segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

PL►Y: Você não Estava Aqui

Kris e Katie: família em tempos de crise.

Indicado à Palma de Ouro no Festival de Cannes (o que não é novidade na carreira do seu diretor Ken Loach) e lembrado na categoria de Melhor Filme Britânico no BAFTA do ano passado, Você não Estava Aqui é um drama que mais parece um filme de terror. Calma, eu explico. Loach é bastante famoso por escolher temas de forte carga social para seus filmes, mas aqui ele capricha na construção de um labirinto sem saída em que um pai de família se envolve para colocar comida na mesa e pagar as contas no fim dos mês. Ele conta a história de Ricky (Kris Hitchen) um homem desempregado e desesperado para conseguir outro emprego. Para tanto acaba aderindo à uma "franquia" de entregas que aos poucos se mostra uma verdadeira exploração. Quando mais ele trabalha, mais ele precisa trabalhar e se houver qualquer contratempo as despesas só aumentam com as multas e prejuízos que se acumulam. Chegando a trabalhar quatorze horas por dia ele quase não vê mais a família, o relacionamento com o filho adolescente só piora e a convivência com a caçula também fica um tanto comprometida. Com relação à esposa (Debbie Honeywood), ele precisa lidar com o fato de ter vendido o carro dela para comprar a tal van para fazer entregas e agora ela demora muito mais para atender seus pacientes devido aos problemas com horários dos ônibus e tudo mais. Os contratempos começam a se empilhar e os fatos se transformam numa verdadeira bola de neve que desmontam o discurso que seduziu Ricky no início do filme (de que não teria patrão e que ganharia muito dinheiro). Aos poucos o desespero dos personagens só cresce e algumas ações impensadas são realizadas pelo meio do caminho (e só complicam ainda mais as finanças da família). A narrativa realista faz com que Loach pareça filmar uma família de verdade com uma câmera escondida, impressão que só aumenta com todos os atores convincentes em cena. Você não Estava Aqui é um drama daqueles, sem firulas, doído e que fala muito sobre quem paga caro por um mundo em crise. Se é verdade que a corda sempre arrebenta para o lado mais fraco, durante o filme a impressão é que olhamos para a corda arrebentando gradativamente.  

Você não Estava Aqui (Sorry, We missed You/ Reino Unido - França - Bélgica / 2020) de Ken Loach com Kris Hitchen, Debbie Honeywood, Rhys Stone, Katie Proctor e Ross Brewster. ☻☻☻☻

PL►Y: O Caminho de Volta

 
Ben: dilemas pessoais emprestados para um personagem. 

Ben Affleck tem lá a sua torcida para cravar uma vaga na categoria de melhor ator no Oscar deste ano por sua atuação neste O Caminho de Volta. É verdade que diante dos pesos pesados da temporada ele tem poucas chances, mas a campanha serve para chamar atenção para um filme pequeno que traz um bom trabalho do subestimado ator. No filme ele interpreta Jack Cunninghan (Ben Affleck), um operário da construção civil que tem problemas sérios com o álcool (e  as primeiras cenas deixam isso bem claro, já que ele bebe em todas elas). Ele é convidado para treinar um time de basquete de um grupo religioso voltado para resgate de jovens em situação de vulnerabilidade social - o que pode ser um ponto de mudança em sua vida, mas ele ainda tem dúvidas se aceita a proposta. O convite surge por conta do passado de Jack, que foi um atleta promissor no colegial e por algum motivo sua carreira no esporte perdeu fôlego. Some isso ao fato de sua vida pessoal também não estar muito bem, principalmente por conta de uma tragédia familiar, e começaremos a entender os gatilhos encontrados no caminho que fazem da bebida seu verdadeiro refúgio. Dirigido por Gavin O'Connor o filme traz aquela marca de lidar de forma áspera com o drama, o que ajuda bastante para que Ben consiga compor um dos personagens mais marcantes de sua carreira, principalmente nas cenas em que precisa lidar com um time que deve melhorar muito sua auto-estima se quiser realmente ganhar algumas partidas. Embora os meninos do time não recebem muito destaque, existe uma boa energia nas cenas de treino e nas partidas. A coisa funciona tanto que é fácil se pegar torcendo pelo treinador e seus pupilos e estranhar um bocado quando a cena final acontece quando ainda falta meia hora de filme para acontecer. É nesta parte final que o filme quase se desconstrói da pior maneira possível. As situações se tornam mais melodramáticas e Jack caminha para o fundo do poço novamente. Ainda que se arrisque muito neste último ato, o diretor parece saber do que está fazendo, já que vício é coisa séria e qualquer recaída pode custar caro. Ben Affleck deve saber disso muito bem, já que há muito tempo a mídia acompanha seus problemas com o alcoolismo, aqui mesmo ele apresenta aquele imagem inchada e um certo cansaço, mas que ajudam a compor o personagem que ele quase perdeu por uma recaída (e que só não perdeu devido ao apoio da ex-esposa Jennifer Garner). Esta forma como Jack precisa lidar com seus fantasmas reflete muito de como Ben também tem os seus para exorcizar e devemos reconhecer que enfrentar um papel destes foi bastante corajoso por parte do ator que nunca se expôs tanto por um papel. Embora tenha duas estatuetas do Oscar em casa (roteirista por Gênio Indomável/1998 e produtor por Argo/2012), Affleck nunca foi reconhecido por seu trabalho como ator pela academia, o que se torna ainda mais curioso depois que seu irmão, Casey Affleck levou para casa o Oscar de Melhor Ator por Manchester à Beira Mar (2016). Curiosamente o personagem de Ben tem algumas semelhanças com o trabalho do mano, mas suas chances de ser indicado são pequenas. Pelo menos ele soma mais um bom trabalho no seu currículo. 

