segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

DVD: 72 Horas

Banks e Crowe: plano mirabolante em drama familiar.

Russel Crowe pode não ser tão badalado quanto era na década passada, mas ainda tem talento suficiente para carregar um filme nas costas. O astro de Gladiador (2000) também não tem a forma física de antigamente, mas o visual rechonchudo ajuda a dar credibilidade ao professor universitário que cria um plano de fuga mirabolante para tirar a esposa da prisão. Não fosse por Crowe o filme poderia ser apenas mais um suspense mediano sobre a didática de uma fuga na prisão, mas todo mundo sabe que mesmo calado o ator consegue expressar uma gama de sensações que poucos atores conseguiriam. É a atuação de Crowe que consegue nos manter interessados durante a sessão (já que o tal plano mirabolante só conhecemos quando está em execução, até lá, vemos uma série de cacos e pistas correspondente ao mosaico complexo que o personagem pendura na parede de sua casa). Na verdade, o filme é uma refilmagem de um longa francês de chamado Pour Elle (2008) protagonizado por Diane Kruger e Vincent Lindon, só que sofreu alguns retoques para a realidade estadounidense, ou melhor hollywoodiana - e esta nova versão apenas arranha as motivações do personagem pacato desacreditar dos tramites legais que não funcionam (todos os recursos em todas as instâncias foram negados) e apelar para a marginalidade.  Desde o início o marido confia na inocência da esposa (vivida por competência por Elizabeth Banks) e pelo filme ser baseado em seu olhar sobre os acontecimentos, torcemos por ele - que além de cuidar da casa e do filho sozinho ainda tem a mente disposta a criar uma elaborada fuga e resistir à tentadora Olivia Wilde! Paul Haggis se aventura por um gênero que tem feito a glória de Liam Neeson (que faz até uma participação especial no filme), onde um pai de família precisa bancar o herói mesmo que não tenha muita experiência no ramo. Mas o diretor continua com a mão pesada de seus longas anteriores (o oscarizado Crash/2004 e No Vale das Sombras/2007), sinal do exagero é a cena da prisão da esposa do professor, na frente do filho pequeno na hora do café da manhã. A cena pode até aumentar a carga dramática do filme, mas é difícil de digerir (assim como a cena em que o protagonista invade a casa de um traficante em busca de dinheiro ou aquela cena "susto" desnecessária na rodovia). O que importa é que mesmo com alguns tropeços (incluindo o uso de canções do Moby em hora inadequada), o filme se redime quando o plano é posto em execução e só nos resta grudar os olhos na tela para ver os malabarismos do marido para alcançar seu objetivo. 

72 Horas (The Next Three Days/EUA-2010) de Paul Haggis com Russel Crowe, Elizabeth Banks, Olivia Wilde, Bryan Dennehy e Liam Neeson. ☻☻☻

Palpites para o OSCAR 2012

A Dama de Ferro: Meryl Streep rumo ao terceiro careca dourado.

Amanhã de manhã saem as indicações ao Oscar 2012 e como de costume vou listar quem eu acho que deve ser indicado, como sei que as características costumas envolver mais surpresas do que favoritos, vou listar meus palpites somente em algumas categorias. 

MELHOR FILME
O Artista
Histórias Cruzadas
Os Descendentes
Tudo Pelo Poder
A Invenção de Hugo Cabret
Meia Noite em Paris

MELHOR DIRETOR
Michel Hazanavicius (O Artista)
Alexander Payne (Os Descendentes)
Martin Scorsese (A Invenção de Hugo Cabret)
George Clooney (Tudo Pelo Poder)
Woody Allen (Meia Noite em Paris)

MELHOR ATOR
George Clooney (Os Descendentes)
Ryan Gosling (Tudo Pelo Poder)
Michael Fassbender (Shame)
Leonardo DiCaprio (J. Edgar)
Brad Pitt (O Homem que Mudou o Jogo)

