segunda-feira, 22 de abril de 2019

PL►Y: O Vale das Sombras

Aslak (Adam Ekeli): em busca do desconhecido. 

Sempre achei interessante ver filmes de países variados. É verdade que o cinema americano domina a maioria das exibições por aqui (e não estou falando só de cinema), sei que a grande maioria do público está acostumado com filmes Made in Hollywood, mas é sempre interessante ver como os outros países trabalham as narrativas, o uso de silêncios, do tom mais contemplativo, de uma narrativa sem pressa para construir climas e atmosferas. São estes motivos que fazem deste filme Norueguês uma boa pedida para os fãs de suspenses mais sutis. A história é contada a partir do ponto de vista de um garotinho da área rural da Noruega, lugar que está sofrendo com ataques às ovelhas da região. O menino e um amigo acreditam que aqueles ataques destruidores são feitos por um lobisomem que habita as redondezas. A ideia ganha forma na cabeça do garotinho, que passa a ouvir barulhos diferentes durante a noite que o faz crer que realmente existe um monstro andando por perto. Colabora ainda mais para isso a existência de uma floresta nas proximidades. Embora o filme tenha algumas cenas sobre o drama familiar do pequeno protagonista - e que pode ser um dos pontos para que o menino fantasie para fugir daquela realidade -, o filme ganha corpo no trabalho minucioso do diretor Jonas Maltzow em criar uma atmosfera que nos convida a embarcar na imaginação do protagonista. Sem sustos fáceis, ele cozinha o suspense até torná-lo sufocante quando Aslak (o expressivo Adam Ekeli) entra pela floresta. Neste ponto, o filme lembra um pouco o recente A Bruxa (2015) na forma como aquela natureza em si já representa algo ameaçador. A escuridão, os sons, as árvores que deixam tudo cada vez mais claustrofóbico só nos preparam para o susto do que o lourinho encontra por lá. Até que o filme revela uma guinada diferente da que esperamos. Enquanto não sabemos ao certo o que vai acontecer e não fazemos a mínima ideia do que de fato Aslak encontrou, o diretor segura nossa respiração sem piedade. O ruim é que depois deste momento de angústia (motivada pela nossa imaginação plenamente alimentada pela sugestão do diretor), o filme desce o tom para chegar ao seu desfecho inesperado. O final despretensioso revela a verdadeira intenção do filme: um encontro com o desconhecido que é tão assustador, mas que visto de perto, pode causar até nossa identificação, afinal, a forma como vemos o diferente revela mais de nós mesmos do que do diferente em si. Esqueça os sustos fáceis e os monstros, apenas embarque na atmosfera do filme.

O Vale das Sombras (Skyness dal / Noruega - 2017) de  Jonas Matzow Gulbrandsen com Adam Ekeli, Kathrine Fagerland, John Olav Nielsen e Lennard Salamon. ☻☻☻

Na Tela: Suspiria

Dakota (ao centro) e suas colegas: o que a arte evoca? 

