terça-feira, 24 de julho de 2018

PL►Y: Minha Prima Raquel

Rachel e Sam: romance e ambiguidades. 

Phillip (Sam Claflin) foi criado por um primo desde pequeno após perder os pais. Considerado um filho por ele, será o herdeiro de tudo. No entanto, em uma viagem, o primo conhece uma parente distante, com quem se casa e viverá distante. De vez em quando Phillip receberá cartas, em que o primo menciona que existe algo de errado com a esposa amorosa que se torna uma megera. Logo ela se torna viúva devido ao estado de saúde complicado do marido. Phillip considera que o primo sofreu um golpe, mas fica satisfeito em saber que a esposa oportunista teve seus planos fracassados por não ter sido mencionada no testamento. Certo de que a viúva não vale muita coisa, o herdeiro a convida para desmascará-la, mas quando ele a conhece, Raquel (Rachel Weisz), é tão bela quanto inofensiva - ou pelo menos, parece. De voz macia, gestos delicados e um senso de humor sutil, ela parece apenas uma vítima de circunstâncias e fatalidades, o que é capaz de mudar o olhar do rapaz sobre ela. Não vai demorar para ele se apaixonar pela prima e tentar agradá-la com pensões e joias, mas sempre com algumas, digamos, limitações. Minha Prima Raquel é uma das obras góticas mais conhecidas de Dauphne Du Marier - também autora de Rebecca e Os Pássaros. A primeira adaptação cinematográfica do livro aconteceu em 1952, sendo estrelada por Olivia de Havilland e Richard Burton e vista como um clássico com fãs fieis até hoje. A nova versão dirigida por Roger Michell (que tem como filme mais famoso Um Lugar Chamado Notting Hill/1999 com Julia Roberts, mas que já fez vários filmes ingleses que são pouco conhecidos por aqui) capricha no tom de romance proibido e trabalha as nuances de Raquel, deixando sua culpa e índole a cargo da plateia - que sempre fica em dúvida sobre o histórico da personagem. Se o diretor não traz nenhuma grande novidade no trabalho de direção, a incerteza diante do caráter da personagem torna o filme mais interessante.  Para cumprir esta tarefa, Michell conta com o talento de Rachel Weisz em uma atuação cheia de ambiguidades - que pode sustentar a impressão de que a viúva é realmente uma mulher ardilosa, ou apenas uma bela incompreendida  numa sociedade centrada nos interesses masculinos. As camadas da personagem nos fazem lembrar que Rachel já fez todo tipo de papel e tem um Oscar da estante (coadjuvante por O Jardineiro Fiel/2005), por isso mesmo, fiquei surpreso com escalação e desenvoltura do promissor Sam Claflin como seu parceiro de cena. O rapaz que ficou famoso com sua atuação em Como Eu Era Antes de Você (2016) demonstra aqui ser capaz de voos cada ambiciosos nos próximos anos. Minha Prima Raquel dificilmente se tornará um clássico, mas pode envolver o espectador que curte romances de época um tantinho mais complexos. 

Minha Prima Raquel (My Cousin Rachel / EUA - Reino Unido / 2017) de Roger Michell com Sam Claflin, Holliday Grainger, Iain Glenn e Pierfrancesco Favino. ☻☻☻

PL►Y: Creep 2

Duplass: o retorno de um serial-killer. 

