quinta-feira, 20 de abril de 2023

MOMENTO ROB GORDON: Séries 2023 (Vol: I)

Confesso que fui acumulando séries para comentar por aqui e me falta um tanto de tempo para escrever detalhadamente sobre cada uma delas, sendo assim resolvi colocar minhas cinco favoritas desse início de ano na lista abaixo:

#05 "Daisy Jones & The Six" (Prime Video)

A adaptação do livro de Taylor Jenkins Reid criou bastante expectativa nos leitores. Com dez episódios lançados aos poucos, o streaming soube como manter o interesse nos acontecimentos em torno da banda fictícia dos anos 1970 (e muito inspirada no Fleetwood Mac) que se dissolveu no auge da carreira. Haley Keough chega com fome de prêmios na pele da cantora e compositora que quer um lugar ao sol, mas precisa controlar seus excessos. Sam Caiflin me parece um tanto velho para viver o vocalista da banda que evita se envolver com a colega enquanto uma guerra de egos tenta definir quem merece mais atenção dos fãs. As roupas de Haley são um destaque a parte numa produção que uma reconstituição de época discreta (incluindo um pouco da cultura disco) com uma fotografia pouco exuberante. A ideia de contar a história da banda como se fosse um documentário funciona bem para driblar a sensação de que assistimos uma novela roqueira  de dramas amorosos. A boa trilha sonora está disponível no Spotify.

#04 "Cidade Invisível - 2ª Temporada" (Netflix)

A nova temporada da mundialmente aclamada série brasileira continua acertando ao utilizar personagens de nosso folclore. Agora o policial Erik (Marco Pigossi) vai parar na Amazônia após passar anos desaparecido. Seu retorno é um pedido da filha (Manu Diegues), que passou a ser criada pela Cuca (Alessandra Negrini), mas fez um pacto com a bruxa Matinta Perê (Letícia Spiller) para que o pai ressuscitasse. Esse drama familiar agora irá se misturar com um menino lobo, a mula sem cabeça e exploradores que procuram ouro em um local sagrado. A série continua tendo bons efeitos especiais e merece destaque por trazer um elenco local talentoso que raramente recebe destaque em produções nacionais (só pela iniciativa a nova temporada merece elogios). É bem vinda a crise de identidade de Erik que passa a ser ele mesmo uma ameaça para as entidades que dão brilho à série desde a sua criação. No entanto, o texto poderia explorar mais a história dos personagens folclóricos que apresenta, talvez assim eles resolvessem o grande problema da temporada: apenas cinco episódios. Sem lançar novos capítulos desde 2021 é muito pouco para conter a ansiedade dos fãs até que a terceira leva de episódios sejam lançados. 

#03 "Enxame" (Prime Vídeo)

Depois do sucesso de Atlanta, Donald Glover poderia se repetir, mas escolheu uma caminho totalmente diferente com Enxame. A minissérie conta a história de Dre (Dominique Fishback) uma superfã da cantora pop Na'Ja, mas que costuma extrapolar quando alguém crítica sua estrela - motivo pela qual ela se torna uma serial killer que coleciona vítimas enquanto tenta se encontrar com sua idolatrada. Arrisco dizer que Enxame foi pensada enquanto Glover trabalhava com Jordan pele na trilha do terror Corra! (2017), já que a minissérie evoca bastante a atmosfera de estranhamento daquele filme. Fishback está ótima como a protagonista que revela-se cada vez mais fora do eixo e deve figurar nas premiações no fim do ano. Outro destaque do elenco é a cantora Billie Eilish que faz uma participação especial bastante promissora. Não precisa pensar muito para associar Na'Ja com o culto dos fãs com Beyoncé, mas acho que a série serve de exemplo para os fãs mais, digamos, intensos em geral (seja de celebridades times ou políticos), afinal, estão usando a idolatria para extravasar o que há de pior em suas personalidades. Captando o espírito de seu tempo, o que mais gostei de enxame é que cada episódio é diferente do outro, o que torna sua trama bastante imprevisível. 

