quarta-feira, 5 de agosto de 2015

COMBO: Roqueiros do Cinema

Existem inúmeros filmes sobre bandas de rock, mas o cinema já provou que pode criar suas próprias bandas fictícias e confundir o público que pode até pensar se elas existiram ou não. Esse combo é dedicado às minhas cinco bandas favoritas que não fariam feio no mundo real, talvez por isso algumas realmente ganharam fama fora das telas. 

05 The Wonders (1996) Tom Hanks pode não ser grande coisa como cineasta, mas acertou quando contou os dilemas da banda The Wonders, uma das inúmeras bandas americanas que tentaram sucesso no rastro dos Beatles com seu rock inofensivo feito para embalar namoradinhos da década de 1960. A canção That thing you do! se tornou um hit na tela e fora dela, chegando a ser indicada ao Oscar e tocar no rádio por vários anos. Formado por um baterista bonzinho (Tom Everett Scortt), um vocalista arrogante (Johnaton Schaech), o guitarrista gente boa (Steve Zahn) e o baixista um tanto esquisito (Ethan Embry), o filme não foge muito do trivial, mas serve como bela alegoria sobre o fim da inocência (e ainda tem Liv Tyler e Charlize Theron bem novinhas no elenco). 

4 Quase Famosos (2000) A obra-prima de Cameron Crowe é uma colagem de suas experiências da época em que, ainda adolescente , era repórter da revista Rolling Stone. O filme acompanha a banda de sucesso Stillwater em sua turnê no ano de 1973. Entre drogas, groupies, música e momentos em que a banda quase vira pó, o jovem William Miller (Patrick Fugit) fica amigo do vocalista Russell (Billy Crudup) e se apaixona por sua groupie favorita, a reluzente Penny Lane (Kate Hudson, indicada ao Oscar pelo papel). Crowe imprime uma saborosa energia ao filme, sem perder de vista os tipos curiosos que rondam os personagens (especialmente a zelosa mãe de Willian, vivida por Frances McDormand - também indicada ao Oscar). O filme levou para casa o Oscar de roteiro original e foi o último grande filme de Crowe. 

3 Hedwig (2001) Fazer uma ópera-rock calcada num transexual não é tarefa para qualquer um. Se você considerar então que o diretor, roteirista e ator responsável é o mesmo homem, a coisa fica ainda mais interessante! Só de lembrar o que John Cameron Mitchell faz eu fico impressionado! Sua performance visceral como Hedwig, o jovem nascido na Alemanha ocidental que curtia David Bowie e acabou na cena underground americana colecionando desventuras amorosas (após uma amarga mudança de sexo) é inesquecível. O filme é uma grande ousadia e mostra como Mitchell pode ganhar a vida numa banda quando acharem que seus filmes ficaram menos interessantes. Um dos melhores musicais do cinema americano rendeu à Mitchell uma indicação ao Globo de Ouro de Melhor Ator (e uma das trilhas sonoras mais bacanas de todos os tempos). 

02 The Commitments - Loucos Pela Fama (1991) Os xiitas vão reclamar dizendo que a banda do filme de Alan Parker não é roqueira, mas uma mistura de Soul e R&B! Mas convenhamos que a atitude dos membros da banda formada por moradores do bairro operário de Dublin é mais punk do que de muita bandinha que toca no rádio atualmente. A partir da iniciativa de Jimmy Rabbitte (Robert Atkins) um grupo de jovens com situação social precária, tem o talento descoberto e a mistura de garra, som e fúria flerta constantemente com o fracasso devido as relações do grupo. O filme impressiona pela sua atmosfera realista e deu tão certo que o Commitments tornou-se uma banda de verdade que fez até shows no Brasil!

 01 Isto é Spinal Tap (1984) Considerado uma das melhores comédias de todos os tempos, o filme de Rob Reiner é um documentário farsesco (o tal mockumentary) sobre a banda britânica de Heavy Metal Spinal Tap. Feito a partir da experiência de um diretor que segue a banda para construir um documentário, o filme faz piada com referências explícitas às bandas que estavam no auge na década de 1980. Dos momentos de crise aos estrelismos, Isto é Spinal Tap é considerado por muitos um divisor de águas na construção dos filmes sobre música - ainda que tenha desagradado roqueiros e fãs variados por conta de suas alfinetadas à cultura pop, além de ter levado vários desavisados a acreditarem que o filme era realmente um documentário sobre uma banda da qual deveriam ter ouvido falar e, no entanto, desconheciam completamente.  

