sexta-feira, 24 de outubro de 2014

DVD: O Nosso Segredo

Ralph e Felicity: ótimos atores sem química. 

Felicity Jones é uma atriz que descobri quase que por acaso. O mais engraçado é que a cada novo trabalho me torno mais fã dessa jovem atriz inglesa de trinta anos (embora ela pareça ser mais jovem). Descobri Felicity em A Tempestade/2010 , mais uma versão sonolenta de uma obra shakesperiana que se achou modernosa, mas uma das poucas coisas que salvava era a atuação de Felicity. Depois especularam seu nome para as premiações com Loucamente Apaixonados/2011 e a coisa se repetiu com esse O Nosso Segredo (nome menos interessante que o original: "A Mulher Invisível"). Felicity vive a doce jovem atriz Nelly, moça humilde pela qual o renomado escritor Charles Dickens (vivido por Ralph Fiennes) nutre uma paixão instantânea assim que a vê numa montagem teatral em que divide o palco com ela. Nelly fazia parte de uma família modesta de atrizes que vivia de pequenos espetáculos e Dickens era casado com uma mulher que lhe deu vários filhos (todos homens). Todo mundo percebia a atração que o escritor, vários anos mais velho que Nelly, sentia por ela, mas o fato é que demorou bastante para que ele conseguisse convencê-la a envolver-se com ele. Afinal de contas, na sociedade de 1850 o escândalo era certo, assim como os prejuízos para as carreiras de ambos (mais ainda para a dele, cultuado já em seu tempo). O fato é que por mais que o casal Dickens tivesse um casamento de fachada, deveria perdurar até que a morte os separasse. Em seu segundo longa metragem na direção, Ralph Fiennes erra (como ator) por demorar para encontrar o tom certo para Dickens, ele aparece exagerado, histriônico, quase histérico em sua euforia que ao invés de contagiar, pode aborrecer a plateia. Como diretor ele erra na edição truncada. Felicity caminha para o lado oposto, revelando aos poucos as virtudes de sua personagem, que teme pela sua honra e não sabe se o que sente é medo da polêmica ou da atração que sente por um homem mais velho e casado. São personagens interessantes, sem dúvida, mas que padecem da falta de química entre seus protagonistas. O fato é que não existe entre Ralph e Felicity a faísca necessária para o público se envolver na história de amor que vivem na tela. Da mesma forma, a história de amor fica comprometida pela edição confusa desnecessária que mostra Nelly depois do relacionamento com Dickens para depois contar o que houve entre ela e o escritor. No final, o espectador percebe que deveria haver um segredo entre esse fato no passado da personagem, mas o resultado é tão confuso que ficou difícil de perceber que a tal mulher invisível era um mistério daquele tempo. Por conta dos tropeços da montagem picotada, a história demora muito para decolar, deixando tudo muito cheio de lacunas e mistérios que dramatizam a história, mas não recebem o merecido acabamento no roteiro. No fim das contas, fica a sensação de que vários bons atores coadjuvantes foram desperdiçados em personagens sem brilho (Kristin Scott Thomas, inclusive) e algumas belas cenas de Felicity (especialmente na cena em que sua personagem percebe que não há futuro ao lado de Dickens), mas o Oscar lembrou mesmo foi de indicar o figurino elaborado para a produção. Por enquanto Ralph Fiennes continua me convencendo mais como ator do que como diretor (e Felicity Jones tenta estar mais uma vez no páreo do próximo Oscar com The Theory of Everything, onde vive a esposa do físico Stephen Hawking... desejo-lhe sorte).

O Nosso Segredo (The Invisible Woman/Reino Unido-2013) de Ralph Fiennes com Felicity Jones, Ralph Fiennes, Kristin Scott Thomas, Tom Burke e Michael Marcus. ☻☻

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

DVD: O Lobo Atrás da Porta

Leandra e Milhem: encontro dos lobos.

