segunda-feira, 28 de março de 2011

DVD: Minhas Mães e Meu Pai


Minhas mães e meu pai: um olhar simpático sobre uma família moderna.

Num ano de comédias fracotas era mais do que previsível que Minhas Mães e Meu Pai de Lisa Cholodenko se tornasse a mais falada do ano. Tanto que desde que apareceu no festival de Cannes já mostrava fôlego de figurar em várias categorias nas premiações. Acabou que levou o Globo de Ouro de Comédia/Musical e o de melhor atriz de comédia/musical para Annete Benning, que ainda foi lembrada na categoria de Melhor Atriz do Oscar. Obviamente que não se trata de uma comédia rasgada, mas de um filme de humor sutil e que utiliza o humor para nos desarmar de qualquer resquício de preconceito, afinal, se existe uma mensagem no filme é de que as famílias são todas iguais, não interessa se são homos ou heteros. A médica Nic (Benning) e a paisagista Jules (Julianne Moore) são lésbicas e felizes, casadas há décadas e com dois filhos frutos de inseminação artificial. Joni (a sonolenta Mia Wasikowska) está em suas últimas semanas em casa antes de ir para a faculdade e Laser (o bom Josh Hutcherson) nutre cada vez mais a curiosidade de descobrir quem é o doador responsável por sua concepção. Assim, o casal de irmãos acaba se deparando com um dono de restaurante e plantador de alimentos orgânicos (Mark Rufallo, indicado ao Oscar de coadjuvante) e que para além de doador, alimenta seu lado paternal ao conhecer seus filhos biológicos. O roteiro de Cholodenko explora o impacto dessa figura nova num lar já estruturado, aparentemente feliz e de papéis bem demarcados, sendo assim, o filme abrange o interesse dos filhos, o interesse do pai, o ciúme de Nic, a atração inevitável do pai por Jules... Cholodenko explora levemente as nuances das relações que se desenham, aborda a crise instaurada na relação de um casal maduro, os problemas com a adolescência dos filhos e a sensação de que estes se distanciam cada vez mais de suas matricarcas - coisas que podem acontecer em todas as famílias.  A direção evita clichês (apesar de associarmos claramente a postura dominadora de Nic como masculina e a liberal de Jules como feminina, embora essas características estejam presentes em ambos os sexos) e opta por uma condução naturalista das atuações - que funciona melhor quando as relações entre os personagens se tornam mais complexos. Deve brotar daí a sinceridade que todos os atores empregam nas atuações, memso diante das situações curiosas propostas pelo roteiro (o filme pornô masculino, a conversa sobre a sexualidade de Laser, a conversa sobre "tal mãe tal filho", o fato de Nic não apoiar a carreira da esposa...). Annete conseguiu sua quarta indicação ao Oscar por uma atuação sutil em que escancara a humanidade de sua personagem entre qualidades e defeitos, Julianne Moore segue pelo mesmo caminho, mas de forma mais expansiva. As duas já mostraram suas competências em vários filmes e aqui alcançam mais um punhado de bons momentos. O mesmo se pode dizer de Rufallo que tem a tarefa espinhosa de ser o macho que ameaça um lar já estruturado. Talvez, simbolicamente, ele represente o homem heterossexual deste século que não sabe muito bem como deve ser ou agir (o cara não cuida nem do próprio jardim!) quando aparenta ser tão desnecessário para o sexo oposto, assim como Laser. A diferença é que enquanto um está nas incertezas da adolescência, o outro já passou dos 40 e permanece com a mesma inconstância em suas relações. Esse nó nas relações também aparece nas adolescentes femininas do filme, que refletem a sexualização de tudo ou de nada. Quem disse que realcionamentos e sexo era uma coisa simples? Indicado ao Oscar de filme, roteiro original, atriz (Benning) e ator coadjuvante (Rufallo) o filme ilustra bem (em sua alma independente) como as ideias valem mais do que efeitos especiais. 

Minhas Mães e Meu Pai (The Kids are Allright/EUA-2010) de Olga Cholodenko com Annete Benning, Julainne Moore, Mark Rufallo, Mia Wasikowska e Josh Hutcherson.   ☻☻☻

domingo, 27 de março de 2011

DVD: O Segredo dos Seus Olhos

Soledad e Darín: sobrevivendo a 25 anos de nada. 