O Caminho de Volta (The Way Back/ EUA - 2020) de Gavin O'Connor com Ben Affleck, Al Madrigal, Janina Gavankar,  Michaela Watkins, Brandon Wilson, Ben Irving, Will Ropp e Brandon Wilson. ☻☻☻

domingo, 17 de janeiro de 2021

#FDS: A Trincheira Infinita

 
Antonio e Belén: vidas em segredo. 

Terminando o #FimDeSemana com filmes latinos que disputam uma vaga na categoria de Filme Internacional no Oscar deste ano está o concorrente espanhol A Trincheira Infinita. A Espanha já concorreu ao prêmio de filme estrangeiro vinte vezes, levando a estatueta quatro vezes para o país e escolheu um filme de forte teor histórico para representa-lo no Oscar - quando muita gente achava que ousariam indicar o hit O Poço.  A Trincheira Infinita conta a história de Higinio Blanco (Antonio de la Torre), um militante contra o regime autoritário de Francisco Franco que vive décadas escondido em um buraco na parede de sua própria residência. A trama começa em 1936, no início da Guerra Civil Espanhola e termina somente em 1969 com a anistia política do país. Durante todo este período acompanhamos a rotina do protagonista ao lado de sua esposa, Rosa (Belén Cuesta eleita melhor atriz no Prêmio Goya), ambos sofrendo maus bocados para mantê-lo escondido. A casa é revistada várias vezes, um vizinho está sempre de olho para denunciar o esconderijo, Rosa sofre diversas agressões das autoridades e precisa obedecer uma série de regras para não levantar suspeitas. Durante as mais de três décadas em que a trama acompanha o casal, existem vários desafios que são enfrentados (incluindo uma gravidez) e retratados com uma narrativa cheia de tensão. Misturando drama e suspense, existem cenas impressionantes na primeira parte do filme (e ousadas cenas de sexo também), mas o mais interessante é como o filme consegue ser bastante envolvente em suas mais de duas horas de duração e consegue explorar os conflitos dos personagens ao longo do tempo, tanto do homem condenado ao exílio secreto dentro de casa quanto à esposa que renuncia novas possibilidades para ajudá-lo a se esconder por tanto tempo. As atuações de Antonio e Belén são ótimas e bastante complementares, já que que por vezes revelam nuances bastante diversas sobre aquela realidade, sem falar no esforço nas caracterizações que demonstram a passagem do tempo (um exemplo é o físico de Antonio que muda bastante com o passar da narrativa). A fotografia também é caprichada e deixa o tom claustrofóbico bastante realista para a plateia em seus pontos de luz e sombras. Outro ponto interessante é a direção dividida por três cineastas, Aitor Arregi, Jon Garaño e Jose Mari Goenaga, que conseguem trabalhar com uma coesão que muitas vezes um cineasta solitário não consegue apresentar. No entanto, se existe um problema com o filme é a falta de contextualização histórica para a trama. Os espanhóis não devem precisar de certos detalhes aparecendo na tela, mas quem não conhece a história da Espanha pode sentir falta de certas informações descritas acima. A passagem do tempo também pode render certo estranhamento, já que fica restrita à aparência dos atores e o crescimento do filho do casal, mas talvez a ideia seja embaçar a percepção do espectador. Outro detalhe interessante do filme é o uso de verbetes para separar a história em capítulos, que trazem um pouco de ironia para a densa narrativa. A Trincheira Infinita é um bom filme para quem curte História e conta uma realidade bastante comum durante a ditadura franquista, os chamados "toupeiras" viviam escondidos em buracos e o próprio retorno ao mundo exterior poderia render outro filme com a curiosidade que os minutos finais deste aqui desperta no espectador.  O filme está em cartaz na Netflix desde fevereiro do ano passado e vale lembrar que o serviço de streaming disponibilizou outros filmes que também disputam vagas na categoria de Melhor Filme Internacional como o taiwanês A Sun, o turco Milagre na Cela 7, o austríaco Quando a Vida Acontece e o mexicano Ya No Estoy Aquí que abriu este #FimDeSemana por aqui. 