MELHOR ATRIZ
Meryl Streep (A Dama de Ferro)
Glenn Close (Albert Nobbs)
Tilda Swinton (Precisamos Falar Sobre Kevin)
Michelle Williams (Sete Dias com Marilyn)
Viola Davis (Histórias Cruzadas)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Jonah Hill (O Homem que Mudou o Jogo)
Kenneth Branagh (Sete Dias com Marilyn)
Andy Serkis (Planeta dos Macacos - A Origem)
Albert Brooks (Drive)
Christopher Plummer (Toda Forma de Amor)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Janet McTeer (Albert Nobbs)
Octavie Spencer (Histórias Cruzadas)
Jessica Chastain (Histórias Cruzadas)
Shailene Woodley (Os Descendentes)
Melissa McCarthy (Missão Madrinha de Casamento)

ROTEIRO ADAPTADO
Incredibly Loud Extremely Close 
Histórias Cruzadas
Os Descendentes
A Invenção de Hugo Cabret
O Espião que Sabia Demais

ROTEIRO ORIGINAL
Toda Forma de Amor
Tudo Pelo Poder
Drive
O Artista
Meia Noite em Paris

MELHOR FILME DE ANIMAÇÃO
Rango
As Aventuras de TinTim
Gato de Botas 
Carros 2
Kung Fu Panda 2

sábado, 21 de janeiro de 2012

DVD: O Pequeno Nicolau

Lançado no final de 2010 em meia dúzia de salas brasileiras, o francês O Pequeno Nicolau conseguiu boa bilheteria por um motivo muito simples: é um filme que parece voltado para crianças e que não aborrece os adultos - especialmente por não ser protagonizado por algum marmanjo em decadência. Os méritos de O Pequeno Nicolau podem ser percebidos por pessoas de todas as idades (e não estou me referindo às suas qualidades técnicas fotografia, edição, figurinos, trilha sonora que são perfeitas). Criado em 1959 por Jean Jacques Sempé e René Goscinny (de Asterix), o filme mantém a caracterização da trama na década original e se beneficia em conservar o tom ingênuo das histórias do personagem popular na França. Outro grande trunfo do filme é o seu elenco infantil, o menino Maxime Godard interpreta Nicolau, mas todos os seus amiguinhos dão conta de personagens interessantes e de várias nuances que não deixam que caiam em estereótipos, afinal seus amigos possuem características que são comuns às crianças de qualquer época (e são apresentados com muito senso de humor logo no início da sessão enquanto Nicolau questiona a si mesmo qual profissão deverá seguir quando for adulto) e suas pequenas aventuras são saborosas de assistir. O roteiro assinado por Alain Chabat, Laurent Tirart e Grégoire Vigneron tem o mérito de ser simples e costurar algumas historinhas do personagem sem perder o fio da meada: a ameaça de um irmãozinho que está para chegar - ou pelo menos isso é o que Nicolau pensa, principalmente depois que um amigo da escola desaparece das aulas após o nascimento do irmão caçula (todos imaginam que os pais o abandonaram no bosque - e Nicolau não quer que isso aconteça com ele, ao ponto de cogitar contratar um gangster para sumir com o bebê). Se a ideia parece ameaçadora,  a produção faz os personagens transmitirem tanta inocência que as trapalhadas em que se metem merece até o nosso perdão. Paralela às angústias de Nicolau contrasta a trama protagonizada por seus pais com as convenções sociais do mundo do trabalho (com destaque para a mãe interpretada por Valerie Lemercier), o que deixa ainda mais divertido ver as crianças recebendo a visita do Ministro da Educação, fazendo testes psicológicos, criando uma fórmula secreta de super-força ou tentando roubar um carro (repare que durante o filme as situações ficam mais estapafúrdias). Com as molecagens temperadas com nostalgia o filme é uma verdadeira pérola da cinematografia francesa dos últimos anos.

Nicolau e sua mãe: um mundo ingenuamente complicado.

O Pequeno Nicolau (Le Petit Nicolas/França-2010) de Laurent Tirard com Maxime Godard, Valérie Lemercier, Kad Merad, Sandrine Kimberlain e Vincent Claude. ☻☻☻☻

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

CATÁLOGO: As Confissões de Schmidt

Nicholson: atuação surpreendente na pele de Schmidt.

