domingo, 7 de julho de 2024

PL►Y: Aumenta que é Rock'n Roll

Massaro: responsável pela onda Maldita.

A rádio Fluminense foi inaugurada em 1971, mas nunca recebeu muita atenção por conta de sua programação (que passou bastante tempo conhecida por transmitir corrida de cavalos). Dez anos depoisela passou por uma reformulação quase involuntária capitaneada pelo jovem jornalista Luiz Antonio Mello, que tinha a ideia para um programa voltado para o rock. O ritmo estava meio em baixa no dial que se rendia cada vez mais à música pop radiofônica, a ideia de Mello foi aprovada por um dos diretores, só que ao invés de um programa, ele criou uma programação com 24 horas voltada somente pra o Rock'n Roll. Nascia então A Maldita, a Rádio Fluminense FM com sede em Niterói. No entanto, apesar do sucesso crescente de público, algumas regras da rádio acabavam emperrando seu faturamento, o que deixava a empresa quase sempre no vermelho (que ela amargava há tempos). A Rádio fez história, especialmente por sua característica de alavancar novas bandas de rock nacional por tocar suas fitas demo, o que ajudou a divulgar entre o público fã de rock gringo nomes como Legião Urbana, Paralamas do Sucesso, Blitz e Barão Vermelho entre muitas outras. Sua sintonia com o ritmo e o público era tão grande que ajudou até a sugerir quem deveria tocar no Rock in Rio de 1985. As histórias da rádio estão relatadas no livro A Onda Maldita (1992) de Luiz Antonio Mello que celebrava a trajetória da Flu pouco antes de seu término em 1994. Em 2001 a rádio voltou a funcionar na AM, mas durou pouco tempo. A Maldita fez história e obviamente que toda empolgação e nostalgia que desperta pairam em torno do filme dirigido por Tomas Portella que chegou aos cinemas em maio desse ano com base no livro de Mello e um tantinho de ficção. Algumas das histórias mais lendárias da rádio estão presentes no filme que utiliza um tom de comédia para dar conta das desventuras do criador da rádio rock e seus cúmplices na empreitada de alavancar a ideia. Mello é vivido com grande energia por Johnny Massaro que dá conta das contradições do personagem de forma bastante crível. Afinal ele é o sujeito capaz de fazer discursos empolgantes para seu público, mas é incapaz de lidar com multidões e algum tempo em um elevador. O fio condutor do filme é seu romance com a locutora Alice (Marina Provenzzano) que sempre o instiga a sair de sua zona de conforto e, por conta disso, sempre rende alguns desentendimentos. Por vezes este tom de comédia romântica fica meio deslocado, mas a atmosfera de reproduzir o cenário rock nacional dos anos 1980 compensa os tropeços. Entre os destaques estão aqueles momentos em que o filme cede espaço para personagens do rock nacional e até cenas no Rock In Rio original. A colagem de anedotas da rádio soa interessante (embora o roteiro exagere no uso de palavrões que são repetidos exaustivamente em algumas cenas) e deixa claro a estrutura precária com que a rádio funcionava, contando muitas vezes somente com a boa vontade e dedicação dos envolvidos. De certa forma o filme também precisou usar sua criatividade para driblar as limitações do orçamento, utilizando versões  covers de clássicos do rock  internacional (para não inchar o gasto com direitos autorais). Nem preciso dizer que eu era ouvinte fiel da Maldita (inclusive quando ela ressuscitou nas ondas AM) no início de minha adolescência e que chorei quando ela terminou seus trabalhos. Por um tempo imaginei que alguém abraçaria a ideia da rádio e ela continuaria viva. Pelo menos ela sobrevive na memória dos ouvintes que assistem ao filme com o olhar nostálgico e saudoso de um tempo que não volta mais. Em um cenário musical brasileiro em que o rock está tão em baixa, fico imaginando o que uma iniciativa feito  A Maldita faria para os apreciadores do Rock'n Roll nos tempos atuais. Com a audiência dispersa entre a oferta gigante dos Spotifys da vida, seria interessante ver o efeito de um novo Luiz Antonio Mello no cenário musical de hoje. 

