segunda-feira, 18 de junho de 2018

PL►Y: Ingrid Vai Para o Oeste

Olsen e Plaza: a vida é uma selfie. 

Indicado aos prêmios de melhor filme de estreia e melhor roteiro no Independent Spirit deste ano, Ingrid Vai Para o Oeste é uma grande surpresa. Primeiro por falar de assuntos sérios quando se faz de comediota. Outro fator surpresa é a atuação de Aubrey Plaza, que comprova ter cansado de fazer sempre a mesma personagem entediada em comédias americanas. Aqui, parece que o diretor Matt Spicer se apropria do histórico da atriz para dar-lhe uma personagem bem mais complexa e, o melhor, Aubrey cumpre a tarefa com louvor! Aubrey interpreta a personagem do título, uma mulher completamente dependente do celular, não... ela é completamente dependente das redes sociais mesmo. Por conta disso ela acabou tendo problemas com a justiça, sendo internada numa instituição psiquiátrica e recebendo uma ordem de restrição com relação a uma garota a qual era seguidora. Ingrid não tem emprego (e nem precisa, já que com a morte de sua mãe ela recebeu uma boa indenização), não tem namorado e não tem uma vida fora das redes. Quando ela recebe alta da tal instituição ela fica numa espécie de limbo, até encontrar outra garota badalada para seguir. A nova eleita ela conhece numa revista e se chama Taylor Sloane (Elizabeth Olsen em um papel bem mais leve que de costume), fotógrafa, moradora da Califórnia e que se tornou especialista em transparecer uma vida de sonho nas fotos que na internet. Tudo que Taylor faz é super descolado! Tudo que ela frequenta é o melhor! O melhor restaurante! A melhor loja! A melhor livraria! O melhor pet! O melhor!  Não demora para Ingrid ir morar na Califórnia e seguir os passos de seu novo modelo de comportamento e até criar uma situação para se aproximar de Taylor e o namorado, o artista Ezra (Wyatt Russell). São nestes momentos que percebemos que Ingrid não é uma garota má, mas tem uma mente distorcida ao ponto de não perceber o quanto a amizade está bem longe de ser o que acontece entre ela e o casal. Ela faz de tudo para agradar os dois e, quanto mais se aproxima, mais se torna perigosa a relação que se estabelece. Neste ponto dois personagens ganham espaço na trama, um é o senhorio de Ingrid, Dan (o bom O'Shea Jackson Jr. que torna a e a obsessão pelos filmes do Batman um dos pontos mais divertidos do filme) e o insuportável irmão de Taylor, Nicky (Billy Magnussen (que ainda é meu ator favorito para viver Adam Warlock nos filmes da Marvel), que serão importantes numa mudança brusca na vida de Ingrid. No roteiro esperto (premiado em Sundance), a protagonista irá aprender da pior forma que a vida apresentada nas redes sociais está bem longe de ser a real - assim como as versões que as pessoas apresentam ali são bem diferente da realidade. Equilibrando drama e comédia, Ingrid vai para o Oeste radicaliza no desfecho a ambivalência das redes sociais, que pode render leituras bem diferentes aos mais céticos e aos otimistas, mas que traz uma satisfação catártica à protagonista. Ingrid Vai Para o Oeste faz rir, mas também assusta ao nos fazer lembrar como algumas pessoas se tornam cada vez mais dependentes da popularidade virtual - mas é a atuação de Aubrey Plaza que revela o quanto pode haver de solidão em cada foto postada ou curtida. 

Ingrid Vai Para o Oeste (Ingrid Goes West/EUA-2017) de Matt Spicer com Aubrey Plaza, Elizabeth Olsen, Wyatt Russell, O'Shea Jackson Jr., Billy Magnussen e Pom Klementieff. ☻☻☻☻

domingo, 17 de junho de 2018

CICLO DIVERSIDADESXL: Heartstone

Baldur e Blaer: amizade sob ameaça. 

