quinta-feira, 9 de agosto de 2018

.Doc: Robin Williams - Entre na Minha Mente

Robin Williams: o enigma em pessoa. 

Por um longo tempo, Robin Williams foi sinônimo de comédia americana. Embora nunca se considerasse um comediante, se classificava mais como um ator cômico, Robin fez muita gente rir - e mesmo quem não curtia seu humor (eu mesmo o considerava acelerado demais) reconhece que ele tinha uma energia invejável. O sujeito divertido chocou o público ao se suicidar em agosto de 2014, se tornando um enigma para o público, que, de certa forma, é uma das motivações para assistir ao documentário Robin Williams: Entre na Minha Mente da diretora Marina Zenovich. Embora o título e a cena inicial brinquem com a ideia de conhecermos como funcionava a cabeça do ator, o filme tem outros interesses. Como não podia deixar de ser, fala um pouco sobre a família incomum de Robin, sua personalidade meio-hippie na escola de arte dramática (em que entrou ao lado de Christopher Reeve, um dos seus grandes amigos), cita os três casamentos, os três filhos, o interesse da mídia e conta com várias entrevistas e cenas de arquivo sobre o ator. O longa perpassa o estrelato com a sitcom Mork & Mindy e a transição do ator para o cinema - em tempos em que isso era bastante incomum e coberto de preconceito. Curiosamente, o filme oferece pouco espaço para os filmes do ator, ressaltando somente alguns trabalhos marcantes. Embora mencione Bom Dia Vietnã! (1987) como seu primeiro grande sucesso no cinema e destaque Sociedade dos Poetas Mortos (1989), suas indicações ao Oscar nem são mencionadas, tão pouco o impacto de seu prêmio de coadjuvante por Gênio Indomável (1997) - que se tornou um divisor de águas na carreira do artista. Embora Robin já houvesse realizado papéis dramáticos, foi a partir do reconhecimento da Academia que seus filmes tomaram rumos mais intimistas e até sombrios, aspecto que passa batido no documentário. Porém, é estranho a diretora ressaltar a indicação de Robin ao Critic's Choice Awards por seu excelente trabalho em Retratos de uma Obsessão (2002), uma ocasião em que foi derrotado por um incomum empate entre Jack Nicholson e Daniel Day Lewis, detalhe, somente os três atores concorriam. Robin enfrentou a derrota em tom de brincadeira, mas que revelava a consciência do preconceito em torno de seus papéis mais densos (vale lembrar que naquele ano Jack e Daniel foram indicados ao Oscar de melhor ator e Robin ficou injustamente de fora). O filme também aborda de forma coerente o período em que o ator usava drogas pesadas, mas se esquiva um pouco na hora de abordar o desfecho de sua vida e carreira. Robin se tornou mais discreto em sua vida pessoal e profissional e atribuem isto ao diagnóstico de Mal de Parkinson, apontado por muitos como uma das motivações para o suicídio que cometeu. Robin Williams: Entre na Minha Mente é mais uma homenagem ao artista do que propriamente um estudo de sua personalidade e capricha no uso de cenas da carreira do ator nos palcos e na televisão, um detalhe que pode soar como novidade para o grande público fora dos Estados Unidos. Ao final, não pude deixar de lembrar de outro documentário recente, Jim & Andy (2017), que aborda um pouco da personalidade de Jim Carrey e a necessidade imposta a ele de sempre ser divertido (quando sua personalidade é muito mais complexa), o que não deixa de ser um dos pontos em comum com este documentário feito pela HBO.

Robin Williams: Entre na Minha Mente (EUA-2018) de Marina Zenovich com Robin Williams, Billy Cristal, Steve Allen,  Steve Martin e Zach Williams. ☻☻☻

domingo, 5 de agosto de 2018

Na Tela: Uma Questão Pessoal

Luca Marinelli: batalha particular.  