#02 "The Last of Us" (HBOMax)

Só por se tornar a melhor adaptação de um game feita até agora a série já merece todos os elogios que recebe. Concebida por Neil Druckman e dirigida por Craig Mazin (da espetacular Chernobyl/) o programa consegue construir a atmosfera de um mundo devastado por uma praga, no caso um fungo que se espalha e passa a manipular seres humanos como se fossem zumbis. O ótimo Pedro Pascal vive mais uma vez um homem responsável por cuidar de alguém, no caso a adolescente Ellie (Bella Ramsey), que  tem imunidade contra o tal fungo. A cada episódio eles enfrentam novos desafios enquanto estreitam seus laços de afinidade e exorcizam fantasmas do passado. Se existe uma crítica que se possa fazer à série é aproveitar pouco os cenários e personagens que atravessam o caminho dos protagonistas, de forma que se torna um tanto previsível e esquemática demais na forma como os episódios se desenvolvem no geral, não por acaso, o episódio mais falado foi o terceiro (estrelado por Nick Offerman e Murray Bartlett) e que rompe com a lógica dos demais. Dos nove episódios o que menos gosto é o sétimo, mas nem vou dar SPOILER sobre ele. Muitos fãs só esperam que a nova temporada traga traga mais monstrengos. 

#01 "Treta" (Netflix)

A série da Netflix estrelada por Ali Wong e Steven Yeun se tornou a mais falada das últimas semanas, muito por conta da forma surpreendente como o programa desenvolve as consequências da briga de trânsito entre seus protagonistas para apresentar algo muito maior sobre ambos. Yeun vive Danny, imigrante coreano que tem problemas com a vida financeira e ainda precisa aturar o irmão (Young Mazino) que imagina q ficará rico com a internet. Wong vive Amy,  igualmente filha de imigrantes orientais que que é casada, bem sucedida profissionalmente e prestes a fazer um grande negócio que a deixará mais tempo com a família. Conforme as realidade dos dois se juntam, elas se chocam e produzem acontecimentos que mudarão as vidas de ambos para sempre. Se Steven Yeun já conhecemos faz algum tempo e tem uma indicação ao Oscar (por Minari/2020) no currículo, a comediante Ali Wong eu conhecia dos especiais presentes na Netflix, mas não fazia ideia do talento dramático dela para dar conta das camadas de Amy. Os talentos multifacetado de ambos são fundamentais para que a mistura de comédia, drama e suspense funcione atingindo todas as notas que pretende. Fazia tempo que a Netflix não acertava em uma nova série com tanta vontade (cortesia da parceria com a A24). 

PL►Y: I Wanna Dance with Somebody

 
Naomi (ao centro): o talento de salvar um filme. 

Hollywood investe cada vez mais em biopics, afinal, existe a ideia de que pelo menos a bilheteria irá agregar os milhares de fãs em arrecadação robusta. Nem sempre a coisa funciona. Se ano passado, Elvis se tornou um sucesso indicado a oito Oscars, a dramatização da vida da cantora Whitney Houston não teve a mesma sorte. Escrito pelo mesmo roteirista do badalado Bohemian Rhapsody (2018), I Wanna Dance with Somebody fica pelo meio do caminho no que diz respeito a trazer novidades e agregar algum estilo à narrativa. Seu maior trunfo é a escalação de inglesa Naomi Ackie, que não parece muito com Whitney, mas consegue tornar a personagem palpável para a plateia. Todo mundo sabe que Whitney foi uma das vozes mais poderosas da história da música, rendendo milhões para a indústria, o que não evitou seu fim trágico. Após seu falecimento foram realizados vários documentários sobre sua história e esse filme parece uma colcha de retalhos sobre a artista. O longa dirigido por Kasi Lemmons costura momentos importantes da carreira da cantora e deixa outros de fora sem muita cerimônia (principalmente suas incursões no cinema, mas como o filme tem mais de duas horas fico imaginando se seria uma boa ideia colocar tudo por aqui). O longa arranja espaço para os hits da diva, mas também para falar sobre sua bissexualidade e envolvimento com as drogas. Sobre a bissexualidade o roteiro promete um bom desenvolvimento com ajuda da química de Naomi e Nafessa Williams (que vive a grande amiga Robyn) mas depois deixa a coisa de lado. Quanto às drogas o desenvolvimento é mais problemático e o roteiro não sabe muito bem para onde ir. Naomi Ackie (lembrada aqui no blog como atriz coadjuvante por seu trabalho em Lady Macbeth nos Melhores de 2017) consegue simular o tom de voz de Whitney nos diálogos (porque, obviamente nas cenas musicais, ela é dublada com um sincronismo impecável) e capturar muito dos gestos da artista no palco , mas carece de um material mais lapidado para compor uma personagem que dependa menos da lembrança que temos da artista e seu temperamento. Existem detalhes curiosos como a cena em que é acusada de ser "negra por fora e branca por dentro" devido à sua música ser pop e ao fundo vermos a foto de Michael Jackson em sua transição de pele, ou a forma como o empresário Clive Davis (Stanley Tucci) é mostrado como fiel escudeiro enquanto o Sr. Huston (Clarke Peters) ganha ares de vilão (e a dualidade que temos na percepção destes personagens reais não existe no filme), mas nada que disfarce que embora tenha uma excelente personagem em mãos defendida por uma atriz competente, o filme prefira seguir a cartilha tradicional das biopics afim de agradar todo mundo. O resultado é o sabor genérico que desperta a nostalgia do espectador, mas que não encontra fôlego para se tornar uma obra memorável. 

