domingo, 17 de novembro de 2019

NªTV: Patrick Melrose

Benedict: futuro destruído pelo passado. 

Fiquei um tanto zonzo ao assistir ao primeiro episódio da minissérie Patrick Melrose. Não lembro de ter visto um personagem utilizar, por tanto tempo, tamanha variedade de drogas diante da câmera enquanto a produção tenta reproduzir os efeitos delas com a edição, o som, a luz... Darren Aronofsky demonstrou que isso era possível naqueles cinco (?) minutos intermináveis de Réquiem para Um Sonho/2000, mas aqui o mal estar se estica por quase uma hora. O motivo para este abismo fica um tanto nebuloso, já que assim que o episódio começa, Patrick (o ótimo Benedict Cumberbatch) não parece muito triste quando recebe a notícia do falecimento do pai (Hugo Weaving). A causa parece ser algo muito maior e pior até. Alguns críticos identificaram que o programa exagera no glamour (e a elegância de seu protagonista ajuda ainda mais a tecer esta observação) perante uma história sombria, mas se o protagonista (e quem está  ao seu redor) pertence à elite da sociedade londrina, considero justificável que esta casca endinheirada esconda camadas de podridão vestidas com roupas de perfeitas e joias caras. Baseado nos cinco livros de Edward St. Aubyn, a minissérie opta por começar pelo segundo livro para só depois retomar o primeiro da coleção, explicando o que se esconde por trás das atitudes de Patrick.  Com uma infância marcada por um pai abusivo e uma mãe ausente, crescer não foi nada fácil para ele. O refúgio em todo tipo de substância que pudesse lhe proporcionar momentos de fuga torna-se até compreensível, mas a série quer mostrar algo mais ao condensar cada livro em uma hora de programa. No terceiro episódio, Patrick está lutando para ficar sóbrio, no quarto sua vida parece ter entrado nos eixos (mas ele permanece desconfortável) e no último está tudo prestes a se perder ou se encaixar novamente. Benedict Cumberbatch vive cada momento deste personagem com maestria e ressalta o que o texto tem de mais agudo e cruel em vários momentos - incluindo aqueles em que nada deveria ser dito. Enquanto junta seus cacos por dentro, Patrick Melrose cria episódios que compõem uma espécie de filme com cinco horas de duração com um elenco apropriado para trazer vida à uma jornada que flerta constantemente com a autodestruição. O programa lida com aquelas feridas que demoram para cicatrizar e mistura drama e doses de humor maldoso para disfarçar toda a dor que existe debaixo da pompa endinheirada que emoldura cada cena. Ao que parece, Edward St. Aubyn criou a história com bastante propriedade inspirado em sua própria vida e reconhece que em alguns momentos no humor cruel de sua narrativa. Esta é a base para que Patrick Melrose pareça um ácido que faz cócegas enquanto corrói a própria carne. 

Patrick Melrose (Reino Unido - 2018) de Edward Berger com Benedict Cumberbatch, Hugo Weaving, Jennifer Jason Leigh, Sebastian Maltz, Jessica Raine e Pip Torrens. ☻☻☻☻

PL►Y: O Despertar de Motti

Motti e a mãe: desafiando as tradições. 