Ninguém refilma um clássico querendo sair ileso. Bem, pelo menos eu acredito nisso. Espero que o italiano Luca Guadagnino também, afinal, depois da aclamação absoluta de seu trabalho em Me Chame Pelo Seu Nome (2017) - que recebeu quatro indicações ao Oscar (filme, ator, canção e levou o de roteiro adaptado) o diretor me inventou de refilmar Suspiria (1977) de Dario Argento. Enquanto um bando de cinéfilos se dividiam entre a expectativa e a desconfiança eu só me perguntava o que Guadagnino tinha na cabeça. Sou do tempo que Suspiria era chamado de trash, o que não o impediu de se tornar um cult do gênero com exibições reservadas para as madrugadas. A história do filme de Argento era bastante simples: uma aluna americana resolve estudar em uma companhia de dança alemã. Chegando lá (debaixo de um baita temporal) ela se depara com uma colega surtada e, aos poucos, percebe que existe algo de muito estranho naquele lugar. Dali em diante, o filme apresentará um trabalho de cores interessantíssimo, além de locações internas que impressionam e... mortes macabras ao longo de toda a sessão. Com fãs fiéis, Guadagnino tinha uma verdadeira batata quente nas mãos. Quando comecei a assistir ao filme percebi que ele não estava nem aí para o suspense do original, já declarando logo no início que existem bruxas naquela escola. O interesse do diretor está em outro ponto: criar um espetáculo de horror elegante até desabar na sanguinolência mais bizarra dos últimos tempos. Guadagnino sempre foi conhecido por sua preocupação com a estética, com a forma e a beleza de seus filmes. Em cena, tudo precisa ser perfeito aos seus olhos. O que deixa a escolha de recriar um filme de terror ainda mais interessante. A história é praticamente a mesma com a chegada da  nova aluna (Dakota Johnson) na tal escola, só que o diretor incrementa mais ainda a história. Cria flashes sobre o passado desta garota (que no original nem existia) e amplia um personagem pequeno do filme anterior, que desta vez recebe um verniz histórico. O contexto histórico parece ser uma grande preocupação do diretor, já que ele insere até comentários sobre o grupo Baader Meinhof  na trama. De resto, ele desfia lentamente o cotidiano daquele lugar, arranha um pouco nos conflitos, nos egos (coloca Tilda Swinton em três papéis diferentes), mas sem perder de vista que existe algo de muito sinistro, sobretudo quando você percebe que aqueles números de dança conjuram feitiços e maldições. Sei que muita gente irá perder a paciência com as duas horas e trinta minutos do filme (o original tinha pouco mais de hora e meia de projeção), com a lentidão de algumas cenas e, principalmente, com o desfecho que é uma ode pagã sangrenta... Guadagnino se distanciou o máximo que pode daquele clássico do terror e criou um filme totalmente diferente. Ele aprofunda algumas questões, cria outras para abandonar ao longo do caminho e alcança um resultado que soa como um extenso pesadelo (que funcionaria melhor se algumas maquiagens não parecessem ser feitas da borracha mais descarada). Fiquei com o filme na cabeça por um bom tempo e com a trilha sonora tristonha de Thom Yorke ecoando na minha cabeça por dias. Enfim, um assombro. 

Suspiria - A Dança da Morte (Suspiria / EUA-Itália / 2018) de Luca Guadagnino com Dakota Johnson, Tilda Swinton, Chloe Grace-Moretz, Angela Winkler, Alek Wek, Elena Fokina e Mia Goth. ☻☻☻☻ 

domingo, 14 de abril de 2019

4EVER: Bibi Andersson

11 de novembro de 1935  14 de abril de 2019

Famosa por suas treze parcerias com o diretor Ingmar Bergman, a sueca Beret Elisabeth Andersson ficou conhecida como uma das grandes atrizes da história do cinema. Mesmo em personagens difíceis e de gestos contidos, ela era sempre capaz de iluminar a tela com suas interpretações. O talento de Bibi foi moldado em cursos de arte dramática e décadas dedicadas ao teatro. Antes de se tornar estrela de cinema, a atriz chegou a dedicar-se profissionalmente à dança... até trabalhar com Ingmar Bergman num comercial de detergente. Ali, o cineasta conheceu uma de suas musas mais inspiradoras. Com sucessos no cinema sueco na década desde os anos 1950, a estrela aceitou convites para trabalhar em Hollywood vinte anos depois, trabalhando com diretores importantes como Robert Altman e John Huston. Mesmo tendo participado de clássicos absolutos como Persona (1966),  O Sétimo Selo (1957) e Morangos Silvestres (1957), Bibi nunca foi indicada ao Oscar. Com mais de cem produções no currículo, a atriz não atuava desde 2009, quando sofreu em AVC e permaneceu hospitalizada até seu falecimento. 

Na Tela: Suprema

Armie e Felicity: casal espetacular. 