I Wanna Dance With Somebody - A História de Whitney Huston (I Wanna Dance With Somebody/ EUA - 2022) de Kasi Lemmons com Naomi Ackie, Stanley Tucci, Nafessa Williams, Clarke Peters, Tamara Tunie e Ashton Sanders. ☻☻

domingo, 16 de abril de 2023

Pódio: Rutger Hauer

3º: O Tenente Russo. 

3º Fuga de Sobibor (1987) Nascido na Holanda em 1944, Rutger Hauer começou sua carreira de ator ao final dos anos 1960 em produções televisivas. A carreira em Hollywood só começou nos anos 1980, onde viveu seu auge. Embora nunca tenha concorrido ao Oscar até o seu falecimento em 2019, ele foi indicado ao Globo de Ouro de por seu trabalho comovente nesta adaptação do livro de 
Stanislaw Szmajzner que recria a fuga de judeus de um campo de concentração em meio ao Holocausto. A produção é tão marcante que eu lembro até hoje da minha mãe assistindo ao último episódio (por aqui o filme foi exibido como minissérie na Globo). Vale a pena assistir. 

Prata: O Cavaleiro Amaldiçoado
2º O Feitiço de Áquila (1985) Embora em boa parte das produções que estrelou (de acordo com o IMDB foram 173) façam com que você lembre dele feito um vilão, Hauer deu mostras claras de que poderia ser um galã bastante convincente. Sua aparência ajudava bastante e seu estilo visceral ajudou mais ainda ao encarnar o par de Michelle Pfeiffer nesta fantasia que se tornou um clássico da Sessão da Tarde. Aqui ele vive Navarre, um homem condenado a jamais encontrar sua amada por conta de uma maldição que os separa entre o dia e a noite. Temperado com romance e aventura, o filme se tornou um dos mais marcantes da carreira do diretor Richard Donner e inesquecível para quem assistir. 

Ouro: O Líder Replicante. 
1º Blade Runner (1982) Não tem jeito, quando se fala de Rutger Hauer logo vem à cabeça o replicante Roy Batty que viveu no clássico de Ridley Scott. Embora na época do lançamento o personagem pudesse ser  visto como o vilão da história, muitas teorias depois disseram que ele era o herói da trama, afinal, após escapar do trabalho exploratório no meio de espaço e voltar para a Terra em busca de sobrevivência, Roy faz com que até o Caçador de Androides de Harrison Ford passe a questionar seu ofício. Embora seja uma máquina, Hauer proporciona ao seu personagem uma complexidade entre a violência e a melancolia, além de render aquela cena de despedida na chuva que é uma das mais poéticas do cinema. Merecia um Oscar!

PL►Y: IL Futuro

Manuela e Luigi: crescendo e aprendendo. 