Li várias críticas positivas destinadas a este filme islandês, mas, ainda assim, fui assistir com um pouco de desconfiança. Sorte que ela logo se dissipou diante da bela construção realizada pelo diretor e os atores, com ajuda de bucólicas locações emolduradas por uma bela fotografia. Talvez Heartstone pudesse ser um pouco mais curto, mas ainda consegue ser uma história envolvente sobre dois amigos que começam a ter suas primeiras aventuras amorosas - e tudo se complica quando um deles se descobre apaixonado pelo outro. O filme lida de forma bastante delicada e respeitosa com a situação, obtendo um resultado bastante sincero sobre a amizade dos dois meninos. Thor (Baldur Einarsson) é o melhor amigo de Kristján (Blaer Hinriksson), os dois vivem num vilarejo perto da gélida costa da Islândia e não há muita coisa o que se fazer por lá além de passar o tempo brincando com outras pessoas de sua idade ou arrumando encrenca com quem não pertence à mesma turma. De vez em quando os dois flertam com duas garotas da vizinhança e aprendem a lidar com os primeiros jogos de sedução de forma muito mais desastrada do que propriamente sensual. São em algumas brincadeiras que Thor começa a desconfiar que Kristján sente algo mais do que amizade. Seja por conta de um comentário, um toque ou um olhar, talvez o próprio lourinho esteja perdido entre os sentimentos que nutre pelo amigo. Também não ajuda muito o fato de recentemente um homem da vizinhança ter sido alvo de agressões pelo fato de ser homossexual - o que passa a povoar a mente dos moradores como um verdadeiro fantasma. Os adultos da região também não ajudam muito, são carrancudos e não costuma conversar muito com os filhos que estão com os hormônios a flor da pele, a própria mãe de Thor não parece entender  que o filho está crescendo - e as irmãs costumam implicar com ele o tempo todo. Com tantas relações ásperas, fica fácil entender as emoções de Kristján - que podem gerar decisões extremas. O filme constrói sua história vagarosamente, entre uma festinha aqui, uma briga ali, uma travessura, alguns desentendimentos, flertes entre meninos e meninas das redondezas, mas deixa Kristján cada vez mais desconfortável. Embora possa exagerar na melancolia, Heartstone é bonito de assistir, mescla as emoções de seus personagens às paisagens locais e funciona bem como um rito de passagem, um período de descoberta que pode mudar a forma como nos relacionamos com o mundo e como o próprio mundo se relaciona conosco. Ganhador de mais de trinta prêmios internacionais (incluindo no Festival de Veneza), Heartstone merece atenção pela sua sutileza. 

Heartstone (Hjartasteinn / Islândia - Dinamarca / 2016) de Guðmundur Arnar Guðmundsson com  Baldur Einarsson, Blær Hinriksson, Diljá Valsdóttir e Soren Mallig. ☻☻☻☻

sábado, 16 de junho de 2018

CICLO DIVERSIDADESXL: Meu Nome é Ray

Elle, Naomi e Susan: talentos desperdiçados. 

