terça-feira, 28 de setembro de 2021

PL►Y: Voyagers

 
Lilly e Tye: missão espacial em risco. 

Afetado ainda pela pandemia, Voyagers chegou aos cinemas numa época de bilheterias minguadas, mas bem que merecia um pouco mais de atenção. Não que o novo longa de Neil Burger esteja destinado a se tornar um clássico, mas pelo menos o filme toca em alguns temas bastante atuais com verniz de ficção-científica. O longa gira em torno de um grupo de jovens que está destinado a viajar pelo espaço para colonizar um novo planeta. Concebidos e educados para serem astronautas desde pequenos, eles estão cientes de sua missão ao crescerem em uma nave espacial junto ao mentor designado para a missão, o atencioso Richard (Collin Farrell). No entanto, a chegada da adolescência e seus hormônios são sempre capazes de gerar problemas... a começar quando dois amigos tripulantes Christopher (Tye Sheridan) e Zac (Fionn Whitehead) começam a desconfiar de uma substância identificada em seus organismos, a qual, logo descobrem que é utilizada para, digamos, inibir alguns traços de personalidade que possam ser prejudiciais para a missão que possuem. Assim, Chris e Zac param de ingerir a substância em começam a mudar o comportamento. A primeira mudança se relaciona com o interesse sexual pelas garotas a bordo. Se antes os sexos conviviam com a maior naturalidade, agora, a libido começa a aflorar e, com poucos adultos por perto, você pode imaginar o que acontece - ou pelo menos imagina, já que o filme é bastante pudico neste aspecto (ainda que no Brasil tenha recebido o acréscimo de Instinto e Desejo no título e um pôster sugestivo com Tye e Lilly-Rose Depp, a filha de Johnny Depp com Vanessa Paradis). Zac se torna cada vez mais agressivo e se em determinado momento o bom moço Christopher é eleito líder do grupo, seu colega de viagem sabe exatamente o que fazer para mexer com o imaginário dos demais e instalar um processo de paranoia perante uma "ameaça alienígena" que diz estar a bordo. Esta ameaça alienígena logo se torna motivação para segregação, exclusão e até execuções. O que era para ser uma missão espacial se torna uma alegoria sobre a humanidade e a dificuldade que possui de perceber quando perde as estribeiras. Voyagers tem uma bela ideia nas mãos para o cenário político-social atual, mas poderia ser um tantinho mais provocador nas questões que aborda. Sobretudo no desfecho simplista (que provocou um riso nervoso pela solução dos problemas ser exatamente o que deu errado anteriormente), mas para o roteirista Neil Burger fazer outra tentativa pode funcionar perante os personagens voláteis que tem nas mãos. No fundo ele é mais do que um otimista (é um iludido mesmo). Ainda que não explore plenamente suas possibilidades enquanto ficção-científica e alegoria política, Voyagers toca em questões interessantes - mesmo que não saiba muito bem como lidar com elas. 
 
Voyagers - Instinto e Desejo (Voyagers - EUA/2020) de Neil Burger com Tye Sheridan, Fionn Whitehead, Lilly-Rose Depp, Colin Farrell, Chanté Adams, Madison Hu, Archie Ranaux, Wern Lee e April Grace. ☻☻☻

NªTV: Missa da Meia-Noite

 
Hamish (ao centro): manipulando a verdade. 