O Lobo Atrás da Porta foi um dos filmes mais elogiados do ano, quase sendo o escolhido para defender o Brasil em uma vaga ao Oscar de filme estrangeiro (perdendo a pré-indicação para Hoje Eu Quero Voltar Sozinho). Marcando a estreia do diretor Fernando Coimbra em longa metragem, torna-se notável o seu esmero em fugir de lugares comuns, evitando gracinhas e não tendo medo de ser desagradável nos momentos certos. Nota-se essa desenvoltura na escolha de locações que parecem construir outro Rio de Janeiro em nosso imaginário cinematográfico. Centrado em municípios da periferia, não há nada de cartão postal nas locações, sendo que quando aparece algo que se assemelhe a isso, é no momento em que a plateia já está com o coração na mão - e percebe de que já conhecemos aquela história, mas pelo viés do sensacionalismo - que não é o que vemos aqui. Coimbra opta por construir um quebra-cabeça humano, repleto de ilusões, decepções e atrocidades a partir do desaparecimento de uma garotinha na saída da escola. A partir do sumiço, começam as investigações que apontam para um sequestro. É a partir, principalmente dos depoimentos da mãe (Fabiúla Nascimento) e do pai (Milhem Cortaz) que tomamos conhecimentos dos suspeitos e o caminho que o filme pode seguir. Até então, nem o espectador sabe direito em qual gênero encaixar o filme. Suspense? Drama? Terror? O Lobo continua escondido até que através dos flashbacks milimetricamente encadeados, o espectador começa a ajustar o foco e perceber do que trata a história. É quando conhecemos a principal suspeita que o filme revela outras virtudes. É a atuação perfeita de Leandra Leal que serve para revelar os segredos que as entrelinhas do sequestro não conseguem esconder. Teria a mãe chorosa um amante vingativo? Ou é a esposa do tal amante que quer se vingar? E o pai, seria um sujeito confiável? Além do suspense que cresce entre silêncios e diálogos (às vezes torturantes), o que sustenta é o drama vivido pelos personagens, especialmente a de Leandra. Uma jovem que  apaixona-se pela pessoa errada e sofre consequências que nem imaginaria. Leandra Leal tem aqui outro grande momento, mostrando que sabe crescer diante das câmeras, numa personagem complexa que ganha nossa simpatia enquanto o diretor tece uma trama cheia de crueldades. Ao fim da sessão, vemos que não existe apenas um lobo na história, mas que apenas um deles é capaz de admitir o crime que cometeu e, ainda assim, contentar-se com uma satisfação que não pode ser compreendida por ninguém mais além de si. Coimbra realiza um filme perturbador, especialmente por humanizar alguém que poderíamos ver apenas como um monstro amoral. 

O Lobo Atrás da Porta (Brasil/2014) de Fernando Coimbra com Leandra Leal, Milhem Cortaz, Fabiúla Nascimento, Juliano Cazarré e Tamara Taxman. ☻☻☻☻

domingo, 19 de outubro de 2014

§8^) Fac Simile: Hugh Jackman

Nosso repórter imaginário nem acreditou quando , andando por uma rádio australiana, encontrou com Hugh Jackman em uma rara entrevista em seu período de férias pós a última aventura dos X-Men na telona. Fac não perdeu a oportunidade e perguntou se poderia lhe fazer cinco perguntas nessa entrevista - que nunca aconteceu:

§8^) Quando o Wolverine se pesa ele desconta o peso do esqueleto de adamantium?

Hugh: Não faço a mínima ideia. Ainda não parei para pensar nessas coisas. Mas de vez em quando eu me pergunto como o Superman, que é de aço, consegue cortar o cabelo ou cortar a unha!

§8^) Falando em unha, quando suas garras saem, não sente dor?

Hugh: Bem... no início doía um pouco, mas com o avanço dos efeitos especiais eu não preciso me dar a esse trabalho. 