Elle Fanning completa vinte e um anos em 2019, mas já tem currículo de veterana. Com dezessete anos de carreira (sim, ela começou a atuar aos três anos de idade, fazendo a versão mais nova de sua irmã, Dakota, em Uma Lição de Amor/2001), ela já trabalhou com diretores renomados como Sofia Coppola, JJ Abrams, Nicolas Winding Refn e John Cameron Mitchell. Mantendo o ritmo de quatro filmes por ano, Elle é uma das atrizes mais requisitadas de Hollywood. Agora, imagine colocar a atriz no papel de um transexual, acompanhada de duas atrizes do cacife de Susan Sarandon e Naomi Watts e você terá um projeto bastante promissor. Enquanto era filmado, Meu Nome é Ray era um dos filmes mais aguardados de 2015, todos estavam de olho no filme da inglesa Gaby Dellal, mas bastou o filme ser exibido para que todo mundo o esquecesse automaticamente. A decepção aconteceu quando perceberam que o protagonismo da história não é de Ray (Elle Fanning), mas de sua mãe, Maggie (Naomi Watts), que por conta dos procedimentos para a mudança de sexo da filha terá que passar a limpo alguns detalhes de seu passado. Maggie trabalha como ilustradora e ainda mora com a mãe, Dolly (Susan Sarandon), uma lésbica bem resolvida que mora há décadas com Frances (Linda Emond). Dolly ainda tem um pouco de dificuldade em lidar com as inseguranças da filha e também não entende muito bem a transexualidade de Ray, no entanto, as três personagens dividem várias cenas que geralmente descambam para um humor que nem sempre funciona. O maior problema da história é que nenhuma das personagens são bem desenvolvidas, sendo apenas esboços de pessoas que poderiam ser reais. O roteiro gasta tempo demais abordando a necessidade de fazer o pai de Ray assinar os papéis para ajustar o corpo feminino de Ray para sua mente de menino. Essa transição poderia ser o grande trunfo do filme, mas o roteiro da diretora e da parceira Nikole Beckwith encontram uma grande dificuldade em tornar Ray em um personagem interessante. Para trabalhar a identidade do personagem o filme opta por registros documentais da vida do personagem, que servem apenas para torná-lo ainda mais distante do andamento da trama. A abordagem da transexualidade aparece sempre superficialmente, usando meia-dúzia de frases manjadas e abudando do número de vezes com que os personagens ficam se corrigindo em torno do gênero de Ray. Elle Fanning se esforça em cena, torna a voz mais grave, tem um trabalho gestual para se tornar mais masculina e fica mal humorada o filme quase inteiro... mas a garota não consegue fazer milagre com um roteiro tão simplista. Ray poderia tornar o filme uma obra muito mais interessante,  mas o roteiro prefere dar mais atenção às trapalhadas amorosas de sua mãe. Meu Nome é Ray perde a oportunidade de trabalhar um tema bastante atual com um ótimo elenco feminino, alcançando um resultado apenas mediano. 

Meu Nome é Ray (3 Generations / EUA - 2015) de Gaby Dellal, com Naomi Watts, Elle Fanning, Susan Sarandon, Linda Emond, Tate Donovan e Sam Trammell. ☻☻

sexta-feira, 15 de junho de 2018

CICLO DIVERSIDADESXL: Jonathan

Pai e filho: catarse sempre adiada. 

Jonathan (Jannis Niewöhner) passou os últimos anos se dividindo entre o trabalho na fazenda da família e os cuidados com o pai, que atravessa estado avançado de um câncer de pele que já se espalha pelo cérebro. Por conta do avanço da doença, Burghardt (André Hennicke) não vê muito sentido em continuar vivo e o fato dele não manter um bom relacionamento com a irmã (Barbara Auer) piora ainda mais seus dias. Burghardt também se incomoda quando o filho lhe pergunta sobre o acidente que levou a sua esposa á morte, na verdade, sempre que aparece alguma questão relacionada ao passado da família, o patriarca se esquiva de qualquer explicação ou resposta elaborada. Pelo menos, diante da situação, a chegada de uma enfermeira (Julia Koschitz) para ajudar a cuidar do enfermo, trará um pouco mais de alegria para Jonathan, que irá aos poucos se aproximar dela e viver um tórrido romance. Metade da duração do filme é sobre o jovem personagem tentando lidar com o peso das responsabilidades que a vida lhe reservou tão cedo, além da inquietação sobre as histórias que sua família evita lhe contar, em sua outra metade, o filme revela o que havia de tão secreto na história de Burghardt, principalmente com a presença cada vez maior de Ron (Thomas Sarbacher), um velho amigo de Burghardt que aparece após muito tempo para ficar ao lado do amigo que está definhando dia após dia. A presença de Ron incomoda alguns personagens, mas deixa Burghaudt mais animado, ao ponto de se tornar insustentáveis as histórias que sempre contou para o filho  - que não irá demorar para perceber que existe algo mais entre o pai e o amigo cada vez mais carinhoso. Jonathan é um filme a que se assiste sem dificuldade e consegue misturar melodrama e erotismo com uma desenvoltura invejável, porém, tem uma dificuldade enorme para lidar com os segredos que habitam a família de Jonathan. O filme demora muito para abordar o impacto da verdade naquele universo e, quando o faz, se apressa para lidar com os dilemas dos personagens. O filme tenta não representar Burghaudt como um vilão, mas patina quando tem que abordar as escolhas diante da atração que os dois amigos sentiam um pelo outro, a responsabilidade com o casamento e a paternidade, assim como a decisão de silenciar seus sentimentos por tanto tempo. Embora tenha um material rico em mãos, além de um elenco bastante dedicado, o diretor Piotr J. Lewandowski também se esquiva da história em torno da família de Jonathan. Assim, o filme toca em algumas questões apenas superficialmente (preconceito, mentiras, segredos, vergonha, culpa...) e adia a catarse de Burghaudt até o último momento. O desenvolvimento deste drama familiar poderia ser ainda mais intenso e interessante, mas prefere não tornar ainda mais densa a relação entre seus personagens. 

