domingo, 23 de outubro de 2016

APOSTAS PARA O OSCAR 2017 - CAPÍTULO II

"Elle" de Paul Verhoeven
Há quem considere certa a indicação da francesa Isabelle Huppert ao Oscar de melhor atriz pelo papel da mulher que sofre abuso sexual e percorre um caminho inesperado após o ocorrido. Indicado à Palma de Ouro no Festival de Cannes, o novo filme do diretor de Instinto Selvagem/1992 se tornou o mais elogiado de sua carreira. A diva francesa já tem dois prêmios de melhor atriz em Cannes e quinze indicações ao César (o Oscar francês) - dois ela levou para a casa. No entanto, a Meryl Streep da terra de Balzac, nunca foi reconhecida pela Academia - será o momento de reparar o equívoco? 

"Loving" de Jeff Nichols
Aclamado em Cannes, o filme é baseado na história real do casal Loving, formado por Richard (Joel Edgerton) e Mildred (Ruth Negga), um casal que foi condenado à prisão no ano de 1958 no estado da Virgínia por ser formado por uma negra e um branco. Nichols conta a história de amor proibido sem perder de vista como toda a forma de preconceito é absurda - e seus protagonistas devem fazer bonito nas premiações. Vale lembrar que o casamento entre brancos e negros já foi proibida em 16 estados nos EUA. 

"Animais Noturnos" de Tom Ford
O estilista já provou que leva jeito para fazer filmes em sua estreia, agora ele utiliza seu cuidado estético primoroso para contar uma história de mistério complexa envolvendo a dona de uma galeria de arte (Amy Adams que é sempre uma boa aposta) e o romance escrito pelo ex-marido (Jake Gyllenhaal). Entre as várias camadas da história, Ford foi aclamado no Festival de Veneza pela sua boa costura entre o belo e o grotesco. 

"A Garota no Trem" de Tate Taylor 
Faz um tempinho que a Academia deveria dar maior atenção aos dotes de Emily Blunt. A atriz já provou que consegue dar conta de todo tipo de personagem e quem sabe se um filme de sucesso a ajudará a ser devidamente reconhecida? O suspense A Garota no Trem traz Emily envolvida com o desaparecimento de uma mulher  que ela sempre costumava ver quando ia para o trabalho, as reviravoltas envolvendo a personagem podem colocar a atriz entre as cinco melhores atuações femininas do ano.

"Paterson" de Jim Jarmusch
No páreo de melhor ator, muita gente está desejando uma vaga para Adam Driver nas premiações por sua atuação como o motorista de ônibus que também é poeta no novo filme do cultuado Jarmusch. Aclamado por sua poesia do cotidiano desde sua estreia em Cannes, Paterson não é o tipo de filme que será um estouro de bilheteria, mas deve agradar a galera indie que tem voto garantido no Oscar!

PL►Y: Vidas Partidas

Naura e Domingos: paixão violenta. 

Falecido no mês passado, Domingos Montagner era um astro em ascensão não apenas na televisão mas também no cinema. Somente em 2016 ele estrelou três filmes (em todos com atuações elogiadas), dois deles como protagonista em papéis bem diferentes das novelas em que atuou. Em Vidas Partidas ele tem a tarefa complicada de dar vida a um marido pai de família que se torna cada vez mais abusivo numa história de violência doméstica. Ambientado no Recife da década de 1980 (o que a achei mais curioso é que o filme possui uma ótima reconstituição de época mas ignora completamente o sotaque dos personagens pernambucanos) a história gira em torno do relacionamento entre Graça (Naura Schneider) e Raul (Montagner), um casal apaixonado e aparentemente feliz ao lado das duas filhas. No entanto, desde a cena tórrida inicial percebemos que quem é que manda no casamento (que pode ser visto quase como uma prisão pelas cenas iniciais). Aos poucos a passionalidade da relação torna-se mais intensa e Raul mostra-se um verdadeiro brucutu. Movido pelo ciúme e problemas com a própria autoestima (já que a esposa que lhe consegue um emprego na faculdade) o marido começa a ser cada vez mais agressivo. O filme aproveita a situação para apresentar como a justiça do período mostrava-se extremamente tendenciosa e machista, conferindo verdadeira posse do marido sobre a esposa, fechando os olhos para os abusos sofridos pela mulher e até colaborando para que ela permanecesse num ambiente cada vez mais hostil para que seus direitos não fossem ainda mais lesados - parece estranho, mas a ideia era essa mesmo. Nos anos 1980 não existia a conhecida Lei Maria da Penha (sancionada em 07 de agosto de 2006) Naura está eficiente como a esposa que come o pão que o galã amassou,  mas é Montagner que rouba a cena como esposo que caminha entre a sedução e agressão com uma desenvoltura assustadora - e isso faz a diferença quando o longa abandona a sutileza e vai do drama ao filme de tribunal para logo depois descambar para um verdadeiro filme de terror. Pena que o estreante Marcos Schechtman escorrega nas transições entre os gêneros que abraça, mas seu estilo duro consegue manter o interesse do espectador na história de um casal que caminha cada vez mais para a ruína. Vale mencionar que a primeira vez que ouvi falar do filme foi com em uma conversa com meu colega Guilherme Guaral, ator (e professor) que já apareceu em vários filmes nacionais e vive aqui uma espécie de cúmplice do protagonista marrento.