CATÁLOGO: Ainda Muito Loucos

Strange Fruit: reencontro vinte anos depois. 

Ainda que não tenha conquistado sucesso no Brasil, a comédia roqueira Ainda Muito Loucos conseguiu relativo sucesso no mercado mundial e ainda foi lembrado em duas categorias do Globo de Ouro em 1999 (Melhor Filme de Comédia ou Musical e Melhor Canção Original). A trama conta o reencontro de uma banda de rock fictícia após receber o convite para participar de um festival. Ao que parece a banda Strange Fruit sempre teve problemas de relacionamento e, após uma desastrosa apresentação no mesmo festival vinte anos atrás anunciou-se o fim à banda. Marcada por excessos, a carreira da trupe teve um fim precoce e cabe ao tecladista Tony Costello (Stephen Rea com sua mesma cara de sempre) reunir o grupo mais uma vez duas décadas depois. O filme de Brian Gibson não tenta ser mais do que uma cômica lavagem de roupa suja, brincando com vários clichês dos veteranos do rock que de vez em quando retornam do limbo do rock. Entre os personagens o mais interessante é o vocalista afetado Ray Simms vivido por Bill Nighy (que em 2003 fez personagem semelhante no insosso Simplesmente Amor). Nighy tem o physique du role para viver o roqueiro aposentado que cansou das comparações com o vocalista anterior (como lembrei do Van Halen) e que tenta reerguer a carreira solo ao lado da esposa perua - que detesta os ex-colegas de banda. As letras melosas calcadas nas melodias de bandas hardcore dos anos 1970 e 1980 rendem um repertório convincente para uma banda que envelheceu mal, não consegue se entender, mas quer algum reconhecimento pelos seus anos de glória. O filme conseguiu reunir um grupo de atores ingleses sensacionais (como Timothy Spall como o mais doido do grupo, Billy Connolly e Jimmy Nail como o mais sentido por perder os vocais para Simms) para dar corpo a banda e seus conflitos, o roteiro constrói um road movie inofensivo calcado nos shows que a banda faz pela Europa para provar que merece uma segunda chance perante uma nova geração de possíveis fãs. Entre um membro desaparecido, um jovem guitarrista substituto, o fantasma do ex-vocalista falecida, a presença constante da agente e companheira Karen (Juliet Aubrey) e o assédio maldoso da impresna, Ainda Muito Loucos se alimenta de uma certa nostalgia, sem perder o tom de ingenuidade que, por vezes, soa um tanto forçado.  A direção de Brian Gibson não se arrisca, mas tem o mérito de transformar as apresentações do grupo em momentos onde o inesperado pode acontecer e atrapalhar tudo - principalmente quando eles ainda tentam entender o público roqueiro da virada do século XX para o XXI. Pode não ser inesquecível, mas serve como um simpático passatempo. 

Ainda Muito Loucos (Still Crazy/Reino Unido - 1998) de Brian Gibson com Stephen Rea, Bill Nighy, Timothy Spall, Jimmy Nail, Juliet Aubrey e Bruce Robinson. ☻☻☻

terça-feira, 4 de agosto de 2015

PL►Y: Gordos

Antonio de la Torre: a difícil arte da chacota. 