Apesar de todos os elogios e prêmios de A Fita Branca e O Profeta, o Oscar de filme estrangeiro em 2010 foi para o argentino O Segredo dos Seus Olhos. Lembro que na época imaginei que os brasileiros poderiam aprender com os hermanos a escolher melhor seus concorrentes - mas depois que indicaram o filme do Lula cheguei à conclusão que os brasileiros não desistem nunca. O grande diferencial do filme de Juan Jose Campanella (antes indicado ao prêmio por O Filho da Noiva/2001) é que não tem medo de ser menos solene. Ricardo Darín interpreta Benjamin Espósito, um aposentado que trabalhou a vida toda num tribunal penal e agora tenta escrever o seu primeiro romance baseado nas lembranças de um caso que ainda o instiga. No ano de 1974 uma jovem professora é violentada e morta, e Espósito chega ao suspeito por conta de fotografias onde um determinado homem observava a vítima com cobiça. Essa suspeita que beira o surreal é o que guia parte da narrativa. A outra parte fica por conta do personagem querer ajustar contas com o seu próprio passado depois de "25 anos de nada". Campanella conduz o suspense com grande competência numa trama policial que flerta com os clássicos noir, mas é esperto o suficiente para ampliar a trama de seu filme para uma história de um homem que quer passar sua história a limpo. Nesta história ainda existem três outros personagens importantes. Uma é sua superior Irene (interpretada com maestria por Soledad Villamil), o amigo beberrão Sandoval (o ótimo Guillermo Francella) e o jovem viúvo (Pablo Rago) que se tornam construtores não apenas da jornada policial em que o filme mergulha como também das culpas e frustrações de Espósito. É impressionante como Campanella filma bem (talvez tenha aprimorado ainda mais sua técnica ao dirigir episódios de seriados americanos como Law & Order, onde um arco narrativo deve sustentar o outro até o fim da temporada). A cena de perseguição no estádio é brilhante, assim como a despedida na estação no trem e a cena da declaração de Irene ao final onde a pausa dramática é interrompida por um comentário inusitado (e por isso mesmo muito sincero). Além desses momentos ainda tem o final surpreendente - que deve ter contado muitos pontos entre os votantes da Academia que o consideraram o melhor filme em língua estrangeira de 2009. Realmente foi merecido. A fotografia do filme é belíssima, a reconstituição de época é competente, o roteiro tem uma construção minuciosa e a edição é um primor de coerência e ritmo. Além de todos esses predicados, o diretor contou com um elenco de primeira para defender um roteiro que poderia descambar facilmente para o sensacionalismo (já que a trama até arranha o espinhoso passado político da Argentina). Além de Ricardo Darín (ator fetiche de Campanella) e do comediante Francella, fiquei realmente impressionado com o trabalho da atriz Soledad Villamil - seu trabalho gestual e vocal para transmitir a passagem do tempo em sua personagem é impressionante. Ela é a personificação perfeita de como a segurança que a passagem do tempo pode proporcionar é o melhor remédio para resolver algumas pendengas.   

O Segredo dos Seus Olhos (El secreto de sus ojos/Argentina - 2009) de Juan Carlos Campanella com Ricardo Darín, Soledad Villamil, Pablo Rago e Guillermo Francella.  ☻☻☻☻

FILMED+: O Profeta

Rahim em cena da missão mais inacreditável de Malik.

