quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

FAV✪RITOS 2021 - TELEVISÃO

O ano de 2021 foi tão atarefado que até a última semana do ano foi bastante ocupada, ao ponto de não ter tempo de postar muito aqui no blog. Com isso, até as minhas listas de favoritos ficaram um pouco esquecidas... antes que o ano vá desta para melhor, ainda tenho tempo de postar algumas coisas. Esta é minha lista de favoritos televisivos do ano que chega ao fim (sei que estou devendo postagens de alguns mencionados aqui, mas prometo fazer assim que puder): 

MELH✪R SÉRIE 

AT✪R COADJUVANTE 

ATRIZ C✪ADJUVANTE

MELHOR AT✪R

MELH✪R ATRIZ

MELH
✪R MINISSÉRIE

sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

PL►Y: Being the Ricardos

 
Nicole e Javier: casal célebre por trás das câmeras. 

Para Aaron Sorkin não basta ser um dos roteiristas mais cultuados dos Estados Unidos, ele quer ser reconhecido como cineasta desde que estreou atrás das câmeras com A Grande Jogada (2017), que ironicamente lhe rendeu uma indicação de... melhor roteiro adaptado no Oscar. Aquilo deve ter soado como uma espécie de provocação e neste ano lá estava ele no Oscar novamente, só que com o amparo das sete indicações de Os Sete de Chicago (2020), que entrou no páreo de melhor filme, mas ficou de fora do prêmio de direção. Sorkin concorreu como roteirista de novo pelo texto original do longa e se ano passado a Netflix garantiu ao filme a projeção que o levou às premiações em 2021, Sorkin se aliou à Amazon para bancar seu novo trabalho como diretor. Lançado no Prime Video aqui no Brasil, Being the Ricardos chega a tempo de colocar Nicole Kidman no radar das premiações com sua interpretação da icônica Lucille Ball, estrela do cultuado seriado I Love Lucy, programa que estrelava ao lado de seu marido, Desi Arnaz (Javier Bardem) nos anos 1950. O filme acompanha uma semana nos bastidores do programa e mistura várias tensões na vida do casal que parecem anabolizadas quando Lucille cai na mira da caça aos comunistas na Terra do Tio Sam. A acusação parece girar em torno de um mal entendido, mas é o suficiente para colocar em risco não apenas o programa, mas também a carreira da atriz para sempre. No entanto, junte a isso as suspeitas de adultério do esposo, a produção do episódio semanal (que pode ser o último), a relação com os patrocinadores do programa e membros do elenco... tudo sugere que existe uma bomba prestes a explodir ao longo do filme. Tudo sugere, menos a direção de Aaron Sorkin, que encontra dificuldades para criar a atmosfera densa para contar a história que criou. A sorte é que isso não afeta o trabalho dos seus atores, que estão muito muito bem em cena, especialmente Nicole que desconstrói a imagem que temos da atriz envolta na personagem que Lucille imortalizou na televisão. I Love Lucy é um destes programas lendários que tinha a audiência fiel de mais de 60 milhões de espectadores por episódio (para se ter ideia o final de Game of Thrones atingiu quase vinte milhões de espectadores). O roteiro mostra outras nuances da estrela, demonstrando o cuidado que ela tinha com cada episódio, seu apreço pela comédia física, sua inteligência em torno da preparação das situações de cada capítulo, sua imaginação fermentando cada ideia. Ao lado disso, está o problema de Sorkin querer abraçar tanta coisa que as ideias sobrepostas fazem com que uma diminua o apelo da outra e, por vezes, o desfecho de cada uma delas não alcança o clímax desejado (um telefonema no final, um lenço sujo no outro, uma papo com as colegas de elenco...) parece que tudo se resolve de forma simples para um roteiro cheio de direcionamentos, entrevistas dramatizadas, flashbacks e contextos políticos, românticos, profissionais... no fim das contas, graças à aprovação da filha de Lucille e Arnaz, fica a sensação de que conhecemos um pouco mais daquele casal real, longe dos personagens da telinha. Nem vou entrar nos méritos da estranha maquiagem da Nicole e da criticada escalação do espanhol Barden para viver um cubano, afinal, acho que o talento de ambos compensa estes tropeços. Ao final da sessão, a principal ideia que fica é como Sendo os Ricardos (a tradução literal do filme calcada na família de Lucy e Ricky Ricardo) proporcionava a Lucille e Arnaz uma vida idealizada do dia, sem os conflitos de quando se deparavam com a realidade do lar ao final do dia.

