sábado, 29 de junho de 2019

PL►Y: O Animal Cordial

Benício: da cordialidade à bestialidade. 

Lançado em 2018, o longa O Animal Cordial colocou em evidência uma das diretoras mais radicais da nova geração de cineastas brasileiros. Gabriela Amaral Almeida chamou atenção da crítica pela forma sem concessões com que cria a tensão de seu projeto de estreia. Ambientado em apenas um cenários e com poucos personagens em cena, Gabriela tem coragem de criar uma narrativa que beira o absurdo de tão exagerada, mas que se conclui como um pesadelo imersivo que deve surpreender até os fãs de terror e suspense. A história se passa em um restaurante que parece estar enfrentando dias difíceis, o dono do restaurantes (Murilo Benício) não se entende com seus funcionários, especialmente com o chef Djair (Irandhir Santos). A tensão entre os dois é palpável, especialmente quando esperam ansiosos para o último cliente (Ernani Moraes) ir embora e chega um casal de emergentes pouco simpáticos (Camila Morgado e Jiddu Pinheiro). Quem parece transitar em meio à toda hostilidade sem grandes alterações é Sara (Luciana Paes), que está sempre pronta a fazer o que o patrão lhe pedir. Se o clima já era pesado, ele piora consideravelmente quando dois assaltantes entram no restaurante e o filme segue por caminhos cada vez mais inesperados. O que poderia ser um roteiro sobre dois ladrões e seus reféns em um local fechado vira do avesso quando o dono do restaurante resolve cuidar da situação da pior forma possível. Tudo sai do controle e o que vemos beira o surreal com os personagens reféns de uma violência crescente. Para não tornar seu filme apenas um espetáculo de violência estilosa, Gabriela Amaral utiliza um verniz de comentários sociais através da história, explora a relação entre patrão e empregados, diferenças de classes, preconceitos, assédios e outros elementos sempre por um caminho incomum, o que causa estranhamento e uma certa repulsa diante do que apresenta. É verdade que em alguns momentos investe na caricatura e exageros cômicos (como a cena de sexo esquisita que apresenta lá no meio da história) e ousa cortes estranhos (o desfecho entre Djair e o patrão). Ainda que O Animal Cordial não seja para todos os  gostos é preciso ressaltar que Gabriela Amaral realiza um belo trabalho, mantendo a sensação de um horror constante que não pausa para respirar em momento algum, além disso tem um ótimo domínio de toda a embalagem do seu filme (trilha sonora, fotografia, o trabalho com cores e sombras, o cuidado com os créditos iniciais) o que torna seu filme um exagero bastante coeso. 

O Animal Cordial (Brasil-2018) de Gabriela Amaral com Murilo Benício, Luciana Paes, Irandhir Santos, Ernani Moraes, Camila Morgado, Jiddu Pinheiro e Humberto Carrão. ☻☻☻

quinta-feira, 27 de junho de 2019

NªTV: Dark - 2ª Temporada

Louis Hoffman: Jonas através do tempo. 