O cinema e a literatura estão cheios de personagens que precisam realizar jornadas cheias de desafios por um motivo nobre, seja retornar para a esposa que o espera ansiosamente (base do clássico A Odisseia) ou fugir de uma gerra, tão sem sentido quanto todas as outras (como o personagem de Jude Law em Cold Mountain/2003 que, por acaso, também tem origem em uma obra literária). Junta-se a este grupo de personagens o jovem partisano Milton (Luca Marinelli), que atravessa os conflitos na Itália fascista dos anos 1940 a procura de um amigo. Na verdade, Milton tenta descobrir o paradeiro de sua amada Fulvia (Valentina Bellè), mas pelo caminho descobre indícios de que ela manteve um caso com o seu melhor amigo, Giorgio (Lorenzo Richelmy). A procura de esclarecimentos, Milton parte em busca da brigada a qual o amigo faz parte e, descobre que o moço foi feito prisioneiro pelo exército fascista. É neste emaranhado de emoções que o protagonista decide fazer um prisioneiro de guerra que possa ser trocado por Giorgio. Nesta jornada, os cultuados cineastas Paolo e Vittorio Taviani estão mais preocupados em apresentar o poder de destruição da guerra. Entre vilarejos com camponeses mortos e reencontros em circunstâncias adversas, Milton recorda do passado e ressalta como vidas são interrompidas pelos horrores da guerra. Muita gente irá estranhar o ritmo da narrativa ou a forma como os diretores se preocupam mais com a dramaticidade do gerar cenas de ação, mas quem se render ao esmero dos diretores irá perceber como o filme bebe em várias narrativas clássicas. Some isto à fotografia em tons de verde e azul, a edição áspera e o cuidado na construção de cada cena e você perceberá que o filme é uma grata surpresa. Obviamente que também não posso esquecer do trabalho do ator Luca Marinelli, ator de enormes olhos verdes que já chamou atenção em A Solidão dos Números Primos/2010 (se não viu, veja!) e aqui dá conta de outro personagem melancólico, que desde a primeira cena está fadado a enfrentar aquelas tragédias que só alguns roteiros podem construir. Uma Questão Pessoal é um filme que opta por apresentar uma visão intimista da guerra e o faz com bastante sensibilidade. 

Uma Questão Pessoal (Una Questione Particulare/ Itália - 2017) de Paolo e Vittorio Taviani com Luca Marinelli, Lorenzo Richelmy, Valentina Bellè, Jacopo Olmo Antinori e Marco Brinzi.☻☻☻☻

PL►Y: Kingsman - O Círculo Dourado

Tatum e Egerton: a elegância britânica encontra o jeitinho americano. 

A primeira aventura com o selo Kingsman (2014) está facilmente entre os filmes mais espertos dos últimos anos. Nas mãos do craque Matthew Vaughn os quadrinhos de Mark Millar e Dave Gibbons  chegou aos cinemas brincando com os filmes de espionagem com muitas ironias (ou seria humor britânico?) e cenas de ação estapafúrdias tão bem coreografadas que se tornavam irresistíveis - além do charme de ter um grupo de espiões com nomes dos Cavaleiros da Távola Redonda e termos tão impecavelmente cortados quanto apetrechos tecnológicos disfarçados de acessórios vintages. Também ajudava o filme ser empolgante o fato do veterano Colin Firth aparecer em lutas inacreditáveis e o novato Taron Egerton ter a maior vontade de se tornar um astro.  Com tanto estilo e fãs, era inevitável que o filme rendesse uma continuação. Kingsman - O Círculo Dourado traz todos os ingredientes do primeiro filme, mas paga o preço alto de ter perdido o gosto de novidade. O roteiro até tenta temperar com algo diferente, como apresentar a versão americana do grupo de agentes, a Statesman (em que todos tem nome de bebida e brincam com o estilo country). Os agentes americanos aparecem depois de um ataque surpresa à sede Kingsman, sendo os únicos que podem ajudar Eggsy (Egerton) e Merlín (Mark Strong) a descobrir quem foi o autor do ataque. Para o espectador não existe mistério algum neste ponto, já que desde o início sabemos que a vilã da história atende pelo inofensivo nome de Poppy (Julianne Moore, se divertindo um bocado no papel). Não se engane com a fala mansa e o mundo isolado cor de rosa que a personagem vive, ela é mais sanguinária do que você pode imaginar. Poppy é a maior produtora de drogas do mundo e tem um plano bem arquitetado para que as drogas sejam legalizadas e ela possa sair do anonimato. Quando o plano se revela o filme patina em gelo fino ao ter que lidar com este assunto polêmico e que rende discussões intermináveis... o resultado é que a história fica um tanto desengonçada, especialmente quando um bando de personagens de destaque na trama se revelam usuários de drogas. Sem querer tomar partido, resta ao filme retomar as cenas de ação e aproveitar o retorno de Harry (Colin Firth) de forma bem menos interessante do que deveria. Embora tenha um ritmo frenético, O Círculo Dourado é bem menos esperto e envolvente que a aventura anterior, uma pena já que o elenco do filme foi anabolizado com outros atores de peso (Jeff Bridges, Halle Berry e Channing Tatum). O resultado é um pequeno tropeço na carreira de Vaughn, que colecionava acertos até agora.  

