domingo, 30 de março de 2014

NA CAPA: Mulheres de Hollywood

mulheres: a dura vida ao sol de Hollywood. 

No mês em que se comemora o dia internacional da mulher procurei uma lista que apresentasse as meninas de ouro de Hollywood, as que mais chamam atenção da mídia para seus projetos, atraem público e que se tornam as mais bem pagas por isso. Usei como base uma lista da Forbes que enumerava as dez atrizes mais bem pagas de Hollywood. Como minha lista não é apenas sobre quem é mais rica, fiz uma pequena alteração retirando a sem graça da Kristen Stewart (a terceira mais bem paga, arrecadando 22 milhões de verdinhas em 2013 ainda por conta dos lucros de Crepúsculo) e incluindo uma atriz muito mais influente ao final da lista. Em primeiro lugar ficou Anjelina Jolie por todos os motivos que você já deve conhecer (além do alvoroço por sua mastectomia, além de ter recebido um Oscar humanitário em 2014 e ser protagonista de Malévola, um dos longas mais aguardados do ano e ainda lançará seu segundo filme na direção - e que já está cotado para a temporada de ouro). Em segundo está Jennifer Lawrence, a queridinha de Hollywood que mal ganhou um Oscar entrou no páreo novamente, ela protagoniza duas franquias milionárias (Jogos Vorazes e X-Men, ambos com episódios para esse ano) e que pode pintar no Oscar novamente no ano que vem por Serena. Jennifer Aniston aparece na lista por ser querida do publico, chamar atenção para comédias idiotas e produções alternativas, receita que tem dado resultado em sua vida pós-Friends.  Em quarto lugar está Emma Stone, que apareceu pela primeira vez na lista da Forbes e que tem quatro filmes programados para esse ano, entre eles os novos filmes de três diretores consagrados (Cameron Crowe, Woody Allen e Alejandro González Iñarritu) e a nova aventura do Homem Aranha. Já Charlize Theron passou o ano trabalhando como produtora e filmando dois filmes: Um Milhão de Maneiras de Pegar uma Pistola (de Seth MacFarlane) e o suspense Dark Places que devem ser lançados até o fim do ano. Ano bem diferente teve Sandra Bullock, que foi indicada ao Oscar pela melhor atuação de sua carreira em Gravidade (que jamais seria feito sem ela), filme que levou sete Oscars para casa. Além disso, fez sucesso com a comédia As Bem Armadas. Bullock ainda é reconhecida como uma das mais queridas do cinema americano, não apenas pelo público mas por produtores e jornalistas. Natalie Portman ainda estava de férias depois do Oscar por Cisne Negro (2010), mas voltou às telas para conhecer o planeta natal do seu namorado em Thor- O Mundo Sombrio! A participação na franquia milionária foi o suficiente para ela aparecer entre as mais bem pagas do ano  (cachê de 14 milhões, o mesmo de Bullock). Em 2014 ela está nos dois novos filmes de Terrence Mallick (um deles com título: Knight of Cups) e o aguardado Jane Got a Gun  de Gavin O'Connor (e que estrela ao lado de Rodrigo Santoro). É até irônico ver Mila Kunis tão perto de Natalie, depois de dois filmes de sucesso (Ted e Oz), Kunis fez dois filmes sérios no ano passado  (Blood Ties com Clive Owen e Third Person com Liam Neeson) e para 2014 está na dramédia O Cara Mais Zangado do Brooklyn e empresta a voz para a animação Hell & Back (só para lembrar, ela continua sendo a voz a filha do desenho Family Guy). Depois de anos de vacas magras, Julia Roberts voltou aos holofotes com sua amarga personagem em Álbum de Família - que a indicou a todos os prêmios de coadjuvante da temporada por duelar de igual para igual com Meryl Streep. Para encerrar a lista de homenagem ao mês da mulher eu não poderia deixar Meryl Streep de fora. Goste ou não, a atriz recordista de indicações ao Oscar (18 indicações/ 3 vitórias) tornou-se uma espécie de instituição de Hollywood com seu apelo perante público, crítica e acadêmicos. Em 2014 ela está em três produções - e muitos já dizem que ela pode ser indicada novamente pelo papel de bruxa em Into the Woods de Rob Marshall.  

CATÁLOGO: Bubble

Alon, Daniella, Yousef e Ohad: um olhar jovem sobre Tel Aviv. 