Com o discurso do empoderamento feminino em alta, em 2018 duas produções resolveram explorar uma personagem real por linguagens distintas, de um lado, estava um filme de tribunal que investe na reconstituição de um caso real que deu à Ruth Bader Ginsburg o início de um reconhecimento brilhante em sua carreira. Do outro lado está um documentário que conta a história da mesma Ruth, que se tornou a segunda mulher à servir a suprema corte nos EUA. Vou evitar ficar comparando os dois filmes por aqui, mas o que posso adiantar é que os dois são complementares, vale a pena conferir este drama assinado por Mimi Leder para depois enriquecer ainda mais seu conhecimento sobre esta mulher na ótica documental. Posso adiantar que quase tudo o que aparece aqui é verdade, de forma que o roteiro altera somente alguns detalhes que não prejudicam o todo.  Ruth (vivida aqui por Felicity Jones) cursou direito em Harvard e Columbia, praticamente ao mesmo tempo que o esposo, Martin Ginsburg (Armie Hammer) e desde ali, o filme consegue ressaltar bem a parceria que existia entre os dois, seja nos tempos de estudo, em casa ou no trabalho, o laço entre os dois fica ainda mais  fortalecido com o diagnóstico de câncer em Marty. Embora gire em torno de um casal interessantíssimo, infelizmente o roteiro e a direção são um tanto frouxos, parecendo várias vezes que estamos diante de um telefilme pouco inspirado. Assim, o filme depende bastante do talento do casal protagonista para prender a atenção. Em alguns momentos o filme cansa com suas frases feitas, mas em outras consegue ser realmente interessante pela forma como Ruth se depara com o caso que mudaria sua carreira para sempre: a de um homem que foi discriminado por não poder declarar no imposto de Renda os gastos com a enfermeira que cuidava de sua mãe. Quando esta premissa absurda cai nas mãos de Ruth e Marty, o filme cresce e ganha corpo, mas até lá já se passaram mais de uma hora de filme, ou seja, a produção enrola bastante até engrenar. Um detalhe importante do filme é  localizar historicamente a luta por igualdade de direitos, esclarecendo que a luta feminista é bem maior do que a versão simplista que insistem em questionar nas redes sociais - e se você considera algumas situações do filme inacreditáveis, saiba que elas foram questionadas e, por isso mesmo, você as considera inacreditáveis nos dias de hoje. Felicity está ótima em cena, provando que pode viver todo tipo de personagem e por pouco não foi indicada novamente ao Oscar. Armie Hammer também parece bastante a vontade e personifica o marido perfeito à frente do seu tempo em plena década de 1950. Vale ressaltar que tem dois elementos que parecem truques narrativos, mas que aconteceram de verdade! Um deles é o famigerado jantar em que as alunas do curso de direito precisam justificar porque estão ali e tiraram a vaga de um homem. O outro é o delicioso fato de Marty aparecer várias vezes cuidando de atividades domésticas. Os dois realmente dividiam as tarefas em casa - e para uma mulher que ficou conhecida por sua luta de igualdade entre os gêneros, sua cara metade não poderia ser diferente. 

Suprema (In Basis of Sex/EUA-2018) de Mimi Leder com Felicity Jones, Armie Hammer, Justin Theroux, Kathy Bates, Sam Waterston e Cailee Spaeny. 

Pódio: Jude Law

Bronze: o amante robótico
3º Inteligência Artificial (2001)
É uma pena que nesta ficção científica de Steven Spielberg o personagem Gigolo Joe tenha um desfecho tão sem graça, afinal, desde a primeira cena nós torcemos para que, assim como o pequeno protagonista de Haley Joel Osment, Joe tenha um final interessante, mas... não é bem isso que acontece. Neste mundo futurista onde os robôs tem papéis importantes na forma como os humanos lidam com suas emoções, Joe é fabricado para proporcionar prazer, mas não demora para que o filme demonstre que ele tem uma gama de emoções bem mais interessantes do que ser apenas uma máquina de fazer sexo.  