Aumenta que é Rock'n Roll (Brasil - 2024) de Tomas Portella com Johnny Massaro, Marina Provenzzano, George Salma, João Vitor Silva, Orã Figueiredo, Felipe Rocha, Flora Diegues, Joana Castro, Felipe Haiut e Charles Fricks. ☻☻☻

domingo, 30 de junho de 2024

HIGH FI✌E: Junho

 Cinco filmes comentados no mês que merecem destaque: 

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PL►Y: Ferrari

Quando o filme “Ferrari“ estreia no Brasil? | CNN Brasil 
Driver: mais um italiano no currículo. 

Em tempos em que existem inúmeras cinebiografias que seguem a mesma fórmula de colagem de momentos importantes de um famoso, existem aqueles que costumam temperar as histórias com elementos imaginários e alegorias para fugir da obviedade. Outros preferem escolher um episódio em particular de seu biografado para condensar sua personalidade e dar conta dos caminhos de sua vida. Michael Mann buscou fazer isso em Ferrari, seu filme sobre o homem por trás da famosa marca de automóveis. O homem no caso é Enzo Ferrari, que se arriscou muito para se tornar o proprietário de uma das marcas mais famosas do mundo. No entanto, o recorte escolhido por Mann se concentra em um tempo em que Enzo ainda não era dono de um império, mas era um sujeito que buscava se firmar no competitivo mercado automobilístico. Em 1957 Enzo (vivido or Adam Driver) demonstra sempre o comprometimento com sua marca, sua busca por estratégias para expandir a marca e a proximidade com seus pilotos de corrida. Aqui lança-se o desafio de vender duzentos carros por ano (quando as vendas ficavam bem abaixo disso). Fazia dez anos em que havia fundado a empresa tendo como sócia a esposa, Luiza (Penélope Cruz) e um ano que os dois amargavam a morte do herdeiro. enquanto Luiza se tornava cada vez mais triste, não apenas pelo luto, mas também pelos relacionamentos extraconjugais do esposo. Enzo organizava cada vez mais a vida ao lado de Lina Lardi (Shailene Woodley), com quem tinha um filho, Piero (Giuseppe Festinese). O roteiro (escrito com base em uma parte do livro "Enzo Ferrari: The Man, The Cars, The Races, The Machine") se concentra então nos negócios e neste triângulo amoroso vivido pelo protagonista. Adam Driver está convincente no papel de Enzo, parece realmente ser mais velho do que realmente é, mas é Penélope Cruz que rouba a cena com os rompantes de Luiza. Quando ela está em cena o filme cresce consideravelmente, mas a base do relacionamento dos personagens é tão repetitiva quanto limitada para que possam entregar um pouco mais em cena. Quem sai perdendo é Shailene Woodley, que tem pouco para fazer em cena. Existe algum destaque em cena para os pilotos da Ferrari, que lutavam por ganhar uma corrida perante os carros que ainda precisavam ser melhorados. Entre Patrick Dempsey e Jack O'Connell, está o brasileiro Gabriel Leone como o piloto recém chegado Alfonso de Portago, que recebe status de celebridade enquanto pretende vencer uma corrida. No início parece que Ferrari tem tudo no lugar para funcionar, mas depois de um acidente perto do final da sessão, tive a impressão de que e estrutura do roteiro está desconjuntada - já que termina dando a impressão que o filme termina no meio. Se os desdobramentos do acidente fossem apresentados à plateia, considero que o resultado seria muito mais envolvente do que duas horas que demoram para engrenar. O resultado é que apesar da produção caprichada, o filme foi praticamente ignorado nas premiações. A mistura de negócios e dilemas familiares recebem um desfecho com baixa voltagem que torna o filme pouco memorável. 