Depois de perder o Oscar de roteiro adaptado por Eleição (1999), Alexander Payne resolveu ser mais sério no seu filme seguinte e cumpriu todo o protocolo direitinho. As Confissões de Schmidt foi exibido com elogios no Festival de Cannes e muitos críticos ficaram surpresos da forma como Payne conseguiu tirar uma atuação mais contida de Jack Nicholson - algo que não se via há muito tempo. Mais sério e amargo o filme marcou um corte na cinematografia do diretor que deixava o humor em segundo plano e investia cada vez mais nos dramas de seus personagens. Curiosamente o preço da empreitada foi Payne ter que lidar com os leitores fãs do livro homônimo de Louis Begley (que alcançou tanto sucesso que rendeu até uma continuação: Schmidt Delivered) que alegavam que havia drenado muito do humor da narrativa, mudando totalmente a essência do personagem (que era muito mais preconceituso e mal intencionado do que o velhinho rabugento apresentado no filme). Warren Schmidt (Jack Nicholson, indicado ao Oscar de ator) é um senhor prestes a se aposentar, mas está totalmente ciente de que sua vida foi um desperdício (tanto que se vangloria do tempo que lhe resta de vida).  Depois de aguentar a esposa castradora (que o obriga até a urinar sentado para não correr o risco de respingar o branheiro) ele sabe que sua vida de aposentado será pior do que no escritório insosso em que trabalhava - mas com o trailer que comprou pretende espantar a rotina de tédio e depressão que se anuncia desde a primeira cena. Obviamente que a esposa não gostaria dessa ideia, mas as coisas mudam quando Schmidt fica viúvo. Diante da situação, Schmidt prentende dar novo rumo à sua vida e fazer uma boa ação, ou melhor duas: uma é ajudar um menino nos cafundós da Tanzânia através do envio de cheques, o outro é impedir o casamento de sua filha (Hope Davis) com um noivo o qual desaprova (vivido por gosto por um Dermot Mulroney totalmente brega), Schmidt pensa que conseguirá convencer a filha a desistir do casório. Até encontrar a filha, o personagem irá se deparar com uma série de sujeitos comuns feito ele em situações comuns. Quando se transforma em road movie o filme tenta sair do lugar comum com um humor sutil, mas seus melhores momentos estão no seu encontro com a sogra de sua filha (vivida pela ótima Kathy Bates, indicada ao Oscar de coadjuvante e que tem a coragem de fazer uma cena de nu frontal) que acaba demonstrando mais interesse por ele do que o próprio poderia imaginar. Schmidt não é apresentado com muitas qualidades, é como se ele simplesmente existisse num mundo que se move independente de suas ações - essa sensação de ser descartável dá ao filme uma incômoda sensação deprimente e apesar de momentos de alívio cômico, o filme consegue ser baixo-astral a maior parte do tempo.  Se após toda a sessão a vida de Schmidt parece sem sentido, Payne guarda o melhor momento para o final, numa belíssima cena em que Schmidt recebe uma carta muito especial. Parece que Payne e Nicholson construíram toda a trajetória do filme apenas para essa cena especificamente, o incrível é que ela funciona magistralmente fazendo toda a diferença em nosso apreço pelo longa. Ainda assim, devo confessar que na filmografia de Payne é o longa do qual menos gosto, o que não quer dizer que não tenha seus méritos (além da edição precisa e bela fotografia). Prova de que o filme está longe de ser uma unanimidade é o fato de ter sido indicado a cinco Globos de Ouro (Filme/Drama, diretor, ator/Drama, atriz coadjuvante/Bates e roteiro) mas somente Nicholson e Bates foram lembrados nas indicações ao Oscar. Mesmo assim, vale conferir. 