Being the Ricardos - Apresentando os Ricardos (Being the Ricardos / EUA - 2021) de Aaron Sorkin com Nicole Kidman, Javier Bardem, JK Simmons, Nina Arianda, Alia Shawcat, Tony Hale e Jake Lacy. ☻☻☻

segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

10+ Melhores Pôsteres de 2021

Inaugurando minhas listas de fim de ano está a tradicional postagem dos meus pôsteres favoritos do ano. Vale destacar que depois de um ano de cinemas fechados, os candidatos a prêmios de fim de ano capricharam nos cartazes para chamar atenção do público - e por isso, aparecem em várias posições por aqui. A seguir os meus dez favoritos, do décimo até o que mais gosto (e foi difícil decidir a ordem do pódio):

#10 "Duna" de Denis Villenneuve

09 "O Último Duelo" de Ridley Scott

#08 "C'mon C'mon" de Mike Mills

#07 "In the Earth" de Ben Wheatley

#06 "Licorice Pizza" de Paul Thomas Anderson

#05 "O Cavaleiro Verde" de David Lowery


#03 "Flee" de Jonas Poher Rasmussen

#02 "Spencer" de Pablo Larraín

#01 "Belfast" de Kenneth Brannagh


PL►Y: Encontros

 
Riz: a paranoia de cada dia. 

Riz Ahmed fez bonito no ano passado com seu trabalho em O Som do Silêncio (2020), indicado aos principais prêmios do cinema, incluindo o Oscar, Riz demonstrou estar na melhor fase de sua carreira, aquele momento em que você aguarda ansioso para ver o próximo projeto de um ator e... pode ficar um pouco decepcionado quando se depara com Encontros. Em cartaz no Prime Video, o filme começa feito uma ficção científica promissora, com Riz vivendo Malik Khan, um ex-oficial da marinha que acredita que a o mundo está sendo invadido por um microrganismo alienígena que contamina as pessoas através da picada de insetos infectados. Diante da ameaça de outro mundo, Malik resolve ir buscar os filhos (o bom Lucian-River Chauhan e o pequeno Aditya Geddada) que moram com mãe e o padrasto. Malik acredita que a ex-esposa já foi contaminada e, por conta disso, já perdeu o controle mental de suas atitudes. O pai e os meninos partem então para uma base militar em que podem ficar seguros e aguardar por uma imunização. Até chegar lá, os três precisam ficar atentos ao perigo e usar toneladas de repelentes de insetos. Quando a credibilidade em torno de Malik começa a ficar abalada, o filme revela uma outra face de sua história. O problema é que lançada a ideia inicial e a guinada em sua metade, o diretor Michael Pearce (de Beast/2017) não sabe muito o que fazer além de carregar o seu filme cada vez mais para o lugar comum. Começa como um sci-fi, depois se torna um road movie pouco inspirado, vira um filme policial e sucumbe à violência sem muita convicção. Enquanto o roteiro mostra-se bastante irregular, o elenco se esforça em nome de um verdadeiro milagre. Riz Ahmed está bem em cena, mas o personagem não tem muito a lhe oferecer, o mesmo pode se dizer de Octavia Spencer que faz o que pode com a personagem que acredita que Malik é um homem bom.  O legal mesmo é o trabalho de Lucian-River como o primogênito de Malik. O menino carrega nas costas todo o peso de precisar lidar com as ambiguidades de seu pai, que aos poucos se revela mais estranho do que ele imaginava. Quando o menino está em cena, o filme até parece que vai melhorar, porém é muito longo e arrastado, prometendo mais do que cumpre.