Ferrari (EUA - Reino Unido - Itália / 2023) de Michael Mann com Adam Driver, Penelope Cruz, Shailene Woodley, Gabriel Leone, Patrick Dempseu, Jack O'Connell, Giuseppe Festinesse, Derek Hill e Giuseppe Bonifati ☻☻☻

segunda-feira, 24 de junho de 2024

Pódio: Christina Ricci

Bronze: A Irmã Maldosa

3º O Oposto do Sexo (1998) Christina Ricci começou a carreira no cinema aos dez anos de idade e até hoje considera que foi uma boa ideia ter começado tão cedo, já que estava entediada com a vida em casa e na escola. Quando se tornou adolescente, abraçou de vez o gosto por personagens incomuns, tanto que ao viver Dedee Truit neste clássico indie de Don Ross, ela chutou de vez o politicamente correto ao ser uma adolescente grávida que seduz e engana o namorado do irmão (Martin Donovan) para que ele assuma a criança. Pela confusão armada, Ricci foi indicada ao Globo de Ouro, ao Independent Spirit e premiada pelo National Board of Review. 

Prata: A Amiga Perigosa. 
2º Yellowjackets (2021-) O trabalho mais atual de Christina merece a medalha de prata por surpreender a cada episódio da série lançada pela Showtime e que atualmente está em cartaz na Netflix (e a segunda temporada está fresquinha no catálogo do streaming). Na pele da enfermeira Misty ela vive uma das sobreviventes do acidente aéreo que sofreram um bocado enquanto estavam perdidas em uma floresta. No entanto o jeito de boa moça esconde uma pessoa capaz de fazer coisas terríveis. A atriz tomou gosto por viver personagens com um tempero sombrio, mas nenhuma delas se disfarçava como uma ovelha inofensiva aos olhos dos demais. Pelo trabalho impecável foi indicada ao Emmy, Globo de Ouro e Critics Choice. 
 
Ouro: A Menina Mórbida 
1º A Família Adams (1991/1993) Se a pequena estreante já tinha chamado atenção como a filha caçula de Cher em Minha Mãe é uma Sereia (1990), no ano seguinte ela já recebia o papel que a deixaria marcada para sempre. Na pele de Wednesday (ou Wandinha Addams), Ricci demonstrou um pendor cool que ninguém imaginava. O rostinho fofo sobrevivia à caracterização sombria e dava um contorno perfeito para as ações da herdeira de Gomez e Mortícia. Christina repetiu o papel na sequência de 1993 e seu personagem recebeu ainda mais destaque. Imortalizando a personagem no cinema, Ricci ainda fez uma participação especial na série Wandinha (2022) dedicada à personagem, agora vivida adolescente por Jenna Ortega.

domingo, 23 de junho de 2024

PL►Y: Buffalo 66

Christina e Vincent: amor ou síndrome de Estocolmo?
 
Conhecido nos dias de hoje como um sujeito difícil de lidar, Vincent Gallo foi um dos nomes mais celebrados do cinema independente quando lançou seu primeiro filme na direção, o nervoso Buffalo 66. Até então, o ator havia sido visto em filmes em um papel pequeno em Os Bons Companheiros (1990) de Martin Scorsese, recebeu algum destaque como o filho bastardo de  A Casa dos Espíritos (1993) de Billie August e chamou atenção em Os Chefões (1998) de Abel Ferrara. Gallo demonstrou que queria mais quando escreveu e dirigiu seu primeiro filme contando com artistas conhecidos no elenco, pena que sua carreira na direção degringolou no lançamento seguinte, o polêmico Brown Bunny/2003 (que foi nomeado pelo renomado crítico Roger Ebert como o pior filme já feito). Vendo como Vincent se tornou uma pessoa complicada nos últimos tempos é impossível não ver seu personagem em Buffalo 66 sob uma perspectiva diferente da época de seu lançamento. Aqui ele vive Billy Brown, um rapaz que acaba de sair da prisão. Durante o tempo em que esteve preso, ele inventou para os pais que estava morando longe, mas que a vida seguia bem com seu emprego e com uma esposa apaixonada por ele. Ao sair da prisão ele se vê forçado a sustentar suas mentiras, para isso ele sequestra Layla (Christina Ricci em seu primeiro papel como adulta) para fingir que é sua esposa. Layla demonstra bastante dedicação para sustentar toda a farsa de Billy perante os pais dele (vividos por Ben Gazarra e Anjelica Huston), mas mesmo depois da visita aos pais, os dois continuam ao lado um do outro. Se Billy não fosse um dos sujeitos mais insuportáveis da história do cinema, você poderia até torcer para que os dois ficassem juntos, mas aqui o efeito é o contrário - e torci o tempo inteiro para os dois se separarem de vez. Só que perante o comportamento agressivo de Billy, Layla parece desenvolver a síndrome de Estocolmo e chega a dizer que ele é o homem mais doce que ela já conheceu (e o mais bonito também). Fico imaginando o que a coitada já passou na vida (e Ricci imprime à personagem uma doçura impressionante, embora digam que ela e Gallo tenham se estranhado durante a após as gravações. Ela não fala com ele até hoje). Cabe ao espectador perceber que Billy Brown é um sujeito emocionalmente atrofiado e tão inseguro de si que resta apenas agredir quem considera mais fraco do que ele. As cenas dele com os pais e com velhos conhecidos deixam claro o quanto ele é inseguro e não sabe para onde ir, embora tenha em mente uma vingança que servirá de ponto de mudança para o personagem no desfecho. Como diretor, Gallo deixa seus atores a vontade enquanto reproduz uma estética de final dos anos 1970 e uma atmosfera da ressaca dos sonhos que ficaram para trás. Gosto da forma como ele insere as lembranças ou pensamentos dos personagens no meio da narrativa e também a forma como ilumina seus personagens em cenas que fogem do que esperamos deles (o pai grosseirão cantando no quarto ou Layla sapateando na pista de boliche), também é interessante saber que o diretor usou como locação para casa de Billy a mesma casa em que cresceu com seus pais. Embora flerte com filmes criminais e dramas familiares, Buffalo 66 revela em seu final que é uma comédia romântica com alma hardcore. Quem diria. O filme está disponível na MUBI. 
 
