domingo, 26 de maio de 2024

#FDS Palma de Ouro: Paris,Texas

Natassja e Stanton: a erraticidade da vida. 
 
Para encerrar o #FinalDeSemana dedicado a filmes ganhadores da Palma de Ouro aqui no blog, escolhi um dos premiados mais queridos de suas setenta e sete edições. Paris, Texas é apontado em várias listas como um dos melhores filmes a levarem a Palma de Ouro para a casa, assinado pelo alemão Win Wenders, o filme se tornou uma de suas mais aclamadas experiências em Hollywood. Colabora muito para isso seu olhar estrangeiro em uma trama que transborda referências aos filmes de velho oeste em uma história mais contemporânea. Escrito por Sam Shepard, o filme traz elementos típicos da filmagem de um western (a trilha sonora, os planos abertos, a concepção dos personagens) para os anos 1980, época em que os dramas familiares estavam em alta no cinema dos Estados Unidos. Assim, a produção articula a abordagem de uma trama intimista com uma certa grandiloquência dos clássicos de John Ford. O título é referente à um pequeno vilarejo que o protagonista, Travis (Harry Dean Stanton) acredita ser o lugar ideal para viver com sua bela esposa, Jane (Natassja Kinski) e o bebê que tiveram juntos. No entanto, o relacionamento entre o casal enfrentou problemas e Travis ganhou o mundo em uma jornada que ninguém entendeu muito bem, inclusive ele. Anos depois, Travis vai em busca de seus irmão, Walt (Dean Stockwell) que passou a cuidar do pequeno Hunter (Hunter Carson), após a mãe do menino também buscar outros caminhos. Quando Travis retorna, a família sente-se insegura com os rumos que irá tomar, sobretudo quando o reaparecido demonstra a vontade de reencontrar a esposa. A maior parte do filme se concentra na forma como o dissonante Travis se aproxima novamente da família, se o irmão e a cunhada não entendem muito bem o que se passa na cabeça dele, aos poucos ele consegue se aproximar mais do filho, sobretudo quando os dois partem para encontrar o paradeiro da esposa desaparecida com base em uma pista. Paris, Texas se desenvolve como um road movie familiar com toques bastante emocionais, embalada com a magnífica trilha sonora de Ry Cooder com base em uma guitarra melancólica e o uso de cores vibrantes da fotografia de Robby Müller. No entanto, acho que nada prepara  o espectador para o reencontro do casal em um ambiente que só ressalta o distanciamento entre os dois personagens, assim como o jeito desajeitado como a ideia de um sonho americano de desmontou. O final deixa aquela sensação do cowboy que cumpriu sua missão, mas que segue sua jornada pessoal banhado na sensação de incerteza sobre os caminhos que deve seguir. Não por acaso o desfecho deixa aquela sensação de final em aberto que pode incomodar muita gente. Naquele ano outros filmes que concorriam ao prêmio foram O Elemento de um Crime de Lars Von Trier, Henry V de Marco Bellochio, Quilombo de Cacá Diegues e, ironicamente, À Sombra do Vulcão de John Huston. 

Paris, Texas (Alemanha Oriental - Reino Unido - França - EUA/1984) de Win Wenders com Harry Dean Stanton, Natassja Kinski, Hunter Carson, Dean Stockwell e Aurore Clément.☻☻☻☻

sábado, 25 de maio de 2024

PREMIADOS FESTIVAL DE CANNES 2024

"Anora" de Sean Baker: Favorito desde a primeira olhada.
 
