quarta-feira, 11 de maio de 2016

10+: Irmãos Coen

Com Ave, César! em cartaz no Brasil, resolvi lembrar os dez filmes que mais gosto de assistir do universo dos irmãos Joel e Ethan Coen. E quais são os seus?

10 Barton Fink - Delírios de Hollywood (1991)
Sempre que assisto penso que preciso ver novamente.

09 Ave, César! (2016)
Os bastidores de Hollywood em 1950 gera boas risadas. Check ✔ 

08 O Homem que Não Estava Lá (2001)
Só o nome já motiva você a assistir esse quase noir em preto e branco.

07 Um Homem Sério  (2009)
A história de um Jó moderno lidando com as tragédias da vida...

06 O Amor Custa Caro (2003)
O inventor do melhor acordo pré-nupcial encontra a melhor golpista. 

05 Onde os Fracos não tem vez (2007)
Só o cabelo do Javier Bardem já assusta!

04 Queime Depois de Ler (2008) 
CIA, uma cadeira maluca e Brad Pitt na morte mais patética do século!

03 Inside Llewyn Davis (2013)
 A melhor história de fracasso da história do cinema. 

02 O Grande Lebowski (1998)
Com quantas maluquices se faz uma comédia? Inúmeras!

01 Fargo (1996)
"E tudo isso por um pouco de dinheiro"!

Na Tela: Ave, César!

Brown e Clooney: celebrando a velha Hollywood.

Eu já disse em algum momento que curto mais quando os irmãos Joel e Ethan Coen investem no humor do que em dramas pesados ou violentos. O novo filme da dupla, Ave, César!  serve para que eu continue a saborear a afinidade que existe entre nosso senso de humor. Ambientado na Hollywood da década de 1950, o filme conta um dia na vida do produtor Eddie Mannix (Josh Brolin), responsável por ajustar algumas situações para os astros da Capitol Estúdios. Assim, ele precisa evitar escândalos iminentes, dar conta de arranjar um pai para o bebê que a musa dos musicais aquáticos DeeAnna Moran (uma divertida Scarlett Johansson) está esperando, provar que o jovem astro de faroeste Hobie Doyle (a revelação Alden Ehrenreich) é capaz de fazer um filme dramático dirigido pelo renomado Laurence Laurentz (Ralph Fiennes) e ainda resolver o sequestro do galã Baird Whtilock (George Clooney) por comunistas dispostos a fazer uma lavagem cerebral no ator. No caminho de Mannix ainda estão as irmãs gêmeas Thora e Tessália Thacker (Tilda Swinton em dose dupla) que estão dispostas a desmascarar as mensagens comunistas subliminares que os filmes estão propagando para a população. Apesar de utilizar esse viés político, o filme não possui nada de panfletário, apenas brinca com as paranoias motivadas pelo Macarthismo nos EUA durante o período em que o filme acontece. Mas se por um lado, Baird é submetido a conversas sobre o capital por um grupo de sujeitos capazes de chamar um cãozinho de Engels (e criar uma conspiração dentro do estúdio com a ajuda de figurantes), do outro, não falta momentos para divertir a plateia, seja com o encontro de Doyle e Laurentz, ou de DeeAnna com o futuro "pai" de seu filho e, sobretudo, com o número musical com marinheiros mais debochado de todos os tempos - a  prova final de que Channing Tatum deixou seu passado de ator sem sal para trás. Apesar de agregar várias pequenas histórias e contar com participações (mais que) especiais,  Ave, César! é pura leveza durante sua narrativa. Quem conhece o cinema dos anos 1950 se divertirá mais ainda com as brincadeiras que aparecem durante a sessão (mas se você assistiu Trumbo/2015 irá identificar várias). O mais curioso é que os diretores utilizaram os atores mais conhecidos para fazer pequenas participações (Scarlett Johansson tem duas cenas, Channing Tatum também, Ralph Fiennes idem, Jonah Hill tem apenas uma, assim como Frances McDormand...) e oferecem destaque para dois desconhecidos. Embora Josh Brolin execute seu papel de produtor durão com sua eficiência habitual, são os novatos Alden Ehrenreich (um primor em cada cena) e Heather Goldenhersh  (que encarna a eficientíssima secretária de Mannix - que parece ter saído de um filme de época com  seu estilo, jeito de andar, falar, gesticular e repetir "check" cada vez que confere as tarefas realizadas) que chamam mais atenção. O pior do filme é que quando termina você fica com vontade de acompanhar mais um dia na vida de Mannix e seu trabalho tão rodeado de pecados. Talvez você sinta que tudo se resolveu de forma apressada, mas essa parece ser a grande afirmativa do filme (basta reparar quantas vezes Mannix olha o relógio): o tempo passa rápido demais (e os nostálgicos entenderão isso ainda melhor). 