§8^) Você vive tentando levar para o cinema seu musical premiado The Boy From Oz, mas nunca consegue. Acha que tem um pouco de preconceito por seu personagem ser gay?

Hugh: Pode ser. As pessoas ainda vão no cinema e me veem como Wolverine. Se eu levantar o tom ou me tornar um pouco mais agressivo eles já dizem "pronto, virou Wolverine!". Ouvi muito isso quando fiz Fonte da Vida (2006) e Suspeitos (2013), mas acho que se eu fizesse algo totalmente diferente metade das pessoas poderiam ficar chocadas esperando pelas garras aparecerem...

§8^) Você acabou de completar 46 anos, mas vive aparecendo sem camisa em seus filmes para mostrar que ainda está em forma. Já me disseram até que irá apresentar o Oscar novamente, mas sem camisa que é para levantar a audiência que anda caída. Sua esposa não ficará com ciúme? Vai me dizer que ela nunca soltou a Wolverina que tem dentro dela com o assédio?

Hugh: KKKKKKKKKK! Minha esposa tem um pouco de ciúmes, mas acho que é normal. Mas o casamento é mais do que eu ficar sem camisa por aí. Quanto ao Oscar, não está nos meus planos... até porque ele pediram para eu me depilar para o serviço e eu desisti... rs. 

§8^) Alguns personagens de X-Men já apareceram vividos por atores mais jovens, quem você gostaria que vivesse o Wolverine juvenil?

Hugh: Eu mesmo, oras! Eu nunca envelheço!

DVD: Os Suspeitos

Jake e Jackman: a verdade liberta no fim do labirinto? 

Recentemente em cartaz com o controverso O Homem Duplicado (2014), o canadense Denis Villeneuve comprovou que anda obcecado com a ideia da "verdade". Afinal, todo mundo queria saber o que havia por trás dos sósias vividos por Jake Gyllenhaal na trama inspirada no livro de José Saramago (e quando chegamos no final nos deparamos com apenas um nó gigantesco). Essa obsessão começou em seu quarto longa-metragem, o excepcional Incêndios (2010), que merecia o Oscar de filme estrangeiro a que foi indicado (e recentemente recebeu uma montagem teatral no Brasil estrelada por Marieta Severo) ao contar a história do casal de irmãos que buscam a identidade do filho perdido de sua mãe e acabam encontrando muito mais do que isso. Em Os Suspeitos (2014) o diretor até engana os fãs, fazendo-os pensar que contará uma história de suspense tradicional nos moldes de Hollywood, mas aos poucos mostra que seu interesse é criar um universo muito maior que as limitações do cinemão comercial. Um universo que se assume como um labirinto, onde as paredes que complicam o caminho são feitas de carne e osso, pessoas com suas suas subjetividades forjadas em dramas pessoais que lhes constituíram em qualidades e defeitos. Talvez por esse motivo eu prefira o título em inglês, que traduzido fielmente seria Prisioneiros, independente de ser cativeiros, celas ou percepções da realidade, todos os personagens estão presos às suas histórias. Por isso, a verdade do filme parece cada vez mais turva, os papéis de mocinhos e bandidos mudam de uma hora para outra numa busca pela saída do labirinto instituído pelo roteiro engenhoso de Aaron Guzilowski. A trama gira em torno do sumiço de duas meninas, filhas dos casais de amigos formado por Keller (Hugh Jackman) & Grace (Maria Bello) e  Nancy (Viola Davis) & Frank (Terrence Howard). As suspeitas recaem sobre o motorista de um trailer que rondava a vizinhança no dia do desaparecimento, que ao ser encontrado, parece inofensivo com seu histórico de problemas mentais. O suspeito Alex Jones (Paul Dano, em mais um dos papeis estranhos que adora fazer) ficou órfão ainda criança e foi criado pela tia (Melissa Leo). Embora seja um rapaz estranho, a polícia o considera inocente e o liberta para o desespero de Keller e do detetive encarregado do caso, Loki (Jake Gyllenhaal) - que percebe problemas à vista... Num encontro desastroso na saída da delegacia, Keller tem a certeza que que Alex é o culpado pelo desaparecimento da filha e, enquanto a esposa mergulha em tranquilizantes, Keller resolve fazer justiça com as próprias mãos. Neste ponto, Villeneuve coloca seu espectador num dilema moral diante das torturas a que Alex será submetido. Sem glamourizar a violência, Villeneuve mostra o processo de desumanização de um homem que começa o filme rezando o Pai Nosso (enquanto ensina o filho adolescente a atirar num animal) e transformado numa fera, Keller está tão cego na verdade que acredita para aliviar sua dor, que não percebe o quanto está fora de controle. Afinal, provas concretas de que a culpa é de Alex não existem. Paralelo a isso, as investigações se deparam com outros desaparecimentos de crianças que se acumularam ao longo dos anos, além de um padre que guarda um cadáver no porão e um homem estranho que rabisca labirintos compulsivamente. Conforme o filme avança as soluções parecem cada vez mais distantes e o que era para guiar à solução, mostra-se um conjunto de estranhezas, crimes e fusões de histórias aparentemente sem ligação. Villeneuve cria um filme complexo, cheio de elementos e analogias (perceba quantas vezes os personagens se deparam com buracos negros literais, separando o conhecido e o desconhecido) valoriza ainda mais pelo excelente elenco. Os Suspeitos só não é perfeito porque exagera um pouco no desfecho que é quase feliz. Trata-se de um trabalho complicado, mas que ilustra com perfeição as obsessões de seu diretor, afinal, a verdade pode não ser tão lógica e agradável como nós pensamos. 