Eu admito que costumo ser bem impaciente com comédias. Geralmente desisto delas em poucos minutos - não me pergunte exatamente o motivo, só sei que acontece. No entanto, quando encontro alguma que me convence a assistir até o final eu fico não apenas surpreso como extremamente grato. Foi isso que aconteceu com O Despertar de Motti, filme que nunca havia escutado falar e que assisti sem maiores pretensões na noite de ontem. A trama gira em torno de Motti (o simpático Joel Basman), um jovem judeu que já está um tanto cansado da pressão familiar para que se case. A maior interessada (e articuladora) para que isso aconteça é sua mãe, a zelosa Judith (Inge Maux que não tem medo de exagerar em todos os estereótipos deste tipo de personagem). Judith não cansa de arranjar encontros para  o rapaz, mas faz de conta que não percebe o desinteresse do moço nas futuras esposas judias que ela lhe arranja. Motti na verdade está interessado em uma colega da faculdade, Laura (Noémie Schmidt) que está bem longe do tipo almejado por sua mãe, principalmente no que se refere ao primeiro item das exigências: ter origem judaica. Conforme cresce o interesse de Motti pela colega, ele começa a se afastar do que seus familiares esperam que ele faça e, com isso, o filme ganha corpo sobre uma base bastante interessante: encontrar os rumos da própria vida. O roteiro é cheio de analogias às tradições que o protagonista precisa respeitar, algumas sérias e outras que parecem existir por puro hábito (as armações dos óculos por exemplo) e ajuda muito a forma como Joel Basman encarna o personagem como um jovem perdido que ainda tenta encontrar sua identidade dentro de um universo um tanto opressor. Leve e divertido, o filme aborda alguns aspectos da cultura judaica se equilibrando numa verdadeira corda bamba para não ser desrespeitoso, no entanto, não perde a chance de ensinar ao personagem que os caminhos do coração podem ser um tanto enganosos. Outro detalhe que aproxima o espectador da história é o fato de Motti quebrar a quarta parede, conversando com o público olhando diretamente para a câmera, o que ajuda a digerir até quando o roteiro não desenvolve alguns caminhos conforme deveria (como a armação pouco aproveitada do rapaz com uma de suas pretendentes ou quando ele vai morar com uma garota). O Despertar de Motti é um bom passatempo e tem um dos raros finais em aberto que faz pleno sentido. 

O Despertar de Motti (Wolkenbruchs wunderliche Reise in die Arme einer Schickse / Suíça - 2019) de Michael Steiner com Joel Basman, Noémie Schmidt, Udo Samel, Inge Maux e Lena Kalisch. ☻☻☻

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

PL►Y: Contato Visceral

Armie Hammer: o problema não é o desodorante...

Armie Hammer é um caso curioso de Hollywood. O rapaz frequentemente sempre aparece em duas listas distintas de Hollywood, em uma delas é considerado um dos atores mais bonitos do cinema atual, na outra é um dos maiores pé-frios de Hollywood. Parece que o fracasso comercial é uma espécie de maldição dos filmes que tem seu nome no alto dos créditos. É verdade que ele teve um respiro benevolente com Me Chame pelo Seu Nome (2017), mas não demorou para suas produções seguintes não alcançarem o sucesso almejado. Se por um lado ajuda que seu novo trabalho seja lançado pela Netflix, por outro, ter o filme traduzido para Contato Visceral no Brasil pode ser um problema... A sorte é que Hammer é um cara esperto e está atento aos diretores que estão em alta e podem lhe render um trabalho interessante, aqui por exemplo ele trabalha com Babak Anvari - que construiu o interessante Sob a Sombra (2016) em seu clima de terror doméstico cheio de simbologias. O problema é que Anvari investe aqui numa história um tanto confusa, que mais sugere do que constrói uma estrutura realmente envolvente ou assustadora. A trama gira em torno de um bartender de Nova Orleans (Hammer) que numa noite normal de trabalho se depara com um celular esquecido em uma mesa. Em busca de encontrar o dono, ele se envolve numa estranha espiral de acontecimentos envolvendo mortes, sacrifícios e ocultismo. Esse vínculo entre tecnologia e o desconhecido não é uma novidade, já vimos em sucessos como O Chamado (2002) e os trablhaos mais cults de David Cronenberg (que mostra-se um influência fortíssima para Anvari na estética deste filme). O problema é que embora o filme explore a interessante ideia do fascínio pela imagem produzida e compartilhada por celulares, a  ideia fica um tanto travada no relacionamento do casal vivido por Hammer e Dakota Johnson - e convenhamos que os dois estão um tanto desgovernados em seus personagens em seus ciúmes e dilemas pessoais. O filme se torna cada vez mais esquisito e cansativo, perdendo aos poucos o que havia de mais interessante. O tom sinistro aparece aqui e ali, mas explode mesmo é no final em uma cena enigmática estranhíssima que promete ficar na cabeça do espectador por algum tempo. Infelizmente, o que o filme oferece até ali não empolga. 

