segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Ganhadores do Globo de Ouro 2012

The Artist x The Descendants: Vai dar França ou Hawaii no Oscar?

Ontem aconteceu a 69ª entrega do Globo de Ouro, prêmio oferecido pela Associação dos Críticos Estrangeiros que contou novamente com a apresentação do britânico Ricky Gervais. Ainda não entendi qual é a graça de premiar artistas e submetê-los às abobrinhas de um comediante que mostra-se cada vez mais pedante (apesar de ainda não ter emplacado um filme de sucesso). Pelo menos ontem alguns artistas resolveram revidar (Madonna foi a mais contundente, Colin Firth veio logo atrás após ser chamado de racista e Antonio Banderas com seu poema em espanhol serviu apenas de premissa para o ótimo momento tecla SAP de Sofia Vergara no palco ao receber o prêmio por Modern Family). Mais divertido do que o apresentador foi a musiquinha cantada por Felicity Huffman e William Macy afirmando que "o que importa é ser indicado" é puro blablabla! E conforme eu havia previsto, o Globo estabeleceu a disputa acirrada entre Os Descendentes e O Artista para o Oscar, sendo que A Invenção de Hugo Cabret pode surpreender. Mais tarde aprofundo essas reflexões. A seguir os premiados com comentários e ☻marcando meus acertos. 

Melhor Filme Drama: Os Descendentes ☻(Eu sabia! Eu sabia!)
Melhor Filme Comédia: O Artista ☻ (Será que o Oscar vai premiá-lo? Acho que não...)
Melhor Diretor: Martin Scorsese /A Invenção de Hugo Cabret (Scorsese premiado por um filme infantil? Quem diria?
Melhor Ator Drama: George Clooney /Os Descendentes ☻(Clooney está em alta e deve levar o Oscar também)
Melhor Atriz Drama: Meryl Streep /A Dama de Ferro ☻(Meryl deve emplacar sua terceira estatueta no Oscar deste ano)
Melhor Ator Comédia: Jean Dujardin /O Artista (Premiado em Cannes e agora pelo Globo. Nasce um astro!)
Melhor Atriz Comédia: Michelle Williams / Sete Dias com Marilyn ☻(Não vi o filme, mas no trailer ela já impressiona!)
Melhor Ator Coadjuvante: Christopher Plummer /Toda Forma de Amor ☻(Rumo ao primeiro Oscar de Plummer, muito merecido!)
Melhor Atriz Coadjuvante: Octavia Spencer (Destinos Cruzados) ☻(num elenco feminino estelar, Octavia tem ótimos momentos, mas acho que sua parceira de cena Jessica Chastain é sua maior ameaça no Oscar) 
Melhor Roteiro: Meia Noite em Paris (Eu fiquei em dúvida entre Allen e Os Descendentes. Fico feliz!)
Melhor Animação: As Aventuras de TinTin (eu ainda prefiro Rango, mas já que Cavalo de Guerra não vingou...)
Melhor Filme Estrangeiro: A Separação ☻ (O filme iraniano pode até concorrer ao Oscar, mas ainda acho que não leva)
Trilha Sonora Original: O Artista ☻(num filme mudo e preto e branco a trilha faz toda a diferença)
Melhor Canção: "Masterpiece" (W.E.) (Madonna dirigiu um filme com toda a pompa e entra nas premiações pela porta do ofício que a tornou famosa. O que os críticos querem dizer com isso?)

Número de acertos: 9 acertos de 14 palpites! Posso melhorar...