Todo ano, um padre já idoso e calejado viaja para Jerusalém graças à contribuição de seus fieis. É verdade que ele não anda muito bem de saúde, mas de forma geral, a sua comunidade também já viveu momentos melhores, afinal, a paróquia fica na Ilha Crocket, uma ilha isolada a cinquenta quilômetros de qualquer lugar que possui pouco mais de cem habitantes. Com boa parte da economia local sendo ao redor da pesca, a cidade ainda não se recuperou de um vazamento de óleo e as complicações posteriores que transforma, aos poucos, a ilha em uma cidade fantasma. Parece que todo mundo que tem a chance de sair de lá, o faz assim que possível. O resultado são pessoas que sentem saudades de quem partiu ou dos bons tempos daquela comunidade. Se a ilha tem sua cota de tragédias, os jovens de lá tentam dar um jeito de se divertir, na maioria das vezes, escondidos dos pais - geralmente indo para outra parte da ilha habitada por dezenas de gatos (que serão fundamentais para o início das situações estranhas no local). Nada demais acontece na Ilha Crocket, pelo menos até a chegada de um jovem padre substituto que ficará por lá até que o veterano se recupere de uma enfermidade contraída na viagem. O jovem Padre Paul (Hamish Linklater) provocará uma verdadeira revolução no local, que acaba de receber de volta um dos seus filhos pródigos, Riley Flynn (Zach Gilford), que depois de passar um tempo preso por conta de um grave acidente, ele retorna para viver com os pais (e fique atento aos pôsteres de filmes presentes no quarto dele). No primeiro episódio conhecemos melhor os personagens, vemos a ameaça de uma tempestade e um visitante misterioso... a partir daí, coisas muito estranhas começam a acontecer, mas são incorporadas a uma interpretação religiosa equivocada pela maioria dos personagens - especialmente por Bev Keane (Samantha Sloan), mulher que tem uma leitura muito particular sobre os textos religiosos. Seria bastante empobrecedor imaginar que Missa da Meia-Noite é sobre religião, na verdade o testo lida com algo bem mais complexo, que é a interpretação do que se vê, afinal, em vários momentos o real cede espaço para interpretações subjetivas sobre o que está acontecendo, muitas vezes, com base em distorções para que determinados objetivos sejam alcançados. Assim, o comportamento de manada, o desprezo a tudo que é dissonante e a histeria coletiva, aos poucos ganha espaço e o que se vê é o apocalipse (nome do último episódio da série). Criado e dirigido por Mike Flanagan, arrisco dizer que esta é sua obra mais complexa e uma espécie de redenção para o diretor que depois do sucesso absoluto de A Maldição da Residência Hill (2018), não obteve o mesmo sucesso com o filme horroroso Doutor Sono (2019) e a série A Maldição da Mansão Bly (2020). Missa da Meia-Noite consegue fazer do terror um artifício dramático poderoso, valorizado ainda mais por um elenco que sabe exatamente o que fazer. O tom é melancólico e pessimista, mas deixa uma pequena dose de esperança no episódio final. E pode aguardar indicações a prêmios para Samantha Sloan, que compõe uma beata insuportável e, especialmente, Hamish Linklater que cria um personagem bem distante dos personagens simpáticos que interpretou até aqui (quem lembra do irmão de As Aventuras de Christine irá se surpreender) e que torna os sentimentos da plateia em torno dele bastante ambíguos. Criada enquanto minissérie, arrisco dizer que este grande acerto da Netflix aparecerá em várias listas de melhores produções do ano. 

Missa da Meia-Noite (Midnight Mass / EUA -2021) de Mike Flanagan com Hamish Linklater, Zach Gilford, Kate Siegel, Kristin Lehman, Samantha Sloan, Rahul Kohli, Anabeth Gish, Henry Thomas, Alex Essoe, Michael Trucco e Annarah Cymone. ☻☻☻☻☻

segunda-feira, 27 de setembro de 2021

PL►Y: Um Ninho para Dois

 
Chris e Melissa: ninho a ser reconstruído. 

Quando Um Ninho Para Dois começa vemos o casal  Lilly (Melissa McCarthy) e Jack (Chris O'Dowd) pintando a parede do quarto da pequena filha de ambos,  Katie, que os observa enquanto os dois conversam sobre o que ela será quando crescer. Confesso que pensei que era um filme sobre um casal que tentava engravidar em que o filme começava pelo final, mas nos minutos seguintes eu descobri que era o oposto. Logo depois desta cena nós percebemos que algo mudou na vida do casal que está melancólico em lugares separados, tentando conversar e superar a morte da menina. Se Lilly ainda tenta trabalhar no supermercado e cuidar da casa, para Jack restou internar-se num centro de tratamento psiquiátrico depois que tomou atitudes drásticas após a perda. Ah, claro, conforme uma das tomadas iniciais deixa claro, a narrativa sobre a vida do casal se mistura a de um estorninho, um passarinho bastante territorialista que resolveu fazer ninho no quintal de Lilly - e não hesita em atacá-la sempre que ela aparece no quintal. Parece uma mistura estranha, mas poucos diretores conseguiriam orquestra-la de forma convincente como Theodore Melfi, diretor do premiado Estrelas Além do Tempo (2016) e que antes  trabalhou com Melissa em Um Santo Vizinho (2014). Melfi está em seu quarto longa-metragem e consegue equilibrar, com rara maestria drama e comédia numa mesma produção. Pois é, embora o filme seja sobre algo tão doloroso quanto o luto, o diretor consegue envernizar sua narrativa com doses de humor que evitam que o filme se torne um mar de lágrimas. Colabora muito para que a trama funcione, a presença de Melissa, que é conhecida por suas comédias escrachadas, mas que demonstra ser uma atriz de respeito quando se entrega a papéis mais dramáticos. Aqui ela dá conta  de uma personagem que não consegue seguir em frente depois da tragédia pessoal que vivenciou ao lado do esposo, mas é seu parceiro de cena, Chris O'Dowd que apresenta o trabalho mais comovente como o pai deprimido oscilando entre a tristeza, a raiva na desorientação mais humana do filme. Para juntar os cacos do relacionamento fragilizado, os dois contarão com a ajuda inusitada de um veterinário e ex-psicanalista (Kevin Kline) que irá tentar mostrar para ambos que não temos controle sobre tudo que acontece na vida e que, na maioria das vezes, as explicações para o acontecimentos são inexistentes. No meio de tudo isso, temos um passarinho enfezado que faz Lilly ponderar sobre raiva e fragilidade da vida. É um filme bastante simpático e eficiente que lida com uma temática bastante complicada e consegue construir uma narrativa agradável de assistir, mesmo que tenha alguns momentos sombrios pelo caminho. 

