domingo, 21 de junho de 2015

PL►Y: Planeta dos Macacos - O Confronto

Serkis como César: como manter a liderança.

Depois do sucesso do reboot iniciado com Planeta dos Macacos - A Origem, a continuação da repaginada série cinematográfica era uma das mais aguardadas do ano passado, tanto que o estúdio não poupou despesas para tornar o filme um sucesso (ou seja, se o primeiro custou 93 milhões, o segundo custou aproximadamente 170 milhões - o que torna sua possibilidade de lucro um pouco mais complicada). Lançado, a bilheteria em solo americano não empolgou, mas, assim como o primeiro, a bilheteria mundial garantiu o sucesso da franquia. O curioso é que senti menos falta do elenco anterior do que da direção emocional impressa por Rupert Wyatt, que foi substituído por Matt Reeves (que também assinará o terceiro capítulo da trilogia: Guerra no Planeta dos Macacos - previsto para 2017). Reeves já provou ser um bom diretor (embora seu melhor momento seja o subestimado Deixe-me Entrar/2010), mas aqui eu senti todo o peso de uma produção milionária sobre suas costas. Se a cena inicial é um primor de concisão ao explicar os acontecimentos que ocorreram após o primeiro filme, existe um contraste inevitável com a arrastada parte inicial do longa. Depois que César fugiu para o bosque ao lado de outros de sua espécie, uma misteriosa dizimou parte da humanidade, deixando apenas poucos imunes vivos. No entanto, as condições de vida foram bastante comprometidas, principalmente com o problema de fornecimento de energia. É justamente a busca por uma represa abandonada que fará o encontro dos humanos com os seguidores de César (novamente com a tecnologia amparada pela interpretação de Andy Serkis) mais uma vez, já que o grupo liderado por Malcolm (Jason Clark) aos poucos ganhará a confiança de César e da macacada (até que um ato de traição comprometa a diplomacia entre macacos e humanos). Reeves consegue construir cenas de ação elaboradas, mas até chegar lá o filme se arrasta demais para mostrar como se organizou a sociedade símia no bosque dos arredores de São Francisco. O foco do filme é César perceber que sua principal lei ("Macaco não mata Macaco!") está em risco e que, macacos e o humanos tem mais semelhanças políticas do que ele imagina. Para além dos efeitos especiais impressionantes (mais uma vez indicados ao Oscar), acho que o elemento que torna o filme interessante é como permanece sustentado nas entrelinhas da clássica saga iniciada na década de 1960. Quem a assistiu percebe a coerência entre os dois momentos cinematográficos inspirados no livro de Pierre Boulle, como se as histórias estivessem sempre ali, apenas aguardando para serem contadas numa telona. Não sendo tão bem resolvido quanto o anterior, Planeta dos Macacos - O Confronto, mostra-se a típica continuação que serve de recheio para uma trilogia, ou seja, dá a impressão que está no meio do caminho. 

Planeta dos Macacos - O Confronto (Dawn Planet of the Apes/EUA-2014) de Matt Reeves, com Andy Serkis, Jason Clark, Gary Oldman, Keri Russell e  Kodi Smit-McPhee ☻☻☻ 

sábado, 20 de junho de 2015

PL►Y: Os Mais Jovens

Elle, Kodi e Nicholas: árida vingança.