Buffalo 66 (EUA / Canadá - 1998) de Vincent Gallo com Vincent Gallo, Christina Ricci, Anjelica Huston, Ben Gazarra, Mickey Rourke, Jan Michael Vincent e Rosanna Arquette.  ☻☻☻

PL►Y: Está tudo bem comigo?

Dakota: uma amiga em crise.

Lucy (Dakota Johnson) e Jane (Sonoya Mizuno) são melhores amigas faz tempo. As duas estudaram juntas e desde então não se desgrudam. Mas enquanto Jane tem um relacionamento sério com Danny (Jermaine Flower), as emoções de Lucy com Ben (Whitmer Thomas) estão confusas entre o namoro e a amizade. A vida amorosa de ambas funciona como uma espécie de analogia sobre as duas, enquanto uma é segura de si (e por vezes transborda suas intenções a quem está por perto), a outra está sempre hesitante em dar uma oportunidade a si mesma. No entanto, existe algo de confortável nesses polos opostos em que as amigas estão, já que uma acaba dando conforto à outra. O problema é quando Jane recebe a proposta de ir morar em Londres à trabalho por conta de uma promoção e ficar por lá por tempo indeterminado. Se de início Lucy fica feliz pelo reconhecimento conquistado pela amiga, a coisa complica quando ela se dá conta de que sem a companhia da melhor amiga, ela não terá mais ninguém por perto. Acho que se perguntarem para Lucy o que está acontecendo, ela não saberá explicar, mas quem já teve uma pessoa tão próxima capaz de oferecer suporte emocional quando se precisa, esta pessoa irá entender completamente o que se passa. O problema é que Jane não é apenas um suporte, mas uma verdadeira muleta para as emoções mais escondidas de sua amiga. O anúncio do distanciamento faz com que Lucy comece a questionar uma série de coisas em sua vida, isso inclui a sua profissão e também a forma como vivencia seus relacionamentos amorosos. Quando Está Tudo Bem Comigo? (que está disponível no Max) se concentra nestes pontos complicados, o filme funciona muito bem, especialmente no seu início. No entanto, quando resolve abordar a forma como a personagem começa a enfrentar sua homossexualidade o filme decepciona (o affair com a colega de trabalho é uma das coisas mais insossas que já vi em um filme) e fica pelo meio do caminho. O roteiro de Lauren Pomerantz acerta ao apresentar como uma amizade é importante em nossas vidas e o quanto imaginar sua ausência pode ser algo desesperador, acerta quando as duas amigas (com a distância iminente) começam a lavar roupa suja e trazem à tona segredos que não imaginavam, no entanto, quando inventa aprofundar a sexualidade de Lucy o filme demora para se ajeitar. Oque falta de energia na crise romântica de Lucy, sobra em sinceridade nas  atuações de Dakota Johnson e Sonoya Mizuno na pele de duas amigas que deixam o desfecho ainda mais autêntico.  

