quinta-feira, 11 de junho de 2015

PL►Y: Um Momento Pode Mudar Tudo

Hillary e Emmy: as intocáveis?

Houve torcida para que Hilary Swank recebesse uma indicação ao Oscar de melhor atriz esse ano. Parte de seus fãs elogiaram sua atuação no denso Dívida de Honra e outros nesse drama açucarado dirigido pelo meloso George C. Wolfe. Em ambos Hillary alcança bons momentos, mas o peso de ter dois Oscars na estante pesa muito quando a Academia lembra dela, especialmente quando pensam em algumas presepadas que ela já se meteu nos últimos anos. Um Momento Pode Mudar Tudo (alguém pode me explicar o sentido desse título?) foi comparado com o sucesso francês Intocáveis (2012) por tratar do relacionamento de uma pessoa com doença degenerativa e um cuidador pouco convencional. As semelhanças param por aí, já que o filme tenta criar sua história por caminhos próprios. Baseado no livro de Michelle Wildgen, nós acompanhamos a vida de Kate (Hillary Swank), uma mulher de vida confortável, casada com um empresário com porte de modelo da Calvin Klein (Josh Duhamel) e de amigas endinheiradas. A vida de Kate poderia ser perfeita se ela não começasse a desenvolver esclerose lateral amiotrófica logo na primeira cena. Existe um corte na narrativa e quando revemos Kate, sua vida mudou bastante, torna-se dependente da ajuda de outros para realizar tarefas simples para a maioria das pessoas, mas, quando decide contratar uma jovem universitária chamada Bec (Emmy Rosssum) para ajudá-la no dia-a-dia, a decisão parece arriscada - afinal, a garota está longe de ser uma acompanhante experiente. No entanto, desde os primeiros momentos, percebe-se que Kate quer mais a companhia de Bec do que ajuda especializada. Hilary consegue construir uma personagem forte, que disfarça as emoções com o mesmo sorriso tranquilo na face a maior parte do tempo, não importa a situação constrangedora a que é exposta ou a sensação de que seu quadro se agrava. O problema é que o filme tropeça em algumas bobagens, como nunca aprofundar a crise no casamento de Kate ou investir em clichês batidos para vender a imagem de que Bec seja uma adolescente problemática em busca da fama. Quando o texto investe na amizade das duas, o filme flui que é uma beleza, quando pesa a mão para que o resultado valorize mais as gracinhas do que a densidade, a situação complica. Parece que Wolfe quer dar conta de uma história dolorosa, mas tem pena de fazer essa dor alcançar o espectador, criando um paradoxo na narrativa criada no filme. Ainda assim, o filme consegue dar o seu recado, humanizando uma personagem que não deseja a piedade de quem a observa, mas que seja vista como um sujeito consciente do mundo ao seu redor. Num ano em que o Oscar premiou dois atores com trabalhos calcados no avanço progressivo de doenças (Eddie Redmayne por A Teoria de Tudo e Julianne Moore por Para Sempre Alice), o trabalho de Hillary perdeu fôlego nas premiações, mas, ainda assim, a atriz tem a oportunidade de honrar as duas estatuetas numa atuação bem construída capaz de salvar o filme. 

Um Momento Pode Mudar Tudo (You are not You/EUA-2014) de George C. Wolfe com Hillary Swank, Emmy Rossum, Josh Duhamel, Ali Lartes e Julian McMahon. ☻☻☻

4EVER: Christopher Lee

27 de maio de 1922 - 11 de junho de 2015

Nascido em Belgravia no Reino Unido, Christopher Frank Carradini Lee, participou de mais de duzentos filmes, o que não impede que ele seja sempre lembrado como o eterno Drácula (1958) do cinema. Atuando desde 1946, sua carreira no cinema começou em 1956,  com o longa A Batalha no Rio da Prata.  Famoso por sua voz e elegância, sua carreira continuou ativa nos últimos anos, participando de filmes de sucesso como a trilogia O Senhor dos Anéis (2001, 2002 e 2003), a trilogia O Hobbit (2012, 2013 e 2014) e A Invenção de Hugo Cabret (2011). Além de filiado à organização PETA (que luta pelos direitos dos animais), Lee foi nomeado cavaleiro real em 2009. O ator foi casado com a modelo Gitte Lee, com quem teve uma filha (Christina Erika Lee). Lee morreu num hospital em Londres, após ser internado por problemas cardíacos e respiratórios. 