Parece que as impressões deixadas por Anora de Sean Baker se mostraram mais do que certas após a exibição do filme. Desde que o filme sobre a história de amor entre uma stripper e um herdeiro russo chegou aos olhos do público, com aquela energia desconstrutora do cineasta, houve uma certa unanimidade em apontar que ele era o grande favorito ao maior prêmio do festival. Surpresa mesmo foi a o empate na categoria de melhor atriz para as protagonistas do novo filme de Jacques Audiard (em algum momento de sua vida você achou que Selena Gomez teria um prêmio de melhor atriz em Cannes? Pois é...). Outro filme que deve fazer barulho ao longo do ano é A Substância, que traz de volta Demi Moore aos holofotes digna das premiações de fim de ano. Fora dos premiados, resta ver o que será de Megalopolis de Francis Ford Coppola ao longo do ano. A seguir os premiados desta edição:
 
Palma de Ouro
“Anora”, de Sean Baker
 
Grande Prêmio
“Tudo Que Imaginamos Como Luz”, de Payal Kapadia

Prêmio do Júri
“Emília Pérez”, de Jacques Audiard
 
Melhor Diretor
Miguel Gómez, de “Grand Tour”

Melhor Ator
Jesse Plemons, de “Tipos de Bondade”

Melhor Atriz
Adriana Paz, Zoe Saldaña, Karla Sofía Gascón e Selena Gomez, de “Emilia Perez”
 
Melhor Roteiro
“A Substância”, de Coralie Fargeat
 
Curta-metragem
“O homem que não conseguia permanecer em silêncio” de Nebojsa Slijepcevic
 
Menção Especial Curta-Metragem
“Ruim por um momento” de  Daniel Soares
 
Melhor Diretor Estreante
“Armand” de Halfdan Ullmann Tøndel
 
Prêmio da Crítica
"The Seed of the Sacred Fig" de Mohammad Rasoulof
 
Prêmio Un Certain Regard 
"Black Dog" de Guan Hu
 
Palma de Ouro honorária
George Lucas

#FDS Palma de Ouro: Adeus, Minha Concubina

Cheung: romance em meio à conturbada história chinesa.

Em 1993 houve um empate na votação do filme que levaria a Palma de Ouro do Festival de Cannes para casa, o fato não chegava a ser uma novidade, já que ao todo foram nove vezes que o prêmio máximo do festival foi compartilhado entre duas produções. Imagino o júri diante do impasse ao assistirem O Piano de Jane Campion e Adeus, Minha Concubina de Chen Caige. Dois grandes filmes que são considerados verdadeiros clássicos dos anos 1990 com histórias de amor atravessadas por uma realidade dura e cheia de convenções.  Adeus, Minha Concubina é uma adaptação do livro de Lilian Lee, que conta a história de dois atores da ópera de Pequim que através da conturbada história da China no século XX. São quase três horas de filme sobre a história de Cheng Dieyi, um menino que é abandonado por sua mãe junto a outros garotos a serem formados para atuar nos palcos. Com o início de sua formação em 1924, Dieyi vai comer o pão que o diabo amassou na companhia, a começar pelo dedo extra que sua mãe acaba cortando para que seja aceito pela companhia. A origem do menino também não é bem vista pelos colegas, o que faz com que ele seja perseguido pelas outras crianças. Um pouco de alento chega pela companhia de Duan Xialou, que se tornará seu parceiro de palco através de décadas e, até que isso aconteça, compartilhará os terríveis castigos da companhia em nome da perfeição. Como os papéis nos palcos eram vividos somente por homens, Dieiyi, devido às suas características físicas mais delicadas,é escolhido para viver os papéis femininos, incluindo o da peça que dá título ao filme. O filme desenvolve nas entrelinhas uma ambiguidade sobre a sexualidade de Dieyi em sua vida adulta (agora vivido por Leslie Cheung), sempre com sugestões de que ele era apaixonado por Xialou (interpretado quando adulto por Zhang Fengyi), ao ponto de vivenciar fortes crises de ciúmes quando o colega se casa com Juxian (a diva Gong Li), instaurando um triângulo amoroso problemático. Acompanhamos então a relação entre os três mesclada com a ascensão dos atores perante as mudanças políticas na China, envolvendo conflitos como Japão e a chegada do partido comunista chinês ao poder. Tudo se torna cada vez mais tenso e por várias vezes coloca a vida dos dois atores em risco até o desfecho. Existe aqui uma história de amor com a História de um país como pano de fundo, o que quando costuma funcionar se torna extremamente envolvente. Para além destes dois elementos, Adeus, Minha Concubina tem uma direção de arte belíssima, valorizada ainda mais pela fotografia de encher os olhos, numa contraposição da estética de um sonho com a dureza da realidade que sempre paira sobre os dois atores. Existe ainda um caráter metalinguístico na trama, já que nas entrelinhas existe muita  semelhança entre a vida de Xialou e Dieyi e a peça que os tornam consagrados. Por último, vale ressaltar que existe uma sintonia perfeita entre Zhang e Cheung, que muitas vezes se comunicam somente pelo olhar. Falando em olhar, Leslie Cheung está perfeito ao reproduzir a alma melancólica de seu personagem ao longo de todo o filme com aqueles olhos entre a raiva e a tristeza, além de de um trabalho corporal notável quando surge como figura feminina no palco. O filme se tornou o primeiro filme chinês a receber a Palma de Ouro no Festival de Cannes, mas foi banido dos cinemas chineses devido à censura local, retornando às salas meses depois em uma versão mais curta. O longa também concorreu ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e Fotografia (mas merecia lembranças em várias outras categorias, como maquiagem, figurino, direção de arte). Entre os outros filmes que concorriam à Palma de Ouro em 1993 estavam Naked de Mike Leigh, Tão Longe Tão Perto de Win Wenders, Um dia De Fúria de Joel Schumacher, Muito Barulho por Nada de Kenneth Branagh e O Inventor de Ilusões de Steve Soderbergh.  Adeus, Minha Concubina se tornou um dos filmes orientais mais falados dos anos 1990 e ainda hoje permanece com seu impacto irretocável.