Um Ninho para Dois (The Starling / EUA-2021) de Theodore Melfi com Melissa McCarthy, Chris O'Dowd, Kevin Kline, Timothy Olyphant, Skylar Gisondo, Rosalind Chao e Laura Harrier. ☻☻☻☻

domingo, 26 de setembro de 2021

#FDS Nicolas Cage: Pig

Cage e sua amiga: na mira do Oscar?

Um homem (Nicolas Cage) vive isolado no meio da floresta com sua porquinha de estimação e parece estar bastante a vontade com isso. Mais do que um bicho de estimação, a suína está relacionada diretamente com sua fonte de sustento, já que os dois saem para catar trufas, aquela fungo que na verdade é uma iguaria rara (e caríssima). Aquele homem solitário vende sua colheita de trudas para um rapaz (Alex Wolff) que lida com o fornecimento deste produto raro para restaurantes refinados. A relação entre os dois personagens fica por isso mesmo, já que o misterioso caçador de trufas não gosta de conversar e sabemos muito pouco sobre ele até que sua preciosa companheira seja sequestrada de forma violenta e sem maiores explicações. Começa assim a busca pelo bicho em meio a fornecedores e compradores de trufas. É preciso dizer que a trufa é um verdadeiro tesouro culinário, de forma que existe um custo altíssimo até que ela esteja pronta para ser consumida (especialmente na contratação de pessoas neste processo) e, o fato da porquinha ser tão eficiente na sua tarefa, torna-se a explicação para que ela tenha sido levada. No entanto, na busca por ela, descobrimos a história deste homem que há anos preferiu ficar isolado no meio do mato, oferecendo a Nicolas Cage a chance de desenvolver seu melhor personagem em muito tempo (ao ponto de começarem a especularem suas chances no Oscar do ano que vem). Pode parecer exagero, mas muitos críticos apontam este como sendo o melhor trabalho do ator, que faz tempo não tinha a oportunidade de desenvolver tantas camadas em um personagem. Acho que não vale dizer maiores detalhes da trama, mas é bastante curioso como o diretor Michael Sarnoski nos apresenta um mundo (incluindo seu submundo) bastante particular em que o protagonista transita com desenvoltura graças à interpretação de Cage. Embora o roteiro tenha diálogos incisivos, são nos silêncios e expressões bastante intimistas que o ator apresenta uma interpretação impressionante, com momentos de força, vulnerabilidade e desespero. Confesso que chorei em alguns momentos na busca do personagem por sua colega de trabalho, especialmente pelo laço de amizade entre os dois que se torna bastante palpável para o espectador. Acho que aqui temos o exemplo de um papel que somente Nicolas Cage poderia interpretar e dar credibilidade após sua experiência em viver personagens estranhos em todo tipo de produção. O trabalho pode até não lhe render indicações a prêmios, mas lembra ao público e produtores o grande ator que ele ainda é. Aos 57 anos, com um Oscar na estante (por Despedida em Las Vegas/1995 que abriu este #FDS) e longe de grandes produções há algum tempo, Nicolas pode usar a credibilidade que ainda lhe resta para alavancar carreiras de cineastas promissores como Michael Sarnoski (que também assina o roteiro ao lado de Vanessa Block), estreante em longa-metragem, que criou um filme aparentemente simples, mas que não teme em criar uma narrativa lenta, mas cheia de surpresas para o espectador. 