Depois de um ano sem dar as caras, a série alemã Dark está de volta! Admito que no primeiro episódio quase voltei para a primeira temporada para relembrar todos os detalhes do que havia acontecido, mas não demorei a ficar tranquilo já que o roteiro desta segunda temporada tem o cuidado de relembrar a maioria dos pontos importantes das idas e vindas que a primeira temporada nos apresentou. Além disso, preciso destacar o ótimo trabalho de edição que sobrepõe as versões dos personagens através do tempo para que possamos perceber o que está acontecendo. Não sei se é um SPOILER a esta altura dizer que a série intensifica sua temática de viagem no tempo e torna ainda mais complexa as ações de seus personagens ao longo dos períodos distintos que atravessam. Se antes parecia girar mais sobre o drama familiar de Jonas (Louis Hoffman), mais conhecido como o garoto da capa amarela, agora ele se dá conta de que existe uma verdadeira conspiração temporal executada por vários personagens que atravessam o seu caminho. Há de se lembrar que ao final da temporada anterior, o rapaz foi levado para 33 anos no futuro e descobriu que existe um apocalipse iminente. Não por acaso esta temporada é composta por oito episódios e cada um deles representa um dia nesta contagem regressiva para o fim do mundo, ou, pelo menos, do mundo como nós conhecemos. Vale destacar que a atmosfera da série permanece a mesma, sombria na medida certa, com atores dedicados, trilha sonora precisa e  personagens que se misturam cada vez mais nos mecanismos da trama. É verdade que esta nova fase repete alguns dilemas da anterior (são tantos personagens querendo ver o pequeno Mikkel e reorganizar as coisas que fiquei até um pouco cansado), mas também revela segredos e oferece maior destaque a personagens que estavam meio de lado até agora. A narrativa continua envolvente enquanto novos (?) personagens são apresentados e vilões ficam pelo meio do caminho cedendo lugar a outros. Dark continua sendo um intrincado quebra-cabeça, mas conforme se aproximava de seu desfecho temporário fiquei preocupado se a terceira temporada terá fôlego diante dos malabarismos que já ofereceu até aqui. Algumas manobras foram realmente perigosas com todos aqueles personagens indo e voltando no tempo como se fossem comprar pão na esquina. Com mistérios sendo revelados e o tempo surgindo como uma espécie de força imutável, me perguntei a funcionalidade daquela personagem aparecer repaginada no último instante e abrir uma nova porta para a série seguir seu caminho. Anunciada como a última temporada desta cultuada série alemã da Netflix, fica a pergunta se DARK não irá se perder no meio de seu próprio labirinto. 

Dark - 2ª Temporada (Alemanha/2019) de Baran bo Odar e Jantje Friese com Louis Hoffman, Maja Schöne, Jördis Triebel, Karoline Eichhorn, Lisa Vicari e Mark Waschke. ☻☻☻☻

Na Tela: Fora de Série

Kaitlyn e Beanie: hora de curtir. 

Depois que chamou atenção do mundo inteiro em Tron: O Legado (2010), a atriz Olivia Wilde demonstrou cansaço em ter que ser sempre "a-mulher-bonita-do-filme". Há algum tempo que ela deseja ser algo mais e a comédia Fora de Série é a prova de que ela é bem mais do que a beldade em cena. O filme é a sua estreia como cineasta e podemos dizer que ela a faz com maestria! O trabalho com os atores, com a edição e um ritmo invejável do início ao fim, fazem do filme a grande surpresa do ano. Em entrevistas a atriz deixou claro que queria recriar o clima dos filmes de John Hughes dos anos 1980, filmes que ela ainda gosta de assistir. Para isso escolheu uma história simples sobre duas amigas às vésperas da formatura e a nutriu com uma energia que não se percebe todo dia. A trama segue Amy (Kaitlyn Dever de Homens, Mulheres e Filhos/2014) e Molly (Beanie Feldstein de Lady Bird/2017), duas amigas de infância que ao chegar ao final do Ensino Médio descobrem que poderiam ter curtido mais com a galera do que ter passado todos os fins de semana grudadas nos livros. Com a universidade batendo-lhes à porta, elas descobrem que até alunos considerados menos dedicados conseguiram aceitação em Universidades. A partir daí começa uma verdadeira crise, especialmente em Molly, que deseja se esbaldar numa festa aguardada por todos e compensar todas as festas não vividas... o problema é achar a tal festa. Molly e Amy passam então a atravessar a cidade em busca daquela festa em que todo mundo estará falando no dia seguinte, mas não fazem a mínima ideia de onde ela acontece. No caminho se deparam com outras comemorações e colegas que sempre brincam com os estereótipos vistos neste tipo de filme. Estão lá o garoto com fama de pegador, a aluna skatista, a rata de festa (que sempre está em todas as festas ao mesmo tempo!), o bonitão, os nerds, a chata, os artistas, a professora bacana... o roteiro (assinado por quatro mulheres roteiristas) é o maior barato, sempre descolando aventuras para as duas amigas que pretendem curtir mais do que nunca. É verdade que a coisa não funcionaria tão bem se não contasse com duas protagonistas que sabem exatamente o que estão fazendo e, mais ainda, são capazes de tornar palpável os anos de história que as duas personagens tem de convivência (mesmo que o filme não apresente este passado em comum). Entre gírias, dancinhas, brincadeirinhas e piadas internas Kaitlyn e Beanie convencem que Molly e Amy são amigas há tempos! Fora de Série já figura entre as melhores comédias adolescentes do cinema americano e faz por merecer, especialmente por fugir do lugar comum e apresentar cenas como aquela das amigas se vendo como duas bonecas de plástico. Não vou me surpreender se no futuro Olivia Wilde se dedicar mais à carreira de diretora do que de atriz. Esperto e divertido, Booksmart é um grande acerto. 