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Na Tela: Miss Julie

Chastain e Farrell: flerte com a tragédia. 

Miss Julie é um daqueles papéis que toda atriz deseja interpretar. Além de dezenas de versões para os palcos, a peça escrita por August Strindberg (1849-1912), coleciona, pelo menos umas sete versões entre cinema e televisão. Em 1999, Mike Figgis dividiu opiniões com sua versão chamada Desejos Proibidos de Miss Julie (1999) estrelada por Saffron Burrows e Peter Mullan. Ano passado foi a vez da eterna musa de Ingmar Bergman, a atriz e diretora Liv Ullman, adaptar o texto para a telona. Em termos de elenco a repercussão estava garantida, escolheu Jessica Chastain para viver a protagonista,  Colin Farrell para viver John (o lacaio que a faz companhia) e Samantha Morton para viver Kathleen (a empregada, noiva do lacaio que finge não entender o jogo de sedução instaurado entre o casal). Quando o filme começa, o comentário entre o casal de empregados é uma dança entre Miss Julie e Jean (Farrell) que aconteceu na noite anterior. Hoje isso poderia ser visto com naturalidade, mas em 1890, no abismo social que separava a nobreza anglo-irlandesa (Julie é filha de um barão) de seus criados, o escândalo seria iminente. Enquanto a dupla de empregados discute, Miss Julie aparece convidando John para dançar novamente e... começa um estranho flerte entre os dois. Por vezes autoritária, em outras ingênua, Julie parece brincar com as reações do criado. Os diálogos ás vezes são ásperos, outras vezes poéticos, mas o centro da discussão está a divisão de classes que existe entre os personagens. Liv Ullman já conta sete trabalhos na direção, mas aqui, ela briga o tempo inteiro com o formato de teatro filmado e, nem sempre, sai vitoriosa. No início as marcações e diálogos são filmados de forma tão teatral que incomoda bastante, depois, Ullman relaxa e o filme consegue fluir melhor, pelo menos até chegar o último ato, onde as emoções do personagem oscilam constantemente e perder o tom parece inevitável, evidenciando que os atores ficaram um tanto desamparados nesse momento perigoso. Ainda assim, Jessica Chastain está ótima como Miss Julie, provando mais uma vez o motivo de ser uma das atrizes mais requisitadas do cinema atual. Ela consegue explorar todas as complexas camadas de Julie diante do tormento que causará a si mesma, sua dor, vergonha e desespero são realmente palpáveis e poderia funcionar ainda melhor se Colin Farrell não caísse no exagero quando Johan mostra-se bem menos frágil do que Julie desejava. Samantha Morton está indefectível como Kathleen, entregando uma boa construção da personagem nas poucas cenas que possui. Essa nova  versão de Miss Julie só não consegue ser melhor porque consegue é menos cinema do que teatro, algumas cenas poderiam ter sido mais lapidadas, os cenários poderiam ser mais explorados e algumas analogias poderiam ter sido mais sutis (a do cachorro funciona bem, a do canário... nem tanto). Porém (vocês vão me crucificar) mas eu adoraria ver Miss Julie ser interpretada por uma jovem atriz de vinte e cinco anos (idade da personagem), Chastain é uma atriz excepcional, mas ela já está com trinta e oito anos e fica estranho quando Colin Farrell (que tem trinta e nove) a chama de criança - nesse ponto, a versão de Figgis tinha a vantagem de ter Burrows (uma atriz sem os encantos de Chastain, mas que na época tinha uma petulância juvenil que funcionava bem aos vinte e sete anos) fazendo par com Peter Mullan (que tinha 40 anos na época e também é  melhor ator que Farrell).  Na versão de Ullman, a idade de seus intérpretes pesa em alguns pontos que o texto naturalista de Strindberg. Ainda assim, a complexa Miss Julie permanece sendo o último suspiro de uma aristocracia decadente, ameaçada por um bando de plebeus que aprendiam que os nobres tinham sangue tão vermelho quanto os demais mortais. 

Miss Julie (Noruega-Reino Unido-Canadá-França-EUA-Irlanda/2014) de Liv Ullman com Jessica Chastain, Colin Farrell, Samantha Morton e Nora McMenamy. ☻☻☻

sábado, 6 de junho de 2015

PL►Y: Tom na Fazenda

Jean e Xavier: as sombrias engrenagens do proibido. 

