sábado, 12 de fevereiro de 2011

CATÁLOGO: Closer - Perto Demais

Portman e Owen: Coadjuvantes que roubam a cena.

Lembro quando Mais Perto, a premiada peça do dramaturgo Patrick Marber foi montada no Brasil com Renata Sorrah, Marco Ricca, José Mayer e Guta Stresser no elenco arrastando um bando de gente para ver a ciranda amorosa nos palcos. Lembro ainda quando sua versão cinematográfica foi exibida na televisão e uma amiga (que por motivos desconhecidos apenas ouvia o filme) disse que era a maior sacanagem. Bem, ela deveria ver o que Mike Nichols fez com o texto. Em Closer se fala de sexo o tempo inteiro, mas não existe uma única cena do gênero durante o filme. Para compensar, o roteiro amplia o assunto para temas como atração, identidade sexual, depressão, solidão, sedução, divórcio, traição... enfim, assunto é o que não falta nessa visão de Marber sobre as relações contemporâneas. Dan (Jude Law) é um típico homem londrino, meio tímido e reprimido, trabalha num jornal na parte de obituários e sua vida parece finalmente ganhar alguma graça quando ele conhece Alice (Natalie Portman, ganhadora do Globo de Ouro de coadjuvante), uma americana misteriosa e com ares de maluquete que conhece num acidente de trânsito. Dan tem pretensões literárias e se apropria das histórias que Alice lhe conta para escrever um livro chamado O Aquário. O livro é lançado anos depois quando ele conhece Anna (Julia Roberts, num tipo bem diferente das mulheres luminosas que encarna frequentemente), fotógrafa divorciada que conhece ao posar para a capa de seu livro. Dan flerta com Anna, ela o rejeita e Alice percebe que há um clima estranho no ar. Como vingança Dan irá gerar o encontro entre Anna e o dermatologista Larry (Clive Owen, ganhador do Globo de Ouro de coadjuvante). Esses quatro personagens terão seus destinos cruzados por mais alguns anos e surpresas aparecem no caminhar da história de diálogos fortes e bem escritos. O mais curioso da sessão é como Portman e Clive Owen parecem comer o filme pelas beiradas até o momento em que seus personagens explodem ao perceber que seus parceiros vistos de perto são bem menos confiáveis do que pareciam no início. Por suas atuações Owen e Portman colheram merecidas indicações ao Oscar de coadjuvante, mas o mais interessante é notar Julia Roberts dando conta de uma personagem deprimida (massacrada numa cena de tirar o fôlego com Clive Owen) e Jude Law tendo o papel mais feminino da sessão (percebeu como ele convence Larry de que realmente é uma mulher numa sala de bate papo pela internet?). Há quem pense que Closer é um filme sobre intimidade, a forma como a relação próxima pode ser corrosiva para os casais. Eu prefiro imaginar que o filme é sobre a forma como tentamos evitar que as pessoas cheguem próximas ao ponto de nos tocar realmente. Talvez por isso eu ache que o longo diálogo de Alice e Larry na boate de strip-tease seja tão perfeita e simbólica sobre os objetivos do filme. Quando Larry grita "A quem eu tenho que pagar para ter um pouco de contato físico aqui" ele parece reclamar de todas as relações que passaram até então diante da lente astuta de Mike Nichols - que, sem malabarismos, tenta tirar o tom teatral da sessão.

CLOSER - Perto Demais (Closer/EUA-2004) de Mike Nicols com Julia Roberts, Jude Law, Clive Owen e Natalie Portman. ☻☻☻☻ 

FILMED+: Beleza Americana

Spacey e Bening: dupla afiada na magistral estréia de Sam Mendes.