Vidas Partidas (Brasil/2016) de Marcos Schechtman com Naura Schneider, Domingos Montagner, Nelson Freitas, Milhem Cortaz e Guilherme Guaral. ☻☻☻

BREVE: Kill Your Friends

Hoult: o Psicopata Inglês. 

Quando o livro Kill Your Friends de John Niven chegou às livrarias em 2008 não foram poucos os que apontaram as semelhanças entre seu protagonista e o antológico Patrick Bateman, o Psicopata Americano em pessoa criado por Bret Easton Ellis em 1991. Se o livro de Ellis chegou às telas em 2000, agora é a vez da obra de Niven testar seu fôlego na tela de cinema. Mais uma vez as comparações são inevitáveis, já que Bateman (vivido por Christian Bale) fazia de tudo para se impor perante seus amigos de Wall Street (tudo mesmo), o inglês Steven Stelfox (encarnado por Nicholas Hoult) o faz para obter status em seu trabalho numa grande gravadora no auge do britpop dos anos 1990. Se a música era alvo de comentários e apreciações de Bateman, Stelfox não está nem aí para a música que produz, está mais interessado no lucro que isso pode gerar. De resto eles são realmente bem parecidos, compartilham o mesmo gosto por manter a casca de boa aparência enquanto não hesitam em ter que fazer o que o título (traduzindo: matar seus amigos) quando alguém atravessa o seu caminho. Sempre disposto a cheirar drogas ilícitas, encher a cara, dizer frases politicamente incorretas e demonstrar sua total indiferença pelas outras pessoas, fica bem claro o porque Stelfox atraiu Nicolas Hoult ao ponto do ator produzir o filme (e se livrar do estigma de ser Um Grande Garoto). É visível como Hoult se diverte na pele de um sujeito sinistro que narra o filme em primeira pessoa enquanto sua carreira entra em crise ao ser pressionado a encontrar uma banda de sucesso (e nem vou escrever a fauna de estrelas bizarras com letras hediondas que cruzam seu caminho). A salvação parece estar numa banda cujo a vocalista não confia nele. A coisa se complica ainda mais quando ele vira suspeito de ter matado o colega que ocupava o cargo que ele tanto desejava. Não vale a penas dizer muito mais do que isso, já que a escrita de Niven não tem pena de detonar seus personagens, seja a secretária ambiciosa, o detetive que sonha em tornar-se um músico famoso, o aprendiz que será corrompido até o final, um rapper pretensioso e, claro, o inimigo número um de Stelfox. O esteante Owen Harris, que já trabalhou com a obscuridade na série cult Black Mirror, ma adaptação onde tudo se encaixa com grande eficiência, aproveitando o conhecimento de causa de Niven sobre o universo que retrata. Niven trabalhou na indústria fonográfica e mesclou duas ou três pessoas que conheceu para construir seu hediondo protagonista. A fauna de personagens de Kill Your Friends torna o filme mais bem humorado que o American Psycho de Marry Harron, mas isso não quer dizer que seja menos assustador ou nocivo ao contar a história de um verdadeiro monstro movido pela ambição somada à falta de escrúpulos.