Adeus, Minha Concubina ( Ba wang bie ji / China - Hong Kong / 1993) de Kaige Chen com Leslie Cheung, Fengyi Zhang, Gong Li, You Ge, Zhi Yin, Dan Li e Wenli Jiang. ☻☻☻☻

sexta-feira, 24 de maio de 2024

#FDS Palma de Ouro: A Criança

 Jérémie e Déborah: hora de crescer.

A Palma de Ouro do Festival de Cannes é um dos prêmios mais cobiçados do cinema. Além de sinalizar quem foi escolhido como o melhor do festival, o filme recebe uma projeção que, na maioria das vezes, lhe rende atenção ao longo de todo o ano cinematográfico (basta lembrar o fôlego que o ganhador do ano passado, Anatomia de Uma Queda, apresentou até recentemente). A 77ª edição do Festival francês termina amanhã com o anúncio do favorito deste ano e, para entrar no clima, o blog relembra nesse #FimDeSemana três filmes que foram aclamados com a Palma. Para começar escolhi A Criança, longa-metragem dos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne. Os manos belgas são famosos por suas tramas com pessoas comuns enfrentando problemas sociais e geralmente aparecem em Cannes com suas produções (ao todo já concorreram nove vezes à Palma de Ouro), mas receberam o prêmio máximo do festival somente com este drama sufocante. O filme conta a história do casal Sonia (Déborah François) e Bruno (Jérémie Renier), ela acaba de sair do hospital com um bebê de oito dias, ele gasta o tempo aplicando golpes que lhe garantem algum sustento. Ao chegar no apartamento, Sonia já se depara com outra pessoa morando por ali e não entende muito bem o que está acontecendo. Quando ela encontra Bruno na rua, ele não parece muito animado com a ideia de ser pai. As cenas do casal junto parecem improvisadas e pretendem dizer o quanto os dois ainda são imaturos (pela idade ainda podem ser considerados adolescentes), no entanto, a coisa piora quando Bruno cogita vender a criança. No entanto, ele não comunica à Sônia os seus planos e você pode imaginar o que acontece. Se contar mais, estraga. A criança passa a conciliar o drama familiar com uma espécie de thriller, em que o rapaz tenta consertar o estrago que fez, mas precisa arcar com as consequências de suas atitudes numa espiral de acontecimentos envolvendo o submundo do tráfico de crianças. Os Dardenne apresentam a situação de forma bastante crua, sem pedir para que o público entenda ou perdoe as atitudes do rapaz, mas aos poucos deixam claro que a criança do título é o próprio Bruno. Temos a impressão que ele cresceu sem assumir responsabilidades e que agora precisa amadurecer. A mãe dele aparece rapidamente em cena e ele não parece ser bem vindo em casa. Seu comparsa de golpes é um adolescente de treze anos e Sonia não parece disposta a perdoar o namorado pelo que fez. A Criança soa até como um filme simples, filmado como se fosse um recorte do cotidiano daqueles personagens (que é o estilo dos diretores), mas difere na engenhosa construção de uma tensão crescente na vida perdida de Bruno. Esta capacidade de atribuir força à narrativas aparentemente simples é uma especialidade dos Dardenne, que levaram a Palma de Ouro daquele ano deixando para trás produções renomadas como Caché de Michael Haneke, Flores Partidas de Jim Jarmush, Manderlay e Lars Von Trier e Marcas da Violência de David Cronenberg. 

