terça-feira, 17 de abril de 2018

Na Tela: O Insulto

Toni e a esposa: tensas relações. 

Toni (Adel Karam) é um cristão libanês que vive com sua esposa grávida (Rita Hayek) vivem em seu apartamento em uma cidade que não gostam muito. Ainda assim, a vida do casal segue com tranquilidade, até que um dia ao molhar as plantas em sua varanda, Toni molha acidentalmente Yasser Salameh (Kamel El Basha), encarregado de um grupo de profissionais de urbanização que trabalham por ali. Abordado por Yasser sobre o incidente e a irregularidade de sua calha, Toni não é muito gentil e recebe um palavrão como resposta. A partir daí começa o embate entre os dois personagens, que vão de um insulto para agressão física, um processo nos tribunais, manifestações, agressões, ofensas e um verdadeiro caos na cidade onde vivem. Aos poucos o filme explora a tensão entre os dois personagens como um reflexo das relações naquela região. O Insulto foi indicado ao Oscar de Filme Estrangeiro deste ano e se a disputa não fosse tão acirrada, possivelmente teria sido premiado. Existe algo no filme que faz lembrar o cinema do iraniano Asghar Farhadi (que já foi premiado duas vezes nesta categoria, com os ótimos A Separação/2011 e O Apartamento/2016, já que aqui também existe um incidente doméstico que acarreta uma série de situações que se expandem e apresentam uma sociedade que parece uma panela de pressão prestes a explodir (e o que era um drama se torna um suspense sufocante). Justamente por passar de uma situação simples para uma verdadeira guerra, onde preconceitos e interesses políticos se misturam, que o filme ganha força e surpreende. O diretor Ziad Doueiri tem habilidade em conduzir sua história numa tensão crescente, com diálogos que geram reflexões na plateia, mesmo que por vezes pese a mão na condução quase unidimensional de alguns personagens. Aos poucos a trajetória daqueles personagens revela a história daquele lugar e, seja de um lado ou do outro, todo mundo tem suas contas a acertar com o passado, mas o diálogo se torna cada vez mais difícil com dois grupos tão certos de suas convicções. Enquanto Toni segue afirmando que tudo o que queria era um pedido de desculpas (o que está longe de ser verdade), também conseguimos compreender as reações de Yasser ao se sentir ofendido com a postura de seu antagonista. O embate entre os dois já renderia um filme interessante, mas o diretor insere outros elementos que colaboram para que o filme amplie seu apelo, seja a esposa grávida que tenta colocar um pouco de sensatez na mente do seu esposo ou o patrão que se vê numa verdadeira encruzilhada quando seu próprio emprego começa a ser afetado pelo caso. Porém, algumas “surpresas” da trama soam um tanto forçadas, como o relacionamento entre os advogados responsáveis pela defesa e acusação ou a forma melodramática como é apresentada a história de vida de Toni, são situações que destoam do resto da trama e não são desenvolvidas com a mesma desenvoltura do resto da história. Sorte que ainda assim, O Insulto é contundente, com suas imagens e diálogos ásperos que, de quebra, representam bem o quanto os discursos de ódio são perigosos em qualquer lugar. 

O Insulto (L'Insulte / França - Síria - Líbano - Bélgica - EUA / 2017) de Ziad Doueiri com Adel Karam, Rita Hayek, Kamel El Basha, Camille Salameh, Christine Choueiri, Julia Kassar e Talal Jurdi. ☻☻☻☻

segunda-feira, 16 de abril de 2018

4EVER: R. Lee Ermey

24 de março de 1944 ✰ 15 de abril de 2018

Existem artistas que só precisam de um personagem para entrar para a história do cinema. Este é o caso de Ronald Lee Ermey, que ficou famoso por sua atuação como Sargento Hartman em Nascido Para Matar (1987) de Stanley Kubrick. Sua atuação é até hoje lembrada como uma das mais vilanescas da sétima arte. Sua precisão é absoluta na tortura psicológica que seu personagem inflige aos soldados do filme - e torna ainda mais simbólica a transição da primeira parte do filme para a segunda. A atuação lhe rendeu uma indicação ao Globo de Ouro de ator coadjuvante. Ermey nasceu no estado do Kansas e antes de ficar famoso foi sargento na Marinha dos Estados Unidos, de onde tirou parte da entonação e postura de seu famoso personagem. Lee atuou em vários filmes, entre eles Mississipi em Chamas (1988) e Se7en (1995), e emprestou a voz para vários games e animações (Toy Story, Bob Esponja, Simpsons, Kung Fu Panda, Kim Possible, Batman...). O ator faleceu na Califórnia em consequência de uma pneumonia. 