Os Mais Jovens parte de uma ideia interessante que já foi usada diversas vezes: a escassez de água num futuro próximo. O diferencial é que além dos personagens viverem num mundo onde a água é o bem mais precioso, o diretor e roteirista Jake Paltrow (irmão de Gwyneth) criou uma história de vingança para esquentar a história. O filme dedica seu início a apresentar a família de Ernest Holm (Michael Shannon, bom como sempre), que vive numa fazenda condenada à aridez pela falta de chuva. Ele cria seus filhos, Mary (Elle Fanning) e Jerome (Kodi Smit-McPhee) da melhor foma possível, realizando visitas esporádicas à esposa -  presa a aparelhos para poder se movimentar após um acidente. Apesar de tudo, a vida dos Holm poderia ser bastante tranquila, mas o jovem Flem Lever (Nicholas Hoult) - filho dos antigos proprietários da fazenda - cruza o caminho de Ernest com interesse especial na jovem Mary. Paltrow disfarça seu filme como uma fantasia futurista, mas no fundo traz uma história de vingança e constrói bem esse arco na narrativa, desde a compra de um robô carregador de carga que terá papel importante na trama, passando por um assassinato cruel e sua revelação tempos depois. O filme conta a história de ascensão de Flem Lever, seu trabalho para recuperar e restaurar a fazenda dos Holm até que um segredo vem à tona. Fosse só a história de vingança, o filme seria muito melhor, mas Jake erra a mão em agregar elementos desnecessários, que torna a tarefa de acompanhar a história um tanto árdua para o espectador. Além da alta concentração de diálogos muito ruins, alguns pontos importantes são abordados superficialmente (como o acidente com a matriarca Holm, porque aqueles personagens preferem viver ali se existem lugares com melhores condições de vida, de onde vem a água utilizada por Flem...), além dos personagens coadjuvantes serem mal explorados - assim como a própria Maria, que revela-se um grande desperdício para o talento de Elle Fanning (que já provou ser capaz de muito mais em outros filmes de sua carreira). O estranho é que conseguimos perceber que Os Mais Jovens tem uma boa história debaixo de todos os elementos que o diretor não soube utilizar. Quem conseguir ver até o final irá perceber que menos diálogos teriam feito milagres na produção, já que além da boa atuação de Michael Shannon, ainda conta com uma surpreendente atuação de Nicholas Hoult, que mostra-se cada vez mais confiante em cena. No entanto, é o magricelo Kodi Smit-McPhee que, com sua já tradicional estranheza triste, cresce gradualmente diante da câmera, revelando que para além de um filme de vingança, o filme quer mesmo ser um western moderninho. 

Os Mais Jovens (The Young Ones/EUA-2014) de Jake Paltrow com Michael Shannon, Nicholas Hoult, Kodi Smit-McPhee, Elle Fanning, Aimee Mullins e Alex McGregor. ☻☻

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Pódio: Annette Bening

Bronze: a trambiqueira

3º  Os Imorais (1990) 
Em seu terceiro filme para a telona, Annette conseguiu sua primeira indicação ao Oscar (como atriz coadjuvante) pelo papel da pilantra Myra Langtry, esposa do malandro Roy Dillon (John Cusack) e nora da esperta Lilly Dillon (Anjelica Huston). Stephen Frears cria um suspense dramático ambientado no mundo marginal - e a relação do trio protagonista é mais complexo do que você imagina. Nesse filme Annette provou que conseguia ir do drama à comédia em questão de segundos (e nem imaginava que casaria com o cobiçado Warren Beatty no ano seguinte). 

Prata: a biruta
Bening já era celebrada quando viveu a problemática poetisa Deirdree Burroughs, que abandona seu filho Augusten (Joseph Cross, um verdadeiro achado) na casa do psiquiatra enquanto se entope de remédios em busca da fama que nunca chega. Bening mergulha da insanidade da personagem de forma impressionante e realiza um dos seus trabalhos mais intrigantes. O filme fracassou nas bilheterias, mas Annette foi lembrada no Globo de Ouro por essa comédia de humor negro que retrata a nascente de uma situação bastante atual: tomar remédios para lidar com seus problemas emocionais. 

Ouro: a esposa perfeita?
1º Beleza Americana (1999)
Conforme o tempo passa, considero o filme de estreia de Sam Mendes uma obra-prima ainda maior (e me pergunto como Annette perdeu o Oscar por sua atuação!). Na pele da neurórica Carolyn Burnhan, a atriz está mais sensacional do que nunca! Carol quer manter a imagem do sucesso a qualquer preço, mas isso pode lhe custar mais do que ela imagina. Se a personagem nasce da caricatura, sob a batuta de Mendes, Annette destrói a casca de bem estar da personagem e revela o que ela possui de mais humano debaixo de toda armadura (sobretudo nas cenas finais). Bening tornou-se uma das atrizes mais respeitadas de sua geração por sua performance. 

PL►Y: Uma Nova Chance para Amar

Ed e Annette: encontro de gigantes. 