Jonathan (Alemanha-2016) de Piotr J. Lewandowski com Jannis Niewöhner, André Hennicke, Julia Koschitz, Barbara Auer e Max Mauff. ☻☻☻

quinta-feira, 14 de junho de 2018

CICLO DIVERSIDADESXL: O Monstro no Armário

Jessup: drama adolescente e surrealismo. 

Premiado em vários festivais de cinema (inclusive o prestigiado Festival de Toronto), O Monstro do Armário é um filme que explora a sexualidade de seu personagem de uma forma diferente. Não satisfeito em abordar um adolescente que começa a entender um pouco mais sobre seus próprios desejos, o filme de estreia do canadense Stephen Dunn utiliza toques surreais para aprofundar um trauma de seu protagonista. O resultado consegue ser bastante curioso. Quando ainda era pequeno e voltava para casa, Oscar presencia um ato de violência que ganhou os noticiários locais. Se tratava de um menino que saia da escola e foi violentado. Ao chegar em casa o pequeno Oscar comentou com o pai sobre o que viu e, lhe foi explicado que a "justificativa" para o ato hediondo era de que a vítima era homossexual. O pai não faz ideia do efeito daquela explicação na mente do menino, que na adolescência começará a sentir dores físicas, náuseas e alucinações, sempre que algum rapaz despertar seu interesse. Embora Oscar tenha uma grande amiga, Gemma (Sofia Banzhaf) seu interesse por ela é completamente diferente do que sente pelo colega de trabalho, Wilder (Aliocha Schneider) e... você pode imaginar o que acontece. Connor Jessup (que ficou conhecido por seus trabalhos nas séries American Crime e Falling Skies) tem um trabalho convincente na pele de Oscar, explorando o mal estar do personagem diante de um desejo proibido e encontrando um equilíbrio complicado entre o rapaz comum que, em alguns momentos parece estar enlouquecendo (ou você acha normal um adolescente ouvir a voz de um hamster e ter alucinações com um vergalhão?). Dunn utiliza vários elementos típicos da adolescência no filme: trabalho, escola, medos, festas, inseguranças e planos para o futuro se misturam no roteiro que ganha uma forma colorida e ágil nas mãos do diretor. A trilha sonora espera também ajuda a manter o filme num ritmo fluente, sem perder de vista os momentos mais tensos do roteiro. Boa parte da tensão do filme acontece em torno do relacionamento de Oscar com o pai (Aaron Abrams), um sujeito afetuoso, mas também agressivo e complicado de lidar. Os dois parecem ter um relacionamento, mas que está sempre por um fio a desmoronar.  Por utilizar elementos surreais e destacar a relação entre pai e filho, O Monstro do Armário demonstra um diferencial diante dos outros filmes sobre adolescentes que lidam com a sexualidade, especialmente quando explora o tom de horror que a homossexualidade pode receber em ambientes preconceituosos e intolerantes. 

O Monstro do Armário (Closet Monster/Canadá - 2015) com Connor Jessup, Aaron Abrams, Aliocha Schneider, Sofia Banzhaf, Joanne Kelly e Isabella Rossellini. ☻☻☻

quarta-feira, 13 de junho de 2018

CICLO DIVERSIDADESXL: Pariah

Kim e Adepero: mãe e filha no filme de estreia de Dee Rees. 