Os Suspeitos (Prisioners/EUA-2013) de Denis Vileneuve com Hugh Jackman, Jake Gyllenhaal, Viola Davis, Maria Belo, Paul Dano, Melissa Leo, Terrence Howard e Dylan Minnette. ☻☻☻☻

DVD: Queda Livre

Koffler e Riemelt: romance proibido. 

Alardeado como o Brokeback Mountain (2005) alemão, Queda Livre fez sucesso em festivais com sua temática de romance entre dois homens, mas ficou conhecido entre um público bastante restrito. A história dos dois policiais que se apaixonam e passam a se encontrar escondido não traz nenhuma novidade, mas ganha pontos pelo tratamento cuidadoso com os sentimentos dos personagens (que parece mais angústia do que amor em determinados momentos). O policial Marc Borgman (Hanno Kofler) é casado e sua esposa está prestes a dar à luz ao primeiro filho do casal quando ele reencontra um colega de academia que o assediou durante o treinamento. Se no passado Marc afastou de Kay (Max Riemelt) qualquer esperança, quando os dois se encontram anos depois, Marc começa a sentir que seus sentimentos mudaram perante as investidas do colega. Queda Livre capricha nos dramas de Marc, especialmente pela forma como mergulha numa relação diferente, mas que afeta diretamente seus deveres enquanto esposo e pai - sem contar o medo dos preconceitos que encontrará pelo caminho. Com relação aos preconceitos, Kay é o mais afetado, já que aos poucos seus colegas de profissão descobrem suas preferências e os desentendimentos no trabalho são constantes - e seu amante evita envolver-se, já que Marc percebe que poderá acontecer o mesmo com ele, com o agravante de destruir sua família. Entre os sentimentos e as mentiras que os camufla, o filme se desenvolve lentamente, até que o escândalo é inevitável. Apesar do nome em português, o cineasta Stephan Lacant conta sua história com o freio de mão puxado até o último ato. Queda Livre é um filme bem feito, tem duas ou três cenas ousadas, mas conduzidas com discrição o que o torna palatável para o público em geral, no entanto, está longe de ser brilhante. Embora alguns possam achar uma coisa "nova" os seus personagens fugirem dos estereótipos tradicionais (o que ressalta a atuação de seus protagonistas), o filme não chega a ser memorável. Trata-se de um filme bem realizado e com aquele final melancólico que conhecemos desde o início. Para quem curte romances proibidos o filme agrada, independente de se tratar de dois homens em cena. 