Ave, César (Hail, Cesar! - EUA/2016) de Joel & Ethan Coen com Josh Brolin, George Clooney, Alden Ehrenreich, Scarlett Johansson, Channing Tatum, Tilda Swinton, Heather Goldenhersh,  Ralph Fiennes, Frances McDormand, Jonah Hill, Veronica Osorio, Alison Pill e Clancy Brown. ☻☻☻☻

terça-feira, 10 de maio de 2016

FILMED+: As Bruxas de Salém

Ryder, Allen e Lewis: caça às bruxas. 

O diretor de teatro inglês Nicholas Hytner começou a fazer filmes para o cinema em 1994, quando levou para as telas a peça de Alan Bennett "As Loucuras do Rei George", que foi indicado a quatro prêmios no Oscar (levou o de melhor direção de arte). Desde então, Hytner mostrou-se uma escolha correta para adaptações teatrais na telona. De lá para cá ele dirigiu apenas seis filmes, sendo o meu favorito a sua versão para As Bruxas de Salém de Arthur Miller. Para além do conturbado casamento com Marilyn Monroe, Miller era um dramaturgo brilhante e ainda hoje sua peça permanece atual em seus diálogos cortantes e forte apelo dramático pela histeria que toma conta dos personagens. Miller escreveu sua peça em 1953, usando como base os eventos que causaram a perseguição de mulheres acusadas de bruxaria em Massachusets no ano de 1692 (causando 17 enforcamentos), porém, o que poderia ser apenas uma trama sobre fanatismo religioso ganhou novo significado na década de 1950 - período em que o governo americano passou a perseguir pessoas acusadas de apoiarem o comunismo, época que ficou conhecida como Macartismo (uma alusão ao sobrenome do senador republicano Joseph McCarthy, que encabeçava interrogatórios e sentenças). Para além de apoiar esquerda ou direita, a riqueza do texto está em retratar o doloroso processo de delação e perseguição - aqui ambientado no pequeno vilarejo de Salém, onde a "verdade" emerge ofuscada por vinganças pessoais, (des)afetos e a necessidade de salvar a própria pele. Qualquer semelhança com o que vemos hoje nos telejornais não é mera coincidência - o que só reforça o poder do texto de Miller. A trama se inicia após um grupo de garotas se juntarem para uma celebração desconhecida, algumas, mais entusiasmadas do que deveriam, chegam a se despir. O que poderia ser apenas uma brincadeira de adolescentes (cansadas com a educação repressora) torna-se o ponto de partida para imaginar que existem bruxas em Salém. A sobrinha do reverendo, Abigail Williams (Winona Ryder, num deleite de vilania) fica em evidência por apontar quem são as ameças aos valores cristãos do lugar. A forca começa a ser uma ameaça a todos os moradores e o clima de medo se instaura. A plateia percebe que não se trata de um confronto entre bruxas e religiosos, mas uma trama de ódio movida pelos desejos de uma adolescente capaz de contaminar toda uma cidade com sua ira. Existe um bom motivo para isso, Abigail foi amante de John Proctor (Daniel Day Lewis, excelente) e não demora muito para que ela acuse a esposa de John, a inofensiva Elizabeth Proctor (Joan Allen, magnífica e indicada ao Oscar de coadjuvante) de ser uma bruxa. Nicholas Hytner demonstra grande habilidade ao apresentar mentiras que são eleitas verdades para satisfazer a subjetividade de um grupo de pessoas. A narrativa aumenta a tensão gradativamente e o desconforto que transborda sobre a plateia. A mescla de ter o poder de manipular os outros de acordo com seus interesses pessoais e a produção bem cuidada (e propositalmente suja em seu suor e poeira sobre a pele dos atores) gera uma obra de grande força narrativa e que sempre nos faz refletir sobre os dedos acusatórios que estão sempre dispostos a trabalhar, seja no Facebook ou em esferas mais elevadas. 