A Criança (L'Enfant / Bélgica - França / 2005) de Jean-Pierre e Luc Dardenne com Jérémie Renier, Déborah François, Jérémie Segard, Fabrizio Rongione e Olivier Gourmet. ☻☻☻☻ 

 

PL►Y: Berberian Sound Studio

Toby: trabalho assustador.

Nos anos 1960, o inglês engenheiro de som Gilderoy (Toby Jones) chega à Itália para trabalhar na sonoridade de um filme local. Ele é pego de surpresa quando descobre que se trata de um filme de terror, um dos chamados gialli (tramas policialescas sangrentas) que fizeram muito sucesso. Acostumado a trabalhar em documentários, o profissional fica em choque. O fato dele possuir uma personalidade introspectiva também complica o andamento do seu trabalho, especialmente com a tensão imposta pelo produtor (Antonio Mancino) que sempre adia o reembolso da passagem e o próprio pagamento pelo serviço. A coisa realmente não é como o moço esperava e piora ainda mais quando percebe as relações que pairam sobre o diretor e as atrizes responsáveis por dar vida (e gritos) às personagens do filme The Equestrian Vortex, sobre crimes, bruxarias e afins. O diretor britânico Peter Strickland constrói aqui uma verdadeira ode à importância do som na construção de uma narrativa, especialmente de horror, afinal, mesmo que não vejamos o filme em que Gilderoy trabalha, os barulhos envolvidos em sua feitura são arrepiantes. Tanto os gritos, quanto o som das melancias despedaçadas, repolhos esfaqueados e outros legumes torturados fazem a mente do espectador viajar perante as imagens que aquele personagem precisa conviver ao longo de várias semanas. O problema é que a própria história de vida de Gilderoy começa a aumentar ainda mais o seu incômodo perante tudo aquilo. Problemas com o pagamento, conflitos com a equipe, cartas da mãe, a solidão de estar em um território diferente e hostil, tudo colabora para que o cotidiano do profissional se torne um filme de terror (e não por acaso, por vezes, algumas situações vividas por ele se confundem com o que é visto no filme). Toby Jones prova mais uma vez que é um grande ator e carrega o filme nas costas ao expressar todo o incômodo do personagem até que se anestesie por completo na rotina estafante de seu serviço e embora o filme pareça perder o fio da meada lá pela metade, a forma hipnótica como apresenta o trabalho do engenheiro de som envolve o espectador com uma imersão sensorial incomum, esta qualidade faz com que o filme seja uma obra difícil de se abandonar pela metade. Estranho e fora da caixinha (como a maioria das obras de Strickland), se houver uma lista de filmes mais assustadores que não são de terror, Berberian Sound Studio merece um lugar de honra.
 