Depois de três filmes com histórias criadas por ele mesmo, o canadense Xavier Dolan resolveu adaptar uma peça de outro autor para o cinema. Sua escolha foi a densa obra de Jean Marc-Bouchard, que caiu como uma luva nas mãos do jovem cineasta considerado por muitos um prodígio. Tom na Fazenda é o veículo ideal para provar que Dolan consegue explorar uma história mais sombria, com nuances psicológicas ainda mais densas do que a exibida em seus filmes anteriores. A tensão sexual, sempre presente nas obras de Dolan, aqui ganha tons ainda mais densos na história de Tom (vivido pelo próprio Dolan), que vai até a fazenda da família de seu companheiro, Guillaume, para participar do funeral dele. Lá, ele é acolhido por Agathe (Lise Roy), que fica muito feliz em receber a visita de um amigo próximo do filho, o problema está no truculento irmão do falecido, Francis (Pierre-Yves Cardinal). Desde o seu primeiro encontro com Tom, ele deixa claro que está disposto a fazer de tudo para manter a homossexualidade do irmão em segredo, para isso, conta com a ajuda de Tom, que irá sofrer torturas físicas e psicológicas praticadas por Francis para manter o segredo. O texto de Bouchard (adaptado de forma mais que eficiente por Dolan), tempera a relação entre os três personagens com alguns segredos revelados aos poucos (como a existência de uma namorada inventada por Guillaume ou o motivo de ninguém na cidade conversar com Francis) e um bocado de sadomasoquismo. É estranhamente envolvente o jogo que se instaura entre os dois personagens masculinos, deixando nas entrelinhas muitas interpretações psicológicas. O protagonista quando tem chance de fugir daquele tormento é capaz de retorna para pegar a mala (que depois ele nem dá mais tanta importância), sem falar da necessidade de um ter o outro por perto, como se carregassem um espectro do falecido tão necessário para aguentar a rotina árdua da fazenda. No fundo, o trio de personagens soa coerente no desequilíbrio emocional que apresentam ao longo do filme e, acho muito difícil, que outro cineasta conseguisse explorar com tanta elegância e coesão uma engrenagem tão complicada - o que torna ainda mais notável o trabalho do cineasta (que tinha apenas vinte e quatro anos quando o filme foi lançado no Festival de Berlim). Dolan (que é ator desde os cinco anos) está irrepreensível como Tom, equilibrando certo desleixo, fragilidade e um bocado de masoquismo (bastante diferente do jovem topetudo que interpreta em seus filmes anteriores), apresentando aqui o seu trabalho mais impressionante como ator (e o mais redondo como diretor). Ele conta ainda com as belas atuações de Lise Roy (como a matriarca que aos poucos percebe que as peças em cena não se encaixam) e Pierre-Yves Cardinal que consegue expressar um sex-appeal psicótico difícil de descrever (e que gera atração e repulsa na trama). Em Tom na Fazenda, o diretor faz um trabalho mais contido, sombrio, claustrofóbico chegando à uma atmosfera inédita em seus trabalhos. Existem cenas memoráveis, como a reveladora cena em que os personagens dançam tango e Francis faz revelações desagradáveis a cada passo, ou a abertura da caixa de Pandora de Guillaume. (que mostra que a verdade sempre estava ali, mas nunca quis ser descoberta).  Acho interessante que depois de criar filmes tão urbanos, Xavier utilize o clima bucólico da fazenda para criar um universo a parte, pesadelesco, separado de suas outras obras - ainda que coerente com elas. Considero o último ato um primor de realização - e a cena em que sobem os créditos deixa claro o quanto foi estafante para o diretor  lidar com o lado mais obscuro do desejo dos personagens adotados para seu filme. A última cena de Tom, após os créditos, fica ainda melhor quando percebemos que Dolan deixou aquele mundo e voltou para o seu universo tão peculiar (que gerou o premiado Mommy/2014), sendo que ele pode voltar àquela outra atmosfera sempre que questionarem sua versatilidade na sétima arte. Densamente sensacional. 

Tom na Fazenda (Tom à La Ferme/Canadá-França/2013) de Xavier Dolan com Xavier Dolan, Pierre-Yves Cardinal, Lise Roy, Evelyne Brochu e Olivier Morin. ☻☻☻☻

sexta-feira, 5 de junho de 2015

PL►Y: Vizinhos

Momento DeNiro: o elenco se diverte. 