Celebrado por sua estreia em longa metragem com o drama Azul Escuro Quase Negro (2006), o diretor Daniel Sánchez Arévalo teve que ouvir algumas críticas em seu trabalho seguinte, a comédia Gordos. O motivo de estranhamento é que a comédia é tão sutil quanto o título que carrega sem firulas. Retratando um grupo de obesos que participam de uma terapia de grupo, o diretor investe mais uma vez em mesclar os destinos de vários personagens, mas dessa vez, incomoda a plateia com algumas indelicadezas que remetem diretamente ao olhar da sociedade sobre quem está acima do peso. Por sua audácia, o filme concorreu a oito prêmios Goya (edição, roteiro original e o resto para o seu elenco - premiando Raul Arévalo como ator coadjuvante). Por vezes o filme consegue ser bastante divertido, em outras causa estranhamento em quem está acostumado com o tom politicamente correto das comédias que costumam aparecer no cinema. O filme gira em torno do grupo mediado pelo terapeuta Abel (Roberto Enríquez), que utiliza alguns métodos incomuns para fazer seus participantes lidarem com a obesidade. Logo de início pede para que todos tirem a roupa e se vejam completamente nus, uns na frente dos outros. Quem não sente-se a vontade de se despir diante do grupo, pode ir embora e, de fato, o fazem, permanecendo somente alguns que parecem dispostos a entrar na proposta (do filme, inclusive). Assim conhecemos Enrique (Antonio de la Torre que comentei recentemente aqui no blog por sua atuação em Canibal/2013), garoto propaganda de uma marca de remédios para emagrecer, mas que não conseguiu honrar o contrato com o sócio de permanecer três anos magro e caiu em decadência. Enrique está obeso e enfrenta dificuldades para lidar com todo o escárnio que a vida de celebridade lhe proporciona diante de seu novo físico. Sofía (Leticia Herrero) também enfrenta dificuldades para lidar com os quilos a mais que ganhou nos últimos anos e seu relacionamento assexuado com Alex (Raul Arévalo), o noivo religioso, também não ajuda muito a sua auto-estima. Já Andres (Fernando Albizu) é uma espécie de agente da CSI espanhola que lida bem com sua gordura, ao contrário da filha adolescente que precisa aguentar os deboches do irmão gêmeo magro e dos colegas na escola. Completa o grupo Leonor (María Morales), que trabalha com protocolos de segurança da internet e que preenche a distância do namorado (que foi morar nos EUA) com mais comida do que deveria. O filme acompanha os tropeços dos personagens em sua jornada de auto-conhecimento, sempre de forma debochada - o que pode chocar os, digamos... mais puros de coração. Curiosa é a relação que o roteiro do próprio Arévalo tece entre o físico dos personagens e a sexualidade. Essa relação do corpo com a comida, a libido, a auto-estima e o pecado poucas vezes foi explorada de forma tão escancarada quanto vemos aqui - talvez por isso eu tenha ficado bastante surpreso com o rumo que os personagens tomam durante o filme. Entre quilos idos e quilos ganhos, o filme investe num olhar ácido sobre seus personagens, de onde não escapa nem o magro terapeuta que precisa lidar com as mudanças que a gravidez provoca no corpo de sua esposa. Narrado de acordo com os passos do tratamento promovido por Enrique nos tempos de magreza, o filme faz rir e pensar sobre personagens que geralmente são tratados apenas como simpáticos e sorridentes. Gordos retira o tipo do estereótipo e torna-se uma espécie de ousadia cinematográfica com seu humor latino desembestado (e um bocado de pimenta para temperar  a maledicência).  

Gordos (Espanha/2009) de Daniel Sánchez Areválo com Antonio de la Torre, Roberto Enríquez,  Raul Arévalo,  María Morales e Verónica Sánchez. ☻☻☻☻

PL►Y: Blind

Ingrid: sozinha em seus pensamentos. 