Kingsman - O Círculo Dourado (Kingsman - The Golden Circle / 2017) de Matthew Vaughn com Taron Egerton, Colin Firth, Mark Strong, Julianne Moore, Halle Berry, Pedro Pascal, Jeff Bridges e Channing Tatum. ☻☻

PL►Y: Morte em Buenos Aires

Chino e Demián: atração inesperada. 

Existe muito do polêmico Parceiros da Noite (1980) no argentino Morte em Buenos Aires, tanto que rende discussões sobre as mesmas questões de décadas atrás. Acusado de ser homofóbico na época, o filme de William Friedkin ainda provoca releituras de como uma sociedade preconceituosa pode motivar atitudes extremas de quem sente um desejo considerado proibido. Não vou entrar no mérito desta discussão, mas se o policial de Al Pacino experimenta uma crise de identidade sexual no decorrer da história, o mesmo se pode dizer do Inspetor Chavez (o bom Demian Bichir) que em meados dos anos 1980 se vê diante de um crime no alto escalão de Buenos Aires. Tudo indica que o assassino é um homem homossexual que se encontrou com a vítima e a matou em seguida. Chavez desconfia de um jovem policial (Chino Darín, filho do ícone Ricardo Darín), que foi o primeiro a chegar na cena do crime e, apesar de estar de casamento marcado, não tem problemas em aceitar ser a isca para o plano de encontrar o assassino que ronda a cidade. No entanto, as situações em que o rapaz se envolve, instiga o experiente Chavez de uma forma que ele nunca imaginou, instaurando uma tensão sexual que consegue ser bastante interessante, porém, o filme nunca capricha  no que tem em mãos. Desde o início a plateia sabe quem é o assassino e a direção de Natalia Meta não faz questão alguma de disfarçar o que vemos durante pouco mais de hora e meia de narrativa. A história se desenvolve sem grandes saltos, tendo como cena mais interessante aquela dos cavalos na noite urbana da cidade. O mais instigante do filme é a química entre Bichir e Darín, os dois criam personagens cheios de olhares e intenções secretas, mas entender o que está escrito nestas entrelinhas pode custar a vida de um dos dois. Há de se elogiar a interpretação de Bichir (que já foi indicado ao Oscar pelo filme americano Uma Vida Melhor/2011) que interpreta um personagem que é pura testosterona, mas que fraqueja diante do jogo de sedução perigoso que se instaura. Por outro lado, para um jovem astro como Chino, carregar nas tintas de um personagem tão ambíguo também tem seu valor.  Morte em Buenos Aires capricha no colorido, nas luzes neon, na trilha sonora oitentista e na construção de uma atmosfera gay underground argentina (com direito até a um pavão glam), mas como filme policial não chega a empolgar. 