Berberian Sound Studio (Reino Unido / Alemanha - 2012) de Peter Strickland com Toby Jones, Antonio Mancino, Guido Ardoni, Susanna Cappellaro, Cosimo Fusco, Fatma Mohamed, Eugenia Caruso e Salvatore Li Causi. ☻☻☻

quinta-feira, 23 de maio de 2024

PL►Y: Duna - Parte 2

 Stellan e Austin: vilões do caminho do predestinado.
 
Já disponível para streaming no MAX, finalmente consegui assistir a segunda parte da adaptação de Dennis Vileneuve para o clássico de Frank Herbert. Para escrever esta postagem eu reli o que escrevi sobre o primeiro filme e mantenho tudo o que disse sobre a habilidade da produção em construir um mundo cinematográfico, sendo que aqui, por ser uma continuação, tudo está ampliado e em maior escala para expandir o que vimos no primeiro filme. A trama continua da parte que o anterior parou, quando o predestinado Paul Atreides (Thimothée Chalamet) e sua mãe (Rebecca Ferguson) passam a acompanhar os Fremen pelo deserto. Como era de se esperar, aqui Paul terá que encarar seu destino de encontro à uma profecia que sempre pairou sobre ele, tendo que provar que é mais do que um forasteiro perante aquele grupo. Com mais cenas de ação e batalhas grandiosas, a base dramática do filme é o amadurecimento de Paul rumo ao seu papel em meio às disputas daquele planeta. Para isso, ele passa por algumas provas, se envolve amorosamente com Chani (Zendaya) e se prepara para encarar o Imperador (Christopher Walken) responsável pelo massacre visto no primeiro filme - que custou a vida de seus amigos e seu pai (Oscar Isaac). Acontece que o imperador tem ao seu lado os brutais Rabban (Dave Bautista) e Freyd-Rautha (Austin Butler) que devem dar trabalho a Paul, além da filha, princesa Irulan (Florence Pugh), que pode ter papel importante nos jogos de poder que se avistam. Até que Paul encontre seu maior inimigo, são realizadas batalhes épicas pelo domínio das especiarias e discussões sobre o veracidade da profecia em meio a tudo a aquilo. Mais uma vez, tenho a impressão que Vileneuve capricha mais na forma do que no conteúdo da história que tem em mãos (ou será que o conteúdo está justamente na forma com que tudo se apresenta?). Embora as relações entre os personagens ganhe mais complexidade por aqui, a sensação de que existe sempre um preparo para algo maior que acontecerá no filme seguinte permanece. Aqui, o capricho com efeitos especiais e ambientações continua (embora algumas cenas pareçam cortadas pelo meio) e o elenco ganha reforços consideráveis com nomes de respeito. O tom épico do filme impressiona, mas não difere muito do que já foi visto no longa anterior, o que diferencia mesmo é o amadurecimento de Paul enquanto herói, algo que Chalamet entrega de forma convincente na concepção do personagem. O bom é que o filme fez mais sucesso nas bilheterias e a continuação já está mais do que garantida para dar andamento à saga. Confesso que o filme só me empolgou em sua última hora, dados todos os arranjos que precisava dar conta até ali. Se o filme manter esta tensão em seu próximo capítulo já está de bom tamanho.  Entre os acréscimos do elenco, Austin Butler merece destaque em um trabalho completamente diferente de sua consagração em Elvis (2022), só lamento que provavelmente ele não aparecerá no próximo filme.  

Duna - Parte 2 (Dune - Part two / EUA - Canadá - Nova Zelândia / 2024) de Denis Villeneuve com Thimothée Chalamet, Zendaya, Rebecca Ferguson, Austin Butler, Dave Bautista, Christopher Walken, Javier Barden, Florence Pugh, Léa Seydoux, Stellan Skarsgard, Charlotte Rampling e Josh Brolin. ☻☻☻

segunda-feira, 20 de maio de 2024

PL►Y: À Procura

Reynolds: pai-herói sofrido.
 