Queda Livre (Freier Fall/Alemanha-2013) de Stephan Lacant com Hanno Koffler, Max Riemelt, Attila Borlan, Katharina Schuttler e Oliver Bröcker. ☻☻☻

sábado, 18 de outubro de 2014

Na Tela: Será Que?

Radcliffe e Kazan: entre o moderno e o antiquado. 

Depois de desafiar seus fãs dos tempos de Harry Potter em cenas de terror (A Mulher de Preto/2012 e o inédito por aqui O Pacto/2014), homossexualismo (Versos de Um Crime/2013) e humor maluco  (Diário de Um Jovem Médico/2013-2014), Daniel Radcliffe resolveu relaxar em uma comédia romântica. É verdade que apesar de todo clima moderninho, o inofensivo Será Quê? não será lembrado dias depois que for assistido - mas serve para mostrar que Daniel cresceu como ator e mostra-se versátil para transitar em vários gêneros. Desde que aposentou a varinha do bruxinho mais famoso do mundo, a crítica reconhece que ele cresceu muito como ator, já que mostra-se cada vez mais confiante e disposto a vencer seus pudores. Radcliffe dedica todos os elogios que recebe ao teatro, onde acredita ter lapidado sua atuação e aprendido a ter mais consciência de corpo e voz. Será Quê? é o filme mais leve de sua vida pós-Potter, as meninas podem até gostar do filme, mas os garotos terão que fazer um grande esforço para não roncar. Daniel vive Wallace, jovem britânico que pensa na vida sentado no telhado de casa após o término de um namoro de vários anos (o que remete à beira do abismo). Eis que uma noite resolve ir na festa de Allan (Adam Driver), seu melhor amigo, e cruza o caminho de Chantry (Zoe Kazan) - uma menina esperta que trabalha com animação (detalhe que tenta incrementar a trama com uma fadinha que vive voando pelas cenas, mas que é uma ideia solta e mal aproveitada). Obviamente que os dois vão se apaixonar, embora, o casalzinho fique cheio de pudores porque a garota é comprometida com Ben (Rafe Spall) que mostra-se cada vez mais distante da namorada. O filme tem algumas gracinhas e tudo é adocicado demais no decorrer da trama, todos são muito bobinhos e agem como se fossem mais jovens do que realmente são, ou seja, os relacionamentos são sérios, enquanto quem os vive não o é (conforme a cartilha tradicional do gênero). Parece implicância, mas, com exceção de Wallace, os personagens podem ser até simpáticos, mas são são muito artificiais, talvez por isso seja tão difícil engolir a cena em que Chantry mostra-se ofendida (?!) quando Wallace declara seu amor por ela (mesmo que ela esteja doida para cair nos braços dele). Apesar de alguns palavrões e uma cena (quase) picante na praia, o filme do diretor Michael Dowse é menos do que imagina, sendo bastante pudico. Existe um tom até antiquado no que poderia ser um triângulo amoroso eficiente se os personagens não fossem tão unidimensionais. Não me admiro que Daniel Radcliffe tenha escolhido o roteiro para dar um afago em suas fãs que cresceram vendo o mocinho crescer na telona, Wallace é o personagem mais desenvolvido na trama... mas será que isso basta para que você torça por ele em mais de hora e meia de projeção?

Será Quê? (What if ? / Irlanda - Canadá/2013) de Michael Dowse com Daniel Radcliffe, Zoe Kazan, Adam Driver, Rafe Spall e Megan Park. ☻☻

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

NªTV: Gotham

Gotham: cidade corrompida à procura de um herói.

