sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Na Tela: Nasce uma Estrela

Bradley e Lady: nasce um cineasta. 

Bradley Cooper era visto com desconfiança por muita gente até conseguir a proeza de ser indicado ao Oscar por três anos seguidos. Com os elogios recebidos por O Lado Bom da Vida (2012), Trapaça (2013)  e Sniper Americano (2014), Bradley deixou de ser apenas um cobiçado galã para ser reconhecido como um ator versátil. Nos últimos anos ele não apareceu muito na telona (embora sua voz continuasse presente na voz do guaxinim mais descolado do universo, o Rocket de  Guardiões da Galáxia) por conta do preparo de sua estreia como cineasta. Quando eu descobri que ele faria uma nova versão de Nasce uma Estrela eu só me perguntei se ele tinha enlouquecido. Nasce uma Estrela estreou no cinema em preto e branco no ano de 1937 com Janet Gaynor na pele de uma jovem que se apaixona por um cantor decadente - enquanto ela se torna mais famosa. Depois foi a vez de Judy Garland fazer o mesmo em 1954 e a versão mais famosa do filme deve ser a de 1976, onde Barbra Streisand obteve um de seus melhores momentos na telona - e ainda levou para casa o Oscar de melhor canção pela belíssima Evergreen. Será que o mundo merecia mais uma versão desta história? Cooper não apenas considerava que merecia, como achava que com Lady Gaga seria muito melhor. Gaga ficou famosa como a cantora de roupas insanas e música pop cheia de arranjos eletrônicos, mas no meio do caminho ganhou um controverso Globo de Ouro por seu trabalho na série American Horror Story: Hotel (2010) - e ao julgar pelo entusiasmo da crítica, parece que ela terá outro em breve. Tão logo o filme foi exibido, os críticos caíram de amores pela nova versão, especialmente pela habilidade com que Bradley Cooper conduz as cenas. Nas cenas de palco temos a sensação de estar vendo de fato um filme sobre a turnê de um artista, com uma energia impressionante sobre o palco. Por outro lado, quando vemos as cenas do relacionamento entre os protagonistas, o sabor é de uma crônica amarga sobre o estrelato. Gaga interpreta Ally, jovem que tem uma voz poderosa e gosta de compor, mas que não considera que seu talento compense a aparência. Além de dirigir, Cooper atua como Jack, o cantor decadente que bebe mais do que devia, mas que percebe em Ally a chance de ter novo fôlego em sua carreira e vida pessoal. Embora a trama seja a mesma das outras versões, Cooper consegue dar novas camadas ao seu personagem ao ponto de roubar a cena com um trabalho realmente impressionante, do olhar, passando pelo sotaque (que parece inspirado em Jeff Bridges) e a postura no palco, o ator simplesmente desaparece no personagem. Já Lady Gaga está... bem, mas ajudaria bastante se a overdose de botox não atrapalhasse suas expressões faciais. Sorte que a química entre os dois funciona bem e a montagem bastante dinâmica ajuda bastante neste dramático musical. Não lembro do final das outras versões haver um tratamento tão obscuro, mas o fato é que em Nasce uma Estrela, nasceu um bom diretor que não tem medo de desafios.

Nasce Uma Estrela (A Star is Born / EUA - 2018) de Bradley Cooper com Lady Gaga, Bradley Cooper, Sam Elliot e Rafi Gavron. ☻☻☻☻

Indicados Inependent Spirit Awards - 2019


Os cinco indicados a melhor filme: celebração indie. 