Sam Mendes era um festejado diretor inglês que havia trabalhado com estrelas do porte de Judy Dench e Nicole Kidman. Todos se rasgavam em elogios à sua habilidade em sugar o máximo de seus atores e exibir o que seus personagens escondiam em suas entranhas. Portanto, era inevitável que ele fosse convidado a mostrar todo o seu talento no cinema, ou melhor, em Hollywood. A Dreamworks de Spielberg tinha um roteiro primoroso de Allan Ball nas mãos, mas não fazia a mínima ideia de quem poderia levá-lo para a tela com toda a argúcia necessária. Foi quando surgiu o convite e Mendes percebeu que era capaz de fazer uma obra-prima com aquele material. Beleza Americana é um filme único - e ainda fechou com chave de ouro uma década onde o cinema hollywoodiano flertou com a estrutura narrativa do cinema independente. Na década de 1990, com o fim da Guerra Fria, os cineastas sobrinhos do Tio Sam começaram a voltar-se mais para o próprio umbigo, ou melhor, a explorar o leito familiar dos cidadãos americanos, deste ponto de partida que surgiram obras como Felicidade (1998) de Todd Solondz e Tempestade de Gelo (1997) de Ang Lee - que guardam muitas semelhanças com o tom impresso por Mendes em sua estréia como cineasta. Mas o que faz Beleza Americana ser tão diferente ao ponto de ganhar cinco Oscars (filme, diretor, ator, roteiro original e fotografia)? Primeiramente é sua exuberância visual que se funde magistralmente com o tom robusto da narrativa impressa por Mendes. O filme desonstrói o conforto dos subúrbios americanos a partir da história de Lester Burnham (Kevin Spacey, Oscar de ator) e sua família. Lester é um homem insatisfeito com os rumos de sua vida, com o marasmo do casamento com (a bela, ambiciosa e neurótica) Carolyn Burnham (Annette Bening, ótima e que poderia muito bem ter ganho o Oscar de atriz) que procura expressar todo o sucesso e felicidade que não tem com seu emprego de corretora de imóveis. Lester e Carolyn estão totalmente imersos num mundo de aparências, o mundo do american way of life contemporâneo e em meio a tudo isso acabaram se perdendo das pessoas que gostariam de ser. A vida poderia continuar em sua monotonia se Lester não começasse a se interessar pela amiga adolescente (Mena Suvari) de sua filha (Thora Birch) e começasse a repensar sobre sua vida e voltar exatamente ao ponto onde perdeu o controle sobre ela. Lester logo faz amizade com o novo vizinho (Wes Bentley) que nutre admiração por sua filha e que vende maconha pelo bairro. Este é o ponto de partida para que Mendes passeie pelo interior de seus personagens, expondo insatisfações e contradições de pessoas comuns tentando lidar com as suas vidas que oscilam entre a busca pelo sucesso e a mediocridade. No fim das contas até a senhora Burnham sucumbe ao charme de um concorrente no ramo imobiliário. Apesar do tom cômico em diversas cenas, o filme incomoda  pela forma como critica o culto à aparência que camufla uma solidão dolorosa na essência de suas vidas (por isso a confissão de Suvari ao fim da sessão pode provocar gargalhadas ou a cena da cerveja no sofá oscila entre a comédia e a tragédia). Mendes faz um trabalho excepcional que não incomoda nem ao final de contornos moralistas. Há uma melancolia avassaladora na beleza americana feita para o consumo mundial - e esta se revela uma prisão para muita gente.

BELEZA AMERICANA (American Beauty/EUA-1999) de Sam Mendes com Kevin Spacey, Annette Bening, Thora Birch, Chris Cooper, Wes Bentley, Mena Suvari, Peter Gallagher, Allison Jeaney e Scott Bakula. ☻☻☻☻☻ 

INDICADOS AO OSCAR 2011: MELHOR ATRIZ

ANETTE BENING (Minhas mães e meu pai) Bening deve ter ficado muito feliz quando viu que Hillary Swank não estava no páreo neste ano. Afinal a atriz de Meninos não Choram (1999) e Menina de Ouro (2004) ganhou o prêmio nos anos em que a esposa de Warren Beatty era a favorita. Neste ano ela é indicada por interpretar uma lésbica intelectualizada que tenta conviver com o pai até então desconhecido de seus filhos. Pelo papel Bening já ganhou o Globo de Ouro de Atriz de comédia ou musical. Vale lembrar que esta é a quarta indicação da atriz que já concorreu ao careca dourado por três vezes, a primeira por Os Imorais (1990) na categoria de coadjuvante, depois por atriz em Beleza Americana (1999) e Adorável Julia (2004). Bening está cotada na categoria, especialmente pelo conjunto de sua obra e a coragem como assume as marcas do tempo em seu rosto. Ela merecia ainda uma indicação por Correndo com Tesouras (2006), mas isso já é outra história...