Bianca (Manuela Martelli) e Tomas (Luigi Ciardo) são dois irmãos que acabaram de ficar órfãos. Por estarem um tanto fora de órbita pelo ocorrido eles ainda não se deram conta do que isso quer dizer (e em determinado momento até repreendem o uso da palavra). Somente nas conversas com uma assistente social responsável, por acompanhá-los é que Bianca descobre que por ter dezoito anos se torna responsável por cuidar do irmão. Ela também não entende muito bem o que isso quer dizer, mas a ideia de se separarem se torna um outro golpe que não estão dispostos a sofrer. O que eles entendem é que precisam ir à escola e fazer as tarefas de casa, mas não demoram a deixar a casa uma bagunça pela total incapacidade de jogar o lixo no devido lugar ou lavar a louça. A ideia de receber uma pensão por conta do trabalho do pai também ajuda menos do que imagina, já que, depois de calcularem, descobrem que ao pagar as contas, o que sobra mal dá conta da alimentação (e haja doces e biscoitinhos para os dois). Crescer não é fácil e tornar-se um adulto é mais complicado ainda, por isso mesmo o italiano Il Futuro se torna um filme de rito de passagem ao acompanhar a jornada dos dois irmãos para perceber as armadilhas que aparecem pelo caminho da inércia cotidiana. Parte dessas armadilhas aparecem personificada por dois amigos que cruzam o caminho de Tomas, sem ter onde ficarem eles vão parar na casa dos órfãos e, se por um lado ajudam a manter a ordem na casa, ambos também sabem como aproveitar a vulnerabilidade dos irmãos. Não por acaso, desde a primeira menção aos amigos, o sexo se faz presente. Primeiro por conta de alguns canais bloqueados na TV, depois por conta de um golpe a ser orquestrado sobre um astro aposentado. É uma grata surpresas ver Hutger Hauer na pele do astro que optou se isolar depois dos golpes do destino. Conhecido como Maciste, ele terá proximidade cada vez mais íntima com Bianca, o que revelará camadas que nem ela conhecia (e soa um tanto irônico que ela cite Brad Pitt como um astro que ela gostaria que fosse seu pai e pouco depois cita que Brad poderia ser seu amante em uma conversa com um colega de trabalho). De certa forma, Maciste ocupa esses dois lugares na vida da garota a partir de determinado momento (Hauer não é o Brad, mas já teve seus dias de sex appeal e glória diante da câmera), mas também serve como a personificação do que o título anuncia perante o futuro incerto e a certeza da deterioração física com o passar da juventude (além da presença de uma riqueza que ninguém sabe identificar onde está). Hauer empresta uma dignidade surpreendente ao personagem e apresenta uma estranha química com a jovem Manuela Martelli que mostra bastante desinibida. O filme se esquiva das polêmicas na abordagem de um homem muito mais velho com uma adolescente de forma bastante sutil, optando por uma sexualidade sugestiva e até elegante, cortesia da diretora Alicia Scherson na transição de nossa percepção da passagem de Bianca enquanto adolescente para a mulher que será na vida adulta. Pena que o desfecho do filme, que busca ser poético, se torna um tanto abrupto e insatisfatório.

IL Futuro (Itália/ Chile / Alemanha / Espanha - 2013) de Alicia Scherson com Manuela Martelli, Rutger Hauer, Luigi Ciardo, Nicolas Vaporidis e Daniela Piperno. ☻☻☻

PL►Y: Red Rocket

Suzanna e Simon: planos de retomar a carreira. 

De vez em quando o cinema autoral se volta para ídolos do universo pornô. Foi assim com Dirk Digler e seus colegas no clássico Boogie Nights (1997) e recentemente no pesadão Pleasure (2022). Particularmente, acho que se não tivesse assistido este último eu teria achado mais graça de Red Rocket, último filme de Sean Baker. Já é público e notório que Baker gosta de desviar sua câmera para personagens periféricos a cenários que habitam nosso imaginário, foi assim ao filmar Los Angeles (com um iPhone) e focar em protagonistas trans em Tangerine (2015) ou em contar uma história terna com crianças que moram ao lado da Disney (mas que nunca teriam dinheiro para visitar o parque mais famoso do mundo) em Projeto Flórida (2017). Agora ele nos apresenta Mikey (Simon Rex), um astro pornô que caiu em decadência e acaba de voltar para casa, ou melhor, para a casa da ex-mulher, também ex-pornstar, Lexi (Bree Elrod). Como a grana anda curta, a mãe dela divide o teto com ela faz tempo. Mikey logo percebe que a vida não será fácil, como emprego anda difícil e ele é sempre cobrado a trazer algum dinheiro para casa, ele começa a se arriscar em atividades ilegais. A vida dele parece mudar mesmo quando conhece Strawberry (Suzanna Son), uma adolescente que trabalha em uma loja de donuts. Ele acredita que é capaz de convencê-la a fazer filmes eróticos com ele e, com isso, ter um retorno triunfal na indústria pornográfica. Com essa premissa, Red Rocket mistura drama e comédia, principalmente por conta do jeito atrapalhado de seu protagonista vivido com gosto por Simon Rex. Rex foi um ícone da MTV americana, se tornou bastante popular e viu sua carreira minguar quando seu passado em filmes adultos comprometeram seus projetos futuros. Na pele de Mikey se torna até fácil simpatizar com ele, apesar de todas as suas canalhices, suas trapaças recebem tom cômico, assim como suas discussões, cenas de sexo e nudez. Não por acaso sua carismática desenvoltura lhe rendeu o prêmio de melhorador no Independente Spirit do ano passado e uma torcida (que não deu em nada) para que recebesse uma indicação ao Oscar (difícil a Academia comprar uma ideia feito a sinopse do filme). Logicamente que Baker constrói a história pelo gosto de ver a cara de pau do protagonista ser quebrada várias vezes, mesmo que paire sobre a trama a sombra dele poder ganhar a vida às custas de uma adolescente. Talvez por isso o final tenha me parecido um tanto abrupto, deixando as intenções do diretor (sejam elas quais forem) no meio do caminho. Este olhar bem humorado e um tanto desleixado sobre a decadência de um "Macho Alfa" pode ser visto no TelecinePlay. 