Com a temporada dourada se aproximando, o Independent Spirit Awards já apontou os seus favoritos do ano que vai chegando ao fim. Embora deixe de fora os filmes de grandes estúdios e celebre filmes de pequeno orçamento, a premiação já teve muita coincidência com o Oscar e o Globo de Ouro ao longo do tempo. Realizado desde 1984, muitos diretores aclamados no prêmio indie já foram posteriormente reconhecidos pela Academia de Hollywood - entre eles estão os Irmãos Coen, Quentin Tarantino, Christopher Nolan, Alexander Payne e a lista segue. Neste ano alguns concorrentes já foram exibidos no Brasil e a grane maioria nem tem previsão de estreia, mas  isso não diminui as chances deles aparecerem no Oscar. A surpresa da vez foi We The Animals, que foi o mais indicado ao ser lembrado em cinco categorias (incluindo melhor filme de estreia), também não posso esquecer do brasileiro Sócrates (inédito por aqui) que concorre em três categorias, incluindo melhor ator para o paulista Christian Malheiros. A lista dos indicados está logo abaixo - lembrando que os premiados do Film Independent Spirit Awards 2019 serão anunciados no próximo dia 23 de fevereiro de 2019. 

MELHOR FILME
First Reformed
Se a Rua Beale Falasse
Leave No Trace

MELHOR FILME DE ESTREIA
Sorry to Bother You
We the Animals
Vida Selvagem

PRÊMIO JOHN CASSAVETES 
(ao melhor filme produzido por menos de US$ 500.000)
A Bread Factory
En el Séptimo Día
Never Goin’ Back
Sócrates
Thunder Road

MELHOR DIRETOR
Debra Granik | Leave No Trace
Barry Jenkins | Se a Rua Beale Falasse
Paul Schrader | First Reformed

MELHOR ROTEIRO
Collette | Richard Glatzer, Rebecca Lenkiewicz & Wash Westmoreland
Você Pode Me Perdoar? | Nicole Holofcener e Jeff Whitty
Sorry to Bother You | Boots Riley
First Reformed | Paul Schrader

MELHOR ROTEIRO DE ESTREIA
Nancy | Christina Choe 
Blame | Quinn Shephard e Laurie Shephard

MELHOR FOTOGRAFIA
Madeline’s Madeline
Vida Selvagem
Mandy
Suspiria
We the Animals

MELHOR MONTAGEM
We the Animals
American Animals
Mid90s

MELHOR ATRIZ
Glenn Close | The Wife
Regina Hall | Support the Girls
Helena Howard | Madeline’s Madeline
Carey Mulligan | Vida Selvagem

MELHOR ATOR
John Cho | Buscando…
Daveed Diggs | Ponto Cego
Ethan Hawke | First Reformed
Christian Malheiros | Sócrates

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Tyne Daly | A Bread Factory
Regina King | Se a Rua Beale Falasse
Thomasin Harcourt McKenzie | Leave No Trace
J. Smith-Cameron | Nancy

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Raúl Castillo | We the Animals
Adam Driver | Infiltrado na Klan
Richard E. Grant | Você Pode Me Perdoar?
John David Washington | Monsters and Men

PRÊMIO ROBERT ALTMAN 
(Ao Diretor, diretor de elenco e elenco)
“Suspiria”  de Luca Guadagnino
Diretores de Elenco: Avy Kaufman, Stella Savino
Elenco: Malgosia Bela, Ingrid Caven, Lutz Ebersdorf, Elena Fokina, Mia Goth, Jessica Harper, Dakota Johnson, Gala Moody, Chloë Grace Moretz, Renée Soutendijk, Tilda Swinton, Sylvie Testud, Angela Winkler

MELHOR DOCUMENTÁRIO
Hale County This Morning, This Evening
Minding the Gap
Of Fathers and Sons
On Her Shoulders
Shirkers
Won’t You Be My Neighbor?

MELHOR FILME INTERNACIONAL
Em Chamas
A Favorita
Happy as Lazzaro
Italy
Roma
Negócio de Família

PRÊMIO BONNIE
Debra Granik
Tamara Jenkins
Karyn Kusama

PRÊMIO DE PRODUTORES
Jonathan Duffy and Kelly Williams
Gabrielle Nadig
Shrihari Sathe

PRÊMIO ALGUÉM PARA SE FICAR DE OLHO
Alex Moratto |Diretor de Sócrates
Ioana Uricaru | Diretora de Lemonade
Jeremiah Zagar | Diretor de We the Animals

PRÊMIO MAIS REAL QUE A FICÇÃO
Alexandria Bombach | Diretora de On Her Shoulders
Bing Liu | Diretor de Minding the Gap
RaMell Ross | Diretor de Hale County This Morning, This Evening

Na Tela: Bohemian Rhapsody

Lee, Malek e Joseph:  Queen em ação. 