O Profeta dividiu as atenções com A Fita Branca de Michael Haneke em sua primeira exibição em Cannes2009 e desde então se sabia que os dois iriam medir forças entre os indicados ao Oscar de filme estrangeiro. Se o filme de Haneke aposta numa violência mais sutil, o  filme do francês Jacques Audiard é bem mais explícito com cenas que beiram o inacreditável - tanto que o filme recebeu por aqui a censura de 18 anos. No entanto, trata-se de um filme que merece ser visto apesar de alguns excessos. Em sua mais de duas horas e meia de projeção, o filme acompanha o jovem Malik (o ótimo Tahar Rahim, eleito o melhor ator europeu de 2009 pelo filme) de dezenove anos e sem passado. Não possui familiares ou amigos, aos poucos sabemos que não sabe ler nem escrever, cresceu num reformatório. Além disso é preso por um motivo que desconhecemos e tem como pertences somente um zíper, um cigarro e uma cédula de cinco euros (além de várias cicatrizes). Por seus traços é identificado como muçulmano, mas isso não quer dizer muita coisa para alguém que estava acostumado a viver como se não existisse. Malik não cria laços sociais ou afetivos na prisão, até que um novo presidiário o assedia. O fato poderia passar em branco se os membros da máfia dos corsos que dominam os detentos não precisasse que este assediador fosse morto. Essa missão cai nas mãos de Malik, que se não executar o serviço será morto. Este é o primeiro passo para que o jovem se torne uma espécie de capacho dos corsos em troca de proteção. Em seus três anos de pena, o rapaz bem comportado e apático irá se revelar uma verdadeira esponja perante o ambiente que o cerca. Malik é observador e paciente o suficiente para aprender a hora certa para mover as peças necessárias  para sair da prisão numa posição completamente diferente da que entrou, assim, acaba utilizando as informações que recebe na prisão para se tornar um traficante. Isso não irá agradar seu protetor (Niels Arestrup), já que este conta com o dia de liberdade por ano (ao qual Malik tem direito) para fazer serviços sujos. Audiard utiliza tantos recursos em sua narrativa que o que poderia ser mais um filme de prisão se transforma numa espécie de hipnose. Apesar de um pouco mais longo do que deveria, o diretor sabe exatamente onde colocar os momentos de tirar o fôlego (como as missões impossíveis dos dias de "liberdade" de Malik) e nos faz até capazes de simpatizar com o nascimento de um poderoso traficante entre os muros de uma penitenciária.

O Profeta (Un Prophéte/EUA-2009) de Jacques Audiard com Tahar Rahim, Niels Arestrup e Adel Bencherif. ☻☻☻☻☻

quarta-feira, 23 de março de 2011

PODERES ESPECIAIS - 1ª Edição

Agora sempre que eu comentar sobre um filme de super-heróis irei lembrar alguns personagens aparentemente comuns que na verdade escondem seus poderes por trás de uma vida convencional. Será que só eu percebi que essas pessoas tèm super-poderes?

Dr. Creo (Fonte da Vida)
Poder: Imortalidade
O Doutor Thomas Creo estava pesquisando a seiva de uma árvore sagrada localizada na América Latina, com isso esperava curar sua amada esposa vítima do câncer. Como não conseguiu acabou utilizando a seiva em si mesmo e se tornando imortal. Desde então, Creo partiu em uma jornada pelo universo para desvendar os mistérios da existência. Como transporte utiliza uma bolha de material sintético, como companhia possui uma árvore que foi plantada no túmulo de sua amada (e que Creo acredita abrigar a alma dela). Mais do que médico, Creo utiliza seus poderes para aprimorar seus estudos no conhecimento de uma metafísica empírica.

Zelig (Zelig)
Poder: Morfosidade
Não se engane com sua cara de bonzinho, Leonard Zelig pode adquirir as características de qualquer pessoa que se aproxime para conseguir o que quer. Existe uma explicação científica para isso, Zelig sofre de uma doença rara que lhe permite incorporar características físicas e psicológicas de qualquer ser humano. Sofrendo da rara Síndrome do Camaleão o cara foi até alvo de uma cinebiografia documental feita por Woody Allen. Suspeita-se que tenha se tornado um agente secreto do governo americano infiltrado atualmente na Líbia.

Ms. Litzke (Queime Depois de Ler)
Poder: Hipnotismo
Linda Litzke sabe que não está no auge de sua forma, por isso mesmo, seu maior sonho é fazer plásticas para recuperar a juventude que não lhe pertence mais. Se longe dos bons tempos ela ainda possui um poder de hipsnose gigantesco (motivo pelo qual é capaz de fazer todos os homens ao seu redor obedecerem suas ordens - mesmo que isso lhes custe a própria vida), imagine o que conseguirá quando fizer sua sonhada recauchutada? Seja como for, Ms. Litzke perdeu seu comparsa e teve problemas com a CIA antes de sumir no mundo da espionagem

Mickey O'Neil (Snatch)
Poder: Super Força
O cigano de fala indecifrável já deve ter contado o segredo se sua força, mas acho que ninguém entendeu. Mickey tem o soco mais possante do mundo e quanto mais apanha, seu organismo incomum absorve o impacto e converte em um soco ainda mais possante!! Não existe oponente para ele! No entanto, Mickey tem traumas que devem ser superados com a vingança sobre os vilões que queimaram o trailer em que vivia com sua mãe. Ele tentou contar como aconteceu isso, mas ninguém entendeu.