Alike (Adepero Oduye), ou apenas Li, é uma adolescente de dezessete anos que tem cada vez mais certeza do seu interesse por outras garotas e, por ser adolescente, ela parece ainda mais sensível ao mundo que a cerca. Está atenta às conversas das garotas nos corredores da escola, engana os pais para frequentar uma boate mal falada que abriu nas redondezas e tem uma fiel escudeira, Laura (Pernel Walker), que é considerada uma péssima influência por sua mãe atenciosa, Audrey (Kim Wayans). Embora o filme destaque a sexualidade da personagem, Li é apresentada como uma adolescente igual a muitas outras. Cheia de inseguranças, seja com a aparência ou com os caminhos que seu coração teima em seguir, ela aprendeu rápido em como deve se vestir e se comportar de acordo com o olhar de quem está por perto, mas, ainda assim, o difícil mesmo é lidar com o crivo constante da mãe, que atenta às mudanças no comportamento da filha, insiste para que Li mude de amizades e se aproxime da filha de uma colega de trabalho, Bina (Aasha Davis). Alike gosta de escrever poesia, aprecia  músicas diferentes do que toca nas rádios e parece um tanto deslocada mesmo quando está no meio de pessoas que, supostamente, compartilham com ela a mesma identidade sexual. Quanto mais a câmera segue Li, solta aos olhos o que há de mais interessante neste belo filme de estreia da cineasta Dee Rees: o carinho com que ela observa os personagens. Rees é tão zelosa com seus personagens que não tem receio de dividir o protagonismo da história entre mãe e filha, mostrando o quanto o mundo também pode ser áspero para as duas, independente da identidade sexual. Afinal, Audrey casou com o homem de sua vida, teve duas filhas, trabalha, cuida da casa, frequenta a igreja e pensa estar fazendo o certo enquanto o marido está cada vez mais distante - tanto que até uma conversa sobre a noite de formatura logo se torna fumaça quando a família está reunida no jantar. A novata Adepero Oduye (que foi indicada ao Independent Spirit Awards pelo seu desempenho) está ótima em cena, nunca limitando a personagem à sua sexualidade. Da mesma forma, Kim Wayans está surpreendente como Audrey e suas insatisfações. Todo momento em que as duas dividem a cena é de uma sintonia que pode ser tão bela quanto dolorosa, permitindo algumas leituras bastante ricas nas entrelinhas do relacionamento entre mãe e filha. Além de abordar a descoberta da sexualidade na adolescência, o filme lida com temas como preconceito, família, religião, segregação e identidade com bastante sensibilidade. Dee Rees já demonstra a mesma firmeza que apresentou no recente Mudbound (2017), que a consolidou como uma das cineastas que mais merecem atenção na atualidade. Além dos méritos no trabalho com os atores e construção da narrativa, Pariah também possui elementos autobiográficos, o que contribuiu bastante na construção da atmosfera emocional que o filme carrega.

Pariah (EUA-2011) de Dee Rees com Adepero Oduye, Kim Wayans, Pernel Walker, Aasha Davis e Charles Parnell. ☻☻☻☻

terça-feira, 12 de junho de 2018

CICLO DIVERSIDADESXL: Rift

Einar e Gunnar: reencontros em ritmo de terror. 