Está Tudo Bem Comigo (Am I Ok? / EUA - 2022) de Tig Notaro e Stephanye Allyne com Dakota Johnson, Sonoya Mizuno, Kiersey Klemons, Molly Gordon, Jermaine Flower e Whitmer Thomas. ☻☻

sábado, 22 de junho de 2024

PL►Y: Todos Menos Você

Glenn e Sydney: entre os mais cobiçados de Hollywood. 

Recentemente a Hollywood Reporter listou os dez nomes mais cobiçados pelos produtores de Hollywood nos dias de hoje, estão lá Austin Butler, Timothée Chalamet, Jacob Elordi, Paul Mescal, Jenna Ortega, Glen Powell, Florence Pugh, Sydney Sweeney, Anya Taylor Joy e Zendaya. Embora eu veja grandes diferenças nas carreiras de cada um (e sinta a ausência de Barry Keoghan que está em cinco produções que devem estrear em breve) é sempre interessante perceber o que colocou cada um deles na lista. No alto dos créditos de Todos Menos Você (que está no catálogo da Max) temos uma amostra do poder de dois deles, Glenn Powell e Sydney Sweeney. Os dois estrelam esta comédia romântica que se tornou a mais falada dos últimos tempos e que demonstra que ambos sabem muito bem quais os botões devem apertar para cair nas graças do público. Reza a lenda que o filme seria lançado diretamente no streaming, mas por insistência de ambos (que enxergavam potencial na trama) estreou primeiro nos cinema. O filme que custou 25 milhões de dólares, rendeu mais de duzentos milhões nos cinemas mundiais e elevou as estrelinhas de ambos entre os produtores. O filme segue direitinho a cartilha das comédias românticas, mas tem a vantagem de temperar seus protagonistas com uma esperteza que falta em muitos filmes do gênero. Bea (Sweeney) e Ben (Powell) se conhecem em uma cafeteria e acabam passando dia e noite juntos, mas logo um mal entendido desmanchará todas as ilusões de romance entre os dois. Tempos depois, eles se reencontram por conta do namoro da irmã de Bea, Halle (Hadley Robinson) com a melhor amiga de Ben, Claudia (Alexandra Shipp) e a convivência entre os dois só se torna mais frequente quando o relacionamento entre as duas se torna cada vez mais sério e... o casamento é inevitável. Bea e Ben estarão hospedados em um hotel na Austrália para a aguardada festa, mas a tensão entre os dois não é  apenas perceptível, como também se torna prejudicial, digamos, para a segurança de todos. Se existe uma campanha iminente para que os dois resolvam a pendenga e fiquem juntos, existem também antigos pretendentes de ambos que motivam que Bea e Ben finjam estar acertando os ponteiros. Todo mundo sabe onde o relacionamento de mentirinha entre os dois vai dar, mas a graça está na desenvoltura de Sydney e Glenn nas situações que o roteiro reserva para ambos. A ideia é bobinha como de qualquer comédia romântica, mas funciona por conta dos próprios personagens brincarem com os clichês envolvidos em sua premissa (além de ter aqueles cenários perfeitos para um romance). O melhor é ver Glenn Powell (que estreou no cinema com quinze anos em 2003 com Pequenos Espiões 3 - e fez de tudo desde então) ganhando fama finalmente e Sydney aproveitando ao máximo as pausas nas gravações da série Euphoria (2019-2022) para alçar voos diferentes e mais altos (vocês já assistiram Reality? ela está perfeita). Todos Menos Você não revoluciona a comédia romântica e nem precisa, afinal, sabe que que conseguir fazer a plateia rir enquanto brinca com a busca pelo par perfeito já é o suficiente. 