Para fazer o serviço completo aqui estão os ganhadores da TV (só para lembrar eu não apostei nesses):


Melhor Minissérie ou Filme para TV: Downtown Abbey
Melhor Ator em Minissérie ou Filme para TV: Idris Elba (Luther)
Melhor Atriz em Minissérie ou Filme para TV: Kate Winslet (Mildred Pierce)
Melhor Série de TV - Musical ou Comédia: Modern Family
Melhor Ator em Série de TV - Drama: Kelsey Grammer (Boss)
Melhor Atriz em Série de TV - Drama: Claire Danes (Homeland)
Melhor Ator em Série de TV - Comédia ou Musical: Matt LeBlanc (Episodes)
Melhor Atriz em Série de TV - Comédia ou Musical: Laura Dern (Enlightned)
Melhor Ator Coadjuvante em Filme, Minissérie ou Filme para TV: Peter Dinklage (Game of Thrones)
Melhor Ator em Filme, Minissérie ou Filme para TV: Jessica Lange (American Horror Story)

domingo, 15 de janeiro de 2012

DVD: Se Beber, Não Case I e II

Se Beber não Case: um dos grandes abacaxis de 2011.

Aproveitando o clima de expectativa do Globo de Ouro que acontece hoje à noite, lembrei que em 2010 Se Beber não Case derrotou todos os favoritos ao prêmio de Melhor Filme de Comédia ou Musical e todo mundo ficou com cara de bobo - apesar de todos terem feito do filme um sucesso mundial. O fator de maior sucesso de Se Beber Não Case era o clima de suspense que o diretor Todd Phillips conseguia construir através do desaparecimento de um personagem às vésperas do casamento (e o uso de uma narrativa de quebra-cabeça com pistas disponíveis em um quarto de hotel - coisas simples: uma galinha, um tigre, um bebê...). Em clima de ressaca o lesado Alan (Zack Galifianakis), Stu (mais conhecido como o dentista que perdeu um dente na noitada vivido por Ed Helms) e o mais sério Phil (Bradley Cooper) partem em busca do amigo desaparecido com o relógio aproximando cada vez mais a hora do casamento. Nessa exacerbação de que "o que acontece em Las Vegas fica em Las Vegas" os amigos se metem em situações engraçadas e assim como o espectador tentam entender o que aconteceu naquela noite de bebedeiras. Quanto mais solucionam situações, outros fatos e personagens aparecem para complicar (como Stu ter se  casado com uma stripper interpretada por Heather Grahan). Claro que existem exageros, escatologias mas Phillips consegue imprimir uma ingenuidade nos marmanjos que é difícil não simpatizar com eles. O filme não é perfeito ou muito original, mas é uma ideia simples e bem executadas que arrecadou muitos milhões se tornando a comédia com censura 18 anos de maior bilheteria da história. Quando falaram de ter uma continuação os fãs ardorosos gostaram da ideia. Eu fiquei com medo. O mesmo raio cariria duas vezes no mesmo lugar? Phillips sabia disso e ao invés de criar novos truques em Se Beber Não Case II resolveu pegar o esboço do primeiro longa e mudar apenas algumas situações. Ao invés de Vegas os amigos foram para Malásia celebrar o casamento de Stu e o roteiro achou que isso era um bom pretexto para piadinhas preconceituosas (seja com os apagões constantes, com travestis ou macacos traficantes). Para não ser uma cópia idêntica o roteiro não some com o noivo, mas com um cunhado prodígio de 16 anos (o que é mortal quando se tem um sogro que já não vai com a sua cara).  Daí em diante o filme repete algumas participações especiais do primeiro filme (como o bandido oriental vivido por Ken Jeong que não tem muito o que fazer em momentos bem desagradáveis como uma das cenas de apresentação mais cretinas do cinema). Todo aquele clima de colegagem do primeiro foi para o ralo, os personagens estão mais idiotas (e o Alan de Zack Galifianakis é o que mais sofre com isso, não bastasse ser bobo, agora ele é um chato completo) e infantis (pretexto para uma cena absurda e de mal gosto inaceitável com crianças bebendo e cheirando pó), sem falar do clima que ficou infinitamente mais sombrio. Ao invés de costurar ideias boas como as anteriores, o diretor resolveu baixar o nível da produção e deixar sua obra parecida com centenas de comédias vagabundas que vão direto para o DVD. Lá pela metade da sessão já suspeitamos onde está o tal cunhado (afinal, se tudo segue a receita do original o lugar deve ser o mais óbvio - mas os personagens só perceberão isso no final). Depois de quase duas horas de cenas chulas e desagradáveis nos damos conta de que o filme cometeu um pecado mortal para uma comédia: não ter graça. O roteiro até força a barra, mas alguém acha engraçado um macaco simulando sexo oral num monge? Ou crianças usando drogas numa noitada? Se Beber Não Case II parece querer matar a franquia para que Hollywood tenha ideias frescas para a próxima temporada - ou então irão repetir a dose no Rio de Janeiro no terceiro filme!