Letham (A Passagem)
Poder: Manipular a realidade
Henry Letham até que tentou lidar com suas habilidades, mas quase levou seu analista à beira da loucura com a falta de habilidade em notar que vivia em meio a diversas simulações da realidade. Letham consegue manipular a realidade independente de sua vontade, o que afeta a todos ao seu redor. Seu poder em mãos inimigas pode ser extremamente perigoso, por isso mesmo vive obcecado em  acabar com a própria vida antes que algo de pior aconteça - ou simplesmente altere a realidade até um ponto onde não saiba mais o que é real ou invenção de seus poderes fora de controle. 

FILMED+: WATCHMEN

Watchmen: Heróis lidando com seus próprios vilões internos.

Acho que nenhum filme que eu citar no FILMED+ é tão odiado quanto Watchmen. Porém, sei que o filme tem uma cota considerável de fãs (a maioria deles na Europa onde o filme virou sucesso de bilheteria, enquanto o resto do mundo o rejeitou). Tanto amor e ódio é mais do que compreensível quando pensamos que o filmé é baseado na mais cultuada HQ de todos os tempos, a obra-prima de Alan Moore e David Gibbons, sendo a única história em quadrinhos presente na lista da revista Time sobre as maiores obras da língua inglesa. Obviamente que tanto culto à obra impressa se reverteria em mesma medida em marketing e decepção para os fãs quando o filme ficasse pronto. Talvez por isso a adaptação da saga de Comediante & Cia tenha demorado tanto para ganhar as telas. Na época em que o Batman (1989) de Tim Burton fez sucesso, os estúdios ficaram coçando as mãos para adaptar Watchmen - mas graças aos deuses do cinema a versão estapafúrdia proposta à Terry Gillian não saiu do papel. No século XXI sobravam rumores envolvendo nomes como Darren Aronofsky e Paul Greengrass, mas ambos não tiveram fôlego para tocar um projeto com tamanho nível de complexidade, expectativas e cobranças do estúdio. Acostumados ao cinema independente isso é totalmente compreensível. Foi um fã da série em quadrinhos que topou a empreitada com medo dos estragos que poderiam fazer à uma obra tão cultuada. Zach Snyder havia saído do sucesso de 300 (2006) de Frank Miller e mergulhou de cabeça no universo paralelo criado por Miller e Gibbons, fazendo um filme visualmente irrepreensível e que está longe de ser um filme de herói comum. A maior ousadia do diretor talvez seja condensar a trama de doze gibis revistas em quase três horas de projeção (dizem que havia uma cópia com quatro horas que era a versão integral, mas que acabou virando uma espécie de lenda). O filme procura ser bem fiel à trama original e muitos até a criticam por isso. Num mundo onde os heróis existem de verdade, Richard Nixon foi reeleito várias vezes, tendo até envolvimento com a lei Keane que proibe que os heróis usem máscaras se não possuírem sua identidade revelada. Com isso poucos se registram (como Comediante), outros se aposentam (como o Coruja) e alguns continuam atuando às escondidas (como Rorschach). É com o assassinato de Comediante (Jeffrey Dean Morgan, numa atuação competente que merecia atenção nas premiações) que a trama começa sob a suspeita de que alguém quer acabar os heróis. O problema é que atribuem essa suspeita à personalidade paranóica de Rorschach (Jackie Earle Haley digno de uma segunda indicação ao Oscar de coadjuvante). O filme acompanha a trajetória desses personagens em clima de filme noir e descasca seus heróis sem pudores. Afinal, o que se passa na cabeça de um herói? Uma pessoa que coloca uma máscara e sai por aí espancando bandidos? Será um psicopata como Comediante? Um semi-deus como Dr. Manhanttan (Billy Crudup)? Ou uma herdeira (Malin Ackerman) de uma heroína com pretensões de tornar-se atriz como Spectral (Carla Gugino)?  Um covarde impotente que nem sabe muito bem o que se tornou com o passar dos anos como o Coruja (Patrick Wilson)?  Será que a solução é capitalizar o prestígio e se tornar um capitalista que ganha dinheiro apregoando a paz mundial enquanto alardeia ser o homem mais inteligente do mundo como Ozymandias (Matthew Goode)? A trama conta em flashback a história dos heróis americanos entrelançando com fatos da história dos EUA (a abertura do filme é antológica ao som de Bob Dylan) e nos revela os danos que anos de combate ao crime pode causar - sem perder de vista a noção pura de heroísmo que brota na mente de todo garoto (afinal, é isso que Spectral e Coruja representam). Sem abrir mão dos momentos mais escabrosos do gibi e outras polêmicas (como a nudez radioativa de Manhattan) o filme é muito bem sucedido ao romper com o maniqueísmo entre mocinhos e bandidos, mostrando que o nosso maior inimigo pode estar em nós mesmos. Fora isso, tem aquele verniz político que toda trama de herói que chega aos cinemas quer. Mesmo tendo alterado o final (mas não em sua essência), Watchmen é um filme que será redescoberto com o tempo, pode escrever!