A Trincheira Infinita (La Trincheira Infinita / Espanha - 2019) de Aitor Arregi, Jon Garaño e Jose Mari Goenaga com Antonio de la Torre, Belén Cuesta, Vicente Vergara, José Manuel Poga, Emilio Palacios e Antonio Romero. ☻☻☻☻

sábado, 16 de janeiro de 2021

#FDS Latinos para o Oscar: O Agente Duplo

 
Sergio Chamy: espião novato em casa de repouso. 

Embora muita gente tenha ficado surpresa quando o Brasil anunciou que o documentário Babenco - Alguém tem Que Ouvir o Coração e Dizer: Parou de Bárbara Paz para disputar uma vaga na categoria de filme internacional no Oscar, vale lembrar que outros países também adotaram esta estratégia - que verdade cria uma visibilidade para o filme concorrer também na categoria de melhor documentário, especialmente depois o macedônio Honeyland (2019) conseguiu vaga nas duas categorias. Além do Brasil, outros quatro países adotaram esta estratégia: a Venezuela (Era Uma Vez na Venezuela), a Itália ( Notturno), a Romênia (com o elogiadíssimo Collective) e o Chile com este O Agente Duplo que está disponível na GloboPlay. O filme da diretora Maite Alberdi parte de uma ideia que parece sensacionalista e logo se revela um retrato comovente da forma como a sociedade trata os idosos. Seu ponto de partida é uma mulher não identificada que suspeita que sua mãe é negligenciada numa casa de repouso para idosos e contrata um detetive que seleciona alguém capaz de se infiltrar na casa e apurar as situações que acontecem por ali. Enquanto isso, a equipe de filmagem usa uma outra justificativa para entrar na instituição: acompanhar o processo de adaptação de um recém-chegado no local. O "detetive" selecionado é o simpático Sergio Chamy, um viúvo de 83 anos que precisa aprender a usar tecnologias, ser discreto e manter um certo distanciamento emocional para manter-se objetivo em sua investigação. Cercado por diferentes histórias de vida e realidades familiares bastante diferentes, o filme se torna cada vez mais interessante com popularidade que o "espião" começa a receber das solitárias senhoras que vivem por ali. Entre festas, denúncias e desconstruções existem momentos bem-humorados e outros melancólicos que revelam o quanto O Agente Duplo é um filme interessantíssimo por romper as barreiras da linguagem documental e do ficcional. Muitos o consideram um verdadeiro híbrido perante a espontaneidade apresentada em sua narrativa bem estruturada (em diversos momentos eu imaginei que era um filme com amadores seguindo um roteiro, o que o torna ainda mais instigante). O filme possui uma construção envolvente, espirituosa e guarda para o desfecho uma constatação que o espectador constrói gradativamente durante sua duração enxuta (80 minutos). O documentário foi filmado numa casa de repouso nos arredores de Santiago e pode até não aparecer no Oscar (mas eu adoraria que concorresse na categoria de melhor documentário), mas é uma grata surpresa que merece ser descoberta. Esta é a vigésima quinta vez que o Chile indica um filme para concorrer a uma vaga na categoria de filme estrangeiro, mas conseguiu ser indicado somente em 2013 com No (2012) de Sebastián Lelio. O país concorreu novamente cinco anos depois, com Lelio levando o Oscar para casa ao repetir a proeza com Uma Mulher Fantástica (2017). 