Pig (EUA-2021) de Michael Sarnoski com Nicolas Cage, Alex Wolff, Adam Arkin, Julia Bray e Cassandra Violet. ☻☻☻☻

sábado, 25 de setembro de 2021

#FDS Nicolas Cage: A Sacada

Nicolas e Elijah: assalto às avessas.

Diante da enxurrada de filmes que Nicolas Cage lança todos os anos, fica até difícil acompanhar tudo o que ele anda fazendo. É verdade que a maioria não vale grande coisa, mas de vez em quando ele tem a sorte de um roteiro bacana e um diretor desconhecido esforçado cruzarem seu caminho. Quando esta mistura acontece, o que temos é um filme como A Sacada dos irmãos Alex e Benjamin Brewer - este assinando o roteiro ao lado de Adam Hirsh, sim, eu sei... você nunca ouviu falar de nenhum dos três. Embora o filme não tenha cara de sucesso de bilheteria ou de ganhador de prêmios internacionais, o longa traz novidades para o já manjado filme de assalto. Traindo as convenções e virando do avesso alguns elementos deste tipo de filme, pode se dizer que ele consegue surpreender e, o mais importante, consegue imprimir tensão genuína durante toda a narrativa (afinal você não faz a miníma ideia do que pode acontecer com os personagens principais). A diferença perante outros filmes do gênero aparece logo no início, quando percebemos que os protagonistas são dois policiais, Stone (Nicolas Cage) e Waters (Elijah Wood), de gerações e tipos de vida completamente diferentes que por acaso trabalham juntos no Departamento de Polícia de Los Angeles. Os dois acabam se deparando com um caso de tráfico de drogas que movimenta muito dinheiro na cidade. No entanto, pelo rumo das investigações, os dois resolvem não fazer o trabalho que lhes é devido, mas encontrar onde o dinheiro está escondido e ficar com ele. Não espere aqui uma história explicadinha e um plano mirabolante que funciona, A Sacada vai pelo caminho oposto do que você imagina. A começar pelos imprevistos que encontram no caminho (incluindo a personagem sem nome vivida pela cantora Sky Ferreira) e uma sucessão de acontecimentos que se complicam cada vez mais um plano aparentemente simples. A imprevisibilidade cria uma eficiente atmosfera de mistério que permanece até depois da cena final. Os Irmãos Brewer demonstram qualidades na construção das cenas, com belos movimentos de câmera, uso de luzes diferentes na ambientação claustrofóbica da história e tiveram a sorte de contar com uma química inesperada entre Nicolas e Elijah, principalmente quando precisam confrontar o olhar insano de um com os grandes olhos inocentes do outro. No fim das contas o filme é  sobre confiança e as consequências de quando ela é quebrada. Quando o filme termina, eu fiquei imaginando um final alternativo se o desfecho do policial Stone fosse diferente, seria mais convencional, mas com certeza o impacto seria bem menor sob a plateia que costuma ficar perplexa pela forma com que os Brewer (que possuem mais experiência dirigindo clipes com Justin Bieber) conduzem sua história jogando fora as convenções do gênero. Por incrível que pareça, A Sacada é um filme corajoso. 

A Sacada (The Trust / EUA- 2014) de Alex e Benjamin Brewer com Nicolas Cage, Elijah Wood, Sky Ferreira, Eric Heister, Steven Williams, Alexandria Lee e Jerry Lewis.☻☻☻ 

sexta-feira, 24 de setembro de 2021

#FDS Nicolas Cage: Despedida em Las Vegas

Shue e Cage: triste história de amor. 