Eu admito que sou um tanto rabugento com comédias, sobretudo as que apelam para baixaria para arrancar risadas da plateia. O problema não é com a baixaria, o problema deve ser meu, já que não acho graça nela. No entanto, de vez em quando surge uma comédia que consegue me fazer lembrar que uma comédia que eleva a idiotice ao nível ilimitado merece respeito. Vizinhos pode não ser um primor em seu humor juvenil, mas consegue gerar risadas sempre que se afasta do ponto cômodo a que a plateia se acostumou durante a exibição. A história do casal Radner (Seth Rogen e Rose Byrne) que compra a casa do sonhos num bairro sossegado para sua filha bebê graciosa e... percebe que tudo foi posto a perder quando uma fraternidade universitária se muda para a casa ao lado possui momentos realmente hilariantes. Um dos acertos do roteiro é não mostrar os Radner como uma dupla de vizinhos careta, digamos que eles acabaram de crescer e, de certa forma, até entendem o comportamento inconsequente de seus vizinhos - tanto que até participam de algumas das festas da fraternidade sempre que podem -, mas sabem que precisam dar conta de manter um ambiente seguro e agradável para o desenvolvimento de sua pequena herdeira. Por outro lado, a fraternidade liderada por Teddy (Zac Efron) e Pete (Dave Franco) realmente não tem limites quando o assunto é fazer barulho nas festas regadas a muita bebedeira e drogas. O que poderia ser apenas mais uma história de humor repetitivo, prova ser uma grande surpresa quando prepara surpresas para o espectador na guerra que se instaura entre os vizinhos. É verdade que algumas piadas parecem um tanto soltas e pouco inspiradas, mas, na maior parte do tempo, Vizinhos cresce consideravelmente ao criar situações mais elaboradas e criativas. Cenas como a festa onde os universitários se fantasiam de personagens de Robert DeNiro, as armadilhas com airbags, o inchaço sofrido pela senhora Radner  e (Rose Byrne literalmente perde as estribeiras nessa comédia, demonstrando ser uma ótima comediante de aparência certinha) e os planos mirabolantes para que a fraternidade seja destruída, geram momentos realmente divertidos. Obviamente que existem alguns excessos de gosto duvidoso (afinal, todo filme de Seth Rogen precisa dessas cenas), mas o filme consegue escapar das armadilhas do moralismo e do politicamente correto criando personagens que tem lá seus problemas pessoais para resolver (se perceber, há pouco mais do que pura implicância de ambos os lados do muro - com um pouco de medo de envelhecer e assumir responsabilidades de ambos os lados da vizinhança). Vizinhos não quer ser inovador ou reflexivo, quer apenas fazer rir com uma guerra de bairro elevada à enésima potência e, amparado por um elenco que não consegue disfarçar o quanto acha graça de todo esse absurdo, alcança seus objetivos sem esforço. 

Rogen e Byrne: ela rouba a cena. 


Vizinhos (Neighbors/EUA-2014) de Nicholas Stoller com Seth Rogen, Rose Byrne, Zac Efron, Dave Franco, Carla Gallo e Christopher Mintz-Plasse. ☻☻☻

quinta-feira, 4 de junho de 2015

CATÁLOGO: Amor Sem Escalas

Vera, George e Anna: os dilemas de ser descartável. 