O Agente Duplo (El Agente Topo / Chile - 2020) de Maite Alberdi com Sergio Chamy e Rómulo Aitkin. ☻☻☻☻

sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

#FDS Latinos para o Oscar: Ya No Estoy Aquí

 
Ulisses: uma odisseia muito particular.

Neste primeiro #FimDeSemana do ano irei postar comentários sobre três filmes latinos que concorrem a uma vaga na categoria de Filme Internacional no próximo Oscar. Lembrando, como sempre, que 2020 foi um ano bastante atípico para o cinema e a maioria dos países preferiram guardar suas produções para reabertura das salas, mas alguns optaram por vender para serviços de streaming e ganhar algum espaço perante o público. Vale lembrar que 93 países se inscreveram para a categoria da próxima edição (e obviamente que já existem favoritos). O de hoje foi selecionado para representar o México e está em cartaz na Netflix desde maio do ano passado. Ya no Estoy Aquí conta a história de Ulisses (Juan Daniel Garcia Treviño) tem dezessete ano e torna-se líder de um grupo de adolescentes periféricos da cidade de Monterrey, localizada no nordeste mexicano. O grupo de Ulisses se chama Los Terkos e a identidade do grupo é demarcada pelas roupas, pelo corte de cabelo e um estilo construído como um verdadeiro conceito baseado no ritmo musical da cumbia. No entanto, existe uma rivalidade agressiva entre os grupos e os amigos de Ulisses acabam vítimas de uma situação que faz com que o rapaz fuja ilegalmente para os Estados Unidos. Lá sua rotina é outra e percebemos aos poucos sua luta para manter a identidade em outro país e a dificuldade em lidar com este outro universo. Esta mudança insere novas camadas na história conduzida de forma quase documental pelo cineasta e roteirista  Fernando Frias que mergulha nos conflitos destes dois mundos. Embora tenha bons momentos e seja impregnado de uma valorização cultural e identitária da periferia mexicana, o filme precisava ser melhor lapidado. Tem algumas cenas que são difíceis de engolir (a cena das mortes é tão tosca que parece de mentira), além disso o protagonista é de uma apatia pouco envolvente a maior parte do tempo. Com câmera estática e atuações que parecem improvisadas, o filme deixa a impressão que o tema renderia um ótimo documentário. O que salva o filme é o uso da sonoridade, das cores e a sua parte final, que consegue fechar toda a trama com o tom certo de melancolia para que fique remoendo em nossa mente por algum tempo. O México tem uma história bastante curiosa com o Oscar, já que três de seus mais conhecidos diretores já foram premiados como diretores, Alejandro González Iñárritu tem duas estatuetas de melhor diretor (por Birdman/2014 e O Regresso/2015), Alfonso Cuarón também tem duas (por Gravidade/2013 e Roma/2018) e Guillermo Del Toro tem uma (por A Forma da Água/2017), mas das oito vezes em que o país foi indicado na categoria de Filme Estrangeiro só levou mesmo por Roma - que também foi produzido pela Netflix. Ya no Estoy Aquí não é apontado como favorito para ter uma vaga na disputa, mas pode até surpreender caso os votantes queiram fugir da mesmice. 

Ya No Estoy Aquí (México/EUA - 2019) de Fernando Frias com Juan Daniel Garcia Treviño, Yesica Silva, Xueming Angelina Chen e Sophia Metcalf. ☻☻

quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

PL►Y: Seberg Contra Todos

 
Kristen: vivendo um ícone do cinema. 