Ainda que algumas pessoas considerem seu cinema repetitivo, o nova iorquino Eytan Fox tem uma assinatura muito própria. Em Bubble ele volta sua câmera mais uma vez para Israel, mais precisamente para Tel-Aviv, para mostrar como vive um grupo de jovens daquela localidade, especificamente os que curtem música eletrônica, cultura pop e os que tem amigos (ou são) gays. Apesar de estar na ativa desde a década de 1990, foi com Bubble que o diretor ganhou projeção mundial e conquistou mais fãs para o universo bastante particular de sua obra. Apesar de alguns críticos considerarem um filme artificial pela forma como retrata os jovens de Tel-Aviv como pessoas normais, o filme mostra como a vida de pessoas comuns é cortada inesperadamente pela violência - o que acontece em vários filmes americanos, brasileiros, franceses... afinal, a violência está em qualquer canto do mundo globalizado. O filme começa na fronteira entre Israel e a Palestina, onde um grupo de militares revistam os passageiros de um ônibus. Isso é um fato que é comum naquela paisagem seca e desolada. Poderia ser um dia como outro qualquer se uma mulher não desse a luz a um bebê morto. O triste episódio marca o encontro entre o soldado israelense Noam (Ohad Knoller) e o palestino Ashraf (Yousef Sweid). Noam está nos seus últimos dias de serviço na fronteira e Ashraf viajava com o cunhado xiita para os preparativos do casamento de sua irmã. A partir dali a câmera segue o cotidiano comum de Noam e seu trabalho numa loja de CDs, além de seu convívio de dividir o apartamento com, Lulu (Daniela Wircer) e  Yali (Alon Freidmann). Lulu vive seus dilemas de ter uma educação conservadora e ter vontade de transar com um editor de revista (Oded Leopold). Já Yali tenta encontrar o companheiro ideal enquanto trabalha num charmoso café no centro da cidade. O cotidiano dos personagens parece com o de muitos outros ao redor do mundo, não fosse pelo cenário e os comentários que demonstram que apesar da vida pacata existe sempre uma tensão no ar. Essa tensão fica mais evidente quando Ashraf se reencontra com Noam e os dois engatam um romance. Feliz com os rumos de sua vida, Ashraf arranja trabalho, passa a morar com o namorado e participar de eventos pacifistas na cidade. Os personagens falam de namoro, sexo e cultura pop de forma muito natural e isso os aproxima de jovens de qualquer lugar do mundo. Quando Ashraf começa a levantar desconfianças, o filme volta a lente para o outro lado daquele mesmo mundo, com atentados terroristas, homens bomba e preconceitos que servem apenas para atrapalhar a vida dos amigos. Eytan Fox pode passar a maior parte do tempo mostrando que seus personagens são pessoas comuns, pode desagradar alguns por demonstrar a intimidade de seus personagens homossexuais, mas não tem medo de fazer um corte brusco em sua narrativa, onde a dura realidade de preconceitos (raciais, sociais, religiosos, sexuais...) se cruzam e a saída escolhida por um dos seus personagens não é muito bonita de se ver. Apesar das boas intenções o desfecho me parece um bocado forçado, mas isso não estraga o efeito do filme. Talvez por isso o nome Bubble (bolha em inglês) funcione tão bem para o filme, já que esse é o apelido de Tel-Aviv e sua bolha de aparente bem estar - ou pelo menos a que vive os personagens - mas, cedo ou tarde, a fragilidade da bolha em suas nuances coloridas, compromete a sua própria existência e de quem vive dentro dela.

Bubble (Ha-Buah/Israel-2006) de Eytan Fox com Ohad Knoller, Yousef Sueid, Daniela Wircer, Alon Freidmann, Oded Leopold, Zohar Liba  e Yotam Ishay. ☻☻☻

sábado, 29 de março de 2014

PÓDIO: Cameron Crowe

Cameron Crowe no dia 13 de julho de 1957, na adolescência já era considerado um prodígio por sua colaboração com a revista Rolling Stone (para a qual escreve de vez em quando até hoje). Crowe começou sua carreira cinematográfica em Digam o que Quiserem (1989) que revelou John Cusack. Faz tempo que Crowe anda devendo um filme bacana como costumava fazer nos anos 1990, mas seu novo projeto com Bradley Cooper e Rachel McAdams (ainda sem título) parece que colocará sua carreira novamente nos eixos. Para aumentar a expectativa escolhi os três melhores filmes do diretor para esse pódio (ou seria os meus três favoritos?):

bronze: indicações ao Oscar
3º Jerry Maguire (1996)
Foi com esse filme que o diretor entrou no radar das premiações. Com a ajuda de Tom Cruise (que tornou-se seu amigo pessoal), o diretor conseguiu cinco indicações ao Oscar com a história do agente esportivo que vive um inferno astral depois que lança a proposta de manter uma relação mais humana com seus clientes, sem importar-se somente com o dinheiro. Abandonado por quase todo mundo (lhe sobra uma secretária carente e um jogador hiperativo), Jerry irá perceber que estabelecer intimidade com quem o cerca é mais difícil do que ele pensava. 