JENNIFER LAWRENCE (Inverno da Alma) Lawrence é quase uma novata no cinema, ela começou a chamar atenção quando fez Vidas que se Cruzam (2009) ao lado de Charlize Theron e Kim Basinger. Num dos filmes independentes mais cultuados da temporada, Jennifer interpreta uma adolescente que não tem tempo para gastar com futilidades. Cheia de tarefas para cuidar de sua família enquanto tenta descobrir o rumo de seu pai. O filme tranporta a atmosfera gélida e monstanhosa para as relações entre os moradores de uma pequena cidade. Lawrence foi muito elogiada pelo papel e não se surpreenda se ela sair premiada, já que não é pouco o esforço da moça num papel complexo e pesado. A repercussão de sua tarefa árdua foi a escalação para ser a jovem Mística em X-Men: First Class a ser lançado neste ano. Esta é a primeira indicação ao Oscar da atriz (ironicamente num ano onde todas as concorrentes já possuem pelo menos uma indicaçãono currículo).


MICHELLE WILLIAMS (Blue Valentine) Esta é a segunda indicação de Michelle ao Oscar e quem a conheceu no seriado Dawson's Creek e em produções inexpressivas como Halloween H20 (1998) sabe que seu ponto de mutação foi quando atuou em Brokeback Mountain (2005) onde conheceu Heath Ledger - com quem casou, teve uma filha e hoje goza do título de viúva do ator. Além disso, Brokeback lhe valeu uma indicação ao Oscar de atriz coadjuvante (o que lhe deu cacife para estar em filmes de gente como Charlie Kaufnan e Martin Scorsese nos últimos anos). Em 2011 ela conseguiu sua indicação ao Oscar de atriz principal por conta deste desafiador filme independente de Derek Cianfrance. O filme acompanha um casal (Williams e Ryan Gosling)  até que a insatisfação dela com o casamento começa a prejudicar a relação. O mais legal do filme é o flashback que o filme traz mostrando o namoro que gerou o casamento. O filme é sucesso de crítica, especialmente pelo dueto impecável do casal, mas no fim das contas só Michelle foi indicada num dos anos mais concorridos da categoria.

NATALIE PORTMAN (Cisne Negro) É a favorita da categoria e deve levar o prêmio pela sua encarnação da bailarina perfeccionista que surta ao ser escalada para ser a protagonista do Lago dos Cisnes. Portman vai da alegria ao desespero numa das melhores atuações do ano, sem falar uma série de detalhes que ajudam muito: sua imagem de boa moça em contraste com a personagem perturbada, os quilos que perdeu para o papel, o fato de ter feito balé na adolescência, a forma sutil como sugere que existe uma loucura em sua Nina desde antes do filme começar. Nada mal para quem estreou no cinema aos 12 anos sob as mãos de Luc Besson. Portman já foi indicada ao Oscar, só que na categoria coadjuvante por sua atuação em Closer (2004) de Mike Nichols - era a favorita mas acabou perdendo para Cate Blanchett. O filme ainda serve para tirar o gosto de enfeite que lhe coube em Entre dois Irmãos no ano passado.

NICOLE KIDMAN (Rabbit Hole) Depois do divórcio com Tom Cruise em 2001 sua carreira deu um salto de qualidade impressionante. Sendo indicada ao Oscar pelo musical Moulin Rouge (2001) e ganhando no ano seguinte por encarnar Virginia Woolf em As Horas (2002), Kidman se dedicou especialmente a filmes árduos que poderiam ter lhe rendido uma penca de indicações (como Dogville/2003 e Margot e o Casamento/2007), mas as bilheterias modestas atrapalharam. Kidman ainda foi alvo de perseguição pelo uso de botox e deu azar até quando se metia em superproduções como o lesado Nine (2009). Ela chegou a anunciar aposentadoria, mas antes disso resolveu produzir um filme para ver se ainda tinha poder de fogo. Convidou John Cameron Mitchel (dos ousados Hedwig/2001 e Shortbus/2006) para adaptar a peça Rabbit Hole  sobre um casal que tenta superar a morte do filho. A tristeza de Nic no papel lhe rendeu elogios desde a primeira exibição do filme e a trouxe de volta ao páreo na noite mais cobiçada do cinema americano.

