irá receber por sua obra. Festa que promete trazer à vida alguns fantasmas do passado. Daldry conduz o filme com maestria, tanto que conseguiu sua segunda indicação ao Oscar de direção, um feito e tanto para um filme triste e com personagens de fortes cores homossexuais. O grande mérito do diretor é criar tramas que se complementam, embora ambientadas em tempos diferentes e com uma força narrativa que dá vida própria a cada trecho exibido. Há momentos de pura poesia (o funeral do pássaro, o quarto invadido por água, a carta de Virginia ao seu esposo Leonard, os delírios de Richard, a conversa de Clarissa com a filha, a surpresa sobre o adorável filho de Laura...) e que nos fazem pensar  o quanto as horas de nosso cotidiano nos constitui enquanto seres humanos. Tudo isso com a colaboração do texto muito bem escrito por David Hare (indicado ao Oscar) e que apresenta tudo na hora exata sem perder o fio condutor da narrativa que sustenta até certo suspense em cima de uma história que gira em torno de dois temas árduos (o suicídio e a morte em vida) embalados pela estupenda trilha de Phillip Glass.  Por tantos méritos o filme ganhou trinta prêmios internacionais, entre eles o dividido prêmio de atriz em Berlim (para Nicole, Meryl e Julianne) e o Oscar de atriz (Nicole), pena que perdeu o de filme para o boboca Chicago de Rob Marshall.

AS HORAS (The Hours/EUA-Inglaterra - 2002) de Stephen Daldry com Nicole Kidman, Meryl Streep, Julianne Moore, Alisson Jeaney, Ed Harris, Claire Danes, Stephen Dillane, John C. Reilly, Toni Collete, Jack Rovello, Jeff Daniels e Miranda Richardson. ☻☻☻☻☻