Acostumado a encarnar papéis serenos e cômicos, Mark Duplass surpreendeu muita gente ao interpretar o psicopata de Creep (2014) e anos depois você não faz ideia do que o ator faz nesta continuação - que surpreendentemente atingiu aprovação de 100% no Rotten Tomatoes (eu nem costumo olhar este site, mas eu ouvi falar da cotação do filme e fui verificar... É VERDADE!!!). Se no primeiro filme o insano Aaron (Duplass) contrata um cinegrafista (vivido pelo diretor Patrick Brice) para registrar sua rotina (sem que ele faça ideia que ele é sua presa), neste aqui, ele faz o mesmo... só que com uma pequena mudança (que faz toda a diferença). Esta continuação mantém o estilo de usar câmera na mão em busca de mais "realismo" (com cenas trêmulas e sem foco), mas o roteiro aqui está mais lapidado e bem mais interessante que o visto no primeiro - principalmente porque desta vez, quem responde ao anúncio de Aaron é uma mulher. Parece um detalhe minúsculo para uma continuação, mas o filme capricha na atmosfera de tensão sexual que se instaura entre os dois personagens e, mais ainda, cria momentos bem humorados realmente divertidos (a melhor delas é aquela do rio minguado com pássaros atrapalhando as filmagens do lunático). Desta vez quem aparece para filmar do doido é a youtuber Sarah (Desiree Akhavan) que criou uma página dedicada a descobrir quem se esconde por trás dos anúncios dos classificados. Desta vez ela irá parar na casa de Aaron, que já se apresenta como um serial killer responsável por 39 mortes e que irá proporcionar a ela uma entrevista inédita sem colocar a vida dela em risco. Sara não acredita nas palavras do anfitrião, que aos poucos revela sua personalidade e história. No jogo de sedução entre os dois personagens (temperado com um pouco da atração que o perigo pode provocar em algumas pessoas). Desiree está convincente como a cinegrafista que percebe ter a chance de sua vida em um projeto arriscado, mas é Mark que está ainda mais a vontade na pele do assassino - potencializado com um sex appeal insuspeito até então (e aquela cena da massagem na banheira funciona mais do que a nudez frontal do personagem). O tom cômico de algumas (onde um nunca pode confiar muito no outro) também funciona bem e só erra o tom no final que se estende mais do que deveria. Com custo modesto e despretensão, Creep 2 passou em branco nos cinemas brasileiros e pode ser visto na Netflix em toda sua aura de terror indie. 

Creep 2 (EUA-2017) de Patrick Brice com Mark Duplass, Desiree Akhavan e Karan Soni. ☻☻☻

segunda-feira, 23 de julho de 2018

PL►Y: As Aventuras de Brigsby Bear

Mooney: contaminado pela fantasia da fantasia. 

Kyle Mooney atua desde 2007 e entre curtas e trabalhos para a televisão americana acabou sendo mais conhecido por seus trabalhos no cultuado Saturday Night Live desde 2013. Penso que este As Aventuras de Brigsby Bear foi sua tentativa de conquistar o cinema, tanto que escreveu para si um dos personagens mais curiosos do cinema recente. Mooney (ao lado do estreante Kevin Costello) criou a história de James, um rapaz que já passa dos trinta anos e que vive num bunker junto aos pais, Ted (Mark Hamill que está ótimo distante do Luke Skywalker de Star Wars) e April (Jane Adams) no meio do deserto. Ao que parece o mundo vive um cenário pós-apocalíptico e que só é permitido sair  dos abrigos utilizando máscaras para não se contaminar com o ar tóxico. Criado isolado do resto do mundo, o passatempo do rapaz sempre foi assistir ao programa do urso Brigsby, um herói de ficção-científica (em tramas um tanto rebuscadas) em forma de bicho de pelúcia gigante. Eis que um belo dia tudo muda e o protagonista percebe que sua vida era uma grande mentira. Revelarei o mínimo possível do filme para que você não perca as surpresas da história.  O longa surpreende não apenas pela sua temática, mas pelo tom humanista da sessão. Diante de sua nova realidade, James terá que aprender a viver de um mundo diferente, convivendo com uma nova família e amigos, uma realidade bem mais complexa a que estava acostumado. Entre conflitos e o acompanhamento de uma psicóloga (vivida por Claire Danes) a maior preocupação dele é o novo episódio do urso Brigsby, um programa que ninguém conhece, só ele. Aos poucos, problemas ainda mais complicados começam a atravessar a vida do pacato James - incluindo problemas com leis que ainda não está acostumado. O roteiro do filme até que poderia aprofundar mais alguns pontos da história, mas não chega a incomodar a forma como apresenta a angústia do personagem para se encaixar num novo mundo, que aos poucos começa a se mostrar bem menos interessante do que se imagina - e lhe instiga somente a indiferença. É interessante como o roteiro apresenta a fantasia do personagem como uma fuga para uma história pessoal complicada - e se torna ainda melhor pela forma como os personagens abraçam a ideia. Kyle Mooney se sai muito bem como um homem crescido que ainda tem um pensamento infanto-juvenil e capricha num roteiro que traz "conselhos" inusitados de um bicho de pelúcia. Essa mistura de ficção científica com nonsense e um certo besteirol torna o filme um tanto imprevisível, misturando aspectos de O Show de Truman/1998 (com relação a um menino que cresce num mundo a parte) e A Garota Ideal/2007 (na medida em que os demais abraçam a fantasia do protagonista). Divertido, comovente e um tantinho subversivo, As Aventuras de Brigsby Bear tem uma habilidade rara de tratar com leveza alguns temas complicados, por isso mesmo foi indicado ao prêmio de Diretor Revelação no Festival de Cannes (para Dave McCary) e ganhou o prêmio do Júri em Sundance no ano passado. Inédito nos cinemas daqui, está esquecido em serviços VOD desde o início deste ano.  