prata: romance grunge.
2º Vida de Solteiro (1992)
Vocês não fazem ideia de como gosto desse filme! O pior é que faz muito tempo que não o assisto e nunca encontrei o DVD. Vida de cinéfilo é dura! O filme mostrou um dos maiores trunfos da carreira do diretor: escolher um tema em voga e voltar a câmera para o outro lado. Em meio a ebulição da cena grunge de Seattle, o diretor volta sua lente para um grupo de amigos solteiros que buscam sua cara metade. Divertido, simpático, romântico e com excelente trilha sonora (Pearl Jam, Alice in Chains, Screaming Trees...) o filme acompanha um vocalista (Matt Dillon) e seus amigos (vividos por Bridget Fonda, Campbell Scott e Kyra Sedwick) na chuvosa cidade. 

Ouro: Oscar de roteiro original.
1º Quase Famosos (2000)
Apesar de achar o filme muito light para uma obra que se propõe a retratar a jornada de um adolescente com astros do rock na década de 1970, devo reconhecer que é o filme mais elaborado de Cameron Crowe. Trata-se de uma história criada a partir de sua experiência pessoal junto à Revista Rolling Stone, quando ainda adolescente recebeu a tarefa de escrever uma matéria para a publicação. Crowe alterou nomes e misturou alguns fatos num filme ágil, nostálgico e saboroso de assistir. Com personagens marcantes, como o jovem Will Miller (Patrick Fugit), sua mãe (Frances McDormand) e a groupie Penny Lane (Kate Hudson) - cuja atração parece inevitável - o filme é candidato à clássico. 

CATÁLOGO: Jerry Maguire

Jerry Maguire: a dificuldade de criar vínculos. 