A ESQUECIDA: JULIANNE MOORE (Minhas mães e meu pai) Gostaria de saber o que a Academia tem contra uma das melhores atrizes do cinema atual. Moore já foi indicada ao Oscar quatro vezes, duas como coadjuvante - Boogie Nights (1997) e As Horas (2002) - e duas como atriz principal - Fim de Caso (1999) e Longe do Paraíso (2002). Ano passado ela poderia ter sido indicada por Direito de Amar (2009) por seus dez preciosos minutos ao lado de Colin Firth, mas a Academia esnobou. Neste ano a Academia fez a mesma coisa deixando a ruiva para escanteio pelo papel de homossexual com olhar bem diferente sobre o mundo do que o exibido por sua parceira vivida por Annette Bening em Minhas Mães e Meu Pai. O problema deve ter sido as duas serem pré-concorrentes ao prêmio de atriz. Seria mais fácil se Moore houvesse concorrido a uma vaga de coadjuvante, já que apesar de ser tão protagonista como Benning, o Oscar ainda é conservador demais para suportar duas personagens homossexuais na mesma categoria (sem falar que sua presença neste ano no rançoso Preço da Traição não deve ter ajudado) 

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

CATÁLOGO: Shine - Brilhante

Rush: sensibilidade entre a genialidade e a loucura

O cinema australiano esteve em alta na década de 1990 e entre muitos sucessos de tom cômico (Vem dançar comigo, Priscilla, O Casamento de Muriel...) surgiu um longa de dotes dramáticos impressionantes. Shine - Brilhante do diretor Scott Hicks pode não ser perfeito, mas entrega justamente o que promete ao contar a história do pianista David Helfgott. Filmes sobre pessoas que piram por sua arte são comuns no cinema (basta lembrar do recente Cisne Negro) e além de causar identificação imediata entre os artistas (que lhes dão grande chances no Oscar) também atrai o público comum por dar conta de uma angústia que é muito vicível no ser humano: a busca de se fazer o que gosta da melhor forma possível, sem perceber por muitas vezes os nossos limites. Helfgott foi diagnosticado com esquizofrenia e o filme deixa claro que isso possui relação com sua paixão pelo piano e seus inúmeros treinos para se tornar um exímio pianista. Hicks conta a história desse notável e problemático pianista desde a sua infância contando com um trio de atores muito competentes (Alex Rafalovicz na infância, Noah Taylor na adolescência e Geoffrey Rush na idade adulta) que consegue expressar as angústias do personagem em meio ao seu prazer em tocar piano e a pressão perfeccionista que sente sobre si - esta com colaboração especial do pai autoritário (Armin Mueller-Stahl, indicado ao Oscar de coadjuvante). Nunca vou esquecer do momento em que Helfgott adolescente desaba sobre seu piano diante de uma platéia estupefata (num ótimo momento de Noah Taylor) e depois, num corte temporal incomum, acompanhamos o que o passar do tempo fez com alguém que prometia ser tão genial. Rush era totalmente desconhecido quando levou o Oscar de melhor ator para casa - no ano que a premiação ficou conhecida por celebrar os filmes independentes. Na atuação, Rush consegue misturar com maestria a genialidade e a esquizofrenia de seu personagem com uma sensibilidade notável de modo que é impossível não se identificar com ele.  Hicks conduz a narrativa com ritmo irregular, alterando cortes bruscos na narrativa com momentos quase arrastados, sorte que encontrou um elenco capaz de prender nossa atenção. Aclamado como gênio na época, Hicks nunca mais fez um filme tão relevante e elogiado (o que só confirma que o grande mérito do longa seja a força de sua história verídica na atuação de um elenco espetacular que vale cada minuto do espectador). 

Shine - Brilhante (Shine - Austrália/1996) de Scott Hicks com Geofrey Rush, Armin Muller-Stahl, Noah Taylor e Lynn Redgrave. ☻☻☻ 

CATÁLOGO: O Operário

Bale: Pele, osso e atuação irrepreensível.