domingo, 15 de abril de 2018

CATÁLOGO: O Povo Contra Larry Flynt

Love, Woody e Brett: vida e obra de um pornógrafo 

Lawrence Claxton Flynt Jr. nasceu no estado americano de Kentucky em 1942 e ninguém imaginava que aquele menino que vendia aguardente produzida no fundo do quintal seria capaz de construir um verdadeiro império da pornografia. A vida de Larry Flynt foi marcada por excessos e  longos embates com o conservadorismo americano, especialmente por conta da revista que consagrou sua marca, a  Hustler - que adotava uma estética considerada repugnante, mas que funcionava provocativamente em oposição à famigerada Playboy. Flynt transformou sua perversão em profissão e assim, sua vida foi marcada por processos e  um atentado que o deixou preso à uma cadeira de rodas. Aos 76 anos tem dificuldades para falar e escutar, tem o rosto visivelmente inchado e é cercado de guarda-costas, no entanto, não perdeu o espírito transgressor capaz de criticar o governo Trump e o cenário político conservador que se desenha ao redor do mundo. Para entender melhor a vida deste personagem americano (e somente nos Estados Unidos seria capaz de alimentar uma figura feito Flynt) vale conferir a cinebiografia lançada em 1996 dirigida por Milos Forman. O longa foi recebido com desconfiança na época de seu lançamento e foi um fiasco nas bilheterias americanas. A crítica achou um verdadeiro exagero apresentar como ícone da liberdade de expressão um pornógrafo com dezenas de processos nas costas, no entanto, as qualidades cinematográficas o fizeram ser indicado a cinco categorias no Globo de Ouro (filme, direção, ator, atriz e roteiro) e duas no Oscar (direção e ator) Woody Harrelson (indicado ao Oscar) está excepcional na pele de Flynt (embora o faça com muito mais simpatia do que o verdadeiro fosse capaz de expressar), o ator  cria um verdadeiro anti-herói americano com todas as características que necessita para ser envolvente, especialmente quando alfineta a hipocrisia de um povo que adora fingir santidade. A grande surpresa do filme ficou por da escolha da roqueira Courtney Love para viver a esposa de Flynt, a stripper bissexual Althea Leasure. O diretor ressaltou que percebeu em Coutney uma sensualidade agressiva que caia muito bem na personagem - e a escolha vista com desconfiança por produtores renderam páginas e páginas de matérias na imprensa (vale lembrar que a Courtney era para os anos 1990 o que Amy Winnehouse foi para o século XXI, seu envolvimento em confusões e uso de drogas estavam sempre na mídia, especialmente após a morte de seu esposo Kurt Cobain do Nirvana). Courtney ainda é uma das artistas mais subestimadas das últimas décadas, mas colheu vários elogios e foi indicada ao Globo de Ouro de melhor atriz dramática (mas com o tempo os projetos no cinema foram rareando). Debaixo de toda a narrativa jurídica em torno da liberdade de expressão (e sua garantia pela  primeira emenda da Constituição Americana), Milos conta também a história de amor de dois personagens controversos que se revelam verdadeiras almas gêmeas. A narrativa é ágil, a reconstituição de época é competente e o trabalho com os atores tem o padrão de qualidade do diretor, mas o filme paga o alto preço de apresentar Larry como o grande defensor da liberdade de expressão na Terra do Tio Sam (o que não deixa de ser uma ideia interessante). Rejeitado em seu tempo e visto mais de vinte anos depois, O Povo Contra Larry Flynt mostra-se ainda mais contundente em tempos de radicalismo, além de ressaltar o gosto de seu diretor por personagens que incomodam muita gente. Milos Forman fará falta. 