Ontem reencontrei Jerry Maguire na TV por assinatura e fazia um bom tempo que eu não assistia ao filme de Cameron Crowe. O filme rendeu à Tom Cruise o Globo de Ouro de melhor ator de comédia e a segunda indicação ao Oscar de sua carreira (a primeira foi por Nascido em 4 de Julho/1989 e a última por Magnólia/1999), mas entrou para a história menos por seu sucesso nas bilheterias e mais por ter se tornado o corpo estranho no Oscar de 1997. Produzido por um grande estúdio (TriStar), o filme foi o único filme não independente indicado ao prêmio da Academia daquele ano (só para lembrar, quem ganhou foi O Paciente Inglês, que ainda estava no páreo com Fargo, Segredos e Mentiras e Shine). Aquele ano foi realmente marcante, já que invariavelmente uma ou outra produção independente consegue fazer barulho até a premiação e cravar uma indicação na categoria principal (esse ano foi Philomena, ano passado foi Indomável Sonhadora... isso entre nove indicados), mas naquele ano Hollywood estava dizendo para gastarem menos e investir mais na criatividade para contar uma história. Passado 17 anos de seu lançamento, Jerry Maguire ainda é um filme fácil de se assistir, afinal, Cameron Crowe consegue ser muito melhor quando se aproxima de um universo específico (mundo grunge, mundo dos esportes, Revista Rolling Stone...) e vira sua lente para quem está nos bastidores -  sempre que se distancia dessa fórmula a coisa desanda (o remake Vanilla Sky/2001, o horroroso ElizabethTown/2005,  o bobinho Compramos um Zoológico/2011). No entanto, apesar de Jerry Maguire continuar o mesmo, meu olhar sobre ele mudou bastante - e cheguei a conclusão de que, por mais bem intencionado que o personagem seja, trata-se de um sujeito muito estranho. Jerry (Cruise) é um agente de esportistas que acredita que as coisas podem ser mais humanas nesse mercado com fome de grana. Namorando uma mulher ambiciosa Avery (Kelly Preston, a senhora John Travolta) e disputando atletas com colegas ardilosos como Bob Sugar (Jay Mohr), Jerry entra em seu inferno astral quando escreve um manifesto sobre suas ideias "inovadoras" para esse famigerado mercado. Acaba demitido e sendo seguido somente pela doce Dorothy Boyd (a então revelação Renée Zellweger), mãe solteira e que sempre gostou de Jerry (ainda que não fosse notada por ele). Além da companhia de Dorothy, que torna-se sua secretária, o único atleta que permanece sobre seus cuidados é o agitado Rod Tidwell (Cuba Gooding Jr., ganhador do Oscar de coadjuvante), que luta por um lugar ao sol do agressivo futebol americano enquanto a esposa (Regina King) espera seu segundo filho. É interessante como o texto (que concorreu ao Oscar de roteiro original) apresenta Jerry a partir de seu relacionamento com os outros. É verdade que ele é um sujeito de bom coração, que fala sem pensar muito o quanto parece um tolo de gestos largos e exagerados, no entanto, o roteiro deixa claro que toda essa necessidade de transformar o trabalho mais pessoal está relacionado com sua dificuldade em estabelecer intimidade com quem o cerca. Notar isso pode ter dado cabo do relacionamento com Avery e agora, parece comprometer o romance que se anuncia com Dorothy - mais motivado pelo filho  da moça (o filhote nerd Jonathan Lipnicki) do que por ela mesma. Se as coisas não são fáceis para os personagens (todos tem sua história triste para contar, destaque para o círculo de mulheres mal amadas...), Crowe sempre arranja espaço para gracinhas e investe pesado no alívio cômico promovido pelo personagem de Cuba Gooding Jr - ele aparece nu, debocha dos trejeitos de Jerry, dá conselhos amorosos ao protagonista, se mete em campanhas publicitárias estranhas e inventa bordões que fizeram sucesso na época (o maior deles foi "Show me the money"). O fato é que enquanto comédia, Jerry Maguire é um drama bem água com açúcar onde o maior acerto foi a escolha do elenco. Sem Cruise, o filme poderia ter feito algum sucesso, mas nunca ter cravado indicações a prêmios (só no Oscar foram cinco, sobrando até para a montagem tradicional), ainda mais se percebermos que Jerry pode ser considerado um sujeito bastante complicado para um filme de embalagem tão ensolarada. Talvez esse apelo indie numa produção de estúdio tenha feito a diferença num ano onde o cinema, que estava a margem de Hollywood, invadia as premiações. 

Jerry Maguire - A Grande Virada (Jerry Maguire - EUA/1996) de Cameron Crowe com Tom Cruise, Cuba Gooding Jr., Renee Zellwegger, Bonnie Hunt, Jonathan Lipnicki, Kelly Preston, Jay Mohr e Jerry O'Connel. ☻☻☻

quinta-feira, 27 de março de 2014

Eu sou Você Amanhã!

Existem algumas jovens atrizes que nem precisam de programas de computador para saber quais serão os  efeitos do tempos sobre sua aparência. Ainda que décadas as separem, algumas veteranas são sua imagem e semelhança num futuro não tão distante. Uma espécie de "eu sou você amanhã" entre as estrelas do cinema de ontem e hoje pode ser bastante reveladora..

Leelee Sobieski será Helen Hunt 
Tem coisa mais óbvia do que comparar essas duas? Nascida em 1983, Leelee anda sumida do cinema desde 2012 - curiosamente o ano em que Helen Hunt saiu do ostracismo com As Sessões (filme que lhe valeu uma indicação ao Oscar). Feitas na mesma forma (apesar dos vinte anos de diferença), seria uma boa se Leelee tivesse um pouco da trajetória de Helen (que tem quatro Globos de Ouro pela série Mad About You na estante e um Oscar por sua atuação em Melhor É Impossível/1997).

Michelle Williams será Mia Farrow 
Mia Farrow pode ser lembrada hoje em dia como a ex-mulher barulhenta de Woody Allen, mas ela já teve seus dias de musa. Sua expressão de vulnerabilidade nas telas de cinema ficou famosa e  Michelle também é reconhecida por isso - e deve perceber outras semelhanças com a veterana (já que copiou até o corte de cabelo que a atriz usava). O efeito do tempo sobre o olhar, o sorriso e as maçãs do rosto que Michelle apresenta aos 33 anos  poderão ser semelhantes à face de Mia aos 69.  Na carreira, Michelle já conta três indicações ao Oscar enquanto Mia nunca foi indicada ao prêmio da Academia. Em comum, ambas tiveram casamentos com famosos de desfecho complicado... e Michelle nunca trabalhou com Woody Allen...