As Aventuras de Brigsby Bear (Brigsby Bear/EUA-2017) de Dave McCary com Kyle Mooney, Mark Hamill, Jane Adams, Greg Kinnear, Matt Walsh, Claire Danes, Michaela Watkins, Ryan Simpkins, Jorge Lendeborg Jr. e Andy Samberg. ☻☻☻☻

domingo, 22 de julho de 2018

FILMED+: Thelma & Louise

Susan e Geena: parceria antológica. 

Louise (Susan Sarandon) é uma garçonete do Arkansas que está prestes a passar uns dias na casa de uma amiga para relaxar. Ela convida sua melhor amiga Thelma (Geena Davis) para participar da viagem e, como jovem dona de casa entediada, ela aceita com bastante animação - embora o esposo grosseirão fosse contra o passeio (afinal, quem iria cozinhar e cuidar da casa durante aqueles dias?). Além de colocarem o papo em dia, as duas param em um bar e Thelma se torna vítima de uma situação de abuso que irá mudar todo o rumo da viagem. Amparado pelo excelente roteiro de Callie Khouri (que levou para casa o Oscar de melhor roteiro original), Thelma & Louise está entre os melhores filmes de Ridley Scott pela capacidade de se comunicar com a plateia e se afinar com um discurso feminista sem cair nos ranços da maioria dos filmes que se aventura por esta seara. Ajuda bastante a criar esta sensação a presença do policial vivido por Harvey Keitel, que enquanto segue os passos das duas amigas, consegue perceber as entrelinhas sociológicas da aventura. Enquanto se tornam fugitivas, as duas começas a resolver alguns pontos pessoais que precisavam de uma revisão, assim, Louise passa a limpo seu relacionamento com Jimmy (Michael Madsen) e Thelma faz história ao se tornar a primeira personagem a se envolver com Brad Pitt nas telas do cinema (Pitt interpreta JD, um ladrãozinho sedutor mequetrefe que complica ainda mais a jornada das duas). Misturando drama e humor numa estrutura de road movie, o filme consegue ser bastante original na sua proposta. Obviamente que colabora muito para a história as atuações inesquecíveis de Susan Sarandon e Geena Davis, que estão plenas em toda cena que aparecem. As duas foram indicadas a todos os grandes prêmios daquele ano e bem que poderiam ter rendido um segundo empate na história do Oscar na categoria de melhor atriz (o que ocorreu somente em 1969 com Barbra Streisand e Katharine Hepburn) - mas seria o primeiro com duas intérpretes no mesmo filme. A sintonia entre as duas atrizes é incrível e a forma como desenvolvem as personagens é sensacional. Outro destaque é a direção de Scott, que assumiu a direção às pressas depois de vários diretores desistirem de levar o filme adiante por ficarem intimidados em lidar com olhar tão centrado em protagonistas femininas. Acostumado a lidar com mulheres fortes em seus filmes (basta lembrar da Tenente Ripley em Alien/ 1979 ou as replicantes de Blade Runner/1982), fica difícil imaginar outro diretor capaz de  fazer desta história uma verdadeira obra-prima. O filme rendeu a ele sua primeira indicação ao Oscar, num ano em que a categoria contava com Oliver Stone (JFK) e o (premiado da noite) Jonathan Demme (O Silêncio dos Inocentes). Thelma & Louise ficou de fora do prêmio de melhor filme (e até o mal resolvido Bugsy - filme que não consigo assistir sem dormir longamente - foi indicado naquele ano). Thelma & Louise foi indicado ainda nas categorias de melhor fotografia e montagem. 