Eu nunca entendi muito bem porque as pessoas gostavam tanto de Amor sem Escalas quando o filme foi lançado. No início eu pensava que o título mal ajambrado me atrapalhava - já que não tem relevância nenhuma diante da história (ok, tem um romance na trama, mas ele é apenas secundário diante da proposta). Com a crise econômica batendo à porta da economia americana, o terceiro filme de Jason Reitman beneficiou-se de ser lançado na hora certa ao girar em torno de um Conselheiro de Transição de Carreria, que nada mais é do que o nome pomposo daquele sujeito que é contratado por empresas que precisam enxugar a folha de pagamento, cabe ao CTC a antipática tarefa de demitir funcionários. Quando Ryan Bingham (George Clooney) aparece no filme, sua função é sujar as mãos no lugar dos empresários que não querem enfrentar reações como desdém, desespero, choro, ameaças... no início do filme, conseguimos sentir a energia pesada de quando a corda arrebenta do lado mais fraco do sistema. O difícil vem depois, quando precisamos gostar de Ryan Bingham. Sorte que Reitman conta com George Clooney, o melhor galã de Hollywood para esse tipo de serviço. Com seu estilo espirituoso ele até nos faz esquecer do seu trabalho desagradável, ele possui técnicas específicas e um discurso mais humano que pode fazer o funcionário recém demitido até pensar naquele momento como algo bom, ou seja, o momento para recomeçar (ainda que sem futuro garantido). Diante da profissão, Bingham vive em aeroportos e hotéis (o que o faz desenvolver a mania de colecionar milhas aéreas) e sua vida muda quando duas mulheres cruzam o seu caminho. Uma delas é Alex (Vera Farmiga, indicada ao Oscar de coadjuvante), que vive uma rotina bastante parecida com a de Bingham e, diante da identificação imediata, começam a marcar encontros através de seus aparatos tecnológicos. A outra é Natalie (Anna Kendrick, também indicada ao Oscar de coadjuvante e muito elogiada na época), uma jovem recém-formada que torna-se parceira de Bingham e que torna o processo de demissões ainda mais impessoal através do uso de videoconferências. Na dinâmica entre os três personagens, o que se vê é o retrato de um mundo marcado pela indiferença e descartabilidade das relações humanas no século XXI - algo que o protagonista temerá tanto em sua vida profissional quanto pessoal diante da presença da laoura e da morena que entram na sua vida. Ivan Reitman descasca os personagens diante do roteiro inteligente de Sheldon Turner, mas tenho a impressão que o filme não decola. Indicado a seis Oscars (Filme, diretor, ator, atrizes coadjuvantes, roteiro), a produção é realmente caprichada, o elenco é competente, a direção é coerente, o roteiro é bem escrito mas acho que os personagens em si, são tão superficiais em sua essência que não consegui me relacionar com nenhum deles. É o tipo de filme que um distanciamento temporal pode me fazer perceber nele a pérola que todos anunciavam, ou então, concretizar (minha impressão) de que foi superestimado pela crítica. No entanto, as qualidades do longa são visíveis, especialmente na condução de Jason Reitman para temas bastante contemporâneos. Talvez no futuro, a filmografia do moço sirva de coletânea das angústias presentes na primeira metade do século XXI (sobretudo, na recorrente temática da solidão). 

Amor Sem Escalas (Up in The Air/EUA-2009) de Jason Reitman com George Clooney, Vera Farmiga, Anna Kendrick, J.K. Simmons, Jason Bateman, Melanie Linskey e Zach Galifianakis. ☻☻☻

PL►Y: Refém da Paixão


Sempre que me deparo com Refém da Paixão fico pensando como Jason Reitman caiu numa trama tão convencional. Então lembro que ele fez Juno (2007) e Amor Sem Escalas (2009), sendo indicado ao Oscar e elogiado em todo o mundo. Depois fez o incompreendido Jovens Adultos (2011) e esse aqui sobre uma dona de casa que torna-se refém e depois apaixonada por um fugitivo da polícia. Faz tempo que Adele (Kate Winslet, indicada ao Globo de Ouro) vive sozinha com o filho adolescente Henry (o ótimo Gattlin Grifith), até que o truculento Frank (Josh Brolin) cruza o caminho da dupla. Fugindo da polícia, Frank irá fazer Adele e o filho de reféns por um tempo, até que comecem a viver como uma família incomum, fazendo com que o lar o aceite no espaço deixado pelo homem da casa  (que preferiu ir embora depois de uma tragédia pessoal de Adele contamina o universo familiar). Aos poucos, Adele, Henry e a plateia irão perceber que Frank está longe de ser a ameaça que aparenta - e o público logo irá perceber que ele foi uma vítima das circunstâncias. Lançado como livro por Joyce Maynard, as surpresas envolvendo os personagens podem até empolgar na linguagem literária, mas na tela soa melosamente excessivo, isso prejudica um bocado o desenvolvimento da narrativa. O miolo da história, que é onde Adele precisa se apaixonar por Frank, não precisava das cenas em que o presidiário parece estar num programa de culinária - e ensina toda a família a fazer uma deliciosa torta de maçã (frutas que ganham de cortesia de J.K. Simmons, ator assinatura de Jason Reitman). Kate é uma atriz acima de qualquer suspeita e Josh é um bom ator, mas mas encontram pouco material para trabalhar nas entrelinhas de uma história que ocorre sob a ótica de Henry, que é o narrador da história. Existem bons momentos, como quando recebem a visita do vizinho com paralisia cerebral (que é de partir o coração) ou o momento em que Adele confessa que seu corpo esqueceu de "funcionar direito" - e como aquilo a faz evitar o mundo, mas não compensa o tom solene e arrastado, sobretudo quando o desfecho se aproxima e tudo que pode dar errado acontece na história (maldita Lei de Murphy!), mas pelo menos serve para uma boa participação do sumido James Van Der Beek da série Dawnson's Creek! Jason Reitman já provou ser um bom cineasta várias vezes, mas não deveria brincar de ser o que não é. Seu olhar é astuto e crítico demais para ser sufocado com uma história de romance tão trivial e conservadora quanto essa. Sorte que ele já percebeu isso e voltou a sua perspicácia singular em Homens, Mulheres e Filhos (2014). 