Todos Menos Você (Anyone but You / EUA - 2023) de Will Gluck com Sydney Sweeney, Glenn Powell, Alexandra Shipp, Hadley Robinson, Rachel Griffiths, Dermot Mullroney, Bryan Brown, Darren Barnet e Charlee Fraser. ☻☻☻

PL►Y: A Cor Púrpura

Danielle e Fantasia: quem canta os males espanta?

Ainda acho difícil comprar a ideia de um remake do clássico A Cor Púrpura (1985). Ainda que o filme seja famoso por conta de suas onze indicações ao Oscar e nenhuma estatueta, o longa dirigido por Steven Spielberg está entre os melhores do cineasta. Se for assistido hoje, provavelmente a emoção acarretada pelo permanecerá a mesma - muito por conta da atuação irrepreensível de Whoopi Goldberg à frente do elenco. Na carência de ideias que assola Hollywood atualmente, inventaram que era uma boa ideia refazer o filme com uma nova roupagem, no caso, do musical levado aos palcos da Broadway a partir de 2005. O filme de Spielberg já trazia bastante musicalidade para a obra de Alice Walker, mas a peça concebida por Brenda Russell, Allee Willis e Stephen Bray, explorava ainda mais a relação dos personagens com a música. Musicais produzidos para o teatro costumam funcionar dentro de uma lógica bastante própria e sua transposição para o cinema já costuma sofrer, aqui a coisa complica ainda mais devido à comparação inevitável com um filme adorado por uma legião fãs por décadas. Colabora muito para o estranhamento ver a dura vida das personagens, mulheres pretas no início do século XX no sul dos Estados Unidos (e toda sua sobreposição de dramas e desafios acarretada porisso) com músicas e cantorias.  Existe sim uma proposta clara de empoderamento, mas que soa um tanto deslocada perante a história de Celie, uma menina que desde cedo sofreu um bocado nas mãos do pai. Ela teve dois filhos que foram dados para adoção, para depois ser entregue em casamento com Senhor (Colman Domingo), que estava interessado na irmã de Celie, Nettie (Halle Bailey). Sem perspectivas de uma vida melhor, Celie sofre muito com os insultos e agressões do marido e a coisa piora mais ainda quando Nettie vai para longe. O tempo passa e a realidade de Celie permanece oprimida, recebendo um pouco mais de luminosidade com chegada de Sofia (Danielle Brooks), esposa de seu enteado, e a cantora Shug Avery (Taraji P. Henson), a amante de seu esposo. Não há o que reclamar do elenco, que apresenta atuações sólidas com o material que tem em mãos. O problema é que no formato de musical, o desenvolvimento dos personagens e seuas relações parecem podadas e apressadas. Aqui não existe sugestão de algo mais entre Celie e Shug, a cena da reconciliação entre Shug e o pai aparece do nada e até o arco de Sofia parece mal trabalhado (a sorte é que Danielle Brooks ganha nosso coração desde a primeira cena e nossa torcida eleva ainda mais o trabalho da atriz que foi indicada ao Oscar de coadjuvante). Lembro que diante do original, aquela cena em que Celie sai do domínio do marido abusivo era de tirar o fôlego, aqui, ela acaba se dissolvendo nas cenas seguintes  com mais músicas e cantorias. Musical não é meu gênero favorito, mas sei que já fizeram musicais com temáticas bastante complicadas e sensíveis, mas acho que nesta versão de A Cor Púrpura o resultado é meio desconjuntado, impossibilitando que a os temas abordados tenham a profundidade que merecem.

A Cor Púrpura (EUA - 2023) de Blitz Bazawule com Fantasia Barrino, Taraji P. Henson, Danielle Brooks, Colman Domingo, Halle Bailey, Phylicia Pearl Mpassi, Corey Hawkins, Gabriella Wilson, Elizabeth Marvel, Ciara e Louis Gossett Jr. ☻☻

PL►Y: Missão Impossível - Acerto de Contas / Parte 1

Hayley e Tom: A hora da vertigem.