Mia Wasikowska será Isabelle Huppert
Sempre que assisto Mia num filme tenho a impressão que ela tenta copiar a francesa Isabelle em suas atuações. O jeito intimista (que parece sempre reprimir sentimentos que estão prestes a explodir) é bastante semelhante - ainda que os vários anos de experiência (Isabelle tem 61 anos) confira à francesa uma grande vantagem na capacidade de projetar emoções (e os vários prêmios - só em Cannes foram 3 - só confirmam isso). Fisicamente as duas são bastante parecidas (apesar dos 37 anos de diferença) e o gosto por filmes alternativos arriscados também (não vou me admirar se dia desses interpretarem uma mesma personagem em fases distintas). 

Renée Zellweger será Dianne Wiest
Sempre que via Renée (e ela tem aparecido pouco ultimamente, especialmente depois de uma plástica que mudou o formato de seu rosto arredondado) sempre a achei cada vez mais próxima de Diane Wiest. Renée tem um Oscar de coadjuvante na estante (Cold Mountain/2003) e outras duas indicações ao Oscar , já Wiest tem duas estatuetas (por Hannah e Suas Irmãs/1986 e Tiros Sobre a Broadway/1994) e mais uma indicação ao prêmio. Talvez por ver como seria aos 66 anos, Renée (aos 44 anos) tenha se submetido a um processo tão radical para mudar seu visual. Ainda assim, Renée ainda espera sua chance de voltas às telas e Wiest sempre é convidada para filmar. 

Cameron Diaz será Ellen Barkin
Chega até ser covardia comparar as duas, acho que um exame de DNA diria que são mãe e filha. Ellen Barkin também ficou famosa por participar de comédias, papéis sedutores e o total desprezo do Oscar para suas atuações sérias. A carreira de Cameron vai pelo mesmo caminho, mas (espero) que as intervenções cirúrgicas que Cameron venha a fazer façam menos estragos do que à Ellen. Cameron já completou 41 anos - e Ellen tenta driblar os efeitos do tempo aos 59 anos. 

DVD: Segredos de Sangue

Mia, Nicole e Matthew: família esquisita. 

Segredos de Sangue era um dos filmes que mais aguardei em 2013, talvez por isso tenha deixado um gosto de decepção. Nem me refiro ao longa ter passado em branco nos cinemas brasileiros, ou de sua bilheteria mundial ter sido modesta, o fato é que a expectativa gerada pela estreia do cineasta Chan-Wook Park em Hollywood (do badalado Oldboy/2003) pode ter prejudicado ao filme. Não que ele seja ruim, mas deixa a impressão que tem mais forma do que conteúdo. O diretor não poupa a plateia de cenas belamente construídas, ainda que seja dentro de uma atmosfera vampírica (potencializada ainda mais pelo nome original: Stoker - sobrenome da família do filme e do autor de Drácula). No entanto, o roteiro do ator Wentworth Miller (da série Prison Break em sua estreia como roteirista) funciona somente quando prefere manter escondido o que há na mente dos protagonistas, conforme revela os segredos a coisa fica cada vez mais previsível e desinteressante. Tudo gira em torno de India (Mia Wasikowska) que ainda tenta lidar com a morte do pai (Dermott Mulroney, com aquela pança que cada vez mais imagino ser real). A adolescente era muito próxima, mas com a morte dele seu melhor amigo passa a ser o piano - e sua maior motivação é descobrir quem lhe manda sempre o mesmo modelo de sapato todos os anos como presente de aniversário. Seu relacionamento com a mãe, Evelyn (Nicole Kidman) é distante - e a coisa piora quando as duas recebem a visita do tio Charlie (Matthew Goode). Charlie ficou longe por muito tempo por conta de suas viagens pela Europa, talvez por isso soe tão atraente para as duas mulheres tão acostumadas ao universo limitado da sombria casa onde vivem. É visível que existe um elegante clima de sedução entre os personagens, já que Charlie representa para Evelyn um novo começo e para India o começo de sua vida como adulta. No entanto, a visita de tia Gin (a ótima Jackie Weaver) mostra uma preocupação com a presença do misterioso Charlie tão perto das duas - e ela serve para mostrar do que Charlie é capaz para manter seus segredos intactos. Conforme o diretor desenvolve a tensão nesse núcleo familiar a coisa funciona bem, mas quando dedica-se a mostrar o que Charlie quer tanto esconder... o filme decepciona, nem mesmo os indícios de que India possa ter mais em comum com o tio do que a mãe supõe parece interessante. O problema pode estar no excesso de estilização proposta pelo diretor, que nunca parece aproximar os dilemas dos personagens da plateia ou até mesmo do segredo que revela-se quase banal já que, debaixo de tanta elaboração cênica, o que era para ser um "trunfo" revela-se semelhante a um monte de filmes que já vimos. É verdade que existe algumas ousadias (a cena de India no chuveiro, o close em Evelyn prestes a perecer...), mas o arremate do filme é bem menos interessante do que as promessas de seu início. Na trama sobre perda da inocência, o conflito entre mãe e filha (e a concepção anacrônica das personagens colabora bastante para isso) é mais interessante do que India descobrindo os genes que tem em comum com o tio. Deveríamos nos contentar com  o visual de conto de fadas gótico? Acredito que não. Penso que Chan-Wook Park poderia fazer mais se desse mais atenção aos personagens (a cena final de India na beira da estrada ou Evelyn revelando seus sentimentos ruins com a maternidade soam abruptas e mal desenvolvidas) do que ao visual do filme. 