As Confissões de Schmidt (About Schmidt/EUA-2002) de Alexander Payne com Jack Nicholson, Kathy Bates, Hope Davis e Dermot Mulroney. ☻☻☻

DVD: Amizade Colorida

Mila e Justin: depois da tensão sexual, a tensão emocional. 

Justin Timberlake anda realmente investindo em sua carreira de ator. Enquanto seu novo álbum não sai ele tem escolhido com muita sorte seus projetos cinematográficos. Embora ainda não tenha me convencido como ator (acho que ele só atuou de verdade em Alpha Dog/2006) ele é responsável por cinquenta por cento do sucesso desta comédia romântica co-estrelada por Mila Kunis. O curioso é que depois de anos com as comédias românticas se apoiando no chororô de mulheres e nos corações vis da galera masculina, os roteiristas resolveram fazer filmes sobre amigos que resolvem transar. Mais curioso ainda é que dois filmes sobre o tema estrearam ano passado e contavam respectivamente com duas amigas que dividiram o set de Cisne Negro (2010). Natalie Portman deu azar ao aparecer ao lado de Ashton Kutcher em Sexo sem Compromisso sendo um par insosso para um tema apimentado,  Mila Kunis se sai melhor ao contar com a direção esperta de Will Gluck (de A Mentira/2010). Kunis é Jamie, uma olheira que procura profissionais que interessam às empresas e tenta convencê-los que aceitar a oferta é o melhor a fazer (já que é assim que recebe as comissões), é assim que conhece Dylan (Timberlake), que escrevia em um blog e agora está prestes a ser contratado pela revista GQ. Vindos de rompimentos amorosos não muito agradáveis os dois acabam gostando da companhia um do outro, se consideram amigos e resolvem ter relações sexuais sem envolvimento emocional - como se isso fosse possível. A grande vantagem de Amizade Colorida sobre Sexo sem Compromisso é que seu roteiro é mais esperto do que o estrelado por Natalie Portman, o que faz com que seus personagens sejam mais interessantes (inclusive os coadjuvantes como o comentarista esportivo gay - mas muito macho - vivido por Woody Harrelson, a mãe maluquete de Jamie interpretada pela sempre ótima Patricia Clarkson e e o pai com Alzheimer de Dylan feito por Richard Jenkins). Embora o filme perca o ritmo em sua metade, todo mundo sabe que todas as situações inventadas estão ali só para passar o tempo e reforçar o quanto a dupla combina um com o outro.   Mesmo com algumas ironias sobre comédias românticas (a trilha sonora, as locações...) e alguns clichês (oh como os relacionamentos amorosos podem ser traumatizantes!) o filme consegue ser simpático - especialmente pelo elenco que consegue manter nosso interesse e até gerar uma torcidinha. Mas como toda comédia romântica, ganha um doce quem acertar o final!

Amizade Colorida (Friends with Benefits/EUA-2010) de Will Gluck com Mila Kunis, Justin Timberlake, Patricia Clarkson, Richard Jenkins, Jenna Elfman e Emma Stone. ☻☻☻

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

DVD: Professora sem Classe

Cameron e seus pretendentes: adivinha quem vai ficar com Elizabeth?