Morte em Buenos Aires (Muerte en Buenos Aires / Argentina - 2014) de Natalia Meta com Demián Bichir, Chino Darín, Carlos Casella, Emilio Disi e Jorgelina Aruzzi. ☻☻

sábado, 4 de agosto de 2018

PL►Y: Chronic

Tim e Cristofer: questão de confiança. 

O mexicano Michel Franco ficou famoso por seu segundo longa-metragem, Depois de Lúcia (2012), sobre uma adolescente que sofre bullying na escola e encontra uma solução - que tem consequências drásticas. O diretor demonstrava uso certeiro dos silêncios e uma certa ausência de esperança na humanidade, além de deixar evidente que não faria filmes para você olhar enquanto come pipoca ou fazer hora até comer pizza com os amigos. Franco quer causar desconforto na plateia e colocá-lo exatamente na posição de seus personagens, ou pelo menos, em uma proximidade incômoda. Afinal, que tipo de diretor contaria a rotina de um enfermeiro que trabalha cuidando de pessoas doentes a domicílio? Durante o filme, David (Tim Roth) será responsável por cuidar de uma mulher soropositiva, um homem que sofreu AVC, uma paciente que faz sessões de quimioterapia e um adolescente com paralisia cerebral. No início, o roteiro parece apenas retratar o cotidiano deste personagem sem maiores surpresas, mas aos poucos, revela um pouco mais deste protagonista de poucas palavras e de personalidade mais interessante do que podemos supor. No início, sua vida pessoal parece totalmente preenchida pelos pacientes, ao ponto dele mencioná-los como se fossem pessoas de sua família (esposa, irmão...), havendo o peso de que ainda que procure manter distanciamento dos pacientes, ele é a pessoa mais confiável por perto. Esta relação dos pacientes com o enfermeiro é um dos pontos mais interessantes do filme, já que cada personagem irá desenvolver uma cumplicidade única com ele (e o caso mais notável é o arquiteto vivido por Michael Cristofer, que está excelente como um sujeito que revela mais a David do que aos seus próprios parentes). No entanto, este envolvimento por vezes tem um preço alto. Curiosamente é nesta afeição que David retoma alguns pontos de sua própria vida que ainda precisam ser tratados. A partir de determinado ponto, o roteiro passa a costurar de forma mais evidente a história do protagonista com as suas ações e a atuação de Tim Roth se torna ainda mais impressionante. Famoso por suas parcerias com Quentin Tarantino, Roth nunca se tornou um grande astro de Hollywood, mas é de um talento ímpar que já fez todo tipo de personagem em mais de cem trabalhos no cinema e na televisão. Aqui ele faz muito realizando o mínimo em cena, sem dúvida um grande desafio - vale lembrar que Roth foi indicado ao Independent Spirit de melhor ator pelo papel. Muitos percebem no cinema de Michel Franco semelhanças com o estilo do austríaco Michael Haneke (de Amor/2012, A Fita Branca/2009, A Professora de Piano/2001 e outros filmes árduos), talvez por isso, Franco pegue elementos do universo Hanekiano e o traduz através de um filtro bastante pessoal. Duro e sensivelmente bem construído (tanto que ao ser exibido no Festival de Cannes2015, o filme levou para casa o prêmio de Melhor Roteiro), Chronic é uma verdadeira pérola feita de chumbo.   

Chronic (México / França - 2015) de Michel Franco com Tim Roth, Michael Cristofer, Elizabeth Tulloch, Maribeth Monroe, Tate Ellington, Robin Bartlett e Joe Santos. ☻☻☻☻

PL►Y: Psychokinesis

Meu Pai Herói: poderes contra a opressão. 