Segredos de Sangue (Stoker/EUA-Reino Unido/ 2013) de Chan-Wook Park com Mia Wasikowska, Nicole Kidman, Matthew Goode e Jackie Weaver. ☻☻☻

segunda-feira, 24 de março de 2014

DVD: Querido companheiro

Keaton e Kline: gracinhas sem ousadia. 

Em mais de trinta anos de trabalho no cinema, começando como roteirista (O Império Contra-Ataca/1980 e Os caçadores da Arca Perdida/1981) e depois como diretor (de Corpos Ardentes/1981 passando pelo elogioado O Reencontro/1983 e o sucesso de O Guarda Costas/1992), nunca Lawrence Kasdam havia deixado de lançar um filme por tanto tempo. Nove anos separam esse aqui do hediondo O Apanhador de Sonhos (2003), que baseado na obra de Stephen King se tornou o pior filme do diretor. Graças aos deuses do cinema, não existe qualquer semelhança entre ele e Querido Companheiro. É como se Kasdam demorasse todo esse tempo para colocar sua carreira sob uma nova perspectiva, voltando o olhar para as situações mais simples, mas que são capazes de gerar mudanças na vida de pessoas comuns (tal e qual apresentou no ser melhor filme, O Reencontro). É verdade que apesar de contar com um elenco formado pelos premiados veterados  Kevin Kline, Diane Keaton, Diane Wiest e Richard Jenkins, o filme não tem medo de soar brando na forma em que conta sua história. A trama gira em torno do aparecimento e desaparecimento de um cachorro, numa família de vida bem confortável. A família Winter, chefiada por Beth (Diane) e o médico Joseph (Kline) parece perfeita. A filha Grace (Elizabeth Moss) está terminando o doutorado e tudo encontra-se naquele ponto cômodo em que se tudo permanecer como está, já está de bom tamanho. Mas será que está mesmo? Se num primeiro momento o cão encontrado serve para aproximar Grace de um veterinário indiano (Jay Ali), é justamente após a cerimônia de casamento deles que o cão irá se perder e forçar Beth e Joseph a discutirem a relação. Os Winters aproveitam a cerimônia para ficar um final de semana em sua propriedade nas montanhas, na ocasião, contam com a companhia de Penny (Dianne Wiest), irmã de Joseph, seu atual namorado Russell (Jenkins) - que pretende abrir um pub que tem como maior atração servir cerveja morna - e o filho de Penny, o também médico Bryan (Mark Duplass, que assina ao lado do irmão Jay a direção de filmes como Cyrus/2010 e Jeff e as Armações do Destino/2011). Depois que conhecemos um pouco mais esses personagens, Joseph sai para passear com o cachorro e o perde enquanto conversa no celular. Começa então a busca pelo bicho de estimação e o jorro de cobranças que deixaram Beth engasgada por tantos anos de casamento. Não espere muita profundidade ou muita sujeira na tela, Kasdam não perde a simpatia nesses momentos e consegue ser casto até quando apresenta o flerte entre o certinho Bryan com uma mulher de origem cigana (Ayelet Zurer). Com uma gracinha aqui e outra ali, apresentada por um elenco carismático, o filme é fácil de assistir (principalmente com as belas locações emolduradas por uma fotografia de cartão postal) mas ao final da sessão não deixa de parecer um pouco preguiçoso. Nada contra um programa leve e despretensioso para curtir quando não se tem mais nada a fazer, mas Kasdam não ousa um milímetro durante a sessão. No fim da sessão, parece mais um filme que investe num público que andava abandonado em Hollywood, os filmes para terceira idade. Assistindo a Querido Companheiro, temos a ideia exata dos mandamentos presentes na cartilha desse novo filão cinematográfico. É um filme bem feitinho, mas não deve ficar na memória por muito tempo.