O alarme deve ter soado na carreira de Cameron Diaz ao fim de 2011, depois do fiasco ao lado de Tom Cruise em Encontro Explosivo (2010), ano passado a loura não tinha nada para fazer em Besouro Verde e ainda apareceu com esse Professora Sem Classe em mais um desses roteiros cheios de baixaria que ela adora! Sei que existe muita gente que conferiu o o filme nos cinemas por achar engraçado ver a atriz apalpando o silicone de uma colega ou humilhando adolescentes em sala de aula (tanto que o filme rendeu mais de 200 milhões em bilheteria mundial), mas a verdade é que o filme não acrescenta nada na carreira de sua estrela - até porque o melhor filme de baixaria que já foi feito já tinha o nome de Cameron no meio (Quem Vai Ficar com Mary que lhe rendeu até uma indicação ao Globo de Ouro em 1998). Já que em Professora sem Classe a proposta é fazer humor chulo, ele poderia ser pelo menos um pouco mais original. Elizabeth Halsey (Cameron) é uma vigarista que acaba de ser desmascarada pelo noivo ricaço que descobriu que sua fortuna era gasta em inutilidades, formada em Literatura, Elizabeth preferia comer gilete a ter que voltar a lecionar. Mas a loura tem seus sonhos: bancar uma plástica nos seios e arranjar um bom partido milionário. Enquanto isso não acontece, ela prefere enrolar seus alunos com tudo quanto é filme com professores (de O Preço do Desafio até Pânico de Wes Craven!!!), além disso cria estratégias desonestas para conseguir os sete mil dólares necessários para bancar a cirurgia. Enquanto flerta com um professor substituto riquinho (Justin Timberlake fazendo mais do mesmo deixando seu personagem ainda mais bizarro), aguenta uns gracejos de um simpático professor de Educação Física (o grandão Jason Segel) e ainda tem que se livrar de uma professora chata (a sempre esquisita Lucy Punch) que está disposta a provar que a loura é uma fraude. As piadas sobre o relacionamento da professora com seus alunos estão longe de ser originais, mas devem estar entre as mais descaradas entre as criadas especialmente para chocar os puristas (como a cena em que é surpreendida fumando maconha no estacionamento ou a que dá uma peça íntima para um aluno com problemas de relacionamento). Devo confessar que Cameron faz um papel tão oco com grande desenvoltura, pose, biquinhos, rebolado e modelitos provocativos, mas tudo isso já vimos antes em filmes melhores e piores de sua filmografia. Prestes a completar quarenta anos, a atriz terá que começar a repensar os rumos de sua carreira, depois de trabalhar com diretores renomados como Martin Scorsese, Spike Jonze, Terry Gillian e Oliver Stone, a loura anda precisando de uma forcinha para ser levada a sério novamente. Ainda que siga a cartilha do politicamente incorreto da primeira até a última cena, Professora sem Classe é mais um filme para ver e esquecer. Apesar do sucesso dessa bobagem, Cameron sabe que precisa rebolar daqui para frente, está no filme com roteiro dos Irmãos Cohen a ser filmado por Michael Hoffman (chamado Gambit) e juntará forças com Jennifer Lopez em O que Esperar quando se está Esperando (que deve ser outra bobagem, mas J.Lo nunca foi chegada numa baixaria, ainda mais agora que vive fazendo filmes sobre gravidez!), veremos o que o ano novo reserva para Cameron.

Professora sem Classe (Bat Teacher/EUA-2011) de Jake Kasdan com Cameron Diaz, Jason Segel, Lucy Punch e Justin Timberlake. ☻

DVD: RED - Aposentados e Perigosos

RED: 56, 74, 58 e 66 anos ainda na ativa.