Sang-Ho Yeon provou seu valor com o sucesso estrondoso de Invasão Zumbi (2016), um filme de terror que tinha muito de crítica social, especialmente ao lado mais obscuro da humanidade (que conseguia ser pior do que os mortos-vivos em várias cenas). O filme era de uma eficiência incrível e conseguia se destacar num  subgênero um tanto desgastado. O longa funciona tão bem que até sua cena final fazia o público chorar antes de sair do cinema. Depois de se tornar o filme mais visto na Coreia-do-Sul em 2016, Invasão Zumbi foi exibido nos cinemas brasileiros (e entrou em cartaz na Netflix). Diante do sucesso, a Netflix bancou o novo projeto do cineasta: Psychokinesis. O novo filme também traz uma visão crítica sobre a humanidade, afinal, quando o filme começa, nos deparamos com uma verdadeira guerra entre um grupo de pequenos comerciantes e uma grande corporação que pretende despejar todos e construir um complexo urbano modernoso naquela localidade. Nesta guerra morre uma senhora devido à brutalidade da polícia, a mãe da jovem Roo-mi (Eun-Kyung Shim). A tragédia faz com que Roo-mi e seus amigos comerciantes locais ganhem  atenção da mídia e algum tempo para encontrar uma solução, mas, todos tem plena consciência de que em breve serão todos mandados embora dali. Para ajudar, aparece o pai de Roo-mi (Seung-ryung Ryu), um segurança de banco que acaba de descobrir que tem super-poderes - que se manifestam quando ele está com raiva. O homem consegue mover pessoas e objetos somente com o poder da mente e, diante de toda ameaça que sua filha sofre ao lado de outros oprimidos, fica fácil perceber de que lado ele ficará no embate que sustenta o filme. Os efeitos especiais são bem feitos e o filme tem momentos interessantes enquanto o personagem aprende a lidar com seus poderes, no entanto, são poucas as cenas em que os poderes aparecem e entre elas existe um melodrama interminável da relação do pai com a filha (o que não quer dizer que os dois sejam interessantes ou bem desenvolvidos durante a história) e dos arranjos de um bando de vilões caricatos (e por vezes até o nosso herói perde a linha, como aquela cena ridícula em que ele destrói um cofre movimentando braços, quadris e... língua). Psychokinesis ambiciona ser um filme de origem de um super herói sul-coreano e ressalta o interesse do cineasta Sang-Ho Yeon em criar filmes sobre temáticas comuns no cinema hollywoodiano. A diferença é que em Invasão Zumbi tudo estava em seu devido lugar, mas aqui ele erra a mão no dramalhão. O filme acerta nos efeitos especiais e nas cenas de ação, mas, infelizmente, erra em todo o resto. 

Psychokinesis (Yeom-Lyeok / Coreia do Sul - 2018) de Sang-Ho Yeon com Seung-ryung Ryu, Eun-Kyung Shim, Jung-min Park e Yu-mi Jung. ☻☻

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Na Tela: Missão Impossível - Efeito Fallout

Henry, Tom e Rebecca: o valor de uma câmera no lugar exato. 