Depois de sua participação em Psicopata Americano, Bale conseguiu espaço em produções ambiciosas como o vilão da refilmagem de Shaft (2001), como o corno de Capitão Corelli (2001) e o caçador de Reino de Fogo (2002). Nada de especial para a sua carreira, o negócio era voltar para as idéias do cinema independente. Brad Anderson (do cômico Próxima Parada Wonderland) convidou o rapaz para interpretar o operário do título, seu nome é Trevor, um esquelético funcinário que não dorme há meses e por isso já enfrenta alguns dos efeitos de sua insônia: cansaço, alucinações (que dão o tom em diversos pontos da narrativa), inquietação... some a isso culpa e depressão com o acréscimo impressionante de estar vários quilos abaixo da normalidade (o que lhe confere uma imagem cadavérica que nem ele sabe explicar o motivo). Trevor não possui amigos ou família, seu maior contato social é com uma prostituta solitária (Jennifer Jason Leigh num bom momento)  e sua rotina diária é estafante. Sua ausência de laços o faz parecer ainda mais com um fantasma. Pelo andamento da trama percebemos que sua vida pessoal está comprometendo seu rendimento no trabalho, sua vida e seus colegas de trabalho. Mas afinal de contas o que há de errado com Trevor? Anderson conta sua história com toques de suspense mas sem os clichês do gênero, ao invés disso utiliza inúmeras referências cinematográficas e literárias. A maior delas é da obra de Dostoiévski (especialmente Crime e Castigo) e a atmosfera de "há-algo-acontecendo-mas-não-sei-o-que-é" de Kafka. Anderson consegue fazer um filme de ritmo lento e envolvente, com iluminação bem realizada e edição certeira. Mas, o grande choque do filme, é a aparência de Christian Bale que perdeu quase quarenta quilos para o papel - o que já é um feito notável - mas não se contenta com isso e entrega uma atuação intensa como um homem que percebemos estar a beira da loucura. Muitos consideram que Bale merecia uma indicação ao Oscar pelo papel que é em si uma incógnita, mas a indicação acabou não vindo.  O filme acabou ficando ainda mais famoso com a lendária história de Christopher Nolan quando escolheu Bale para ser seu Batman. Nolan diz que quando perguntaram o nome do ator que havia escolhido foi marcado um almoço com os produtores e Bale chegou com aquele corpo decrépito. Os produtores acharam que o diretor havia enlouquecido. Nolan olhou para o ator e disse: "Você tem que engordar bem rápido". Ah os sacrifícios pela arte...

O Operário (The Machinist/Espanha-Inglaterra/2004) de Brad Anderson com Christian Bale, Jennifer Jason Leigh e Aitana Sanchez-Gijon. ☻☻☻

CATÁLOGO: Psicopata Americano

Christian Bale: A casca saudável de um monstro.

Christian Charles Phillip Bale estreou no cinema nos idos de 1987 aos 12 anos em Império do Sol e hoje com mais de trinta filmes no currículo é um dos poucos casos de atores mirins que conseguiram se manter na carreira. Desde a estréia Bale deixava claro que não estava disposto a ser um ator jovem e agradável com bochechas rosadas, afinal, ele se empenhava no papel de um moleque rico e antipático que se perde em meio à Segunda Guerra Mundial. Antes de ser escolhido para encarnar o Homem morcego em Batman Begins (2005), o cara havia se dedicado a produções pequenas ou alternativas (como a versão de Adoráveis Mulheres feita em 1994 com Winona Rider ou o glam Velvet Golmine de 1998), mas nenhuma delas lhe deu o status que Psicopata Americano lhe ofereceu. Pra começar quando a cineasta Mary Harron resolveu filmar o polêmico livro de Brett Easton Ellis noventa por cento dos jovens atores de Hollywood quiseram o papel, inclusive Leonardo DiCaprio que faria deste seu filme pós-Titanic. A repercussão foi tão grande, a verba de produção inchou, os interesses cresceram, o roteiro foi mutilado e... Harron ameaçou sair da direção. Como não encontraram ninguém com estômago para lidar com a empreitada, DiCaprio caiu fora e Harron brigou pelo ator que havia pensado desde o início: (o galês) Christian Bale. Bale era um ator mais cult do que famoso e aceitou de bom grado o papel o qual lhe caiu realmente como uma luva. Bale é Patrick Bateman, um yuppie (figura urbana muito comum na década de 1980, que consistia num jovem bem sucedido, sofisticado e bem de vida) mas que debaixo de toda a casca de bem estar esconde um monstro. Bateman é capaz de pensar em matar alguém só porque o cartão de apresentação é mais arrojado, ou até mesmo porque o apartamento se localiza num lugar mais caro. Por que? Oras, como ele pode se considerar bem sucedido se existe alguém melhor do que ele? Bale consegue dar um senso de humor sádico a tudo isso - e o roteiro de Harron ajuda muito nessa tarefa. Impossível conter o estranhamento quando ele começa a falar sobre artistas típicos da década de 1980 (sim, trata-se de um filme de época!) como Whitney Houston (!) ou quando se encontra com sua noiva patricinha (Reese Whiterspoon, em um papel igual ao que fez em Legalmente Loira alguns anos depois) e parece ser torturado cada vez que ela abre a boca. A loucura de Bateman só cresce e ele começa a fazer cada vez mais atrocidades, seja matando colegas bem sucedidos, mendigos ou torturando prostitutas com arames ou serra elétrica. Apesar de toda a perfeição que exibe (inclusive a física) Bateman é completamente oco em seu caos interno. Rumo ao final suas atrocidades ficam cada vez mais absurdas (como explodir um carro quase que por acidente) e ao final não sabemos até que ponto sua loucura é real. Sorte que no meio do caminho ele conhece uma secretária (Chloe Sevigny) que mostra que debaixo de tanta loucura ainda existe um pequeno traço de humanidade, ainda que este traço seja imperceptível. Fascinante é a forma como Bale abraça toda essa jornada por uma mente perturbada sem pudores onde a única certeza é o desespero de um mundo de aparências ao som de  Information Society.