Encontros (Encounter / EUA -2021) de Michael Pearce com Riz Ahmed, Lucian-River Chauhan, Aditya Geddada e Octavia Spencer. ☻

PL►Y: A Mão de Deus

Fabietto (à direita): ideias e memórias de Sorrentino. 

Ganhador do Leão de Prata no Festival de Veneza deste ano e indicado ao Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro, o italiano A Mão de Deus ambiciona uma vaga nesta mesma categoria no Oscar que se aproxima. Lançado aqui pela Netflix o filme chama atenção para quem conhece os filmes anteriores de Paolo Sorrentino, o oscarizado A Grande Beleza (2013) e A Juventude (2015) - este seu primeiro filme em língua inglesa - mas tem pouca relação com estes dois. O filme marca o retorno do cineasta à sua cidade natal, Nápoles, local em que não filmava desde a sua estreia em 2001 e ainda carrega a expectativa de trazer vários pontos inspirado em sua própria vida. No entanto é melhor calibrar as suas expectativas, já que o filme é bastante irregular em suas ambições. Mistura uma família "excêntrica", com futebol, a passagem para vida adulta, erotismo, uma tragédia pessoal numa verdadeira colagem de situações que não chega a ter uma cadência envolvente. Geralmente acusado de se preocupar mais com a forma do que o conteúdo dos seus filmes, aqui Sorrentino parece querer abraçar tudo o que a vida é capaz de proporcionar ao seu jovem protagonista, mas infelizmente deixa de lado a elegância que costuma estampar seus filmes. A trama é ambientada nos anos 1980 e gira em torno do adolescente Fabietto (Filippo Scotti que parece o irmão caçula do Timothée Chalamet), que vive com o pai, Saverio (Toni Servillo),  a mãe (Teresa Saponangelo) e o irmão (Marlon Joubert) num apartamento em Nápoles. Enquanto o irmão sonha em ser ator, Fabietto quer ser filósofo e depois cineasta. O jovem é apaixonado por uma tia problemática (Luisa Ranieri) e por futebol, o que fica  bastante evidente com a promessa da compra do craque Maradona para o seu time. Sorrentino tem o hábito de citar vários filmes italianos clássicos e aqui ele se utiliza de muitas referências de comédias familiares espalhafatosas, mas também apela para um forte teor de comédias picantes. Em alguns momentos fica difícil se equilibrar entre o bom senso e a vulgaridade principalmente nas cenas em que o filme apela para a exposição física da tia do rapaz e também na primeira experiência sexual do menino. O gosto duvidoso também aparece em algumas cenas de humor, como os comentários quando a tia obesa vai mergulhar ou do convidado que precisa de um aparelho para conseguir conversar (e o que acontece com ele é no mínimo lamentável). O título faz uma alusão ao histórico gol de Maradona contra a Inglaterra, mas também a um fato que muda a vida do protagonista para sempre. Quando o filme faz sua guinada dramática, ele parece ficar ainda mais disperso, dependendo muito da habilidade do diretor para construir suas cenas com auxílio de uma belíssima fotografia. Entre tantos tipos caricatos que cercam o rapaz, o meu personagem favorito acabou sendo o Marchino, o irmão mais velho de Fabietto. Indo contra o tom que na maioria das vezes soa tão postiço, o ator Marlon Joubert tem uma discreta e importante participação como um território seguro para as inseguranças do seu irmão, pena que a bela relação dos dois é pouco explorada. Quando chega ao final, A  Mão de Deus se revela uma verdadeira colagem de ideias variadas (ou seriam memórias?), mas faltou uma forma mais sutil de costurá-las. Em cartaz na Netflix, o filme também conta com um pequeno documentário de Sorrentino falando um pouco sobre seu retorno à Nápoles e alguns pontos de inspiração, mas não melhora em nada a minha frustração com este filme.  