Não é todo dia que tenho a chance de ver um filme com dois dos meus atores favoritos. Os veteranos Ed Harris e Annette Bening já chegaram numa fase da carreira em que não precisam provar mais nada para ninguém. Ambos têm quatro indicações ao Oscar, mas nenhuma estatueta na estante, o que só serve para dizer como Hollywood tem uma lógica um tanto perturbadora. Os dois fazem o que poderia ser um drama romântico mediano ser um programa de respeito nesse Uma Nova Chance Para Amar do diretor Arie Posin (que antes dirigiu somente o interessante Más Companhias/2005). Houve quem comparasse o longa com (mais denso) Sob a Areia de François Ozon, mas ele segue por um caminho diferente, já que o dilema da protagonista é outro. Nikki Lostrom (Bening) era casada e feliz com Garret (Ed Harris), até que ele morre afogado nas férias que desfrutavam no litoral mexicano. Cinco anos depois, Nikki ainda tem que lidar com a ausência dele, quando conhece um homem idêntico ao falecido. Ele se chama Tom (o mesmo Harris), é professor de História da Arte numa faculdade e apresenta charme suficiente para que Nikki fique um tanto confusa por não perder a oportunidade de conviver mais uma vez com a imagem de Garret. Ao longo do filme, Posin aponta para várias possibilidades da história (teria Garret fingido o afogamento? Seria uma alucinação de Nikki? Tom teria alguma ligação com Garret?), mas investe num tom certeiro de romance, valorizado por dois atores maduros que sabem exatamente o que estão fazendo com seus personagens. ainda que o roteiro escolha ser limitado a um dilema específico, Annette faz mais do que o necessário para tornar sua personagem bastante crível, ciente, desde o início dos problemas que terá ao se envolver com o sósia de seu marido (sem que conte para ele que ele é a imagem e semelhança do falecido), tornando o conflito interno da personagem bastante palpável. Ed Harris também dispensa comentários, criando um sujeito disposto a segurar o que parece ser sua última chance de felicidade na vida, além de ter sua figura masculina cultuada por uma câmera que o transforma quase um fetiche aos olhos de Nikki. Obviamente que a inevitável hora da verdade sera adiada durante a narrativa, mas, diante de toda a a eficiência da narrativa, em determinado momento comecei a ficar preocupado em como o filme lidaria com esse momento e o seu desfecho, já que armou para si uma verdadeira camisa de força. Se contar estraga, mas posso dizer que Posin chega bem perto de tornar seu filme um grande acerto graças a escolha de seu casal protagonista. Com sucesso modesto nos cinemas (o filme foi lançado por aqui somente depois da morte de Robin Williams que faz um papel pequeno sem muito brilho), ele ainda merece ser descoberto. 

Uma Nova Chance para Amar (The Face of Love/EUA-2013) de Arie Posin com Annette Bening, Ed Harris, Robin Williams, Amy Brenneman e Jess Weixler. ☻☻☻

PL►Y: Magia ao Luar

Firth e Emma: romance à moda antiga. 

Ano passado foi especial para Emma Stone. Fazia tempo que a jovem atriz queria ser levada a sério em Hollywood e, de fato, conseguiu. Recebeu sua primeira indicação ao Oscar (de atriz coadjuvante) por sua atuação no genial Birdman, foi a celebrada como a única coisa que prestava no horrendo O Espetacular Homem Aranha 2 - A Ameaça de Electro e tornou-se a nova musa de Woody Allen. Esse ano ela estará em The Irrational Man ao lado de Joaquin Phoenix, provando que o cultuado diretor gostou do seu trabalho no mediano Magia ao Luar. Todo mundo sabe que Allen mantém a invejável carga de trabalho de realizar um longa por ano e, ninguém mais fica surpreso, quando após um grande sucesso (no caso, o premiado Blue Jasmine/2013), Woody lança um filme despretensioso, que vai mal das pernas na bilheteria e acaba agradando somente seus fãs mais fervorosos. Magia ao Luar é um filme até simpático em sua simplicidade. Ambientado em 1928 com belas locações da Côte D'Azur, o filme conta do encontro de um ilusionista Wei Ling Soo, ou melhor, Stanley (Colin Firth), que atende ao pedido de um amigo para desmascarar uma médium suspeita de charlatanismo. A tal médium se chama Sophie (Emma Stone) e torna-se queridinha de uma família endinheirada. Suas revelações e truques como batidas na mesa e velas flutuantes, a torna tão querida que o herdeiro da família milionária, Brice (o subestimado Hamish Linklater), cai de amores por ela e a pede em casamento. Sempre desconfiado, Stanley se aproxima de Sophie, percebe como ela tem a chance de sair da vida de americana pobre para outra mais nobre e, ao mesmo tempo, começa a desconfiar que a moça realmente pode ter um canal direto de comunicação com o além. A melhor parte fica por conta dos embates entre Stanley e Sophie, feitos de provocações sobre o conflito entre o ceticismo dele e a esperança e conforto que os "dons" dela trazem para pessoas que precisam lidar com a morte de alguém querido. Quando até nós passamos a querer acreditar na personagem (defendida com doses cavalares de carisma por Stone), deixamos de nos preocupar com o fato de Sophie ser uma farsante para nos preocupar com o vácuo que a ausência daquele conforto pode provocar em quem depende de seus "dons" para lidar com o fim da vida. Pena que a narrativa pareça um tanto frouxa até chegar em sua cena final, que revela que, no fundo o filme deseja ser da metade do século XX, onde uma Hollywood mais ingênua adoraria um filme feito esses. A produção é bem cuidada, com figurinos e cenários corretos, bela fotografia e edição eficiente, mas Woody parece apressado e entrega um roteiro que explora menos suas intenções do que deveria. 