Psicopata Americano (American Psycho/EUA-2001) de Marry Harron com Christian Bale, Chloe Sevigny, Reese Whiterspoon, Jared Leto e Willem Dafoe. ☻☻☻☻

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

INDICADOS AO OSCAR 2011: Ator Coadjuvante

CHRISTIAN BALE (O Vencedor) Anos atrás o Coringa ganhou o Oscar de coadjuvante, agora chegou a vez do Batman! Christian Bale perdeu peso novamente para encarnar o irmão problemático de um lutador de boxe e que funciona como maior motivador da carreira deste. No filme promovido para elevar o status de Mark Wahlberg, Bale é quem rouba a cena. Não deixa de ser uma vingança depois que o ator foi alvo de deboches por ser ofuscado por seus coadjuvantes (até por Sam Worttington no último Exterminador do Futuro, lembra?). Bale atua desde os 12 anos quando estreou sob a batuta de Spielberg no drama Império do Sol (1987). Apesar de sua fama de explosivo, o ator é o favorito na categoria. Esta é a primeira indicação do ator ao Oscar - e quem acompanha a carreira do moço sabe que ele já deveria ter umas três no currículo.

GEOFFREY RUSH (O Discurso do Rei) Dia desses estava passando uma reprise de Piratas do Caribe na TV e eu não parava de pensar que fim Geoffrey Rush tinha levado. O australiano ganhador do Oscar por Shine - Brilhante (1996) estava sumido de produções relevantes há algum tempo se satisfazendo soterrado na maquiagem da franquia do Capitão Jack Saprrow. Rush tem no papel do ex-ator que precisa ensinar o Rei George VI (Colin Firth) a vencer a gagueira tudo o que precisa para voltar ao primeiro time de Hollywood. Além de ter ganho o Oscar em sua primeira indicação ao prêmio, ele ainda foi lembrado por sua atuação cômica em Shakespeare Apaixonado (1998) nesta mesma categoria.  Sem falar que sua última indicação ao prêmio foi em 2001 por Contos Proibidos do Marquês de Sade, onde encarnou o próprio autor libertino com um vigor impressionante.

JEREMY RENNER (Atração Perigosa) Depois de sua indicação ao Oscar de ator no ano passado, Renner mostra que tem fortes chances de fazer uma bela carreira em Hollywood. Neste ano o cara roubou a cena de Ben Affleck no segundo longa do astro na direção. Renner interpreta o amigo ladrão do protagonista neste que foi um dos filmes policiais mais elogiados do ano. Há quem não goste do estilo do cara, as poucas palavras, a cara de marrento, mas o fato é que ele consegue sustentar o filme quando Affleck não tem a presença em cena suficiente para bancar o action hero. Renner pode até não ganhar, mas ter a proeza de ser indicado ao Oscar dois anos consecutivamente não é para qualquer um.

MARK RUFFALO (Minhas Mães e Meu Pai) Fazia tempo que a Academia andava devendo uma indicação ao Oscar para Ruffalo. Desde Conte Comigo (2001) ele poderia ter colhido alguma indicação, mas passou em branco em todas as cerimonias, mesmo quando esteve muito bem em Ensaio sobre a Cegueira (2008) como o esposo de Julianne Moore. Sorte que Mark se encontrou com Juliane de novo nos sets desta dramédia sobre um casal de lésbicas que descobrem o pai  biológico de seus filhos. O ator alcança o auge de sua interpretação do cara de bom coração que confunde os sentimentos de quem está por perto. Neste ano Ruffalo ainda esteve em Ilha do Medo de Scorsese e a indicação prova que teve um ano realmente especial. 