A Mão de Deus (È Estata la mano di Dio/Itália - 2021) de Paolo Sorrentino com Filippo Scotti, Toni Servillo, Teresa Saponangelo, Marlon Joubert, Luisa Ranieri, Renato Carpentieri, Massimiliano Gallo e Betty Pedrazzi. ☻☻

domingo, 19 de dezembro de 2021

Na Tela: Homem-Aranha Sem Volta Para Casa

 
Miranha: entrando nos eixos. 

Falar de Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa e atender ao pedido de Tom Holland de não divulgar SPOILERS é um grande desafio, mas eu vou tentar em respeito aos espectadores que tem o mesmo direito de vivenciar a mesma experiência na sala escura. Vou começar ressaltando o que se tornou um verdadeiro lugar-comum na era Tom Holland na pele do herói aracnídeo, afinal, quem conhece o personagem nos quadrinhos ou nos filmes anteriores, sempre percebeu que havia uma série de questões que a Marvel parecia ter alterado para enquadrar Peter Parker no seu MCU. Dentro do universo dos Vingadores (2011) o personagem se tornou praticamente um Aranha de Ferro diante de toda a tecnologia que foi incorporada ao seu uniforme, o que teve um verdadeiro efeito colateral de o tornar muito dependente do Sr. Stark para se livrar dos problemas que enfrentou até aqui em seus últimos filmes solo - vale ressaltar que a maioria dos problemas foram criados por ele mesmo e aqui não é diferente. Como todo mundo já viu no trailer, a coisa ficou complicada quando Mystério (Jake Gyllenhaal) acusou o Homem-Aranha de assassiná-lo e que Peter Parker é a verdadeira identidade do herói. Daí em diante, a vida do mocinho virou um inferno. Com a mídia contra ele e parte da sociedade considerando que Mystério era o verdadeiro herói da história, a situação fica complicada e o diretor Jon Watts não poderia continuar na comodidade do clima de filmes adolescentes como antes, afinal, era o anúncio do que todos esperavam desde que esta nova versão chegou às telas: ver o Spider-boy amadurecer e virar Spider-Man. Para isso o filme parte de mais um erro de Peter: solicitar (e atrapalhar) Doutor Estranho (Benedict Cumberbatch) a fazer um feitiço que faça todos esquecerem que ele é o Homem-Aranha. Bem, na verdade ele quer que a MJ (Zendaya) continue sabendo, e a tia May (Marisa Tomei) também e o Happy (Jon Favreau) e... feitiço estragado, o mundo começa a ter que lidar com vilões vindos de universos diferentes, ou melhor de fases diferentes do herói nos cinemas. Assim, Doutor Octopus (Alfred Molina), Duende Verde (Willem Dafoe), Lagarto (Rhys Ifans),  Homem-Areia (Thomas Hayden Church) e Electro (Jamie Foxx em versão repaginada de sua versão anteriormente idiotizada nos cinemas) estão de volta diante de um Peter Parker completamente desconhecido. Sendo assim, Parker também não sabe do que estes vilões são capazes, mas resolve ajuda-los a superar seus problemas metendo os pés pelas mãos mais uma vez. A graça do filme é justamente tentar dar segmento à trajetória destes vilões dentro das franquias que participaram, bem, é mais do que isso: é dar segmento às franquias das quais participaram. Afinal, todo mundo sabe que a primeira trilogia de Tobey Maguire terminou com um filme ruim e o quarto filme foi cancelado depois que diretores e elenco brigaram com a Sony. No entanto, o primeiro Homem-Aranha é lembrado com muito carinho por todos os fãs. Já os filmes de Andrew Garfield terminaram justamente quando ele perdia sua amada Gwen Stacy num filme lamentável. O que Sem Volta Para Casa faz de melhor é evitar que Tom Holland também fique pelo meio do caminho com todas as críticas que sua trilogia recebeu e, para isso, o estúdio ouviu os fãs e até exagera nos fan services que vemos na tela (calma, só acho que aquela primeira cena pós-créditos não precisava, embora parte do cinema tenha ido ao delírio). Não sei se era marketing, mas Holland antes da estreia do filme dizia que era a vez de ter um Homem-Aranha de outra etnia nas telas, depois disse que queria dar um tempo na carreira de ator por fazer isso desde os onze anos de idade (só que ao mesmo tempo era noticiado que viverá Fred Astaire numa cinebiografia), mas a Sony já falou do interesse de fazer uma nova trilogia com o garoto, especialmente com o desfecho cheio de possibilidades deste aqui. No fim das contas, o filme promove uma verdadeira celebração aos fãs de diferentes gerações e, ainda que sutilmente, utiliza as diferenças entre elas para construir o roteiro cheio de nostalgia (que se amplia nos tempos sinistros que vivemos). Criado para ser acelerado, inquieto, ligado em tecnologia como o público a que se destinava, faltava aquele momento em que o Peter de Holland finalmente deveria deixar a ficha cair e ver que "grandes poderes trazem grandes responsabilidade" e que, por vezes, a consequência dos seus atos podem ser irreversíveis (e ouvir a voz da experiência faz a diferença). Melhor parar por aqui antes que eu fale mais do que devia... o fato é que com o sucesso astronômico do filme, este Homem-Aranha ainda crescerá muito diante dos nossos olhos. Até ter dor nas costas? Talvez...