Querido Companheiro (Darling Companion/EUA-2012) de Lawrence Kasdam com Dianne Keaton, Kevin Kline, Richard Jenkins, Dianne Wiest e Mark Duplass. ☻☻

DVD: Cores do Destino

Carruth e Amy: amor, larvas, porcos e esquizofrenia. 

Devo confessar que tenho uma queda por produções estranhas, mas de vez em quando encontro algumas que até eu duvido que consegui assistir, talvez por isso, fiquem martelando na minha cabeça por dias depois que acabo de assisti-las. Ontem assisti Cores do Destino, filme independente que chamou a atenção no ano passado desde que foi aclamado em Sundance, de onde saiu com o prêmio especial do júri pela "forma inventiva como utiliza som e imagem". Ainda que as plateias possam rejeitar a proposta do diretor Shane Carruth, há de se perceber que a mente do rapaz é bastante engenhosa na hora de construir quebra-cabeças dramáticos sobre tramas de ficção científica. Ele já havia realizado algo semelhante com Primer (2004) e aqui ele injeta doses cavalares de romance para narrar um experimento que beira o grotesco, mas tratada com uma plasticidade cênica e sonora que a torna uma bela experiência sensorial. No entanto, apesar dos nós que pode dar na mente do espectador, seu fio condutor é fácil de entender. Nas primeiras cenas nos deparamos com a criação de uma larva, cultivada a partir de uma planta. Quando essa larva é introduzida no ser humano, ela torna sua vítima submissa ao poder da sugestão, ela funciona como uma espécie de hipnose ou até amnésia. Ela é utilizada por um ladrão para fazer com que Kris (Amy Seimetz, ótima) lhe entregue todo o seu dinheiro. Depois, Kris tenta seguir a vida normalmente, mas não consegue devido aos efeitos daquilo em seu organismo. Quando descobre o que está acontecendo, ela busca uma cura através de um tratamento inusitado - realizado por um criador de porcos misterioso (Andrew Sensenig). Quando se considera curada, ela se envolve com Jeff (vivido pelo diretor Shane Carruth). Parece que a coisa ficará mais tranquila? Bem... aí a narrativa do filme se rende a uma rede de cenas fragmentadas, que podem ser vistas como analogias entre o casal e os animais criados pelo personagem misterioso... entre outras coisas. Kris continua ouvindo sons estranhos, tem sensações esquisitas e percepções que parecem além do seu corpo. É visível que Kris ainda padece dos efeitos da larva  e isso afeta a forma como segue sua vida e o relacionamento com o compreensivo Jeff. Não espere respostas, clareza ou sentidos explícitos na narrativa, Carruth nos submete à mesma percepção fragmentada da realidade vivenciada por sua protagonista. Ainda que o espectador possa compreender a essência da trama, torna-se um desafio acompanhar a narrativa e superar a suspeita de que na verdade não estamos entendendo muito bem o que está acontecendo. O fato é que o filme consegue ser tão instigante quanto confuso. A ideia de sobrepor os efeitos da larva no organismo com a chegada do amor na vida de Kris é interessante e traz uma aura esquizofrênica que motiva acompanhar, no entanto, não é todo dia (e nem é todo mundo) que está disposto a desbravar os paralelos propostos pelo roteiro. Porém, nada chama mais atenção que a coragem de Carruth, afinal, estamos diante de um diretor de 42 anos que dirigiu somente dois longas e que costuma fazer tudo em seus trabalhos: dirige, atua, escreve, produz, edita, fotografa... talvez por isso seu cinema tenha uma identidade tão forte (que me lembra muito o caminho que Darren Aronofsky teria seguido se continuasse na seara de seu longa de estreia, o famigerado Pi de 1998) ainda que distante do grande público (que não está acostumado a ter suas concepções alteradas a cada dez minutos de projeção). A boa notícia é que Shane não ficará nove anos sem instigar a audiência (entre Primer e Cores do Destino ele deu forma e abandonou um projeto, A Topiary I que não vingou), seu novo filme The Ocean Modern já está em produção e deve envolver "comércio de commodities, piratas e corsários...", resta esperar para ver se criará tanto barulho quanto as interpretações subjetivas provocadas por Cores do Destino.