Contato Visceral (Wounds / Reino Unido - 2019) de Babak Anvari com Armie Hammer, Dakota Johnson, Zazie Beetz, Karl Glusman, Brad William Henke e Ben Sanders. ☻☻

APOSTAS PARA O OSCAR 2020: Capítulo I

Eles já começaram a aparecer! Basta ver todas as especulações sobre a interpretação de Joaquin Phoenix em Coringa, a pré-indicação de A Vida Invisível para representar o Brasil no páreo de filme estrangeiro ou o resgate do trabalho impressionante de Lupita N'Yongo em Nós. O Oscar se aproxima e com ele os lançamentos mais ambiciosos do ano quando se fala de prêmios! A seguir os  primeiros favoritos para esta temporada de ouro:

"O Irlandês" 
Scorsese nas últimas semanas deixou de ser falado pelo filme para se meter em pendengas com a Marvel ou com os críticos (desinformados) que reclamaram não haver protagonistas  femininas em seus filmes (e Ellen Burstyn quase devolveu o Oscar que tem na estante por conta disso). O fato é que produzido pela Netflix e com quase quatro horas de duração, O Irlandês conta a história de um matador de aluguel e suas conexões criminosas com a máfia e figuras importantes. No elenco estão Al Pacino, Robert DeNiro, Joe Pesci e Harvey Keitel - velhos conhecidos do diretor.

"Jojo Rabbit" 
O clima é outro neste filme do neozelandês Taika Waititi. O diretor de comédias malucas australianas e de Thor Ragnarok não tem medo de delírios e fazer graça com temas polêmicos. Aqui ele conta a história de um menino e seu amigo imaginário que é ninguém menos do que Hitler - e para piorar as coisas, o menino descobre que a mãe (Scarlett Johansson) está escondendo uma menina judia dentro de casa. A trama baseada no livro de Christine Leunens surpreendeu ao levar o prêmio de Melhor Filme no Festival de Toronto!

"A Marriage Story" 
Johansson e Adam Driver estão cotados para os prêmios de atuação pelo trabalho neste drama dirigido por Noah Baumbach. O diretor já revisitou o divórcio de seus pais em A Lula e a Baleia e foi indicado ao Oscar de roteiro original. Agora ele retoma esta temática com ainda mais camadas e sensibilidade em mais um trabalho produzido pela Netflix. Unanimidade entre os críticos, o filme dificilmente será esquecido entre os indicados do próximo ano - somente se houver lugar somente para um filme da Netflix aos olhos da Academia. 

"Judy"
Peso pesado na corrida ao Oscar de melhor atriz, Renee Zellwegger tem a chance de dar a volta por cima com seu surpreendente trabalho sobre os últimos dias de uma diva de Hollywood! Vivendo uma madura Judy Garland quando sua carreira já estava em declínio (e ela ainda tinha contas a pagar) a atriz alcança o melhor momento de sua carreira! Quem assistiu (pelo menos o trailer) sabe que a atriz está um arraso! Faz tempo que a atriz está afastada de grandes produções, ela já tem um Oscar de coadjuvante na estante e parece querer o de atriz principal agora...

"A Beautiful Day in the Neighborhood"
A atriz Marielle Heller tem feito uma carreira interessante como diretora. Depois de dois significativos (o bom Diário de uma Adolescente e o ótimo Poderia me Perdoar?), ela está prestes a conseguir um terceiro. O filme é uma adaptação de um artigo publicado na revista Esquire sobre um ícone da televisão americana! Tom Hanks vive o famoso Fred Rogers e Matthew Rhys é o repórter cínico que criará o tal artigo sobre ele. A história sobre compreensão pode render indicações para os dois atores e ainda colocar Heller no páreo de melhor direção.

domingo, 27 de outubro de 2019

PL►Y: Dor e Glória

Banderas: belo reencontro com Almodóvar. 