As Bruxas de Salém (The Crucible/EUA-1996) de Nicholas Hytner com Winona Ryder, Daniel Day Lewis, Joan Allen, Paul Scofield, Bruce Davison e Jeffrey Jones. ☻☻☻☻☻

domingo, 8 de maio de 2016

CATÁLOGO: Fazendo História

Os alunos:  momento de transição.  

O inglês Nicholas Hytner é um renomado diretor de teatro na Inglaterra. Muitas de suas montagens já foram filmadas e exibidas em salas de cinema via satélite ao redor do mundo (pelo projeto National Theatre Live). No entanto, mesmo quando trabalha para o cinema, Hytner tende a adaptar peças de teatro com as quais está familiarizado. Dos seis filmes que dirigiu, quatro são adaptações de peças teatrais, sendo três delas escritas pelo dramaturgo Alan Bennett. Juntos eles fizeram recentemente a adaptação de A Senhora da Van/2015 depois que Hytner ficou nove anos sem lançar um longa metragem. O trabalho anterior da dupla foi Fazendo História, elogiada adaptação indicada a dois prêmios BAFTA mas que encontrou dificuldade para ser exibida em outros países - o motivo para isso, talvez seja sua alma extremamente britânica (algo recorrente na obra de Bennett). O filme acompanha um grupo de estudantes que almejam seu espaço em renomadas Universidades do Reino Unido. Prestes a terminar o correspondente ao nosso Ensino Médio, eles se dedicam a aulas especiais para obter o melhor resultado possível, não apenas nos exames de seleção, mas também para as entrevistas a que irão se submeter. A narrativa concentra-se especialmente na convivência desses alunos com, a experiente Srª Lintott (Frances de La Tour), o novato Irwin (Stephen Campbell Moore) e o peculiar Hector (Richard Griffiths) que ministra a controversa aula de Conhecimentos Gerais - momento no qual tenta ensinar um pouco de cultura geral para os moços. A aula de Hector é uma verdadeira miscelânea par os rapazes, mistura de aula de teatro com literatura, musicais, compositores clássicos e cinema antigo. O método de Hector não agrada muito o conservador diretor da instituição, mas a garotada se diverte (ao ponto de não se importarem muito com os excessos e assédio do simpático professor gorducho). Aos poucos conhecemos alguns dilemas dos alunos diante do que o futuro lhes reserva, mas o texto dá mais destaque a Dakin (Dominic Cooper, em seu primeiro papel de destaque, muito antes de ficar conhecido como o pai de Tony Stark) que atrai colegas e professores com seu jeito descolado, o que o torna cada vez mais próximo do novo professor, Irwin - que pretende fazer seus alunos pensarem no mundo de uma forma diferente. O texto do filme é irrepreensível. Os diálogos são inteligentes e bem lapidados, não caem na vulgaridade ou na polêmica barata, investindo na dimensão humana dos personagens que ainda estão em crescimento. Não existem grandes surpresas na narrativa, mas isso está longe de ser um problema. O que mais incomoda na produção é que ela carrega um ranço teatral que pode incomodar a maioria do público, especialmente em sua cena final onde sabemos que fim levou cada personagem de forma quase surreal (sem falar que o assédio de Hector a Dakin sofre críticas por não se desenvolver como deveria no decorrer da história). Concentrado na saída da adolescência e os rumos para a vida adulta, o filme apresenta a identidade de seus personagens sem pressa e deve causar identificação em um público bastante específico. Um programa curioso e voltado para quem curte o humor típico dos filmes britânicos. 