Se Beber Não Case (The Hangover/EUA-) de Todd Phillips com Bradley Cooper, Ed Helm, Zack Galifianakis, Heather Grahan e Justin Bartha. ☻☻☻

Se Beber Não Case (The Hangover II/EUA - ) de Todd Phillips com  Bradley Cooper, Ed Helm, Zack Galifianakis, Justin Bartha e Paul Giamatti. #

FILMED+: Eleição

Era 1999 quando Alexander Payne lançou o seu segundo longa-metragem. Depois do sucesso no circuito alternativo com Ruth em Questão (1996), Eleição lhe dava a chance de ampliar o seu público e aprofundar ainda mais o seu estilo ácido de dissecar o puritanismo americano. Baseado no livro de Tom Perotta (o mesmo de Pecados Íntimos/2006), o filme é brilhante ao abordar a política americana transplantada para uma autêntica high school americana. Se você anda impressionado como essa mesma ideia está sendo abordada no seriado Glee, você precisa assistir Eleição o mais rápido possível. Payne concorreu ao Oscar de roteiro adaptado pela história do professor Jim McAllister (Mathew Broderick), um sujeito exemplar e de vida regrada ao lado da esposa insossa que não consegue engravidar. Entre uma aula sobre ética aqui e uma lição de moral ali, o professor nutre fortes ressentimentos pela aluna Tracy Flick (Reese Witherspoon, numa atuação tão divertida quanto assustadora). Tracy é a aluna que mais gosta de aparecer na escola, está em todos os clubes mais  (e menos) relevantes, além de disputas e discussões que podem lhe garantir créditos para a vida futura. O motivo de birra do professor com a aluna é o fato dela ter se envolvido com um professor - o que acabou em um escândalo dos bastidores da escola e rendendo a expulsão do babão. Por mais que MacAllister seja simpático e agradável em sua vida escolar percebe-se deste ponto de implicância que sua elevada moral possui uma pequena mancha. Afinal de contas, qualquer professor sabe que não pode se envolver com alunas e por mais que estas pareçam interessadas é ética e moralmente condenável (daí a contradição de McAllister). A chance de McAllister se vingar de Tracy será na eleição do grêmio da escola. Sob o pretexto de ensinar a Tracy que não se pode ganhar todas passando por cima dos outros, o professor resolve bancar a candidatura do um pateta Paul Metzler (Chris Klein que parece um especialista para esse tipo de coisa) que é boa gente, mas um candidato escolhido somente para prejudicar a ascensão de Tracy e que não faz a mínima ideia do que seria um plano de governo. Como a vida política é sempre cheia de surpresas e ressentimentos, a terceira pessoa no páreo é a irmã de Paul, a invocada Tammy Metzler (Jessica Campbell) que deseja vingar-se da ex-namorada que a trocou pelo irmão. O que poderia ser apenas uma campanha escolar vira um campo de batalha, com material de campanha destruído, cassação de candidaturas e até fraude na apuração. Alguns podem até pensar que se trata somente de um filme para adolescentes, mas observando com atenção, veremos que o filme é um olhar interessante sobre a politicagem na vida do ser humano. Por mais que Tracy seja uma das personagens mais chatas que já apareceu numa tela de cinema (e Reese a realiza com grande desenvoltura, bem diferente da atriz que se tornou após ganhar o Oscar) McAllister deixa sua visão cada vez mais comprometida num emaranhado de acontecimentos que ameaçam sua carreira e até seu casamento. No microuniverso criado no filme, as situações da estrutura macropolítica de repetem e os pequenos fatos fazem toda a diferença na contagem final dos votos - e aquele sujeito que antes era dado como invisível pode ter uma revelação que mudará os rumos de tudo. Neste filme, Payne se despediu do seu humor mais cortante (que faz personagem agradecer em suas orações por ser bem dotado ou outra que pede à Deus para ser amiga da Madonna, submete Tracy Flick a frames feiosos ou mesmo que escolhe o eterno Ferris Bueller para o papel de professor que se deteriora eticamente durante a trama). Payne pode até ter se tornado mais sério em seus filmes seguintes - mas mesmo se tratando de uma das melhores comédias da década de 1990, se você conhecer personagens como McAllister e Tracy e sentir vontade de chorar, eu vou entender.