Refém da Paixão (Labor Day/EUA-2013) de Jason Reitman com Kate Winslet, Josh Brolin, Gattlin Grifith, Clark Gregg, James Van Der Beek e Tobey Maguire. ☻☻

CATÁLOGO: A Caixa

Marsden & Cameron: um milhão por um botão. 

Lembro que vi A Caixa no cinema em seu dia de estreia, antes que o mundo fosse contaminado pelas críticas negativas que recebeu desde então. Em primeiro lugar, devo dizer que gostei muito do filme (e continuo gostando, especialmente pelo dilema moral que instala entre o casal protagonista - e que leva a plateia a refletir mais do que a maioria dos filmes que entram em cartaz toda semana), segundo que aprecio muito o trabalho do diretor Richard Kelly - que foi celebrado pelo cult Donnie Darko/2001 e massacrado pelo confuso Southland Tales/2009 (que funciona melhor em sua versão em HQ do que na telona). Aqui, Kelly cria sua obra mais emocional e, motivo forte para isso, é que se inspirou em seus pais para criar os personagens vividos por James Marsden e Cameron Diaz. Marsden é Arthur Lewis, que trabalha na NASA e Cameron é Norma Lewis , uma professora ginasial que, junto ao esposo, tenta educar o filho, Walter (Sam Oz Stone) da melhor forma possível em meados da década de 1970. De repente o casal mergulha numa crise financeira, o salário de Arthur é reduzido e Norma ficará afastada das aulas por um tempo. No meio dessas dificuldades, um homem misterioso aparece oferecendo uma caixa para o casal. A caixa possui um botão, que eles devem decidir se apertam ou não. A boa notícia é que se apertarem, ganharão um milhão de dólares na manhã seguinte (e resolverão todos os seus problemas). A má notícia é que se apertarem o botão, uma pessoa que eles não conhecem irá morrer (o que seria um fardo e tanto na consciência). Tudo é apresentado como um teste, uma experiência aplicada aos seres humanos (e que a ficção sempre encontra na década de 1970 o cenário ideal para isso). O casal pensa nos prós e contras da situação e as consequências de suas escolhas irão gerar situações estranhas, ameaçadoras e até trágicas até o final da sessão. Sinceramente não concordo com tanta gente classificar o filme como moralista, já que ele funciona dentro da estrutura concebida no conto de Richard Matheson (chamado Button, button) e que virou até episódio de Além da Imaginação, mesmo que o roteiro force as referências à obra de Sartre e a máxima "o inferno são os outros" trata-se de uma espécie de fábula moral então... o que seria mais criticável seria a confusão que Richard Kelly cria na segunda metade do filme, mostrando que o experimento é bem mais amplo do que simplesmente apertar um botão, envolvendo mais instituições e pessoas do que o casal pode supor (prova disso é toda a pressão que existe sobre eles para que apertem o tal botão). No entanto, as pontas soltas servem para tornar o programa mais instigante, embora, impeça o filme de ser tão exemplar quanto ambiciona ser. O figurino e a reconstituição de época são irretocáveis, as atuações são ótimas (em especial as de Cameron Diaz (perfeita como a dona de casa comum que se mete num mundo esquisito) e  Frank Langella (que expressa sua desilusão diante das respostas ao teste com expressões sutis) e a ideia principal é sensacional - o resto é apenas pompa de um diretor ambicioso que foi alçado ao posto de gênio aos 26 anos. Vale lembrar que A Caixa foi o primeiro filme de Richard Kelly a ser lançado nos cinemas brasileiros, já que os outros foram lançados direto em DVD e que merece ser visto várias vezes - nem que seja para tentar compreender o incompreensível, mas acredite, o mais importante da história, você entende rapidinho.  