Depois que a Marvel lançou a série Marvel's Agents of S.H.I.E.L.D - que aprofunda alguns personagens coadjuvantes de seus heróis no cinema, a DC Comics correu para lançar o seriado Gotham sobre a lendária cidade de Batman servindo de pano de fundo para a trajetória do policial James Gordon - antes de virar o Comissário Gordon (vivido nos filmes recentes por Gary Oldman). Obviamente que trabalhar o embrião da cidade que precisa de um justiceiro mascarado pede para que a gênese dos vilões clássicos dos quadrinhos seja trabalhada. Gotham parte de uma premissa irresistível para os fãs do Homem-Morcego e seu criador, Bruno Heller (das séries Roma e The Mentalist), sabe disso - tanto que evita o tom juvenil de outras séries baseadas no universo da DC... mas tem o grande desafio de criar um ambiente coerente para o aparecimento de Batman. Pra começar parece até covardia que no meio de tantos vilões (na polícia inclusive), James tenha uma dura trajetória pela frente na pele de  Ben McKenzie (o astro da série The O.C.). McKenzie consegue injetar em seu personagem um equilíbrio eficaz entre testosterona e caráter num ambiente cada vezm mais sórdido - onde vilões antológicos ganham seus primeiros contornos a partir da morte dos pais de Bruce Wayne (que formavam o casal mais respeitado e influente da cidade). Outro desafio da série é criar os traços no pequeno Bruce (ainda um garoto vivido por David Mazouz) para que possamos visualizar nele o futuro herói da cidade - e ainda existem outras crianças importantes na história como Celina Kyle (Camren Bicondova, que não por acaso é uma versão adolescente de Michelle Pfeiffer) e Ivy (Clare Foley) que tem seu pai assassinado pela polícia. No entanto, o maior interesse da série está nos vilões crescidos, como o mafioso Falcone (Mark Vincent) que tenta dominar o crime na cidade. Com Edward Nigma (Cory Michael Smith) longe de ser o Charada e Harvey Dent (Nicholas D'Agosto) sem pensar em ter Duas Caras, o foco recai sobre um dos vilões mais subestimados desse universo depois que Christopher Nolan repaginou o mundo de Batman, trata-se de Pinguim. Distante do jeito cômico em que foi concebido, Pinguim oferece ao ator Robin Lord Taylor o desafio de ser primeiro grande vilão da temporada. Transformado num psicopata de visual emo, Oswald Cobblepot só não tem mais ódio ao apelido que o tornará famoso  do que pelo braço direito de Falcone, a traiçoeira Fish Mooney (Jada Pinkett-Smith, a belíssima esposa do Will num personagem criado especialmente para a série) que encomendou sua morte. Diante de tantos artifícios, a série tropeça quando Bruno Heller impõe a perigosa rotina de ter um crime para resolver a cada episódio, o que é mostrado nem sempre de forma empolgante. Quando aborda os personagens que a plateia quer ver a série funciona melhor, mas quando tem crimes praticados por desconhecidos o que vemos é uma versão pobre de tantos outros seriados investigativos. Com seus três primeiros episódios exibidos pela Warner nas noites de segunda (no exterior a série é um projeto da FOX), a série já mostrou que pode ser uma das melhores da temporada se impor sua personalidade própria ao apresentar o ambiente que forja a gênese de Batman e seus inimigos. Se o caos se anuncia na trama do seriado, enquanto programa ele pode aparecer de outra forma se não conseguir controlar sua necessidade de ser convencional. Assim, Gotham pode seguir dois caminhos distintos: enriquecer ainda mais o universo de Batman ou empobrecê-lo com subterfúgios inúteis (como criar uma Barbara Gordon problemática ou um Alfred severo demais), sendo assim, é bom saber que a primeira temporada estendida de 16 para  22 episódios (graças ao sucesso de audiência) oferece a Heller mais tempo para colocar alguns pontos no eixo do programa. 