Kill Your Friends (Reino Unido / 2015) de Owen Harris com Nicholas Hoult, James Corden, Georgia King, Tom Riley, Craig Roberts, Edward Hogg e  Morritz Bleibtreu. ☻☻☻☻

sábado, 22 de outubro de 2016

Pódio: Hugh Jackman

Bronze: o perseguido cantante
3º Os Miseráveis (2012)
Hugh Jackman já era mais que conhecido quando recebeu sua primeira indicação ao Oscar de Melhor Ator pelo exuberante musical dirigido por Tom Hooper - livremente inspirado na triste obra de Victor Hugo. Jackman ganhou até um Globo de Ouro pelo papel! Jackman já havia recebido prêmios por fazer musicais no teatro (ele ainda tenta levar para as telonas sua peça The Boy From Oz) e quase estrelou a versão de Chicago/2002 para o cinema, no entanto, no cobiçado papel de de Jean Valjean ele não apenas solta a voz como mostra sua aptidão dramática como um homem bem sucedido perseguido pelo passado. 

Prata: o mutante marrento
2º X-Men 2 (2003)
Como fazer uma lista das melhores atuações do ator sem incluir o mutante Wolverine? Impossível! Se na primeira aventura mutante dirigida por Bryan Singer o ator era um completo desconhecido no (arriscado) papel do herói com garras de adamantium, no episódio seguinte, Jackman já era um astro que ganhou mais destaque na trama - além de aparecer mais parrudo e ainda mais a vontade na pele do herói. A personificação de Jackman é tão marcante que aos 48 anos, ele vive ameaçando largar o papel para não ficar preso somente ao mutuna. Em 2017 ele encarnará o personagem pela 8ª vez!

Ouro: três em um.
1º Fonte da Vida (2006)
Hugh merecia ter figurado nas maiores premiações de cinema pelo filme mais criticado de Darren Aronofsky! Afinal, ele dá conta de três personagens completamente diferentes numa estrutura narrativa bastante complexa. Jackman vive o doutor Thomas Creo que busca a cura para o câncer de sua esposa através de extratos de uma árvore milenar! A mesma árvore que faz companhia para um explorador do espaço em sua busca por respostas rumo ao infinito - e a mesma que aparece na história da busca pela árvore da vida por um desbravador espanhol. Histórias distintas ou imagens do passado, presente e futuro do mesmo personagem? Veja o filme, pense o que você quiser e aprecie uma das melhores atuações de um ator muito versátil.  

PL►Y: Peter Pan

Pan, Tigrinho, Gancho e Barba Negra: prelúdio desnecessário. 

Tenho uma  relação muito especial com a história de Peter Pan, afinal o desenho da Disney, inspirado na obra de J.M. Barrie, foi o primeiro filme que assisti no cinema. Além disso, o livro de Barrie foi um dos primeiros livros que li na minha infância.  Eu também fiquei bastante satisfeito com a versão do australiano P.J. Hogan para a história clássica do menino que não pode crescer e suas encrencas com Capitão Gancho. O filme de Hogan foi um verdadeiro primor, já que sem estar preocupado em ser a versão em carne e osso do desenho, o cineasta investiu em novas camadas na relação entre os personagens - o que o deixava mais original. No entanto, nunca entendi muito bem o motivo que levou Steven Spielberg a fazer Hook - A Volta do Capitão Gancho onde um Robin Williams sem graça fazia Peter Pan envelhecido e desengonçado quando precisa lembrar de sua verdadeira história. Não entendi qual era a graça de pegar um personagem e fazer dele o total oposto do que o torna especial. De certa forma é isso que sinto ao assistir a nova versão de Peter Pan do diretor Joe Wright, mas sei que o problema está mesmo no roteiro de Jason Fuchs - afinal que tipo de sujeito se preocupa em saber a origem de um personagem tão mágico quanto Peter Pan? No menor dos estragos o personagem perderia sua magia em explicações que deveriam fazer Barrie levantar do túmulo! Mas o filme faz mais do que isso, ao trazer um personagem que não traz as mesmas características que o fizeram tão intrigante. Sai o menino voador insolente, arrogante e avesso ao mundo adulto e entra em cena um garoto tímido, frágil e inseguro que precisa aprender a voar (e escrito assim parece ainda mais desinteressante). O novato Levi Miller é esforçado, mas seu personagem está muito longe de ser o Peter Pan que conhecemos. Na concepção de Fuchs até Capitão Gancho (vivido por Garrett Hedlund) tem as duas mãos e está ao lado do mocinho, deixando que o vilão seja o lendário Barba Negra (Hugh Jackman) - que consegue ser tão assustador quanto as freiras malvadas que vendem as crianças órfãs para piratas voadores. São os piratas que levam Peter para a Terra do Nunca, onde deverá trabalhar ao lado dos garotos perdidos e bucaneiros em busca de Pixum, um cristal que dá origem ao pó de fadas. Para os fãs pode ser atraente o fato dos personagens da história original aparecerem no prelúdio - é divertido ver um jovem Smiegel (Adeel Akhtar) e um tanto frustrante ver Princesa Tigrinho na palidez de Rooney Mara. É verdade que Joe Wright cria um visual de primeira e ousa ao colocar piratas e crianças cantando Nirvana e Ramones como se fossem hinos, mas a coisa acaba ficando Moulin Rouge/2000 demais para uma história que não consegue decidir qual é seu público alvo. Entre agradar adultos, adolescentes e crianças, o filme investe num ritmo constante de aventura, que deixa pouco espaço para celebrar Peter Pan por tudo que ele representa. Penso que os melhores filmes não são sobre o antes ou o depois do personagem, mas os que abraçam a história lançada em 1911 por J.M. Barrie com Peter do jeitinho que ele é (nada contra releituras criativas, mas do jeito que Spielberg e Wright fizeram, elas são bem menos interessantes). Pelo menos o filme de Wright tem Hugh Jackman como um pirata afetado que abusa da pompa teatral em seus trajes negros de explorador espanhol. 