Bohemian Rhapsody deve estar em alguma lista de filmes de produção mais complicada dos últimos anos. Ainda lembro quando o comediante Sacha Baron Cohen queria estrelar o filme sobre a vida de Freddie Mercury. Assim que começou a ser escrito os integrantes do Queen ficaram de cabelo em pé com a história que ele queria contar sobre o vocalista da banda. Como a ideia de ter um filme sobre um dos maiores ícones da história do rock era melhor do que a ideia de ter Sacha à frente do elenco, os produtores começaram a lapidar a ideia conforme os membros remanescentes da banda pediam. Eu já imaginava que o tom de biografia autorizada seria impresso e foi com estes olhos que fui assistir ao filme no feriado chuvoso de dois de novembro. Com a saída de Sacha Baron Cohen, quem assumiu o papel de Freddie foi Rami Malek, o interessante protagonista da série Mr. Robot e que depois de ganhar prêmios pelo seu trabalho na TV, recebe aqui a chance de aparecer nas premiações cinematográficas (pelo menos a indicação ao Globo de Ouro é tida como certa). Malek faz realmente um bom trabalho ao capturar o gestual, os olhares e trejeitos de Freddie, tentando se equilibrar entre as ambiguidades do personagem sem perder o coração. Vale registrar que embora aparecesse na mídia como o retrato de uma vida extravagante, Freddie era bem mais recluso do que se imagina. Não gostava de falar muito sobre a vida pessoal (provavelmente pelo conflito entre sua educação conservadora e a identidade sexual que construiu), o que dificultou ainda mais o trabalho de elaboração do roteiro. Não resta dúvida de que o ponto fraco do filme é do texto, que não traz novidades e constrói sua história de forma bastante convencional, demonstrando a origem da banda, o sucesso arrebatador e a crise que se instaura quando a personalidade de Freddie se torna mais egocêntrica. Quase não há aprofundamento dos personagens, sendo eles observados somente na superfície, especialmente pelo relacionamento que tinham dentro da banda. Das brigas sobre repertório, passando pela construção da sonoridade de cada álbum e de cultuados hits, o filme olha seus personagens com o carinho de um fã - e a caracterização do elenco ajuda bastante neste aspecto. Malek tira de letra a estranha dentadura que colocaram nele, sem ridicularizá-la e humanizando Freddie mesmo em seus momentos mais complicados. Gwilyn Lee está perfeito como o guitarrista Brian May, assim como Ben Hardy na pele do bateirista Roger Taylor. Joseph Mazello está bem como o discreto baixista Joe Deacon, mas eu curti mais rever o menino crescido de Jurassic Park (1993) do que apreciar a semelhança entre os dois. Outro destaque do elenco é Lucy Boynton, como o maior elo emocional de Freddie em todo o filme - o relacionamento entre os dois poderia ser um pouquinho mais elaborado, mas a química entre os dois funciona do mesmo jeito. Embora o filme trate a sexualidade de Freddie de forma discreta, houve polêmica nos cinemas brasileiros de alguns desavisados que ficaram indignados ao ver o retrato de um artista gay na tela grande, ainda bem que na sessão em que fui  plateia só dizia alguma coisa quando cantava baixinho as músicas da banda.  Bohemian Rhapsody pode não ser perfeito, mas foi realizado com esmero. A reconstituição de época, a maquiagem, figurinos e condução do elenco é  bastante dedicada. Além disso, a reconstituição da apresentação no Live Aid impressiona - o que é um ponto positivo, afinal, o festival abre e fecha o longa. Mesmo envolvendo sexo, drogas e o aparecimento da AIDS, a direção opta por uma leveza que por vezes destoa do que vemos na tela, talvez esta sensação tenha relação com a saída de Brian Singer (que assina a direção, embora tenha saído no meio da produção depois de uma briga feia com Rami) e a chegada de Dexter Fletcher (do divertido Voando Alto/2016). Por mais que o filme tenha esta costura invisível, a saída de um diretor e a entrada do outro costuma ser uma situação problemática para o resultado final (e Fletcher em breve lançará outra cinebio de um artista extravagante: Rocketman, sobre Elton John). Pode ser por evocar nossa nostalgia, mas eu sai satisfeito do cinema e emocionado em relembrar a trajetória de um dos cantores mais marcantes da história da música. 