Todo ator tem aquele momento em que quer ser levado a sério. Geralmente ele procura papeis mais dramáticos para demonstrar que pode inserir camadas diferentes nos personagens que defende e, se o filme for aclamado, sua carreira recebe novo fôlego com filmes de prestígio e até prêmios. Hoje Ryan Reynolds pode ser considerado um astro consagrado em Hollywood pelo seu apelo com Deadpool, personagem que podemos identificar que é repetido reinterpretado em vários outros filmes do moço desde então. No entanto, faz dez anos que o Sr. Blake Lively tentou ser reconhecido por seus músculos mais dramáticos no drama À Procura. A assinatura do cineasta Atom Egoyan garantiu até uma vaga na disputa pela Palma de Ouro no Festival de Cannes em 2014, mas a crítica e o público encontraram dificuldades para ver grandes méritos no filme. A história gira em torno do desaparecimento de uma menina. O pai, Matthew (Reynolds), a deixou no carro enquanto foi em uma lanchonete para comprar uma torta, mas ao retornar, a pequena Cassandra não estava mais por lá. Começa então uma jornada para encontrá-la com a ajuda da investigadora Nicole Dunlop (Rosario Dawson) e o detetive Jeffrey Cornwall (Scott Speedman), este considerando que Matthew tramou para vender a própria filha para quitar suas dívidas. Com o desaparecimento, o casamento de Matthew com Tina (Mireille Einos) cai por terra, já que ela desconta toda sua raiva atribuindo culpa ao marido pelo desaparecimento da filha. Paralelo a esta família em ruínas, existe uma investigação para encontrar Cassandra que atravessa vários anos, sendo que a plateia sabe desde o início o que acontece com a menina. Sim, ela está viva e envolvida em situações sombrias na internet. Agora, pegue a sinopse apresentada acima e embaralhe os tempos na narrativa, indo e voltando no tempo de forma confusa, o que prejudica muito na construção de uma tensão gradativa ao longo do filme. A opção adotada pela montagem do filme prejudica ainda mais os problemas que o filme já possui, a começar pela forma pouco convincente como é apresentada a relação entre Cassandra (quando crescida vivida por Alexia Fast) com seu exagerado sequestrador (Kevin Durand). A tensão entre o pai com os outros personagens também é feita sem muito cuidado em sua construção, apresentando tudo de forma áspera e apressada, assim como a forma como caminhamos para a resolução da história que se conclui de forma simples e sem maiores surpresas. Ryan se esforça um bocado para dar dignidade ao seu personagem, mas o roteiro (assinado pelo diretor ao lado de David Fraser) e a montagem não ajudam muito a dar credibilidade à história que em busca de criar elementos originais para a história, acaba beirando o absurdo. O estrago feito pelo desaparecimento de filhos da vida dos pais é um tema recorrente na cinematografia de Egoyan, basta lembrar das semelhanças deste com Sem Evidências (2013) lançado um ano antes, baseado numa história real arrepiante dos Estados Unidos, além da obra-prima O Doce Amanhã (1997), que lhe rendeu a Palma de Ouro no Festival de Cannes e as indicações ao Oscar de roteiro adaptado e melhor direção. No entanto, À Procura rende menos que os seus semelhantes pela execução tão confusa quanto seu roteiro. 

À Procura (The Captive / Canadá - 2014) de Atom Egoyan com Ryan Reynolds, Cott Speedman, Rosario Dawson, Mireille Enos, Kevin Durand, Alexia Fast, Bruce Greenwood, William MacDonald. ☻☻

PL►Y: Exame

Os candidatos: interesses, competitividade e barbárie.