Em entrevista recente o ator Nicolas Cage declarou que não pretende parar de fazer filmes, pelo contrário, pretende atuar até o fim da vida. Como nos últimos anos o ator tem aceitado todos os convites que chegam à sua mesa, o que lhe garante uma média de seis filmes por ano - e a grande maioria deles é de qualidade bastante questionável - a declaração de Cage virou motivo de chacota para muita gente (que considerou a afirmação uma espécie de ameaça). Existe de fato um motivo para Cage fazer todo tipo de filme, afinal, ele contraiu uma dívida enorme por não saber administrar sua fortuna e tudo se agravou com problemas fiscais... enfim, o melhor de tudo é que Cage leva a situação na brincadeira e chama atenção para produções que sem a presença dele passariam em branco. Nesse fim de semana resolvi lembrar ao público que Cage ainda é talentoso e possui alguns filmes que merecem ser lembrados, começando por Despedida em Las Vegas, produção que lhe rendeu vários prêmios, incluindo o Oscar de Melhor Ator. Dirigido por Mike Figgis o filme conta a história de Ben Sanderson (Cage), roteirista de Hollywood que perdeu seu emprego, carreira e todo o resto devido a problemas com o álcool. O divórcio e as circunstâncias que o fizeram perder a guarda do filho também se tornaram motivos para que se entregasse cada vez mais à bebida. Sem ver muita motivação para continuar a viver, ele vai para Las Vegas com a intenção de beber até a morte. Diante do inferno astral que atravessa, a tarefa suicida parece ser fácil de ser executada, até que ele conhece Sera (Elizabeth Shue, linda, talentosa e merecidamente indicada ao Oscar de Melhor Atriz pelo papel), uma prostituta de luxo que também tem suas cota de dramas pessoais, mas que passa a fazer companhia para Sam. Trata-se de uma das histórias de amor mais bonitas e tristes que o cinema já ousou contar, até mesmo porque joga com a percepção da plateia de que o amor é capaz de transformar aquelas vidas e salva-las da ruína, esmo que o diretor Mike Figgis faça questão de deixar claro que esta não é uma história de amor comum e, portanto, o final feliz pode nunca se concretizar. Decorado com momentos idílicos e outros bastante sombrios sobre a rotina do casal, conta muito a favor o tom melancólico embalando a química perfeita de Nicolas e Elizabeth que estão perfeitos em cena, num encaixe verdadeiramente perfeito entre seus personagens - e resta a plateia torcer para redenção de ambos e se emocionar durante a sessão. Para fazer o filme do jeitinho que imaginou, Figgis fugiu dos grandes estúdios (foi parara na United Artists de Robert Altman) e teve a sorte de Nicolas Cage acertar o papel principal, o que rendeu grande projeção ao longa. O resultado foram 32 prêmios e quatro indicações ao Oscar: diretor, roteiro, atriz e ator (único convertido em estatueta). O tempo revelou o filme como a obra-prima de Mike Figgis e somente em 2003, a Academia lembrou novamente de Nicolas Cage por sua atuação, no excelente Adaptação de Spike Jonze. Vale conferir os dois filmes, especialmente se você já esqueceu como Nicolas Cage é realmente um bom ator. 

Despedida em Las Vegas (Leaving Las Vegas / EUA - 1995) de Mike Figgis com Nicolas Cage, Elizabeth Shue, Julian Sands, Steven Weber e Richard Lewis. ☻☻☻☻

PL►Y: Cinderela

Camila e Nicholas: Cinderela empoderada. 