Devo admitir que Kristen Stewart está cada vez mais dedicada em se tornar uma atriz respeitada. Mais criteriosa nos trabalhos que escolhe, a atriz que ficou famosa mundialmente como a insossa Bela da saga Crepúsculo (2008) já coleciona alguns filmes dignos de nota em sua trajetória. Seu trabalho neste Seberg Contra Todos lhe rendeu vários elogios e é fácil entender o motivo, ela apresenta um dos trabalhos mais sólidos de sua carreira e (graças aos toques do diretor Benedict Andrews) deixa de lado vários tiques histriônicos que deixam os críticos bastante irritados. Confesso que eu fiquei atento para ver a cena em que a moça iria escorregar na sua personificação da diva Jean Seberg, mas não existe momento em que ela comprometa o filme. O roteiro dos parceiros Joe Shrapnel e Anna Waterhouse apresenta um recorte do período mais conturbado da vida de Jean, ironicamente é o período logo após o auge de sua carreira virou musa da Nouvelle Vague do cinema francês nos anos 1960 (especialmente pela sua participação no clássico Acossado/1960 de Jan-Luc Godard. A americana foi elevada ao posto de estrela por seus trabalhos na França e ao aceitar um convite para voltar a filmar nos Estados Unidos, ela conhece militantes do grupo Panteras Negras e se envolve com a causa da luta pelos direitos civis na Terra do Tio Sam. Casada e com um filho, ela acaba se envolvendo com um dos líderes do movimento (Anthony Mackie) e chamando a atenção do FBI, que realizava um trabalho de vigilância para desmontar o grupo. Por ajudar financeiramente os Panteras, Jean começa a ser vigiada e perseguida, para logo depois ser difamada e tornar-se cada vez mais paranoica com o receio de ser grampeada, fotografada e filmada o tempo todo. Esta deterioração da psiquê de Seberg não é levada a sério pelos demais personagens, que consideram tudo um grande devaneio de uma estrela de cinema - mas ciente de que os efeitos da investigação são nocivos para a atriz, o agente Jack Solomon (Jack O'Connell) começa a questionar os limites éticos e as reais intenções do que é realizado em torno da atriz. É Jack que ainda consegue um  pouco de destaque num filme que deixa seus coadjuvantes de escanteio para girar quase que o tempo inteiro em torno da figura de Seberg. Benedict Andrews costuma ser dedicado na condução de seus atores (basta lembrar o excelente trabalho que fez em Una/2016), mas o roteiro poderia dar mais atenção a alguns personagens que ficam pelo meio do caminho. Se você acha que Mackie e Zazie Beets aparecem pouco, o esposo de Seberg também nunca tem suas camadas desenvolvidas no decorrer da história - e nem vou mencionar o trabalho canastrão de Vince Vaughn como o agente malandrão.  Este pouco caso com os coadjuvantes faz com que o filme perca a oportunidade de aprofundar vários temas  importantes que são apenas jogados na trama (a revolução sexual, os direitos civis, as manifestações sociais do período...) e perde a oportunidade de se tornar um filme mais rico sobre o período histórico que aborda e que acaba salvo pelo trabalho de Kristen (nunca pensei em dizer isso e atrevo-me a dizer que existe uma identificação entre a atriz e a personagem, ambas eram incompreendidas no cinema americano e encontraram reconhecimento através de filmes cults europeus). Seberg Contra Todos não alcança todas as notas que ambiciona, mas não deixa de ser o resgate de uma estrela que merece ser lembrada. 

Seberg Contra Todos (Seberg / EUA - Reino Unido / 2019) de Benedict Andrews com Kristen Stewart, Jack O'Connell, Anthony Mackie, Yvan Attal, Gabriel Sky, Vince Vaughn e Zazie Beetz.☻☻☻ 

quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

PL►Y: The Souvenir

 
Burke e Byrne: romance complicado. 