Desde que recebeu seu Oscar por A Rainha (2006), a inglesa Helen Mirren tem variado bastante os filmes em que tem aparecido, além de filmes sérios (A Última Estação/2009), animações (A Lenda dos Guardiões/2010), passando por comédias recicladas (Arthur, o Milionário Irresistível/2011), filmes infantis (Coração de Tinta/2008) e até filmes de ação como este RED. O filme do desconhecido Robert Schwentke era uma das grandes apostas do verão americano em 2010 e conseguiu até relativo sucesso, rendendo uma boa sessão da tarde para os carentes de comédias de ação no estilo Máquina Mortífera. Baseado em uma história em quadrinhos, RED (abreviação em inglês para Aposentado e Extremamente Perigoso) conta uma história com ex-agentes da CIA que suspeitam de uma conspiração envolvendo o candidato a vice-presidente dos EUA. A tal conspiração é para liquidar agentes envolvidos numa missão que revelaria o passado obscuro do candidato - ou pelo menos é isso que eles pensam. Bruce Willis é o protagonista Frank Moses que tentava levar uma vida tranquila enquanto flertava com Sarah (Mary Louise Parker), mas acaba sofrendo um atentado e tendo que reunir seus amigos  para salvar a pele, um deles é Joe (Morgan Freeman) que vive sossegado numa casa de repouso, já Marvin (John Malkovich) perdeu vários parafusos em suas missões secretas e sua mente paranóica é mais prestativa do que os outros podem imaginar, para completar o grupo está Victoria (Mirren), a melhor do ramo da "limpeza" - e que carrega um affair mal resolvido do passado com Ivan Simanov (Bryan Cox, ótimo). Apesar de algumas cenas de ação elaboradas e muitas piadinhas, RED não entrega tudo o que promete. É o tipo de filme a que se assiste para passar o tempo e nada mais. Os atores fazem o que podem com personagens unidimensionais e parecem mais se divertir (especialmente Helen Mirren com armas na mão) do que atuar. Rovert Schwentke ainda precisa comer bastante arroz com feijão para se tornar um mestre neste tipo de filme, fica a dica para que no próximo projeto não se concentre somente em ter um elenco de primeira, mas em desenvolver melhor os seus personagens. Tudo em RED é tão simples que a premissa interessante acaba desenvolvida com certo desânimo, especialmente na primeira metade da sessão que se arrasta enquanto Frank reúne seus amigos. Sorte que um elenco desses reunido já vale a visita, prova disso é que em meio às comédias esqueléticas de 2010 o filme conseguiu uma indicação ao Globo de Ouro de Melhor Filme de Comédia ou Musical. Deixando o filme um pouco de lado, interessante notar como os atores principais continuam aparecendo em vários filmes mesmo com a idade avançada - o que me fez pensar nisso é que Richard Dreyfuss faz um papel pequeno no longa, o que acabou se tornando uma constante para ele, que era um dos atores mais celebrados da década de 1980 e 1990 (décadas que são a clara referência de RED). 

RED - Aposentados e Perigosos (RED/EUA-Canadá-2010) de Robert Schwentke com Bruce Willis, Morgan Freeman, Helen Mirren, Mary Louise Parker, John Malkovich, Bryan Cox, Richard Dreyfuss e Keith Urban. ☻☻☻

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Combo: Shakespeare Revisitado

Na década de 1990 se tornou moda adaptar Shakespeare de forma mais moderninha. Alguns preferem mudar o contexto histórico dos fatos, outros trazem as tramas para nossos dias ou optam por abordagens inusitadas da obra do bardo inglês. Este são os cinco filmes que considero os mais notáveis em suas releituras de Shakespeare.

05 Hamlet (2000) O texto mais famoso de Shakespeare já rendeu longas fiéis estrelados por Laurence Olivier (1948),  Kenneth Branagh (1996) e até Mel Gibson (1990), mas só um cineasta independente teria a ideia de transportar o algo de podre no reino da Dinamarca para... uma locadora?! O cineasta Michael Almereyda convidou Ethan Hawke para dar vida à uma versão moderninha do príncipe que não sabe se é ou não é! No filme Hamlet é um jovem aspirante à diretor de vídeos digitais. Seu pai que era diretor da Corporação Dinamarca com sede em Nova York morreu recentemente e seu tio Claudius (Kyle McLachlan) assumiu não apenas seu posto de diretor, mas o papel de esposo da viúva Gertrude (Diane Venora). As coisas complicam  mesmo quando Hamlet é assombrado pelo espírito do pai que clama por vingança! Entre angústias e desesperos o rapaz ainda encontra tempo para flertar com Ofelia (Julia Stiles em outra adaptação moderninha de Shakespeare). Apesar da modernizada, Almereyda também privilegia as falas originais do texto o que deixa Hawke visivelmente desconfortável, ainda assim o filme é interessante. 