Entendo que um filme cumpre seus objetivos quando ele consegue transportar as sensações do personagem para o espectador, no entanto, existem alguns casos bem específicos onde essas sensações extrapolam em uma experiência cinematográfica. Mais do que contaminar a quem assiste com tristeza, medo ou alegrias, existem obras que conseguem criar uma experiência mais específica. Posso dizer que se enquadram nessa categoria filmes como Amnésia (onde a famosa narrativa de trás para frente proporciona ao público ver cada cena com o mesmo estranhamento do protagonista), Réquiem Para um Sonho (onde o mal estar caótico dos personagens causa vertigem até no espectador mais experiente), o silenciosamente furioso A Gangue (com diálogos em linguagem de sinais sem legendas) e o recente Blind. O filme norueguês de Eskil Vogt estreou no Brasil em março desse ano, chamou a atenção da crítica e causou ódio em alguns expectadores diante do que viram na tela. Ame ou odeie, vale conferir e tirar suas próprias conclusões. Desde o início, Vogt deixa claro que o filme é baseado na narrativa de Ingrid (Ellen Dorrit Petersen) que sofre de uma doença degenerativa no globo ocular. A medida que se apresenta para a plateia, a personagem tem o desafio de guiar nosso olhar diante das impressões que tem da realidade, mas... que realidade é essa? Ingrid explica a dificuldade que é construir imagens mentais do mundo que aos poucos deixa de enxergar, assim como, a dificuldade em separar suas desconfianças das impressões reais que passa a ter do mundo através de outros sentidos que não seja a visão (e a imagem do cão na vitrine é um belíssimo exemplo disso). Diante de sua nova condição, Ingrid torna-se cada vez mais reclusa, passando o tempo diante da janela do apartamento para o qual se mudou a pouco tempo com o marido arquiteto Morten (Henrik Rafaelsen). Enquanto o esposo trabalha, Ingrid introduz dois outros personagens da trama, Einar (Marius Kolbenstvedt ) e Elin (Vera Vitali), que desde o início estão impregnados de como Ingrid os percebe. Com esses quatro personagens, Blind passa a brincar com as nossas percepções, de forma que passamos a enxergar não apenas pela narrativa oral de sua protagonista, mas também, a partir de uma narrativa imagética de como ela passa a ver o mundo (portanto, se às vezes ela mesma diz que não se lembra da sua aparência, não se espante se também ficar confuso com alguns truques da narrativa). Das desconfianças variadas da infidelidade do marido, passando por seus desejos diante do mundo que não consegue enxergar, o diretor tece a realidade conforme sua protagonista mescla real e fantasioso. Em uma hora e meia de duração, o filme consegue ser bastante provocador em sua proposta de convidar o espectador a ter a mesma visão de sua protagonista, no entanto, alguns podem considerar que parte do seu fôlego se perde quando nos damos conta de seu elaborado truque.  

Blind (Noruega-Holanda/2014) de Eskil Vogt com  Ellen Dorrit Petersen, Henrik Rafaelsen, Marius Kolbenstvedt e Vera Vitali. ☻☻☻☻

sexta-feira, 31 de julho de 2015

N@ CAPA: Audrey Hepburn by Erika Iris Simmons


A capa do blog no mês de julho foi uma obra de Erika Iris Simmons, uma artista plástica americana que se tornou famosa por transformar objetos usados em obras de arte. A ilustração de Audrey Hepburn no clássico Bonequinha de Luxo (1961) é apenas uma das obras da coleção "Ghost in the Machine", onde Erika buscou inspiração no filósofo Gilbert Ryle para criar suas obras. Famoso por descrever como seu espírito vive no corpo, Ryle fez com que Erika visse o ser humano como cassetes e rolos de filmes antigos, ou seja, ideias e pensamentos presos à uma embalagem estranha. Sem tintas ou pigmentos, ela utiliza esse material numa reciclagem artística impressionante. Desmontando bobines e cassetes, reorganizando fitas e filmes e usando apenas alguns cortes, ela criou retratos notáveis de ícones do cinema e da música.  Para conhecer mais a obra da artista você pode visitar sua página na internet. 

Audrey Hepburn


Marilyn Monroe

Debbie Harry

The Beatles

Madonna

Jimy Hendrix

Bob Dylan

PL►Y: O Amante da Rainha

Mads, Alicia e Mikkel: há algo de iluminista na Dinamarca...