Bohemian Rhapsody (Reino Unido - EUA / 2018) de Brian Singer com Rami Malek, Gwilyn Lee, Ben Hardy, Joseph Mazello, Lucy Boynton, Aidan Gillen, Allen Leech, Tom Hollander e Mike Myers. ☻☻☻

NªTV: Demolidor - 3ª Temporada

Bethel: novo Demolidor na área.

Infelizmente não pude postar por algumas semanas devido a compromissos para além da blogosfera. Faz um tempo que se tornou cada vez mais difícil encontrar espaço na agenda para ver filmes e escrever sobre eles aqui, mas nos últimos tempos se tornou ainda mais complicado, tanto que vi poucos filmes (e escreverei sobre os que assisti neste período por aqui em breve) e espero que as coisas se organizem de forma que possa aparecer por aqui mais vezes. No meio de tanta correria, acabei me rendendo a ver séries, afinal, elas exigem um tempo menor para assistir (geralmente antes de dormir  - não sei se já disse por aqui, mas não gosto de ver filmes em partes, considero que me faz perder o tom da narrativa como um  todo). Foi assim que assisti com grande satisfação a terceira temporada de Demolidor! Sei que a esta altura todo mundo deve ter exaltado as qualidades desta nova temporada que foi muito aguardada pelos fãs após termos que nos contentar com o encontro do herói de Hell Kitchen com seus colegas da parceria Marvel/Netflix em Defensores. Confesso que a segunda temporada do chifrudinho não me agradou muito, embora enriquecesse ainda mais o universo do herói com Elektra e o anti-herói Justiceiro (que ganhou uma série própria que ainda nem terminei de assisitir). Acho que estou ficando velho e considerei que havia informação demais para ser trabalhada. O fato é que no hiato entre as temporadas os boatos e as expectativas cresceram bastante e, o melhor: a série entregou a sua melhor temporada, superando até mesmo a primeira. Entre os trunfos estão o retorno do Rei do Crime (Vincent D'Onofrio que não entregava um trabalho tão impressionante desde Nascido para Matar/1987 do Kubrick) que desta vez constrói um plano que coloca o FBI aos seus pés - e abre caminho para um novo vilão bastante conhecido pelos fãs (defendido de forma impressionante por Wilson Bethel). A forma como a temporada apresenta e constrói este novo vilão é de se aplaudir (e embora tenha uma alteração aqui e outra ali, mostra-se bastante fiel aos quadrinhos).  Se Charlie Cox tem a dedicação de sempre numa fase complicada de seu protagonista, seus embates com Bethel se mostram igualmente impressionantes. A base desta temporada é a cultuada saga A Queda de Murdock, o que explica muita coisa do que se vê na telinha num roteiro bem amarrado que a cada episódio aprofunda personagens e os laços que se estabelecem entre eles. Embalado por cenas de luta impressionantes e uma precisão narrativa que aumenta a tensão gradativamente, a série termina elevando o padrão da parceria Marvel/Netflix a outro patamar. Depois das pouco empolgantes segundas temporadas de Jessica Jones, Luke Cage e Punho de Ferro (estas últimas canceladas recentemente), Demolidor ainda continua sendo o programa mais bem resolvido da Marvel no serviço de streaming.

Cox: momento de crise. 