Broderick: olhar comprometido (e não só por causa de alergia à abelha)

Eleição (Election/EUA-1999) de Alexander Payne com Matthew Broderick, Reese Witherspoon, Chris Klein e Molly Hagan. ☻☻☻☻☻

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

APOSTAS PARA O GLOBO DE OURO 2012

O Artista: a pedra francesa na safra americana.

Neste domingo é dia de entrega do Globo de Ouro! Há cinquenta anos que os críticos estrangeiros elegem os melhores do ano e muitas vezes coincidem com o Oscar (principalmente entre os indicados). Neste ano de vacas esqueléticas em que a nata bebe claramente no cinemão de antigamente o Globo de Ouro deve marcar as poles da temporada que devem ficar por conta de O Artista e Os Descendentes.  Aqui no Brasil o evento será transmitido pela TNT por volta das dez horas da noite. Escolha seus favoritos e cruze os dedos:

Melhor Filme Drama: Os Descendentes
Melhor Filme Comédia: O Artista
Melhor Diretor: Michel Hazanavicius (O Artista)
Melhor Ator Drama: George Clooney (Os Descendentes)
Melhor Atriz Drama: Meryl Streep (A Dama de Ferro)
Melhor Ator Comédia: Owen Wilson (Meia Noite em Paris)
Melhor Atriz Comédia: Michelle Williams (Sete Dias com Marilyn)
Melhor Ator Coadjuvante: Christopher Plummer (Toda Forma de Amor)
Melhor Atriz Coadjuvante: Octavia Spencer (Destinos Cruzados)
Melhor Roteiro: Os Descendentes
Melhor Animação: Rango
Melhor Filme Estrangeiro: A Separação
Trilha Sonora Original: O Artista
Melhor Canção: "Lay Your Head Down" (Albert Nobbs)

DVD: Flor do Deserto

A modelo e a dançarina: cinebio de Waris Dirie. 

Lembro quando o mundo tomou um susto quando a modelo somali Waris Dirie declarou em sua entrevista numa famosa revista de moda o costume de mutilar o genital feminino em seu país de origem, a partir daí qualquer um perceberia que a história desta mulher renderia um bom filme e Flor do Deserto cumpre sua função com incrível sobriedade. Apesar de não perder de vista o fato de Waris ter se tornado uma modelo cobiçada, o filme mantém os pés no chão sem se perder em futilidades ou glamourização exagerada do que poderia ser mais uma variante do conto da Cinderela. O filme começa sua trama com Waris (vivida com coerência pela modelo Liya Kebede) no banheiro de um shopping londrino após ficar seis anos entregue à própria sorte depois de uma crise na embaixada de seu país. Sua vida começa a mudar quando conhece uma vendedora com pretensões de tornar-se dançarina (uma diferente Sally Hawkins com visual inspirado em Karen O. do Yeah Yeah Yeahs). Vivendo de favores, Waris encontrará emprego num fast food e será descoberta pelo famoso fotógrafo Terry Donaldson (Timothy Spall) que a levará para as capas das maiores revistas de moda do país. Chega a ser engraçado o período em que Waris precisa aprender a desfilar ou quando a agente de modelo fica assustada ao ver o estado de calamidade de seus pés (imagine as marcas deixadas por dias caminhando no deserto aos 13 anos para fugir de um casamento arranjado com um homem décadas mais velho). Mesmo sem dominar a língua inglesa Waris conseguiu dar um rumo à sua vida graças à sua postura e um grupo de pessoas generosas que lhe ajudaram quando mais precisava (especialmente com os problemas com a migração). O filme intercala esta parte mais esperançosa da trama com cenas flashback sobre o passado sofrido na Somália ao lado da mãe e do irmão. Temos a impressão que enquanto ajeita a vida de sua protagonista a direção de Sherry Horman cozinha a parte mais obscura da história até a escancarar a assombrosa parte final.  Longe de ser perfeito (às vezes o filme abusa do açúcar, nunca aprofunda muito um romance mal resolvido na trama) o resultado é bastante equilibrado, especialmente pela simpatia que o filme consegue exalar pelas performances do elenco e o tempero fashion que joga sobre uma história de conto de fadas (a cena das amigas desfilando no corredor é antológica e as cenas de nudez do calendário Pirelli sãoconduzidas com muita elegância). Toda a gentileza e simpatia da trama contrasta com o horror da cena em que a personagem é circuncidada aos cinco anos de idade, ponto que motiva o desfecho com a conferência da ONU em que Waris se tornou-se símbolo da luta contra a mutilação genital (que mata centenas de meninas todos os anos em decorrência de infecções e outros problemas decorrentes da cicatrização), além de tornar-se embaixadora da ONU. O filme é baseado na biografia de Waris e a prova de que o filme funciona foi o Prêmio de Melhor Filme Europeu pelo Júri Popular no Festival de San Sebastian de 2009.