Prata: o gângster esquentado. 
Em meio a tantos papéis periféricos, Jude provou que ainda tem fôlego para carregar um filme nas costas. Este aqui está longe de ser perfeito, mas o ator interpreta com um vigor impressionante o ex-presidiário disposto a reencontrar seus comparsas e ganhar muito dinheiro para compensar o tempo que passou na prisão. Na pele de Don Hemingway, Jude fala palavrões, aparece sem roupa, tem ataques de fúria e ainda consegue ter algum charme debaixo de tudo isso. É a atuação dele que eleva o filme para além do mediano sem medo de assumir as marcas do tempo em sua aparência. 

Ouro: o galã irresistível. 
1º O Talentoso Ripley (1999)
No melhor filme do diretor Anthony Minghella era necessário um ator que fosse capaz de transformar o jovem ricaço de caráter duvidoso na pessoa mais atraente do universo. Este era quase um pré-requisito para que a nova visão sobre a obra de Patricia Highsmith funcionasse no cinema. Jude Law já fizera alguns filmes, mas era um ilustre desconhecido quando apareceu na pele de Dickie Greenleaf, o objeto de desejo do personagem do título. O trabalho lhe valeu fama e sua primeira indicação ao Oscar (na categoria de coadjuvante) e quatro anos depois, foi lembrado no páreo de melhor ator por Cold Mountain (2004), dirigido pelo mesmo diretor. 

sábado, 13 de abril de 2019

Na tela: Vox Lux

Natalie Portman: diva pop do século XXI.  

Brady Corbet estreou como ator em 2000 aos doze anos de idade em séries de TV e três anos depois apareceu em seus primeiro filme nas telonas, o polêmico Aos Treze (2003). Desde então manteve trabalhos frequentes em filmes interessantes, apareceu em Martha Marcy May Marlene (2011), trabalhou com Lars Von Trier em Melancolia (2011), com Michael Haneke fez a refilmagem de  Violência Gratuita (2007) e com Olivier Assayas apareceu em Acima das Nuvens (2014), são destes filmes sérios de pendores reflexivos que seu cinema como diretor se espelha. Quando estreou na direção com A Infância de um Líder (2015), Corbet deixou claro que tinha grandes pretensões para sua carreira de cineasta, pretensões que o disfarce pop de Vox Lux consegue intensificar ainda mais, ressaltando principalmente o que aprendeu com os cineastas que atravessaram sua carreira. De Trier ele moldou  a história separada em capítulos e o apetite por narradores (aqui a voz de Willem Dafoe confere ao filme uma solenidade quase irônica), de Haneke ele transborda a frieza em apresentar cenas escabrosas com a naturalidade de quem come jujubas. De ambos ele tem a ousadia, aqui empregada para contar uma alegoria sobre o século XXI calcada na ascensão de uma estrela pop nascida da tragédia. Desde o início o filme deixa claro que a pequena Celeste tinha interesse pela música, ela só não imaginava que vivenciaria uma tragédia na aula de música quando um colega dispara contra a professora e a turma numa dessas tragédias que evocam os horrores de Columbine. Atingida no pescoço, Celeste terá que conviver com as dores constantes de uma bala alojada em sua espinha. Diante das dores da tragédia, ela escreve uma música em memória aos amigos perdidos que expressa a dor de todos que assistiram perplexos aqueles acontecimentos. De olho no apelo daquela menina inocente (vivida com competência pela novata Raffey Cassidy) de apelo nacional, uma gravadora irá contratá-la para se tornar uma cantora de sucesso. Do sangue de inocentes, nasce uma estrela que sempre disfarça sua cicatriz com adornos diferenciados. Um ícone pop seguido por milhares de fãs, que seguem suas batidas e clipes estilosos com verdadeira devoção enquanto outros dois atentados atravessam sua história. Ambientado no alvorecer do século XXI, Corbet cria uma alegoria bastante instigante sobre o mundo neste século com suas  batidas, luzes e cores que se intensificam para uma plateia em transe, sedenta por imagens e sons na velocidade do celular. No entanto, grande parte do apelo do filme no exterior se deu por conta da presença de Natalie Portman, que aparece na narrativa somente em sua segunda parte, vivendo uma  transmutada Celeste de 31 anos, com uma filha de dezesseis (vivida pela mesma Raffey Cassidy) com quem mal consegue conversar e uma coleção de histórias que só demonstram como está perdida. Natalie capricha nos maneirismo, nos gestos amplos, no sotaque e cria uma personalidade pública que parece por si só ensaiada, uma personagem interpretando outra personagem. Como já fez em outros trabalhos, Natalie sobrepõe camadas e emoções com habilidade e expande seu talento nas últimas cenas convencendo que é uma estrela da música pop de conotações faustianas. No fim das contas, Corbet constata que o século XXI é povoado por uma plateia que esquece a história e contempla ídolos de personalidades dissipadas entre luzes e sons, numa catarse de massa regada que capitaliza até as maiores tragédias em busca de fama e sucesso. Ainda que todas as intenções de Vox Lux pareçam absurdas em sua caótica estrutura narrativa, a trama me fez lembrar de muita gente. 