WATCHMEN - O Filme (Watchmen/EUA-2009) de Zack Snyder com Jackie Earle Halley, Patrick Wilson, Jeffrey Dean Morgan, Malin Akerman, Matthew Goode e Carla Gugino. ☻☻☻☻☻

DVD: A Lenda dos Guardiões


A Lenda dos Guardiões: Snyder estreia na animação.

Desde a sua estreia com Madrugada dos Mortos (2004) o diretor Zack Snyder mostra que sabe conduzir cenas de ação com competência. Além disso é um dos poucos diretores que sabem lidar com o visual de um filme cheio de efeitos visuais sem deixar aquele jeitão artificial que tantos outros conseguem. Depois do sucesso de 300 (2007) o cara foi até chamado de visionário pela concepção que tem de cinema. Talvez por ter demonstrado uma coragem exorbitante ao adaptar a Bíblia das HQs Watchmen para o cinema em 2009, o cara tenha pego leve ao resolver fazer este A Lenda dos Guardiões baseado nos três primeiros exemplares da coleção de treze escrita pela americana Kathryn Lasky. Pois é, depois de toda a violência de seus filmes anteriores o cara resolveu fazer uma obra voltada para um público mais jovem e inocente. O resultado apresenta as características típicas do diretor (visual arrebatador, cenas de ação caprichadas e até atuação convincente de um bando de corujas criadas por computador), mas o filme peca justamente na história que Snyder resolveu contar. A trama conta a história de dois irmãos corujas que são sequestrados enquanto aprendem a voar, ambos acabam sendo levados para um lugar afastado de seus lares onde um grupo de corujas fascistas escravizam as outras espécies os fazendo trabalhar sob uma espécie de transe. Um dos irmãos será escravizado (o bonzinho Soren), o outro se tornará um soldado (Kludd) que oferecerá até sua irmãzinha caçula para os seus novos líderes. Soren acredita que pode fugir dali e encontrar os lendários guardiões que zelam pela segurança e justiça entre as corujas. Para uma animação não existe nada que ultrapasse o ridiculômetro até aqui. No entanto, por mais que o filme possua personagens carismáticos e cenas bem elaboradas (muitas em câmera lenta para nos impressionar com o movimento preciso das penas dos personagens) existem grandes tropeços na narrativa. Por ser voltado para as crianças mais grandinhas o roteiro resolveu não expor algumas coisas que acabam sem sentido para o público - como a forma como funciona a "lunatização" das corujinhas escravizadas ou que resíduo brilhante é aquele que são obrigados a descobrir entre restos de ratos regurgitados por eles mesmos. Além disso, algumas soluções aparecem de forma tão acelerada que parece que ninguém teve paciência para chegar ao final onde os dois irmãos irão se enfrenta em lados opostos. No fim das contas é uma animação competente visualmente, mas que esqueceu de dar um trato mais cuidadoso em seu roteiro - mas não se surpreenda se o filme ganhar uma sequência.