É muito difícil encontrar um romance de época que consegue contar História sem parecer uma aula chata e documental de algo que já aconteceu. Por conta desse mérito, o dinamarquês O Amante da Rainha foi um dos filmes mais elogiados de 2012, colhendo indicações ao Oscar e ao Globo de Ouro de Filme estrangeiro. O filme de Nikolaj Arcel (diretor de Os Homens que Não Amavam as Mulheres na versão original de 2009) é um grande acerto. Não apenas pela belíssima reconstituição de época, mas pela maneira sólida como conduz a dinâmica entre seus três personagens importantes para a História da Dinamarca. Alicia Vikander (que em breve estará no aguardado Ex-Machina de Alex Garland) vive Caroline Mathilde, a jovem inglesa que se casa com o Rei da Dinamarca, Christian VII (Mikkel Boe FØlsgaard) no ano de 1767. Animada com seu interesse pelas artes, a admiradora dos pensadores iluministas logo fica desiludida quando descobre a imaturidade do rei, que é desagradável, grosseiro, agressivo e até violento. A presunção do nobre, somada ao constante consumo de álcool e relações com prostitutas, distanciam cada vez mais qualquer interesse de Caroline por ele. Após o nascimento do primeiro filho, o abismo entre ambos cresce ainda mais, já que ela não possui mais a obrigação de gerar herdeiros para o trono. As coisas irão mudar quando o médico alemão Johann Friedrich Struensee (Mads Mikkelsen) passa a ser o médico particular do rei. Struensse também produzia publicações propagando os ideais iluministas e percebe em Caroline uma aliada para mudar a realidade do povo dinamarquês. Sob influência do médico, Christian VII consegue transformações importantes para o país, o que passa a desagradar muitos nobres (que rendiam mais despesas do que crescimento para o país) que passam a especular sobre até que ponto Struensse pode influenciar no governo da Dinamarca - some isso às suspeitas do adúltero caso entre ele e a rainha e você pode imaginar os problemas que vão aparecer. Sem ser panfletário, Arcel cria um romance envolvente, sem perder de vista o contexto político da época e a luta de interesses que estavam em jogo num período fundamental para o pensamento sócio, político e filosófico da humanidade. Além da qualidade com que trata o período histórico retratado, o filme conta com atuações precisas de seus atores (Mikkel foi considerado o melhor ator do Festival de Berlim em 2012) defendendo um roteiro muito bem construído (também premiado em Berlim) que rende vários momentos de emoções variadas na narrativa (ao ponto de alguns pontos parecerem mais cômicos do que deveriam).  O Amante da Rainha entretêm e faz pensar numa temática pouco explorada no cinema, tonando-se um forte candidato à clássico do cinema. 

O Amante da Rainha (En Kongelig affaere/Dinamarca-Suécia-República Tcheca/2012) de Nikolaj Arcel com Alicia Vikander, Mads Mikkelsen, Mikkel Boe FØlsgaard e David Dencik. ☻☻☻☻

PL►Y: Maze Runner - Correr ou Morrer

Dylan (o quarto da esquerda para direita): herói teen. 

Virou uma febre nos estúdios buscar séries (ou sagas) literárias para adolescentes para transformar em filmes. A porta aberta por Harry Potter (2001) gerou outras adaptações voltadas para o mesmo público. Franquias iniciadas com Crepúsculo (2008), Percy Jackson (2010), Jogos Vorazes (2012) e Divergente (2014) valem ouro entre as plateias juvenis. É verdade que no ramo as meninas levam vantagem no protagonismo (e eu nem mencionei os fiascos Dezesseis Luas/2013 e Os Instrumentos Mortais/2013), portanto, não deixa de ser interessante o sucesso de Maze Runner e sua estrutura majoritariamente voltada para os garotos, com momentos para exercitar a testosterona e os atritos. O filme marcou a estreia de Wes Ball na direção depois de realizar trabalhos de efeitos especiais e direção de arte em vários filmes. Diante do apelo visual percebe-se o motivo da escolha de Wes. Maze Runner não tem o apelo de mitologias ou elementos sobrenaturais para garantir o interesse da plateia, está mais para os modelos de sociedade distópica de Jogos Vorazes e Insurgente (e não deixa de ser interessante como esses dois mundos servem para a construção das aventuras voltadas para os adolescentes, mas isso é assunto para outro momento). Em Maze Runner: Correr ou Morrer, vamos descobrindo a história junto com os personagens numa aventura cheia de suspense. O protagonista da trama é Thomas (Dylan O'Bryen), um rapaz que acorda sem memória trancado em um elevador. O transporte o leva até uma clareira onde conhece um grupo de garotos isolados que vivem isolados às voltas com um misterioso labirinto que abriga criaturas monstruosas que permanecem distantes quando as portas do labirinto se fecham à noite. Entre os meninos existe Gally (Will Poulter e suas sobrancelhas inconcebíveis), o líder do grupo e primeiro a chegar clareira. Gally se considera a pessoa mais indicada a manter a ordem com a ajuda do mais sensato Mewt (Thomas Bordie-Sangster), enquanto um grupo de escolhidos é responsável por mapear o labirinto e encontrar uma possível saída daquela realidade. Com regras rígidas o grupo começa mudar a rotina quando Thomas resolve mudar algumas estratégias de sobrevivência. A partir desse ponto coisas diferentes começam a acontecer colocando em risco o grupo e deixando Gally cada vez mais receoso de manter Thomas no grupo - e tudo piora quando o rapaz recupera a memória. Como em outras aventuras destinadas à faixa etária, o mocinho é mais uma vez aquele sujeito que pensa diferente e aos poucos torna-se um líder por ganhar a confiança do grupo com suas ousadias. Até aí o filme não tem novidade alguma. O frescor da franquia é o tom de mistério que domina a história até o final onde é revelado os maiores segredos daquela realidade sombria. O resultado colheu críticas positivas e agradou as plateias mundiais, ao ponto de render três prêmios no MTV Movie Awards (espécie de termômetro do gênero), sendo todos envolvendo o protagonista Dylan O'Bryen (revelação do ano, melhor luta e melhor herói)  o que só ressalta como os meninos faziam falta nesse filão hollywoodiano. O próximo filme da série (Maze Runner: Prova de Fogo) será lançado no dia 17 de setembro no Brasil. 