Magia ao Luar (Magic in the Moonlight/EUA-2014) de Woody Allen com Colin Firth, Emma Stone, Hamish Linklater, Jackie Weaver, Simon McBurney e Eileen Atkins. ☻☻

domingo, 14 de junho de 2015

PL►Y: Laurence Anyways

Laurence: alma feminina num corpo masculino ou alma masculina num corpo feminino?

Em 2012 o jovem canadense Xavier Dolan já tinha dois filmes no currículo e já desfrutava do status de prodígio do cinema. O cineasta tinha vinte e três anos quando Laurence Anyways foi exibido no Festival de Cannes e, apesar de dividir opiniões, recebeu a Queer Palm daquele ano. Dolan confirmou aqui seu capricho estético e o uso da música pop - que aqui parece ainda mais sublimada do que em seus filmes anteriores (a cena de abertura ao som da banda Fever Ray é arrepiante).  Dolan conta a história de Laurence Alia (o francês Melvil Poupaud), professor conceituado com aspirações de ser escritor. Casado com a maluquete Fred (Suzanne Clément - premiada em Cannes) o casal vive feliz, até que Laurence começa a sentir algumas inquietações sobre sua identidade. Laurence decide mudar de sexo e o que acompanhamos (em quase três horas de sessão), é o efeito dessa decisão na vida do casal. Embora o centro da história seja Laurence tentando lidar com sua metamorfose (primeiro com peças íntimas, depois com roupas femininas, jóias, peruca... até chegar às mudanças físicas de fato) perante um mundo que também não sabe lidar bem com ela. O diferencial está em Dolan utilizar a angústia de Fred como contraponto, abordando os dilemas de uma mulher apaixonada pelo seu homem que deseja tornar-se mulher. Embora Fred o apoie no início, aos poucos a tarefa torna-se cada vez mais árdua. O cineasta compõe uma narrativa ambiciosa sobre o impacto da nova identidade de Laurence em seu trabalho, na vida amorosa, familiar, no bairro onde vive e, principalmente consigo mesmo, tanto que suas mudanças acontecem aos poucos e precisando de uma mudança dos cenários que frequenta. Por vezes Laurence e Fred são inseparáveis, se desentendem, seguem caminhos diferentes, se reencontram, se perguntam sobre os caminhos que seguiram e os que poderiam seguir. Centrado no amor dos dois personagens, Dolan cria uma bela reflexão sobre a identidade de gênero, o masculino e o feminino se friccionam o tempo inteiro durante o filme, não apenas em Laurence, mas em vários personagens que cruzam seu caminho (seja de forma consciente ou inconsciente). No entanto, com duas horas e quarenta e oito minutos de duração, Laurence Anyways soa cansativo, o que pode desviar a atenção de seus méritos. Existem cenas belíssimas na trajetória dos personagens, enquanto outras são desnecessárias (tirando a cena inicial, a primeira meia hora eu teria cortado quase que por inteiro, as cenas com a turma de Mamy Rose também não fazem a mínima diferença na história, se ainda cortarmos um maneirismo aqui e outro ali... uma lipoaspiração de quarenta minutos faria muito bem ao filme). Os excessos podem ser creditados à pretensão do jovem cineasta (que não é pouca), mas Xavier Dolan exala a vontade de ter uma assinatura autoral em sua carreira e prova que é capaz de contruí-la na forma de um cinema pulsante, meio pop, meio cabeça, sem medo de parecer desvairado. Há quem o compare com Orson Welles por ter encontrado a consagração tão cedo, mas eu percebo mais a figura de um jovem cineasta do século XXI que tomou muito Pedro Almodóvar na veia. Laurence Anyways só confirma a minha teoria. 

Laurence Anyways (Canadá/França-2012) de Xavier Dolan com Melvil Pupaud, Suzanne Clément, Nathalie Baye, Monia Chockri e David Savard. ☻☻☻

PL►Y: Lunchbox

Ila e Fernandes: amores desconhecidos. 