Thelma & Louise (EUA/1991) de Ridley Scott com Susan Sarandon, Geena Davis, Harvey Keitel, Michael Madsen, Christopher McDonald e Brad Pitt. ☻☻☻☻☻

Pódio: Geena Davis

Bronze: a repórter durona. 
03 Herói por Acidente (1992)
Virginia Elizabeth Davis começou a trabalhar no cinema com um papel minúsculo em Tootsie (1982) ao lado de Dustin Hoffman, a jovem atriz nem imaginava que dez anos depois ela teria destaque ao lado do astro nesta excelente comédia de Stephen Frears. Ela interpreta uma repórter destemida que foi ajudada por um homem misterioso junto a outros tripulantes de um acidente aéreo. O filme funciona como uma bela crítica à fome do Tio Sam em fabricar heróis e o poder da mídia. Geena está ótima em cena e tem pelo menos uma cena antológica (aquela em que descasca uma cebola em um discurso para fingir que se emociona). 

Prata: a jogadora destemida.
02 Uma Equipe Muito Especial (1992)
A atriz estava no auge quando interpretou a jogadora de beisebol Dottie Hinson no delicado período da Segunda Guerra Mundial. O filme é baseado na história real do período em que a liga de beisebol convidou mulheres para jogarem quando os homens estavam no campo de batalha. Geena está bastante convincente em cena, vivendo uma mulher forte e que não tem medo de cara feia. Entre conflitos com a irmã e saudades do esposo, Dottie revela-se uma atleta memorável. Em tempos de "empoderamento feminino" o filme merece ser lembrado - até para lembrar como o tema pode ser tratado com leveza e naturalidade. 

Ouro: a melhor amiga. 
01 Thelma & Louise (1991)
Entre 1986 e 1996, Geena se tornou uma das atrizes mais conhecidas de Hollywood, ganhando até um Oscar de coadjuvante por O Turista Acidental (1988). A Academia lembrou dela novamente a indicando a melhor atriz (ao lado de Susan Sarandon) por seu excepcional trabalho neste filme de Ridley Scott. Ela vive Thelma, dona de casa insatisfeita que em um passeio com a amiga Louise acaba seguindo por caminhos surpreendentes. Magnificamente realizado e com duas atuações incríveis, Thelma e Louise (Um dos melhores filmes dos anos 1990 e da história do cinema) já seria suficiente para Geena ser lembrada até hoje por todos os admiradores da sétima arte. 

PL►Y: Marjorie Prime

Geena, Jon e Lois: Black Mirror em baixa voltagem. 