Fazendo História (The History Boys/Reino Unido-2006) de Nicholas Hytner com Dominic Cooper, Stephen Campbell Moore, Richard Grifiths, Frances de La Tour e James Corden. ☻☻☻

Na Tela: O Dono do Jogo

Tobey: a dura vida de um ex-Spiderman. 

Com Capitão América: Guerra Civil o cinema dá as boas vindas a um novo Homem Aranha, o mais jovem que já se viu nas telas - em elogiada atuação do ótimo Tom Holland. Ironicamente, o milionário filme da Marvel divide espaço nas telas brasileiras com o primeiro (e celebrado) Spiderman do cinema: Tobey Maguire. Apesar de não aparentar, Tobey completa 41 anos em breve (27 de junho), mas a carreira de quem já foi um dos jovens atores mais promissores de Hollywood já viveu dias melhores. Desde que abandonou a franquia aracnídea em 2007 o ator apareceu em apenas cinco produções que não empolgaram público ou crítica. Seu último trabalho é este O Dono do Jogo, com o qual ambicionava ser indicado ao Oscar de melhor ator, mas foi ignorado em todas as premiações. O filme conta a história dos dilemas do campeão de xadrez Robert Fischer (Maguire), que em meio à Guerra Fria, "Bobby" tornou-se um herói americano por derrotar seus oponentes russos, conhecidos como os melhores nas competições do ramo. Seu maior oponente foi Boris Spassky (Liev Schreiber), campeão mundial diversas vezes e um verdadeiro símbolo da União Soviética. A história é mais do que promissora ao escolher um tema que reflete bastante o clima do período, onde tudo era motivo de disputa entre o bloco comunista e o capitalista. Da corrida espacial, aos avanços armamentistas, tudo era motivo para que uma nação vendesse que o seu regime sócio-político-econômico era melhor que o outro - e isso afetava até as competições de xadrez. Fischer e Spassky tinham plena consciência disso, mas o filme transforma essa tensão quase que uma paranoia dos famosos enxadristas. Esse é uma das grandes falhas do filme. Mais uma vez, Edward Zwick é um diretor preocupado demais em ser correto e se desviar de polêmicas - tornando uma boa história ao ponto de tornar-se insípida. Aqui ele alivia a tensão entre EUA e Rússia e transforma a disputa numa espécie de culto às celebridades e suas excentricidades, deixando o tom paranoico apenas no imaginário de Fischer (as cenas em que parece haver sempre alguém espionando Fischer não contam, já que o artifício não vai a lugar algum na história). É verdade que o personagem vivia sob uma eterna tensão que o levou à loucura, mas o roteiro trata isso como se nascesse quase que espontaneamente na personalidade de Robert (e a sua infância aparece aligeirada demais para convencer de que a fonte de todos os seus males estava ali). O filme segue arrastado por quase duas horas, andando nos círculos de uma edição confusa que tenta mostrar o quanto Fischer flertava com o colapso, que o deixava tão genial como chato - ao ponto de termos pena de todos os que convivem com ele, especialmente o padre Bill Lombardy (Peter Sarsgaard) e o agente Paul Marshall (Micahel Stuhlbarg). No entanto, o trunfo do filme é o elenco, que faz milagres com uma narrativa que deixa a desejar. O Dono do Jogo só empolga nas última partidas de xadrez mas demora muito para chegar até lá - penso que nas mãos de Darren Aronofsky o filme teria sido uma obra-prima,  Ao final, a cinebiografia expressa um certo desconforto histórico diante da jornada de Fischer, que terminou longe do xadrez e exilado na Islândia. Uma história triste que merecia um tratamento muito melhor. 