Demolidor - 3ª Temporada (Daredevil - 3rd season / EUA-2018) de Drew Goddard com Charlie Fox, Vincent D'Onofrio, Deborah Ann Woll, Elden Henson e Wilson Bethel. ☻☻☻☻☻

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

4EVER: Stan Lee

28 de dezembro de 1922 ✰12 de novembro de 2018

Stanley Martin Lieber nasceu na cidade de Nova York em uma família de imigrantes judeus vindo da Romênia. Seu pai era alfaiate e a mãe era dona de casa. A família vivia em um apartamento humilde no Bronx. Desde que pequeno Stanley curtia escrever e começou a carreira com obituários em jornais da cidade. Foi por conta de um tio que Lee começou a trabalhar em uma editora de quadrinhos e aos  dezenove anos já era nomeado editor das revistas em quadrinhos. Sob o nome artístico de Stan Lee, foi responsável pela criação de vários super-heróis famosos da Marvel Comics, ganhando prestígio até se tornar presidente da editora. Dotado de um carisma inabalável (que ajudou muito no trabalho com geniais colaboradores), Lee se tornou uma referência no mundo dos quadrinhos e se tornou ainda mais conhecido pelas participações especiais nos filmes de suas criações. Poucos lembram, mas a primeira participação num filme aconteceu em 1989 com o telefilme O Julgamento do Incrível Hulk  - e esta tradição fará falta nos filmes com selo Marvel. Stan Lee faleceu por  complicações decorrentes de um acidente vascular cerebral. 

domingo, 21 de outubro de 2018

PL►Y: O Formidável

Garrell e Stacy: minha vida com Godard. 


Ao longo da história o francês Jean-Luc Godard transcendeu a carreira de cineasta e passou a não apenas fazer filmes, mas a fundamentalmente pensar sobre o cinema e sua função no mundo. Seu engajamento o tornou um verdadeiro patrimônio cultural da França, embora tenha se tornado cada vez mais recluso e solitário nas últimas décadas. Nem sempre foi assim, enquanto um dos fundadores do movimento nouvelle vague, Godard foi um dos diretores mais populares do mundo, criando filmes de sucesso como Acossado (1960) e O Desprezo (1963), mas após o fiasco de A Chinesa (1967), ele passou a repensar sua carreira. Não por acaso, O Formidável aborda este período de transição do artista baseado no livro de sua segunda esposa, Anne Wiazemsky. Ao ser exibido no Festival de Cannes do ano passado o filme gerou polêmica por ser uma comédia que desconstrói uma das personalidades mais influentes do cinema mundial. Cultuado por adoradores do cinema, Godard aqui não aparece aqui um gênio, mas como um homem difícil de lidar. Tão inteligente quanto pretensioso, arrogante e temperamental, o diretor e roteirista Michel Hazanavicius mexeu num verdadeiro vespeiro quando abraçou a ótica de Anne sobre o ex-marido. Anne foi a protagonista de A Chinesa (e aqui é vivida por Stacy Martin) e viveu com ele de 1967 até 1979, período em que o diretor começou a questionar o seu papel no mundo. No filme, Godard (Louis Garrell, bem mais espontâneo que de costume) se vê bastante influenciado pelas manifestações de rua ocorridas em 1968 - mas nem sempre os manifestantes viam o trabalho dele com bons olhos. O resultado foi que o cineasta decidiu que seus filmes deveriam ser mais provocadores, vanguardistas e engajados. Para Anne, neste período foi bastante complicado conviver com Godard, que trocava cada vez mais as tiradas bem-humoradas por discursos politizados e manifestações (a cena em que o casal e seus amigos viajam por 800 quilômetros discutindo ilustra bem isso). Aos poucos ele se torna uma pessoa mais controversa e até renega seus filmes mais importantes - o que causa um verdadeiro alvoroço num evento na Itália por convite de Bernardo Bertolucci. Diante de tudo isso, o nome O Formidável soa como propaganda enganosa de fã, já que o original ("O Temível") seria bem mais coerente. Enquanto filme, o diretor do premiado O Artista (2011) decora seu filme com citações orais e visuais sobre o cineasta, funcionando sempre que a narrativa ressalta a ironia entre o que é visto e o que é dito (a melhor delas é quando o casal critica os diretores que adoram mostrar seus atores nus e os dois estão nus em cena). O que deixa o filme truncado é que o tom está sempre abaixo do necessário. Para uma comédia, ainda que francesa, o filme se leva a sério demais, o que tira um bastante da graça proposta pelo texto, assim, tudo fica brando demais. O Formidável é um filme que ajuda a entender a mente de Godard, mas poderia ser inesquecível se radicalizasse sua proposta com o mesmo destemor que seu biografado merece. 