Lunchbox é uma dessas surpresas que se você não for motivado pela curiosidade, correrá o sério risco de perder um belo programa. Dirigido por Ritesh Batra, o filme participou de vários festivais, ganhou o prêmio da crítica no Festival de Cannes e concorreu ao BAFTA de melhor filme estrangeiro, mas ainda acho que merecia ter alcançado um sucesso maior do que conseguiu nos cinemas. O que constitui o filme numa grata surpresa é como o diretor cria uma história tão envolvente a partir de um ponto de partida tão simples. Tudo começa quando a marmita que Ila (a bela Nimrat Kaur) preparou para agradar o seu esposo é entregue para a pessoa errada, no caso, Saajan Fernandes (Irrfan Khan). No início, Ila não sabe muito bem o que fazer, mas segue o conselho de uma tia (da qual só ouvimos a voz) para enviar uma carta ao homem desconhecido que se deliciou a comida. A partir de então os dois começam a se corresponder, criando uma narrativa a partir das correspondências que revelam suas desventuras cotidianas. Da solidão de Saajan, passando pelas desilusões de Ila, o filme é uma lição de como conduzir uma história sem sensacionalismos e exageros. A trama segue seu fluxo quase inevitável com uma naturalidade desconcertante. Amplia seus dramas (às vezes com doses de humor, destacando até a amizade de Saajan com um novo funcionário de seu trabalho burocrático). Em alguns momentos Batra injeta poesia, em outros tempera com um pouco de tristeza, mas sempre deixa uma sensação esperançosa durante a sessão. Revelando seus personagens aos poucos, o cineasta construiu uma bela história de amor para os tempos em que as pessoas praticamente não escrevem cartas e, coincidentemente, encontram cada vez mais problemas de comunicar seus sentimentos. Se contar mais, estraga a saborosa sensação que é descobrir essa especiaria de rara sutileza.

Lunchbox (Índia, França, Alemanha, EUA-2013) de Ritesh Batra com Nimrat Kaur, Irrfan Kahn, Nawazuddin Siddiqui, Nakul Vaid e Denzil Smith. ☻☻☻☻ 

PL►Y: As Tartarugas Ninja

Coisa de Ninja: falta o terceiro ato. 

Há quem possa se surpreender em imaginar que fazer uma adaptação das Tartarugas Ninja para a telona não é uma tarefa fácil. Ao longo de 25 anos, os personagens dos quadrinhos criados por Kevin Eastman e Peter Laird os personagens já viraram brinquedos, animações para a TV (em 1987, 2003 e 2012), seriado (em 1997) e já rendeu quatro filmes para o cinema. O primeiro foi realizado de forma independente, lançado em 1990, custou apenas 13 milhões de dólares e arrecadou mais de duzentos milhões ao redor do mundo. Com atmosfera sombria e atores desconhecidos no elenco, o filme chamou atenção para o lucro milionário que as tartarugas poderiam ter no cinema. No ano seguinte foi lançado As Tartarugas Ninja - O Segredo do Ooze que foi mais bem humorado com a intenção de chamar mais crianças para o cinema. Ainda mais diluído foi As Tartarugas Ninja 3 (1993), que levou os heróis de volta no tempo para o Japão Feudal. A bilheteria não empolgou e o estúdio engavetou os personagens até 2007 - quando lançaram As Tartarugas Ninja - O Retorno. Apesar da estreia promissora, o filme não alcançou o sucesso desejado e no ano passado o clã mutante recebeu mais uma chance no cinema. Em termos de produção, essa versão assinada por Michael Bay é a mais caprichada. Fotografia, edição, efeitos especiais, trilha sonora... toda a parte técnica tem tudo o que um blockbuster deseja (tanto que o público lhe concedeu mais de quatrocentos milhões de bilheteria ao redor do mundo). No entanto, o filme pode ser dividido em duas partes. A primeira é a parte em que a repórter April O'Neil (Megan Fox, que aprendeu que é muito melhor como coadjuvante do que como protagonista) começa a investigar um clã criminoso chamado Clã Foot e descobre que um grupo de justiceiros misteriosos, especialista em artes marciais também está no caminho dos criminosos. Ela descobre que o grupo é formado por quatro tartarugas mutantes que possuem uma ligação com seu passado. As tartarugas foram parte de um experimento científico e criadas no esgoto por um rato de laboratório alterado geneticamente chamado Splinter (Tony Shalhoub). Não demora muito para que os vilões comecem a procurá-los - e April descubra que um amigo de seu pai, o cientista Eric Sacks (William Fichtner) é menos confiável do que parece. Quem já conhece os personagens deve estranhar a forma como o roteiro apresenta tudo amarradamente redondo já na primeira hora de filme - sem deixar muito mistério para o resto da exibição. O engraçado é que depois de dar os passos iniciais apresentando Leonardo, Donatello, Rafael e Michelangelo, o filme mergulha em sua segunda parte: somente cenas de ação até que chegue o final. Crianças e adolescentes não irão reclamar, mas falta um arremate coerente com o início da sessão. Muita correria, barulhos, piadinhas, referências de cultura pop toma o lugar do desenho dos personagens que se anunciava e todos viram coadjuvantes da ação, que carece uma conclusão para essa nova aventura. Houve quem reclamasse do visual das novas tartarugas, mas eu gostei. As novas Tartarugas Ninja do cinema parecem mais realistas fisicamente, sendo menos fofinhas. Finalmente Leonardo e seus amigos recebem o trato de super-heróis na telona, porém, ainda falta um roteiro melhor para o quarteto. 