04 Romeu + Julieta (1996) Se há quem enxerga méritos nas desventuras de Julie Taymor na obra de Shakespeare, esta pessoa deveria lembrar que Baz Luhrman fez o mesmo que ela, mas com resultado muito mais atraente neste filme com Leonardo DiCaprio (premiado no Festival de Berlim) e Claire Danes. Luhrman transporta o amor proibido dos personagens para Verona Beach e recheia os conflitos de Montéquios e Capuletos como se fosse uma briga de gangues. Apesar do visual moderninho (que inclui trilha sonora esperta com artistas que estavam no auge como Radiohead, Garbage e Cardigans) o diretor optou por manter o texto original na íntegra deixando muita gente boquiaberta ou simplesmente desconfortável. Apesar de todo o frenesi e ousadias narrativas (como o padre tatuado de Pete Postlethwaite e o Mercucio Drag Queen), Luhrman sabia exatamente os momentos certos de desacelerar e deixar DiCaprio e Danes viver os personagens mais famosos de Shakespeare. Atenção para Paul Rudd como pretendente de Julieta!

03 10 Coisas que Eu Odeio em Você (1999) A Megera Domada deve ser o texto cômico mais famoso do bardo inglês e Hollywood foi bastante esperta ao fazer essa versão para adolescentes - com menção honrosa para quem teve a ideia de escalar Julia Stiles (que anda sumida, mas que foi considerada uma  revelação na época)  para ser Katherina (ou melhor Kat) e o australiano Heath Ledger (logo alçado ao posto de maior promessa de Hollywood) para ser Petruchio (oops, quero dizer, Patrick). A trama é bem simples: Bianca (Larisa Oleynik) só pode namorar depois que sua irmã mais velha, também namorar. Sendo assim, a caçula tenta arrumar um namorado para Kat. Ela tenta ajeitas as coisas com Cameron (Joseph Gordon-Levitt) mas Kat é uma garota de opiniões fortes e que detesta o óbvio! Talvez seja por isso que seu coração bata mais forte quando se mete em intrigas e discussões com o rude Patrick. Adaptando a trama para uma autêntica High School americana o filme de orçamento modesto rendeu o dobro nas bilheterias!

02 Gnomeu e Julieta (2011) Nem Franco Zefirelli ou Baz Luhrman consequiriam ter uma ideia tão descolada do que fazer uma animação no clássico Romeu e Julieta - e o mais legal, utilizando enfeites de jardim! O filme é prova de que manter-se fiel ao texto shakesperiano pode acontecer das formas mais inusitadas. Gnomeu (voz de James McAvoy) e Julieta (Emily Blunt) são anões de jardim cujas famílias são vizinhas e rivais e terão de enfrentar vários obstáculos para viver seu amor. O resultado é um filme simpático ainda que voltado especialmente para o público infantil (o que prova que a obra do escritor transcente tempos e espaços, pertencendo à cultura pop mundial). Destaque para a trilha de Elton John (uma delas, a simpática "Hello Hello" chegou a concorrer ao Globo de Ouro e está cotada para o Oscar).  Despretensioso e divertido o filme foi um grande sucesso nos cinemas.

01 Ricardo III  (1995) Pegue uma adptação Shakesperiana e coloque Ian McKellen como protagonista seguido de coadjuvantes do porte de Annete Benning, Maggie Smith, Kristin Scott Thomas e Robert Downey Jr. Parece bom? E se eu disser que a trama transporta um usurpador traiçoeiro do trona da época vitoriana para a ascenção fascista na Europa? Sir McKellen já havia levado esta versão escrita por ele mesmo aos palcos londrinos e recebeu elogios e prêmios - a adaptação para o cinema era inevitável. O resultado é um filme de cores fortes, pulsantes e audaciosas ao exibir um protagonista sem escrúpulos (em mais um desempenho espetácular de Ian) que é capaz até de conversar com a câmera enquanto planeja suas atrocidades. Moderno e nada recitado, Ricardo III foi premiado em Berlim pela direção precisa de Richard Loncraine e levou dois prêmios BAFTA dos cinco a que concorria. O filme anda meio esquecido, mas vale ser visto por sua coragem de não ter medo de ser denso. 

DVD: A Tempestade

Wishaw e Mirren: visual moderno para encenação antiquada.