Foram os filmes mais coloridos de Pedro Almodóvar que apresentaram Antonio Banderas para o mundo. O ator tinha vinte e dois anos quando foi descoberto pelo cineasta espanhol em Labirinto de Paixões (1982). Depois os dois voltaram a trabalhar juntos em Matador (1986) e A Lei do Desejo (1987), além dos clássicos Mulheres a Beira de Um Ataque de Nervos (1988) e Ata-me (1989). Depois o astro enveredou por Hollywood e fez todo tipo de filme, filmes bons, filmes ruins, filmes muito ruins, sucessos... Almodóvar e Banderas só se reencontraram em 2011 com o excelente A Pele que Habito (2011). O diretor já era bem mais contido e Banderas sabia que o passar do tempo lhe exigia mais do que a pose de galã. Pena que Almodóvar tropeçou na parceira seguinte (Os Amantes Passageiros/2013, filme que nunca consegui assistir inteiro) e não o escalou para o insosso Julieta (2016). Os deuses do cinema queriam que os dois hispânicos se encontrassem novamente neste Dor e Glória (2019), filme que foi exibido em Cannes e rendeu ao ator o maior reconhecimento de toda a sua carreira: o prêmio de melhor ator. Foi merecido, já que Banderas apresenta uma atuação contida, melancólica e costura a narrativa mais pessoal e literária já construída pelo diretor. Dor e Glória avança quase em capítulos, apresentando seu protagonista para a plateia enquanto aparenta ir e voltar no tempo de suas memórias de infância. O astro vive Salvador Mallo, cineasta que obteve grande reconhecimento, mas que depois de enfrentar problemas com o protagonista de seu filme mais famoso, entrou para o ostracismo. Na verdade, o personagem sofre de dores crônicas em todo o corpo que só se agravaram com  tempo. Tomando medicamentos pesados e passando por cirurgias, falta energia para se dedicar à arte. O filme se movimenta entre a costura do tempo de menino (Asier Flores) ao lado da mãe (Penelope Cruz) e o presente no contato com Alberto Crespo (Asier Etxeandia),  ator famoso que roubou-lhe a cena no passado. Enquanto estes dois colocam os pingos nos is (com cenas de humor, drogas e algumas desavenças), Mallo está prestes a reencontrar um grande amor do seu passado (o argentino Leonardo Sbaraglia). Dor e Glória é a revisão de um homem sobre a vida, suas dores, amores, desejos e apresenta a narrativa mais pessoal e contida de Almodóvar. Nem precisa dizer que existe muito aqui de sua vida pessoal, mas na última cena ele deixa claro que existem momentos em que vida e arte se confundem, mas são dimensões diferentes. Faz tempo que o diretor deixou de lado o humor agudo (e da última vez que tentou retomá-lo, desafinou feio com Amantes Passageiros), mas algumas pessoas devem estranhar o tom que resolveu adotar neste filme e, quem não o conhece, irá estranhar a cena de nudez masculina frontal ou o beijo apaixonado entre dois personagens. A melancolia embalando o tom confessional faz de Dor e Glória um belo filme e, o melhor ainda, somente Almodóvar terminaria a história de um homem feito Salvador com um recomeço e não com uma despedida. 

Dor & Glória (Dolor y Gloria / Espanha - 2019) de Pedro Almodóvar com Antonio Banderas, Penélope Cruz, Asier Etxeandria, Asier Flores, Leonardo Sbaraglia, Nora Navas, César Vicente, Cecilia Roth e Julieta Serrano. ☻☻☻☻

domingo, 20 de outubro de 2019

PL►Y: A Lavanderia

Oldman e Banderas: esquemas complicados e química irresistível. 