Homem-Aranha: Sem Volta para Casa (Spider-Man: No Way Home - EUA/2021) de Jon Watts com Tom Holland, Zendaya, Marisa Tomei, Benedict Cumberbatch, Willem Dafoe, Alfred Molina, Jamie Foxx, Charlie Cox e Jon Favreau. ☻☻☻☻ 

sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

PL►Y: Imperdoável

Sandra: a cara da tristeza... 

Ruth Slater (Sandra Bullock) passou vinte anos na prisão sob a acusação de ter assassinado um policial. Ela estava prestes a perder a casa, em que morava com a irmã caçula, para o banco. O incidente lhe custou não apenas a liberdade nos anos seguintes, mas também a guarda da menina que aos cinco anos foi enviada para adoção. Ruth cuidou a menina desde que a mãe falecera no parto, o pai nunca deu conta de seus deveres e as dívidas e tudo mais só complicaram ainda mais a vida da personagem, mas, obviamente, nada justifica o fato de ter tirado a vida de alguém. Quando ela finalmente sai da prisão, seu maior desejo é reencontrar a irmã, cujo paradeiro é desconhecido, mas entre seus obstáculos estão uma ordem judicial que proíbe o contato com a garota e o pesado rótulo de ser uma assassina de policiais - o que prejudica que arranje um ambicionado emprego em carpintaria e ainda renda agressões por alguns espaços que frequenta. Como se percebe, drama é o que não falta no andamento da história que, somado ao bom trabalho de Sandra (que emana não apenas tristeza, mas estar um tanto morta por dentro) e os nomes valiosos que dividem a cena com a estrela, o filme já teria material de sobra para sustentar o interesse de plateia. Adaptado de uma minissérie britânica, o filme pincela uma série de temas relacionados à vida de Ruth, na maioria deles não dá conta do que sugere, mas o seu maior problema é quando considera que todo o sofrimento da personagem não seria suficiente para desenvolver o filme e resolvem injetar um tanto de suspense por conta do plano envolvendo os dois filhos, agora crescidos, do policial morto por Ruth. Estes dois personagens são o maior calo do filme, já que nunca são plenamente desenvolvidos em suas motivações (e a relação entre os dois ganha um complicador lá pela metade que é praticamente deixado de lado) e a atitude tomada por um deles deixa aquela sensação que foi do nada a lugar algum. Lançado na Netflix e presente na lista de filmes mais vistos desde então, o filme se mantem por lá pela presença de sua estrela (que estava doida para ser indicada ao Oscar novamente) e o amparo que recebe de nomes relevantes como Viola Davis, Joe Bernthal e Vincent D'Onofrio em participações pequenas, mas importantes na vida da personagem. Sem firulas ou alívios cômicos, a diretora Nora Fingscheidt (de Transtorno Explosivo/2019) não tem pudores em apelar pelo melodrama e o faz com mão pesada mesmo. Se fosse mais modesto em suas ambições e mantido o foco na busca de sua personagem, Imperdoável seria ainda melhor. 

