domingo, 19 de agosto de 2018

NªTV: O Conto

 
Laura e Isabelle: o passado revisitado. 

O Conto foi produzido pela HBO e lançado ontem pelo canal aqui no Brasil  no entanto, o filme já era bem falado em vários sites de cinema pela coragem e interpretação de Laura Dern num papel complicado. O filme tem traços autobiográficos sobre a vida da própria diretora, Jennifer Fox, que também assina o roteiro com momentos bastante desagradáveis. O filme conta a jornada pessoal de Jenny Fox (Laura Dern), documentarista renomada que um dia recebe um conto escrito por ela mesma quando tinha treze anos de idade. O texto foi enviado por sua mãe (Ellen Burstyn) que ficou tão preocupada quanto irritada com o que leu. Madura e bem resolvida, aos 48 anos a personagem mantem um relacionamento sério com o noivo, Martin (o rapper Common que já provou ser um ator convincente faz tempo), mas fraqueja diante das lembranças que o tal conto a faz reviver. Ele trata de sua relação com a instrutora de hipismo, Senhora G (Elizabeth Debicki quando jovem) e seu professor de corrida, Bill (Jason Ritter). G e Bill eram amantes e Jenny tinha apenas treze anos quando se tornou mais do que cúmplice daquele relacionamento. Sua escrita apaixonada revela muito mais do que amizade e admiração pelos dois, de forma que a professora escreve em seu parecer que se aquela história realmente aconteceu, significa que ela sofreu abusos por parte do casal. Jenny começa então a revisitar a própria história, percebe como tudo aquilo aconteceu quando ela era bem mais jovem do que lembrava (e com um belo trabalho de Isabelle Nélisse que vive a personagem aos treze anos). Jenny procura cartas e pessoas de seu passado e relembra que realmente aquelas pessoas lembradas com tanto carinho eram bem diferentes do que ela imaginava. Enquanto diretora, Jennifer Fox mostra-se bastante corajosa ao contar este resgate da própria história e o faz com um equilíbrio impressionante entre o carinho que sentia por aquelas pessoas e os conflitos que vive ao perceber que ela era apenas uma menina quando se envolveu em um jogo de sedução com um casal várias décadas mais velho - o que afetou definitivamente sua vida amorosa desde então. Fox utiliza alguns recursos narrativos que funcionam muito bem, como o confronto entre a personagem na juventude com a da vida adulta, há momentos em que os personagens olham para a câmera  e respondem perguntas como se estivessem em uma entrevista, além de contar com um trabalho de edição que mescla passado e presente com grande eficiência. Se Laura Dern está mais do que convincente em cena (guardando sua catarse para o final), ela está muito bem acompanhada por Elizabeth Debicki que confere um charme tão sedutor quanto enigmático à Srª G do imaginário de Jenny (e que poderia ter aquela imagem somente em suas memória, já que quando mais idosa, G é vivida por Frances Conroy que investe em uma versão bem menos elegante - e muito mais entediada - da mesma personagem). Jason Ritter também funciona como Bill, com sua imagem de homem adulto com mente de adolescente inconsequente e aparência tão gentil quanto atraente. Estas ambiguidades são muito bem trabalhadas pela diretora, que emoldura o passado em uma cor dourada que aos poucos se torna mais sombria especialmente quando aborda a vida sexual entre a pequena Jenny e Bill (em cenas bastante incômodas, mesmo se notando a substituição da atriz mirim por uma dublê maior de idade). O Conto é um filme que surpreende pela ousadia e pela coragem, mas também pela forma como a diretora aborda sua história optando por um caminho não amargo, mas doloroso de autoconhecimento, sem perder de vista quem é a vítima nesta história. 

O Conto (The Tale/EUA-2018) de Jennifer Fox, com Laura Dern, Elizabeth Debicki, Isabelle Nélisse,  Jason Ritter, Ellen Burstyn, Common e John Heard. ☻☻☻☻

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