Gotham (EUA-2014) de Bruno Heller com Ben McKenzie, Donal Logue, Jada Pinkett Smith, Robin Lord Taylor, Erin Richard, Camren Bicondova, Sean Pertwee e David Mazouz. ☻☻☻

DVD: Malévola

Jolie: estado de graça em clássica vilã da Disney.

Consagrado como um dos maiores sucessos do ano, Malévola comprova o poder de fogo de Angelina Jolie perante o público. Parece óbvio, mas uma atriz ser valorizada nas bilheterias é algo mais complicado do que parece (Nicole Kidman que o diga!), basta perceber quanto os salários das atrizes é menor do que dos atores. Ainda que Jolie seja a atriz mais bem paga do cinema, seu salário ainda é inferior ao maior de Hollywood (que é Robert Downey Jr. que por conta da popularidade de Homem de Ferro chega a receber 50 milhões para dar as caras num filme da Marvel). Talvez cansada desse mercado machista, Jolie vive declarando que irá se aposentar da carreira de atriz (e por isso a expectativa pelo seu novo filme como diretora, o drama Invencível,  está nas alturas). Nem parece, mas a imagem de Jolie ficou afastada quatro anos das telas (tempo suficiente para se recuperar do mico O Turista/2010 e cuidar da saúde). O fato é que a esposa de Brad Pitt precisou apenas catapultar a versão moderna de A Bela Adormecida (1959) para o topo das bilheterias - e nos lembrar do valor que possui em Hollywood. Ao encarnar uma das vilãs mais populares da Disney os críticos foram unânimes em declarar que sua atuação é melhor do que o filme precisava - e isso fez diferença na perspectiva de quem comprou o ingresso. Malévola, conta a história nas entrelinhas da clássica história de Charles Perrault, mostrando a maldição da princesa Aurora (a sempre confiável Elle Fanning) pela ótica da vilã. Todo mundo sabe que Malévola amaldiçoa a princesa ainda bebê para que, quando crescida, ela espete o dedo numa roca de fiar e adormeça até receber um beijo do verdadeiro amor. Mas a história de concentra nas motivações de Malévola para realizar tal feitiço - e está longe de ser o fato de não ser convidada para uma festa. Sendo assim, a personagem é apresentada como uma espécie de entidade protetora da natureza que tem sua confiança traída pelo futuro rei Stefan (quando crescido será vivido por Sharlto Copley), o que irá acarretar a história que todos nós crescemos ouvindo. Se existe um problema no filme é obedecer a cartilha de tornar bonzinho clássicos da vilania cinematográfica - a mesma cartilha que repaginou Hannibal Lecter e Darth Vader no cinema contando a "história antes da história". A vantagem é que Angelina Jolie aparece em estado de graça na personagem! Seus olhares, sorrisos e gestos evocam diretamente a personagem que guardamos na lembrança (e a atriz ainda prova estar se divertindo um bocado). No entanto, não podemos esquecer que Malévola é fruto da nova onda hollywoodiana de modernizar clássicos infantis, nesse quesito, torna-se o mais caprichado dentre as releituras com uma história redonda, simples e eficaz - ainda que tenha que lidar com o peso de fazer um ser chamado Malévola ser digna de confiança e atos nobres. Quanto à estreia na direção de Robert Stromberg (profissinal de efeitos especiais), ele sabe que tem melhorar um bocado, por isso fez questão de escolher bons atores para os papéis principais, no entanto, o melhor ingrediente do filme ainda é sua atriz principal.

Malévola (Maleficent/EUA-2014) de Robert Stromberg com Angelina Jolie, Elle Fanning, Sharlto Copley, Sam Riley, Juno Temple, Imelda Staunton, Lesley Manville e Brenton Thwaites. ☻☻☻

sábado, 11 de outubro de 2014

FILMED+: Adeus, Lenin!

A Família: enfrentando a queda do muro de Berlim. 