Red Rocket (EUA-2021) de Sean Baker com Simon Rex, Suzanna Son, Bree Elrod, Brenda Deiss, Judy Hill, Brittney Rodriguez e Marlon Lambert. ☻☻☻

PL►Y: Sharper - Uma Vida de Trapaças

 
Lithgow e Moore: elogiado neo-noir na AppleTv

Embora o subtítulo do filme possa estragar parte da surpresa, o filme de Benjamin Caron colhe elogios por ser um thriller à moda antiga, com seus mistérios se embaralhando conforme os personagens começam a se revelar para a plateia. Confesso que a primeira referência que tinha do filme era a presença de Julianne Moore e quando comecei a assistir ao filme na AppleTv, pensei que estava vendo outra produção por engano. Não era. O filme é dividido em partes que parecem capítulos centrados em personagens específicos, cada parte complementa a outra, mostrando fatos acerca de cada um deles.  Não cabe dizer muita coisa para não estragar as surpresas que o filme reserva, mas é interessante notar a destreza com que o diretor costura a narrativa (o que não é por acaso, já que ele já foi responsável por dirigir episódios de séries aclamadas como Sherlock, The Crown e Andor), o problema talvez seja o desfecho um tanto mirabolante demais. Quando o filme começa conhecemos o tristonho Tom (Justice Smith), dono de uma livraria que acaba de conhecer Sandra (Briana Middleton), uma estudante nova na cidade que ele acredita ser o grande amor de sua vida. Os dois viverão uma história de amor intoxicante, mas nem tudo são flores na vida do rapaz, já que ele tem problemas de relacionamento com o pai (John Lithgow) que recentemente se casou com Madeline (Moore), que também poderia ser mais feliz se não tivesse um um filho problemático (Sebastian Stan). Conforme o filme avança nos atos dedicados a cada um deles, alguns segredos aparecem e comprometem a tanqüilidade de todos eles.  Cabe à plateia acompanhar as descobertas junto aos mocinhos da história e ter um bocado de raiva dos vilões espertalhões que aparecem pelo caminho, até descobrir quem irá rir por último. Embora o final precise de um pouco de boa vontade para ser aceito, Sharper tem bom ritmo, produção bem cuidada e um elenco inspirado que consegue tirar o gosto genérico que este tipo de filme recebeu nos últimos anos. Entre golpistas e seus patos, o filme prende a atenção como seus semelhantes hollywoodianos padecem para conseguir. 

Sharper - Uma Vida de Trapaças (Sharper / EUA - 2023) de Benjamin Caron com Julianne Moore, Sebastian Stan, Justice Smith, Briana Middleton, John Litgow e Darren Goldstein. ☻☻☻

sábado, 15 de abril de 2023

PL►Y: Please Baby Please

Harry e Andrea: um casal e suas fantasias. 