Aclamado em festivais, o longa The Souvenir (batizado por aqui como Lembrança) é o quarto filme da diretora Joanna Hogg para o cinema - e se tornou também o mais elogiado, especialmente pela forma com que a cineasta lança luz sobre um relacionamento complicado de seu passado. Seus longas costumam girar em torno de pessoas que não tem problema com dinheiro, mas que guardam em si um certo ar entediado enquanto lidam com conflitos com pessoas próximas. Aqui ela se dedica a contar um romance na vida de Julie (Honor Swinton Byrne em seu segundo filme) uma jovem estudante de cinema dos anos 1980 que tem as despesas bancadas pela mãe (Tilda Swinton, mãe de Honor na vida real). A moça vive num apartamento charmoso com um amigo que não ajuda no aluguel (e que a visita da namorada dele já se tornou rotina). Enfim, dinheiro para Julie não é problema e ela reconhece isso ao mencionar a si mesma como uma privilegiada, no entanto, a rotina da personagem é apresentada como algo tão seguro e entediante que parece até motivo para se aproximar de Anthony (Tom Burke).  Tão logo ela o conhece numa festa, logo passamos a observá-lo com os olhos (e as expectativas) da protagonista. Ele é apresentado como um burocrata elegante (e um tanto pedante) do Ministério de Relações Exteriores, mas existe algo de sombrio e misterioso em sua postura, que logo é confundido com um certo charme arrogante disfarçado pelo carisma de seu humor peculiar (e Burke sintetiza todas estas características com um verniz de autoconfiança e indiferença). É visível como aos poucos ele se torna o lado dominante da relação com seus comentários depreciativos e pedindo dinheiro para Julie a todo instante (e que ela pede para a mãe sob a desculpa de comprar equipamentos para o curso de cinema). Demora para Julie ver o que há de sombrio em seu namorado e tenta lidar com a descoberta, até que as atitudes dele fogem cada vez mais de controle e ela mesma não sabe mais o que fazer quando a vida passa a girar em torno das demandas dele. Honor Swinton Byrne compõe Julie com ar ingênuo e romântico, lida sempre com o conflito de querer conhecer o mundo para além de sua "bolha" enquanto os professores insistem que ela deveria trabalhar suas experiências nos filmes. Nesta busca por caminhos menos seguros, ela deixa claro que as marcas deixadas por Anthony estarão cravadas em sua história (tal e qual o nome do amado está escrito naquela árvore da pintura rococó de Jean-Honoré Fragonard que batiza o longa). Joanna Hogg constrói aqui um drama romântico filmado com luz natural e uma trilha sonora que vai do pop ao clássico na construção de uma atmosfera realista  despojada e fluente, embora episódica. É de partir o coração como os sentimentos de Julie a fazem mergulhar num relacionamento cada vez mais tóxico, capaz de drenar sua energia como se estivesse apaixonada por um verdadeiro vampiro. Neste roteiro em que o desejo de ficar junto é compatível com a vontade de se afastar, por vezes, a compreensão e a frustração tomam lugar do romantismo. Se você terminar o filme com gosto de quero mais, não se preocupe, a diretora já prepara uma continuação para a vida amorosa de Julie. 

Lembrança (The Souvenir / Reino Unido - Estados Unidos / 2019) de Joanna Rogg com Honor Swinton Byrne, Tom Burke, Tilda Swinton, Tosin Cole e Frankie Wilson. ☻☻☻

segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

PL►Y: Ninguém Brinca com Jesus Quintana

 
Bobby, Audrey e John: desperdício total.

É engraçado como O Grande Lebowski (1998) dos irmãos Coen não foi um grande sucesso em sua época de lançamento, mas com o passar do tempo se tornou uma das obras mais populares dos manos (graças as reprises dos canais por assinatura e os comentários positivos que atravessaram décadas). Boa parte da graça do filme está no grupo de personagens interessantes (e hilários) que gravitam em torno do protagonista vivido por Jeff Bridges. Entre eles está Jesus Quintana (John Turturro), craque do boliche e dono de uma aura pervertida que o precede. Como se aquela roupa lilás, a arrogância e a sensualidade brega não bastassem, ele ainda tem aquele hábito bizarro de lamber a bola de boliche com a ponta da língua antes de lança-la. É uma destas criaturas tão estranhas que você já imagina querer conhecer mais sobre ela e, desde então, o ator John Turturro insistia em reviver o personagem em um spin-off. Como os irmãos Coen não estavam interessados em retomar este universo, depois de muito tempo eles resolveram autorizar o amigo a fazer o longa que tanto queria. Vai entender o motivo de Turturro usar o personagem para refilmar Corações Loucos (1974) uma comédia francesa de Bertrand Blier bastante antiquada para os dias atuais. A ideia reduz as referências ao cultuado filme em que conhecemos Jesus Quintana e temos que nos contentar com uma história que caminha não se sabe para onde em tom de comédia sexual sem graça inserindo personagens como uma prostituta experiente (Sonia Braga), uma cabeleireira que não consegue ter orgasmos (Audrey Tautou) e uma ex-presidiária que está louca para fazer sexo (Susan Sarandon). Houvesse um roteiro bem amarrado que reunisse estas personagens não haveria problema, mas ele inexiste. O filme começa com Jesus Quintana deixando a prisão após um ato indecoroso diante de uma criança, ele logo reencontra seu parceiro Petey (Bobby Cannavale) e nem o roteiro sabe explicar direito o tipo de relação que existe entre os dois. Eles começam a se meter em confusões, aplicar pequenos golpes e a relação de Jesus com  o boliche é reduzida à uma cena e um comentário. É só isso. O filme é desengonçado e não tem muita graça, padecendo por se render a um texto que envelheceu mal. Apesar de ser mais conhecido como ator, Turturro já dirigiu oito filmes (o meu favorito é Amante a Domicílio/2014, este sim um filme que sabia explorar tabus sobre sexualidade) e parecia que o Quintana estava em boas mãos. Um grande engano. Desperdiçando um bom elenco, Turturro trai o personagem e faz justamente o que o título em português tenta negar (mas o resultado é uma daquelas obras que você assiste e deseja apenas esquecer). 