Flor do Deserto (Desert Flower/Reino Unido - Alemanha - Áustria/2010) de Cherry Horman com Liya Kebede, Sally Hawkins, Tomothy Spall, Juliet Stevenson, Craig Parkinson e Matt Kaufman. ☻☻☻

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

CATÁLOGO: Sonhando Acordado

Gael e Charlotte: uma cavalgada ao estilo Gondry.

Michel Gondry apesar de todas as suas modernices e aura cult é um diretor à moda antiga. Seus filmes, apesar de conter recursos visuais impressionantes contam com o gosto do diretor por poucos efeitos especiais e mais truques de câmera capazes de produzir um efeito surpreendente na tela. Foi assim na infinidade de clipes que dirigiu para nomes como White Stripes e Kylie Minogue, no longa Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças (2004) seu segundo e mais elogiado filme (que ainda lhe rendeu um Oscar pela colaboração no roteiro de Charlie Kauffman)  e foi elevado à forma mais descarada em Rebobine Por Favor (2008). Entre um e outro o diretor criou Sonhando Acordado (2006) que é infinitamente seu filme mais difícil de assistir. Trata-se de um exercício de não tentar entender tudo o tempo inteiro e apenas mergulhar no universo do diretor. Se em Brilho ele lidava com o romance em meio às memórias, o foco agora está na relação de um  homem com um caso amoroso entre sua dificuldade de perceber o que é sonho e realidade (e que se torna ainda mais grave quando tem que lidar com suas frustrações). Se o filme não contasse com um ator tão carismático quando Gael Garcia Bernal a coisa seria intragável, mas Gael consegue dar um tom ingênuo ao personagem que cai como uma luva às travessuras narrativas que o filme se propõe. Apesar de ser protagonizado por um mexicano, o filme é falado em francês e conta com famosos compatriotas de Gondry como Charlotte Gainsbourg e Alain Chabat. Charlotte interpreta o interesse amoroso do rapaz, ou melhor, a amiga da garota que ele estava interessado, mas que aos poucos conquista a simpatia dele e da plateia. Ainda que tenha momentos visuais surreais (a narração em formato de programa de TV, a cidade de papelão, a bandinha mais tosca da história, mãos gigantescas, água de papel celofane, nuvens de algodão, cavalos de pano e o uso da máquina de viajar no tempo) o filme conta uma historinha bem simples, ainda que não conte com um início, meio e fim bem amarrados. Gondry nunca foi de se preocupar muito com a narrativa que cresce em tensão ou desenvolvimento dos personagens (acho que Brilho Eterno foi uma exceção porque o texto de Kauffman não lhe deixava escolha, mesmo que embaralhasse os tempos), isso fica bem claro quando deixa em segundo plano os frangalhos amorosos de seu protagonista. Confuso, ainda que bobamente romântico, o filme ressalta que além do estilo único Gondry ainda tem o dom de exalar melancolia mesmo quando tudo tende para a comédia mais amalucada. É esse gosto meio agridoce que fica em nossa mente depois que assistimos ao filme e o tempero científico engraçadinho sobre os sonhos só aumenta  esse sabor (estranho).