Pode se dizer que A Lavanderia era um dos filmes mais aguardados da Netflix com lançamento previsto para este ano. Além da assinatura ilustre (Steve Soderbergh) e do elenco cheio de rostos conhecidos, a história é baseada em fatos reais e envolvem o estranho mundo de empresas de fachada que servem para todo tipo de presepada. Quem conduz o espectador por este (sub)mundo um tanto complicado (tentando nos convencer de que fazer trambicagem é mais simples do que parece) é a dupla Ramón Fonseca (Antonio Banderas) e Jürgen Mossack (Gary Oldman), espécie de conselheiros financeiros na fundação destas empresas fundadas em paraísos fiscais sobre um bocado de más intenções. Sempre dispostos a tecer comentários irônicos sobre o que está acontecendo na tela,  os dois costuram as histórias de um grupo de personagens que aparentemente não possuem ligação entre si. Entre os vários personagens está Ellen Martin (Meryl Streep), uma mulher capaz de  perceber que existe algo de errado quando ela e o esposo (James Cromwell) são vítimas de um acidente de barco e o recebimento do seguro está sempre nebuloso num emaranhados de empresas que negociam entre si e dificultam cada vez mais sua vida. Ela acaba tropeçando em Malchus Boncamper (Jeffrey Wright) que engana até a esposa diante da vida dupla que leva e uma série de outras histórias que só ilustram como é fácil enrolar as pessoas quando se conhece os meandros mais obscuros das leis fiscais. Soderbergh constrói uma narrativa esperta calcada no livro de Jack Bernstein, mas que peca ao parecer uma cópia branda dos trabalhos de Adam McKay (A Grande Aposta/2015 e Vice/2018) o que deixa uma sensação estranha perante o roteiro cheio de digressões e desvios que  de vez em quando perde o fio da meada. Contando sua história por dentro do que viria a ser o escândalo do Panama Papers, o filme tem ironia de sobra e um elenco talentoso que consegue dar conta de um roteiro que poderia ser melhor lapidado, especialmente no desfecho (que deve provocar algumas risadas especialmente no Brasil) e seu ponto final que destrói de vez a ilusão de estarmos diante de um filme realista com Banderas e Oldman (é impressionante a química dos dois, uma verdadeira surpresa!) caminhando pelo estúdio em meio a refletores e câmeras, além de Meryl Streep tirando a maquiagem para discursar sobre a ilusão democrática que vivemos. A Lavanderia é um pouco de tudo e, por isso mesmo é tão interessante quanto disperso em alguns momentos. 

A Lavanderia (The Laundromat/EUA-2019) de Steve Soderbergh com Meryl Streep, Gary Oldman, Antonio Banderas, James Cromwell, David Schwimmer, Jeffrey Wright, Robert Patrick, Matthias Schoenaerts e Sharon Stone. ☻☻☻

sábado, 19 de outubro de 2019

KLÁSSIQO: Vergonha

Liv e Max: o casamento em  tempos de guerra. 