A Alemanha durante muito tempo foi um retrato perfeito do período da guerra fria. No lado Ocidental, o capitalismo seguia seu rumo enquanto no lado oriental as pessoas abraçavam a causa comunista. É verdade que havia uma tensão representada pelo muro de Berlin e pelas pessoas que queriam atravessar de um lado para o outro. É nesse período que vive a camarada, comunista roxa Srª Kerner (Katrin Zab) que enquanto cria seus filhos, o atencioso Alex (o ótimo Daniel Brühl) e a maluquete Ariane (Maria Simon), leciona numa escola na Alemanha Oriental. Seu passatempo favorito é escrever cartas ao governo reclamando de pequenas irregularidades que presencia no seu cotidiano. No entanto, a vida do lado esquerdo do muro não é fácil com a mão pesada do Estado - que levou até o Sr. Kerner a ir para o outro lado e não voltar mais. Protestos juvenis são constantes e a repressão às vozes dissonantes costuma ser agressiva. Durante um desses embates, a Srª Kerner vê seu filho sendo agredido e o abalo emocional é tão forte que fica em coma por alguns meses. É durante o período em que está inconsciente que o muro de Berlin será derrubado e seu país viverá transformações as quais nunca imaginou. Imersos numa nova realidade que inclui variedades de produtos, franquias multinacionais, Coca-Cola, maior liberdade, pornografia e empregos privados (Ariane começa até a trabalhar num fast food e namorar o gerente)! Enquanto o mundo recebe outras configurações, Srª Kerner acorda, mas o médico diz para Alex que outro abalo emocional poderia ser fatal. Certo de que sua mãe não suportaria as mudanças de seu país, avesso ao socialismo que ela era fiel, Alex arma uma estrutura extraordinária para que ela pense que nada mudou. Para essa tarefa produz programas de TV (com a ajuda do amigo impagável Denis, vivido por Florian Lukas), inventa produtos que não são mais produzidos e pede a ajuda de todos os amigos e vizinhos para que façam a sua mãe pensar que nada mudou. O problema é quando um anúncio da Coca-Cola aparece ao fundo de sua janela, ou quando a senhora vê a estátua de Lênin sendo removida, ou ela querendo fazer uma visita à casa de campo, ou repara o fluxo de carros de sua janela... essas armações engenhosas de Alex fazem de Adeus, Lenin! um dos filmes mais fascinantes de todos os tempos. É verdade que tudo não passa de uma grande mentira que um filho conta para a mãe, embora seja por um motivo nobre, Alex sabe que no fundo também mente para si mesmo e quem o ajuda é porque também enfrenta dificuldades em lidar com todas aquelas mudanças. Becker em momento algum torna seus personagens em sujeitos sórdidos, pelo contrário, são de uma humanidade palpável (valorizada ainda mais pelo elenco espetacular). No fim das contas, o filme revela-se uma grande fantasia, o desejo de como a dualidade entre comunismo e capitalismo poderia ter tomado um outro caminho, aquele que todos os sonhadores militantes imaginavam ser possível. Adeus, Lenin! consegue dar forma ao sonho utópico que desmoronou junto com o muro, mas seu foco maior é na bela história de amor entre mãe e filho. Esse olhar especial - e de dentro de um dos fatos históricos mais importantes do século XX - desperta tanta simpatia que o longa acabou ficando de fora dos finalistas ao Oscar de filme estrangeiro (Hollywood se renderia a uma história alemã sobre comunismo? Jamais, melhor escolher outro filme sobre o holocausto...). Divertido, inteligente e sensível, a obra-prima de Wolfgang Becker (diretor nascido em Herner, na Alemanha Ocidental em 1954, formado em História, com especialização em História alemã e norte-americana) merece ser visto várias vezes com o mesmo sabor de novidade. 

Adeus, Lênin! (Good Bye Lenin!/Alamanha-2003) de Wolfgang Becker com Daniel Brühl, Katrin Zab, Chulpan Khamatova, Maria Simon, Florian Lukas e Alexander Beyer. ☻☻☻☻☻