O Formidável (La Redoutable/França-2017) de Michel Hazanavicius com Louis Garrell, Stacy Martin, Bérénice Bejo, Micha Lescot, Grégory Gadebois e Marc Fraize. ☻☻☻

CATÁLOGO: Atração Mortal

Heathers e Veronica: subvertendo as regras do filme teen. 

De vem em quando Hollywood lança um filme com garotas mal intencionadas numa escola americana e a referência que sempre é lembrada pela crítica é esta comédia de humor negro dirigida por Michael Lehmann. É verdade que o sucesso Meninas Malvadas (2004), o menos conhecido Jawbreaker (1999) e o recente Thoroughbreds (2018) devem muito a este sucesso estrelado por Winona Ryder, mas não consigo deixar de pensar que fizeram acertos em tudo que este aqui tem de exagerado. Num tempo em que comédias adolescentes seguiam a cartilha de John Hughes, Lehmann virou a cartilha do avesso com o roteiro de Daniel Waters. O filme conta a história de uma adolescente comum chamada Veronica (Winona), que é amiga de um trio de garotas populares, todas elas chamadas Heather. Ainda que sejam amigas, Veronica é um pouco diferente de suas colegas e, por vezes, tem a impressão que está ali somente para servir de chacota para as outras.  As coisas começam a mudar quando ela se interessa por um aluno novo na escola, JD (Christian Slater) que não tem amigos, mas tem pose de rebelde - que só aumenta quando é expulso ao levar para  escola uma arma de festim. Diante da superficialidade que a cerca, a rebeldia do rapaz passa a ser o seu refúgio e ela começa a ceder às sugestões dele... mas quando ela percebe que existe algo de errado na mente daquele garoto pode ser tarde demais. Heathers segue um caminho diferente dos outros filmes adolescentes dos anos 1980, apela para um lado mais sombrio e subversivo, em que a tensão entre os alunos de uma escola motiva atrocidades que o tempo demonstrou ser algo realmente existente nas escolas americanas. O interessante é como o filme explora o relacionamento entre uma menina comum bastante sugestionada pela mente doentia do namorado. O resultado acaba gerando mortes e a iminência de uma tragédia muito maior alimentada pela intensidade desmedida de quem ainda não soube controlar a intensidade hormonal.  Slater vive um psicopata adolescente com cara de inofensivo, mas quem recebe destaque mesmo é Winona Ryder no ano que a colocou no mapa de Hollywood (ela foi até indicada ao Independent Spirit pelo papel). Heathers é repleto de exageros e seu humor negro até hoje é um tanto bizarro demais (por incrível que pareça se tornou um musical de sucesso nos palcos americanos!), Os figurinos são estapafúrdios, os personagens coadjuvantes são clichês ambulantes e o desenvolvimento da história é bastante confusa em seus dilemas adolescentes - suicídio, homossexualidade, auto-estima, bullying... - mas ainda pode incomodar. Fosse realizado hoje, o longa geraria mais polêmica do que na época de seu lançamento. Uma curiosidade é que entre o trio Heather do filme, a ruiva é vivida por Shannen Doherty, que ficou mundialmente famosa como a Brenda do seriado Barrados no Baile lançado dois anos depois. 