O Dono do Jogo (Pawn Sacrifice/EUA-2015) de Edward Zwick com Tobey Maguire, Liev Schreiber, Peter Sarsgaard, Sophie Nélisse e Michael Stuhlbarg. ☻☻

sábado, 7 de maio de 2016

Pódio: Javier Bardem

O Bronze: o vilão platinado
São tantos acertos na primeira aventura do agente dirigida por Sam Mendes que seria até difícil destacar apenas um. No entanto, o fato é que o aterrorizante Silva (Javier Bardem) tornou-se o melhor vilão da franquia em décadas! O motivo é simples, sua sede de vingança o torna tão humano que deixa a plateia ainda mais apreensiva. Some isso à cabeleira loura (que funciona como uma imagem distorcida das virtudes do próprio James Bond de Daniel Craig, uma espécie de Bond Bizarro, que torna o filme ainda mais interessante, permitindo novas leituras da história do herói caçando o vilão (ou vice-versa). 

A Prata: o poeta cubano. 
02 - Antes do Anoitecer (2000)
Javier Bardem tornou-se o primeiro ator espanhol indicado ao Oscar (mas ele recebeu um somente em 2008 como coadjuvante de Onde Os Fracos Não Tem Vez). No antológico filme de Julian Schnabel, o ator vive o poeta cubano Reinaldo Arenas. O filme conta a história do escritor de sua adolescência até a morte precoce, destacando o tratamento que o regime de Fidel Castro concedeu ao autor devido à sua sexualidade. Além da brilhante atuação, Javier sempre lembra da dificuldade que foi interpretar os diálogos em inglês (uma opção inexplicável da produção). Pelo papel o ator ainda recebeu o prêmio de melhor ator em Veneza.

O Ouro: Ramón Sampedro. 
01 - Mar Adentro (2004)
É difícil escolher a atuação favorita de um ator com vários momentos brilhantes em sua carreira. Mas acho inesquecível o que o ator faz na pele de Ramón Sampedro, que por conta de um acidente viveu preso por décadas à uma cama e, por trinta anos, lutou na justiça pelo direito de morrer. Alejandro Amenábar realiza um filme belíssimo (recebeu o Oscar de Filme Estrangeiro e outros 65 prêmios!), tendo o grande desafio de lidar com um tema difícil, baseado numa polêmica história real. Aqui, Bardem alcança outro ponto alto em sua carreira - que lhe valeu outro prêmio de atuação no Festival de Veneza e uma indicação ao Globo de Ouro. Javier está simplesmente  magistral!

CATÁLOGO: Ovos de Ouro

Maria, Maribel e Javier: a identidade de uma amante latino. 