Peter Pan (Pan / EUA-2015) de Joe Wright com Levi Miller, Hugh Jackman, Rooney Mara, Adeel Akhtar, Garrett Hedllund e Amanda Seyfried. ☻☻

PL►Y: Dope - Um Deslize Perigoso

Diggy, Jib e Dom: lidando com as armadilhas do destino. 

Aclamado do Festival de Sundance ao Festival do Rio no ano de 2015, Dope - Um Deslize Perigoso é o quarto longa-metragem do cineasta Rick Famuyima e também seu filme mais ambicioso. O mais interessante é que o longa parece uma mistura de John Hughes (o carinho em lidar com adolescentes) Spike Lee (o bom humor em lidar com as armadilhas da periferia americana) ao contar a história de três amigos que vivem na periferia, mas que não se enquadram propriamente na vida do gueto, no entanto, precisam lidar com uma série de acontecimentos referentes ao que pretendem escapar. Dom (o rapper Rakim Mayers que demonstra levar o maior jeito para seguir a carreira de ator) é um jovem nerd, negro e fã de hip hop dos anos 1990. Seu maior sonho é estudar em Harvard, mas enquanto isso não acontece, ele enfrenta as desventuras do colegial junto aos seus fiéis amigos, Diggy (Kiersey Clemons) e Jib (Tony Revolori) - com quem toca numa banda. A vida do trio segue uma rotina comum a maioria dos adolescentes, no entanto o roteiro de Famuyiama coloca as armadilhas do tráfico e da violência sempre à espreita de seus simpáticos personagens - e a rotina dos três muda completamente quando, após uma festa, Dom encontra em sua mochila vários pacotes com drogas ilícitas e precisa livrar-se dela antes que suas ambições sigam para o ralo. Entre as desventuras que os personagens enfrentam, o diretor consegue manter um ritmo esperto, que prende a atenção do espectador e utiliza de um humor muitas vezes obscuro para lidar com situações delicadas em que se metem. A bom trabalho de edição utiliza cortes rápidos em momentos estratégicos e outros que seguem e retrocedem quando julga que alguma coisa escapou ao olhar do espectador - especialmente quando encontram os dois irmãos Jaleel (Quincy Brown) e Lily (a modelo Chanel Iman), filhos de um personagem que Dom nem imagina quem seja. Entre surpresas, situações divertidas e outras bastante perigosas, o filme tem méritos por lidar de forma diferente com uma penca de clichês sobre jovens da periferia estadunidense, sempre deixando Dom prestes a chegar no limite de sua índole. Com um elenco carismático bem conduzido, Dope é um filme de energia contagiante e só não alcança o máximo de suas intenções por conta do ato envolvendo um hacker e vendas na internet, o que deixa a trama um tanto confusa e perdendo ritmo quando se aproxima do desfecho (que, sabiamente, não tem a mínima preocupação em ser politicamente correto).

Dope - Um Deslize Perigoso (Dope / EUA - 2015) de Rick Famuyima  com Rakim Mayers, Tony Revolori, Kiersey Clemons, Quincy Brown, Chanel Iman, Zoe Kravitz e Blake Anderson. ☻☻☻☻

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

BREVE: Wiener-Dog

Keaton e sua cachorrinha: a humanidade segundo Todd Solondz. 