Oito candidatos disputam a vaga em uma empresa. Enfileirados em carteiras de uma sala, com uma folha que os identifica apenas por números, eles recebem algumas instruções para os próximos oitenta minutos: não podem destruir a folha que tem em mãos, não podem tentar se comunicar com o segurança que os vigia ou com ninguém de fora da sala. No entanto, os candidatos ficam intrigados sobre o que precisam fazer no tal teste e uma série de acontecimentos inesperados começam a tomar conta da narrativa. No início a maior indagação é sobre a pergunta que precisam responder. Qual seria? Como descobrir qual é? Porém, no meio do processo, alguns segredos pessoais dos candidatos começam a deixar a disputa pela vaga ainda mais acirrada. O roteiro do diretor estreante Stuart Hazeldine ao lado de Simon Garrity começa de forma bastante trivial para depois desbravar um território cada vez mais sombrio com a postura de alguns personagens - e não faria feio nas temporadas mais recentes de Black Mirror (que a propósito foi lançada dois anos depois). A apresentação dos personagens é bastante eficiente nos minutos iniciais, ali conhecemos ao menos uma característica marcante de cada um deles para depois ver como o roteiro se  desenvolve a partir  de como reagem aos acontecimentos que se desenrolam. Eu achei interessante que no início eles são identificados por números, mas acabam aceitando ser classificados por suas características físicas, como se fossem rótulos que precisam funcionar num grupo fadado ao fracasso por seus interesses individuais. Se a primeira vista todos estão ali por um emprego, aos poucos sabemos que alguns possuem outros interesses vinculados à vaga. Em alguns casos, esse interesse está vinculado a um acontecimento que marcou todo o planeta (lembrando que o filme acontece em um tempo indefinido e antes da pandemia de Covid19), neste ponto, a estética minimalista futurista do cenário disponibiliza recursos para que as divagações dos personagens prossigam até que a maioria perca as estribeiras de vez. O filme tem momentos bastante tensos e algumas são difíceis de assistir, ao mesmo tempo lança um olhar interessante sobre como a competitividade pode despertar verdadeiros monstros. Embora o filme se enrole nas intenções em alguns momentos, consegue ser envolvente principalmente por conta do desenvolvimento dos personagens. Embora cada personagem tenha seu momento de destaque na narrativa, alguns recebem maior destaque no andamento da trama, sobretudo os masculinos, deixando as personagens femininas em segundo plano. É interessante ver como um chama atenção como líder para depois se tornar vilão da história e depois ter este posto embaçado por alguns concorrentes. Com um elenco desconhecido eficiente, Exame evolui como um suspense ao mesmo tempo em que a percepção da realidade de seus personagens se torna cada vez mais turva. É visível como cada um constrói sua bolha de verdades e se torna incapaz de enxergar qualquer coisa que o faça retornar à razão. Pelo empenho em prender a atenção do espectador ao longo da narrativa com os poucos recursos que dispõe, Exame foi lembrado no BAFTA em seu ano de lançamento na categoria de melhor estreia de um realizador britânico (que acabou premiando Duncan Jones por sua estreia reluzente com Lunar). 

Exame (Exam / Reino Unido - 2009) de Stuart Hazeldine com Luke Mably, Chukwudi Iwuji, Gemma Chan, Jimi Mistry, Adar Beck, Nathalie Cox, Pollyana McIntosh, John Lloyd Fillingham, Colin Salmon e Chris Carey. ☻☻☻

domingo, 19 de maio de 2024

NªTV: X-Men'97

 
X-Men: popularidade intacta. 