Javier Bardem pode ser considerado o ator espanhol mais bem sucedido de Hollywood. Após trabalhar com diretores do porte dos irmãos Coen, Ridley Scott, Alejandro Gonzalez Iñárritu, Woody Allen, Terrence Mallick, Sam Mendes... sabemos que esse currículo não é para qualquer - e você ainda pode somar à famigerada lista cineastas espanhóis de peso como Pedro Almodóvar e Alejandro Amenabar. Porém, os fãs mais recentes não sabem que o astro ganhou espaço nos cinemas graças ao seu tio Bigas Luna (falecido em 2013). Se você achava o cinema de Almodóvar extravagante demais na década de 1990, era porque você não conhecia o cinema do tio de Javier. A primeira vez que o nome do ator apareceu numa tela de cinema foi por conta da controversa cena final de As Idades de Lulu (1990), onde ele interpretava Jimmy, um dos parceiros sexuais da protagonista. A partir dali, Javier parecia fadado ao estereótipo do garanhão latino. A imagem do amante de sangue quente lhe rendeu ainda a notoriedade por protagonizar Jamón Jamón (1992), onde contracenou pela primeira vez com Penélope Cruz (curiosamente os dois começaram a  namorar somente dezesseis anos depois e acabaram se casando). Ela era a mocinha da história, ele era o rapaz que ficava famoso por fazer propaganda de cuecas. Era evidente que Javier e Bigas Luna se divertiam bastante ao criar histórias para personagens tão repletos de testosterona e capazes de habitar o imaginário feminino (e masculino). Antes de trabalharem juntos em A Teta e A Lua (1994), tio e sobrinho colaboraram em outra pérola do gênero: Ovos de Ouro (1993), que serviu para Javier exercitar não apenas sua capacidade em criar tipos sedutores, mas também se equilibrar entre o tom cômico e a guinada dramática que seu personagem sofre no decorrer da trama. Javier Bardem vive Benito González, um jovem soldado apaixonado por sua namorada Rita (Elisa Tovati), mas que após uma desilusão amorosa resolve dar vazão às suas maiores ambições: tornar-se um grande empresário do ramo da construção e criar o maior prédio de todos os tempos. Para criar essa ode à sua própria capacidade, Benito não verá limites - especialmente quando o assunto é sexo (que rende o título sugestivo). Ainda que seja apaixonado por Claudia (Maribel Verdú) ele não irá poupá-la diante de seus ambiciosos planos, ao ponto de oferecê-la a um rico financiador para depois se casar com a filha do patrão, a recatada Marta (Maria de Medeiros). Entre as desventuras amorosas de Benito, Bigas Luna decora a trama com algumas detalhes curiosos, além da mania do protagonista sempre se preocupar com o peso de suas mulheres (Rita tinha 47, Claudia tenta manter-se nos 52 e Marta acha que está bem com seus modestos 45 quilos), ele ainda tem uma verdadeira obsessão por Salvador Dalí (o que lhe rende uma espécie de culto ao dourado Rolex) e seu cantor favorito é Julio Iglesias! Entre o romântico e o surreal, Bigas Luna conta sua história caprichando nos contrastes dos ambientes que Benito frequenta. Da juventude num lugar pobre, passando por uma vida mais sofisticada na cidade grande, Benito ainda irá terminar sua história nas cores pálidas de uma popular cidade do Tio Sam, onde sua vida de glorioso garanhão latino chega ao fundo do poço (com direito à uma participação curiosa de Benicio Del Toro). Ovos de Ouro resulta na melhor crônica do cineasta sobre a masculinidade latina. Tão despudorado quanto bem humorizadamente dramático, o filme pode estará longe de agradar todos os gostos (principalmente por sua habilidade em flertar com a vulgaridade), mas pode render reflexões interessantes sobre a ascensão e queda de um típico machão do cinema - vivido com saborosa desenvoltura por Javier Bardem (num tipo que ele abandonou faz tempo), especialmente quando sua identidade parece totalmente sepultada. Valeu a força, tio Luna!

Ovos de Ouro (Huevos de Oro/ Espanha-1983) de Bigas Luna com Javier Bardem, Maria de Medeiros, Maribel Verdú, Elisa Tovati, Francesco Dominedó e Benicio Del Toro. ☻☻☻

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Na Tela: Truman

Javier, Truman e Darín: crônica sobre a amizade masculina.  

O diretor catalão Cesc Gay tem se mostrado cada vez mais voltado para temáticas masculinas. Seu filme anterior, O Que os Homens Falam/2012 já era um belo exemplo disso pela forma como abordava alguns dilemas da masculinidade por um viés diferente. Em Truman, ele foca mais na amizade masculina, desta vez com o diferencial de olhar para ela com a proximidade da morte de um dos personagens. Quando o filme começa, nas gélidas paisagens do Canadá, nós conhecemos Tomás (Javier Cámara) que está prestes a visitar seu melhor amigo, Julián (Ricardo Darín) na Espanha. Percebemos que os dois não se veem há muito tempo e aos poucos conhecemos o verdadeiro motivo da visita. Julián está com câncer e decidiu não continuar com o tratamento para combatê-lo (argumentando que não quer viver seus últimos meses sofrendo com a agressividade da quimioterapia). Desde o início ele deixa claro que Tomás não deverá perder tempo em convencê-lo a retomar os procedimentos, assim, os dois amigos irão conviver juntos por alguns dias desfrutando apenas da companhia um do outro. Entre uma conversa e outra, Julián tenta arranjar um bom lar para cuidar de seu cachorro (chamado Truman), afinal, a despedida é inevitável.  O roteiro tempera os diálogos entre os amigos com sinceridades e um humor discreto, especialmente quando explora as relações de Julián com quem cruza o seu caminho (sejam amigos ou familiares). Gradativamente conhecemos a história do personagem, que compõe um painel sobre as memórias que as pessoas terão dele, assim como a forma como cada uma delas lida com a morte iminente. O que poderia ser um programa mórbido, torna-se bastante espirituoso, sem amargura, culpas ou ressentimentos, explorando com leveza a amizade de dois amigos que se afastaram com o tempo, mas que ainda mantêm uma forte conexão. O filme tem momentos realmente emocionantes, graças a Ricardo Darín, que tem mais uma atuação marcante, mas é Javier Cámara que merece destaque por sua atuação repleta de olhares e cumplicidade, muito distante dos tipos que encarna nos filmes de Pedro Almodóvar. Vale acompanhar a jornada dos dois amigos dentro da abordagem sutil do filme, já que Cesc Gay consegue universalizar uma história simples, deixando-a mais cheia de significados do que você pode imaginar.