Atração Mortal (Heathers/EUA-1988) de Michael Lehmann com Winona Ryder, Christian Slater, Shannen Doherty, Lisanne Falk, Kim Walker, Patrick Labyorteaux e Jeremy Applegate. ☻☻

§8^) Fac Simile: Winona Ryder

Winona Laura Horowitz
Winona Laura Horowitz foi a grande estrela juvenil de Hollywood ao final dos anos 1980 e início dos anos 1990. Foi indicada ao Oscar duas vezes, três vezes ao Globo de Ouro e três vezes na categoria de melhor beijo no MTV Movie Awards (o que só comprova que ela estava no imaginário da maioria dos adolescentes). Depois de alguns anos de vida pessoal conturbada, a atriz parece finalmente ter consolidado seu retorno com um papel fixo na cultuada série Stranger Things e participações em filmes independentes. Nosso repórter imaginário encontrou a atriz em Nova York e ela aceitou responder cincos perguntas nesta entrevista que nunca aconteceu:

§8^) Recentemente li em uma revista que você e Keanu Reeves se casaram acidentalmente durante as gravações de Drácula (1992), sendo assim, vocês são casados há vinte e seis anos! Qual o segredo para manter um casamento por tanto tempo em Hollywood?

Winona Bem... nós fomos casados por um sacerdote de verdade naquelas filmagens... acho que o segredo do nosso casamento é ignorarmos completamente o fato de que somos casados. A gente se encontra de vez em quando, às vezes trabalhamos juntos e a vida segue naturalmente. Também nunca tivemos filhos e isto também ajuda a evitar discussões sobre hora de dormir, que programas eles devem assistir ou qual a alimentação certa para eles. São coisas assim que faz com que tenhamos um ótimo relacionamento até hoje! Ah, também é importante o fato de termos um relacionamento aberto, nada monogâmico!

§8^) Gostei muito do trabalho de vocês em Destination Wedding, acho que dá para perceber a sintonia e a intimidade entre vocês dois em várias cenas, existem novos projetos enquanto casal?

Winona Já filmamos Drácula (1992), O Homem Duplo (2006), A Vida Íntima de Pippa Lee (2009) e agora Destination Wedding... são filmes bem diferentes e interessantes que aconteceram espontaneamente. A gente não fica procurando um filme só para dizer: "Ei, olha, eles são casados na vida real", tem que haver um interesse maior entende? Claro que de vez em quando vem um diretor pervertido com um roteiro cheio de cenas de sexo para nos oferecer, mas somos um casal muito discreto e recusamos sempre. É verdade que em nosso último filme tem uma cena de sexo, mas a gente nem tira a roupa... 

§8^) Vocês dois já tiveram vários altos e baixos na carreira desde que se casaram, vocês se apoiam durante estas atribulações?

Winona De forma alguma, a gente nem se encontra nestes momentos.

§8^) Por algum tempo Hollywood ignorou você por conta de tudo o que aconteceu em sua vida pessoal, hoje você sente que esta situação já mudou?

Winona Não muito. Os grandes estúdios e diretores renomados não dão tanta atenção quanto antes, afinal de contas, em Hollywood eu era a certinha. A menina boazinha que nunca errava, a que o namorado fez uma tatuagem com seu nome, a que nunca aparece sem roupa, a de fala mansa, de repente descobriram que eu também tinha um lado complicado. Para Hollywood isto é imperdoável, a mídia adorou todo aquele carnaval em torno de mim. Eu estava emocionalmente em frangalhos e fui tratada como uma lunática. Riram, debocharam e venderam muitos jornais e revistas às minhas custas. Não digo que toda a aquela confusão me deixa orgulhosa, mas o mundo das celebridades é bastante cruel quando você trai a imagem que criam sobre você. Hoje recebo poucos convites para filmes e me dedico bastante para o papel em Stranger Things. Além disso, não tenho mais aquele rosto de menina, estou com quarenta e sete anos e uma mulher envelhecer é outro pecado mortal em Hollywood.  