Acho interessante quando um autor tem a ideia de uma ficção científica intimista, que se preocupa mais com a relação das pessoas no futuro do que com roupas extravagantes, veículos esquisitos e coisas parecidas. Marjorie Prime bebe exatamente nesta fonte e trabalha com questões essencialmente humanas que  são fáceis de causar identificação na plateia. Questões como morte, saudade, ausência e lembranças estão presentes o tempo inteiro e são estes elementos que sustentam a trama diante de uma tecnologia que nunca consegue ser mais do que um arremedo para as emoções dos personagens. Quando o filme começa vemos Marjorie (Lois Smith) conversando com um homem (Jon Hamm), que na verdade é uma espécie de holograma construído a partir de uma inteligência artificial que serve para suprir a necessidade de ter seu esposo por perto novamente. A família fica intrigada com o fato de Marjorie ter preferido a imagem do esposo mais jovem, por volta dos quarenta anos e especulam que foi naquela fase em que ela o considerava mais atraente e presente nas memórias lembranças. No entanto, o holograma precisa de conversas constantes para nutrir seu banco de dados sobre a personalidade que deve representar, o que faz com que Marjorie mexa em suas lembranças e demonstre que é apenas possível apresentar o seu olhar sobre a personalidade do esposo. Esta parte de enxergar um personagem pelos olhos do outro é o melhor ponto da história, mas, a tentativa deste holograma compreender melhor a personalidade que representa também gera momentos interessantes. Se no início Marjorie e seu esposo tem a atenção do roteiro, com o tempo dois outros personagens ganham destaque, Tess (Geena Davis, que faz muito tempo que não a assistia em um filme) e Jon (Tim Robbins), filha e genro de Marjorie, que apresentam suas impressões sobre aquela tecnologia e representam um pouco dos nosso questionamentos sobre o que vemos. Diante de um ponto de partida tão interessante, o diretor Michael Almereyda (que acertou em cheio no seu filme anterior, O Experimento de Milgram/2015) tem alguns desafios pela frente e nem sempre faz as melhores escolhas. Para começar, desde o início ele não consegue disfarçar que o texto original foi concebido para os palcos (encenado em 2016 com a própria Lois Smith no papel de Marjorie), outro desafio foi se desviar de qualquer semelhança de que seu filme era um filme genérico da série Black Mirror, para isso ele capricha na lentidão e um certo desânimo nas atuações, que se por um lado valoriza o que há de "filosófico" no texto, por outro, causa uma certa sonolência em quem não entrar no clima proposto pelo diretor. Com um bom elenco em mãos, os melhores momentos estão no primeiro ato quando Lois e Hamm estão em cena e personificam brilhantemente o quanto de melancolia e estranhamento seus personagens carregam. A guinada do segundo ato é bem vinda e ressalta como Lois (indicada ao Independent Spirit aos 87 anos pelo papel) é uma atriz que merecia ser mais valorizada no cinema americano. Já a do terceiro não funciona tão bem... sorte que a última cena compensa os deslizes e representa bem como a imortalidade está na memória de quem deixamos por aqui. Marjorie Prime não é tão interessante quanto promete, mas traz reflexões interessantes para um mundo cada vez mais obcecado em nutrir suas carências emocionais com novas tecnologias. 

Marjorie Prime (EUA-2017) de Michael Almereyda com Lois Smith, Jon Hamm, Geena Davis, Tim Robbins e Hana Colley. ☻☻☻

segunda-feira, 16 de julho de 2018

NªTV: Samantha!

Emanuelle: tentando reencontrar o estrelato. 