Cores do Destino (Upstream Color/EUA-2013) de Shane Carruth com Amy Seimetz, Shane Carruth e Thiago Martins. ☻☻☻

quinta-feira, 20 de março de 2014

CATÁLOGO: Perdas e Danos

Binoche e Irons: amarga torridez. 

Nascido em 1932 e falecido em 1995, o cineasta francês Louis Malle dirigiu trinta filme durante a sua carreira. Adepto da abordagem de temas polêmicos que retratavam as angústias do século XX, o diretor era rejeitado por muitos dos seus conterrâneos do movimento nouvelle vague. No entanto, seu estilo próprio lhe permitiu dirigir sete filmes nos Estados Unidos (incluindo o deliciosamente experimental Tio Vânia em Nova York/1994 que retrata a obra de Tchekov a partir dos ensaios de uma peça - o longa se tornou seu último filme). Seu sexto filme americano, e penúltimo de sua carreira, foi lançado no mesmo ano da antológica cruzada de pernas de Sharon Stone em Instinto Selvagem/1992 e, (por acaso?) também tinha algumas cenas de sexo bastante ousadas para a época, ainda mais se levarmos em consideração que eram estreladas por um grisalho Jeremy Irons e uma jovem Juliette Binoche. Parece uma idiotice criar esse paralelo entre a obra de Malle e de Paul Verhoeven, mas o fato é que ambos utilizavam o sexo como um elemento determinante para a concepção de sua história e personagens. Se em Instinto um policial não consegue evitar sua atração por uma escritora bissexual suspeita de assassinato, em Perdas um político influente não consegue evitar sua atração pela misteriosa namorada do filho. Enquanto Verhoen utiliza elementos ardentes para realçar a atmosfera erótica de seu filme, Malle segue o caminho oposto. Perdas e Danos é seco, cru e quase gélido na elegância com que ata seus dois personagens perigosamente complementares num roteiro econômico e bastante revelador (cortesia do texto de David Gare baseado na obra de Josephine Hart). Quando conhecemos Stephen Fleming (Jeremy Irons) em seus dias de parlamentar inglês temos a certeza absoluta de que se trata de um sujeito exemplar, de hábitos regrados e uma segurança que inspira confiança em sua família, partidários e eleitores. Essa imagem é realçada ainda mais pela presença da esposa, Ingrid (Miranda Richardson, indicada ao Oscar de atriz coadjuvante) e a imagem correta do filho Martyn (Rupert Graves). A coisa desanda quando Martyn apresenta ao pai sua namorada, a enigmática Anna Barton (Juliette Binoche). Desde o início se estabelece entre Stephen e Anna uma conexão incandescente debaixo do mundo de correções em que a família Fleming está imersa. Um olhar, um sorriso, um gesto aqui, outro ali e os  dois se tornam amantes, ainda que ambos saibam as consequências que isso possa ter na vida de ambos. Stephen encara Anna como uma compensação por todos os anos de conduta indefectível que apresentou até ali, ela torna-se uma espécie de obsessão para ele, enquanto Anna... bem... a personagem tem lá os seus lugares obscuros, especialmente os relacionados com um suicídio na família que ainda a preenche de culpa nos piores dias. Malle apresenta um enredo de poucos sujeitos, girando em torno especificamente de Anna e Stephen, mas que apresenta funções importantes para Ingrid e Martyn em momentos importantes da trama. Porém, o destaque fica mesmo por conta das cenas em que Irons e Binoche mergulham numa tórrida jornada autodestrutiva, cujas consequências serão trágicas para quem está ao redor. Malle faz um filme despudoradamente hipnótico, mas que deixa um gosto amargo quando termina do jeito que não é previsível, mas inevitável na dinâmica dos fatos que apresenta (especialmente se levarmos em consideração a antológica declaração que Anna faz a Stephen, de que "Pessoas sofridas são perigosas porque elas sabem que podem sobreviver"). Perdas e Danos, com sua edição precisa e ousadias prova que Malle sempre desejava criar filmes únicos em sua trajetória. 

Perdas e Danos (Damage/França-Reino Unido/1992) de Louis Malle com Jeremy Irons, Juliette Binoche, Rupert Graves e Peter Stormare. ☻☻☻☻