Sonhando Acordado (La science des rêves/ França-2006) de Michel Gondry com Gael García Bernal, Charlotte Gainsbourg, Alain Chabat e Miou Miou. ☻☻

DVD: Besouro Verde


Chou e Rogen: talentos desperdiçados.

Entre minhas resoluções de fim de ano me exigi como meta ser um homem melhor e mais corajoso, capaz de rever os erros do passado e parar com a palhaçada de relutar a escrever sobre filmes tão idiotas quanto Besouro Verde (pois é, já que escrever sobre ele significa que perdi meu precioso tempo diante de uma obra desse naipe vergonhoso). Não tenho nem muito o que escrever sobre o filme, só preciso comentar que foi uma das maiores decepções de 2011. Depois de alcançar sucesso nas rádios e em séries de TV, o personagem chegou aos cinemas de forma desengonçada pelas mãos de Michel Gondry. Chega a ser maldade culpar o diretor, já que ele mesmo disse que ninguém dava a mínima para o que ele dizia nos sets de filmagem (o filme foi para a montagem várias vezes depois de concluído - o que já era um péssimo sinal). Diante do que o filme tem de melhor (efeitos bacanas nas cenas de ação) fica claro que o diretor conseguiu deixar sua marca em meio ao desastre. Ainda assim foi graças a Gondry que Cameron Diaz aceitou fazer um papel pequeno (e desinteressante) como a secretária do mauricinho herói Brit Reid (Seth Rogen). Mas nada se compara à polêmica escalação de Rogen que chegou a colaborar no roteiro, mas com um pouco de boa vontade (e o regime imposto pelo próprio ator a si mesmo) achamos que o cara iria injetar só um pouco de humor no personagem, mas o tiro saiu pela culatra. Seu Besouro Verde  não convence nem com a máscara e os apetrechos construídos pelo seu parceiro Kato (Jay Chou o melhor em cena sem entender uma palavra em inglês!!!). Rogen não consegue ultrapassar a caricatura e o filme só vai piorando em sua semgracisse com o roteiro sem pé nem cabeça, furogrotescos e personagens rasos. Nem Christoph Waltz se salva (já tiveram a impressão que ele vem se repetindo desde Bastardos Inglórios/2009?), ele faz o vilão Chudnofsky que pretende dominar o crime na cidade (OOOOH!). No final das contas não faltou só um roteiro que prestasse, mas principalmente garra à narrativa (mas qualquer um que conhece os filmes de Gondry sabe que seu estilo estava longe dos filmes de ação). Perdi a conta de quantas vezes conchilei nas três vezes que tentei ver o filme. Acho que não precisa nem contar as participações especiais de James Franco e Tom Wilkinson, já que não contribui em nada para esta adaptação mal sucedida e que padece de querer ser uma sátira aos filmes de herói mas que erra ao bater sempre nessa mesma tecla. O mais incrível é que conseguiu fazer sucesso nos cinemas americanos - o que pode ser visto como a promessa de uma sequência - o que me assusta um bocado!

Besouro Verde (The Green Hornet/EUA-2011) de Michel Gondry com Seth Rogen, Jay Chou, Cameron Diaz, Tom Wilkinson e Christoph Waltz. #

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

DVD: Lanterna Verde

Reynolds: verde para o papel. 