Truman (Espanha-Argentina/2015) de Cesc Gay com Ricardo Darín, Javier Cámara, Dolores Fonzi e Oriol Pla. ☻☻☻☻

segunda-feira, 2 de maio de 2016

PL►Y: A Corrente do Mal


Maika (em destaque): encosto sexualmente transmissível. 

David Robert Mitchell surpreendeu quando foi indicado ao prêmio de melhor direção no Independent Spirit Awards desse ano por conta de seu trabalho no filme de terror A Corrente do Mal. Assisti ao filme recentemente e fiquei impressionado com o cuidado com que ele cria cada cena. Do posicionamento dos atores, passando pelos movimentos de câmera à utilização lenta do zoom e enquadramentos que sempre nos deixam a incômoda sensação de que estamos espionando os personagens. O mais curioso é que este é apenas o segundo longa metragem de David, o primeiro foi O Mito Americano da Festa do Pijama (2010), dramédia adolescente que já demonstrava algumas inquietações do diretor sobre dilemas juvenis. Um dos grandes trunfos de A Corrente do Mal é que ele não perde tempo explicando demais, deixando que o desconhecido se torne mais assustador na mente da plateia. Afinal, nunca fica muito claro o que persegue a jovem Jay (Maika Monroe), a única coisa que ela (e nós) sabemos é que após fazer sexo com o namorado pela primeira vez, ela recebeu uma espécie de maldição: ser perseguida por uma personificação maligna até ser assassinada. A única chance de se livrar da maldição é passando adiante para o seu novo parceiro sexual (mas se a personificação maligna matar esse novo parceiro, o mal voltará a persegui-la, e se matá-la, perseguirá quem passou a maldição para ela e assim sucessivamente). É um ponto de partida bastante simples, mas que Mitchell executa com grande dedicação. Da angústia de ter um perseguidor que sempre caminha em sua direção (e não importa o quão longe você esteja, ele sempre encontrará você), o diretor extrai de sua protagonista uma atuação vigorosa - até quando enfrenta seus próprios dilemas morais para se livrar do mal que se abateu sobre ela. Com movimentos de câmera espertos, paisagens com casas abandonadas e uma direção de arte anacrônica, A Corrente do Mal ainda encontra tempo para homenagear clássicos do terror adolescente da década de 1970 e 1980. É verdade que o filme presta a várias analogias sobre doenças sexualmente transmissíveis e o horror que infligem à prática do sexo, ampliando seu grande trunfo que é gerar um constante clima de paranoia entre os personagens e a plateia. É verdade que no trabalho com os atores Mitchell alcança bons resultados somente com Maika e Keir Gilchrist (que nutre uma paixão platônica pela protagonista), mas sua narrativa obedece à um estilo autoral que esse detalhe torna-se até perdoável. A Corrente do Mal é mais uma prova de que os filmes de terror estão salvos enquanto perceberem que sua maior graça não está no sangue derramado, mas no uso poderoso da sugestão na construção de uma narrativa assustadora. 

A Corrente do Mal (It Follows/EUA-2014) de David Robert Mitchell com Maika Monroe, Keir Gilchrist, Lili Sepe e Jake Weary ☻☻☻