Imperdoável (Unforgivable/EUA - 2021) de Nora Fingscheidt com Sandra Bullock, Viola Davis, Joe Bernthal, Richard Thomas, Linda Emond, Aisling Franciosi e Will Pullen. ☻☻☻

sábado, 11 de dezembro de 2021

FILMED+: Lamb

 
Hilmir e Rapace: quem vai ficar com Ada?

Ao assistir Lamb eu lembrei de crescer ouvindo os comentários de minha mãe que adoro filmes estranhos. Se ela houvesse assistido ao candidato da Islândia por uma vaga ao Oscar de produção estrangeira em 2022, ela diria que eu o amaria. Ela estaria certa. Muita gente vai achar um exagero o fato de atribuir minha cotação máxima para o filme, mas eu explico, a começar pela própria história do filme. O filme é ambientado na zona rural montanhosa da Islândia, uma câmera parece espiar a nevasca severa e segue como um animal à espreita até encontrar as ovelhas criadas pelo casal Maria (Noomi Rapace) e Ingvar (Hilmir Snaer Gudnason). Algo estranho acontece e a prova disso é quando uma das ovelhas da à luz a um filhote que é prontamente adotado por seus criadores. Batizada de Ada e levada a um quarto, com berço e amamentada com uso de mamadeira, o roteiro não gasta diálogos explicando o que está acontecendo, apenas apresenta o fato daquele casal melancólico e sem filhos ter adotado o filhote. Uma fala quase solta revela que um fato está ligado a lendas folclóricas, mas o casal segue  em sua jornada particular de cuidar de Ada como a criança que faltava naquela casa. Se os dois estão muito tranquilos com a ideia, a verdadeira mãe de Ada está desesperada (uma ovelha digna de Oscar se a Academia premiasse animais sabiamente utilizados por um diretor), o que irrita cada vez mais Maria (que é sempre arrastada para a realidade quando o chamado daquela mãe pelo seu filhote atravessa o silêncio da casa). Eis que aos poucos o diretor  Valdimar Johannsson revela que Ada é um bebê híbrido, meio humano, meio animal e o estranhamento da plateia oscila entre o ridículo e a ternura. O grande desafio do filme é fazer a plateia comprar a ideia semelhante a do casal: que aquele filhote é uma criança e merece ser tratado como tal. Este dilema é radicalizado com a chegada do irmão de Ingvar e a tentativa vã de chamar aquele casal para a estranheza do que acontece ali, mas convenhamos que a pequena Ada já ganhou nossa simpatia - e tememos que algo de muito ruim possa acontecer à ela.  Lamb é de fato um filme diferente, quase bizarro, que ousa mais ainda ao se amparar na expectativa de que algo terrível pode acontecer àquela família que encontra a felicidade em uma fantasia. Narrado como um conto folclórico e filmado como uma história de terror, o filme torna-se uma experiência cinematográfica ímpar e parte nosso coração com aquela última cena de Ada, entre seu destino natural e a família que a acolheu. A magia do filme nos faz até esquecer que Ada é um misto brilhante de animais, atores mirins, CGI e fantoches. Para além da "atuação" de Ada e sua mãe biológica, vale ressaltar o excepcional trabalho de Noomi Rapace, que apresenta a melhor performance de sua carreira. Introspectiva, silenciosa e visivelmente consumida de angústias - o que a faz cometer um dos atos mais cruéis do filme - ela é responsável por ampliar todas as sensações que o filme sugere. O controle absurdo do estreante Valdimar Johannsson do roteiro que tem em mãos (feito por ele e pelo escritor Sigurjón Birgir Sigurðsson, mais conhecido como Sjón, autor de vários livros e das músicas de Dançando no Escuro/2000 de Lars Von Trier) faz do filme uma verdadeira obra-prima em sua narrativa, digamos... circular. O filme foi exibido pela primeira vez no Festival de Cannes, recebendo um prêmio especial na Mostra Um Certo Olhar no Festival de Cannes por sua originalidade (óbvio). 