Em 1996 eu terminava o Segundo Grau (rebatizado de Ensino Médio) e nas férias de julho fui ver o primeiro Missão: Impossível com um amigo. Eu nem imaginava que aquele seria o último filme memorável de Brian de Palma - feito por encomenda para Tom Cruise. A versão cinematográfica da famosa série de TV ficaria entre as três maiores bilheterias daquele ano e dePalma moldaria um estilo que se intensificaria com o tempo, afinal, o sucesso dos M:I depende do fato das cenas de ação do agente Ethan Hunt (Cruise) surpreenderem o público -  mesmo que o roteiro em si não seja muito mais do que a linha fina que costura as cenas. Eu nem imaginava que vinte e dois anos depois (meu Deus, como o tempo passa rápido...) eu voltaria ao cinema para ver mais uma aventura de Hunt, na verdade, a sexta. Devo dizer que não curti muito o filme anterior, M:I Nação Secreta (2015), mas ele fez sucesso suficiente para que a franquia ganhasse fôlego. Eu também não estava animado com a direção ser novamente de Christopher McQuarrie, mas... ouvi tantos elogios sobre o filme que resolvi assistir. Ainda bem que o longa valeu cada centavo do ingresso! Efeito Fallout é uma sequência direta do filme anterior e faz justamente o que eu sentia faltar no anterior: inovar. McQuarrie aqui sabe exatamente onde colocar a câmera, deixado cada cena mais interessante e arrojada possível, de um furgão que cai na água, um helicóptero que despenca ou uma perseguição de motos, o oscarizado roteirista de Os Supeitos (1993) finalmente demonstra que sabe prender nossa atenção através das imagens em movimento. Aqui também ele se atentou para outro detalhe que torna os M:I mais interessantes: a relação entre os personagens. Esta certo que eles não vão ser personagens inesquecíveis de alma shakesperiana, mas quanto mais entrosados eles estão, mais você torce para que tudo funcione. É assim que Luther (Ving Rhames) se garante na franquia até hoje e  Benji (Simon Pegg) garante o alívio cômico desde o nefasto segundo filme. Quem também se junta à aventura é o chefe Alan Hunley (Alec Baldwin) e Ilsa Faust (Rebeca Ferguson) que conhecemos na última aventura, além do vilão Solomon Lane (o sempre sinistro Sean Harris). A história gira em torno de uma ameaça nuclear, ou melhor, três ameaças por conta de bombas de plutônio que estão nas mãos de um grupo terrorista denominado Os Apóstolos - para falar a verdade, as bombas foram parar nas mãos deles por conta de uma ação mal sucedida de Hunt e seus parceiros. Obviamente que impedir as explosões não será fácil e, com a credibilidade em baixa, Hunt será acompanhado de perto pelo agente da CIA August Walker (Henry Cavill), famoso por lidar com seus oponentes de forma bastante agressiva. O resto é pura correria com as cenas mais elaboradas que você verá no cinema neste ano. Há momentos realmente espetaculares! Se Cruise não faz nada diferente em cena, ele merece respeito pelo seu empenho na franquia, não só por dispensar dublê nas cenas de ação (e tenho impressão que sei exatamente a cena em que ele se machucou), mas o astro também merece reconhecimento por confiar a McQuarrie o posto de primeiro cineasta a dirigir dois filmes da franquia (e alcançar um ótimo resultado). As novas aquisições do elenco também merecem destaque, Cavill tem aqui sua melhor atuação (que nada lembra o Homem de Aço/2013 dos filmes recentes da DC), o ator está escorregadio, ambíguo e nunca inspira muita confiança. Outro destaque é Vanessa Kirby (a princesa Margaret da série The Crown) que parece saída de um filme noir dos anos 940 - e espero que ela volte nos próximos filmes. O roteiro de  Missão Impossível - Efeito Fallout pode até ser bobo, mas não impede que a ação flua de forma consistente e o transforme em um dos melhores filmes de puro entretenimento do ano. 

Missão Impossível: Efeito Fallout (Mission: Impossible Fallout / EUA - 2018) de Christopher McQuarrie com Tom Cruise, Henry Cavill, Ving Rhames, Rebecca Ferguson, Simon Pegg, Vanessa Kirby, Alec Baldwin, Angela Bassett, Sean Harris, Michelle Monaghan e Wes Bentley.
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PL►Y: Os Fantasmas de Ismael

Marion: assombração encarnada. 