O Povo Contra Larry Flynt (The People Vs. Larry Flynt / EUA- 1996) de Milos Forman com Woody Harrelson, Courtney Love, Edward Norton, Brett Harrelson, Donna Hanover, James Cromwell e Crispin Glover. 
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FILMED+: Um Estranho no Ninho

Jack e seus amigos: nó na garganta. 

Um Estranho no Ninho entrou para a história como o segundo filme a ganhar as cinco principais categorias do Oscar (o primeiro que conseguiu a proeza foi Aconteceu Naquela Noite/1934 de Frank Capra e o terceiro foi O Silêncio dos Inocentes/1991  de Jonathan Demme) . Se levarmos em conta que o filme é ambientado em um sanatório e foi lançado em 1976, trata-se de um grande feito. O filme foi indicado a nove estatuetas e levou para casa a nata da premiação: melhor filme, melhor diretor (Milos Forman), melhor ator (Jack Nicholson), melhor atriz (Louise Fletcher) e roteiro adaptado (da peça de Dale Wasserman). O filme também foi o segundo longa em inglês do diretor tcheco Milos Forman, que se tornou um ícone para a nova forma de fazer filmes que Hollywood perseguia, com menos glamour e mais realismo. O filme conta a história de R.P. McMurphy (Jack Nicholson), um homem que chega a um centro de tratamento psiquiátrico com um histórico complicado. Após se envolver em brigas e ter estuprado uma garota de quinze anos, ele visivelmente chega aquele lugar imaginando que seria uma forma de escapar da prisão, afinal, logo se percebe que louco ele não é. No entanto, por mais que ele comece a ter um bom relacionamento com os outros pacientes do local, o seu maior problema é a enfermeira responsável pelo local: a enfermeira Ratched (Louise Fletcher). Por boa parte do filme, a trama gira em torno do novo paciente tentando mudar a forma como os pacientes são tratados naquele lugar desagradável. A televisão vive desligada (e a vontade de ver um jogo de baseball já rende discussões e situações de abuso de poder), não existe atividade física para os pacientes  e a própria terapia de grupo é conduzida com uma serenidade cruel por Ratched. Embora o filme seja habitado por vários atores que ganhariam fama nos anos seguintes (Danny DeVito, Christopher Lloyd e Brad Douriff), a alma do filme está no embate entre Nicholson e Fletcher. Nicholson já tinha quatro indicações ao Oscar antes de levar sua primeira estatueta por este filme. Seu estilo expansivo e charme subversivo já haviam tornado o ator famoso, torna-se visível como ele se diverte em cena - e cria um contraste poderoso quando a situação de seu personagem se torna mais densa naquele lugar. Já Louise Fletcher segue um caminho oposto, sua personagem é aparentemente a calmaria em pessoa, mas aos poucos podemos ver o ódio consumi-la por dentro, alterando seu semblante, seu olhar, provocando leves contrações em seu rosto num auto-controle que está sempre prestes a explodir. A atriz que já era conhecida por seus trabalhos na televisão nunca mais conseguiu um papel tão interessante que lhe rendesse uma atuação tão magnífica quanto a que vemos aqui. O embate por saber quem é o dono do pedaço é o que confere ao filme uma estrutura narrativa poderosa, especialmente quando chega ao final e nos oferece um nó na garganta. Milos Forman se destaca por pegar uma história pesada e lhe dar toques cômicos num raro equilíbrio com o que pode haver de mais trágico na repressão de comportamentos dissonantes. Um Estranho no Ninho é um filme ambientado em praticamente um cenário, sem truques narrativos, mas consegue ir da calmaria ao caos como um raio amparado por um roteiro belamente lapidado. Enfim, um clássico de respeito.