Lamb (Islândia/Suécia/Polônia - 2021) de Valdimar Johannsson com Noomi Rapace, Hilmir Snær Guðnason, Björn Hlynur Haraldsson e Ingvar Sigurdsson. ☻☻☻☻☻ 

10+ Apostas Para o Oscar 2022 (Parte II - Final)

Peço desculpas por não ter postado esta segunda parte conforme prometi no mês de novembro, a postagem acabou ficando inacabada até esta semana e precisei até fazer algumas reformulações já que alguns candidatos da Netflix ao Oscar já foram comentados por aqui - sim, Tick Tick Boom e Identidade possuem chances reais de cravar indicações junto à Academia. Outro que também estreou por aqui e está cada vez mais forte é Duna, que deve transcender as categorias técnicas. Mas nem tudo é festa, três estrelas oscarizadas que ambicionavam ser indicadas novamente, Jennifer Hudson (Respect), Sandra Bullock (Imperdoável) e Halle Berry (Ferida) devem ficar de fora dos prêmios de melhor atriz neste ano por conta de seus filmes bastante criticados, além de Wes Anderson também, já que seu aguardado A Crônica Francesa não emplacou. Abaixo seguem dez filmes que continuam na corrida por uma estatueta dourada:

"Amor Sublime Amor" de Steven Spielberg
Nenhum filme carrega a assinatura de Spielberg impunemente. O filme acabou de estrear nos cinemas brasileiros e já carrega elogios de sua estreia americana bem a tempo de conquistar votantes para o Oscar - o que não é pouco para o cultuado musical oscarizado em 1961. Respeitando o material original o filme consegue dar uma atualizada na questão da imigração nas terras do Tio Sam enquanto conta (cheio de energia e estilo) o romance proibido de seus protagonistas. A refilmagem está Cotada para melhor filme, diretor, fotografia, montagem, figurino, atriz (para a novata Rachel Zegler), atriz coadjuvante (Ariana DeBose) e o que mais você possa imaginar...

"Being the Ricardos" de Aaron Sorkin
O carro chefe da Amazon para a temporada de prêmios é este longa sobre uma semana nos bastidores do sucesso televisivo I Love Lucy. Embora a crítica não tenha morrido de amores pelo filme, Nicole Kidman segue bastante elogiada por seu trabalho como Lucille Ball e permanece  cotada para mais uma indicação ao prêmio de melhor atriz. No elenco ainda estão Javier Bardem e JK Simmons. Embora Sorkin seja bastante querido pela Academia, o filme está mais cotado para categorias técnicas.

"C'mon C'mon" de Mike Mills 
Gosto muito dos filmes de Mike Mills, mas a academia costuma lembrar dele somente na categoria de roteiro original - e com este aqui não deve ser diferente. O longa é bastante terno ao contar a amizade entre um tio (Joaquin Phoenix) e seu sobrinho (Woody Norman) de forma bastante terna dentro dos parâmetros únicos que já são a marca do cinema de Mills. Elogiadíssimo em sua estreia recente nos cinemas americanos, o filme também pode garantir uma nova indicação para Joaquin e para a fotografia em preto e branco. 

"Cyrano" de Joe Wright 
Não seria o máximo ver o talento de Peter Dinklage reconhecido no Oscar? Ele pode entrar no páreo de melhor ator por esta nova versão do clássico Cyrano de Bergerac (que na verdade é a versão musical vista nos palcos em 2018 com texto de Erica Schmidt inspirado no texto de Edmond Rostand de 1897). Dinklage reprisa o papel que viveu nos palcos, vivendo o protagonista que se apaixona e tenta fazer a bela Roxanne (Haley Bennett) se apaixonar por ele, sem que ela descubra a verdadeira aparência dele. A direção é de Joe Wright e o filme também pode aparecer em categorias técnicas. 