Ninguém Brinca com Jesus Quintana (The Jesus Rolls / EUA - 2019) de John Turturro com John Turturro, Bobby Cannavale, Audrey Tautou, Susan Sarandon, Jon Hamm, Pete Davidson, Christopher Walken e Tim Blake Nelson. ☻

PL►Y: A Assistente

 
Garner: um dia daqueles...

Jane (Julia Garner) é a assistente de um grande executivo há cinco semanas. Ela costuma fazer de tudo, tirar cópias, organizar a agenda do chefe, pedir sanduíches para os colegas de trabalho, atende telefone, agenda viagens, entregas de malotes, prepara café, organiza a mesa do chefe, responde e-mails, escuta desaforos ao telefone... para dar conta do trabalho, chega ao escritório antes de todo mundo (antes do sol aparecer) e sai por último. Ela também costuma trabalhar no escritório nos fins de semana e esperançosa das possibilidades que aquele emprego pode lhe trazer, pode se perceber que ela faz mais do que o necessário para ter seu trabalho reconhecido - embora receba mais indiferença e reclamações do que algum reconhecimento. Quando o reconhecimento parece surgir, ele é bem menos convincente do que um elogio protocolar. Esta rotina massacrante de um ambiente de trabalho é a matéria-prima do primeiro longa de ficção da diretora Kitty Green, que filma um dia de Jane com o mesmo estilo impresso em seus trabalhos em documentários (ela que dirigiu o chocante Quem é JonBenet/2017 no catálogo da Netflix), sendo assim, muito do envolvimento que o espectador possui com o filme é devido ao bom trabalho de Julia Garner no papel principal. A postura e a expressão da atriz deixam claro como aquele ambiente é torturante, embora pareça aceitar resignada tudo o que acontece ao seu redor. Existe um bocado de situações ofensivas e abusivas em torno da personagem, dos colegas que pedem sua atenção lhe jogando bolinhas de papel, a exclusão das conversas, as intromissões em seu trabalho, as reclamações, tudo ajuda a compor um cenário um tanto desolador, mas Jane se incomoda mesmo é com a chegada de um nova assistente - que a fará repensar se vale a pena continuar calada. O roteiro de Kitty Green é um primor de sutilezas, o que pode construir um retrato tenso e realista da situação abordada, mas também entediar um bocado o espectador que aguarda uma reação mais enérgica da protagonista diante daquele universo, no entanto, a intenção da diretora é outro ao terminar deixando claro que aquele ciclo pode permanecer por tempo indeterminado. Ainda que sua cadência possa gerar estranhamento, A Assistente é uma construção interessante e deve aparecer em algumas premiações indies, embora não tenha fôlego para chegar ao Oscar como muitos alardearam, mas vale conferir o filme no catálogo do Prime Video. Vale destacar que para além de seu trabalho na série Ozark  (que lhe rendeu dois Emmys de atriz coadjuvante nos últimos anos), Julia Garner deve receber cada vez mais destaque em produções no cinema. Atuando desde 2010, quando tinha quinze anos de idade, ela continua sendo uma das mais expressivas de sua geração. Ainda com aparência de adolescente ela prova aqui que consegue carregar um filme nas costas com força e desenvoltura sem precisar falar muito em cena. 

A Assistente (The Assistant/EUA-2020) de Kitty Green com Julia Garner, Owen Holland, Jon Orsini, Rory Kulz, Noah Robbins e Clara Wong. ☻☻☻