Confesso que fiquei com pena da Andrea Riseborough no Oscar desse ano. Depois de toda polêmica por sua indicação por To Leslie ela preferiu ficar no canto, sem alardes e se reservando a aparecer no obrigatório momento de mencionar as indicadas ao Oscar de melhor atriz (e deu pulos de alegria ao ver Michelle Yeoh fazer história). O que era para ser um dos momentos mais felizes de sua carreira, ficou ofuscado por uma polêmica em torno dos seus colegas de trabalho que resolveram impulsionar a votação por seu trabalho em um filme de orçamento modesto e renda zero voltada para campanhas de marketing. Uma das atrizes mais interessantes em atividade atualmente merecia mais consideração. Desde que foi revelada para o mundo em W.E (2011) o famigerado segundo filme dirigido por Madonna, Andrea emendou um filme no outro, seja como protagonista, coadjuvante, participação especial, em cinema ou série de TV. A atriz se arrisca em diversos gêneros e estilos sendo reconhecida por ser um verdadeiro camaleão. Em cartaz na Mubi, Please Baby Please é uma dessas ousadias. Dirigido por Amanda Kramer, o filme tem um jeito tão despojado que parece mais uma peça de escola que por acaso foi filmada. A atmosfera onírica queer carregada pelos tons neon remetem ao clima das fantasias sexuais do casal principal. Suze (Andréa) e Arthur (Harry Melling) formam o casal que ao chegar em casa presencia uma gangue cometendo um crime. Se a esposa se mostra seduzida pela agressividade da gangue, o marido demonstra uma atração específica por um dos integrantes vestido em couro e transparências (cortesia de Karl Glusman, mais uma vez objetificado). Embora figurinos e penteados remetam aos anos 1950, o filme tem uma estética bastante anacrônica nos tipos que apresenta em sua hora e meia de duração, mas a história parece acontecer no passado, principalmente pela forma como o casal principal parece confuso com suas fantasias e identidades sexuais, sem saber muito bem como se classificarem (e será que hoje é mais fácil?). O fato que é que se a primeira impressão deixa a sensação de que os dois não combinam muito, cresce um verdadeiro abismo entre os dois no decorrer da sessão. Andrea e Melling começam a intensificar casa vez mais as diferenças entre os personagens, ela se torna mais exagerada e careteira, ele mais contido e revela suas intenções através de olhares e gestos, até que seus questionamentos em torno da sexualidade comecem a transbordar nos nos diálogos. No meio da encenação caótica proposta pela diretora, Melling ganha pontos em mais uma construção sensível em sua carreira, sendo aqui o primeiro trabalho em que apresenta um aura sexy (com pendores até então insuspeitos para dança e um beijo bastante provocador em seu colega de elenco). Não fosse pela curiosidade de vê-lo em um personagem tão diferente, provavelmente eu teria abandonado Please Baby Please no meio do caminho com suas muitas ideias, execução confusa e números musicais camp. É um filme que desperta curiosidade pelo elenco, mas um tanto perdido no que se propõe. 

Please Baby Please (EUA-2022) de Amanda Kramer, Andrea Riseborough, Harry Melling, Karl Glusman, Jake Choi, Matt D'Elia, Ryan Simpkins, Jake Sidney Cohen , Karim Saleh e Demi Moore. ☻☻

PL►Y: Nos Corredores

 
Sandra e Franz: o universo nos corredores de um supermercado. 

Figurando entre os atores europeus mais badalados da atualidade, o alemão Franz Rogowski já foi até citado como uma espécie de irmão mais novo do americano Joaquin Phoenix, os dois realmente possui uma semelhança física para além de uma cicatriz, mas também por conta do gosto por viver personagens diferentões. Eu conheci Rogoswki no excelente Great Freedom/2021 (que o colocou entre as melhores interpretações masculinas de 2022 aqui do blog), filme que está na Mubi assim como outros filmes estrelados por ele. Nos corredores (ou In The Aisles) é um desses e chama atenção principalmente pelo lugar que escolhe de ambientação para sua história: um supermercado. Rogowski vive Christian um jovem de poucas palavras (e muitas tatuagens) que é contratado para ser repositor do corredor de bebidas de um grande supermercado. Ele logo ganha a simpatia do funcionário mais antigo do setor, Bruno (Peter Kurth) que será responsável por lhe ensinar as tarefas do setor lhe dará dicas preciosas no manejo complicado da empilhadeira. Se aos poucos o colega de trabalho se torna uma espécie de figura paterna para Christian, aos poucos ele começa a se interessar por sua colega do corredor vizinho, a sensível Marion (Sandra Hüller que parece a prima alemã da Cate Blanchett) responsável pela sessão de doces. Logo os dois percebem que a recíproca é verdadeira e desenvolvem uma relação platônica com alguns complicadores que irão afetar a relação de ambos com o espaço de trabalho. O mais interessante é como perante a ambientação e os personagens que tem em mãos, o roteiro se torna cada vez mais gracioso, no entanto, o diretor Thomas Stuber opta por filma-lo sem enfeites, de forma lenta e um tanto seca, o que não impede de criar um universo interessante por si só perante aquele mundo particular. Ainda que gere reflexões variadas sobre a relação das pessoas com seu local de trabalho, Nos Corredores demonstra como aquele universo se torna uma espécie de mundo paralelo para os personagens.  Existem alguns detalhes da vida fora do trabalho dos personagens que servem apenas para sugerir como naquele espaço eles vivem outras personas, demarcadas até por níveis de status e importância que aos poucos se demonstra cômoda e segura, sem esquecer do afeto construído entre os membros daquele grupo que, por vezes desequilibram a comodidade vivida antes. A ambientação em um supermercado funciona então como a ideia de organização daquele espaço, mas também em momentos em que os personagens subvertem algumas regras do local (incluindo as cenas sobre o que é descartado, com direito até a uma ceia de natal). A fotografia que ressalta os tons de amarelo destacam um certo elemento de fantasia na forma como a história é conduzida (e em dado momento imaginei como seria o filme em uma versão americana feita por Wes Anderson) e a última cena (tão terna e sutil) só reforça este fator. Delicioso em sua originalidade, Nos Corredores é uma grata surpresa. 