§8^) Falando em Stranger Things, as suas expressões quando a série foi premiada no Screen Actors Guild em 2017 deu o que falar na internet, você se deu conta de que a câmera estava filmando todos vocês naquela hora?

Winona Não, não... eu não fiz de propósito! Eu estava tão animada por termos o nosso trabalho reconhecido que foi tudo muito natural quando o David (Harbour) começou o discurso de agradecimento. Eu fiquei realmente envolvida com as palavras dele! O melhor foi que com a repercussão da série e do discurso, eu vi como ainda tenho fãs por aí. Alguns chegam a me classificar como um ícone! Dá para acreditar? Fiquei muito feliz e tenho muita sorte que meu marido Keanu Reeves não é ciumento. Falando nisso, ele envelheceu muito bem, não acha?

Winona no SAG: totalmente expressiva.

sábado, 20 de outubro de 2018

Breve: Com quem Será?

Winona e Keanu: casados há vinte e seis anos!

Uma das anedotas mais inusitadas do ano aconteceu durante a divulgação de Destination Wedding, comédia romântica estrelada por Keanu Reeves e Winona Ryder. Os dois já tiveram seus altos e baixos na carreira, mas na década de 1990 os dois estavam entre os astros mais queridos de Hollywood, fazendo um filme atrás do outro para fãs fieis. Em décadas de carreira, os dois já fizeram alguns trabalhos juntos e um deles foi Drácula (1992) dirigido por Francis Ford Coppola, onde os dois viviam o par romântico perseguido pelo vampiresco personagem de Gary Oldman. O casal lembrou diante de jornalistas que na cena de matrimônio que protagonizaram, os produtores conseguiram um sacerdote de verdade para fazer a cena e, diante dele, o casal de atores realizou seus votos matrimoniais. Ou seja, meio que por acidente, Winona e Keanu estão casados desde 1992! A brincadeira parece até fazer parte de um dos diálogos inspirados que a dupla troca neste segundo filme de Victor Levin - e o resultado é bem mais divertido do que Encontro Marcado/2014. Frank (Keanu) e Lindsay (Winona) se encontram no aeroporto e já começam se estranhando, mal sabem eles que vão para o mesmo casamento - e os dois são pessoas que já ouviram falar um do outro, mas que nunca se conheceram. Ela é a ex-namorada do noivo e ele é o irmão afastado da família que nunca fez questão de ser simpático com os parentes. Ele é um misantropo, desiludido e  cético, ela trabalha no que ele considera ser "a polícia do politicamente correto" - mas ela logo o tranquiliza dizendo que não está trabalhando naquela ocasião. O roteiro assinado pelo próprio Levin funciona como uma espécie de brincadeira com os personagens que sempre ficam para escanteio em uma comédia romântica - ele é o amigo mal humorado, ela é a namorada descartada antes do mocinho encontrar sua alma gêmea - e quem diria que os dois teriam muito para conversar. Misturando doses de rabugice e muito sarcasmo, os dois vivem à margem da festa de casamento (tanto que os outros personagens sequer falam com eles) e, como manda a cartilha do gênero, irão se interessar um pelo outro - primeiro para espantar o tédio, depois por outras motivações que renderão conversas infinitas - e o mais engraçado é que o filme funciona em seu estilo cool auxiliado por dois atores que tem uma química irresistível. Prova de que a ideia é boa é ver Keanu Reeves, que nunca funcionou dentro de comédias românticas, estar no tom certo neste filme. Com Quem Será? dificilmente agradará aqueles que gostam da fórmula mais convencional deste desgastado gênero cinematográfico, mas, com certeza, cairá nas graças de todos aqueles que torcem o nariz para comédias românticas - assim como Frank (mas até estes irão torcer para o inevitável final que todo mundo quer ver). A quem interessar possa, acredito que o texto também funcionaria muito bem no teatro. 

Com quem Será? (Destination Wedding/EUA-2018) de Victor Levin com Keanu Reeves e Winona Ryder. ☻☻☻☻