Fora de Série (Booksmart/EUA-2019) de Olivia Wilde com Beanie Feldstein, Kaitlyn Dever, Skyler Gisondo, Billie Lourd, Jason Sudeikis, Will Forte, Lisa Kudrow, Jessica Williams e Diana Silvers. ☻☻☻☻

quinta-feira, 20 de junho de 2019

PL►Y: Alma da Festa

Melissa: de festa em festa entre os estudos. 

O ano passado foi um retrato bastante fiel da carreira de Melissa McCarthy. A atriz que ficou conhecida em séries de TV e ganhou o mundo com sua indicação ao Oscar de atriz coadjuvante por Missão Madrinha de Casamento (2011) tem uma trajetória que causa estranhamento em muita gente. Ela curte fazer comédias simples, com muita bobeira e que tem como maior intenção fazer a plateia rir com suas caracterizações. Entre uma palhaçada e outra ela encontra um papel mais dramático que demonstra que ela é uma das atrizes mais versáteis da atualidade. Ano passado ela apareceu em todas as premiações e culminou com uma indicação ao Oscar de melhor atriz por seu ótimo trabalho em Poderia me Perdoar? (2018), por outro lado, Melissa despertou o ódio de muita gente pelo seu trabalho preguiçoso no controverso Crimes em Happytime (2018) de Brian Henson - longa que misturava fantoches com palavrões e baixarias. O trabalho lhe valeu o Framboesa de Ouro de pior atriz. Diante destes extremos, as pessoas deram pouca atenção para este Alma da Festa, não que o filme mereça grandes lembranças, mas  é o tipo de trabalho mais recorrente na carreira da atriz. A história não é muito original, assim como a condução, que mistura besteirol, bizarrices e idiotices, mas o resultado pode gerar risadas e mostra-se bastante inofensivo. Melissa vive Deanna, uma mulher que sofre com o fim do seu casamento de décadas. Para cuidar da casa, do esposo (Msatt Walsh) e da filha (Molly Gordon), ela largou a faculdade no último ano e nunca mais voltou. Agora ela retorna para concluir os estudos e acaba estudando junto com a filha. O filme faz piadas com a aparência maternal de Deanna, destaca preconceitos - mas sorte que ela tem as amigas da fraternidade para ajudar, ao ponto dela mudar o visual e arrumar um namorado jovem e bonitão chamado Jack  (Luke Benward). Embora o Deanna e Jack mereça torcida, o desenvolvimento da história não tem muito sentido ou lógica, parecendo mais a costura de uma série de episódios que querem fazer o espectador rir a todo custo. Algumas tentativas funcionam, outras nem tanto - o que é uma rotina nos trabalhos da atriz dirigidos pelo marido, Ben Falcone. Alma da Festa serve para passar o tempo se você não exigir demais do filme e admito que as risadas surgem se você entrar no clima. Nos últimos tempos resolvi ser mais generoso com Melissa, cheguei à conclusão que em alguns trabalhos ela só deseja que você desligue o cérebro e se divirta. Prêmios populares como o Teen Choice Awards (indicou o longa à dois prêmios de voto popular) e People's Choice (o filme ganhou o prêmio de comediante favorita do ano) entenderam isso, já o Framboesa colocou Melissa novamente no páreo de Pior Atriz. Curioso mesmo foi a medida da Alliance of Women Film Journalist que indicou Melissa ao prêmio de "atriz que precisa muito mudar de agente". Fica a dica.  