Ao longo da carreira o sueco Ingmar Bergman dirigiu cerca de 70 produções divididas entre cinema e televisão. Trabalhando entre os anos de 1946 e 2008, seu cinema atravessou décadas sem maiores problemas, uma vez que Bergman sempre foi moderno na abordagem de suas histórias que sempre deixavam o foco no ser humano e suas emoções. O aspecto psicológico de seus personagens é sempre importante no desenvolvimento de suas narrativas, e, por este motivo, encarar um dos seus filmes é sempre uma tarefa um tanto árdua pelas emoções que desperta no espectador. Vergonha (1968) é um filme do qual se houve falar pouco, lançado depois de Persona (1966) e antes de Gritos e Sussurros (1972), o filme conta a história de um casal que escolheu viver afastado em uma ilha. Os dois mantém uma rotina bastante bucólica e partem para a cidade somente para vender o que produzem e comprar o que não conseguem fazer por conta própria. No entanto, este isolamento não impede que os dois saibam que a guerra permanece ao redor deles e, aos poucos, se aproxima impiedosamente. Não demora para que o que parecia ser um paraíso seja invadido e coloque não apenas o casamento, mas a vida de ambos em risco. Bergman nunca foi muito chegado a abordar questões políticas em seus filmes, mas neste aqui ele arranha um pouco esta temática apresentando o poder devastador da guerra, não apenas no espaço físico, mas também no interior dos seus personagens. Neste aspecto, as oscilações no ritmo da história é primordial para que o espectador sinta as transformações que acontecem na história. A tranquilidade é invadida por explosões, violência e morte, mas, ainda assim é notável como tudo isso serve para que algumas rachaduras no relacionamento entre Jan (Max von Sydow) e Eva (Liv Ullman) recebam cada vez mais densidade. O que eram detalhes que poderiam ser contornados se tornam cada vez mais incômodos obstáculos para que os dois permaneçam juntos. As inseguranças dele, a ausência de filhos, o fantasma da traição sobre ambos, são elementos que aos poucos Bergman utiliza para aprofundar o abismo entre os dois, provocando uma dinâmica de atração e repulsa na segunda metade do filme. Acho que não precisa dizer que Max e Liv estão ótimos nos conflitos dos seus personagens. No entanto, foi o trabalho de Max von Sydow que mais de chamou atenção, o ator confere um certo charme sensível para Jan, que aos poucos se esvai e o leva a ter atitudes impensáveis para o personagem que conhecemos no início da história. Pelos seus méritos, que impressionam até hoje, Vergonha foi indicado ao Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro. 

Vergonha (Skammen / Suécia - 1968) de Ingmar Bergman com Liv Ullman, Max Von Sydow, Sigge Fürst e Ulf Johansson. ☻☻☻☻

Pódio: Patrick Wilson

Bronze: O Herói Aposentado
O elenco deste filme é um grande acerto e Patrick Wilson aparece como o super-herói Coruja, que em sua trajetória viu tantas atrocidades (e amigos enlouquecerem) que preferiu se aposentar e ganhar uns quilinhos. Quem lhe devolve um pouco da aura de herói em estado puro é o interesse amoroso por Spectral (Malin Akerman). Revestindo o clássico personagem de grande humanidade, Patrick está excepcional! Sempre digo que a adaptação de Zach Snyder para a saga de Alan Moore e Dave Gibbons é um dos filmes mais injustiçados de todos os tempos! 

Prata: mormon em crise
2º Angels in America (2003)
Nem me atrevo a dizer que a antológica minissérie da HBO não é cinema! Dirigida por Mike Nichols, esta premiada adaptação da peça de Tony Kushner é um filme de quase seis horas de duração! A trama sobre o surgimento da AIDS nos anos 1980 e seu impacto na sociedade americana é um verdadeiro marco! O ator vive o certinho Joe Pitt, que começa a repensar sua vida perante tudo o que acontece ao seu redor. Nascido no estado da Virginia, Patrick Wilson tinha trinta anos e só um filme no currículo quando foi escolhido para o papel que lhe rendeu indicação ao Globo de Ouro e ao Emmy de ator coadjuvante.  

Ouro: o marido adúltero
Bem que o ator merecia uma indicação ao Oscar por seu trabalho neste drama de Todd Field baseado na obra de Tom Perrotta. Com a maior pinta de galã, Patrick insere tantas camadas no seu personagem que fica impossível não torcer por esta história de adultério contada com bastante particularidade no subúrbio americano. Ele vive Brad, homem casado com uma bela documentarista e pai de um menino esperto, mas que não faz a mínima ideia do que fazer da vida de agora em diante. Reza a lenda que a escalação dele foi uma indicação de Kate Winslet, que interpreta sua amante em atuação impecável (indicada ao Oscar).