Em cartaz no Festival do Rio o americano Wiener-Dog divide opiniões desde sua exibição em Sundance. O motivo maior para as discordâncias é a assinatura de Todd Solondz, que se tornou queridinho indie em 1995 com o excelente Bem-Vindo a Casa de Bonecas e aqui demonstra não querer fazer nada além de contar a história de vários personagens que cruzam a vida de uma simpática cadelinha bassê. Há quem diga que o diretor se repete ao criar sempre histórias que são puro pretexto para expressar seu pessimismo com o mundo e a banalidade da existência. No entanto, Solondz não está nem um pouco preocupado com as críticas que recebe, tanto que no seu filme anterior A Vida Durante a Guerra (2009) não hesitou em retomar a mesma família de seu cultuado Felicidade (1997) e terminou com o roteiro premiado no Festival de Veneza! Aqui ele revisita a menina Dawn Winner (agora vivida por Greta Gerwig), protagonista de Bem-Vindo a Casa de Bonecas. Dawn cresceu e tornou-se técnica em veterinária e é uma das pessoas que cuidam da cachorrinha do título (e os fãs vão ficar animados quando ela reencontrar Brandon, vivido agora por Kieran Culkin... mas não vai muito além disso). O bichinho de estimação ainda passa pelos lares de um garotinho (Keaton Nigel Cooke) que se apaixona pela cachorrinha enquanto seus pais (Julie Delpy e Tracy Letts) são os mais severos possíveis com ela, afinal, eles percebem que a bassê traz alegria para o menino, mas não estão dispostos a mudar a rotina da casa por conta dela. Nessa primeira parte os diálogos ácidos do diretor estão a todo vapor e geram conversas que parecem becos sem saída entre a mãe e o menino. Os diálogos cortantes fazem parte da marca registrada do cinema de Solondz e ganham contornos ainda mais deprimentes quando entra em cena o professor de escola de cinema vivido por Danny DeVito que é desprezado pela indústria cinematográfica e por seus alunos. O humor feito no atrito com situações dramáticas chegam ao auge quando entra em cena a senhora amargurada vivida pela ótima Ellen Burstyn, que recebe a visita da neta (Zosia Mamet da série Girls) antes de se confrontar com uma bando de crianças ruivas que são versões dela mesma se houvesse seguido caminhos diferentes  na vida (versões que vão desde "se você tivesse perdoado a sua mãe" à "se você desse melhores gorjetas"), nesse momento surreal que Solondz demonstra sua genialidade fora da camisa de força que criou para sua carreira e atingindo com perfeição o tom agridoce que desejava ao longo do filme. Quem conhece o mundo de Solondz já pode até imaginar como o filme termina  - e esse é o ponto que pode fazer com que muitos não apreciem o filme. Obsessivo com as marcas de sua cinematografia, Solondz ainda consegue ser interessante, ele pode não ter mais o frescor de seus primeiros filmes, mas pelo menos apresenta a quem se aventura por suas obras um pouco de como a humanidade pode ser cruel nas situações mais simples e corriqueiras - e nem por conta disso ser o vilão da história. 

Wiener-Dog (EUA-2016) de Todd Solondz com Greta Gerwig, Kieran Culkin , Julie Delpy, Tracy Letta, Danny DeVito, Zosia Mamet, Keaton Nigel Cooke e Charlie Tahan. ☻☻☻

PL►Y: Mascotes

Sarah e Zach: casal complicado na fauna de Mascotes. 