A Caixa (The Box/EUA-2009) de Richard Kelly, com Cameron Diaz, James Marsden, Frank Langella, Sam Oz Stone e Gillian Jacobs. ☻☻☻

PL►Y: Sex Tape - Perdido na Nuvem

Segel e Cameron: em busca do fogo perdido...

Se eu tivesse o número pessoal de Cameron Diaz eu ligaria para ela e diria para mudar de agente com urgência. A atriz de 42 anos parece ter entrado naquela fase da carreira em que o alerta vermelho começa a soar desesperadamente. Não que Cameron seja uma atriz ruim, mas está quase convencendo Hollywood de que é. O ano de 2014 foi um ano que merece ser esquecido na carreira da loura, tanto que para o futuro ela conta apenas com a filmagem da sequência de Professora sem Classe (ainda sem data de filmagem) - que é um de seus piores trabalhos. No ano passado, Cameron errou feio em três produções seguidas, o primeiro foi Mulheres ao Ataque (uma comédia barata em todos os sentidos), ao final do ano esteve na pífia refilmagem do musical Annie (que não empolgou nem a família do diretor), entre um e outro fez esse Sex Tape. Sex Tape junta a estrela a dois parceiros de Professora sem Classe, um é o diretor Jake Kasdan, o outro é Jason Segel, que depois de dieta e exercícios continua sendo Jason Segel (portador da mesma desinibição de mostrar o corpo sem roupa). Nada contra a química que existe entre o trio, mas a história criada pela roteirista Kate Angelo é de uma ruindade sem tamanho, nem tanto pela ideia (que já vimos no nacional Cilada.com/2011): um casal resolve apimentar a relação gravando uma relação sexual de três horas pautada em um livro de posições variadas - e entra em apuros quando o vídeo é enviado para um grupo de pessoas que ganharam um iPad de presente. Até esse ponto a plateia até acompanha as caretas e fricotes de Cameron e a cara aparvalhada de Segel tentanto convencer como um casal que perdeu o fogo dos tempos idos em meio às responsabilidades da vida de casado... mas depois, o filme vira a simples busca do casal por um jeito do vídeo não ser visto. O que poderia ser divertido acaba ficando mais sem graça, já que as situações são desanimadas, repetitivas e um tanto monótonas, ou seja, tudo que um filme de uma piada só não pode ser. Os diálogos são péssimos (alguns eu simplesmente não entendi como sobreviveram à sala de edição) e os coadjuvantes poderiam ser trocados por bonecos de papelão de tão inúteis e caricatos que são. Mas o que mais me incomoda é a forma irritante como o roteiro força a mão na canastrice  para criar identificação com os casais que sentem que a libido diminuiu.  Acho incrível que Cameron Diaz, uma atriz que já trabalhou com diretores importantes como Ridley Scott, Martin Scorsese, Spike Jonze, Oliver Stone e Danny Boyle seja incapaz de discernir sobre o que será bom e ruim para sua carreira. Talvez seja demais imaginar que o filme irá prejudicá-la, mas somado aos outros dois lançados no ano passado e outros já colecionados ao longo da carreira o efeito pode ser pior do que parece, especialmente quando se alcança 42 anos e fica evidente que nem você se leva muito a sério. Até quando Cameron irá evitar perceber que o tempo passou? O próprio Jason Segel (que deveria mudar a dieta depois de alcançar um aspecto quase cadavérico e se concentrar só nos exercícios) está no ambicioso (e aguardado) The End of the Tour de James Ponsoldt, onde vive o celebrado escritor David Foster Wallace e já está até cotado para premiações. Vale lembrar que Jason tem 35 anos e consegue uma atuação mais crível do que Cameron quando está numa bobagem feito Sex Tape, imagina o que ele fará com um material de respeito nas mãos? Querida amiga Cameron, esqueça as comediotas e cresça! Cenas de calcinha para mostrar o corpinho sarado não irão funcionar para sempre...

Sex Tape - Perdido na Nuvem (Sex Tape/EUA-2014) de Jake Kasdan com Cameron Diaz, Jason Segel, Rob Lowe e Rob Corddry. #