Alma da Festa (Life of Party / EUA -2018) de Ben Falcone com Melissa McCarthy, Luke Benward Matt Walsh, Molly Gordon, Jacki Weaver, Maya Rudolph e Gillian Jacobs. ☻☻

PL►Y: Rock'n Roll - Por trás da Fama

Marion e Guillaume: divertidas paródias de si mesmos.

Sempre considerei que rir de si mesmo é sinal de sabedoria, sendo assim, os franceses Guillaume Canet e Marion Cotillard formam um casal de sábios do cinema francês. Os dois estão juntos desde 2007 e  neste filme eles fazem troça com a imagem que o mundo tem sobre eles. Escrito e dirigido por Canet o filme é uma grande brincadeira, mas com tom bastante incisivo sobre as representações sobre um casal de atores reconhecidos, mas que ainda precisam lidar com alguma exigências da mídia e, sobretudo, com seus egos e conflitos pessoais. O tom é engraçado, mas podemos identificar um bocado de referências ao mundo das celebridades. Embora tenha uma vida estável, no set de seu novo filme,  o ego de Canet  desmorona quando uma atriz novata diz que ele nunca foi "Rock'n Roll" (o que justifica o título do filme), uma alusão à falta de sex appeal do ator - que sempre teve fama de certinho alimentada pela sua estampa de bom moço. Dali em diante ele tenta provar que ele é uma pessoa completamente diferente do que as pessoas costumam pensar dele. Ele até tenta conversar com a esposa  (Marion) sobre isso, mas ela não entende muito bem onde ele quer chegar. Daí em diante, a postura de Guillaume muda completamente, passando por noitadas, mudança de visual, uso de drogas, bebedeiras e tudo o mais. É verdade que o resultado é sempre um desastre para a vida pessoal e profissional do ator, mas a plateia se diverte com esta desconstrução. No filme ele tem quarenta anos, época em que concorreu ao César de melhor ator por Na Próxima, Acerto no Coração/2014 e perdeu para Pierre Niney (um ator dezesseis anos mais jovem que ele), no filme o efeito da derrota é devastador. A partir dali Guillaume toma medidas drásticas para driblar o envelhecimento - e o que fazem com o rosto do ator é um verdadeiro pecado. Nesta jornada de auto-deboche, Marion não sai ilesa, sua preparação para as personagens requer uma imersão tão profunda que beira o exagero. Some a isso algumas excentricidades como dona de casa (a perna da mesa de centro da sala, a criação da horta...), o peso de ser mais famosa que o marido (só para lembrar, ela tem um Oscar de Melhor Atriz por Piaf - Um Hino ao Amor/2001) e outros momentos de puro deboche (a brincadeira com Celine Dion, a cena de sexo mais cretina dos últimos anos...) e teremos a certeza de que ela também é ótima fazendo comédia.   Rock'n Roll não tem relação com música, mas com a impressão de que uma rocha está rolando ladeira abaixo até o fim (e o final é puro besteirol). A brincadeira com o mundo das celebridades em crise de meia idade fez deste um dos filmes mais divertidos que assisti nos últimos anos. 

Rock'n Roll - Por Trás da Fama (Rock'n Roll / França - 2017) de Guillaume Canet com Guillaume Canet, Marion Cotillard, Gilles Lellouche, Camille Rowe e Ben Foster. ☻☻☻☻

quarta-feira, 19 de junho de 2019

PL►Y: Ferrugem

Tiffany e Giovanni: cheiro de tragédia. 