Temos um grupo de senhores conversando sobre um homem que não sabemos direito quem é. Depois nos damos conta de que este homem é jovem (Louis Garrel) e todos suspeitam de que seja um espião. Esta não é a trama principal de Os Fantasmas de Ismael, ela está na verdade quando tudo isso fica de lado e vemos um senhor escrevendo a história de espionagem no computador.  Na verdade ele é um cineasta chamado Ismael (Mathieu Almaric), que prepara seu novo filme - e logo ele é interrompido ao receber uma ligação de seu sogro, que acaba de ter um pesadelo sobre a filha desaparecida. Pesadelo também é algo bastante comum nas noites de Ismael, que, assombrado, costuma utilizar remédios para dormir até o dia amanhecer. Talvez ele ainda seja assombrado pela esposa - que desapareceu muito jovem sem deixar pistas - mesmo mantendo um bom relacionamento com uma astrofísica, Sylvia (Charlotte Gainsbourg). Os casal mora numa casa com vista para o mar, num romance idílico... pelo menos até uma mulher aparecer e se se apresentar como Carlotta (Marion Cotillard), a esposa desaparecida há mais de vinte anos. Não precisa nem dizer que o retorno da mulher e todas as indagações possíveis que ela irá responder transforma a vida dos outros personagens. É justamente na forma como o casal lida com este fantasma encarnado que o filme sustenta a sua primeira hora. Existe uma mistura de romance, tensão, drama, desejo e ressentimentos que funciona bem nas mãos do diretor Arnaud Desplechin, que sabe amparar o ótimo elenco que tem em mãos, em especial Marion que está ótima como a mulher misteriosa que volta no nada e Gainsbourg, que está ótima em uma personagem bem mais leve do que costumamos vê-la. As atrizes trabalham as identidades opostas destas mulheres muito bem e nos fazem entender o que torna o protagonista dividido entre ambas. Não satisfeito em desfiar este relacionamento, Desplechin de vez em quando desvia sua rota para o roteiro que seu protagonista está escrevendo e explora o que há de pessoal naquela história. Entre estes dois pólos o filme se sustenta com certa harmonia, até que um determinado personagem resolve partir e tudo vira uma bagunça. Com cada vértice deste triângulo amoroso seguindo o seu próprio caminho, o filme mergulha em sua segunda hora de duração e se perde. Existe um momento interessante aqui, outro ali, mas nada que se compare ao que vimos na primeira hora do filme. Enquanto o filme dá voltas e apresenta alguns delírios (muito bem filmados, registre-se) a vontade é que ele termine logo antes que você desista de assistir. Os Fantasmas de Ismael foi o filme de abertura do Festival de Cannes no ano passado e seu emaranhado de gêneros e pretensões dividiu opiniões, mas pode ser um programa muito interessante para quem curte narrativas pouco convencionais. 

Os Fantasmas de Ismael (Les Fantome d'Ismaël/França - 2017) de Arnaud Desplechin com Mathieu Almaric, Charlotte Gainsbourg, Marion Cotillard, Louis Garrel,  Alba Rohrwacher, Louis Garrel e László Szabó. ☻☻☻ 

terça-feira, 31 de julho de 2018

N@ Capa: Família Incrível

Os Incríveis 2: família que vale mais de um bilhão. 
Nossa capa do mês de julho foi em comemoração ao lançamento de Os Incríveis 2, uma das sequências mais aguardadas de todos os tempos - tão aguardada que o filme já levou quase dois milhões de pessoas para assisti-lo nas telas brasileiras. Na bilheteria ao redor do mundo, o filme já rompeu a barreira do bilhão de dólares, uma bilheteria mais que respeitável para uma animação, que já é o filme de animação de maior sucesso de bilheteria nos Estados Unidos. Tamanho sucesso credencia os heróis da família Pêra para novas aventuras no cinema (e só esperamos que não demore quatorze anos para que um novo filme seja lançado). No entanto, os vários anos de espera colaborou para que a família formada por Sr. Incrível, Mulher-Elástica, Violeta, Flecha e Zezé só aumentasse o fã-clube (assim como os amigos Gelado e Edna Moda). O sucesso do filme de Brad Bird (que também dirigiu o original) o credencia para a corrida do Oscar que se aproxima (e cujo maior oponente também chegou às  telas neste mês, Ilha dos Cachorros de apelo menor perante o público, mas com uma aura de cult irresistível). O pôster superestilizado que ilustrou o blog durante este mês é inspirado nas ilustrações dos créditos finais da animação e faz parte da campanha de divulgação do filme. 

Quando estreia o terceiro filme?