Vox Lux (EUA-2018) de Brady Corbet com Natalie Portman, Raffey Cassidy, Stacy Martin, Jude Law, Jennifer Ehle, Christopher Abbott e Willem Dafoe. 

PL►Y: Prospect

Pascal e Sophie: química inusitada. 

Na lua de um planeta desconhecido, um minerador (Jay Duplass) e sua filha, Cee (Sophie Thatcher), buscam por uma substância valiosa que pode lhes garantir, entre outras coisas, a volta para casa. O problema é que neste universo, eles não são os únicos a procurarem a tal substância e o preço que podem pagar pode ser a própria vida. Esta seria a premissa mais simplista do que vemos em Prospect, filme de ficção científica independente produzido pelo canal de vídeos Dust (não conhece? O que você está esperando?). Exibido em festivais independentes e em poucas salas nos Estados Unidos, o filme chamou atenção da crítica e dos fãs do gênero, se tornou cult sem muito esforço, especialmente pelo vigor de sua jovem protagonista vivida com garra pela estreante nas telonas Sophie Thatcher. Ela  não apenas dá conta da tensão entre pai e filha longe de casa, mas também da mudança inevit´vel quando surge no caminho deles o explorador Ezra (Pedro Pascal). Faz tempo que Ezra está perdido esperando uma nave que possa leva-lo de volta para casa e será capaz de fazer tudo por ela. Após o  fatídico encontro o que vemos é uma verdadeira luta pela sobrevivência em um ambiente hostil e repleto de inimigos - que não se importam muito com os atos cruéis que terão que cometer para atingir seus objetivos. Escrito e dirigido pela dupla Zeek Earl e Christopher Caldwell, o filme deixa aparente seu orçamento modesto, mas sabe driblar suas limitações ao brincar com o imaginário da plateia, afinal, cabe a ela preencher todas as lacunas sobre aquela ambientação. No entanto, o maior diferencial que o filme possui é realmente girar em torno do protagonismo de uma adolescente perdida no espaço, tendo que tomar decisões radicais e tentando manter a sanidade e o domínio das situações o maior parte do tempo. Neste ponto, a interação entre Cee e Ezra dão ao filme um apelo dramático interessantíssimo que o sustenta mais do que qualquer efeito especial. Prospect é tem originalidade suficiente para driblar a grana curta e seus envolvidos tem talento suficiente para fazer ainda mais bonito em produções futuras. Uma pequena pérola do gênero. 

Prospect (EUA-2018) de  Zeek Earl e Christopher Caldwell com Sophie Thatcher, Pedro Pascal, Jay Duplass e Andre Royo. 

NªTV: Love Death + Robots

Three Robots: será que rola um longa, Netflix?