Relutei um pouco para escrever sobre a nova versão de Cinderela que entrou em cartaz no Prime Video, não tanto pelo filme, mas por ter lido muito do que eu gostaria de dizer em diversas críticas que saíram por aí. No entanto, vou tentar fazer algo diferente. Vou começar pela pergunta que me veio à cabeça sobre a necessidade de criar mais uma versão da história da menina órfã maltratada pela madrasta que se casa com um príncipe encantado e vive feliz para sempre. Acho que não precisa dizer que a animação Cinderela (1950) da Disney é o grande clássico cinematográfico baseado na obra dos Irmãos Grimm e que em 2015 recebeu até uma versão live action fiel ao clássico do estúdio. Por outro lado a insistência de vez por outra alguém investir em uma releitura mexe com meu imaginário... talvez o fantasma de outro clássico, o Complexo de Cinderela de Colette Dowling (lançado há exatos quarenta anos) também esteja no inconsciente de quem deseja transformar a história mais palatável para o discurso de empoderamento feminino do século XXI. Andy Tennant já tentava fazer isso com ajuda de Drew Barrymore em Para Sempre Cinderela (1998), mas lembro que muita gente não entendeu a postura destemida da mocinha e o fato do príncipe encantado não ser propriamente bonito (e nem vou mencionar o que a Carla Perez fez em Cinderela Baiana no mesmo ano). Agora é a vez da diretora Kay Cannon dar sua modernizada na história com o apelo de ter a cantora Camila Cabello à frente do elenco. Aqui, Cinderela, ou melhor, Ella sonha em ser reconhecida pelos seus dotes de estilista e costureira, mas é ridicularizada sempre que menciona que gostaria de ter seu próprio negócio - afinal, naquele tempo somente aos homens era permitido abrir um comércio. A ideia é execrada pela madrasta (Idina Menzel) e  a vizinhança. Este é apenas um dos detalhes que fazem com que Cinderela lance um olhar diferente sobre a conhecida história. Aqui o príncipe Robert (Nicholas Galitzine) não leva muito a sério herdar o  trono o pai (Pierce Brosnan) e a Rainha (Minnie  Driver) é capaz de declarar sua insatisfação com a postura do marido, especialmente quando ignora totalmente as ideias da princesa Gwen (Tallulah Greive) para melhorias no reino. Por todo o filme existe um comentário aqui e ali que não dá a mínima para o contexto histórico da história, mas que preenche com graça o roteiro da ideia que a produção tem em mente. O problema  é que nenhum destes comentários soa muito original, marcando a reprodução de um discurso que se tornou cada vez mais comum para um longa trivial que deseja ser politizado e inovador. Levando em conta que nem todo o filme empoderado pode ser Thelma & Louise (1991) ou Bela Vingança (2020), o filme até cumpre seus objetivos voltados para o público infanto-juvenil. Neste ponto, Camila Cabello (que eu conhecia somente pela parceria com Shawn Mendes no hit Señorita) cumpre seu papel sem problemas, afinal, chama a atenção do púbico alvo para a produção e tem presença bastante carismática como a mocinha que vai ao baile com um sapatinho de cristal nada confortável (presente do fado madrinho descolado vivido por Billy Porter - cujo único defeito é aparecer pouco). Ironicamente o maior problema da mocinha são os momentos de cantoria. O filme mistura canções inéditas e outras manjadas, mas padece da terrível mania de abusar do autotune (que deixa todo mundo cantando igual com voz de robô com medo de desafinar) que somada à pouca inspiração nos números musicais criam um problema para a produção ao lado do final previsível. Enfim, serve para passar o tempo. Particularmente achei esta estreia de Camila Cabello no cinema bastante promissora e prevejo sua presença em novos filmes em breve.

Cinderela (EUA - 2021) de Kay Cannon com Camila Cabello, Nicholas Galitzine, Pierce Brosnan, Indina Menzel, Minnie Driver e Billy Porter. ☻☻☻

quinta-feira, 23 de setembro de 2021

PL►Y: Meu Ano em NovaYork

 
Sigourney (ao centro): roubando a cena. 