A Lenda dos Guardiões (Legend of the Guardians: The Owls of GaHoole/EUA-Austrália - 2010) de Zach Znyder com vozes de Jim Sturgess, Helen Mirren e Ryan Kwaten. ☻☻

4EVER: Elizabeth Taylor

Elizabeth Taylor (1932-2011)

Nascida em Londres, Liz foi imortalizada como uma das mulheres mais belas do cinema - com a peculiaridade de possuir exóticos olhos violeta. Para além da beleza, Taylor ficou famosa por clássicos como Um Lugar ao Sol (1951), Assim Caminha a Humanidade (1956), Gata em Teto de Zinco Quente (1958) e pelo retumbante fracasso de Cleópatra (1963). Ela ainda virou notícia por seus casamentos, pela coleção de diamantes, pela filantropia e plásticas que tentavam evitar o efeito do tempo sob um dos mais belos rostos que o mundo já viu. Liz ganhou dois Oscars de atriz principal, um por Disque Butterfield 8 (1960) e outro por Quem Tem Medo de Virgínia Woolf (1966) tornando-se a atriz mais bem paga daquela década. Nos últimos tempos a diva era mais conhecida como a senhora amiga de Michael Jackson. Sua última aparição nos cinemas foi como a sogra de Fred Flinstone no filme da família da idade da pedra lançado em 1994. Faleceu de insuficiência cardíaca após uma cirurgia em 23 de março.

terça-feira, 22 de março de 2011

CATÁLOGO: Medo da Verdade

Ryan, Casey e Michelle: dando força à estreia de Affleck

Quando Ben Affleck dirigiu seu primeiro longa metragem sua carreira estava mais claudicante do que nunca. Fazia dez anos que recebera o Oscar pelo roteiro original de Gênio Indomável (1997) e sua carreira alternava alguns filmes que buscavam lhe dar crédito como ator (especialmente Fora de Controle/2002 e Hollywoodland/2006 que o premiou em Veneza) com Blockbusters que só serviram para ridicularizá-lo (como Armageddon/1998 e o gorila Gigli/2003 com J.Lo). O cara precisava se reinventar. Seus excessos com drogas e álcool já estavam cansando quando ele resolveu colocar a vida nos eixos ao se casar com Jennifer Garner (que conheceu nos sets de Demolidor/2003 - outro fiasco). Affleck encontrou refúgio na obra de Dennis Lehane, mais precisamente em Gone Baby, Gone e este fato revela mais do que pode parecer. Na época outra obra de Lehane havia chegado às telas e ficado na memória dos cinéfilos, tratava-se de Sobre Meninos e Lobos (2003), dirigido por outro ator que ganhou cada vez mais prestígio atrás das câmeras: Clint Eastwood. Clint parece ser a principal referência do filme, que mais uma vez conta com o foco favorito da obra do escritor: o cuidado que a criança não tem em nossa sociedade. Vendo as atrocidades nos noticiários notamos cada vez mais como as crianças são negligenciadas no mundo inteiro. Affleck escolheu uma trama ambientada em sua cidade natal (Boston) para contar a história de uma garotinha que desaparece sem deixar pistas após a mãe (Amy Ryan) deixá-la sozinha em casa. Você já deve ter visto outros filmes assim, mas acredite o filme melhora no ponto onde a maioria deles termina. Desde o início da trama, Affleck mostra que está diposto a ser o mais seco possível em sua narrativa, nos apresentando os personagens sem frescura - especialmente o casal de detetives que protagoniza o filme. Patrick Kenzie (Casey Affleck, irmão de Ben) e Angela Gennaro(Michelle Monaghan) são os encarregados de descobrir o paradeiro da pequena Amanda. Mas as coisas não são tão simples quanto parecem. Aos poucos uma série de segredos vão se revelando e o envolvimento da mãe da menininha com drogas e o mundo marginal apontam para um caso cheio de nuances obscuras. Até a metade do filme, Affleck parece conduzir um filme que mais parece um ensaio para o que está por vir, já que é da metade em diante que a coisa ganha novas cores e se torna cada vez mais atraente até o dilema ético arrebatador de seu desfecho. Affleck conduz com competência o filme que possui ainda muitos ranços do cinema independente (o roteiro às vezes tropeça, os cenários são feios e todos os personagens são problemáticos) de forma que o forte mesmo são as atuações. O mano Casey (que no mesmo ano foi indicado a vários prêmios por roubar a cena de Brad Pitt no quilométrico O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford) e Monaghan se saem bem entre as diferenças de seus personagens, mas quem vale o filme mesmo é Amy Ryan no papel da mãe problemática da menininha. A loura indicada ao Oscar não deixa espaço nem para Morgan Freeman em nossa memória quando a sessão termina numa cena memorável. O interessante é que apesar de todos os predicados, a estreia de Ben na direção foi direto para o DVD por aqui, enquanto seus piores filmes como ator tiveram espaço em nossos cinemas.