Depois de fazer quase um bilhão e meio nas bilheterias com Top Gun: Maverick (2022), o astro Tom Cruise ficou ainda mais feliz de ver seu projeto pessoal ser indicado a cinco categorias no Oscar, transcendendo as categorias técnicas (som, montagem e efeitos especiais) e concorrendo também nas categorias de roteiro adaptado (por ser uma continuação do sucesso de 1983) e melhor filme. Além de toda essa aclamação, Cruise foi celebrado por fazer as pessoas perceberem o quanto é diferente assistir um filme na telona com o sonzão do cinema. Tudo isso fez o ator/produtor ficar mais do que otimista com o novo episódio da franquia Missão Impossível que chegou aos cinemas no ano passado, mas que surpreendeu ao decepcionar nas bilheterias. Com orçamento de 291 milhões e rendendo 567 milhões, o filme gerou um prejuízo que deixa todo mundo apreensivo com a Parte 2 que deverá chegar às telas no ano que vem. Sabemos que bilheteria não mede qualidade de filme algum, mas é interessante pensar por que um filme com o orçamento tão inchado (que deve render pelo menos três vezes o seu orçamento para se pagar, render algo aos exibidores e ainda gerar lucro para o estúdio) de um franquia tão famosa tenha naufragado perante os fãs. Recentemente os candidatos a blockbusters de Hollywood sofrem com bilheterias abaixo das esperadas e geram reflexões sobre o que está acontecendo com o público. Há quem acredite que se fossem lançados antes da pandemia (período em que as pessoas se habituaram ainda mais a verem filmes em casa), as grandes  produções que floparam teriam uma arrecadação robusta nas salas de exibição. Será? Colocando em perspectiva o sucesso dos dois últimos filmes de Tom Cruise, não sei se a lógica é tão simples. Se lembro que Missão Impossível: Efeito Fallout (2018) está no pódio dos meus filmes favoritos da franquia, e considero que gerou expectativa para o longa seguinte, Acerto de Contas - Parte 1 pode ter pago o preço de ser menos empolgante. Tudo que o anterior tinha de inovador é deixado de lado para repetir uma série de situações que eu tenho a impressão de já ter visto anteriormente na própria franquia, a começar pela premissa que coloca o agente Ethan Hunt (Tom Cruise) atrás de algo que todo mundo quer (uma chave que é dividida em duas partes em formato de cruz que ninguém sabe para que serve, exceto o espectador). Hunt conta com a ajuda de seus parceiros Benji (Simon Pegg), Luther (Ving Rhames) e Ilsa (Rebecca Ferguson) para dar conta de encontrar as duas partes e tirar um desafeto do passado, Gabriel (Esai Morales) do páreo. No entanto, uma ladra (Hayley Atwell) cruza o caminho da missão e torna tudo mais complicado. Este é o ponto de partida para o filme investir em cenas de ação que nos fazem duvidar das leis da física, mas que se esticam mais do que deveriam, deixando o filme com quase três horas de duração e a pergunta se a trama (simples) precisava ser dividida em duas partes. Precisar, não precisava... mas Cruise e Christopher McQuarrie ficaram animados com a ideia de fazer o impossível diante da câmera mais uma vez. Porém, se paira um certo dejá vù na maior parte do tempo, a sequência final no trem descontrolado é de tirar o fôlego de tão vertiginosa, o que deixa um saldo positivo na produção. Acho interessante que McQuarrie aos poucos deu à franquia cinematográfica um formato mais integrado entre os filmes, mas tive a sensação de que a coisa começou a evidenciar as repetições de sua fórmula. Sobre as novidades no elenco, Hayley Atwell e Pom Klementieff demonstram ser aquisições interessantes para o elenco, enquanto Morales não consegue fazer milagres com um vilão que tem sua crueldade sempre ressaltada, mas que não recebe desenvolvimento algum. Sem nuances ou complexidades, Gabriel se torna um dos pontos mais fracos do filme e, por mais que possam dizer que o vilão do filme é outro, um ser de carne e osso para fazer sombra à astúcia de Ethan Hunt faz falta.

Missão Impossível - Acerto de Contas / Parte 1 (Mission Impossible: Dead Rekoning Part One / EUA - 2023) de Christopher McQuarrie com Tom Cruise, Rebeca Ferguson, Hayley Atwell, Ving Rhames, Simon Pegg, Esai Morales, Pom Klementieff, Henry Czerny, Vanessa Kirby, Shea Whigham e Cary Elwes. ☻☻☻