Um Estranho no Ninho (One Flew over the Cukoo's Nest/EUA-1975) de Milos Forman com Jack Nicholson, Louise Fletcher, Christopher Lloyd, Danny DeVito e Brad Douriff. ☻☻☻☻☻

sábado, 14 de abril de 2018

4EVER: Milos Forman

18 de fevereiro de 1932 ✰  14 de abril de 2018

Jan Thomas Forman nasceu na Tchecoslováquia em uma família de protestantes. Durante a Segunda Guerra Mundial seus pais foram perseguidos, sendo o pai preso e morto por distribuir livros proibidos e sua mãe levada para Auschwitz. Jan foi acolhido por parentes durante este período. Talvez pelo tom sombrio de sua história, Milos começou a carreira no cinema fazendo comédias em sua terra natal  (o que ajudou a moldar seu estilo um tanto subversivo). Com o sucesso de seu filme Os Amores de Uma Loira (1967), indicado ao Oscar de filme estrangeiro, o diretor começou a negociar sobre o seu primeiro filme nos EUA, mudando-se para lá e conseguindo a nacionalidade americana em 1977. Estabelecido em Nova York, ele se tornou professor de cinema na Universidade de Columbia.  Seu primeiro filme americano (Procura Insaciável/1971) foi premiado em Cannes e consolidou sua carreira em Hollywood. Logo depois ele lançou  o aclamado Um Estranho no Ninho (1975), que recebeu os cinco principais Oscars (Filme, diretor, ator, atriz e roteiro adaptado). Depois ele dirigiu Hair (1979) e Amadeus (1984), filme que ganhou oito Oscars, incluindo filme e direção. Forman ainda foi indicado ao Oscar mais uma vez pelo controverso O Povo Contra Larry Flynt (1996). O cineasta faleceu em sua residência em Connecticut após um breve mal estar. 

quinta-feira, 12 de abril de 2018

Na Tela: Jogador Nº 1

Tye: avalanche de easter eggs. 

Steven Spielberg construiu sua fama em Hollywood com base em uma revolução nos filmes de entretenimento. Pode se dizer que muito do que vemos entre as maiores bilheterias de cada ano não existiriam se ele não houvesse mudado a forma com que os estúdios percebem este tipo de cinema. Depois ele precisou fazer filmes sérios para ser consagrado como um cineasta de prestígio, por vezes amargou fracassos, em outros colheu elogios e ganhou Oscars (só de diretor ele tem dois na estante). O estranho foi que em suas últimas aventuras pelo mundo milionário das superproduções, ele amargou filmes que não conseguiam ser a sombra do que ele foi no passado. Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal (2008) deixou os fãs mais confusos do que satisfeitos, a animação As Aventuras de Tintim (2011) era mais bem feita do que empolgante e O Bom Gigante Amigo (2016) foi rotulado como um dos mais frustrantes de sua carreira. A chance de levar para as telas a obra de Ernest Kline era a grande chance do diretor entrar em sintonia com seu novo público para o século  XXI. Jogador Número 1 era tudo que Spielberg precisava para se comunicar com o público jovem atual, afinal, tem a chance de lidar com toneladas de efeitos especiais, ritmo vertiginoso e easter eggs - e este conceito  faz parte importante da história. São tantas referências escondidas no filme que assisti-lo se torna um verdadeiro desafio para saber identificar todos - e Spielberg ainda teve a elegância de cortar todas as alusões ao seu trabalho que estavam presentes no livro. A história em si não tem nada demais, mas serve de fio condutor para o diretor criar um mundo imagético próprio, repleto de símbolos da cultura pop (com curiosa ênfase nos anos 1980 e 1990) e que se misturam com um simples clique dos usuários do Oasis. Oasis é um mundo virtual onde a humanidade prefere viver conectada do que perceber a realidade cinzenta e sem muita perspectiva do mundo real. É neste mundo futurístico em frangalhos que vive o protagonista Wade (Tye Sheridan, o jovem Ciclope de X-Men: Apocalipse/2016 - que aqui usa óculos iguaizinhos ao do herói). No jogo ele é Parzival, um dos personagens que parte na busca de easter eggs escondidos pelo criador do Oasis e que servirá para derrotar o empresário megalomaníaco Sorrento (Ben Mendelsohn). Boa parte do filme se passa no mundo de fantasia, onde Wade, ou melhor, Parzival tem amigos que nem conhece no mundo real - pelo menos até ele ser perseguido por Sorrento. O filme é uma correria num verdadeiro espetáculo visual, poderia ser ainda mais interessante se o roteiro não optasse por diálogos simplistas e algumas situações que parecem puro clichê. Como diversão o filme funciona muito bem, mas perde a chance de ser uma alusão mais densa ao mundo fascinado (e viciado) por tecnologia que vivemos hoje. Porém, pode ser eu que tenha envelhecido demais para ficar satisfeito com este filme.  Não duvido que o longa será um sucesso ao redor do mundo e possa até se tornar uma série de sucesso nos cinemas, mas isto me faz pensar em outro ponto que nem é tão relevante agora: Tye Sheridan já me parece no limite para viver um adolescente. O ator mirim cresceu e se tornou um ator esforçado, mas quem rouba a cena é sua parceira de cena, Olivia Cooke. Cooke foi revelada na série Bates Motel e ganhou a tela grande com o ótimo Eu, Você e a Garota que Vai Morrer (2015) e aqui, prova mais uma vez que é impossível não se tornar fã dela. Espero que ela faça mais filmes depois deste aqui. 