Houve grande estranhamento quando My Salinger Year foi escolhido como filme de abertura do Festival de Berlim do ano passado (quando a pandemia ainda era apenas uma ameaça). Após ver o filme, boa parte dos presentes se perguntaram o motivo de uma produção tão simples ocupar um lugar de tanto prestígio em um dos festivais mais importantes do mundo. Existem algumas características que podem explicar perfeitamente todo este destaque. A primeira é que o filme tem a sempre bem-vinda Sigourney Weaver em papel de destaque, a segunda é que a direção fica por conta do canadense Phillippe Falardeau (responsável pelo ótimo O Que Traz Boas Novas/2011 filme indicado ao Oscar de filme estrangeiro em 2012 e que entrou na minha lista de filmes favoritos de 2013 ao ser lançado no Brasil), a terceira é que o filme envolve (ainda que só para dar um charme) o nome do recluso escritor J.D. Sallinger e a quarta é que o filme é agradável de assistir. A Netflix ficou atenta a estes detalhes e incorporou o filme ao seu catálogo que sempre carece de bons filmes em cartaz. Batizado por aqui com o título genérico de Meu Ano em Nova York, a história gira em torno de Joanna (Margaret Qualley), aspirante à escritora que consegue emprego em um escritório de agentes literários. O escritório é administrado pela experiente Margaret (Sigourney Weaver) que atribui à moça a tarefa de destruir as cartas de fãs endereçadas a um dos clientes mais célebres da agência: Jerome David Salinger - o famoso JD Salinger, autor do cultuado O Apanhador no Campo de Centeio (lançado originalmente em 1951).  Salinger vive recluso, não recebe ligações, não oferece entrevistas, não recebe cartas de fãs, não publica nada há tempos e isso não impede que de vez em quando, ao fazer contato com a agência que o representa, troque alguns diálogos com a jovem que sonha em ser escritora. O filme faz questão de tornar Salinger num personagem quase mítico, mas que oferece alguma simpatia (o que talvez não seja suficiente para satisfazer seus fãs que se aventurem a ver o filme), já que o que vemos a maior parte do tempo é Joanna em seus dilemas de destruir as cartas de pessoas, que assim como ela, veem a literatura como uma inspiração (basta ver a forma como ela mesma se comporta ao se deparar com escritores que admira). Além do ofício de Joanna, o filme tem várias cenas dedicadas às conversas (pouco inspiradas) dela com os amigos, momentos sobre o relacionamento dela com o novo namorado e um certo incômodo da jovem ao ver como a chefe trata a literatura como um negócio. O filme não é muito mais do que isso, mas é bem feitinho e conta com algumas curiosidades - como a estética anacrônica dos figurinos e alguns cenários (o que me deu até um choque ao ver um computador preto chegando na agência e ouvir o hit Connection do Elastica tocando numa festa... sim, o filme se passa na segunda metade dos anos 1990!!!), além disso tem aqueles momentos em que o filme quebra o realismo da narrativa (o que poderia acontecer mais vezes). Se Qualley não faz nada comprometedor no papel principal, é Sigourney que chama mais atenção em um papel que cita (ainda que indiretamente) sua personagem em Uma Secretária de Futuro (1988) de Mike Nichols (se você não viu, veja!). Quando o filme termina (sem maiores surpresas), a vontade é ver a veterana atriz (que completará em outubro seus 72 anos de vida) em novas produções. 

Meu Ano em Nova York (My Salinger Year / Canadá - Irlanda / 2021) de Phillippe Falardeau com Margaret Qualley, Sigourney Weaver, Douglas Booth, Colm Feore, Brían F. O'Byrne e Théodore Pellerin. ☻☻☻

Pódio: Murray Bartlett

Bronze: o amigo conselheiro.

3º Looking (2014-2015) Nascido na Austrália em 1971,  Murray Bartlett alcançou o reconhecimento com seus papéis em séries de televisão. O resultado na terra natal carimbaram seu passaporte para convites para atuar nos EUA e as oportunidades que surgiram com a aparência de galã não impediram que ele saísse do armário e fizesse disso parte da identidade de seu trabalho. Em tempos de cobrança de representatividade LGBTQIA+ o ator ganhou destaque nesta série da HBO em que vive Dom, um garçom na faixa dos quarenta anos que sente que a vida está um tanto estagnada - o que não impede que seja um tanto paternal com seus amigos. A série ousada durou duas temporadas e rendeu um filme, tudo produzido pela HBO. 

Prata: o namorado calejado. 



2º Crônicas de São Francisco (2019) Bartlett foi responsável por encarnar um personagem gay antológico na história da televisão americana. Ele foi o terceiro ator a interpretar Michael Tolliver na série baseada na obra de Armistead Maupin. Lançada inicialmente em 1993, a série teve temporada recente produzida pela Netflix em que Michael aparece mais maduro e calejado pelas mudanças que vivenciou. Após ter sobrevivido à desilusões amorosas e ao advento da AIDS, aqui ele tem alguns conflitos ao se relacionar com um rapaz algumas décadas mais jovem e que, por vezes, revisita algumas situações vivenciadas pelo personagem em outras temporadas. Um trabalho notável. 

Ouro: o gerente esforçado. 
1º The White Lotus (2021) Embora já tenha declarado que considera que atores possam ser escalados  para todo tipo de papel, desde que gays e héteros tenham chances igualitárias na indústria (o que sabe ser algo bem distante da realidade), o australiano ganhou outro papel gay marcante em sua carreira. Na pele do gerente Armond que administra (suando frio) o luxuoso hotel no Havaí, sua homossexualidade é só um detalhe perante as desventuras do personagem. Perseguido por um hóspede milionário insuportável, o ator sempre chama atenção quando está em cena e fez muita gente ficar chocada no último episódio (seja pela cena escatológica que realiza ou pelo maior SPOILER da temporada). Com tantos sucessos na telinha, só falta o cinema reconhecer o seu talento.