Samantha (Emanuelle Araújo) foi uma estrela mirim dos anos 1980 famosa por apresentar um programa infantil. Só que o tempo passou, a menina cresceu e ninguém deu muita bola para ela. No entanto, ela é brasileira e não desiste nunca, portanto, ela tenta há tempos voltar para a televisão. De vez em quando lembram dela por conta do seu casamento fracassado com um jogador de futebol (que acabou sendo preso), o Dodói (Douglas Silva), mas que lhe deu dois filhos -  a engajada Cindy (Sabrina Nonato) e o projeto de geek Brandon (Cauã Gonçalves). Em suas desventuras ela também conta com Zé Cigarrinho (Ary França), que servia de assistente de palco fantasiado de maço de cigarro num programa para crianças. Samantha é a protagonista da nova série brasileira da Netflix (a primeira foi 3% que faz sucesso no mundo todo, mas que eu não assisto...) que se revela uma mistura de toda referência possível e imaginável do mundo pop dos anos 1980. Samantha! (não esqueça o ponto de exclamação, por favor) é uma série enxuta que em sete episódios faz rir com várias referências que aqueles já passados dos 30 vão identificar facilmente - sobretudo quando se trata de um ídolo daquele tempo tentando se impor no mundo de hoje onde celebridades brotam aos milhares com vídeos da internet. Criada por Felipe Braga a série é bastante colorida, com trilha sonora esperta e um olhar bastante astuto para o mundo que aborda, do jogador de futebol que tenta chamar atenção novamente, uma youtuber desmiolada cheia de fãs desmiolados feito ela, reality shows com um cantor que já casou dezenas de vezes, programas com jurados malvados... esta salada só não se torna mais impagável do que o episódio em que Samantha! precisa enfrentar o passado com seus ex-colegas de elenco que não guardam muitos amores por ela (pelo contrário, ressentimentos é o que não falta, especialmente da traumatizada Menina Cogumelo). Quanto ao elenco, a série conta com uma energia contagiante de Emanuelle Araújo, que está ótima como a estrela decadente que ainda deseja um lugar na telinha (curiosamente a atriz é uma reincidente em fazer troça com os anos 1980, basta lembrar de sua antológica atuação como a Gretchen de Bingo: O Rei das Manhãs/2017). Emanuelle faz de Samantha! um verdadeiro amálgama de celebridades oitentistas que conhecemos tão bem. Douglas Silva também está muito bem como Dodói, o ex-marido jogador um tanto atrapalhado que é digno de nossa simpatia sem muito esforço. Com episódios equilibrados no senso de humor (só não curti muito o que aborda a participação como jurada num programa de crianças cantoras) e sem medo de enveredar por momentos absurdos (alguém me explica o que é Samantha com Y?), Samantha! consegue ser um bom programa para quem não tem pudores de rir do estranho mundo das subcelebridades.

Samantha! (Brasil/2018) de Felipe  Braga com Emanuelle Araújo, Douglas Silva, Sabrina Nonato, Cauã Gonçalves, Ary França, Luciana Vendramini, Rodrigo Pandolfo, Alice Braga e Gretchen. ☻☻☻☻

domingo, 15 de julho de 2018

PL►Y: Doce Virgínia

Chris e Jon: acabando com o sossego de uma pacata cidade. 

Faz tempo que dramas criminais são comuns no cinema americano e, de vez em quando, se tem a impressão de que os irmãos Joel e Ethan Coen serviram de inspiração para muitos jovens diretores, que como eles, tinham pouco dinheiro para filmar e muita habilidade para contar uma história. Doce Virgínia me lembrou muito o estilo dos irmãos, especialmente quando eles deixam o humor de fora e se concentram na sucessão de acontecimentos violentos que um ato egoísta pode gerar. O diretor Jamie M. Dagg não é americano, mas mora ali perto (é canadense) e chamou atenção quando lançou seu primeiro filme, River (2015) e colheu mais alguns elogios pela eficiência com que dirige seu segundo filme. Logo de início, três homens estão conversando num bar e não fazem ideia do que um freguês desconhecido fará após um desentendimento trivial que pode acontecer em qualquer lugar do mundo. A partir dali, três assassinatos mudam a rotina da vizinhança. Aos poucos o motivo daquelas mortes aparecem, assim como a presença do assassino começa a colocar em risco a vida de outras pessoas. No meio destes acontecimentos, o ex-peão de rodeio Sam Rossi (Jon Berthal, ótimo como sempre) cumpre seu papel de amante de uma  das viúvas da cidade (a sempre eficiente Rosemary DeWitt) e começa a colocar a vida sob nova perspectiva. Sam também se aproxima de um dos hóspedes do hotel que gerencia há algum tempo (e que concede nome ao filme), trata-se de Elwood (Christopher Abbott), uma rapaz de poucas palavras e um tanto... estranho. Doce Virgínia de doce não tem nada, pelo contrário, a aparência tranquila da cidade parece apenas camuflar o que alguns de seus cidadãos, aparentemente inofensivos, são capazes de fazer quando seus interesses estão em jogo. Dagg sabe utilizar as locações bucólicas da cidade, as ruas desertas e a escuridão noturna silenciosa para criar suspense e, neste ponto, o filme é um primor em sua economia. Em poucos momentos o filme utiliza trilha sonora, o que só aumenta a tristeza dos fatos e personagens que se embaralham na trama bem construída. Quem também merece destaque no elenco é Imogene Poots, que alcança aqui o seu melhor trabalho como uma personagem que é a versão feminina de tantos azarados vistos no universo dos Coen. Doce Virgínia é um filme que merece atenção, sobretudo daqueles que procuram filmes que não aliviam a tensão com piadinhas pelo meio do caminho. 