Jogador Número 1 (Ready Player One/EUA-2018) de Steven Spielberg com Tye Sheridan, Olivia Cooke, Ben Mendelsohn, Mark Rylance, Simon Pegg e Phillip Zao. ☻☻☻

terça-feira, 10 de abril de 2018

10+ Jake Gyllenhaal

Pouca gente lembra, mas Jacob Benjamin Gyllenhaal começou sua carreira como ator infantil em 1990, durante as filmagens da comédia de faroeste Amigos, Sempre Amigos (1991). O menino californiano cresceu e chamou atenção com seus grandes olhos azuis. Bastou ele ser protagonista do bom O Céu de Outubro (1999) para que percebessem o seu potencial para astro. O papel promoveu a primeira guinada em sua carreira, rendendo três filmes em 2001 - com destaque para o cult Donnie Darko (2001). De lá para cá, Jake enfrentou críticas, foi indicado a prêmios e amadureceu o suficiente para ser um dos atores mais respeitados de sua geração. Esta lista é para lembrar meus dez papéis favoritos do rapaz - e que o ajudaram a ser um dos atores mais requisitados do cinema americano:

10 Soldado Anônimo (2005) de Sam Mendes
Pouca gente entendeu este filme quando estreou, no entanto, é uma das obras mais curiosas sobre a relação dos americanos e seu gosto por guerras. 

Jake convence como um boxeador em crise profissional e pessoal, mesmo que o roteiro capenga não ajude o filme a alcançar todas as intenções que deveria. 

Fosse feito nos anos 1990, provavelmente o papel teria ficado com Jim Carrey, no entanto, a escolha de Jake para este papel caricato inusitado surpreende até hoje. 

O primeiro papel adulto do ator foi como o jornalista Robert Graysmith que ajudou nas investigações para encontrar o famigerado serial killer americano entre os anos 1960 e 1970. 

06 Donnie Darko (2001) de Richard Kelly
O primeiro grande sucesso do ator se tornou cult com sua história que mistura viagens no tempo, apocalipse e um coelho macabro. Até hoje teorias se multiplicam sobre o filme.

Jake bem que merecia maior destaque nas premiações com sua desconstrução de um recente herói americano. Entre a fama e seus desafios pessoais, o ator acerta o tom num filme irregular. 

Em sua segunda parceria com o diretor canadense, Jake encarna dois personagens que podem ser sósias, irmãos, clones, rivais, projeções, ilusões ou apenas um devaneio aracnídeo. 

O ator perdeu 14 quilos para viver o sanguinário freelancer que faz a glória de um canal sensacionalista. Pelo ar estranho (e cadavérico), ele  foi indicado ao Globo de Ouro. 

Embora já colecione várias atuações no currículo, Jake foi indicado ao Oscar somente como o cowboy gay Jack Twist neste aclamado filme. Jake concorreu como melhor ator coadjuvante. 