As Tartarugas Ninja (Teenage Mutant Ninja Turtles/EUA-2014) de Jonathan Liebesman com Megan Fox, Johnny Knoxville, Tony Shalhoub, William Fichtner e Will Arnet. ☻☻

quinta-feira, 11 de junho de 2015

.Doc: I Am Divine

Divine: Glenn or Glenda?

Difícil imaginar, ainda hoje, uma figura tão chamativa quanto a drag queen Divine no cinema. O documentário I am Divine, mostra que em vinte anos de carreira fazem a diferença na carreira de Harry Glenn Milstead quando o objetivo é romper vários paradigmas - em uma época marcada pelo conservadorismo. Divine foi a musa dos primeiros filmes de John Waters, o qual conheceu ainda na adolescência e aceitou participar de seus primeiros filmes amadores vestido de mulher. O documentário de Jeffrey Schwarz, busca entender um pouco da personagem e do homem que se escondia por trás das roupas, perucas e maquiagens espalhafatosas com a ajuda de cenas de arquivo, trechos de filmes e entrevistas com os amigos dessa figura. Ainda que tivesse sua namoradinha na época de escola, muitos já notavam que Glenn era homossexual e após ir a uma festa à fantasia vestido de Elizabeth Taylor, ficou difícil disfarçar o que o rapaz carinhoso e gentil escondia. No entanto, bastou ver um concurso de travestis para perceber que jamais se enquadraria naquele físico esguio e elegante. Sempre gordinho e bem humorado, Glenn criaria o conceito de Divine nos filmes do amigo. A personagem ganhou forma nos curtas do diretor lançados na década de 1960, mas foi em Multiple Maniacs (1970) que Lady Divine nasceu para o cinema. Com seu humor maldoso, piadas despreocupadas com o que era politicamente correto e figurino inconfundível, Divine nascia para o estrelato, numa antítese do que o pacato Glenn era na vida real. Era como se fosse a versão transex de O Médico e o Monstro! Em cena,  Divine era capaz de perguntar para uma plateia "quem é capaz de morrer pela arte?" e assim que alguém levantasse, ela o acertaria com um tiro. Esse humor surreal foi consolidado com sua antológica atuação em Pink Flamingos (1972), clássico do humor trash, onde Waters a consolidou como sua musa - ainda que brincando de colocar "A mulher mais linda do mundo" num concurso para descobrir quem era a pessoa "mais suja do mundo"! Os filmes seguintes, Female Problem (1974) e Polyester (1981), tornou a personagem numa referência do underground. Tornou-se a estrela que as estrelas pop queriam conhecer, flertou com a música eletrônica, atuou no teatro, trabalhou com outros diretores e paralelo a tudo isso, Glenn Milstead queria ser reconhecido como artista e não apenas uma drag queen. Glenn ainda enfrentou graves problemas com a balança (chegando a pesar 135 quilos) e com a rejeição da família por boa parte da carreira. Jeffrey Schwarz consegue contar a história de Divine/Glenn com ritmo e bom humor, até o falecimento em 1988 aos 42 anos, quando o reconhecimento parecia finalmente ter chegado. Se Glenn faleceu, um amigo diria que Divine não virou purpurina, mas uma enorme lantejoula! 

I am Divine (EUA-2013) de Jeffrey Schwarz com Divine, John Waters, Mink Stole e Greg Gorman. ☻☻☻☻