Existe algo esquisito quando fico sabendo que Julie Taymor está realizando um novo filme, sinto mais do que desconfiança ao ver seu nome envolvido em qualquer projeto. Eu gostaria de evitar isso, mas é maior do que eu. Taymor entrou pela porta de Hollywood depois de seu sucesso na Broadway com a versão musical de O Rei Leão da Disney. Desde então ela tenta se firmar no cinema. Sua primeira tentativa foi uma versão desequilibrada  do Shakesperiano Titvs (1999) onde o visual anacrônico quase repelia o texto na boca de atores do porte de Anthony Hopkins e Jessica Lange, mas enquanto o visual tentava ser moderninho, sua encenação mostava-se bem antiquada. Era tudo recitado, arrastado como a grande maioria das adaptações do bardo inglês para o cinema - já que a maioria dos cineastas parece desconhecer que o texto shakesperiano foi feito para o teatro e não para o cinema, esquecendo de fazer uma adaptação do texto para o formato da sétima arte. Depois ela voltou a tropeçar com Frida (2002), mas conseguiu chegar às premiações pela atuação de Salma Hayek para depois se aventurar num musical calcado nas canções do Beatles chamado Across The Universe (2007) que é tão irregular quanto todos os seus outros filmes. Depois de passar maus bocados com a versão teatral de Homem Aranha, Taymor voltou "às suas raízes shakesperianas" em seu novo filme e durante a produção novos fatos me causavam arrepios. Se por um lado transformar Próspero em Próspera (encarnado por Helen Mirren) pode empolgar, por outro, a sua mania de dar uma modernizada visual numa encenação careta permanecia. Taymor tem um senso estético apurado (apesar de neste aqui alcançar seus momentos mais cafonas como os efeitos especiais toscos que insere o espírito parceiro de Próspera atazanando seus inimigos), mas ela ainda não descobriu que não é cineasta. Tudo que o visual de seus personagens e locações pode ter de fascinante é estragado pela forma primária com que adapta um texto tão rico quanto Shakespeare. Taymor deixa seus atores à deriva nas emoções pedidas pelo texto, alcançando um resultado frio e impessoal bem distante da voltagem shakesperiana. Obviamente que os quem é bom se salva (como Mirren, David Strathairn que vive o seu irmão e a novata Felicity Jones que vive a filha de Próspera), outros se deixam levar pela fala recitada de gestos largos (Alan Cumming, Chris Cooper, Djimon Hounsou, Alfred Molina...) como se a tela não permitisse que as pessoas da última fileira entendessem sua atuação assim como os da primeira. Claro que Taymor ainda é arrogante o suficiente ao ponto de achar que poderia conduzir o sofrível Russel Brand num papel shakesperiano, o resultado beira o grotesco. Se em comédias idiotas o cara já é um chato, imagine recitando o texto rebuscado! No meio de tanta confusão pouca coisa se salva da trama sobre a feiticeira banida para uma ilha por motivos políticos e que provoca uma tempestade para se vingar de seus algozes em alto mar. A tal tempestade irá colocá-los na mesma ilha que ela vive há anos isolada com sua filha - e o confronto será inevitável, mas até isso acontecer, Taymor não faz a mínima ideia de como desenvolver as cenas que mais parecem um rodízio de esquetes. Entre nobres conspiratórios, um bêbado, um "monstro" e um rapaz enamorado por sua filha, tudo é desenvolvido da forma mais óbvia possível. Fracasso absoluto de público e crítica (o filme custou 20 milhões dólares e rendeu pouco mais de 200 mil), o filme resulta pretensiosamente confuso e presta só pelas atuações de Mirren, Strathairn e Felicity (somente pelo esforço dos três o filme não recebeu uma cotação mais baixa). Porém (assim como em Titvs) Taymor garantiu uma vaga na disputa ao Oscar de figurino no ano passado. Julie Taymor deve ter um bocado de amigos poderosos nos estúdios que acreditam que ela um dia aprenderá a ser uma cineasta. 

A Tempestade (The Tempest/EUA-2010) de Julie Taymor com Helen Mirren, David Strathairn, Felicity Jones, Allan Cumming, Ben Wishaw e Chris Cooper. ☻