Doce Virgínia (Sweet Virginia / Canada - EUA / 2011) de Jamie M. Dagg com Jon Bernthal, Christopher Abbott, Rosemay DeWitt, Imogene Poots, Odessa Young e Jonathan Tucker. ☻☻☻☻

PL►Y: A Síndrome de Berlim

Teresa e Max: dormindo com o inimigo. 

Parece que a Marvel finalmente deu sinal verde para o filme solo da Viúva Negra. A notícia era aguardada faz tempo e esta semana teve o nome da diretora divulgado, a escolhida foi a australiana Cate Shortland - a favorita de Scarlett Johansson para assumir o filme de sua famosa personagem. Conhecida por seus trabalhos de cores fortes, o último trabalho da diretora foi o angustiante Síndrome de Berlim que está disponível em serviços de streaming aqui no Brasil. Se você quiser conhecer melhor o trabalho da cineasta, o filme é uma boa pedida para sentir a atmosfera de tensão que ela é capaz de produzir em cena. O filme conta a história de uma jovem australiana chamada Jesse (Teresa Palmer, que é a versão australiana - e boa atriz - de Kirsten Stewart) que chega à Berlim guiada pelo seu gosto por história e fotografia. Em suas andanças ela conhece Andi (Max Riemelt, famoso por aqui pela série Sense 8), um professor de inglês que também é treinador do time da escola nas horas vagas. Com seu jeito gentil, educado e um tanto reservado, Andi  conquista a confiança da visitante que se envolve com ele. Ela nem desconfia do apartamento do rapaz que é um tanto isolado, mesmo estando dentro da cidade. Também não estranha o fato da janela não abrir ou da tranca da porta ser mais reforçada do que qualquer outra que ela tenha visto na vida. Depois de uma noite tórrida, a moça acorda e percebe que está trancada naquele lugar. Ela acha que ele esqueceu de deixar a chave para ela e... a coisa só piora. Embora você possa achar que Jesse seja ingênua demais para confiar assim em um desconhecido, Andi passa gradativamente do sujeito sedutor a um  cara doentio de histórico realmente assustador. Não demora muito para que o tratamento dado para moça seja cada vez mais abusivo e o roteiro queima uma a uma as chances da moça se safar com vida da situação. Palmer e Riemelt tem boas atuações, que de vez em quando assustam mais pela química entre os dois do que pela violência explícita que a diretora utiliza em alguns momentos. É neste entrosamento que  que o título se revela um trocadilho com a famosa Síndrome de Estocolmo (aquele em que a vítima passa a ter empatia pelo seu algoz, só que aqui esta atração acontece antes),  principalmente se levarmos em conta que realmente existe uma síndrome de Berlim (e que não tem nenhuma relação com a história do filme). Cate Shortland é esperta para saber criar um clima claustrofóbico durante a sessão - e que se torna cada vez mais opressor ao longo da história, porém, esta habilidade não evita que em alguns momentos a história se torne cansativa por sempre anunciar uma chance de fuga que decepciona, mas fica muito mais interessante quando explora a estranha relação entre os personagens. Por vezes eu pensei estar vendo uma versão moderna de O Colecionador (clássico de 1965 baseado do livro de John Fowles - que falando nisso, recebeu uma bela reedição recentemente), mas que perde em sutileza quando se rende à fórmula de tantos outros do gênero.  

A Síndrome de Berlim (Berlin Syndrome / Australia - 2017) de Cate Shortland com Teresa Palmer, Max Riemelt, Matthias Habbish e Emma Bading. ☻☻☻