Maze Runner: Correr ou Morrer (Maze Runner/EUA-2014) de Wes Ball com Dylan O'Bryen, Will Poulter, Thomas Bordie-Sangster e Patricia Clarkson. ☻☻☻

quinta-feira, 30 de julho de 2015

CATÁLOGO: Impulsividade

Lou: aprendendo a ser você mesmo. 

Existem filmes que eu persigo feito um louco, mas demoro muito tempo para assistir por motivos variados. Um deles foi Impulsividade, o primeiro longa metragem dirigido por Mike Mills (o mesmo diretor que rendeu o Oscar de coadjuvante para Christopher Plummer em Toda Forma de Amor/2011). Lançado em 2005, lembro que alguns críticos não viram nada demais na história de autodescoberta de um adolescente de 17 anos que ainda não superou a mania de chupar o polegar - especialmente porque esse papel rendeu ao jovem Lou Taylor Pucci (na época com vinte anos) o Urso de Prata de Melhor Ator no Festival de Berlim. Porém, acredito que a passagem do tempo só valorizou ainda mais o filme e, com o aumento no uso de ritalina no tratamento de crianças e jovens consideradas hiperativas ou com déficit de atenção, o filme parece fazer ainda mais sentido hoje em dia. Ou seja, de certa forma, a história (adaptada do livro de Walter Kirn), rendeu um longa à frente de seu tempo. Pucci vive Justin Cobb, um adolescente que convive com pais que preferem ser chamados pelo nome ao invés de pai e mãe. Tudo porque Mike (vivido por Vincent D'Onofrio) sente-se velho quando chamado de pai e também não gosta quando escuta Audrey (interpretada por Tilda Swinton) ser chamada de mãe por considerar que ela fica parecendo velha demais para ele. Justin também tem um irmão caçula, Joel (Chase Offerle) que se contenta (ainda) com o universo ao seu redor. Para essa família comum, Mills constrói um lar de silêncios e distâncias, onde os filhos aprendem com os pais a sufocarem suas frustrações na criação de uma imagem que almeja ser de  "sucesso". Isso fica evidente quando Justin é considerado pouco esforçado e desinteressado por não querer competir com os seus colegas nas aulas de retórica. Mike parece ver em Justin somente o seu hábito de chupar o dedo, o que o incomoda bastante. Ele, assim como a esposa, não percebe que aquilo revela que aquilo é sinal de algo sobre o filho adolescente cheio de dúvidas e angústias, mas sem um responsável capaz de ensiná-lo a lidar com seus sentimentos. Quem tenta fazer o rapaz pensar na vida é seu dentista (Keanu Reeves), que chama sua atenção por não querer consertar os dentes dele novamente. Justin começa tratado com hipnose e depois com ritalina. Seu comportamento muda, mas os diálogos continuam longe da realidade do lar de Justin, mas ele disfarça isso tornando-se uma celebridade no grupo de debates da escola - pelo menos até ele ficar preocupado com o fato da ritalina ter apenas três moléculas que a diferencia da cocaína e... a personalidade do rapaz muda novamente. Impulsividade é um filme que trata de um dos maiores dilemas da adolescência: a construção de sua própria identidade, mesclando isso à mania moderna de medicalizar a forma como lidamos com nossos sentimentos mais obscuros. Existe aquele momento desconfortável em que o sentimento de solidão nos faz voltar para nós mesmos e temos que decidir os caminhos que vamos seguir. Em alguns momentos, até os adultos do filme apresentam essa dificuldade, onde até um artista cultuado de TV aparece com sua cota de problemas em lidar com a realidade. É dessa tarefa árdua que se alimenta o filme que é conduzido com aquele tom intimista e pessoal que Mills domina tão bem. Nesse aspecto, o filme fica ainda mais interessante com a presença de Lou Taylor Pucci, que constrói seu personagem com aquele delicioso frescor adolescente de quem ainda considera cedo demais para se render a uma derrota.  