Quantas vezes um ator tem a chance de dar uma guinada em sua carreira? Sei que não são muitas e raramente a tal guinada vem através de um único filme. É algo trabalhado aos poucos e que o ator sensato ao perceber que ganhou confiança dos estúdios faz o melhor possível para que sua carreira alcance outro patamar. Ryan Reynolds já fez todo tipo de filme, geralmente era tratado com tolerância, mas nos últimos tempos provou que era capaz de roubar a cena (como o tagarela Deadpool de Wolverine/2009) ou carregando um filme nas costas (Enterrado Vivo/2010). Por essas proezas, além de ter um dos corpos mais esculpidos de Hollywood, foi escolhido para fazer o filme do Lanterna Verde decolar. Fazia tempo que o herói esmeralda estava na pauta dos estúdios, mas desde o início a coisa não era levada muito a sério (chegaram a cogitar o rotundo Jack Black para o papel!), mas o sucesso de um herói secundário como Homem de Ferro para a Marvel, fez a Warner salivar com as possibilidades que a DC Comics tinha a oferecer. Escalaram o operário padrão Martin Campbell para dirigir e coadjuvantes auspiciosos como Peter Sarsgaard, Tim Robbins e Angela Basset para dar uma força. Os efeitos especiais também foram feitos no capricho para o filme ser exibido em 3D e o roteiro era calcado na antológica saga do vilão Paralax (apesar de ser direcionada de forma bem diferente dos quadrinhos). Ah, claro, estava me esquecendo, o Lanterna Verde escolhido para o filme é o mais famoso de todos, o piloto Hal Jordan (que usou o anel antes do intragável Guy Gardner e do politicamente correto John). O que poderia dar errado num filme feito somente para divertir? Algo essencial: o ator. Ryan Reynolds está péssimo na pele de Hal Jordan e não consegue imprimir credibilidade nem nos momentos em que a identificação do público seria óbvia (prova disso é a forma infantil com que lida com o estranhamento de ser escolhido por um alienígena para usar o anel). Apesar dos rombos no roteiro (afinal, que fim leva o sobrinho de Jordan que aparece só no início?) e das patetices (pista de hotwheels para salvar inocentes?) se houvesse um ator vigoroso defendendo a trama ela poderia ter rendido uma das matinês mais divertidas do ano. A escalação de Reynolds é um equívoco total e já começa por sua concepção pobre do protagonista que amadurece durante a trama. Jordan não é pedante como nos quadrinhos, aqui ele é apenas um idiota imaturo - e já que pode fazer qualquer coisa com a força do pensamento guiando seu anel ele poderia ter produzido um cérebro novo para ser mais interessante no decorrer do filme. O filme sempre baixa a voltagem quando o herói está em cena e a trama paralela com o seu rival contaminado pela misteriosa energia amarela, Hector (Sarsgaard) consegue ser muito mais interessante - apesar de conduzir tudo cada vez mais para o trash. Tudo soa vazio, da escolha de Jordan, passando pelo seu treinamento junto aos outros lanternas, seu primeiro conflito com Sinestro (o subaproveitado Mark Strong) e seu romance em ponto morto com Blake Lively. Para saber tudo o que o filme poderia ter sido, procure a animação Lanterna Verde - Primeiro Voo lançado em 2010 e que cumpria muito bem o papel de apresentar o seu personagem de forma coerente e adulta. Desculpe Reynolds, mas você perdeu todos os créditos conquistados nos últimos anos e acho inevitável registrar Reynolds não dava conta do herói nem no trailer, por conta disso deveriam ter escalado até o Nathan Fillion (que deu conta do personagem no fantrailer muito mais legal que pode ser visto no Youtube). Com bilheteria mirrada o destino de Lanterna Verde é incerto nas telas. 

Lanterna Verde (Green Lantern/EUA-2011) de Martin Campbell com Ryan Reynolds, Blake Lively, Peter Sarsgaard, Tim Robbins, Angela Basset e Mark Strong. ☻