JOHN HAWKES (Inverno da Alma) Hawkes foi a grande surpresa da categoria. Em sua primeira indicação ao Oscar, este ator de 51 anos já participou de produções como O Gangster (2007) e seriados como Taken (2002). Porém, devido ao seu tipo único (rosto marcado, magro...) quase não aparece em grandes produções. Ele chamou a atenção em 2010 como o violento tio de Ree Dolly (Jennifer Lawrence) em Inverno da Alma. Como o tio que não quer ajudar a sobrinha a encontrar o pai  Hawkes tem bons momentos, mesmo com uma participação curta em um dos filmes independentes mais bem sucedidos do ano. O ator já colhe frutos por sua atuação: está em Contagion, novo filme de Steve Sorderberg ao lado de Jude Law, Kate Winslet e Marion Cotillard.

O ESQUECIDO: ANDREW GARFIELD (A Rede Social) Algo me diz que Garfield não foi indicado ao Oscar de coadjuvante por ser o novo Homem Aranha, afinal de contas, sua indicação era tida como mais do que certa  - tão certa quanto a certeza de que a Academia detesta indicar "heróis" para a premiação (como o Batman já estava na lista sobrou para Andrew). Garfield interpreta o brasileiro Eduardo Saverin, sujeito bem intencionado (até demais) que foi o único amigo de Jerry Zuckerberg, o criador do Facebook, até que este o passou para trás. Considero que o filme não teria o peso que tem sem sua atuação extremamente humana e bem construída que contrasta com o protagonista encarnado por Jesse Einsenberg. Em 2010 ele ainda fez bonito em Não me abandone Jamais ao lado de Keira Knightley e Carey Mulligan. Seja como for, Garfield promete fazer bonito nos próximos anos.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Na tela: Splice - A Nova Espécie

Dren e seu pai: Relações de uma família muito estranha.

Bem longe desse burburinho de Oscar estreou na semana passada o sci-fi Splice, filme que quando estreou nos EUA em meados de junho chegou a ser cogitado para conseguir uma vaguinha na premiação, mas acabou sendo esquecido e somente agora chegou nos cinemas brasileiros. O mais curioso é que o filme parte de uma ideia interessante mas se perde no final, justamente onde poderia ter mais força e ficar acima da média dos filmes do gênero que saem direto em DVD por aqui. Vincenzo Natali (do sucesso em locações Cubo/1997) demorou dez anos para conseguir tocar o seu projeto mais ambicioso que conta a história de um casal de geneticistas chamado Clive (o ganhador de Oscar Adrien Brody de O Pianista/2002) e Elsa (Sarah Poley que foi indicada ao Oscar pelo roteiro de Longe Dela de 2006) que cria seres estranhos em laboratório para testar medicamentos e demais produtos. Os dois estão prestes a clonar seres humanos, mas uma série de implicações fará com que o projeto do casal não vá para frente. Pelo menos não dentro dos rumos aceitos pelo laboratório em que trabalham. Num acesso de inconformismo Elsa cria um ser humanóide onde mistura características humanas e animais dando origem à Dren (isso mesmo, nerd ao contrário) debaixo dos devidos protestos de Clive. Dren nasce como um ser estranho, sem cabelo, com rabo e ferrão, olhos afastados, língua de réptil, pernas de lagarto e desde o início se torna o segredo do casal. É neste momento que o filme se mostra interessante ao explorar a estranha família que se forma. Elsa começa a tratar Dren como se fosse sua filha enquanto Clive tenta manter distância da criatura que passivamente deixou que fosse construída. Dren cresce rápido e novos dilemas começam a se impor à dupla de cientistas que começam a deixar segredos de suas vidas particulares virem à tona. O mais bacana é que Natali cuida de Dren com mais carinho do que os personagens humanos e fica impossível não se identificar com a tristeza daquele ser que é tratado ora como uma criança, ora com a frieza de um experimento (e a atuação de Delphine Chanéac ajuda muito a acompanhar o que se passa na solidão de Dren). Na verdade o filme de Natali poderia ser uma alegoria sobre o homem querer brincar de Deus e da forma como perde o controle sobre si e suas criações, no entanto, fica muito mais interessante quando investe nas relações de uma estranha família envolvida em questões delicadas como ética e incesto. Infelizmente o problema nasce exatamente daí, quando Dren mostra-se cada vez mais apaixonada pelo seu "pai" o filme poderia tomar rumos mais interessantes do que o reservado pelo roteiro - que apela para soluções apressadas e que contrariam o drama de seus personagens. Curiosamente, Natali não percebeu que seu filme havia avançado de um horror banal para uma ficção científica que poderia fazer bonito nas premiações se não caísse no moralismo mais chulo do gênero. Pelo menos até jogar suas ambições ladeira abaixo, o filme apresenta mais ideias do que a maioria do ano passado.    