Impulsividade (Thumbsucker/EUA-2005) de Mike Mills com Lou Taylor Pucci, Tilda Swinton, Vincent D'Onofrio, Keanu Reeves, Benjamin Bratt e Kelli Garner. ☻☻☻☻ 

quarta-feira, 29 de julho de 2015

§8^) Fac Simile: Paul Rudd

Paul Stephen Rudd completou 46 anos em 06 de abril desse ano e parece ter embarcado no maior sucesso de sua carreira com Homem-Formiga. Sua primeira experiência no cinema foi no pouco lembrado Questão de Ética (1992), numa época longínqua em que seu nome artístico ainda era Kenny Chin. Três anos depois fez par com Alicia Silverstone em As Patricinhas de Beverly Hills (1995) e no ano seguinte foi rival de Leonardo DiCaprio no coração de Claire Danes em Romeu+Julieta (1996)... mas pouca gente lembra dele nessa época. Depois de sua participação como Mike Hanningam (o noivo de Phoebe) na série Friends de 2002 até 2004, Hollywood passou a vê-lo como comediante.  Nas coletivas de lançamento de Homem-Formiga, nosso repórter imaginário conseguiu fazer cinco perguntas para o ator nessa entrevista que nunca existiu:

§8^) Homem-Formiga marca uma nova fase em sua carreira o de "Heróis de filmes de Ação"?

Paul: Não sei, mas os filmes da Marvel irão me garantir mais adrenalina do que costumo ter na maioria dos filmes que faço. Mas tenho me dedicado a uma pegada mais dramática nos últimos anos, meu novo filme (The Revised Fundamentals of Caregiving baseado no livro de Jonathan Evison) é um drama. Eu também curti fazer o professor de As Vantagens de Ser Invisível/2012 e o protagonista de  Prince Avalanche/2013, o próprio Homem-Formiga tem esse lado mais dramático e humano. Acho que aos poucos estão vendo que sou um ator e não apenas um cara que faz rir... se bem que todo mundo ri quando se fala Homem-Formiga, mas eu sei que com meu currículo ser Superman ou Wolverine não ia rolar!

§8^) Qual a coisa mais idiota que já fez numa comédia?

Paul: Aquele final de Virgem de 40 anos (2005) cantando "Age of Aquarius", teve gente que achou que eu estava chapado. Quando vi aquilo na tela foi pior do que comer com aquele bigodão de O Âncora (2004) ou fingir que eu era dez anos mais jovem em Nunca é Tarde Para Amar/2007 (onde eu parecia um idiota ao lado de Michelle Pfeiffer). Tínhamos outras opções musicais para terminar o filme, uma delas era "Like a Virgin". Eu tinha até uma versão com black power cantando "Sex Machine" do James Brown, mas teve gente que achou ofensivo.

§8^) Foi fácil atuar com as Formigas?

Paul: No início fiquei assustado, mas depois fiquei amigo de todas elas. As formigas são muito talentosas e gostam de improvisar! São tão ativas que você nem percebe o quanto gostam de açúcar! Infelizmente não temos grande variedade de filmes com elas. São muito discriminadas...

§8^) Qual a pior coisa de se preparar para ser um super-herói?

Paul: Parar de comer tudo o que eu gosto e ter que malhar feito um louco... para depois descobrir que poderiam ter feito aquele abdome tanquinho com efeitos de computação gráfica!!!

§8^) Onde você estava com a cabeça para começar a carreira com um nome feito Kenny Chin?

Paul: Não faço a mínima ideia, meu amigo... mas se me der alguns minutos eu posso inventar alguma história envolvendo ninjas e samurais assassinos com os personagens de South Park numa realidade paralela...