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Combo: PERSPECTIVA 2012

Depois de mais de uma semana de férias o Diáriw reinicia seus trabalhos com um ano cinematográfico novo em folha. Para não perder o hábito, começo o ano com esta perspectiva para 2012! Em 2011 listei os meus cinco filmes mais aguardados do ano (só para lembrar foram Besouro Verde que talvez um dia, se eu tiver coragem, escreva alguma coisa sobre ele, mas por enquanto continua sem comentários diante da decepção. Outro verde que também foi difícil de engolir foi Lanterna Verde para o qual dedico o próximo texto - nem todo mundo teve a sorte de X-Men: Primeira Classe que agradou público e crítica, Thor pode não ter chegado tão longe mas agradou e abriu um caminho seguro para Os Vingadores. Eu ainda destaquei o arremate da franquia Harry Potter & As Relíquias da Morte - Parte 2 que ninguém duvidava que alcançaria sucesso mundial e ainda cumpriu o seu papel de forma coerente com a saga). E o que será capaz  de me fazer torrar uma pequena fortuna em ingressos em 2012? Aqui vão as minhas apostas:

5 The Amazing Spider Man Ainda não entendi muito bem o que aconteceu na cabeça da Fox para refazer Homem Aranha depois do sucesso da franquia sob a batuta de Sam Raimi com Tobey Maguire. O filme está aqui por conta dos nomes envolvidos, Marc Webb na direção, Andrew Garfield e Emma Stone que ficaram em alta nos últimos anos e dividem os créditos com veteranos do porte de Sally Fields e John Malkovich. Torço para que dê certo, mas quem viu o trailer já torce o nariz já que o filme parece ser parecido demais com o primeiro filme. Há quem diga que o filme será mais introspectivo e menos ensolarado que os outros. Veremos na estreia em 03 de julho!
4 Faroeste Caboclo Acho que nem precisa gastar o tempo contando a história de João de Santo Cristo, famoso pela música quilométrica da Legião Urbana. O filme tem a direção de René Sampaio e tem a global Ísis Valverde como o nome mais conhecido do elenco (no papel de Maria Lúcia), o protagonista será vivido por Fabrício Boliveira e o traficante Jeremias será vivido por Felipe Abib. A estreia está prevista para o dia 25 de maio, tempo suficiente para que oremos para a canção não ter sido transformada em mais uma cópia de Cidade de Deus de Fernando Meirelles!

3 Prometheus A medalha de bronze vai para esse novo projeto de Ridley Scott que tem um elenco robusto: Michael Fassbender, Charlize Theron e Noomi Rapace. Há quem especule que se trata de uma prequência de Alien, contando a história antes da Tenente Ripley se deparar com o monstrengo no clássico filme de 1979. Seja como for, o fato de Scott voltar à ficção científica já é motivo de sobra para ir ao cinema e compensa todo o mistério que está sendo feito ao redor da trama! Por enquanto o filme tem a estreia prevista para 8 de junho, auge do verão americano.

2 Os Vingadores Tentei relutar, mas um filme que mistura alguns dos nomes mais populares da Marvel não podia ser deixado para trás. O maior culpado disso é eu ter revisto o filme Thor dia desses e ter me empolgado com a reunião do Deus do Trovão (Chris Hemsworth) com Homem de Ferro (Robert Downey Jr.), Viúva Negra (Scarlett Johansson), Gavião Arqueiro (Jeremy Renner), Capitão América (Chris Evans) e Hulk (Mark Rufallo). Pensando bem a culpa é da Marvel que utilizou uma estratégia  muito bem armada (filmes solo dos heróis amarrados para a reunião da patota) para alimentar a expectativa para seu projeto mais ambicioso. A estreia está prevista para o dia 04 de maio.

1 Dark Knight Rises Nenhum cineasta teve força suficiente para chegar ao terceiro filme de Batman, todos pereceram pelo caminho, isso já seria motivo suficiente para que o último Batman assinado por Christopher Nolan fosse o filme mais aguardado do ano. Afinal de contas, um arremate para o Homem Morcego que conta com seu maior inimigo, Bane já nos faz pensar no pior... será que Nolan vai quebrar Christian Bale? Resta esperar para ver! Como todo mundo já viu aquele cartaz de Gotham City para o filme, resolvi usar este criado por um fã e que pela primeira vez me deixou animado com Anne Hathaway estar no papel imortalizado pela mulher-gato Michelle Pfeiffer! Ironicamente o mais aguardado tem a estreia mais distante: 02 de agosto!