Não é comum vermos filmes de terror protagonizados por personagens gays, talvez por medo de serem classificados como homofóbicos exista o receio de investir nesta ideia. Como também não é comum termos filmes islandeses passando por aqui, Rift se torna uma dupla surpresa. O filme conta a história do estranho reencontro entre Gunnar (Björn Stefánsson) e Einar (Sigurður Þór Óskarsson). Os dois terminaram o relacionamento há algum tempo e Gunnar segue sua vida com um novo parceiro na capital Reykjavik). Em uma noite, Gunnar recebe a ligação de Einar e entende que é um pedido de ajuda. Ele vai ao seu encontro numa casa afastada mantida pelos pais do ex-parceiro e, ciente de seus problemas emocionais, tenta convencer o rapaz a voltar para a cidade. No entanto, até convencê-lo algo mais do que ressentimentos começam a vir à tona. Partindo desta ideia simples, o roteiro e a direção de Erlingur Thorodsen conseguem materializar de forma contundente temas bastante abstratos como medo, solidão, isolamento e até o passado dos seus personagens. É curioso como a distância da cidade transmite uma ideia de liberdade, para aos poucos se tornar em algo assustador, já que os dois sempre tem a sensação de que estão sendo observados. Escutam passos fora da casa, sombras nas janelas e a porta, que sempre teima a ficar aberta, se torna um problema ainda maior - também não ajuda o fato de Einar sofrer de sonambulismo. Com ajuda das belas paisagens de seu país, o filme se desenvolve de forma lenta e angustiante, sempre embalando as cenas com alguns detalhes sobre seus personagens, que oferece a tudo que há de estranho no filme um sentido ainda mais amplo (amigos imaginários, pessoas à beira da estrada, aplicativos de encontros, vizinhos estranhos, o fetiche de Gunnar pelo perigo....) O resultado é parecido com assistir duas pessoas discutindo a relação num filme de serial-killer (só quem sem serial-killer). Com atmosfera de suspense bem construída e envolvente,  Rift entra no grupo de filmes seletos que criam suspense com base nas neuras de um relacionamento e surpreender por escolher caminhos nada óbvios em seu desenvolvimento, deixando várias indagações para o espectador após o fim da sessão. 

Rift (Rökkur / Islândia - 2017) de Erlingur Thorodsen com Björn Stefánsson, Sigurður Þór Óskarsson e Guðmundur Ólafsson. ☻☻☻☻

segunda-feira, 11 de junho de 2018

CICLO DIVERSIDADESXL: O Centro do Meu Mundo

Svenja, Jannik e Louis: relacionamentos em conflito.

Phil (Louis Hoffman) é um adolescente que acaba de voltar das férias para a casa onde mora com a mãe (Sabine Timoteo) e a irmã gêmea, Dianne (Ada Philline). No caminho, ele fica impressionado com a destruição provocada por uma tempestade - que afetou até o jardim de sua casa que foi destruído. Esta sensação de que algo que lhe era tão familiar já não é mais também aparece quando ele percebe que as duas mulheres da casa não estão se falando muito bem. Dianne anda cada vez mais distante e cabe a ele apenas especular o que está acontecendo. Devido ao distanciamento com a irmã, a melhor amiga Kat (Svenja Jung) ganha mais importância em sua rotina, seja na hora de fazer companhia nas tardes depois da aula ou na hora de trocar confidências. É Kat que comenta com o amigo sobre o menino novo da escola que todo mundo parece estar interessado. Trata-se de Nicholas (Jannik Schumann), que não vai demorar para se tornar mais próximo do tímido Phil e os dois terão um romance. O diretor Jakob M. Erwa consegue criar uma versão bastante simpática do livro de Andreas Steinhöfel, fazendo de O Centro do Meu Mundo um filme colorido, com boa trilha sonora e uma edição esperta que consegue ilustrar bem o que se passa na cabeça do protagonista e ganha pontos por não fazer da sexualidade de Phil o único assunto do filme. Diante dos vários flashbacks percebemos que existem alguns problemas familiares que nunca foram bem resolvidos dentro da casa, a começar pela total ausência de informação sobre quem é o pai dos gêmeos, some isso aos vários namorados da mãe e um aborto mal explicado e você terá uma ideia do que passa na cabeça do rapaz. Por outro lado, o filme vive num verdadeiro dilema entre o real e o idílico. Se por um lado todo mundo aceita bem a sexualidade de Phil (com exceção dos pais de Nicholas que nem aparecem no filme e os mocinhos não tem problemas em manter relações sexuais onde tem vontade, seja no vestiário, na casa de amigas, num quartinho...), do outro lado, o filme quer demonstrar que mesmo sem enfrentar preconceitos, o relacionamento dos rapazes também possui problemas causados pela personalidade de ambos. Se Phil é todo romântico e mergulha na relação de peito aberto, Nicholas é mais reservado e racional, o que causa estranhamento e insegurança no parceiro, no entanto, parte do público vai estranhar quando o romance entre os dois vai perdendo espaço na trama. É um filme que que se não fosse por uma e outra cena mais ousada poderia ser apreciado pelo mesmo público que curtiu Com Amor, Simon (2018) nas salas brasileiras. Para além da linguagem pop do filme, ele também funciona por conta de Louis Hofmann, bom ator juvenil que pode ser visto no indicado ao Oscar Terra de Minas (2016) e na série alemã Dark (e quando estreia a segunda temporada, Netflix?). Hofmann é craque em transpirar vulnerabilidade com seu olhar tão esperançoso quanto triste e na pele de Phil, fica fácil simpatizar com seus dilemas. Atuando desde os 13 anos, o rapaz já completou a maior idade e está partindo para Hollywood, onde já fez uma pequena participação em Operação Red Sparrow (2018) e está no novo filme dirigido por Ralph Fiennes, The White Crow. Com vários prêmios em sua terra natal, o rapaz tem tudo para se tornar um astro internacional nos próximos anos.