Inicialmente publicados em 1963, os X-Men se tornaram ao longo do tempo um dos grupos de heróis mais populares das histórias em quadrinhos. Criados para a Marvel pela dupla Stan Lee e Jack Kirby, eles se diferenciavam por serem vistos como aberrações pelo resto da humanidade, afinal era um grupo formado por mutantes, humanos que devido a mudanças genéticas provocadas por um salto evolucionário desenvolveram super poderes durante as mudanças hormonais e tensões da puberdade. A ideia fez com que os roteiristas não precisassem mais pensar em causas mirabolantes para os personagens desenvolverem poderes (um alívio). Criados em um momento em que a luta pelos direitos civis estava latente nos Estados Unidos,  X-Men soube como utilizar a exclusão e luta por igualdade com aventuras em que o dilema de zelar pela humanidade ou rebelar-se contra o sistema era muito bem representado pelo embate de dois amigos, o professor Charles Xavier e o sobrevivente do holocausto Erik Lensher, mais conhecido como Magneto. Essa mistura de assuntos sérios deram aos X-Men uma base dramática bastante eficiente, que nunca perde a atualidade. Some isso ao fato de um grupo de excluídos formarem uma família dentro de uma escola e o apelo se torna ainda mais forte. Se nas HQs o grupo já tinha fã clube garantido, ele cresceu exponencialmente com o lançamento da animação produzida pela Fox em 1992 que durou cinco temporadas. A popularidade da animação pavimentou ainda mais o que parecia impossível, a produção de um longa-metragem sobre o grupo no ano 2000 pela FOX. Assim surgiu a bem sucedida franquia dos mutantes que se tornou uma das mais rentáveis do gênero, pelo menos até seu último filme já afetado pelas comparações com os parâmetros cinematográficos da Marvel. A ideia de que o universo cinematográfico da Marvel criaria sua versão dos personagens gerou grande expectativa entre os fãs, de forma que até agora ela só sugere esta incorporação em seus filmes. Diante de todos os tropeços que cometeu recentemente, tendo um dos seus grupos mais populares na gaveta (e o mesmo pode se dizer de Quarteto Fantástico que recentemente teve seu novo elenco divulgado), eu tinha a impressão que a Marvel estava com receio do que deveria fazer. Se retomar o mesmo elenco dos filmes é complicado, fazer uma animação continuando o sucesso animado dos anos 1990 parece bem mais fácil e foi exatamente o que realizaram ao conceberem X-Men'97. Lançando um episódio por semana no Disney+, a animação conta os eventos ocorridos após o último episódio que foi ao ar em 1997 e o faz de forma que serve de lição para os erros que a Marvel cometeu em sua última fase. A começar pela complexidade de seus personagens e a sensação de que todos estão em perigo já prende atenção por si só. Se usarmos como parâmetro um cachorro morto feito o último lançamento cinematográfico do estúdio, o roteiro de X-Men'97 se torna ainda mais  brilhante. Aqui os ideais de Erik e Charles se confrontam mais uma vez e deixa o espectador no mesmo dilema dos heróis mutantes ao perceber os argumentos de cada um. Embora seja assustador ouvir que Magneto tem razão, em alguns momentos fica difícil discordar. Além disso, outros personagens ganham suas próprias tramas de forma envolvente, como Tempestade, Vampira, Jean e Ciclope, o que ajuda muito a plateia perceber que há muito mais a ser explorado aqui do que o popular Wolverine. A trama traz até um brasileiro para a trama, o Roberto Campos, o Mancha Solar, que tem destaque como novato da vez. Há quem ainda queira polemizar ao implicar com Morfo como não-binário arrastando uma asa pelo Wolvie, mas a coisa é feita com tanta discrição que as reclamações soam como algo de fã xiita. A  partir da metade da temporada, X-Men'97 cresce em narrativa como se fosse um verdadeiro filme com F maiúsculo. É tenso, sofrido, angustiante e sabe como utilizar a polaridade de Xavier e Magneto para deixar o espectador apreensivo perante o inesperado.  Se a Marvel seguir no mesmo tom para a chegada dos heróis nas telonas, já podemos começar a aplaudir. Enquanto a nova saga cinematográfica não vem, resta aguardar a nova temporada da animação que já está em fase de edição, o problema é a saída do redator chefe Beau de Mayo da produção pouco antes do lançamento deste sucesso sem motivo aparente. Ou seja, a Marvel ainda continua perdida nos rumos que deve seguir.  

X-Men'97 (EUA-2024) de  Beau de Mayo com vozes de Ray Chase, Cathal J. Dodd, Lenore Zann, Jennifer Hale, Holly Chow, Matthew Waterson, Ross Marquand e George Buza. ☻☻☻☻