Dar conta de um personagem que se divide em dois não é tarefa fácil. No elaborado filme de Tom Forde, Jake interpreta um escritor e seu personagem com a mesma precisão (e angústia). 

segunda-feira, 9 de abril de 2018

Na Tela: O que Te Faz Mais Forte

Tatiana e Jake: a vida após uma tragédia. 

Com uma indicação ao Oscar de ator coadjuvante por Brokeback Mountain (2005) faz algum tempo que Jake Gyllenhaal anda se esforçando para que sua segunda indicação se concretize. No entanto, a Academia o tem ignorado solenemente nos últimos anos. Se os votantes do Oscar não se impressionam com suas atuações recentes, por outro lado, faz tempo que a crítica deixou de o considerar um ator limitado. Prova disso é o seu trabalho neste O Que Te faz Mais Forte - sua atuação ficou de fora de praticamente todos os prêmios da temporada, sendo lembrado somente no Critic's Choice Awards 2018. Adaptado pelo diretor David Gordon Green do livro autobiográfico de Jeff Bauman, muita gente viu o filme com grande desconfiança, imaginando que seria mais um daqueles filmes melodramáticos sobre superação, no entanto o filme toma algumas decisões curiosas, corajosas até, no que se refere ao seu protagonista. Jeff Bauman ficou famoso por ser uma das vítimas do atentado ocorrido na Maratona de Boston no ano de 2013, onde dois homens explodiram bombas de fabricação caseira e deixaram uma centena de vítimas que assistiam o evento pelas ruas da cidade. Bauman perdeu a maior parte de suas pernas e após um período desacordado, se tornou um herói nacional por identificar um dos responsáveis pelas explosões. Esta parte mais conhecida da história é tratada de forma bem rápida no início do filme, o que interessa mesmo ao diretor é explorar o conflito vivido por um homem que era visto como um herói, mas se encontrava em frangalhos por dentro. Enquanto todos queriam tirar fotos e entrevistá-lo, ele sofria com a sua nova condição, onde situações simples como acordar pela manhã ou ir ao banheiro marcava o início de um grande desafio. Além disso o filme dedica boa parte de sua duração a narrar a dura reabilitação de Jeff, que rende para Jake Gyllenhaal um trabalho físico realmente impressionante. É curioso como o filme não ameniza a vida comum de seu protagonista, optando por representá-lo como uma pessoa de carne e osso, que mostra-se imaturo, fala e faz bobagens ao lado dos amigos e não consegue disfarçar o incômodo com o gosto da mãe pela bebida e o prazer de ver o filho se tornar uma celebridade (é notável o desconforto toda vez que tem que vibrar os braços no ar em uma celebração constante de algo que não via sentido). Quem esperava uma visão bonitinha da vida de Bauman vai se decepcionar, já que o filme faz justamente o oposto (o que colaborou para o filme ir mal nas bilheterias americanas). O ponto de equilíbrio na vida de Jeff é a presença de Erin, a ex-namorada que o levou a estar presente na tal maratona (que rende para a canadense Tatiana Maslany, da série Orphan Black, outro bom trabalho). O relacionamento entre Jeff e Erin é um dos pontos mais interessantes do filme, já que mistura romance (com um tanto de culpa e cobranças) que serve de fio condutor para a narrativa um tanto dispersa ao gosto de Gordon Green. É verdade que o filme funciona bem em sua primeira hora. Consegue ser realista na medida certa, enxuto, redondinho... depois ele começa a relaxar e utilizar cenas que parecem estar ali só para esticar a duração da história. O que te Faz Mais Forte não é um grande filme, mas é sincero ao transformar um herói americano no que ele realmente é: um sujeito comum que viu a vida mudar radicalmente após uma tragédia. 

O Que Te Faz Mais Forte (Stronger/EUA-2017) de David Gordon Green com Jake Gyllenhaal, Tatiana Maslany, Miranda Richardson, Richard Lane Jr., Clancy Brown e Nate Richman. ☻☻☻

NªTV: A Casa de Papel

A gangue: sucessivas reviravoltas. 