Splice - A Nova Espécie (Splice/Canadá-França/2010) de Vincenzo Natali com Adrien Brody, Sarah Polley e Delphine Chanéac. ☻☻☻

LADIES & GENTLEMEN: Natalie Portman

A atriz nasceu na cidade de Jerusalém em Israel no ano de 1981 mas mudou-se muito jovem para o estado de Ohio nos EUA ao lado de seus pais. Mas  Natalie Hershlag (sim, esse é o seu nome de batismo) acabou passando a maior parte do tempo em Nova York onde se tornou aluna aplicada e conseguiu até uma vaga para estudar em Harvard. Mas nesta época ela já era mais do que reconhecida enquanto atriz, para começar bastou Luc Besson escalar a menina de doze anos para ser Mathilda em O Profissional (1994) onde encarnava a menina que vê sua família ser assassinada e acaba sendo protegida por um vizinho matador profissional. Natalie mostrava um vigor de veterana e não fugiu das insinuações de que havia algo mais entre sua personagem e o matador encarnado pelo veterano Jean Reno. Portman e Reno mostraram uma química impressionante que ajudou a transformar o filme na melhor obra de Besson. Depois, Portman atuou com Robert DeNiro em Fogo Contra Fogo (1995), teve charme em se apaixonar por Timothy Hutton em Brincando de Seduzir (1996) além de participar de filmes de diretores prestigiados como Woody Allen (no musical Todos Dizem Eu Te Amo/1996, o qual considera ter sido sua pior atuação), Tim Burton (Marte Ataca!) e até George Lucas que a escolheu para ser par de Darth Vader na nova trilogia de Star Wars (1999, 2002 e 2005) que a elevou ao patamar de musa nerd. Engraçado foi vê-la indicada ao Globo de Ouro por Em Qualquer outro Lugar (1999) onde ofuscava ninguém menos que Susan Sarandon, que interpretava sua mãe. Entre os filmes da trilogia de Lucas ela ainda teve participações comoventes em Cold Mountain (2003) e no interessante Hora de Voltar (2004) estréia na direção do amigo Zach Braff. Os filmes só aumentaram a certeza de que Natalie estava prestes a fazer bonito nas premiações, foi isso que aconteceu quando topou fazer o papel da misteriosa Alice de Closer (2004), adaptação de Mike Nichols para a aclamada peça de Patrick Marber. Pelo papel Natalie levou o globo de ouro de atriz coadjuvante para a casa e ainda foi indicada pela primeira vez ao Oscar na mesma categoria. Depois, voltou às origens istraelense no bonito Free Zone (2005) dando projeção mundial a um diretor fora do esquema hollywoodiano (Amos Gitai). A atriz ainda pode ser o melhor motivo para encarar o pretensioso V de Vingança (2006) para o qual até raspou a cabeça, o episódico Paris, te amo (2006) ou a mão errada de Milos Forman em Sombras de Goya (2006). Acho que também não precisa falar de filmes que passaram em branco como Um Beijo Roubado (2007), A Mágica Loja de Brinquedos (2007), A Outra (2008) ou até mesmo Entre Irmãos  (2009) pelo qual aguardava uma indicação a algum prêmio. Sorte que Darren Aronofsky apareceu em seu caminho e lhe ofereceu o papel de Nina em Cisne Negro que mostrou que a atriz é muito melhor do que a maioria dos filmes que fez nos últimos anos. De fato a atriz nunca esteve em baixa, mas neste ano ela estará em ainda mais quatro filmes previstos para o primeiro semestre: Sexo sem compromisso (com Ashton Kutcher), Your Highness (de Don Ross), a aventura Cold Atlas e ainda será a namoradinha do aguardado Thor dirigido por Kenneth Branagh. Aproveite, já que Natalie vai tirar licença maternidade por tempo indeterminado, já que conheceu seu esposo nas filmagens de Cisne Negro e promete exibir o barrigão no Oscar deste ano.
O Profissional: estréia mais que promissora.