Nos Corredores (In den Gängen/Alemanha - 2018) de Thomas Stuber com Franz Rogowski, Sandra Hüller, Peter Kurth, Andreas Leupold e Matthias Brenner. ☻☻☻☻

PL►Y: O Estrangulador de Boston

 
Knightley: jornalista em busca de um serial killer.  

Nos anos 1960, mulheres de idade avançada que moravam sozinhas começaram a ser assassinadas dentro de casa. A semelhança entre as situações chamaram atenção da jornalista Loretta McLaughlin (Keyra Knightley), que estava cansada de escrever sobre cuidar da casa e novas torradeiras. Meio a contragosto do chefe, ela começa a pesquisar o que estava por trás dos crimes. De início ela não descobriu muito mais do que as meias-calças amarradas no pescoço das vítimas como se fosse um laço. Em busca da verdade Loretta enfrenta uma série de desafios na forma como a imprensa aborda este tipo de fato, algo ampliado pelo fato dela ser mulher e por sua pesquisa enveredar por espaços tidos como marcadamente masculinos (delegacias, bares, contatos com suspeitos), assim como os homens se sentem e tanto ela quanto os homens sentem incomodados por suas indagações. Não fosse o interesse da jornalista, provavelmente o assassino do título (que recebeu o nome cunhado por ela) jamais teria recebido atenção da mídia, que preferia ver os crimes como situações, digamos, "sem muita importância". O filme então segue a cartilha desse tipo de trama: a forma como a imprensa seleciona suas prioridades, o jeito que a sociedade digere a notícia ou até a histeria em torno de possíveis suspeitos, de forma que pede muito emprestado do que David Fincher fez em Se7en (1995) e mais ainda em Zodíaco (2007), mas sem tanto apuro estético (a fotografia monótona não ajuda) e um clímax final satisfatório. No entanto, o filme funciona na forma como constrói a narrativa como se enveredasse não por um labirinto de pistas e suspeitos, mas por um verdadeiro beco sem saída. O filme consegue criar a ideia de ameaça constante, definindo aos poucos o criminoso do título como uma espécie de lenda urbana que ganha materialidade a medida de que bebe diretamente nos casos de feminicídio que direcionam o caso. É assustador a quantidade de homens que no meio da investigação apresentam motivações para cometerem seus crimes num emaranhado de nomes formados por pacientes psiquiátricos, maridos infiéis e namorados ciumentos. Neste ambiente hostil Keyra Knightley apresenta aqui um de seus melhores trabalhos, mas o filme perde pontos por somente seu personagem ganhar destaque (Carrie Coon aparece pouco como sua parceira e os demais personagens são apenas unidimensionais). Ainda que não tenha um desfecho marcante, ele permanece assustador e apontando para uma temática que, infelizmente, ainda se faz muito presente nos telejornais. O filme está em cartaz no Star+. 

O Estrangulador de Boston (Boston Strangler / EUA-2023) de Matt Ruskin com Keira Knightley, Carrie Coon, Chris Cooper, Alessandro Nivola, Morgan Spector, David Dastmalchian e Rian Winkles. ☻☻☻