O Centro do Meu Mundo (Die Mitte Der Welt / Alemanha - Áustria / 2016) de Jacob M. Erwa com Louiz Hofmann, Jannik Schumann, Svenja Jung, Sabine Timoteo, Ada Philine e Svenja Jung. ☻☻☻

domingo, 10 de junho de 2018

PL►Y: Adorável Professora

Michael e Julianne: sacudindo a rotina de uma pacata escola. 

Linda Sinclair (Julianne Moore) é uma professora de Literatura que criou uma rotina para a vida que a mantem dentro de uma segurança bastante cômoda e, se sua vida amorosa não é grande coisa, ela tem certeza que seus dias poderiam ser bem piores se houvesse mantido um relacionamento duradouro com alguns dos pretendentes que cruzaram o seu caminho. Ainda que sua vida esteja longe de ser uma grande aventura, pode se dizer que Linda conseguiu construir uma vida independente, onde não depende de namorados ou maridos para coisa alguma. Nos primeiros minutos, com a ajuda da narradora, não fica difícil perceber que a vida da senhorita Sinclair é quase sem graça e, bastaria uma pequena oportunidade para mudar esta rotina para que ela investisse sem pensar duas vezes. Este investimento virá quando ela reencontrar um ex-aluno, Jason Sherwood (Michael Angarano), que está em crise após um tempo vivendo em Nova York, onde tentou se firmar como dramaturgo. O pai de Jason (Greg Kinnear) já se convenceu de que a carreira de escritor é ingrata demais para o filho e espera convencer o rapaz de que é mais seguro investir na carreira de advogado. Convencer Jason de que vale a pensa lutar pelo seu sonho se torna uma questão de honra para Linda, tanto que ao ler uma peça do ex-aluno, A Crisálida, Linda convence  a direção da escola a fazer uma montagem, onde ela mesma irá arcar com as despesas extras - e nem se importa se a peça está bem longe de ser o tipo de história a ser encenado numa escola de Ensino Médio. Experiente, Linda nem imagina como a presença de Jason colocará sua reputação em risco. O roteiro de Dan e Stacy Chariton não tem nada de muito inventivo, mas faz graça ao brincar com alguns arquétipos do cinema americano, seja a professora boazinha que ao mínimo deslize é julgada por todos, o ex-aluno que insiste em não crescer, o pai incompreensivo que está longe de ser o vilão da história, os alunos com alma de artista, mas insensíveis com quem está ao seu redor... ninguém é muito confiável na história. Embora renda uma chacoalhada na rotina dos personagens, Adorável Professora sempre se mantém numa confortável zona de segurança, mas ainda assim o filme funciona. Um dos maiores atrativos para ver o filme é Julianne Moore em um papel cômico que ela consegue dar oferecer mais nuances do que o roteiro pede, tornando Linda Sinclair uma personagem interessante, tão imperfeita quanto fácil de gostar. Com elenco simpático e desenvolvimento agradável, o filme lembra algumas produções inofensivas dos anos 1980 e se torna um passatempo divertido que pode ser uma grata surpresa para quem for pego desprevenido. 

Adorável Professora (The English Teacher/EUA-2013) de Craig Zisk com Julianne Moore, Michael Angarano, Nathan Lane, Lily Collins e Charlie Saxton. ☻☻☻