Medo da Verdade (Gone Baby, Gone/EUA-2007) de Ben Affleck com Casey Affleck, Michelle Monaghan, Amy Ryan, Morgan Freeman e Ed Harris. ☻☻☻

DVD: ATRAÇÃO PERIGOSA

Ben e Jeremy: precisão oposta.

Fiquei tão desconfiado com todos os elogios do novo filme de Ben Affleck na direção que preferi nem vê-lo. Vi todas aquelas expectativas para prêmios ganharem forma, ouvi todas as reclamações quando todas as expectativas se converteram somente na indicação de Jeremy Renner na categoria de coadjuvante no Oscar. Enfim, o filme passou em branco nas premiações mas tem um grupo de seguidores fiéis. Chegando em DVD devo admitir que o filme é realmente competente. De fato é impressionante como Ben Affleck se defende muito melhor atrás da câmera do que diante dela (basta lembrar que o cara tem um Oscar na estante pelo roteiro do supervalorizado Gênio Indomável/1997 - que não é nenhuma Brastemp, mas que colocou ele e o parceiro Matt Damon no mapa hollywoodiano), depois de sua estreia promissora com Medo da Verdade (2007), ele se aprimorou na condução de uma trama densa e que não perde de vista o desenvolvimento dos personagens. Prova de que é um bom diretor é que seus atores costumam ser lembrados nas premiações da temporada de ouro. Se em Medo da Verdade foi Amy Ryan que roubou a cena, desta vez, Renner também não fez feio e as premiações deixaram espaço até espaço para o finado Pete Posthlewaite (que em menos de dez minutos em cena foi lembrado no BAFTA). Como ninguém é perfeito, o Affleck protagonista continua demonstrando suas limitações. No entanto, essa característica até que cai bem ao interpretar o papel de ex-viciado em drogas decepcionado com os rumos da vida e relações. Affleck é o cérebro de um grupo de ladrões de banco - o grupo ainda conta com seu amigo (Renner) que tem grande tendência para perder o controle -, mas o personagem acaba se apaixonando, meio que involuntariamente, pela gerente de uma agência assaltada (a charmosa Rebecca Hall). Affleck desenvolve o relacionamento entre o casal sem pressa, deixando que um revele ao outro que possuem mais coisas em comum do que poderiam imaginar - mas, enquanto isso, prepara a trama para as decisões que terão que tomar rumo ao último ato. Obviamente que sabemos como tudo vai terminar, mas o roteiro (assinado por Affleck, Peter Craig e Aaron Stockhard baseado no livro de Chuck Hogan) se empenha em lidar com as soluções de forma coerente e sem cair no ridículo, sem perder o tom seco impressa pelo diretor. Se o protagonista por vezes parece um cubo de gelo a coisa funciona de forma equilibrada quando tememos cada vez que o personagem de Renner aparece na tela, o cara parece um vulcão prestes a explodir em sua fúria que vem não se sabe de onde. Affleck, o diretor, foi esperto o suficiente para saber que para dar conta de um filme desses precisava de um elenco de primeira e se cercou de atores competentes, capazes de gerar tensão com um olhar, um gesto e conseguir segurar uma narrativa sem frescuras até o fim. Ele demonstra até segurança ao escalar Rebecca (que não é exatamente bela, mas sabe exatamente o que deve ser feito no papel de mocinha) para ser o seu par romântica. Outro destaque é a forma com que Affleck lida mais uma vez com sua cidade natal, a cinzenta Boston é apresentada novamente como um personagem do filme, especialmente o bairro de CharlesTown, que parece ter forte influência sobre seus personagens. Sem ser ofensivo, o amigo de Matt Damon faz mais uma vez uma ode à sua terra e se continuar assim, fará por ela o que Scorsese fez por Nova York. Curiosamente é que depois de bancar o galã de blockbusters meia-boca, Ben se sinta tão a vontade ao lidar conduzir um filme desses que bebe diretamente na fonte de filmes policiais da década de 1970 como os que fizeram a glória de Scorsese e Sidney Lumet. Não estranharei se futuramente o cara se dedicar somente à direção e por esta função ganhar outro careca dourado.

Atração Perigosa (The Town/EUA-2010) de Ben Affleck, com Ben Affleck, Jeremy Renner, Rebecca Hall, Pete Postlewaite, Chris Cooper e Blake Lively. ☻☻☻☻