Eu não sabia que existia um dia do cinema brasileiro. Descobri meio que por acaso e pesquisei que a escolha de data ocorre por conta do dia em que o ítalo-brasileiro Afonso Segreto (reconhecido como o primeiro cinegrafista e diretor do país) registrou as primeiras imagens em movimento em território nacional: 19 de junho de 1898. Existem algumas divergências na escolha da data, já que algumas pessoas preferem celebrar no dia 05 de novembro, data da primeira exibição pública de cinema no país. Diante deste embate, considero a data de hoje bem mais emblemática. Por conta da data escolhi escrever sobre um dos filmes mais impressionantes do cinema brasileiro recente: Ferrugem. O diretor Aly Muritiba já havia realizado um ótimo trabalho com seu longa anterior (Para minha Amada Morta/2016) e aqui ele meio que revisita o ponto de partida sobre outra ótica. O filme é dividido em duas partes, a primeira é dedicada à Tati (Tiffany Dopke), a adolescente que terminou recentemente o seu namoro e que a vida segue normalmente. Cercada pelos colegas da escola, fazendo selfies constantemente e com um crush por perto. O crush em questão é Renet (Giovanni di Lorenzi), garoto tímido e um pouco sisudo que está bem perto de conquistar o coração da garota e vice-versa. Eis que um dia no passeio da escola, Tati perde o celular. Os colegas ajudam a procurar e parece que não tem jeito, o aparelho se perdeu de vez. Não demora muito para a menina chegar na escola e estranhar os olhares e sussurros dos colegas, sem entender muito bem o que está havendo ela descobre pelas amigas que houve a divulgação de um vídeo íntimo com o ex-namorado. Logo a menina é vítima de comentários maldosos, exclusões, xingamentos, bullying e tudo mais que acontece nestes casos (que só revela como o moralismo permanece o mesmo através dos séculos, não importa o quanto a sociedade seja hipócrita e diga o contrário). A vida da garota vira de cabeça para baixo e ela suspeita que foi Renet o responsável pela divulgação do tal vídeo que estava no celular perdido. O rapaz nega, mas a postura dele não ajuda em nada. Cada vez mais introspectivo e sisudo, o filme mergulha nos pensamentos do rapaz na segunda parte quando conhecemos um pouco melhor a família do rapaz. Aly Muritiba comprova ser um ótimo diretor de atores, especialmente do casal juvenil que tem atuações realmente convincentes.  Aly sabe como tornar o filme cada vez mais sombrio e pessimista, mantendo a narrativa sem pressa e (quase sempre) tensa até o desfecho. O quase sempre se deve a algumas cenas desnecessárias que emperram o filme justamente quando ele chega no auge da história, são dois momentos que poderiam ter ficado de fora do corte final e ter rendido uma narrativa impecável do início ao fim. Este pequeno defeito não compromete o todo, talvez no texto escrito até fizesse sentido, mas depois que o filme ganhou corpo, nem precisava daquele "segredinho" do Enrique Diaz. Celebrado no Festival de Sundance e ganhador dos prêmios de Melhor filme, roteiro e som no Festival de Gramado, Ferrugem é esperto (aquela sacada das obscenidades escritas no banheiro foi uma forma genial de estampar os pensamentos remoendo na mente da menina), interessante e dolorido, mas vale ressaltar que ele apresenta dois pontos bastante sintomáticos deste tipo de produção: adolescentes não procuram conversar sobre seus problemas com os adultos e não procuram as autoridades para resolver problemas vinculados às redes sociais. Na vida real é assim também?  Não deveria. O filme demonstra que lidar com alguns sentimentos pode ser muito complicado, especialmente quando a solidão é tão próxima.