A série de animação Love Death + Robots da Netflix se tornou no maior acerto do serviço de streaming dos últimos tempos. Não para menos, já que não consigo lembrar de nenhum programa semelhante. Composto por dezoito episódios com histórias independentes, a série mostra-se um verdadeiro catálogo de estilos de animação - e para quem se acostumou com os traços da Disney e da Pixar nos últimos anos irá se surpreender com a diversidade que podemos ver em cada episódio. Existem algumas técnicas com tamanha riqueza de detalhes que temos até dúvidas se estamos diante de uma animação ou de uma produção live action (e a série até brinca com isso no décimo sexto episódio estrelado por Topher Grace e Mary Elizabeth Winstead em carne e osso). Reza a lenda que este projeto de David Fincher é uma forma de curar sua insatisfação de nunca ter conseguido convencer os estúdios de Hollywood de que era uma boa ideia refilmar a animação hardcore Heavy Metal (1981). Espécie de terapia para frustração, esta produção capricha não apenas na qualidade das imagens e sons, mas também mergulha em temáticas que dificilmente uma animação cinematográfica ousaria - ainda mais com o pesado e antiquado rótulo de que "desenho é para criança". Faz tempo que não é. Aqui temos algumas histórias com detalhes obscenos, palavrões e nudez suficientes para incomodar os mais puristas, mas também possuem criatividade que poderiam ganhar um Oscar de curta-metragem (são os casos de Quando o Iogurte Domina a Terra, do introspectivo Zima Blue e até do ousado A Testemunha - se a Academia fosse um tantinho mais liberal). Alguns poderiam gerar longa-metragens futuramente - sei que vão me achar um bobo, mas eu adoraria ver Três Robôs em uma história com, pelo menos, noventa minutos de duração ou rever os fazendeiros defendendo o gado com robôs gigantes em Trajes em uma história mais ampla. Particularmente não achei muita graça em episódios que parecem recriar histórias de games, mas eles estão longe de atrapalhar o todo. Com censura dezoito  anos a série criada por Tim Miller (que antes de dirigir o primeiro Deadpool/2016 foi indicado ao Oscar pelo curta Gopher Broke/2004) tem sinal verde para inovar e deixa nos fãs a curiosidade do que pode rolar numa próxima temporada (e eu adoraria que algumas histórias fossem revisitadas, mas deixa isso para outro momento). Por enquanto, quem gostou do estilo do programa poderia satisfazer a vontade visitando o canal Dust do Youtube, que tem algumas produções bem legais em animação (e live action) com algumas temáticas parecidas.

Love Death + Robots (EUA-2019) de Tim Miller com Topher Grace, Mary Elizabeth Winstead, Samira Wiley, Aaron Himelstein, Josh Brener, Graham Hamilton, Emily O'Brien e Neil Kaplan. ☻☻

segunda-feira, 8 de abril de 2019

4EVER: Seymour Cassel

22 de janeiro de 1935  08 de abril de 2019

Nascido na cidade de Detroit, Michigan (EUA), Joseph Seymour Cassel ficou conhecido no início de sua carreira por participar de vários filmes independentes, foi assim que se tornou um dos atores favoritos do ícone John Cassavetes. Foi John que rendeu a ele o seu primeiro filme, Sombras (1958). Ao lado do diretor, Cassel participou de vários filmes como Canção da Esperança (1961) e Amantes (1984), mas foi pela interpretação de um hippie que foi indicado ao Oscar de coadjuvante pelo filme Faces (1968). Descendente de irlandeses (por parte de mãe), judeus russos e alemães (por parte de pai), Cassel estudou interpretação no American Theatre Wing e no Actors Studio  e chegou a declarar que atuaria em qualquer filme indie que gostasse do roteiro pelo valor de valor de uma passagem de avião. A influência do ator transcende o cinema, já que foi ele que sugeriu que Saul Hudson utilizasse o nome artístico de Slash junto ao Guns'n Roses. Nos últimos anos, o ator foi visto com frequência nas obras de Wes Anderson, numa parceria que começou em Rushmore (1998) e rendeu outros frutos posteriormente. O ator faleceu em decorrência de complicações com Alzheimer.