Já escrevi no blog como sou fã do dos documentários de mentirinha (mockumentary) do diretor Christopher Guest. Bem antes de Hollywood banalizar o gênero com um bando de cineastas de câmera trêmula e roteiros frouxos, Guest já dominava o gênero fazendo graça com comédias espirituosas como Esperando Sr. Guffman (1996) e O Melhor do Show (2000), o estilo tornou-se sua marca e lhe rendeu até um convite para fazer um quadro cômico no Oscar em 2012 com seus atores favoritos. Pois é, muitos diretores tem um ator recorrente em suas obras, mas Guest tem uma verdadeira patota de atores! Mascotes - lançado mundialmente pela Netflix - traz novamente a parceria do diretor com Parker Posey, Jane Lynch, Fred Willard, Bob Balaban, Jennifer Coolidge, Christopher Moyniham entre outros atores que caem como uma luva no estilo do diretor. Para quem curte o trabalho de Guest, Mascotes garante boas risadas, ainda que deixe a sensação que é uma variação do que já vimos em O Melhor do Show, já que se trata, mais uma vez, das excentricidades vistas nos bastidores de uma competição. A maior diferença é que aqui não se trata dos atritos de um bando de donos de cachorrinhos que disputam uma medalha, mas um grupo de adultos que se fantasiam de mascotes para ganhar a vida. Dessa vez as cenas que simulam entrevistas e registros de bastidores comandam a narrativa até o momento da competição, onde os números inusitados rendem alguns dos melhores momentos do filme. No entanto, serve apenas de desfecho para os personagens que acompanhamos até ali, seja o casal em crise (vivido com gosto por Zach Woods e Sarah Baker) que vive um Polvo e uma Tartaruga, passando por uma dançarina inquieta (Parker Posey) que dá vida a um Tatu chegado à dança moderna, um Encanador (Christopher Moyniham) que é um completo desconhecido até para o time que trabalha, o simpático Porco Espinho (Tom Bennett) inglês que tornou-se herança de família e o complicado Punho (Chris O'Dowd) que sempre se mete em encrencas. Há uma verdadeira enxurrada de piadas durante o filme - e algumas tem a graça justamente em não fazer sentido algum - mas Guest continua astuto perante a abordagem dos personagens e seus dilemas (muitas vezes simples, mas tratados de forma superlativa como em vários documentários sérios). O melhor do cinema de Guest (que aparece no filme como o mentor de Parker Posey) é que ele não tem medo se ser besteirol ou nonsense para fazer graça, e, por isso mesmo, algumas cenas podem ser surpreendentes - até para quem conhece seus filmes anteriores.

Mascotes (Mascots/EUA-2016) de Christopher Guest com Zach Woods, Sarah Baker, Parker Posey, Christopher Moyniham, Chris O'Dowd, Tom Bennett, Jane Lynch e Jennifer Coolidge. ☻☻☻☻

domingo, 16 de outubro de 2016

PL►Y: O Caseiro

Garcia: caçador de fantasmas?

Recentemente o cinema brasileiro começou a produzir cada vez mais filmes de terror e suspense, embora a grande maioria seja de gosto duvidoso, alguns conseguem chamar atenção pela disposição de fazer algo diferente do óbvio. O Caseiro foi celebrado por alguns críticos pelo estilo econômico impresso pelo diretor estreante Julio Santi, afinal, ele aproveita ao máximo o poder da sugestão na mente do espectador. O filme revela pouco sobre os seus mistérios para que ao chegar ao final possa surpreender o público sem aquelas guinadas perigosas no desfecho. A história é protagonizada pelo professor de psicologia paranormal Davi (Bruno Garcia) que aceita o pedido de ajuda de uma de suas alunas, Renata (Malu Rodrigues) que está intrigada com os acontecimentos em torno de sua família que todos acreditam ser obra do fantasma de um caseiro que se suicidou na casa de campo onde seus parentes vivem. Quando Davi aceita ajudá-la ele conhece o patriarca Rubens (Leopoldo Pacheco), a tia Nora (Denise Weiberg) e as irmãs de Renata, a adolescente Gabi (Victoria Leister), as pequenas Lili (Annalara Prate) e Julia (Bianca Batista) que afirma ser assombrada pelo tal caseiro. Enquanto Davi está na casa ele incomoda Rubens e Nora que nunca estão muito dispostos a contar sobre o que está acontecendo. Cético, Davi acaba juntando um monte de pequenas peças que o fazem chegar a uma conclusão que... eu não vou revelar. O roteiro pode não ter nada demais, mas serve para que o diretor fuja dos truques fáceis e embaralhe os mistérios que a história possui na relação de Rubens com o caseiro - que guia a narrativa por um caminho, quando na verdade esconde o que de fato está acontecendo. Santi aproveita a ambientação bucólica da história e o isolamento que ela proporciona auxilia na construção da tensão. No entanto, o filme tem alguns tropeços, o maior deles é que para criar suspense, Santi amarra os atores mais do que devia, drenando a emoção necessária de vários momentos importantes. Com o tom sempre um ponto abaixo do necessário, o filme apela para a trilha sonora assustadora, que mostra-se eficiente desde a primeira cena mas que acaba cansando por ser uso exaustivo. Apesar dos erros, O Caseiro mostra-se eficiente em sua construção narrativa, criando um filme de terror sutil construído a partir das ideias interessantes que tem para desenvolver. 

O Caseiro (Brasil/2016) de Julio Santi com Bruno Garcia, Leopoldo Pacheco, Denise Weinberg, Fábio Takeo, Pedro Bosnich e Malu Rodrigues. ☻☻☻