A minissérie espanhola La Casa de Papel estreou na Netflix em meio às comemorações de fim de ano (25 de dezembro de 2017 para ser exato) sem fazer muito alarde. Aos poucos a série ganhou numerosos fãs que realizaram uma verdadeira campanha boa a boca e a série se tornou uma das mais assistidas do serviço de streaming nos primeiros meses de 2018. Lançada em maio do ano passado na Espanha, A Casa de Papel conseguiu ótima audiência por onde passou e se tornou um sucesso mundial com sua narrativa ágil e personagens complexos que, não raro, enveredam por um tom quase novelesco (e não há problema nenhum nisso, já que, devidamente lapidado, faz parte da identidade do próprio cinema espanhol). Concebida e exibida originalmente como uma minissérie, não entendi muito bem o motivo da Netflix dividir a série em duas partes aqui no Brasil, afinal, quando assistimos a segunda parte (que está disponível desde o dia seis de abril) vemos claramente que a tensão crescente sofre um golpe doloroso com o intervalo forçado de tempo. No entanto, isso não prejudica os méritos da série que apresenta um elaborado roubo à Casa da Moeda espanhola, ou melhor, na verdade, o roubo nem é tão elaborado assim, mas subverte um dos pontos mais importantes nas produções do gênero: o tempo. Enquanto na maioria das produções sobre assaltos os criminosos precisam fazer tudo no espaço mais curto de tempo para não serem pegos, os ladrões aqui precisam de tempo, ou melhor, enrolar a polícia para que fiquem mais tempo ali dentro produzindo mais e mais dinheiro. Ao longo dos capítulos, a cifra se aproxima da casa do bilhão de euros, no entanto, a quadrilha precisa ficar atenta para driblar todos os percalços do caminho. Embora tudo seja magistralmente arquitetado pelo Professor (Álvaro Morte), várias vezes o fator humano coloca em risco o sucesso de sua meticulosa arquitetura. Neste ponto não estamos falando apenas no romance da narradora Tóquio (Úrsula Corberó) e o jovem hacker Rio (Miguel Herrán), das rusgas entre Nairóbi (a ladra de cenas Alba Flores) e o assustador Berlim (Pedro Alonso), as pendengas familiares entre  o pai Moscou (Paco Tous) e o filho temperamental Denver (Jaime Lorente), ou a presença sempre truculenta de Helsinque (Darko Peric) e Oslo (Roberto García Ruiz), estou falando também do envolvimento do Professor com a encarregada de resolver aquela situação que se arrasta por dias, a detetive Raquel Murilo (Itziar Ituño). O mais legal da série é a forma como ela se reinventa para nunca perder a atenção do espectador, seja com estratégias improvisadas para manter o plano original funcionando ou descobertas e surpresas que aparecem pelo caminho, A Casa de Papel flui com uma eficiência invejável e, mesmo quando exagera nas mentiras, torna-se ainda mais divertida. Outro ponto forte da história é como os roteiristas ampliam seu leque de personagens durante os episódios, utilizando parentes, dramas pessoais, reféns e investigadores para alimentar ainda mais a tensão da história. Além de seus méritos, o sucesso da produção ainda pode ter outro mérito: chamar atenção do público brasileiro para séries europeias. A grande maioria são exibidas por aqui sem muito alarde, o que é uma pena já que séries magistrais como a francesa Les Revenants (que ganhou uma versão chamada The Returned na própria Netflix, só que bem menos interessante que a original) e a sueca Real Humans (que foi refilmado pela AMC sem tanto êxito) nunca ganharam atenção merecida do público brasileiro. Quem sabe com A Casa de Papel o público descubra que existem séries muito interessantes em línguas diferentes da inglesa.

A Casa de Papel (La Casa de Papel / Espanha - 2017) de Álex Pina com Álvaro Morte, Itziar Itoño, Úrsula Corberó, Miguel Herrán, Pedro Alonso, Alba Flores, Jaime Lorente, Paco Tous, Darko Peric e Esther Acebo. ☻☻☻☻