Ferrugem (Brasil - 2018) de Aly Muritiba com Tiffany Dopke, Giovanni di Lorenzi, Enrique Diaz, Clarissa Kiste e Gustavo Piaskoski. ☻☻☻☻

4EVER: Rubens Ewald Filho

07 de março de 1945 ✰ 19 de junho de 2019

Nascido na cidade de Santos em São Paulo, Rubens Ewald Filho foi jornalista, roteirista, apresentador, diretor teatral e crítico de cinema. Formado pela UniSantos, Rubens trabalhou nos maiores veículos de comunicação de nosso país e se tornou uma autoridade quando o assunto era crítica cinematográfica, sendo o mais convidado para comentar a entrega do Oscar no Brasil.  Ainda que alguns de seus comentários gerassem polêmicas recentemente, seus guias e livros são referências no assunto. Reza a lenda que Rubens assistiu aproximadamente 37.500 filmes! Rubens também fez alguns trabalhos como ator de cinema sobretudo nos anos 1970, sendo o último realizado em 1982 (aquele famigerado banido Amor Estanho Amor/1982). Rubens também era um bom roteirista, tendo seu trabalho mais famoso a novela Éramos Seis exibida pelo SBT em 1994.  Rubens faleceu em decorrência das consequências de um desmaio seguido de queda em uma escada rolante. O crítico estava internado desde o dia 23 de maio. 

PL►Y: AlphaGo

Lee (à direita) e seu oponente: mudando paradigmas. 

É muito interessante as sensações que temos ao assistir ao documentário AlphaGo, afinal, ao acompanhar o empenho da equipe de programadores que constroem a inteligência artificial capaz de jogar o milenar Go nós torcemos para que sejam bem sucedidos. Por outro lado, lá pelas tantas, começamos a ficar tristes com a expressão do campeão mundial que vai da confiança mais certeira para a insegurança mais aterradora diante do fantasma da derrota nunca antes experimentada.  Há um peso inegável sobre os ombros dele e isso pesa sobre nossa torcida também. Existem vários filmes sobre a relação da humanidade com suas criações, mas quando se trata de jogos a coisa sempre ganha uma conotação diferente. Lembro quando eu era adolescente em 1996 e o assunto era o duelo do campeão mundial de xadrez Garry Kasparov  com um computador da IBM, o DeepBlue e Garry acabou  perdendo uma partida. Este documentário até cita aquele embate histórico, mas tenta nos convencer de que ganhar uma partida de Go seria ainda mais complicado para uma máquina. Eu conheço Go desde que assisti a Pi (1998) (o primeiro longa de Darren Aronofsky) e confesso que foi difícil entender a lógica do jogo desde então. Considerado por muitos o jogo de tabuleiro mais complexo que existe, já que o tabuleiro possibilita um número tão elevado de posições que julgavam ser impossível um algoritmo convencional processa-las, sendo considerado que somente o raciocínio humano seria capaz de somar raciocínio lógico com criatividade e intuição para jogar. Desenvolvido pelo Google, AlphaGo rompeu paradigmas. O documentário de Greg Kohns começa com o desafio a um campeão europeu de Go, que fica surpreso com a derrota, mas, quando o jogo ganha atenção da mídia, existe um clamor para que AlphaGo enfrente o campeão mundial Lee Sedol. Chinês e jogador desde a infância, Lee considera que a máquina jamais será capaz de superá-lo até que precisa rever os seus conceitos. Ao longo das cinco partidas, o filme consegue retratar muitíssimo bem a tensão no ar. A atenção dos espectadores, os comentários feitos pela mídia em torno do desafio e especialmente o verdadeiro abismo que se abre diante de Lee Sedol e de quem está por perto. É uma situação impressionante de assistir. É belo e um tanto assustador, especialmente como os envolvidos se transformam ao longo daquela partida. Medo, orgulho, sucesso, fracasso e superação estão sempre presentes e nos instiga a continuar assistindo. Aos curiosos vale ressaltar que o robô AlphaGo encontra-se aposentado atualmente, mas as reflexões que gerou sobre o jogo milenar continuam fascinando os praticantes do jogo. 

AlphaGo (EUA-2017) de Greg Kohns com Lucas Baker, Nick Bostrom, Lee Sedol, Joseph Choi, Arthur Guez e John Holmes. ☻☻☻☻