"Madres Paralelas" de Pedro Almodóvar
Fora do páreo de melhor filme estrangeiro (e abrindo ainda mais espaço para o favoritismo do japonês Drive my Car e do norueguês The Worse Person in the World), o novo filme do prestigiado diretor espanhol pode aparecer em outras categorias com sua história de duas mães solo com diferentes posturas diante da maternidade. Há quem aposte que Penélope Cruz irá cravar sua segunda indicação ao Oscar de melhor atriz por este que é considerado o melhor trabalho de sua carreira. O filme também está cotado para o Oscar de roteiro original.  

"Não Olhe Para Cima" de Adam McKay
Se seus dois últimos filmes de sua carreira transformaram McKay em um dos queridinhos da Academia, ele agora testa sua popularidade esgarçando o tom de chacota nesta comédia ácida sobre um meteoro que está prestes a colidir com a Terra. Com o objetivo de diminuir os efeitos da catástrofe, dois cientistas (Leonardo DiCaprio e Jennifer Lawrence) resolvem alertar a humanidade sobre o perigo que se aproxima... Dividindo a crítica, o filme brinca com todos os clichês do gênero e ainda flerta com temas da atualidade como negacionismo, fake news e política. A Netflix o tinha como sua principal estreia do ano, mas... será que convence os votantes do Oscar?

"The Humans" de Stephen Karan 
Uma produção independente que deve aparecer entre os indicados é esta adaptação da peça do próprio Karan (que estreia na direção em cinema) que compõe um drama comovente e cheio de mistério em apenas um ato. O filme narra o encontro de uma família em um único cenário. Entre conversas e diferenças a trama se vai se revelando algo bem mais complexo do queum bate-papo. O elenco é composto por Beanie Feldstein, Amy Schumer, Steven Yeun, June Squibb, Jayne Houdyshell  e Richard Jenkins - que é cotado como ator coadjuvante favorito da temporada desde que o longa foi exibido no Festival de Toronto. 

"The Tender Bar" de George Clooney 
Cotado primeiramente para render a Ben Affleck a primeira indicação a um Oscar de interpretação, o novo filme de George Clooney perdeu força nesta reta final ao ser um filme sobre amadurecimento numa temporada em que Licorice Pizza tomou este posto na corrida pelas premiações. O filme pode ficar de fora da categoria principal, mas pode aparecer em outras - entre elas, roteiro adaptado e até cravar uma vaguinha para Affleck por seu trabalho como o tio do escritor JR Moehringer (vivido por Tye Sheridan) nesta adaptação de suas memórias para o cinema. 

"No Ritmo do Coração" de Sian Heder 
Lançado on demand no Brasil no mês de setembro, o filme é uma adaptação do filme francês A Família Bélier e conta a história de Ruby (Emilia Jones) uma adolescente de 17 anos que é a única ouvinte em uma família de surdos. Amante da música, quando uma crise financeira se instaura na família, ela precisa tomar a decisão mais importante de sua vida. Aparecendo em listas de fim de ano e premiações independentes, o longa pode ganhar fôlego para chegar ao Oscar, especialmente pelo trabalho do ator Troy Kotsur que emerge como um dos coadjuvantes favoritos da temporada. O filme conta ainda com a veterana Marlee Matlin a única atriz surda a ganhar um Oscar (melhor atriz por sua estreia em Os Filhos do Silêncio/1986). Um prato cheio para o Oscar que ambiciona ser mais inclusivo. 

"Os Olhos de Tammy Faye" de Michael Showalter 
Jessica Chastain é uma das atrizes mais prestigiadas do cinema americano, mas faz algum tempo que o Oscar ignora seus trabalhos, talvez está dívida conte pontos a seu favor para que a Academia esqueça as críticas sofridas por esta biopic da controversa líder evangélica Tammy Faye (Chastain) e seu esposo Jim Bakker (Andrew Garfield). O filme gira em torno da ascensão, queda e redenção da personagem que ficou famosa por um verdadeiro escândalo nos Estados Unidos. Apesar do roteiro patinar em assuntos delicados, Jessica prova mais uma vez seu talento debaixo de pesada caracterização (que deve indicado o filme ao Oscar de maquiagem e penteados).